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Ariel Palacios

Stefan Zweig, best-seller nos anos 20 e 30, suicidou-se há exatamente 70 anos em Petrópolis. Uma de suas amigas era Gabriela Mistral, que após a morte do autor, escreveu uma carta relatando seu encontro com o cadáver do amigo. O texto íntegro da carta publicada na Argentina pela Nobel chilena sobre o escritor austríaco foi resgatada pelo brasileiro Alberto Dines.

“Finalmente entrei no quarto de dormir e estive ali não sei por quanto tempo sem levantar a cabeça. Eu não podia ou não queria ver. Em duas pequenas camas unidas estava o mestre, com sua formosa cabeça somente alterada pela palidez. A morte violenta não lhe deixou violência alguma. Dormia sem seu eterno sorriso, mas sim com uma doçura enorme e com uma serenidade maior ainda”.

Desta forma, a escritora e diplomata chilena Gabriela Mistral (futura Prêmio Nobel de 1945) descreveu o momento em que entrou no quarto da casa do escritor austríaco Stefan Zweig em Petrópolis (RJ), horas após o suicídio do autor de “Novela de xadrez”, “Maria Stuart” e “Brasil, um país do futuro”.

O relato em forma de carta foi destinada a Eduardo Mallea, escritor argentino, que na época comandava o suplemento literário do jornal portenho “La Nación”. O conteúdo integral dessa epístola, publicada originalmente no dia 3 de março de 1942, ficou esquecido durante décadas, até que a carta – da qual só se conheciam trechos esparsos – foi resgatada em sua totalidade há poucos anos pelo jornalista brasileiro Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa e autor de “Morte no paraíso”.

 O jovem Alberto Dines, com cara marota, marcado com o círculo preto. O escritor Stefan Zweig, acompanhado de Lotte, no canto inferior direito. A foto foi feita na Escola Israelita-Brasileira Scholem Aleichem, Vila Isabel, Rio. Naquele momento Zweig colhia material para o “Brasil, um pais do futuro”. Um mês depois embarcou para uma série de conferências na Argentina (Buenos Aires, Cordoba, Rosário, Santa Fé, La Plata).

A quarta edição de ”Morte no paraíso” – uma das principais escritas sobre o suicídio de Zweig – será lançada no final de março e conterá a íntegra da carta de Mistral, entre outros detalhes sobre a vida do escritor.

“O texto da carta de Gabriela Mistral está carregado de emoção”, disse Dines ao Estado. sobre a carta, reproduzida pelo “La Nación” na sexta-feira passada. O jornal recordou que o interesse original de Zweig em conhecer a América do Sul era a Argentina. No entanto, depois de viajar à Buenos Aires nos anos 30, e de fazer uma escala no Brasil, ficou fascinado pelo afeto com o qual foi tratado pelos brasileiros (e havia ficado incomodado com o áspero clima político em Buenos Aires). Desta forma, em 1940, quando partiu da Europa, Zweig – em vez da Argentina – foi para o Brasil, instalando-se em Petrópolis.

Ali preparou um livro cujo título tornaria-se um slogan informal de sua terra de asilo: “Brasil, país do futuro”. Segundo Zweig, “se o Paraíso existe em algum lado do planeta, não poderia estar longe daqui”.

 

 O pacifista Zweig temia que a guerra, que estava arrasando as cidades da Europa, chegaria finalmente à América do Sul (acima, leitores buscam ávidos material de leitura em meio à Segunda Guerra Mundial). Em fevereiro de 1942 – quando Zweig deixou voluntariamente de viver – o Terceiro Reich parecia invencível. Apenas oito meses depois Hitler começaria a quebrar a cara com os ingleses nas areias do Sahara em El Alamein e com os russos nas gélidas planícies onde localizava-se Stalingrado.

AFUNDAMENTO E SUICÍDIO – O dia em que Mistral viu seu amigo deitado placidamente sobre o leito, sem vida, era o 23 de fevereiro de 1942. Menos de uma semana antes, Zweig havia sido informado sobre o afundamento do “Buarque”, navio brasileiro afundado por um submarino do Terceiro Reich. O escritor austríaco, judeu, refugiado na América do Sul para escapar do avanço do nazismo na Europa, considerou que o fim estava próximo, já que a guerra estava atingindo um país sul-americano.

Nas primeiras horas daquele dia Stefan Zweig, autor de sucesso em todo o mundo, havia cometido suicídio. A seu lado estava “Lotte”, apelido de Charlotte Altman, secretária e virtual esposa de Zweig. “Parece que ele morreu antes do que ela”, conjetura Mistral na carta a Mallea. “Sua mulher, que havia visto seu fim, segurava sua cabeça com o braço direito e toda sua cara estava apoiada na dele, Ao ser separada de seu corpo, ela ficou com o braço e a mão tortos e rígidos, e será necessário dar um jeito nesse pobrezinho corpo para colocá-la no ataúde. O rosto dela estava muito parecido (ao de Zweig). Não haverá nada que poderá dissolver em mim esta visão”.

“Nunca se soube o que foi o que ele ingeriu. Possivelmente morfina”, disse Dines ao Estado.

 Foto publicada no dia 28 de fevereiro de 1942 pela revista A Semana. Stefan e Lotte em um abraço eterno.

“Foi um livro importante para o Brasil. Mas na época foi muito esculhambado pela imprensa, por razões maliciosas, pois achavam que Zweig havia vendido-se ao Estado Novo de Getúlio Vargas. E, como Vargas não podia ser criticado diretamente, criticavam o Zweig”, explica Dines, que viu o escritor de perto quando tinha oito anos, em 1940, durante uma visita do autor de “Amok” à escola de seu futuro biógrafo. “Ele posou para uma foto com uma centena de alunos e os professores. Naquele dia não tivemos aula. Foi um dia que não esquecerei”, diz.

 

Morte no paraíso, de Alberto Dines. Nova edição ampliada terá mais detalhes sobre a vida e obra do escritor austríaco.

ATUALIDADE DE ZWEIG - “A efeméride destes 70 anos de sua morte é muito interessante, pois Zweig era, desde o início, um europeu, muito antes de que existisse uma concepção de uma Europa unida”, sustenta o biógrafo. Segundo Dines, “Zweig não morreu. Está vivo. pois continua sendo reeditado e reaproveitado. No ano passado o diretor Bernard Attal preparou um filme baseado em ‘A coleção invisível’, do Zweig, que talvez seja o único livro de ficção na literatura que está centralizada na inflação”.

A carta, na íntegra, de Gabriela Mistral publicada no jornal La Nación no dia 3 de março de 1942:

Eduardo Mallea: van adjuntas unas letras de hace días, donde hallará usted un recado de nuestroStefan Zweig. Yo no podía mandárselas hoy, 24 de febrero, sin añadirles unas palabras sobre el horrible día 23. Salí hacia Petrópolis a las once y media; mi bus ha debido pasar por la casa de nuestro amigo a mediodía: a esa hora él y su mujer agonizaban, allí, solos, sin que nadie supiese esa agonía. La criada tenía costumbre de que sus patrones durmiesen hasta las 10; no le extrañó mucho, al acercarse a la puerta hacia las 12, oír “la respiración del señor Zweig”. Pero la pobre mujer solamente a las cuatro se decidió a abrir la puerta. Avisó a la policía; andaba tan trastornada que al recibir a un arquitecto francés que venía de visita, le contestó: “Sí, allí están; pero están muertos”. La policía llamó al presidente del PEN Club, Dr. [Cláudio] De Souza, a quien estaba dirigida la carta del maestro para sus amigos y que tal vez usted ya ha leído. El doctor fue a comunicar personalmente la tragedia al presidente -quien ordenó hacer las exequias por cuenta del Estado- y avisó a la prensa de Río. Nosotros supimos la desventura por un telefonazo de M. Dominique Braga, a las nueve de la noche. Yo estaba recogida y oía sin entender este diálogo: “No puedo oírle, señor Braga; hable usted más alto. El teléfono está mal. No le oigo todavía. No le puedo oír”. Y después: “¡Qué cosa tan horrible!” y el llanto no dejaba hablar a Connie [Saleva, secretária de G.M.], lo mismo que a M. Braga. Creí que se tratase de un accidente de auto y busqué entre mis amigos de Petrópolis. A cualquiera hallaba menos a ellos. Porque hacían la vida más quieta del mundo, y la más dulce en la apariencia y la más linda de ver.

Tenía tanto miedo de saber, amigo mío, tanto temor, que no quería preguntar. Connie subió llorando como un niño. Aquí los tres teníamos, más que el cariño, la ternura de ese hombre llano como una criatura, tierno en la amistad como no sé decirlo, y realmente adorable. Usted sabe con cuánta frecuencia nos veíamos, ¡ay! Con menos de la necesaria para haber sabido el secreto de ellos y haberlos ayudado, si dable era ayudarles, ¡Dios mío!

Salimos hacia Petrópolis con una sensación de sonámbulos que hacen cosas absurdas: saberlos muertos no era posible para nosotros, y muertos por suicidio, menos. La pequeña casa de columnetas, a media colina, a cuya puerta nos esperaba siempre, subiendo lentamente las escaleras, estaba guardada por la policía. Arriba hallamos al doctor De Souza y a su buena mujer, al presidente de la Academia de Petrópolis, a un grupo de hebreos, al editor brasileño de Zweig y a los consabidos corresponsales de la prensa nacional y extranjera. Nosotros seguíamos hablando y oyéndolo todo como sonámbulos.

Al fin entré en el dormitorio y estuve allí no sé cuánto tiempo sin levantar la cabeza. Yo no podía o no quería ver. En dos pequeños lechos juntos estaba el maestro, con su hermosa cabeza solamente alterada por la palidez. La muerte violenta no le dejó violencia alguna. Dormía sin su eterna sonrisa, pero con una dulzura grande y una serenidad mayor todavía. Parece que él murió antes que ella. Su mujer, que habrá visto ese acabamiento, le retenía la cabeza con el brazo derecho, y toda su cara estaba echada sobre la suya. Al ser separada de su cuerpo, ella quedó con brazo y mano torcidos y rígidos, y habrá que desgobernar el pobrecito cuerpo al ponerla en el ataúd. El rostro de ella estaba muy parecido. No habrá nada que me disuelva esta visión.

Tenía él 61 años; ella, 33. El decía siempre: “En años, soy más que su padre”. Ella supo irse con él, dejando atrás la vida entera. La miré mucho rato en el ademán y en el prodigioso enflaquecimiento del veneno o de la angustia de la última hora: la de verlo muerto a su lado. Mantengo todo mi concepto cristiano sobre el suicidio, amigo mío, pero creo que él no me prohíbe sentir este desgarramiento por el amor de esa mujer hacia un hombre viejo a quien quiso con pasión y amistad. Lo cuidaba con un celo tal que no estaba lejos de él diez minutos: del aire frío, del mucho escribir, del mucho andar -que era su vicio único-, del desaliento: de todo lo guardaba. En mi país yo hubiese rogado que los sepultasen juntos, como a los Berthelot. Zweig dormía sin sueños, aliviado para siempre del tiempo y el mundo vergonzosos que fueron la ración de su vejez.

Mi asombro y el de cuantos lo tratamos aquí es inmenso. Hoy sólo puedo contarle nuestro penúltimo encuentro. Nos invitó a almorzar, añadiendo a nosotros tres a Hortensia Río Branco, que estaba en casa. Lo encontré un poco desmejorado, pero en un ánimo más alegre que otras veces. Le di la noticia de la venida de Waldo Frank, anunciada en la carta suya, y le participé mi proposición de que el amigo viniese a casa, a Petrópolis, para escapar del calor. Entonces ambos me dijeron que compartiríamos a Frank, quien podía pasar días con ellos, días conmigo. Así lo convinimos.

Contó riendo que él había dispuesto un almuerzo austríaco, desde la sopa hasta el postre. Y él lo sirvió, con su linda manera, que nunca se sabía si era de uno muy viejo o muy niño. Habló un poco de Bélgica con doña Hortensia, residente de media vida en ese país.

Luego salimos hacia la terraza, donde a él le gustaba trabajar, pero me detuvo al pasar por su escritorio para leerme una preciosa carta de Martin du Gard, el novelista. Leía y repetía frases y frases, haciéndome sentir el perfecto, el hermoso estado de espíritu de esta otra alma en prueba. Salimos a la terraza hablando de las gentes que están viviendo su tragedia sin la pérdida de una pizca de decoro y de elegancia en la conducta. Entonces me dijo, mirándome de un modo particular y recalcándome las palabras: “Habría que decir lo peligroso que es en América comenzar una persecución de los alemanes; sé que hay algunos signos de eso, y me alarman mucho”. Lo tranquilicé, asegurándole que no habrá inquisición, ni cosas parecidas a las débauches sangrientas de Europa, en nuestros pueblos. Y entramos en una larguísima conversación sobre el indio, el negro y las gentes cruzadas. Le oí una alabanza conmovida de los misioneros portugueses. Yo había procurado antes interesarlo en los misioneros del Continente como asunto para un libro suyo que podría ayudar mucho a nuestros indios. Celebró la bondad del negro, “que es una sola cosa -dijo- con su alegría”. Añadió lindas observaciones del temperamento brasileño en la piedad y el equilibrio pasional. De la gente pasó a la tierra, y me pidió caminar con él por los alrededores de nuestra ciudad, lo cual le prometí. Él me creía entendida en plantas, sólo por haberme visto cultivar un pedazo de jardín de la casa? “Gabriela Mistral -me dijo-, yo tengo este deseo que me va a conceder. Conversaremos mejor de todo esto andando por la tierra rural.”

Hace unos diez días de todo esto: trato de recordar con mucha precisión la parte referente a Frank y la última, porque son dos compromisos que él se hacía y que nadie le había solicitado. Estoy cierta de que no me engañaba -¡para qué!- y de que no pensaba matarse.

Poco después me habló por teléfono para preguntarme si yo iría a una recepción oficial de la Prefectura (o Gobernación) de Petrópolis, pues él tenía la invitación, pero no la compañía. Allá fuimos y estuvo a gusto, a pesar de lo poco que le agradaba la vida mundana.

No creo en las conjeturas que se hacen sobre la situación económica del maestro Zweig. Su editor las desmintió rotundamente anoche, a dos pasos del muerto. Las grandes ediciones suyas lanzadas por la mayor editorial yanqui, más algunos artículos pedidos de los Estados Unidos, podían asegurarle a lo menos unos años de un bienestar modesto, pero suficiente. Por otra parte, no puede ni imaginarse un momento de extravío o de locura: escritor más sensato, más dueño de su alma, menos delirante (a pesar de haber descripto como nadie el delirio), no puede tal vez encontrarse en nuestra generación. Pienso, sin pretensión de adivinar, que las últimas noticias de la guerra lo deprimieron horriblemente y en especial el comienzo de la guerra en el Caribe, el hundimiento de barcos sudamericanos. ¡Ay! ¡Había visto llegar así la guerra a tantas costas! Habrá que añadir su última información: la de los sucesos del Uruguay. También eso se parecía de un modo tremendo a lo visto en Europa, duela o no duela confesarlo. Estaba harto de horror, no podía ya más.

Amigo mío: ya sé que los fáciles dirán para condenar -y hasta algunos estoicos- que Zweig se debía a nosotros y que su escapada de la tragedia común es una gran flaqueza. Y mucho más se dirá. Hablarán de su falta de fe en lo sobrenatural y acaso de la famosa cobardía israelita.

Yo me quedo esperando su autobiografía, escrita aquí mismo, en nuestro Petrópolis, que él amaba tanto como yo. Porque no sabemos todo lo que este hombre padeció desde hace unos siete años, desde que el escritor alemán fiel a la libertad pasó a ser bestia de cacería. Su sensibilidad superaba a la mostrada en sus libros: era una sensibilidad femenina, en el mejor sentido del vocablo; habría que decir “inefable”. Cuando hablábamos de la guerra, yo seguía en su cara, punto a punto, su corazón en carne viva e iba midiendo lo que yo podía decir, lo cual no me ha ocurrido con ningún hombre de letras. Y no era que perdiese en momento alguno su control riguroso; era que los hechos brutales, o simplemente penosos, no parecían ser oídos, sino tocados por él en el mismo instante en que los escuchaba y le caía al rostro una tristeza sin límites que lo envejecía de golpe. (Usted recuerda la juventud de su aspecto; toda ella desaparecía en cayendo la guerra en la conversación.) Su repugnancia de la violencia era no sólo veraz; era absoluta.

Le importaban todos los pueblos y se había apegado muchísimo a los nuestros. Estuvo a punto de irse a Chile, por una invitación de Agustín Edwards; se quedó en Brasil y lo sirvió con un libro ejemplar sobre territorio, historia y pueblo. Halló los Estados Unidos demasiado recios o duros, no sé. Prefería el sur porque, además, necesitaba de mucha dulzura de clima el hombre de sesenta años.

Su melancolía más visible era la pérdida de la lengua materna. En su primera visita a esta casa me dijo que nada del mundo podría consolarlo de no volver a oír en torno suyo el habla de su infancia. “Esto -dijo- es lo único irremediable.” Él esperaba entonces con certidumbre cabal la caída del hitlerismo; pero ya había comprado una casa en Inglaterra y posiblemente, como muchos desterrados, pensaba que al regresar llevaría las heridas de un dictador, y además las de los seudo amigos que traicionan o que consienten. Su sobriedad para juzgar a su patria me pareció completa; jamás un denuesto, ni siquiera un vocablo castigador; su continencia verbal formaba parte de su hidalguía. (El tipo de nariz no era judío; mejor recordaba al español, inglés o francés).

No pudimos hacer nada por él, aparte de quererle en esta casa los tres, porque era lo más natural del mundo el tenerle no sólo admiración, sino una ternura conmovida.

¡Ay! Que no remuevan los creyentes estos huesos de doble fugitivo y renuncien al ejercicio fácil de dar una lección sobre un muerto que deja empobrecida a la humanidad, y en todo caso a los mejores. En él había miel de Isaías, también llama paulista, también ambrosía de Ruth.

Adiós. G. M..

 Stefan Zweig e Charlotte Altmann.

   

Para mais detalhes sobre Gabriela Mistral, aqui.

Para mais detalhes sobre Stefan Zweig, aqui. E também aqui.

   

E aqui, a versão completa de “Die schweigsame Frau” (A mulher silenciosa), ópera de Richard Strauss, cujo libreto é de Stefan Zweig:

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Passageiros do sistema ferroviário da área metropolitana portenha viajam como sardinhas em uma lata. Desta forma, quando acontece um acidente, o acotovelamento dentro dos vagões magnifica o número de vítimas mortais.

Um trem da ferrovia Sarmiento descarrilou nesta quarta-feira de manhã ao entrar na estação de Once, no bairro de Balvanera, no macro-centro portenho, e bater contra a gare.

O choque – que transformou os vagões em uma massa de ferragens deforme – provocou a morte de 49 pessoas (48 adultos e uma criança). Outros 550 passageiros foram feridos. A maior parte das mortes ocorreu no primeiro e o segundo vagão.

O decadente sistema ferroviário argentino – e especialmente a linha Sarmiento – é famoso por “comprimir” os passageiros nos vagões como se fossem sardinhas em uma lata.

Quase todos passageiros do acidente desta quarta-feira conseguiram sair sozinhos dos vagões – ou foram removidos com ajuda de policiais e civis – nos primeiros minutos. No entanto, 60 pessoas ficaram presas nas ferragens durante quatro horas.

Rubén Sobrero, líder do sindicato dos ferroviários, afirmou que era um “dia de luto”. O sindicalista criticou o governo e as empresas de trensa pelo péssimo estado do sistema. Segundo ele, há anos a organização denuncia “a falta de investimentos” nas ferrovias e na manutenção de trens e vagões.

Os trens da linha Sarmiento são envelhecidos Toshibas dos anos 50 e 60, importados do Japão. Os passageiros costumam reclamar desde os anos 90 – época na qual o sistema de ferrovias foi privatizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99) – sobre a péssima qualidade de manutenção dos vagões e locomotivas.

O deputado e cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de oposição Projeto Sul, afirmou que “há vários anos que a presidente Cristina Kirchner escuta, lê e vê estas denúncias e nada faz…”. Segundo Solanas, a falta de responsabilidade sobre o sistema ferroviário começou nos tempos de Menem e continua no governo atual.

Nos últimos 10 anos, em diversas ocasiões passageiros furiosos com os atrasos e as péssimas condições de transporte incendiaram vagões dos trens das diversas linhas ferroviárias que ligam a capital argentina com os municípios de sua região metropolitana.

Ao longo do último ano os sucateados trens portenhos protagonizaram cinco acidentes graves (incluindo o da estação Once), dois deles com vítimas fatais. No total, esses acidentes acumularam 780 feridos, além de 65 mortos.

O pior acidente da História da Argentina ocorreu em 1970, quando dois trens chocaram. Na ocasião morreram 200 pessoas.

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 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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 A “Vênus do espelho”, de Diego Velázquez (1599-1660), um dos mais destacados pintores do “século de ouro espanhol”. Pintado entre 1647 e 1651. Está na National Gallery em Londres, Grã-Bretanha. Na época em que foi pintada, causou um rebu assaz significativo, já que, mais do que uma referência à mitologia greco-romana, o quadro era uma desculpa para exibir os glúteos desta desconhecida modelo espanhola (que também teria servido de inspiração para o quadro “A coroação da Virgem”). A obra foi comprada por um nobre inglês em 1813, saindo da Espanha. Em 1906 o britânico Fundo de Coleções Nacionais tentou arrecadar dinheiro para colocar a obra – que estava em mãos privadas – em um museu do Estado.  O próprio rei Eduardo VII, admirador de glúteos e desta obra específica, forneceu fundos para que a instituição comprasse o quadro de Velázquez. Um século depois, também em Londres, a revista Zoo fez um ranking dos melhores derrières do mundo.

A revista britânica Zoo lançou há poucos dias seu ranking dos melhores derrières femininos do planeta. Na lista, entre as 10 melhores, por incrível que pareça, nenhuma brasileira. No entanto, aparecia uma argentina (a solitária sul-americana da lista) que ficou em oitavo lugar: ela é Keyra Agustina (pseudônimo, soube-se há pouco tempo, de Julieta Machado, uma estudante universitária portenha) que em meados da década passada foi a anônima “rainha glútea” da internet.

Keyra ou Keyra Agustina é a dona de uma esférica retaguarda que desde 2004 tornou-se furor na internet. Em 2006 foi declarada “a perfeita bunda do ano” (the perfect ass of the year) por Howard Stern, um dos mais famosos apresentadores da rádio e TV dos EUA.

O frequentadíssimo site ibérico “Super-tangas”, de alta popularidade na Espanha e no mundo latino-americano a entronizou como a preferida ao longo de vários anos. Mas, apesar do tempo transcorrido, sua vigência na web permanece.

Os motivos para o sucesso de Keyra – ou melhor, de seu derrière – seriam os seguintes:

1 – Ela não era previamente famosa (isto é, não era cantora, atriz de novela, namorada de jogador de futebol, nem amante de político, jogadora de vôlei ou tenista, menos ainda participante de reality show).

2 – Durante vários anos jamais mostrou a cara, fato que aumentava o mistério.

3 – Suas fotos foram feitas de forma caseira, longe das produções em Bora-Bora da Playboy ou o cetim/rendas/colares de pérolas da Penthouse. Ao contrário: são fotos feitas em um cantinho prosaico da casa. Isto é: sem fotoshop algum.

4 – Se levarmos em conta que Keyra está presente na internet sem marketing, de forma “autônoma”, temos que admitir que possui maiores méritos que os glúteos de modelos, cantoras e similares. São glúteos “antissistema”.

Retaguarda da jovem argentina Keyra Agustina é considerada obra de arte por milhões de admiradores em todo o planeta Terra.

A figura de Keyra foi divulgada pelos fãs e hoje está estampada virtualmente em quase 700 mil sites na web nos quais entusiastas internautas tecem cantos de louvor à sua retaguarda, que há poucos anos era uma ilustre desconhecida. Habitante do bairro de Palermo, alcançou fama mundial quando seu namorado a fotografou e distribuiu as fotos pela internet. A partir dali a coisa foi viral.

ALTRUÍSMO – Keyra nunca ganhou dinheiro com a exibição de seu derrière: ela recusou a ofertas para ser a estrela de programa de TV na Espanha e convites de diversas revistas masculinas internacionais. Keyra só posou para uma revista, argentina, uma única vez e de graça (a Maxim). Resgatando o axioma “faça o bem sem olhar a quem”, seu único interesse é o de inspirar milhões de homens em todo o mundo.

Cenário para poses de Keyra são prosaicos. Aqui, ao lado da porta de seu armário, em um cantinho do apartamento. Na maior parte das fotos, Keyra posa vestida. Com vestimenta exígua, mas vestida.

LISTA: Esta é a lista oficial do ranking de glúteos excelsos da revista “Zoo”: 1-Kim Kardashian, 2. Rihanna, 3. Geena Mullins, 4. Pixie Lott ,5. Caitlin Wynters, 6. Scarlett Johansson , 7. Charlotte Herbert ,8. Keyra Agustina, 9. Melissa D , 10. Stacey Pool.(na segunda dezena somente uma sul-americana, Shakira, que ficou no undécimo posto…Jennifer López, americana de antepassados hispano-americanos, ficou no vigésimo-primeiro)

Keyra posa com uma camiseta alusiva à seleção argentina.

NACIONALISMOS GLÚTEOS - Os glúteos das brasileiras foram durante décadas reconhecidos como os “derrières” par excellence deste planeta. Dentro do país, foram assunto tratado por poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, escritores como Jorge Amado, pintores como Di Cavalcanti, além de fotógrafos, músicos, carnavalescos e até arquitetos.

Fora do país, artistas internacionais, desde Marcelo Mastroiani até Frank Sinatra, passando por Orson Welles, também realizaram elogiosos comentários sobre esse aspecto da anatomia nacional.

Para horror dos setores mais nacionalistas, Keyra é argentina, nacionalidade da qual jamais poderíamos ter esperado tal concorrência.

No entanto, o apreço pelas formas deste jovem deusa calipígica liquida eventuais chauvinismos territoriais, já que a exaltação dos glúteos de Keyra chegou até o Brasil. No país, existem centenas de sites com cantos de louvor aos quadris da vizinha do Mercosul.

No Orkut e outras redes sociais, as rivalidades no futebol e no comércio bilateral foram deixadas de lado, já que diversas comunidades dedicam-se ao intercâmbio de opiniões, análises e dados sobre como conseguir novas fotos da ídola argentina. Uma das comunidades, a “Keyra Agustina Brasil”, destaca que a jovem é “quase perfeita”, já que seu único defeito é “ser argentina e não brasileira”.

 

Analistas explicam que derrières argentinos costumam ser mais “contidos”. Acima, Keyra ilustra o assunto que gera debates.

TEORIAS: EXPANSÃO VERSUS SOBRIEDADE - “A bunda argentina é mais ‘contida’, enquanto que a brasileira é ‘expansiva’”, me diz o ensaísta argentino Martín Caparrós, enquanto beberica um café em um bar de Palermo.

Eu, modesto estudioso do assunto, sintetizo uma série de opiniões amateurs sobre o assunto que havia ouvido nos últimos tempos: “Martín, muitas pessoas que consultei acreditam que a argentina possui uma retaguarda ‘aristotélica’, já que o filósofo grego considerava esfera como a forma perfeita. A brasileira, segundo estas pessoas em Buenos Aires, São Paulo, Rio e Bogotá, recordaria a frase do duce italiano Benito Mussolini que dizia ‘é meglio un giorno di leone che cent’anni de pecora’ (é melhor um dia de leão do que cem anos de ovelha). Isto é, glória, embora breve. A problemática da (eventualmente) mussoliniana bunda brasileira é que – segundo os consultados – tal como a arquitetura de Oscar Niemayer, desafia a gravidade. E tal como as obras de Niemayer, com o tempo sofrem problemas estruturais. Já os glúteos argentinos, mais conservadores em seu design, perdurariam mais, segundo as avaliações ouvidas”.

Caparrós ouve, pensa, dá outro gole de café (brasileiro). Na seqüência, arremata com alusões à astronomia: “os glúteos brasileiros são esbanjadores, como uma explosão, que acontece, mas deixa de ser imediatamente”. Depois, levanta o índice, pontificando: “mas elas possuem a glória de uma estrela supernova!”.

Autor de “Boquita” (considerada o melhor livro de História sobre o Boca Juniors), Caparrós faz um brinde com o resto de seu café: “argentinos e brasileiros – rivais no futebol – confraternizamos no apreço comum pelos derrières”.

Germán Pitelli, chefe de redação da edição argentina da revista “Maxim” na época da publicação das fotos da musa da web, sustenta que Keyra, “como boa exibicionista, desfruta que seu traseiro seja admirado por todo o mundo”. Do alto de sua vasta experiência, Pitelli afirma que “nunca” viu alguém posar com “tanta naturalidade” como Keyra.

Pitelli é diplomático e elogia glúteos brasileiros e argentinos: “o bumbum argentino é por excelência firme, compacto, pequeno e provocador…já, o das brasileiras é todo um continente a explorar”.

“Suas poses são prosaicas, quase sempre tendo como fundo uma persiana ou um cantinho de seu modesto quarto. Não há cetim, nem pérolas ou cenários paradisíacos como em certas revistas masculinas. Ela não tem pretensões, nem ambições”, avaliou, por telefone, meu amigo porto-riquenho Héctor Feliciano, ex-correspondente cultural do “The Washington Post” em Paris, autor do livro “O Museu Roubado” (sobre o saque de obras de arte durante a Segunda Guerra Mundial), conferencista em Nova York que atualmente mora em Puerto Rico.

O colombiano Raúl Trujillo, especialista em pesquisa de grupos de consumo e sociologia da moda, afirma que a anônima e caseira Keyra simboliza a derrota da indústria da comunicação, que tenta impor atrizes e modelos famosas como sex-symbols. Trujillo sustenta que “o público agora não quer mais a pessoa famosa…ele quer a cotidianeidade!”.

Os gregos criaram uma deusa ad hoc para as questões glúteas: Aphrodite Kallipygios (Ἀφροδίτη Καλλίπυγος). Esta é uma estátua de mármore feita pela Academia Fancesa de Roma, em 1683, cópia da estátua romana da coleção Borghese. A versão original é de uma Vênus nua. Mas, este drapeado foi colocado por Jean Thierry (1669-1739) por “razões de decência”

GLÚTEOS: CULTURA, TEOLOGIA E ARQUEOLOGIA

Os gregos criaram uma deusa do amor, a Aphrodite Kallipygios, cujo nome significa, literalmente, “deusa das formosas nádegas”. Para os gregos era uma parte destacada da anatomia humana, não só pela agradável curva, mas também porque o diferenciava dos símios.

Na Idade Média tornou-se parte da cultura popular a ideia de que o diabo, ao contrário dos seres humanos, não possuía nádegas. Isto é, os glúteos, consequentemente, seriam uma marca celestial.

O diabo podia simular que era um humano, fantasiar-se e assumir uma forma de homem ou mulher. Mas, essa atitude camaleônica nunca conseguia ser completa, já que falhava nos quartos traseiros.

 

Bunda-less demônio fulo da vida com senhoritas de abundantes ancas. Na ilustração, demo é acompanhado do sr. Morte, também carente de glúteos. Gravura de Daniel Hopfer, ao redor de 1500 a 1510.

A ausência de uma “poupança” satânica incomodaria Belzebu de forma atroz. Desta forma, uma maneira de afugentar o ‘demo’ seria a de arriar as calças (ou levantar saias, saiotes, kilts, batinas, etc) e exibir ao próprio Senhor do Mal as humanas nádegas. Assim, o demônio, furioso, olharia para o lado, colocando longe seu “mau-olhado” e se consumiria em inveja.

Adrianus Spigelius: anatomista brilhante. No entanto, considerava que os glúteos que havia estudado haviam sido criados com fins ‘elevados’.

Há alguns séculos, o anatomista flamenco Adriaan van den Spiegel, também chamado de Adrianus Spigelius (1578-1625) afirmava em sua obra póstuma “De humani corporis fabrica libri X tabulis aere icisis exornati” que “as nádegas foram dadas ao homem para que, ao poder sentar-se sem fadiga, possa dedicar-se mais confortavelmente ao estudo das coisas divinas”. Era a negação do físico e uma reinterpretação funcional das partes do corpo onde parecia residir o pecado.

Colaborando com o fim da era vitoriana, o escritor britânico D.H.Lawrence, em “O amante de Lady Chaterley” faz uma apologia aos glúteos femininos ao exaltar a “redonda e inativa firmeza das nádegas”.

Poucos anos antes, do outro lado do canal da Mancha, o poeta francês Arthur Rimbaud indicava que o derrière trata-se de “dois arcos excepcionais”.

Arthur Rimbaud (1854-1891) poeta francês que trafegou entre o simbolismo e o decadentismo também referiu-se aos derrières e seus encantos. Acima, famosa foto do poeta quando jovem. Na imagem, de 1871, tinha 16 anos e estava produzindo os melhores versos de sua vida.

Voltando ao outro lado do canal, no começo do século XIX Lord Byron, poeta inglês, sustentava que o bumbum “é algo estranho e belo de contemplar”.

O pintor espanhol Salvador Dali considerava que “a bunda é onde podem ser desvendados os maiores mistérios da vida”.

Outro espanhol, o poeta espanhol Federico García Lorca referia-se aos glúteos femininos pequenos, quase minimalistas, (seu objeto de desejo eram os masculinos, mas ele sabia apreciar e admitia a beleza dos derrières femininos) como “planetas de cobre”.

Ainda os espanhóis: No século XVII Diego Velázquez pintava bundas “atuais”. É o caso da “Vênus do Espelho”, por exemplo. O quadro está todo montado para mostrar um derrière. Há escritores que se destacam por um livro. Há pintores que se salvam por um bumbum. Pablo Picasso (mais um espanhol) brincou de desestruturar as bundas. E toda a anatomia. Uma vezes acertou. Outras não. O erotismo de Picasso é agressivo, fáunico. Parece dar mais valor ao ímpeto da possessão que à beleza da mulher.

Fellini: cineasta deu espaço aos glúteos expansivos no celulóide.

Saindo do Mediterrâneo ocidental para o central, o cineasta italiano Federico Fellini afirmava que “a mulher bunduda é uma epopéia molecular de feminilidade”.

Aliás, durante muitos anos o diretor de cinema Federico Fellini freqüentou as tardes de uma prostituta. Não mantinha relações sexuais com ela, que se deitava na cama, enquanto ele fumava e ficava bebendo, olhando para sua bunda.

Quando seu roteirista Tonino Guerra lhe perguntou o porquê disso – assim ele me disse em uma entrevista na cinemateca de Madri em 1994 – Fellini respondeu: “un giorno senza culo é un giorno senza sole” (um dia sem bunda é um dia sem sol).

Depois, Guerra fez uma pausa, olhou para o teto do café da cinemateca como se estivesse procurando o amigo, que havia falecido cinco meses antes, e completou com uma observação própria: “são esferas harmoniosas sobre o caos. Sem bunda não há salvação”.

E já dizia o poeta Drummond: “Existe algo mais? Talvez os seios/ Ora, murmura a bunda – Esses garotos/ ainda lhes falta muito que estudar”.

Ilustração do Codex Manesse (1305-1340) que mostra o Duque Von Anhalt em meio à tresloucada pancadaria com outros cavaleiros. Todos ostentam roupas com seus brasões. E “brasão” vem do latim “blasus”, que significa “arma de guerra”, tal como os glúteos, utilizados nas batalhas da sedução.

HERÁLDICA GLÚTEA - Na contra-mão de Drummond, diversos antropólogos consideram que os glúteos seriam um luxo da natureza, mera sexualidade. Os seios seriam funcionais, nutritivos. A bunda seria pura gratuidade. Como a cauda de um pavão.

Mas, além de gratuidade, também possuem a qualidade de uma arma. Arma de sedução, mas armas enfim. Neste caso, existiria – por parte de alguns escritores – a tentativa de definir uma “herálica dos glúteos”.

Heráldica é a ciência do brasão, isto é, o estudo das armas. E “brasão” vem do latim “blasus”, que significa “arma de guerra”.

Um desses heraldicistas glúteos conversou comigo sobre o assunto em 1993 em Madri. Ele era Francisco Umbral (1932-2007), literato espanhol, um raro machista respeitado pelas feministas do país do Quixote.

Francisco Umbral, heraldicista glúteo e intelectual espanhol já defunto.

Aqui embaixo segue o resumo da conversa com o escritor:

“Nádegas é fonéticamente frouxo”, disse Umbral. Segundo ele, “essa palavra sugere bundas flácidas, caídas. Além disso, ao falar de bunda no plural, “nádegas”, parte-se em dois. E a bunda deveria ser uma unidade, singular, como a alma. Indivisível”.

GLÚTEOS: “Possuem glúteos as campeãs olímpicas, as de bodyboarding”, sustentou Umbral.

POUPANÇA (“Pompis” em espanhol da Espanha): “Possuem poupança nossas tias, todas as professoras de piano e as garotas educadas em colégios de freiras. Exemplo: Margareth Thatcher”.

NÁDEGAS: “São uma particularidade das solteiras de profissão. Funcionárias de correios ou municipais, integrantes do corpo de arquivistas e bibliotecárias. As longas horas sentadas afrouxam o glúteo, transformando-o em nádegas”.

TRASEIRO (“Traste” em espanhol da Espanha): “As potrancas o possuem. As que estão convencidas que detêm a melhor bunda de seu município.

BUNDA (“Culo”, em espanhol da Espanha e vários países latino-americanos): Geralmente é aquela que caminha à nossa frente, em tênue vaivém. A inacessível. Essa bunda heráldica e breve com a qual gostaríamos de praticar

Mas, quando expliquei o conceito brasileiro de “bunda” ao escritor espanhol (e apresentei um material iconográfico sobre o caso), ponderou: “bunda é uma criação brasileira. Digna de um Nobel da Paz. Se todos pensassem em ‘bundas’ (pronunciou a palavra fazendo ênfase na ‘u’) não haveria mais Bósnias (em referência à guerra balcânica, que transcorria naquele ano). É o ‘culo’ do ourives. É quase o ‘culo’ arquetípico”.

No fundo, indepedentemente desses debates, temos que dar nossos agradecimentos aos Australopitecus afarensis, já que ao transformar-se em bípedes, os músculos glúteos expandiram-se exponencialmente, criando o derrière

Se os homens pensassem mais em sexo haveria menos guerras como a da Bósnia, argumentava ‘Paco’ Umbral, resgatando o velho slogan hippie, “faça o amor e não a guerra”. Mapa da Bósnia-Hezergovina e seus vizinhos Sérvia e Montenegro no começo do século XX.

  

Aos leitores e comentaristas: aqui seguem algumas explicações sobre o novo sistema de comentários dos blogs do Estadão.com.br. Os detalhes, aqui. 

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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O ex-ditador e general Jorge Rafael Videla volta a causar polêmica: em declarações à imprensa espanhola, afirma que julgamento dos militares envolvidos em crimes durante a ditadura não passa de “vingança”. O militar também sustentou que seu golpe, em 1976, deu início a uma “Nova Era” na Argentina.

Caros comentaristas e leitores, volto hoje à labuta depois de plus-que-merecidas férias! Neste período de tentativa de relax e repouso aconteceu uma saraivada de assuntos na Argentina e região. Alguns deles saíram temporariamente da agenda (o caso dos conflitos comerciais Brasil-Argentina, que logo logo voltarão), outros permanecem diariamente (os crescentes qüiproquós sobre as ilhas Malvinas, a pancadaria desatada da polícia sobre manifestantes, protestos em cidades com mineradoras multinacionais). E alguns marcaram alguns dias, como o caso da morte do roqueiro Alberto “El Flaco” Spinetta.

Nesta quarta-feira, último dia das férias, o general Jorge Rafael Videla, ditador da Argentina entre 1976 e 1981 (a ditadura, com outros generais, durou até 1983), preso há vários anos, condenado à perpétua por crimes contra a Humanidade, causou polêmica ao fazer as primeiras declarações à imprensa desde o fim do regime militar.

Videla, em entrevista à revista espanhola Cambio 16, afirmou que não se arrepende do golpe militar que protagonizou há três décadas e meia e acusa a presidente Cristina Kirchner de procurar “vingança” em vez de “justiça” com o julgamento dos militares envolvidos na ditadura argentina.

“São todos julgamentos políticos”, disparou Videla, que nos anos 70 era conhecido como “a pantera cor de rosa”, por seu jeito similar de caminhar e a sorte para escapar incólume de atentados. “É parte de uma vingança, dessa revanche, como parte de um castigo coletivo com o qual pretende castigar todas as forças armadas”, disse.

Segundo o ex-ditador, o governo mostra os militares como os “maus” e “responsáveis dos crimes contra a Humanidade”, enquanto que – sustenta Videla – os “terroristas” são exibidos como os “bons”.

O ex-ditador justificou a necessidade do golpe e da implantação da ditadura militar, indicando que o país estava sob o perigo da “anarquia imediata” e do terrorismo (no entanto, os próprios militares afirmavam meses antes que a guerrilha havia sido debelada). Segundo Videla, com o golpe começava uma “Nova Era” para o país (os generais pretendiam que a ditadura, a princípio, durasse até 1990…mas o fracasso na Guerra das Malvinas precipitou o fim desses planos).

AS INSTITUIÇÕES, SEGUNDO O HOMEM QUE DEU O GOLPE - Videla também disparou contra os senadores e deputados argentinos. Segundo o ex-ditador, o Parlamento (que ele próprio fechou em 1976), “está composto por ambiciosos que temem ficar sem seus postos e se vendem a quem paga mais”.

Segundo Videla, a situação institucional atual é “pior” do que na época de Maria Estela Martinez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”, a presidente que o general depôs no dia 24 de março de 1976.

O ex-ditador, que violou a Carta Magna há quase 36 anos, sustenta que atualmente “as instituições estão mortas” na Argentina.

Videla, que durante o julgamento das juntas militares em 1985 havia jurado que não haviam ocorrido assassinatos de civis por parte da ditadura, na entrevista admite a existência de 7 mil desaparecidos (número inferior aos 30 mil desaparecidos alegados pelos organismos de defesa dos direitos humanos e dos 10 mil verificados pela Comissão Nacional de Desaparecidos, a Conadep).

Na entrevista Videla coloca em problemas a Igreja Católica ao afirmar que o clero manteve uma relação “cordial” e “muito sincera” com o regime militar. “Nós tínhamos capelães militares dando assistência para a gente. Nunca foi quebrada essa relação de colaboração e amizade”.

Durante a ditadura a Igreja esteve intensamente alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos centros clandestinos de detenção e pressionaram os prisioneiros a delatar, com o encobrimento da confissão, o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar. Um dos clérigos envolvidos nas ações do regime militar, o capelão Christian Von Wernich, além de presenciar, protagonizou torturas nos centros clandestinos na província de Buenos Aires. Em 2007 Von Wernich foi condenado à prisão perpétua por 34 sequestros, 31 casos de torturas e sete homicídios.

DITADURA ARGENTINA FOI FRACASSO MILITAR E ECONÔMICO - No dia 24 de março de 1976 uma junta militar derrubou a presidente civil Isabelita Perón. A ditadura, que duraria sete anos – considerada a mais sanguinária da História da América do Sul – teria um saldo estimado pelas organizações de defesa dos direitos humanos de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 105 recuperaram sua identidade até hoje.

O saldo econômico do regime também foi desastroso. Em sete anos de ditadura a dívida externa disparou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões. A inflação aumentou de 182% anual para 343%. Além disso, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%. De quebra, a ditadura implantou uma ciranda financeira que intensificou o caos econômico.

Na área militar a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978. Os dois países, que disputavam o canal de Beagle, quase entraram em guerra. A invasão argentina foi detida graças à mediação do papa João Paulo II.

Quatro anos depois, o ditador Leopoldo Galtieri ordenou uma improvisada invasão das ilhas Malvinas, sob controle britânico, desafiando a primeira-ministra Margareth Thatcher a enviar tropas. A guerra terminou com a estrepitosa derrota da ditadura em dois meses e meio.

“Excelente goleiro!”, afirmam seus colegas e admiradores. “Mas, péssima e sórdida pessoa”, complementam.

GATO E TORTURAS – A Justiça da província de Santa Fe declarou que Edgardo “El Gato” Andrada não será levado a julgamento pela suposta participação do assassinato de civis durante a ditadura argentina. Segundo o juiz Carlos Villafuerte Ruzzo, não existiam provas suficientes para levar Andrada ao banco dos réus no momento.

Andrada – que morou no Brasil entre 1969 e 1976 – tem um passado peculiar: no dia 19 de novembro de 1969 teve o prestígio de levar o gol número 1.000 de Pelé como goleiro do Vasco da Gama, onde trabalhava na época. Na Argentina Andrada também é recordado, mas por questões pouco esportivas: ele colaborou ativamente com a Ditadura Militar. E, segundo diversas denúncias é um dos responsáveis pelo sequestro de duas pessoas em maio de 1983, poucos meses antes que a Ditadura terminasse.

Andrada, segundo as denúncias, trabalhava para o serviço de inteligência do Exército na cidade de Rosario, e integrava as “patotas” (gíria que na Argentina refere-se a grupos de caras violentos, jagunços, que capturavam, torturavam e assassinavam civis que se opunham ao regime militar).

Ao longo dos últimos três anos Andrada foi processado na Justiça pelo sequestro realizado em um bar em pleno centro da cidade de Rosário. Os dois civis apareceram mortos dois dias depois. Na época, o governo militar anunciou que as duas pessoas haviam sido mortas em um combate com forças do exército. Mas, a autópsia indicou que eles haviam sido espancados, torturados com choques elétricos e posteriormente baleados a queima-roupa.

                                     Andrada era chamado de “El Gato”, por seu jeito de “felino”

Andrada nega os crimes. Ele admite que estava dentro da estrutura do Exército, mas, misteriosamente, nega-se a explicar qual era seu trabalho específico.

Os advogados dos parentes dos civis mortos afirmam que vão recorrer na Justiça, de forma a reverter a decisão do juiz Ruzzo.

Além de Andrada, outros ex-jogadores e técnicos também são suspeitos de terem participado do sequestro de civis. Em vários desses casos as vítimas eram seus próprios colegas jogadores, que foram detidos e torturados por criticar a ditadura militar.

Uma dessas histórias, a do jogador Claudio Tamburrini, virou filme, o “Crônica de uma fuga”, do diretor Adrián Caetano.

Tamburrini foi detido e enviado ao centro de torturas “Mansão Serré”. Mas, depois de seis meses preso ali, conseguiu fugir com outros três prisioneiros. É o único caso de sucesso de uma fuga de um centro de tortura da Ditadura.

Luis Alberto Spinetta, a.k.a. “El Flaco”. Ou, “pai do rock argentino”.

DA GUITARRA À HARPA, UM ÍCONE PARTE - Um dos expoentes do rock nacional, Luis Alberto Spinetta, morreu em sua casa, rodeado de seus seres queridos há poucos dias, na quarta-feira dia 8 de fevereiro. “El Flaco” (O Magro), como era chamado carinhosamente, tinha câncer de pulmão.

Spinetta foi integrante da banda Almendra, que junto com Manal e Los Gatos, integram o trio de grupos fundadores do rock nacional argentino. Ele também participou da banda Pescado Rabioso, entre outras. Spinetta é considerado o “pai do rock argentino”.

Ao longo de sua carreira Spinetta cantou com outros pesos-pesados do rock nativo, como Charly García e Fito Paez.

Em junho passado Spinetta fez sua última apresentação, no Chile. Uma semana depois soube que tinha câncer.

Os admiradores de Spinetta afirmam que ele foi para o Paraíso dos roqueiros. Portanto, sustentam, ele largou a guitarra e passou para a harpa.

“Obrigado, gosto muito de vocês” foi a frase que “El Flaco” destinou a seus fãs em seu último comunicado público, pouco tempo antes de morrer.

Aqui, a modo de réquiem, algumas de suas obras:

 

E aqui, uma composição de um colega de Spinetta, Charly García, que compôs “Canción para mi muerte” em 1972.

Os especialistas a definem como uma “balada com um touch tangueiro, pessimista e nostálgico” que retoma o espírito de “Volver”, de Carlos Gardel.

Nos próximos dias falaremos das minas polêmicas em Catamarca e San Juan. E também, ainda dentro do quesito “minas”, embora não as geológicas, explicaremos o fenômeno de internet de Keyra Agustina, pseudônimo de uma jovem argentina cujos anônimos e altruístas (estes adjetivos explicarei no post) glúteos são os únicos representantes sul-americanos em um ranking mundial dos 20 mais excelsos derrières femininos do planeta Terra, elaborado pela britânica revista Zoo há poucos dias.   

   

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