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A cada vez menos prestigiada nota de 100 pesos

Ariel Palacios

quinta-feira 26/08/10

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Nota de 100 pesos cada vez vale menos. E o governo não pensa emitir uma nota com valor numérico maior, já que nega a escalada inflacionária. Na cédula – que antes comprava muito e agora pouco – o general e presidente Julio Argentino Roca (1843-1914).

blog1dedo2bA efígie de Julio A. Roca, general e presidente argentino do século dezenove e início da vigésima centúria, está desprestigiada, embora decore as notas de 100 pesos, as de maior numeração em circulação no país há duas décadas. Apesar disso, estas cédulas possuem um poder de compra cada vez menor por causa da escalda inflacionária que assola o país. Segundo o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, ao longo da última meia década as notas de 100 pesos sofreram uma desvalorização de mais de 50%. Mas, embora exista a necessidade de notas com maiores números, o governo da presidente Cristina Kirchner – que nega a existência da escalada da inflação – rejeita a ideia de emitir cédulas de 200 ou 500 pesos.

Em 2005 – antes do início da escalada inflacionária – as notas de 100 pesos constituíam 35% do total de notas em circulação na Argentina. Atualmente estas cédulas representam 46% do total do papel-moeda, fato que indica que estas notas estão sendo cada vez mais requisitadas. Cada vez mais o governo emite maior volume de notas de 100 pesos e menos notas de 20 e 50.

Susana Andrada, presidente da Centro de Educação de Consumidores, considera que o Banco Central está tentando evitar a emissão de uma nova nota. Segundo os especialistas, isso implicaria em admitir que o valor da maior nota existente não é suficiente para a maioria das compras realizadas pelos argentinos, e portanto, teria que confessar que a inflação “real” é maior que a “oficial”.

O economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, afirma que desde a crise de 2001 até junho deste ano a Argentina teve uma inflação acumulada real de 244%. Por esse motivo, afirma, o governo “pelo menos poderia emitir uma nota de 200 pesos”. Andrada, defensora dos consumidores, sustenta que a nota de 100 pesos que no ano 2008 um argentino gastava em três dias, “atualmente a gasta em 24 horas”.

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A moeda de 1 peso, a última à direita, não vale para quase nada. Logo, as colegas que estão à sua esquerda…

blog1dedo2bAs moedas de um peso também estão com sua utilidade comprometida. Cada vez mais, sozinhas, não compram ou pagam nada. Atualmente, com um peso uma pessoa pode pagar uma passagem de trem do bairro de Liniers, na fronteira da cidade de Buenos Aires até a estação de Once, no centro da capital. Além disso, o Estado conferiu em um quiosque na estação de trem de Retiro que uma moeda de um peso apenas pode comprar pequenos doces e unidades de balas e chicletes.

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Quem quer ser um milionário? O general José de San Martín, em sua versão ‘senior’, na desprestigiada nota de 1 milhão de pesos, emitida no final da última ditadura militar (1976-83). Na época, estas notas foram vendidas nos EUA por um empresário que fez a seguinte publicidade: “Quer ser um milionário? Compre esta nota de 1 milhão de pesos por US$ 10,00! Enviaremos a nota em uma fantástica moldura para que impressione os amigos!”. E falando em “Quem quer ser um milionário”, o irônico “Who wants to be a millionaire”, de Cole Porter. Nesta versão, com Frank Sinatra, no filme do qual também participa Louis Armstrong (o filme é o “High Society”). O link, aqui.

 blog1vinheta58 ‘OFICIAL’ E ‘REAL’ - O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) – organismo sob controvertida intervenção federal há mais de três anos – anunciou que a inflação de julho foi de 0,8%. Na contra-mão, economistas independentes, sindicatos não-alinhados com o governo e associações de defesa dos consumidores, afirmam que a administração Kirchner “maquia” o índice e sustentam que a inflação “real” de julho teria sido de 1,7 a 2%.

Segundo a consultoria Estudio Bein a inflação acumulada nos primeiros sete meses deste ano é de 13,5%. A consultoria Ecolatina calcula a alta em 15,6%. Mas, de acordo com os números do governo anunciados há pouco mais de uma semana, a inflação acumulada desde janeiro seria de 6,7%

Desta forma, a inflação registrada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, ultrapassa as estimativas feitas no Orçamento Nacional de 2010, no qual calculou uma alta de 6,1%.

Os economistas independentes afirmam que a inflação neste ano será superior a 28%.

Mas, na população, a percepção da inflação é mais dramática que a calculada pelos economistas críticos do governo. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Investigação em Finanças da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos esperam uma inflação acumulada de 32,5% para os próximos doze meses.

Enquanto diversos sindicatos conseguirm altas salariais que até quadruplicam a proporção de inflação estimada pelo governo (por via das dúvidas, negociaram nas últimas três semanas altas salariais de até 30%), o discurso oficial da cúpula, isto é, Confederação Geral do Trabalho (CGT) é o de que a inflação argentina é “mínima”.

Segundo Hugo Moyano, secretário-geral da CGT e aliado da presidente Cristina, a atual inflação “está controlada” e “não é prejudicial”.

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Cidadão alemão usa notas com valor implodido pela hiper-inflação dos anos 20 como papel de parede. A foto é do acervo do Bundesarchiv.

blog1dedo2bCUMPRIMENTAM, MAS NÃO COMPRAM - O jornaleiro Juan Carlos Brescia, 60 anos, disse ao Estado que “ri” quando vê os números do governo. “Esses números estão longe da realidade dos trabalhadores”, sustenta, enquanto arruma as revistas em sua banca. “Muitos clientes passam pela frente da banca e dizem ‘oi!’ mas não compram nada por causa da alta de preços”.

Brescia afirma que o aumento de preços e a consequente perda do poder aquisitivo de seus clientes na Recoleta, um bairro de classe média alta e classe alta, provocou uma perda de 50% de suas vendas.

Segundo a Ecolatina, a inflação de 2010 será a maior registrada desde a desvalorização do peso, em 2002, ano em que o índice foi de 40%.

A carne bovina registrou um aumento de 60% no preço desde janeiro. O pão subiu 10% no mesmo período, enquanto que os combustíveis, desde o início deste ano, registraram uma alta de 28% a 40%, dependendo do produto. Neste último caso, na semana passada o governo Kirchner anunciou que aplicará a “Lei de Abastecimento”, de 1974, para punir empresas que aumentem o preço dos combustíveis.

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Assustado com a inflação, Brescia tem um consolo: “os clientes não compram mais como antes… mas pelo menos passam na frente da banca e dizem ‘oi!’ “

blog1dedo2x SENSAÇÃO DE POBREZA – Uma pesquisa do Centro de Economia Regional e Experimental (Cerx) indicou que 72,7% dos argentinos sentem-se “pobres”, já que afirmam que o volume de dinheiro que ganham mensalmente não é suficiente para chegar no fim do mês. A proporção de pessoas que sentem “pobreza subjetiva” – segundo a denominação aplicada pela diretora da Cerx, Victoria Giarrizzo – era de 63,3% no ano passado. Os analistas da consultoria afirmam que por trás desta sensação de pobreza está a crescente inflação.

QUEIJO, OBJETO DE COBIÇA: Neste link, do jornal Perfil, detalhes sobre a cobiça que os cada vez mais caros lácteos estão despertando no nicho profissional dos ladrões. Aqui.

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blog1vinheta67 FANTASMA DA INFLAÇÃO ASSOMBRA ARGENTINOS HÁ QUATRO DÉCADAS

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General e ditador Juan Carlos “La Morsa” Onganía começou a moda de cortar zeros. De lá para cá 20 presidentes e 43 ministros da economia tentaram combater espiral inflacionária. Charge do irônico Landrú, cartunista que despertou a ira do militar.

 

blog1mao2bOs economistas ressaltam que entre 1890, quando foi instituído o “peso nacional”, até o “peso lei” do final dos anos 60, a Argentina teve estabilidade financeira. Mas, em 1969 o então presidente e ditador general Juan Carlos Onganía decretou a primeira lei que eliminou zeros das notas de pesos, com o intuito de dissimular a escalada inflacionária. De lá para cá, as notas argentinas perderam treze zeros.

Nestes últimos 41 anos o país foi assolado de forma persistente pelo fantasma da inflação, contra o qual tentaram lutar, com escassos resultados, os 20 presidentes que passaram pela Casa Rosada – o palácio presidencial – e os 43 ministros da Economia que ocuparam a pasta.

Em 1989 a Argentina teve sua primeira hiperinflação, que chegou a 4.923,6%. A espiral inflacionária levou Alfonsín à renúncia seis meses antes do fim programado de seu mandato.

Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99), tentou de forma errática diversas fórmulas econômicas. O resultado foi um segundo período hiperinflacionário, que chegou a 1.343,9% em 1990.

Nos anos 90, a conversibilidade econômica – que estabelecia a paridade um a um entre o dólar e o peso – apesar dos problemas que trazia em seu bojo, foi respaldada com entusiasmo pelos argentinos, que depois de décadas viam finalmente um período de inflação zero (e até de deflação.

Mas, a conversibilidade naufragou em dezembro de 2001. A inflação só não voltou a galopar de forma imediata porque a economia estava estancada e o poder de compra era quase nulo. Mas, a economia recuperou-se a partir de 2003. E a inflação voltou a aparecer.

Economistas, associações de defesa dos consumidores, empresários e sindicatos afirmam que o casal Kirchner, sem sucesso para deter a inflação, camufla os índices elaborados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Em sarcástica alusão à persistência da inflação na economia argentina, Roberto Dvoskin, professor da Universidade de San Andrés e ex-secretário de Comércio, afirma: “a Argentina é alcoólica em relação à inflação. E o alcoolismo não se cura… administra-se!”.  

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O ‘La Morsa’ original, J.C.Onganía, militar que – segundo as más línguas – não era famoso por contar com muitas sinapses em sua massa cinzenta.

 blog1vinheta71O desejo incontrolável de escrever “zeros”, aqui.

blog1vinheta71bE um artigo da Times, de 1923, sobre o assunto, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

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