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Ariel Palacios

 

Celebração de arromba nesta noite do 31 de dezembro no quartel-general do blog Os Hermanos, na espera da chegada do ano 2013. A noitada está sendo embalada pelos nosso grupos (amadores, obviamente) de gaita de foles “Los troesmas de Villa Crespo” e seu eterno rival “Los avivados de Balvanera”, que durante o ano teve uma cisão. Por isso, também está presente o dissidente grupo klezmer-techno “Patrício Koenig y Los Vareniquecitos de Ricota”, do bairro do Once, que entoou “Tangelle que me hiciste mal y sin embargo te quiero” com um touch de chacarera.

No entanto, os dois grupos principais interpretaram o clássico destas noitadas, “I lef my heart in Chascomús”, além de “Adiós Quixeramobim mia”. E, como não podia faltar, “Anclao em Tacuarembó”

O deputado Mutatis de Oliveira e o senador Mutandis de Oliveira fizeram, como de costume, longos discursos com um balanço sobre 2009 (Mutandis, que estava demasiado bêbado e errou o ano) e perspectivas para 2012 (Mutatis, que estava sóbrio…ou quase isso).

O senador Byron Bezzerra, proveniente da S.Luis brasileira (e não do território dos Rodríguez Saá) fez a clássica récita de um poema épico, embalado pelo moscato “El Vasquito”, néctar inexorável de nossas noitadas.

Ele veio acompanhado pelo deputado Vladivostock Menezes Sobrinho, que tomou a palavra para pedir “alka seltzer para todos”. “Não pouparemos esforços nesse sentido”, prometeu o bravo parlamentar (pelo segundo ano consecutivo…e , como de costume, sem avanços).

Menu da noite, pizza e fainá “revisitadas”. Sobremesa: flan com dose dupla de dulce de leche, colocada pelo próprio senador Mutandis, “porque se me canta poner doble”, após fazer alusões sobre um duplo income proveniente de alguma votação no plenário, mas sobre o qual posteriormente disse nada lembrar.

Vladivostock também arrematou com um discurso apelando aos “triscadecáfobos”, isto é, uma pessoa que sofre de “triscaidecafobia” - pessoas que tem medo do número 13 – que não temam por 2013, já que serão apenas 365 dias. “Relaxem”, exclamou, enquanto erguia a taça do brinde e fazia os passos de um xaxado.

E, de presente aos amigos, um clássico espanhol – com mais de um século de existência - sobre as “Etapas da bebedeira”, cuja autoria é desconhecida, embora em algumas ocasiões foi atribuído ao escritor Benito Pérez Galdós. A seqüência é útil para esta noite:

1 – Bebida leve em copo pequeno

2- Bebida em copo grande

3 – Exaltação da amizade

4 – Cantos alegóricos e danças regionais (que atualmente pode ser substituída por hinos dos times de futebol ou os hits do momento)

5 – Momentos de declarar “verdades” e empatias pessoais

6 – Aumento da temperatura e assédio sexual (que inclui a auto-apresentação a desconhecidos)

7 – Revelação da verdadeira personalidade

8 – Degradação do idioma

9 – Insultos contra o clero, o Estado (e outros poderes)

10 – Declarações de auto-suficiência moral e econômica

11 – Deslocamento ou transmissão da culpabilidade

12 – Repentina perda do equilíbrio

13 – Destruição do imóvel

14 – Resistência à saída do imóvel onde transcorre a bebedeira

15 –Taquicardia e delírio de perseguição

16 – Amnésia, crua realidade e juramentos posteriores

17 – Contabilidade dos prejuízos

18 – Declarações enfáticas sobre a determinação a não voltar a beber

 Um supimpa 2013 a todos!!!!

E para inicar o novo ano, deixo aqui esta balada de Judy Collins, de 1966, “In my life”:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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 TV Pro Nobis: Amplos privilégios para a Igreja Católica no novo mapa da mídia. Evangélicos reclamam disso. O Estado argentino é laico…pero no mucho. O quadro acima, de Francisco de Zurbarán (1598-1664), mostra o bispo Aurelius Ambrosius (mais conhecido como Santo Ambrósio), um dos principais doutores da Igreja Católica. Foi pintado entre 1626 e 1627. Está no Museu Provincial de Belas Artes em Sevilha, Andaluzia.

A Lei de Midia, aprovada em 2009 pelo Parlamento argentino – e que entrará em plena vigência a partir da meia-noite desta sexta-feira – está gerando grande irritação entre os evangélicos deste país, além de outros grupos religiosos da sociedade argentina. O pivô dessa irritação é que a lei – a menina dos olhos da presidente Cristina Kirchner – determina em seu artigo número 37 que a Igreja Católica será a única entidade religiosa que terá direito a canais de TV e e estações de rádio sem necessidade de autorizações prévias ou licitações.

Gastón Bruno, vice-presidente de relações externas da Aliança Cristã de Igrejas Evangélicas da Argentina (ACIERA), afirmou que a entidade defende “a igualdade religiosa” na Argentina. “Não estamos contra credo algum. Simplesmente queremos tratamento igualitário”, afirma Bruno, lamentando a exclusão das igrejas evangélicas da lei de mídia. “Nós representamos 5 milhões de pessoas”, afirma.

“Para o Estado argentino as igrejas evangélicas são entidades civis e não uma fé. E isto ocorre 200 anos depois da independência do país, momento no qual se produz a igualdade de vários direitos de vários setores. Mas nós, embora sejamos uma minoria crescente e dinâmica, não somos tratados de forma igualitária”, explica.

O Conselho Nacional Cristão Evangélico (CNCE) da Argentina sustenta que lei de mídia gera “uma dolorosa e inexplicável discriminação religiosa”.

As outras entidades religiosas, entre elas, as vinculadas comunidade judaica (a maior da América Latina) e a muçulmana, também ficam de fora desses privilégios que a presidente Cristina Kirchner – que cita Deus e o marido morto em seus discursos – concedeu à Igreja Católica. Oficialmente, a Argentina possui um Estado laico.

A decisão do governo de privilegiar a Igreja Católica constrange os militantes kirchneristas. O próprio Martín Sabbatella, diretor da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (Afsca), além de deputados, evitam falar sobre o assunto. No máximo alegam que a Igreja Católica possui um status legal especial, já que é uma entidade pré-existente ao próprio Estado argentino. Isto é: existia Igreja Católica antes da Argentina ser independente. “Se for por isso, as igrejas protestantes também existiam aqui antes da independência”, afirma Bruno. “Inclusive, vários evangélicos lutaram nas guerras da independência”.

Coincidentemente, a alta hierarquia do clero em Buenos Aires – que havia desferido duras críticas contra os Kirchners durante vários anos – desde a aprovação da lei de mídia, embora pronuncie alguma eventual crítica, manteve um perfil mais baixo e evitou participar das controvérsias sobre a norma que limitará a atuação das empresas privadas na área de jornalismo.

EM TEMPO: O Estado argentino, por uma lei da ditadura (a de número 21.950), paga os salários dos bispos e dos padres da Igreja Católica. Também subsidia seminaristas. O governo Kirchner nunca disse nada sobre este assunto. Quem quiser ver uma lista de algumas leis que beneficiam com exclusividade o setor citado, aqui há um link oficial, do Ministério das Relações Exteriores e Culto (assuntos burocráticos relativos à religião são tratados pela chancelaria): http://www.culto.gov.ar/dircatolico_normativa.php

Cristina Kirchner, em reunião com altos representantes da Igreja Católica na Casa Rosada. Presidente argentina tem relação de tensões e tréguas com o Vaticano. Mas, durante polêmicas da Lei de Mídia a Igreja ficou em silêncio (e, em alguns casos, a elogiou). Na foto acima, o bispo José María Arancedo, líder da Igreja Católica na Argentina, que no final do ano passado substituiu o cardeal Jorge Bergoglio. Na reunião Cristina reforçou sua posição contra o aborto (na contra-mão de diversos setores de seu partido e de grupos da oposição que pedem sua descriminalização).

MAIORIA ATEIA - Segundo uma pesquisa realizada em 2009 pelo governo, 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes.

A totalidade das igrejas evangélicas na Argentina não reúne mais de 10% da população. Mas, ao contrário dos católicos, o grupo evangélico é totalmente praticante. Os evangélicos argentinos não possuem uma bancada que os represente no Parlamento, e tampouco contam com redes de televisão.

Os ateus, no entanto, segundo a pesquisa, ultrapassam católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população.

O país conta com a maior comunidade judaica da América Latina – calculada entre 300 mil e 500 mil pessoas – além de uma presença muçulmana (estimada em 500 mil pessoas) nas províncias do norte e noroeste.

Até a reforma constitucional de 1994 a Carta Magna determinava que somente poderia ser presidente um católico apostólico romano. A reforma excluiu essa restrição.

Trecho do filme “Habemus Papa”, do diretor italiano Nanni Moretti, no qual os cardeais clausurados para um conclave ouvem repentinamente o “Todo cambia” da argentina Mercedes Sosa. Uma saborosa cena, digna de antologia:

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 Bandeiras dos EUA e da Espanha superpostas. Empresas americanas possuem vantagens jurídicas na Argentina. Empresas espanholas idem, por outras vias. Lei de Mídia impede que empresas estrangeiras sejam donos de canais na Argentina. Mas, se os canais são friendly, tornam-se mais argentinos que o alfajor de chocolate. 

“Nac e Pop” (ou Nac y Pop, em espanhol, a forma abreviada de “Nacional e Popular”) é a forma como a presidente Cristina Kirchner define sua política. Segundo ela, a Lei de Mídia – além de reduzir o poder dos atuais grupos de comunicação – tem o objetivo de valorizar os conteúdos de programação, além de privilegiar os capitais argentinos na área de mídia. No entanto, apesar do discurso nacionalista, a presidente Cristina está fazendo vista grossa para a ostensiva presença estrangeira em dois canais com alta audiência: a Telefé, pertencente à empresa Telefônica da Espanha e o canal Nueve, de propriedade de um empresário mexicano que no Hemisfério Norte é apelidado de “El Fantasma” (O Fantasma), por suas atividades supostamente obscuras.

A Lei de Mídia impede que um empresário estrangeiro tenha mais de 30% de um meio de comunicação e que controle a empresa. Desta forma, ficariam proibidas as existências do canais Telefé e Nueve, que são respectivamente de uma empresa espanhola e de um mexicano. No entanto, ficaram de fora das críticas da presidente Cristina e seus ministros, já que possuem um discurso altamente elogioso com o governo Kirchner e omitem notícias inconvenientes para a Casa Rosada.

Ao longo das últimas duas semanas, com a proximidade do deadline oficial para a adequação total às normas da Lei de Mídia, surgiram críticas da oposição e de empresários argentinos sobre os favores feitos pelo governo Kichner aos estrangeiros. No entanto, Martín Sabbatella, presidente da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (Afsca), a entidade encarregada da aplicação da lei de mídia, defendeu os empresários estrangeiros, alegando que são legalmente argentinos.

Sabbatella admitiu que existe uma exceção para a americana Directv, de televisão por satélite, já que tem existência prévia o acordo de investimentos recíprocos com os EUA.

 

No caso do canal “Telefé”, o de maior audiência do país (o segundo em audiência é o “Trece”, do Grupo Clarín), que pertence à Telefónica da Espanha, também existe uma condição de privilégio. “Está dentro da lei de bens culturais”, explicou Sabbatella sobre o canal, que entre seus colunistas semanais conta com um ex-ministro da presidente Cristina, o atual senador Aníbal Fernández. Mas, ele também alega que a Telefé e a Telefônica são duas empresas diferentes, embora o presidente da empresa de telefonia ibérica integra a diretoria do canal de TV.

Além disso, Sabbatella nada diz sobre o ponto da lei de mídia que impede que uma empresa estrangeira tenha incompatibilidade para agir na mídia por ser companhia de serviços público, como é o caso da Telefónica. A empresa, graças à presidente Cristina Kirchner, controla também a Telecom da Argentina, criando um cenário de oligopólio no qual a companhia ibérica domina 70% da telefonia argentina.

O outro caso é o do Canal Nueve, do empresário mexicano Ángel Remigio González-González, que conseguiu a licença da empresa por intermédio de uma companhia com base nos EUA. Seu canal transmite diversos programas cujos apresentadores disparam fortes acusações contra os partidos da oposição e a mídia crítica com os Kirchners.

Telefé ocupa o primeiro lugar de audiência, seguido de perto pelo Canal Trece, pertencente ao Grupo Clarín, crítico com o casal Kirchner. O Nueve disputa o terceiro posto de audiência com o América 2, canal argentino que também está alinhado com a presidente Cristina.

O Telefé e o Nueve foram favorecidos com a participação há mais de um ano no pacote de TV digital da presidente Cristina. O Grupo Clarín, de capital nacional, não conseguiu a concessão para as operações com o sinal digital.

E para encerrar esta madrugada, o segundo movimento de “Fiesta criolla” do americano Louis Moreau Gottschalk:
 

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A maior parte dos canais de TV do país pertecem a empresários alinhados com o atual governo. Na foto acima, a presidente C.E.F.deKirchner discursa na frente do quadro de JD Perón e Ma.Eva D.dePerón no Museu do Bicentenário.

“Do total de seis canais de TV de presença nacional destinados à transmissão de notícias por cabo, somente um não está sob o controle direto ou indireto do governo da presidente Cristina Kirchner”. A afirmação é do jornalista José Crettaz, catedrático de economia da mídia na Universidade Argentina da Empresa (Uade), e um dos principais especialistas do país sobre a Lei de Mídia. “Dos cinco canais de TV abertos da cidade de Buenos Aires, cujo conteúdo é distribuído para todo o país, apenas um permanece fora da órbita do kirchnerismo”, afirma Crettaz ao Estado.

Segundo ele, o controle direto ou indireto sobre a mídia por parte dos Kirchners começou nos primórdios da carreira política do casal, quando Nestor Kirchner foi prefeito de Rio Gallegos (1987-91) e governador da província de Santa Cruz (1991-2003), onde conseguiu um sistema de mídia local totalmente alinhado com sua administração.

“O AMIGOPÓLIO” - O governo Kirchner costumeiramente afirma que enfrenta um “monopólio midiático”, em alusão ao Grupo Clarín, dono de vários jornais, estações de rádio e canais de TV. Mas, a oposição retruca e sustenta que nos últimos anos o casal Kirchner armou seu próprio “monopólio” de meios de comunicação aliados. Os meios aliados receberam substanciais volumes de publicidade oficial, enquanto que os meios não alinhados recebem porções mínimas.

Além do Grupo Szpolski, os Kirchners contam com o respaldo midiático (em maior ou menor intensidade) do jornal “Página 12”, do canal “C5N”, do “Canal 9”, e do canal “Telefé” (o de maior audiência do país).

No caso da Telefé, pertencente à Telefônica da Espanha, conta como colunista com o senador Aníbal Fernández, braço-direito de Cristina na Câmara Alta.

Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner.

Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibida pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são “argentinos”.

Além disso, o governo Kirchner possui uma grande rede estatal nacional de TV e rádio (a TV Pública e a Rádio Nacional, entre outras). A deputada Alicia Argumendo, do partido de esquerda Projeto Sul, de oposição, ironiza e chama os meios de comunicação alinhados com os Kirchners de “amigopólios”.

DEPENDÊNCIA - Diversas estimativas indicam que pelo menos 80% das estações de rádio e canais de TV dependem do governo. Estes canais foram cooptados das mais diversas formas, tanto pela compra dos canais realizados por empresários amigos, enormes quantidades de publicidade oficial, concessões regulatórias em troca de acompanhamento editorial, licenças provisórias de TV digital somente para os aliados incondicionais. Em vez de democratização dos meios de comunicação, o cenário tende para hegemonia.

Jorge Liotti, professor de relações internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA) e especialista em meios de comunicação, afirmou ao Estado que “a falta de proporção no destino de verbas da publicidade oficial para os jornais é uma constante na política do governo Kirchner. Desde a volta da democracia, em 1983, nunca houve nada assim. É a primeira vez que um governo aplica sanções pela modalidade da distribuição da publicidade oficial. E isso é feito de forma explícita. Não há respeito pelas proporções das quantidades de leitores e vendas. É um critério totalmente arbitrário”.

 

E para embalar este crepúsculo de 5afeira, o “L’après-midi d’un faune”,de nosso querido gaulês Claude Debussy. Na batuta o batutésimo Georges Prêtre com a Orchestre National de France. O genial Philippe Pierlot sapeca na flauta:

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Entre o final dos anos 40 e início dos 50 o então presidente Juan Domingo Perón tinha o controle da maior parte da mídia argentina. Poucos persistiam em criticar suas políticas. Um deles, o “La Prensa”, foi alvo de uma intensa guerra desatada pelo governo, que tentou asfixiar o jornal por intermédio de ações do fisco, denúncias sanitárias, boicote ao periódico, redução na venda de papel de jornal, entre outras medidas. Acima, o casal Juan Domingo Perón e Eva Duarte de Perón em pose de gala. O quadro está atualmente no Museu do Bicentenário, atrás da Casa Rosada. Detalhe interessante: por causa do amplo sorriso do carismático Perón, o militar que tornou-se presidente quando era coronel, era chamado de “Coronel Kolynos”.

Fui derrubado do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto tinha todos os meios contra mim!”. A frase foi pronunciada pelo presidente Juan Domingo Perón em 1974, pouco antes de morrer. O septuagenário caudilho, que fazia um balanço sobre sua relação com a mídia, referia-se à sua queda em 1955 – quando ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação – e de sua vitoriosa eleição, em 1973 – que bateu recordes de votação – quando a mídia era majoritariamente contrária ao fundador do peronismo.

Perón foi intensamente recordado nos últimos três anos, desde a aprovação da Lei de Mídia, já que – segundo os analistas políticos – a presidente Cristina Kirchner, em vez de ter a atitude de tolerância dos derradeiros anos de Perón, reprisa a ambição de ter o controle total da mídia que havia caracterizado o fundador do peronismo no início da carreira, nos anos 40 e 50.

Da mesma forma que Cristina tenta atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, a principal holding multimídia argentino, Perón colocou uma bateria de restrições à mídia privada e armou uma superestrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.

Perón, em seus primeiros dois governos (1946-55), contava com uma ampla rede de comunicação que divulgava as notícias favoráveis à sua administração e omitia os assuntos inconvenientes. Ele contava com o Alea S.A., um monopólio estatal criado em 1951 que tinha o respaldo de três grupos que eram nominalmente privados mas que estavam diretamente comandados pelo governo: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón (que publicava um dos principais jornais do país, o “La Razón”).

Segundo o historiador Eduardo Lazzari, a primeira estratégia de Perón em relação aos meios de comunicação foi a de defender-se das críticas. No entanto, pouco tempo depois de chegar ao poder o fundador do peronismo concluiu que a defesa não era suficiente. Desta forma, começou a pressionar os donos de meios de comunicação a vender seus jornais, revistas e estações de rádio.

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No início dos anos 50 Perón abraça efusivamente o ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner. Quando foi derrubado, em 1955, Perón buscou refúgio em Assunção, capital do país do amigo presidente paraguaio. E embaixo, em 1974, cumprimenta o recém-empossado ditador/general chileno Augusto R. Pinochet. O “R” é de “Ramón”.

Boa parte das pressões eram realizadas pela Comissão Bicameral Investigadora de Atividades Anti-argentinas. comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.

Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco. Algumas eram alvo da vigilância sanitária: se os vasos sanitários dos banheiros dos funcionários apresentassem alguma irregularidade ou sujeira maior à costumeira, podiam ser fechados.

Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo. O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.

O antigo edifício do La Prensa, na avenida de Mayo. Atualmente é a Secretaria de Cultura da capital argentina

LA PRENSA – A “mãe de todas as batalhas” de Perón na mídia foi o combate contra o “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz, definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.

O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.

Tal como o “Clarín” atualmente, o “La Prensa” era alvo de blitze sem justificativas do fisco argentino.

Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico. O “La Prensa” sobreviveu vendendo os exemplares em sua sede aos leitores que iam até o centro portenho comprar o jornal.

O “La Prensa” estava disposto a resistir, apesar da guerra desatada por Perón. Sem conseguir colocar o jornal de joelhos, Perón, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – ordenou o confisco do “La Prensa”, que foi entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.

O historiador Luis Alberto Romero afirmou ao Estado que a liberdade de expressão nos tempos de Perón sofria um amplo leque de problemas, indo desde o “fechamento de jornais, passando pelo confisco e estatização dos meios de comunicação, até a auto-censura”. Romero relata que seu pai, o historiador José Luis Romero, que era colaborador do jornal “La Nación”, às vezes dizia ao filho que o estilo jornalístico desse periódico estava “muito imbricado”.

“Mas essa era única forma de conseguir dizer certas coisas, por intermédio de elipses, evitando ser explícito, para driblar problemas com o governo de Perón, que já havia demonstrado sua determinação em anular meios críticos fechando o ‘La Prensa’”.

Perón e Evita assistem uma parada militar na frente do Congresso Nacional

Jornais como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.

Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um periódico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, que teve apoio de Perón e que é o leitmotiv da política da presidente Cristina Kirchner.

E, para encerrar esta noite, a “Lacrimosa”, do Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Rege Hebert von Karajan:

 

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A frigideira-power foi usada contra Allende, contra Pinochet, contra Menem, contra De la Rúa, contra Cristina Kirchner…Nesta noite de quinta-feira os panelaços direcionam-se novamente contra ”La Pinguina”.

“El Cacerolazo” (O Panelaço): Denominação da barulhenta modalidade de protesto que consiste em bater de forma rítmica utensílios metálicos de cozinha, principalmente as “cacerolas” (panelas).

A História dos panelaços mostra que os utensílios de cozinha não possuem ideologia política, já que os primeiros panelaços surgiram no Chile para protestar contra o presidente socialista Salvador Allende em 1973. No entanto, em 1986 e 1989 os panelaços chilenos foram direcionados contra o ditador de extrema direita, o general Augusto Pinochet.

Em 1996 foi a vez da Argentina tornar-se o cenário de panelaços acompanhados por apagões para protestar contra a política do presidente Carlos Menem. Em 2001 e 2002 essa modalidade de protesto teve seu apogeu de forma quase diária contra os presidentes Fernando De La Rua, Adolfo Rodríguez Sáa e Eduardo Duhalde. Na época os panelaços argentinos obtiveram fama mundial.

A retomada do crescimento econômico, em 2003, com o presidente Nestor Kirchner fez os panelaços desaparecerem. Mas este modus operandi de protestar contra o governo de plantão voltou quando a presidente Cristina Kirchner teve o conflito com o setor ruralista em 2008.

Os panelaços retornaram mais uma vez neste com o crescimento dos problemas econômicos, especialmente a disparada da inflação, além dos escândalos de corrupção. De quebra, segundo afirmou ao Estado a analista de opinião pública Mariel Fornoni, o tom agressivo dos últimos discursos da presidente Cristina irritou diversos setores da população, servindo de combustível para os panelaços, especialmente o último, no dia 13 de setembro.

 Para um “instant cacerolazo”, ver este site chileno, aqui. 

UTENSÍLIOS DE COZINHA E IRRITAÇÃO POPULAR - Um panelaço é uma modalidade de protesto que consiste em bater utensílios de cozinha metálicos para gerar um barulho que pretende ser interpretado como o som da “irritação popular”.

Na crise de 2001-2002, um empresário portenho percebeu a existência de um nicho de mercado e criou um panelaço semi-automático, já que consistia em uma panela com uma manivela que mexia a tampa desse utensílio.

Nos últimos panelaços portenhos foi utilizada de forma intensa a garrafa de plástico, que produz um som seco também adequado para expressar irritação. A vantagem das garrafas é que não estraga as panelas de casa, além de ser mais leve.

 

MÁQUINA E JOGO - No início de 2002 um inventor portenho criou a “máquina de panelaço”, que consistia em uma panela com uma manivela que na ponta tinha a tampa do utensílio doméstico. Ao girar a manivela, a tampa batia na panela ritmicamente, propiciando um menor esforço por parte do “cacerolero” (“panelaceiro”?). Na ocasião, vendeu várias centenas de unidades. Mas, a recuperação econômica de meados de 2002 acabou com seu incipiente business.

Na mesma época, embora com um sucesso um pouco mais prolongado, o empresário Gustavo Federico Gómez lançou no mercado o jogo “Cacerolazo” (Panelaço), que consistia em conseguir as melhores condiçõesde vida para a população de uma província. No meio do tabuleiro do estilo do “banco imobiliário” existiam obstáculos como os sindicatos, empresas, o governo federal, partidos políticos, o FMI, bancos, a polícia, o jornalismo, a igreja. Se uma das cartas indicava tempos ruins pela frente, o jogador podia revidar acudindo a um panelaço de protesto.

      

Pensando em panela lembrei deste jazz do genial Fats Waller, “All that meat and no potatoes” (Toda essa carne e sem batatas):

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Banheiro-gate: Felisa Miceli, ex-ministra dos Kirchners é a primeira a sentar no banco dos réus por dinheiro encontrado no retrete ministerial. Miceli não justifica dinheiro encontrado em uma sacola em seu banheiro privado. Acima, ilustração que mostra papel-higiênico vitoriano. Na segunda metade inferior da postagem, nossa homenagem ao emérito sir John Harrington, que nunca – suponho – imaginaria que sua criação seria cenário de escândalo de corrupção e de gasto oficial.

Felisa Miceli, ex-ministra da Economia, tornou-se nesta segunda-feira a primeira integrante do governo Kirchner a sentar no banco dos réus para um julgamento oral e público de um escândalo de corrupção, o denominado “Caso do Banheiro”. Miceli é acusada de encobrimento da uma operação financeira ilícita e da destruição de documentos oficiais. O caso veio à tona em 2007, quando os guardas da Brigada de Explosivos do Ministério da Economia encontraram no banheiro privado da ministra uma sacola de papelão com notas de pesos argentinos e dólares de origens misteriosas.

Entre 2005 e 2007 Miceli foi a primeira mulher na História da Argentina a ocupar a pasta da Economia.

Felisa Miceli, ainda ministra, antes do affaire do retrete

Na época, Miceli, que era ministra do governo de Néstor Kirchner, forneceu uma série de confusas explicações sobre a origem do dinheiro dentro da sacola de papelão, onde estavam guardados 100 mil pesos (na época cotados a US$ 35 mil), além de outros US$ 31 mil em cédulas americanas. Miceli alegou que o dinheiro era seu, e que havia sido guardado no banheiro para realizar uma operação imobiliária para sua filha. Mas, dias depois, afirmou que o dinheiro era de um de seus dois irmãos, Horácio Miceli. No entanto, posteriormente argumentou que os pesos e os dólares eram de outro irmão, José Rubén.

Após o surgimento de pistas que indicavam que o dinheiro havia saído de forma irregular do Banco Central, a ministra renunciou ao cargo.

A investigação jornalística original do jornal “Perfil” que trouxe à tona o escândalo havia revelado que a quantia encontrada na sacola de papelão consistia em US$ 140 mil, 50 mil euros e 100 mil pesos.

Este é o primeiro escândalo de corrupção do país que teve como cenário um toilette.

Breve interlúdio pictórico:

“La toilette”, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec. O quadro, de 1896, está no Museu D’Orsay, Paris.

Voltamos à nossa programação normal:

Anos depois Miceli começou a trabalhar na Fundação das Mães da Praça de Mayo, onde envolveu-se em um novo escândalo. Desta vez, em um fundo fiduciário irregular para a construção de casas populares.

Miceli – que atualmente afirma que é inocente e que tudo não passou de uma “armadilha” contra sua pessoa e o governo Kirchner – também é acusada pela Justiça de ter subtraído e destruído a ata policial que registrou a descoberta do dinheiro. Se for considerada culpada pelo tribunal, Miceli poderia ser condenada à uma pena de até seis anos de prisão.

O julgamento, que contará com o depoimento de 60 testemunhas, se prolongará até meados de dezembro.

Contribuintes na Argentina pagarão o equivalente a RS$ 1 milhão para que andar onde trabalha a presidente Cristina conte com um banheiro com mármore de carrara e iluminação computadorizada. E espaço para quadros. Acima, a presidente Cristina na semana passada, enquanto recebia o cantor de boleros (e antes pop) Luis Miguel na Casa Rosada.

VALIOSO RETRETE: REFORMA DE BANHEIRO DA CASA ROSADA CUSTARÁ RS$ 1 MILHÃO

O palácio presidencial argentino terá em breve um banheiro cuja remodelação, segundo o próprio Diário Oficial, custará RS$ 1 milhão, com piso de mármore de carrara, iluminação computadorizada e um espaço para pendurar quadros. O banheiro, cuja remodelação será feita pela empresa Kir, estará no mesmo andar onde está o escritório da presidente Cristina Kirchner, embora o anúncio oficial não indique se o toilette será usado pela chefe do Poder Executivo.

A revelação dos custos para o retrete oficial gerou grande polêmica em Buenos Aires. No entanto, o secretário da presidência, Oscar Parrilli, afirmou que esses fundos não estão somente destinados para o lavabo, mas também para mudar de lugar a cozinha presidencial instalada no segundo andar da Casa Rosada embora no Diário Oficial a quantia está exclusivamente destinada para o toilette.

Segundo Parrilli, os cozinheiros – quando batiam com os martelos nas milanesas – não deixavam a presidente trabalhar em calma. Os cozinheiros, explicou o secretário, estavam em cima do escritório da presidente.

Milanesas são um dos pratos preferidos dos argentinos. Presidente Cristina não conseguia trabalhar bem por causa dos martelinhos utilizados na elaboração do quitute bovino empanado.

E se a coisa é luxo, nada melhor do que “Nothing but the best”, com nosso amigo Chico Sinatra:

EFEMÉRIDE DO GLORIOSO RETRETE MODERNO

Sir John Harrington, inventor do vaso sanitário moderno morreu há 400 anos, no dia 20 de novembro de 1612. Escritor, inventor, Sir John propiciou a bilhões de Homo Sapiens-sapiens um lugar para a reflexão. Harrington também é lembrado por um cínico epigrama: “a traição nunca prospera. E por qual razão? É que se prospera, não é chamada de traição”.

O vaso sanitário moderno foi criado por Sir John Harrington, que nasceu no dia 4 de agosto de 1561 e morreu no 20 de novembro de 1612. Poeta, escritor e inventor inglês, em 1590 descreveu sua idéia – que despertava o interesse do público – na “Metamorfose de Ájax”.

Nessa obra, Harrington fala sobre o vaso sanitário, embora com algumas alusões escatológicas e anatômicas que a moral da época considerou de mau gosto.

Capa do livro de Harrington: “Metamorfose de Ájax”.

A rainha Elisabeth I, madrinha de Harrington, ficou furiosa com a repercussão e suspendeu a construção do aparelhos dentro das residências (era o plano comercial de Harrington).

Mas, a monarca manteve um retrete para ela própria e permitu que seu sobrinho tivesse um também.

O emérito Sir John até aparece como fantasma em seu vaso sanitário em um episódio do escatológico “South Park”. Aqui.

Fotograma do vídeo no qual sir John aparece no minuto 1:19.

Antes de Harrington existiam vasos sanitários primitivos. Mas, apesar da falta de high-tech, esses vasos primitivos tiveram crucial importância na vida da humanidade.

Esse foi o caso de Martinho Lutero, que em 1517 escreveu suas emblemáticas 95 teses em um retrete de pedra que estava instalado na parede de sua casa em Wittenberg.

Ali sentado, onde passou longas horas construtivas, rabiscando o texto no qual condenava as indulgências promovida pelo papa Leão X para financiar a construção da Basílica de São Pedro, Lutero – que sofria de pertinaz constipação – deparou-se (assim ele disse) com Satanás, que tentava desviá-lo de seus planos. E ali mesmo nesse water-closet de pedra, conseguiu expulsar o tinhoso.

O famoso retrete que deu início a uma verdadeira revolução que colocou a Europa, segundo historiadores, no caminho da Era Moderna, foi finalmente descoberto em 2004.

Diagrama do harringtoniano toilette em “Metamorfose de Ajax”

DENOMINAÇÕES RETRETAIS NA AMÉRICA LATINA

Retrete: A palavra significa “pequeno retiro”. Isto é, o pequeno espaço geralmente destinado ao ambiente onde está o vaso sanitário.

Escusado ou excusado: Termo usado em toda região, decorrente de uma “excusa”, uma “desculpa”. Uma frase do livro “Fiesta”, do Nobel Mario Vargas Llosa sobre o assunto: «Se echó talco en las partes pudendas y la entrepierna, y, sentado en el excusado, esperó a Sinforoso»

Poceta: Na Venezuela é o termo usado como referência ao antigo sistema, um poço.

Váter: Esta expressão é comum na Espanha, em referência ao water-closet, com a voluntária má vontade ou involuntária incapacidade de pronunciar o “w” como corresponde.

Servicio: A expressão é usada na Espanha. Mas também em áreas da América Central.

Sanitário: O termo é usado na Colômbia

Governos do casal Kirchner acumulam diversos casos de corrupção, vários dos quais com peculiaridades. Um dos mais famosos é o caso da maleta. Acima, durante um discurso em rede nacional de TV a presidente Cristina exibe “Cristinita”, a boneca que a homenageia. A boneca vende-se na lojinha do Museu Bicentenario.

ANEXO AO TOILLETE-GATE: ANTOLOGIA DOS CASOS DE CORRUPÇÃO DOS KIRCHNERS

Fundos de Santa Cruz (desde 2003): Nos anos 90 o então governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, enviou US$ 500 milhões para o exterior. Com o dinheiro fora do país, a província salvou-se do “corralito” (confisco bancário) de 2001 e a crise financeira de 2002. Kirchner prometeu que, quando fosse eleito presidente, o dinheiro voltaria ao país. Ele tomou posse em 2003. Mas os fundos somente voltaram entre 2007 e 2009. A oposição afirma que existem outros US$ 500 milhões em juros sobre os quais nada se fala e que não voltaram ao país.

Caso Skanska (2005): Escândalo que envolve empreiteiras argentinas e estrangeiras, entre elas a sueca Skanska, no superfaturamento das obras de dois mega-gasodutos no sul e norte da Argentina. O principal suspeito do affaire é o Ministro do Planejamento Julio De Vido. As denúncias indicam subornos pelo valor de US$ 5 milhões.

Trem-bala (2006): A Oposição acusa os Kirchners de graves irregularidades no contrato que o governo assinou com a empresa francesa Alstom para a construção do controvertido trem-bala argentino. O governo diz que o custo da obra seria de 2,5 bilhões de euros. Mas, a Oposição afirma que os contratos, da forma como foram elaborados, implicam em um custo três vezes superior ao orçamento oficial. O projeto foi suspenso.

“Valijagate” (Maleta-gate) ou o “Caso da Mala” (2007): Suposto envio de fundos de Chávez para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner em 2007. Existem pistas sobre o envio de pelo menos US$ 5 milhões.

Enriquecimento ilícito (desde 2008): A oposição, advogados independentes e a mídia acusam os Kirchners de enriquecimento ilícito. Eles afirmam que o crescimento de mais de 900% do patrimônio presidencial desde 2003 não tem justificativas contábeis lógicas. A presidente Cristina argumenta que seu enriquecimento deve-se aos investimentos em imóveis o fato de ter sido “uma advogada de sucesso”.

“Embaixada paralela” (2010): O ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, denunciou na Justiça que integrantes do governo da Venezuela e da Argentina durante vários anos exigiram a empresários exportadores de ambos países o pagamento de propinas de 15% a 20% para não causar obstáculos em suas operações de comércio bilateral. Segundo o embaixador as pessoas envolvidas na exigência da propina referiam-se a ela como um “pedágio”.

Caso Ciccone (2011): A Companhia Sul-Americana de Valores, a ex-Ciccone, tornou-se o foco do escândalo em dezembro passado quando investigações jornalísticas, posteriormente aprofundadas pela Justiça, revelaram pistas que indicariam que o vice-presidente Amado Boudou teria favorecido amigos seus na compra da gráfica, que há poucos anos estava a ponto de falir. Depois, Boudou teria ajudado os amigos a obter o contrato de impressão de notas de 100 pesos. Boudou tornou-se suspeito de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e negociações incompatíveis com a figura de funcionário público.

Mais uma vez, sir John Harrington, excelsa figura pouco reconhecida no século XXI. No dia 20 de novembro – sua efeméride – estaremos pensando nele. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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“A volta do filho pródigo”, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669). Pintado entre 1663 e 1665, está exposto no Museu Hermitage, em São Petersburgo. O retorno do Paraguai seria assim ou com outro formato?

O chanceler Antonio Patriota afirmou nesta quinta-feira que o momento para a reincorporação do Paraguai de forma plena ao Mercosul será avaliado na reunião dos chefes de Estado da União das Nações Sul-americanas (Unasul), marcada para o dia 30 de novembro na capital do Peru, Lima. O assunto voltará a ser analisado uma semana depois na cúpula do Mercosul em Brasília no dia 7 de dezembro.

“Quando houver plena vigência democrática no Paraguai, o país será reincorporado. Não é uma referência a eleições propriamente dita nessas decisões”, explicou Patriota aos correspondentes brasileiros em Buenos Aires ao sair do Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, após uma reunião com seu colega Hector Timerman.

Em junho, poucos dias depois do impeachment do presidente Fernando Lugo, que foi substituído por seu vice, Federico Franco, o Paraguai foi suspenso das reuniões do Mercosul temporariamente.

Os presidentes dos outros países-sócios do bloco determinaram que o Paraguai – o parceiro mais pobre do bloco do Cone Sul – somente seria reintegrado com plenos direitos quando “a ordem democrática” seja restituída no Paraguai. Os presidentes do Mercosul afirmaram que a remoção – feita pelo Senado eleito com o próprio Lugo em 2008 – foi irregular.

No entanto, o bloco depara-se com um inusitado problema burocrático, já que na cúpula de Brasília o Brasil teria que passar a presidência pro-tempore do Mercosul – atualmente nas mãos brasileiras – ao Paraguai, tal como ocorre há 20 anos. Mas, se a suspensão dos paraguaios persistir até a realização da cúpula, a presidência pro-tempore teria que ser entregue a outro país.

Perguntado se em dezembro a presidência pro-tempore passaria ao próximo país da lista (que é por ordem alfabética), o Uruguai, Patriota respondeu: “é uma pergunta hipotética…temos que ver o que os presidentes decidem em Lima”.

Patriota esteve menos de 24 horas em Buenos Aires, onde reuniu-se com o chanceler Timerman para analisar a agenda bilateral, além do caso paraguaio.

O Mercosul tinha quatro integrantes: Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. O Paraguai foi suspenso desse balé político-comercial temporariamente. Em seu lugar entrou outro dançarino para seguir com a coreografia: a Venezuela. Mas, a coisa não termina como em “O Pato” de João Gilberto em que “o quarteto ficará muito bom, muito bem”, pois quando o Paraguai retorne plenamente, o grupo virará quinteto. Na ilustração acima, “O Lago dos cisnes” (Лебединое озеро), balé de Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Mais especificamente, a parte dos quatro pequenos cisnes.

SUSPENSÃO & RETORNO

Na cúpula de Mendoza, onde o Paraguai foi suspenso do bloco, os presidentes dos outros países, isto é, o Brasil, Argentina e Uruguai, indicaram que o país só voltaria ao seio mercosulino plenamente quando a ordem democrática fosse reestabelecida.

Mas, em nenhum momento os presidentes indicaram rigorosamente quando poderiam considerar que a democracia estava reestabelecida. As declarações foram genéricas.

Perguntas/hipóteses sobre como o Mercosul poderia classificar o retorno à “vigência democrática”

1 - Para o Mercosul, a democracia volta no dia das novas eleições presidenciais paraguaias, marcadas para o dia 21 de abril de 2013?

2 – Para o Mercosul, a democracia no Paraguai só volta no dia da posse do novo presidente, dia 15 de agosto de 2013?

3 - Ou para o Mercosul a realização das convenções partidárias em dezembro deste ano no Paraguai seriam suficientes para considerar que o processo democrático está em andamento?

4 - Ou para o Mercosul a manutenção do calendário eleitoral, o funcionamento do Parlamento uruguaio e das liberdades cívicas atualmente abrem alguma espécie de brecha diplomática para permtir que os governos Mujica, Dilma, Kirchner e Chávez considerem que existe democracia neste momento no Paraguai?

5 - Ou alguma outra hipótese?

Paraguai senta à mesa do almoço familiar, mas fica no canto isolado por um semestre? Acima, Alberto Sordi em “Un americano a Roma”, de 1954, devora a pastasciutta.

Hipóteses sobre como fica a presidência pró-tempore do Mercosul no 1º semestre de 2013

1 - Caso o Mercosul não reincorpore o sócio agora em dezembro e “pule” a presidência pro-tempore do Paraguai, que país recebe essa missão? O Uruguai?

2 - Poderia o Mercosul topar a reincorporação do Paraguai em dezembro, mas deixar seu governo em uma espécie de “freezer político-diplomático” (na forma, embora não na prática) até a chegada de um novo governo, eleito nas urnas em abril do ano que vem?

Isto é, um “freezer” que apenas contemplasse a realização de reuniões de segundo escalão, somente com secretários e sub-secretários dos países-sócios? Os ‘Big Shots’, nesta hipótese, só reapareceriam quando o novo governo tomar posse. Existem chances para uma modalidade assim? Quem sabe? A própria suspensão do Paraguai também foi inédita. Portanto, nada exime que o bloco tome uma atitude sui generis.

Digamos assim: poderia algo parecido quando em um almoço familiar dominical convida-se por obrigação o parente inconveniente, o cara come a macarronada, experimenta a sobremesa mas ninguém fala com ele…a não ser o mínimo, para manter a formalidade. E, agem o mínimo…por exemplo, passar o saleiro quando o parente em questão pede. Mas daí a abrir a garrafa de licor de murici pra ele, nem pensar.

3 - Nesta hipótese de “reincorporação-com-freezer-adjunto”, com as eleições paraguaias realizadas, o Mercosul faria a cúpula em junho ou julho em Assunção?

4 - Ou o Mercosul atrasaria a cúpula de Assunção para o dia 16 de agosto, isto é, um dia depois da posse do novo presidente no dia da Assunção (15 de agosto)?

Isto é, seria uma espécie de formalidade para não ter que fazer a cúpula em Assunção com o presidente Federico Franco (que, especialmente os argentinos, encaram como um “usurpador”), mas sim com um presidente novinho-em-folha.

E, quem sabe, a conveniente presença de Lugo, possivelmente eleito como senador, para abençoar a reentrée do Paraguai no bloco?

O “abençoar” em questão é um caso de “bênção” política por parte do ex-presidente, e não religiosa, embora seja um ex-monsenhor. Mas, nestas coisas de política e religião, nunca se sabe…

ALFABÉTICA FORMALIDADE

As presidências pro-tempore no Mercosul são em sequência alfabética.

Isto é: Argentina – Brasil – Paraguai - Uruguai (A, B, P e U)

Em Mendoza foi a vez da Argentina. Em dezembro será no Brasil. Nos anos anteriores, antes da crise paraguaia, as cúpulas em Assunção eram em junho (às vezes foi em julho). E em Montevidéu, Uruguai, eram em dezembro.

A Venezuela, que entrou no Mercosul em julho, transformando o quarteto em quinteto, seria anfitriã depois da vez do Uruguai (A, B, P, U e V).

E para encerrar, os pequenos cisnes do balé Tchaikovsky, na versão do American Ballet Theatre, 2005. Bom fim de semana a todos!

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Aproveitamos este 11 de setembro, data do bombardeio do Palácio de La Moneda por ordens do general (e na sequência, ditador) Augusto Ramón Pinochet em 1973, para recordar esta postagem sobre a lenda que ainda perdura sobre esse edifício em Santiago e outro prédio no Rio.

Entre Santiago do Chile e o Rio de Janeiro aparece ocasionalmente a versão de que o Palácio de La Moneda – o palácio presidencial chileno – na verdade teria que ser a Casa da Moeda – o atual Arquivo Nacional – do Rio de Janeiro. E a mesma versão sustenta que a Casa da Moeda da ex-capital brasileira teria que ter sido o palácio presidencial do Chile.

A lenda é saborosa e indica que os projetos de um edifício e do outro, supostamente importados da Europa (algumas versões indicam que os projetos vinham da Inglaterra), teriam sido trocados no navio que descia da Europa rumo à América do Sul.

Segundo a lenda, os rolos de papel com os detalhes do palácio presidencial chileno, por confusão, teriam desembarcado na primeira escala, o Rio de Janeiro.

E, os planos destinados à construção da Casa da Moeda do imperial Rio dos Habsburgos & Bragança teriam virado pelo Cabo Horn, desembarcado em Valparaíso e finalmente levados até Santiago do Chile.

Mas, a lenda – apesar de divertida – não tem justificativas, já que os dois prédios são de épocas totalmente diferentes. A realidade, infelizmente, foi bem mais prosaica.

Os planos não foram encomendados à Europa. Foram feitos aqui mesmo na América do Sul (se bem que no caso do Chile, o arquiteto era um italiano que passou o resto de sua vida em Santiago e havia chegado anos antes para outras obras em Santiago).

 
O Palácio de La Moneda, Santiago Chile. Construído para ser uma casa da moeda, foi primeiro casa da moeda, depois foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda…até finalmente ser exclusivamente palácio presidencial
 
As obras do prédio do chileno Palácio de La Moneda começaram em 1786…enquanto que a ordem para construção do novo prédio (o tal da lenda) da Casa da Moeda no Rio de Janeiro é de 1853. As obras deste prédio carioca concluíram em 1868.

O Palácio de la Moneda foi construído para ser a Casa da Moeda em Santiago, no Chile colonial.

As obras começaram em 1786 e terminou em 1812 . O projeto é do italiano Gioacchino Toesca (que espanholizou seu nome para Joaquín Todesca). No entanto, ele não fez o projeto à distância. Toesca havia desembarcado em Santiago seis anos antes de iniciar a obra de La Moneda, para concluir a construção da catedral da cidade.

 

Gioacchino, aliás, Joaquín; Toesca, aliás, Todesca

A construção do prédio terminou no meio do rocambolesco mix de guerras de independência do Chile e dos outros países da região. Nesse prédio, em 1814 foram cunhadas as primeiras moedas do Chile independente.

Em 1845 a imensa construção começou a ser utilizada também como sede do governo da República e residência dos presidentes chilenos (antes disso, desde 1817, a sede do governo havia sido o edifício da Real Audiência, na Praça de Armas de Santiago, hoje transformada no Museu Histórico Nacional).

A Casa da Moeda funcionou – junto com os escritórios presidenciais – no Palácio de La Moneda até 1924. Isto é, durante quase um século foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda chilena.

Nesse ano a função de cunhar moedas passou para outro edifício. E o Palácio de La Moneda ficou somente como palácio presidencial. Mas manteve o nome da função original.

O La Moneda sob bombardeio em pleno centro de Santiago, em 1973

Em 1973 o Palácio de La Moneda foi bombardeado pelas forças do general (e depois do golpe, ditador também) Augusto Ramón Pinochet. Os foguetes lançados pelos aviões Hawker Hunter e os canhões do Exército destruíram grande parte do palácio e destruíram obras de arte, além da ata da independência chilena, documento que foi destruído pelas bombas de Pinochet.

O estilo do palácio em Santiago é o neoclássico italiano puro.

 

A antiga Casa da Moeda, na ex-imperial Rio de Janeiro. Foi a casa da moeda praticamente durante toda sua existência. Agora é o Arquivo Nacional. Nunca foi pensada para ser palácio presidencial ou imperial. Nem no Rio de Janeiro, muito menos na distante Santiago do Chile

O prédio da Casa da Moeda no Rio de Janeiro – situada na antiga Praça de Aclamação, atual Praça de República – é obra dos engenheiros Teodoro de Oliveira (geralmente o mais citado) e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro (quase sempre esquecido).

Seu estilo é um neoclássico adaptado ao Brasil…um estilo denominado de “Imperial Brasileiro”.

A Casa da Moeda esteve nesse palacete até 1983, ano em que foi removida para o Parque Industrial Santa Cruz. Hoje é a sede do Arquivo Nacional.

O prédio no Rio parecia mais palácio presidencial do que o Palácio de La Moneda em Santiago. Este tem mais physique du rôle de uma grande caixa de sapatos (uma excelente caixa de sapatos, segundo opinião de vários chilenos conhecidos) do que de qualquer outra coisa. Isso, evidentemente, alimentou a lenda da troca de projetos entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile.

De quebra, o edifício carioca possui colunas dóricas no andar de baixo e jônicas no andar de cima. E, além disso, uma imponente escadaria.

O edifício parecia mais imponente quando o bairro estava vazio no final do século XIX, então chamado Campo de Santana.

 

A antiga Casa da Moeda no Rio. Nunca esteve pensada para ser construída do outro lado da Cordilheira dos Andes

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Youtube censurou vídeo no Cristina Kirchner aparece tendo um suposto orgasmo político e no qual Barack H. Obama aparece como voyeur. O clipe tem como ponto principal o ato onanista do desenho que representa a presidente Cristina. Aliás, onanismo vem do nome bíblico Onan, que no Livro do Gênesis é filho de Judá…e que recebe uma peculiar ordem. Ele não a obedece. Aí, é punido pelos comandos celestiais e vai bater alcatra na terra ingrata, coitado (se bem que a palavra ‘coitado’, que vem de coito, não se aplica aqui). E aqui está o próprio relato oficial, segundo o Gênesis 38:8-10: “Então disse Judá a Onan: Toma a mulher de teu irmão, e cumprindo-lhe o dever de cunhado, suscita descendência a teu irmão. Onan, porém, sabia que tal descendência não havia de ser para ele; de modo que, toda vez que se unia à mulher de seu irmão, derramava o sêmen no chão para não dar descendência a seu irmão. E o que ele fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que o matou também a ele”.

Nunca antes na História da Argentina uma presidente da República – ou pelo menos, uma representação iconográfica de um líder do Poder Executivo do país – havia sido mostrado em pleno ato de auto-satisfação sexual. Por esse motivo, o grupo de rock “The Rockadictos” desatou polêmica com a divulgação de seu novo videoclipe, que exibe, em formato de desenho animado, uma personagem que simula ser Cristina Kirchner protagonizando uma sessão de intensos movimentos manuais com intuitos masturbatórios.

O clip inicia com imagens da presidente argentina, triste e solitária na penumbra de seu escritório na Casa Rosada. Repentinamente, ela abre as cortinas de sua janela sobre a Praça de Mayo e vê – iluminados pelos raios de sol – dezenas de milhares de argentinos que saíram às ruas para respaldá-la. Até esse ponto, tudo indicava que o clip era uma apologia à presidente Cristina, que conta com a simpatia de diversos grupos de rock argentinos.

No entanto, ao ver o frenesi da multidão, Cristina volta para seu escritório e – inesperadamente – como se estivesse sexualmente excitada com seu poder político, começa a acariciar seus próprios seios (aliás, o artista favoreceu a presidente, já que é ilustrada com um turbinadíssimo busto). Na sequência, abre seu tailleur, exibe uma elegante lingerie (de cor preta) e inicia uma seqüência manipulatória com evidentes fins de onanismo. Uma espécie de excitação suscitada pelo poder político. Henry Kissinger, ex-secretário americano disse em 1976 que “o poder é o maior afrodisíaco do mundo”. Bom, lá fora, a multidão antes unida por Cristina, começa uma desatada pancadaria entre seus integrantes.

Wilhelm Reich, o psicólogo austríaco, autor de “A função do orgasmo” (acho que no Brasil foi editado nos anos 80 pela Nova Fronteira) teria tido um prato cheio.

O austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e seu quadro “Mulher em auto-satisfação”. Em 1916 esta imagem deu um rebu danado.

Enquanto Cristina Kirchner – ou melhor, a personagem de desenho animado que representa a presidente em questão (Ceci n’est pas une pipe, né?, teria dito o compadre Magritte) – procede solitariamente em suas atividades onanistas, surge atrás das cortinas da sala presidencial da Casa Rosada, a imagem do presidente americano Barack H. Obama, que fica observando a cena protagonizada por sua colega argentina, em silêncio. Como um voyeur, este famoso havaiano fica sem mover-se. Obama só olha – isto é, que fique bem claro que não ocorre conjunção carnal presidencial bilateral norte-sul – Cristina chega ao clímax.

O surrealista videoclipe foi censurado pelo Youtube com o argumento de que a obra cometia “uma infração da política do Youtube relacionadas com nus e conteúdo sexual”. No entanto, o desenho da personagem que simula ser a presidente fica sempre vestida, apenas exibindo parte de sua lingerie.

“Shunga” (termo japonês para designar a arte erótica). Ilustração nipônica do século XIX da autoria do artista Utagawa Kunisada (1786-1865)

VÍDEO: O vídeo do Youtube foi censurado. Mas, permanece em outros sites, como este:

The Rockadictos – Un mensaje mas por f599076761

PENETRAÇÃO - Nas redes sociais, a penetração da polêmica foi grande e dividiu os argentinos entre defensores da liberdade de expressão artística e os críticos da obra roqueira, à qual acusavam de “ultraje” sobre a imagem da representante do Poder Executivo da Argentina.

O governo Kirchner, que geralmente retruca todo tipo de crítica ou observação sobre a presidente Cristina, manteve inusitado silêncio sobre o assunto. O dois principais jornais argentinos, o “Clarín” e o “La Nación”, também evitaram comentários sobre o polêmico clip. Mas, os jornais do interior deram destaque à polêmica pelo onanismo presidencial.

Na visão de Félicien Rops (1833-1898), o êxtase de Santa Teresa na gravura acima. E aqui, a descrição do êxtase narrado pela própria santa, que viveu entre 1515 e 1582 (se alguém tiver reclamações sobre o conteúdo, encaminhe os protestos à própria): “Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser um pequeno fogo. Ele parecia penetrá-la várias vezes no meu coração e perfurar minhas entranhas; quando ele a tirou, parecia atraí-los para fora também, e deixando-me em fogo, com um grande amor em Deus. A dor era tão grande, que me fez gemer, e ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela. A alma está satisfeita agora com nada menos que o próprio Deus. A dor não é física mas espiritual; embora o corpo dela partilhe. É uma carícia de amor tão doce que agora tem lugar entre minha alma e Deus, que rezo a Deus pela dádiva dessa experiência, que podem pensar que estou mentindo.”

BANDA - “The Rockadictos” é uma banda de rock criado em 2008. O grupo, formado por dois argentinos e um venezuelano que residem em Miami, concentra sus produção artística naquilo que eles denominam de “tiras cômicas musicalizadas”.

Szał uniesień”. Ou, no idioma de Camões e Sérgio Reis, ‘Frenesi do êxtase’. Óleo de 1894 do polonês Władysław Podkowiński(1866–1895) que representa o orgasmo de uma mulher. Está na Galeria de Arte Polonesa do século XIX no Sukiennice de Cracóvia.

DEBATE INFORMAL DO INSTITUTO SUGAWARA NO MICHIZANE DE DEBATES INFORMAIS DE BUENOS AIRES

O Instituto Sugawara no Michizane de Debates Informais de Buenos Aires aproveitou seu informal encontro bimensal para realizar um debate informal (em caráter extraordinário) sobre a representação de uma eventual atividade masturbatória na Casa Rosada. O debate transcorreu informalmente com várias – e informais – pessoas das mais diversas posições sociais, sexuais e políticas em um café (informal) de uma esquina do bairro de Balvanera (mais especificamente, na sub-área desse bairro chamada “Once”) na 3afeira à noite.

Em resumo, o debate gerou em linhas gerais as seguintes 4 posições:

a) …Pessoas que defendiam a liberdade de expressão dos artistas e levavam em conta que o rock é marcado pela irreverência e desafio aos poderosos. “É proibido proibir”, destacaram, recordando o slogan de maio de 68.

b) … Pessoas que consideraram que era um “ultraje” contra a figura da presidente da República, entre estas, basicamente militantes kirchneristas. Mas, também militantes da direita que pregavam mão dura contra qualquer indivíduo que ousasse qualquer representação artística sobre os líderes, de Margareth Thatcher a Cristina Kirchner, passando por Silvio Berlusconi e Mao Tse-Tung.

c)…Pessoas que afirmavam que a exibição de cenas masturbatórias era uma afronta contra a moral e bons costumes de um país católico governado por uma presidente católica.

d) …Pessoas que indicaram que o clipe mostra a quase sexagenária presidente argentina como uma mulher independente, com domínio de sua sexualidade e que exibe a pulsão reichiana latino-americana com ousadia na frente do representante do “império yankee”, que puritanamente, fica olhando, sem saber o que fazer perante o “vulcão” latino.

O garçom, don Alberto Quispe, imigrante boliviano (de Cochabamba), fez o único aparte externo, inquirindo se a presidente Cristina estava corretamente ilustrada no desenho (ele não havia visto o clipe). Isso suscitou uma discussão adicional entre os integrantes do Instituto, já que existiam divergências sobre o volume da turbinada bústea da líder do Poder Executivo e a relação realidade-fantasia da cintura da supracitada no desenho animado. Don Alberto ficou de pedir a seu filho que lhe mostrasse o clipe em casa, para remover pessoalmente suas dúvidas.

Após encerrar o assunto, o conclave passou à área gastronômica. Todos comeram avidamente umas pizzas de muzza com fainá. E vinho “El vasquito” pra descer o rango. Sobremesa: um orgásmico pudim de leite com doce de leite. Não façam interpretações errôneas sobre a viscosidade do doce em questão, por favor.

INTERMEZZO OPERÍSTICO

De Jules Massenet, “Manon”. O começo do segundo ato. Com Anna Netrebko e Rolando Villazón:

E já que estamos em clima de clímax, o “Poema do “Êxtase”, de Алекса́ндр Никола́евич Скря́бин, isto é, Alexander Nikolayevich Scriabin (1872-1915)

 

AUTO-SATISFAÇÃO LITERÁRIA

James Joyce imortalizou a cena mais famosa de masturbação feminina na literatura mundial com o final de seu livro “Ulisses”, denominado popularmente de “O monólogo de Molly Bloom”. O clímax da querida Molly aproxima-se in crescendo com seus diversos “sim” que pronuncia.

Aqui segue o texto do famoso irlandês que morreu em Trieste:

“… ..o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.”

A bombshell comme il faut Marilyn Monroe lendo o Ulisses de Joyce. Podem perceber que ela está lendo o trecho final da obra.

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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