Ariel Palacios - Estadao.com.br
ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

Clima da torcida do River estava neste domingo em compasso similar à Marcha funerária de Siegfried da ópera “Götterdämmerung” (O crepúsculo dos deuses), de Richard Wagner. Aqui.

“À beira do precipício”, “nas portas do inferno”, “vivendo um pesadelo acordado” foram as expressões alusivas à topografia, às alusões literárias dantescas ou ainda oníricas-psicológicas, que os torcedores usaram ao longo da última semana para definir a situação atual do clube River Plate. Esta centenária entidade esportiva, que acumula a pole position no ranking de títulos argentinos (33 campeonatos nacionais conquistados), além de aglutinar quase um terço do total dos torcedores do país, caiu neste domingo para a Segunda Divisão pela primeira vez em sua História.

O clima neste domingo era similar ao do funeral de Siegfried, na ópera “Götterdämmerung” (O crepúsculo dos deuses), de Richard Wagner. Mas, evidentemente acompanhado por uma série de elmentos não-wagnerianos, como as pedras, paus e tijolos que a torcida riverplatense arremessou sobre os integrantes do próprio plantel.

Os fanáticos também jogaram garrafas, pedaços das cadeiras das arquibancadas e até as bandejas de hambúrgueres das barraquinhas de vendedores ambulantes. Todo essa sequência foi acompanhada de elaborados epítetos contra as mães, avós e irmãs dos jogadores e dos diretores do clube.

Dezenas de milhares de torcedores riverplatenses mantiveram uma batalha campal de mais de duas horas contra apenas 2.200 policiais, que tentaram defender-se com o uso de carros lança-jatos, gases lacrimogêneos e cavalaria. Dezenas de policiais tiveram que enfrentar os manifestantes com socos.

Por trás desta inédita crise acumula-se quase uma década de problemas financeiros, brigas políticas, imbróglios administrativos, atrasos no pagamento do salário do plantel e a venda dos melhores jogadores para o exterior.

Mais crepúsculo dos deuses, do teutônico Ricky Wagner.

Voltando ao jogo: neste domingo o River empatou 1 a 1 com o Belgrano de Córdoba. Para evitar a queda para a Segunda Divisão precisava obter dois gols de vantagem. Isso não ocorreu. O resultado: a torcida, enfurecida, arremessou pedras e garrafas contra o time do Belgrano na hora em que este saía do campo.

Ao sair do estádio, que ficou depredado, a torcida riverplatense saqueou comércios da área, além de destruir vitrines de lojas.

O saldo desta jornada esportiva foram 68 feridos (dos quais 25 eram policiais) e destroços em propriedades privadas não relacionadas com o jogo em questão.

E, em referência ao supracitado time de nome em inglês, um pouco de Julie London entoando o “Cry Me A River”. Aqui.

PRESTÍGIO ABALADO - O River é parte de um trio de times que nunca haviam caído para a Segunda Divisão. Os outros dois são o Boca Juniors e o Independiente de Avellaneda. Fundado no dia 25 de maio de 1901, o River Plate – criado pela fusão dos times Santa Rosa e La Rosales – subiu para a Primeira Divisão em 1908 e nunca mais saiu dali. Além disso, o River acumula em suas estantes na sede no bairro de Núñez, um total de 33 troféus nacionais e cinco internacionais. 

MENOS DINHEIRO - Mais além de constituir um fato inédito na História do River e de ser um pesadelo para os torcedores – que deverão suportar as ironias e sarcasmos dos rivais, especialmente o Boca Juniors – a queda para a Segunda Divisão também implicará em um impacto econômico negativo.

O problema é que o River perderá grande parte dos dividendos pelos direitos de transmissão, passando dos atuais US$ 7,6 milhões anuais da Primeira Divisão para os US$ 875 mil pagos aos times da Segunda Divisão.

O River perderia ao redor de US$ 10 milhões anuais dos patrocinadores, que não teriam interesse em respaldar um time de segunda divisão.

De quebra, a cotação dos integrantes do plantel do River também sofreria uma forte queda.

Para torcedores do River, cair para Segunda Divisão é como despencar por um precipício. Acima, Miguelito – personagem do cartunista Quino – à beira de um precipício. A mãe de Miguelito exclama, assustada: “m-mas…o precipócio, Miguelito, cuidado, pelo amor de Deus!!”. Miguelito, interrompido em sua ação de jogar uma pedra abismo abaixo, avalia e pergunta preocupado: “ele quebra?”

SEM CLÁSSICO - A queda do River está gerando estupefação não somente entre os próprios torcedores mas também nas torcidas rivais. “Como seria um superclássico se o River não está?”, perguntou um dos mais famosos produtores de TV, Alejandro Borensztein, torcedor do Boca e humorista. “Sem o River o Boca não é o Boca”, ilustra.

Com a passagem do River para a Segunda Divisão, os argentinos ficarão – pelo menos durante um ano – sem chances de assistir o “superclássico”, denominação do embate periódico que protagonizam desde 1908 o time e seu rival histórico, o Boca Juniors.

Cena do precipício de “Agente secreto” do filme do brilhante Alfred Hichtcock. Para os fanáticos do River, a queda para a Segunda Divisão causou muito mais do que vertigens.

MIRÍADE DE TÉCNICOS - Desde 2008, ano em que ficou no vigésimo lugar no campeonato Abertura (isto é, o último posto da Primeira Divisão), o River passou pelas mãos de cinco técnicos (Diego Simeone, Nestor Gorosito, Leonardo Astrada, Angel Cappa e Juan José López).

A BOLA E O MÉDICO - Na TV portenha os médicos, entre eles o midiático Alberto Cormillot, haviam alertado os torcedores mais fanáticos para que tomassem cuidado com eventuais enfartes que poderiam ser provocados por uma derrota do time. “Durma bem na noite anterior e faça uma medição da pressão antes do jogo”, disse Cormillot.

A eventual derrota também tirava o sono da diretoria do River, já que a passagem à Segunda Divisão implicaria em graves perdas financeiras para o clube. A previsão é de uma fuga de patrocinadores que não estariam dispostos a respaldar um time de Segunda Divisão. 

SEGUNDA MAIOR TORCIDA - O River Plate, segundo pesquisa elaborada em 2009 pelo governo federal argentino, conta com 32,6% do total da torcida argentina. Seu maior rival, o Boca Juniors, aglutina ao redor de 40,4%.

MONUMENTAL DE NÚÑEZ, EMBORA EM BELGRANO – Oficialmente, o estádio do River chama-se “Antonio Vespucio Liberti”, em homenagem ao presidente do clube que o construiu em 1938. No entanto, usa-se a denominação popular de  “estádio Monumental de Núnez”, em referência ao bairro de Núñez. Mas, apesar do nome, o estádio do River está no bairro de Belgrano, a poucos quarteirões da fronteira com Núñez. Coincidentemente, existe um time chamado “Defensores de Belgrano”, que está no bairro de Núñez.

Acima, “Burro”, nome do burro do filme “Shrek”, protagonizada pelo ogre homônimo, discursa para platéia. Em Córdoba, região central da Argentina, um parente distante seu tornou-se um certeiro oráculo futebolístico

O CERTEIRO ASNO ORÁCULO – O falecido polvo anglo-germânico Paul, oráculo futebolístico da última Copa do Mundo – que acertou sobre os resultados dos jogos protagonizados pela Alemanha – já conta com um sucessor que promete fazer carreira.

O correligionário em questão reside na cidade de Córdoba. No entanto, não pertence à família dos octópodes, tal como o defunto polvo europeu. O profeta cordobês é um eqqus africanus asinus, a.k.a. “burro” ou “asno”.

“Andrés” – o nome do jumento cordobês – vaticinou que o jogo deste domingo acabaria em empate.

O método realizado por seus proprietários foi o de colocar na sua frente três fardos de feno.

Um dos fardos ostentava a bandeira do River, outra exibia a bandeira do Belgrano enquanto que o terceiro fardo não contava com identificação alguma, simbolizando o empate. “Andrés” escolheu o feno desta última opção.

Ontem, torcedores de ambos times puderam constatar que Andrés havia vaticinado corretamente, já que o River e o Belgrano empataram 1 a 1. 

O lord e almirante Horatio Nelson (1758-1805) sustentava: “serenos na derrota, sereníssimos na vitória”. Mas, as torcidas futebolísticas não costumam dar atenção à recomendação do vitorioso em Trafalgar.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (44)| Comente!

Inferno dantesco: para os torcedores do River Plate, os padecimentos deste Hades descrito pelo bardo Dante Alighieri são light perto do que seria baixar à Segunda Divisão. A gravura acima é do ilustrador francês comme il faut do século XIX, Gustave Doré.

Cento e dez anos após sua fundação, o time River Plate está passando pelo pior momento de sua História, já que o emblemático clube – que conta com a segunda maior torcida da Argentina e a pole position no número de conquistas de campeonatos nacionais – corre graves riscos de cair pela primeira vez para a Segunda Divisão.

Depois de uma série de complexas equações de jogos que ocorreram ao longo da última semana, para tentar preservar sua posição na Primeira Divisão o River teve que disputar a “Promoção”, uma espécie de “Purgatório” futebolístico, no qual o time precisa encarar um punhado de jogos para definir se vai para o “Inferno” esportivo da Segunda Divisão ou se consegue ficar no “Paraíso” da Primeira Divisão.

Na Promoção o River precisou enfrentar o Belgrano, time da cidade de Córdoba, a 715 quilômetros ao oeste da capital do país. No primeiro jogo, na quarta-feira, o River perdeu por 2 a 0.

O próximo e derradeiro embate será neste domingo, em Buenos Aires, no estádio Monumental de Núñez, a casa “riverplatense” que está no bairro de Belgrano (e não no de Núñez, tal como indica o nome informal do edifício…que na realidade chama-se “Antonio Vespucio Liberti”).  

O portenho River Plate está à beira do abismo. Para não cair – tal como o Coiote Willy, da série animada “O Papa-léguas” (Roadrunner) – terá que vencer o Belgrano de Córdoba.

 O River Plate precisa vencer o Belgrano por uma margem de pelo menos dois gols. Essa é a condição sine qua non para permanecer na Primeira Divisão.

O River integra uma tríade de times que até agora nunca haviam caído para a Segunda Divisão. Os outros dois são o Boca Juniors e o Independiente de Avellaneda.

Fundado no dia 25 de maio de 1901, o River Plate – criado pela fusão dos times Santa Rosa e La Rosales – subiu para a Primeira Divisão em 1908 e nunca mais saiu dali. Além disso, o River acumula em suas estantes na sede do bairro de Belgrano um total de 38 troféus nacionais e internacionais.

Torcedores estão apelando a uma série de santos para evitar que o time caia para a Segunda Divisão.

DESESPERO E REZAS - Os “hinchas” (torcedores) estão desesperados, já que deparam-se perante o cenário dantesco de cair de categoria. Neste contexto, recordam as glórias do passado – citam os grandes nomes de sua História, como Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera e Enrique Sívori para exorcizar os demônios da queda para a Segunda Divisão – enquanto disparam duros epítetos contra o ex-presidente do River José Maria Aguilar e o atual presidente Daniel Passarella, além do ex-técnico Angel Cappa e o atual ocupante do posto, Juan José López.

De quebra, os “barrabravas” (hooligans) do River com frequência protagonizam atos de violência nos estádios, intensificando a queda do prestígio do centenário clube portenho.

No sábado da semana passada, após a derrota do River para o Lanús, por um a dois na própria casa do time, o estádio Monumental de Núñez, o jogador Matias Almeyda, a principal figura do clube, chorava desconsoladamente no vestuário, enquanto nas arquibancadas um angustiado torcedor de 68 anos – cuja identidade, a pedido da família, foi mantida no anonimato – teve um ataque cardíaco (supostamente de desgosto com o andamento do time) e morreu poucos minutos depois.

Enquanto isso, Daniel Passarella, ex-capitão da seleção argentina de 1978 e presidente do River Plate, pediu “força e coragem” a seus jogadores. “Iremos para a frente”, exclamou perante seu time, em uma tentativa de recuperar a confiança perdida.

O próprio árbitro que apitou o jogo River-Lanús, Pablo Lunati, declarou que “se o River for para a Promoção, será algo escandaloso, já que na Argentina o fato de disputar um jogo para evitar a queda para a Segunda Divisão é quase equivalente à morte”.

O ex-jogador Norberto Alonso, atualmente com 58 anos, que na década de 70 e início dos 80 foi um dos ídolos do clube, afirmou ontem (segunda-feira) que, caso o River caia para a Segunda Divisão, avaliará sua partida do país: “não sei não… mas acho que vou abandonar a Argentina”. Segundo Alonso, “este time glorioso está destruído em todos os sentidos”.

O Estado apurou que milhares de torcedores estão fazendo as mais variadas promessas a uma miríade de santos e virgens para tentar obter uma hipotética ajuda sobrenatural que impeça que o River caia de categoria. Os pedidos aos céus incluem desde caminhadas até a basílica de Luján, a deixar de comer pasta ou os tradicionais churrascos durante três meses, entre outras alternativas de sacrifício gastronômico.

Na trilha do polvo Paul, jumento cordobês vaticinou empate dos dois times. A ilustração acima é a reprodução do quadro “O asno de Balaão falando perante o anjo”, pintado em 1626. Está no museu Cognacq-Jay, em Paris.

ASNO ORÁCULO – O falecido polvo anglo-germânico Paul, oráculo futebolístico da última Copa do Mundo – que acertou sobre os resultados dos jogos protagonizados pela Alemanha – possui um correligionário na cidade de Córdoba. Mas, ao contrário do octópode europeu, o profeta neste caso é um eqqus africanus asinus, popularmente chamado de “burro” ou “asno”.

“Andrés” – o nome do jumento cordobês – vaticinou que o jogo deste domingo acabará em empate. O método realizado pelos donos do burro foi o de colocar na sua frente três fardos de feno. Um dos fardos ostentava a bandeira do River, outra exibia a bandeira do Belgrano enquanto que o terceiro fardo não contava com identificação alguma, simbolizando o empate. “Andrés” escolheu o feno desta última opção.

Um eventual empate – tal como o previsto por “Andrés” – implicaria em queda do River para a Segunda Divisão.

PEQUENO INTERLÚDIO DE CURIOSIDADES

DÍVIDAS E TÉCNICOS - O River, além de graves problemas financeiros – possui US$ 50 milhões em dívidas – acumula três anos de medíocre desempenho nos campeonatos argentinos.

Desde 2008, ano em que ficou no vigésimo lugar no campeonato Abertura (isto é, o último posto da Primeira Divisão), o River passou pelas mãos de cinco técnicos (Diego Simeone, Nestor Gorosito, Leonardo Astrada, Angel Cappa e Juan José López).

SEM CLÁSSICO – Caso o River não consiga permanecer na Primeira Divisão, os argentinos ficarão – pelo menos durante um ano – sem chances de assistir o “superclássico”, denominação do embate periódico que protagonizam desde 1908 o time e seu rival histórico, o Boca Juniors.

Além disso, para acrescentar mais motivos para lamentos, a torcida teve que amargar que o River – que havia conseguido pontos para participar da Copa Sul-americana – ficará fora desse campeonato regional pelo fato de ter disputar um jogo com um time da Segunda Divisão.

A SEGUNDA MAIOR TORCIDA - O River Plate, segundo pesquisa elaborada em 2009 pelo governo federal argentino, conta com 32,6% do total da torcida argentina. Seu maior rival, o Boca Juniors, aglutina ao redor de 40,4%.

Não é o estádio Monumental de Núñez (que está no bairro de Belgrano, embora isso não tenha a ver – diretamente – com o time do Belgrano, que é de Córdoba). Trata-se de uma imagem idealizada pelo pintor francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904, que mostra o Colisseu de Roma. O nome da obra “A última oração dos mártires cristãos”. Gérôme também pintou uma emblemática obra que retrata o “panem et circenses” (pão e circo) do Império Romano, o “Pollice Verso” (ver abaixo) que está no Phoenix Art Museum, Arizona, EUA. A cena pode parecer algo velha…mas no fundo, é bem atual…

 

POLÍCIA ARMA INÉDITO ESQUEMA DE SEGURANÇA PARA EVITAR VIOLÊNCIA DURANTE JOGO RIVER-BELGRANO – O estádio Monumental de Núñez será o cenário de um esquema de segurança inédito em um evento esportivo desde a Copa de 1978, quando a ditadura militar que governava o país colocou milhares de soldados nas ruas para evitar hipotéticos ataques terroristas.

No total, a ministra de Segurança, Nilda Garré, colocará 2.200 policiais para controlar os irritados torcedores do River Plate. Destes, 1.200 ficarão dentro do estádio para evitar que os “barrabravas” (hooligans) do River invadam o campo, tal como fizeram no meio da semana durante o jogo contra o Belgrano, na cidade de Córdoba.

Outros 1.000 homens das forças de segurança ficarão do lado de fora do estádio, controlando eventuais atos de violência. Desde a quinta-feira circulam na web convocações de torcedores do River a ir até o estádio neste domingo para apedrejar o ônibus que transportará os jogadores do Belgrano.

Os riverplatenses, além de direcionar a raiva contra o time rival, também disparam ameaças aos diretores e jogadores do próprio River. Furiosos, na noite da quinta-feira, mais de 400 torcedores riverplatenses carregando faixas com os dizeres “ganhar ou morrer” tentaram invadir a sede do River.

A polícia, que teve que recorrer jatos d’água para dispersar a multidão, não deteve manifestante algum. As forças de segurança tiveram um saldo de oito feridos entre seus homens.

Durante cinco horas representantes do time, da Associação de Futebol da Argentina (AFA) e do Ministério de Segurança discutiram sobre a possibilidade de realizar um jogo a portas fechadas, de forma a evitar prováveis cenas de pancadaria. Mas, no fim da noite, as autoridades concordaram em abrir o estádio para os torcedores.

A decisão final de realizar o jogo com a presença do público foi tomada pela própria presidente Cristina Kirchner, embora a ministra Garré fosse contra.

Por trás da decisão de abrir as portas do Monumental esteve o presidente da AFA, Julio Grondona, aliado do governo Kirchner, que deixou claro aos participantes da reunião que não poderia exibir ao mundo o estádio vazio poucos dias antes do início da Copa América.

MONUMENTAL À VENDA – Os internautas surpreenderam-se ontem ao ver que o site “Mercado Libre” – especializado em vendas online – exibia uma oferta de venda do estádio do River, o Monumental de Núñez. O anúncio indicava que o imóvel em questão possui 83.950 metros quadrados.

“A construção possui 73 anos de idade, mas foi reciclada em 1978. As arquibancadas serão entregues em vermelho e branco mas podem ser pintadas com as cores que o comprador deseje. Cadeiras anatômicas. Boa iluminação. Gramado bem regado e cortado. Ideal para concertos. Aceita-se várzea como parte do pagamento. Pode pagar em confortáveis parcelas”.

O preço estipulado para a venda era de 4,999 milhões de pesos (US$ 1,2 milhão). A identidade real do anunciante era desconhecida, embora as especulações indicassem ontem que podia ser um irônico e frustrado torcedor do River Plate ou um integrante da torcida do rival Boca Juniors.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (19)| Comente!

 

Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.

Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.

A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.

Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.

Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.

O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.

Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.

Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.

No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.

Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.

Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.

“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.

O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.

Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.

Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.

Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.

A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.

A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial. 

  CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória

Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)

Elisa Carrió, Coalizão Cívica

Hermes Binner, Partido Socialista

Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular

Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal

Jorge Altamira, Partido Operário 

Desistiram da corrida presidencial

O vice-presidente Juio Cobos, da UCR

O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana

O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul

 SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO

Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.

O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.

A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.

Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.

PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL

“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.

Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.

“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.

Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.

No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.

Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.

FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.

Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.

Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.

“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara. 

Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”

Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.

“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.

Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.

O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.

“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).

Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.

Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.

A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (22)| Comente!

Jorge Luis Borges e María Kodama durante uma viagem no início dos anos 70.  Nesta semana completaram-se 25 anos da morto do escritor na cidade de Genebra, Suíça, no dia 14 de junho de 1986. Esta postagem é parte da “Semana Borgiana” de nosso blog.

O lugar do derradeiro descanso do escritor argentino Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou meses antes da morte do escritor – que estava com um câncer terminal – quando seus amigos descobriram que sua secretária, Maria Kodama, havia levado Borges embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que apresentava-se como cônsul paraguaio em Genebra.

A saída de Buenos Aires foi às pressas, e Borges mal pode se despedir de seus amigos, de quem Kodama já o estava isolando nos últimos meses.

O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai. Mas, a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, mas havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos.

Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. “É uma coisa estranha…Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como ‘solteira’ e não como viúva”, afirmou Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges e presidente da Sociedade Argentina de Escritores, enquanto – sentado em um café no bairro da Recoleta – levantava na minha frente uma sobrancelha em sinal de sutil desconfiança sobre a ex-aluna do escritor.

Mas apesar de casados, no testamento Borges definia Kodama somente como “a boa amiga”.

Antes de morrer, o escritor preparou um novo testamento, modificando radicalmente o anterior. Na versão antiga, Borges que não teve filhos, deixava quase tudo à sua irmã e sobrinhos e a Fani Uveda, sua fiel governanta durante quatro décadas. Na nova versão, Kodama transformou-se na única herdeira, a quem foi destinada todo o dinheiro, direitos de autor, objetos de arte e manuscritos. 

Sobre as supostas irregularidades do casamento Borges-Kodama há um interessante artigo publicado pelo jornalista argentino Juan Gasparini, que reside na Suíça desde os tempos da ditadura argentina. O artigo, aqui.

Os falecidos ditadores Stroessner e Franco. No meio, Gramont Berres. Ou, Benjamin Levi Avzarradel

CASAMENTO – As suspeitas sobre o casamento dos dois aumentam quando se conhece o passado do cônsul. Gramont Berres sustenta que foi designado embaixador especial pelo ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1983. No entanto, não possui qualquer documentação que prove que teve formalmente esse cargo.

Em 1991 foi detido nos EUA acusado de falsificação de documentos, e, à pedido da Suíça, foi extraditado para ali. O governo paraguaio sustenta que o problema não é com ele, já que não reconhece Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão. No entanto, ao cônsul não lhe faltam fotos em roupas de gala com o ex-ditador Stroessner e o falecido caudilho espanhol Francisco Franco.

Gramont Berres voltou às páginas dos jornais ao longo da última meia década. Não em Buenos Aires ou Genebra, mas sim em Assunção, Paraguai, onde o governo do país o acusa de ter vendido no Velho Continente títulos da dívida nacional emitidos de forma fraudulenta. O Paraguai rechaça usar os cofres públicos para pagar uma dívida de US$ 85 milhões contraída por Gramont Berres. O caso foi levado à Justiça internacional e ainda percorre os tribunais europeus.

Voltando à Buenos Aires: a possibilidade de que o casamento de Borges e Kodama tenha sido falso soma-se à possibilidade de que possa ser anulado: o escritor casou-se nos final dos anos 60 com Elsa Astete. O casamento durou três penosos anos, e, como até fins dos anos 80 o divórcio não existia na Argentina (foi aprovado pelo Parlamento argentino em 1987, um ano após sua morte), Borges somente pode obter a separação de corpos e bens.

Este é um link para uma matéria do jornalista Jorge Camarassa sobre Astete, aqui.

Uma cópia da polêmica certidão de casamento feita no interior do Paraguai

Elsa nada pode opinar sobre isso entre o final dos anos 90 e a virada do século, já que estava esclerosada, internada em um asilo. Ou seja: o casamento com Kodama não é reconhecido pela lei argentina, e dependendo da veracidade do casamento via Gramont Berres, correria o risco de tampouco ser reconhecido pela lei do Paraguai e Suíça.

Se por acaso Borges e sua ex-aluna nunca se casaram (ou se o casamento não é válido), que direito teria Kodama de decidir o enterro em Genebra e insistir na permanência do autor de “O Aleph” nessa cidade?

Neste último quarto de século os “direitos” de Kodama sobre Borges foram discutidos em todos os aspectos, mesmo o da vida íntima. Segundo diversas testemunhas, Kodama nunca viveu na mesma casa de Borges em Buenos Aires, e nas inúmeras viagens que realizavam, sempre dormiam em quartos separados. Uma dedução generalizada é que Borges, sozinho e com medo de morrer dependendo de outros para suas necessidades mais básicas, aceitava tudo o que Kodama lhe impunha.

Túmulo de Borges em Genebra, Suíça. A lápide ostenta uma parafernália de símbolos, tal como uma nave viking, guerreiros com lanças, uma cruz de Gales, seu nome completo, além de uma legenda em anglo-saxão. Segundo me disse Maria Ester Vázquez, amiga e biógrafa de Borges, a legenda do túmulo genebrino And ne forhtedon na” (“E não deverias temer”) é uma fútil recomendação para alguém como Borges”. Segundo ela, o desejo do escritor, expresso em seus versos “Só peço as duas abstratas datas e o esquecimento”, não foi levado em conta. “É uma lápide curiosa e complicada. A única coisa que falta ali…é uma frase da Mafalda!”, dispara com ironia.

MORTE - No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges faleceu de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam (décadas depois, ali seria a morada eterna do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Melo). No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.

Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família.

“Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires”, me disse em entrevista em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século.

Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma conversa comigo em 2005, poucos meses antes de morrer. “O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta”, disse.

Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema “O Fazedor”, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: “Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento”. Em “Fervor de Buenos Aires”, Borges indica: “Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas”.

Outro fator que reforça a teoria de que Borges pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento para preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.

Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado “na neutra Suíça”.

Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: “talvez ele volte quando a passagem do tempo faça que estas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior”

Túmulo da família Borges na Recoleta. Este lugar foi objeto de diversos poemas de J.L.Borges.

OS INCORRIGÍVEIS E O ENTERRO PORTENHO

“Os peronistas são são bons, nem ruins…são incorrigíveis”. A frase é de Borges, que tinha com os seguidores do general e presidente Juan Domingo Perón uma relação de elevada tensão. Em 1946, para humilhá-lo – e tentar calar sua refinada ironia com o novo governo – os peronistas removeram Borges de seu posto de diretor de biblioteca e o designaram “inspetor de galinhas e ovos” em feiras públicas. Nos anos seguintes, o Peronismo colocou sua irmã e mãe na cadeia.  

Mas, no início de 2007, décadas após esses eventos, um grupo de parlamentares peronistas anunciou que pretendia trazer o corpo do escritor – enterrado em Genebra – para realizar um funeral em Buenos Aires.

 O projeto da deputada María Beatriz Lenz, aliada da peronista presidente Cristina Kirchner, causou intensa polêmica no âmbito acadêmico. O projeto de lei contou na ocasião com o respaldo da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), presidida por Alejandro Vaccaro.

Kodama enfureceu-se na ocasião: “ninguém me consultou sobre isso. É uma falta de respeito”.

“Borges é um ícone dos argentinos. Trazer o corpo de Borges é algo que devemos fazer pelos argentinos e também pelo próprio Borges”, afirmou Vaccaro na época. Ele argumenta que o desejo do escritor era ser enterrado na Recoleta, no mausoléu de sua família.

 Para isso, os defensores de um funeral portenho para o escritor citam poemas como “A Recoleta”, onde dizia: “O anterior, escutado, lido, meditado, o realizei na Recoleta, ao lado do próprio lugar onde hão de me enterrar”.

Os peronistas eram incorrigíveis, embora pragmáticos. Os colunistas das páginas culturais destacaram que os peronistas preferiram esquecer as velhas rixas de lado e apostar no colossal business que é ter Borges, ícone da literatura, enterrado em Buenos Aires.

Borges e sua mãe, Leonor, em Londres em 1963. Ela foi seus olhos, secretária e respaldo permanente até sua morte, em meados dos anos 70, aos 99 anos. Kodama entrou no vácuo deixado pela forte personalidade de Leonor Acevedo de Borges.

“SOU UM CALEIDOSCÓPIO” (entrevista que fiz em 1995 com Maria Kodama para o Caderno 2 do Estadão )

Maria Kodama é suave e áspera ao mesmo tempo, um misto de delicadeza do nô e da agressividade do tango. Controlada, com total conhecimento de sua imagem, Kodama evita que se calcule sua idade. Por isso foge de perguntas capciosas como “qual é seu signo no horóscopo chinês?”. Depois de enfrentar as críticas de amigos de Jorge Luis Borges, que a viam como uma aproveitadora por seu casamento com o escritor, muito mais velho do que ela, finalmente conseguiu inaugurar  em Buenos Aires a Fundação Internacional que leva o nome do escritor que nunca recebeu o Nobel.

- Foi difícil conseguir implantar a Fundação? O governo argentino não colaborou…

- Não,  mas eu não pedi nada. É uma questão minha, de princípios. Recebi uma educação japonesa, tenho que lutar para conseguir as coisas. O importante é o esforço pessoal.

- Seu pai era japonês?

- Não falo muito sobre minha família…

- No Brasil a colônia japonesa é a maior do mundo. Gostariam de saber mais sobre a sra., conhecida por ser a única figura da intelectualidade argentina de origem nipônica…

- Hummm…Bem…meu pai era da região de Tóquio. Pensava ir aos EUA depois que seus pais haviam falecido. Um amigo perguntou porque não ia para a Argentina. Ele veio para cá, e em uma reunião conheceu minha mãe. Ela o viu e disse “vou me casar com ele”.

- Em que ano seu pai veio? (tentando descobrir a idade de M.K.)

- Não sei, nem se fala sobre isso.

- Logo em seguida ele se casou com sua mãe?

- Meu pai era muito boa-pinta. Separaram-se quando era muito pequena. Coisas das paixões fulminantes…

- Quando conheceu Borges?

- O conheci quando criança, desde os 16. Estava no colegial e me dava aulas introdutórias de anglo-saxão. Depois ditava algumas de suas coisas e lia para mim. Era algo na categoria de amiga, de aluna, de discípula. Nunca fui secretária de Borges, como a imprensa insiste em dizer. Depois quando cresci dava aulas de castelhano, ganhava bem e isso me permitia adequar os horários para ter tempo com Borges. Ad honorem, por prazer.

- Seu pai foi uma espécie de mentor intelectual?

- Meu pai era químico, mas me iniciou no amor pela literatura e a música. Borges dizia que meu pai me tinha educado para ele. Quando começamos a viajar, descobri que Borges tinha um conhecimento pictórico enorme. Descrevia as paisagens e fruíamos isso através de uma recordação comum, o que meu pai me havia ensinado e o que Borges havia visto antes da cegueira.

- Seu pai conheceu Borges?

- Quando terminei o colegial quis me levar para o Japão. Não falava o japonês, não queria ir. Borges o convenceu para que me deixasse aqui.

- Borges lhe dava aulas no colegial?

- Era meu professor particular. O conheci por meio de um amigo de meu pai, quando tinha 12 anos. Este senhor pensou que se conhecia alguém como Borges seria importante para minha educação.

- Esta foi a primeira vez que ouviu falar de Borges?

- Quando tinha cinco anos leram para mim “Caesar and Cleopatra”. Gostava de seu amor e paixão. A figura de César era avassaladora, o conquistador, o gênio. Na mesma época me leram um poema de Borges. Era “Two English Poems” . A linha que ficou para sempre é “I am trying to bribe you…”

- …“With danger, with uncertainty, with defeat” (estou tentando te enganar, com perigo, incerteza, com derrota). É meu verso preferido também.

-  (Ri) Impresionou-me como essa pessoa podia ser todo o contrário de César. Um, o conquistador; o outro, oferecendo à mulher amada a incerteza…

- Que dizia Borges de su predileção por este verso?

- Borges tinha ciúmes (ri). Dizia que era apaixonada por César. Não gosto de Bernard Shaw . “Você, María, está paixonada por Shaw”, dizia Borges. “O que a levou a sentir atração por Julio César não foi outra coisa que as palavras de Shaw en J.C”.

- Borges era ciumento?

- Era ciumento à sua forma. Éramos verdadeiros personagens.

- Borges foi o amor de sua vida?

- Creio que sim, ele é a minha vida.

- E a senhora, a dele…

- Não sei, mas suponho que sim. Suponho que essas coisas são eternas.

- Em “Siete Noches”, Borges fala da sonoridade do inglês e cita um verso, “I will love you for ever and a day”. Sente isso?

- “…Para sempre e ainda um dia depois”. Era uma citação de Keats, creio….Sim, é o que sinto.

- Gosta do tango como Borges gostava?

- Não gosto. Borges dizia que eu pertencia a uma geração que não escutava tango. Gosto, como ele, das milongas, pois possuem um ritmo alegre, ágil.

- Rock. O que Borges pensava?

- Gostava dos Beatles e dos Rolling Stones. No Palace de Madrid encontramos Mick Jagger, que se aproximou para lhe dizer que o admirava. “Quem é o senhor?” perguntou Borges. “Sou Mick Jagger”, disse o cantor. “Ah…o dos Rolling Stones”, disse Borges. Jagger quase desmaiou.

- Porque nunca publicou seus próprios relatos e poemas em forma de livro?

- Escrevo contos, publicados em revistas literárias. Livros, ainda não. Mas o farei, quando fique em liberdade.

- E porque nunca publicou livro algum?

- Porque ao estilo japonês, nunca quis publicar durante a vida de Borges. Isso teria produzido un conflito.

- Seus contos são borgianos?

- Quando publiquei meu primeiro conto a reação de Borges foi de encantamento: “Todos esperavam um conto em meu estilo e foi diferente”.

- Enfrentou preconceitos com seu casamento com Borges?

- Não, caso contrário não estaria aqui. Houve reação por parte de senhoras abandonadas, viúvas, deseperadas. Parecia que era a primeira mulher na Argentina que se casava com um homem separado.

- Nunca sentiu racismo na sociedade argentina?

- Nunca, a primeira vez que o senti isso foi em um escritor que me chamava “a japonesa”. O embaixador do Japão chegou a me perguntar se havia nascido lá. Quem disse isso era uma pessoa com ressentimentos.

- Na cabeceira de Borges estavam Blake, Donne e Kipling. Quem tem em seu criado-mudo?

- Gosto muito de Blake, Donne…

- Qual Donne, o da fase mais erótica ou da religiosa?

- …Ambas. Adoro essa mudança. Gosto da Ilíada, um livro extraordinário com o qual pode-se aprender muitas coisas sobre a conduta humana.

- Como se definiria a si mesma, sra. Kodama?

- Eu não sei como sou. Em geral definimos aos outros. Sou como um caleidoscópio; de acordo com o olho e o desenho interior, vou mudando.

Borges ouve e Kodama lê.

O ETERNO RETORNO DAS REEDIÇÕES (matéria publicada em 1995)

Quase dez anos após a morte de Jorge Luis Borges, a reedição de obras que ele não desejava ver republicadas torna-se realidade. Como Max Brod, amigo de Kafka que trai sua promessa no leito de morte do amigo e postumamente publica a obra do escritor tcheco, Maria Kodama reedita um Borges secreto. A pergunta que paira no âmbito intelectual de Buenos Aires é “até onde é válida a vontade póstuma dos escritores?”.

Primeiro foi a publicação de “El Idioma de los Argentinos”, obra da juventude que Borges havia repudiado. Kodama, sua viúva, autorizou sua reedição. Poucos exemplares da edição original restavam. A fome por esse livro era tanta que poucos repudiaram o ato de Kodama, que ia contra a vontade de Borges.

Depois veio a publicação de “Borges en Revista Multicolor”. A obra recolhe relatos, resenhas e traduções que o autor de “Ficciones” e “El Aleph” escreveu durante sua estadia no suplemento cultural do jornal “Crítica”: a “Revista Multicolor de los Sábados”.

A colaboração borgiana durou pouco mais de um ano, o período de vida da publicação. O jornal exigia qualidade, mas dentro de uma linha editorial que pudesse interessar ao grande público. Borges começou como secretário. Logo chegou a co-diretor. Sua participação é esteticamente antípoda ao resto de sua obra. O jornal era sensacionalista e Borges, que precisava sustentar a família (seu pai havia falecido pouco antes) se dispunha a fazer qualquer coisa. Ele mesmo diria anos depois: “Nunca pensei reunir esses trabalhos em um só volume. Esses artigos iam destinados ao consumo popular através das páginas de “Crítica” e eram tremendamente pitorescos”.

Nessa época Borges era desconhecido da imesa maioria dos leitores argentinos. Só os seus amigos sabiam de seu valor. Quando a revista fechou foi organizado um banquete para comemorar: Borges não teria mais que escrever “lixo”.

O autor de “O Aleph”e “Ficciones”, segundo o jornalista Marcos Mayer, “sempre teve muito presente o marco e o suporte em que publicava. Soube encontrar o tom e imaginar um leitor com o qual podia chegar a sintonizar. Talvez a mesma atitude de seu tão criticado acesso aos meios. Borges amava tanto os livros como para supor que sua paixão por Stevenson ou Chesterton ou Cervantes tinha que ser compartilhada pelos outros”.

Mayer, estudioso do tema borgiano sustenta que “ele não recusava nem aceitava a lógica que lhe ofereciam os diversos meios em que trabalhou. Propunha uma nova versão desse meios para que suas paixões – que supunha universais, sem mais argumentos que suas leituras – encontrassem algum ponto de encontro possível. Para que isto não acontecesse não podia pensar em termos de cultura alta e baixa. Borges soube falar dos paradoxos do pensamento para o sensacionalista e populista jornal “Crítica” e sobre dizeres nos para-choques de caminhões para a elitista ‘Sur”.

A FAVOR

“Inteligência e força”. Assim Maria Kodama, viúva do escritor, define a característica principal dos textos publicados. Mais do que recusa em reeditar, Borges teria sido indiferente com estes livros. Eles circulavam por meio de fotocópias e as manipulações que a crítica fazia com estas obras. No próprio prólogo do livro Kodama sustenta que “alguém que se aproxima a um livro é o suficientemente sensível e inteligente para encontrar seu autor em liberdade. Creio que qualquer leitor, apesar dos defeitos de estilo destas obras – estilo que Borges repudiou depois -, pode sentir a força, a inteligência com que o autor trata estes temas que serão aperfeiçoados, refutados ou aprofundados em sua obra, esculpida ao longo do tempo com uma perfeição incrível”. 

CONTRA

“De forma alguma”. Determinado em defender a vontade do seu grande amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares, autor de “La Invención de Morel” e co-autor com Borges de “Seis Problemas para Don Isidoro Parodi” considera que os herdeiros devem respeitar a decisão e não publicá-los sob nenhum ponto de vista e por motivo algum. Para os estudiosos de Historia da Literatura podem ser atrativos. Para o leitor comum, não.

Fani, a fiel criada dos Borges

BENFEITOR SALVA GOVERNANTA DE BORGES DA MISÉRIA (entrevista que fiz em 1999 com Fani Uveda, a governanta da família Borges)

Um pequeno altar, com fotos de Jorge Luis Borges, é a única coisa que restou do autor de “Ficções” a Epifanía Uveda, 77 anos, governanta dos Borges durante mais da metade de sua vida. “Fani”, como era chamada carinhosamente, passou de cuidar dos detalhes mínimos da vida de Borges, a estar sem uma casa própria e na miséria.

Pouco antes de falecer em Genebra, Borges modificou seu testamento. Na versão anterior, Fani herdaria metade de seus bens e ficaria com o famoso apartamento da rua Maipú, onde havia cuidado da mãe de Borges e do próprio durante 40 anos. A outra metade, seria dos sobrinhos de Borges e de Maria Kodama.

Misteriosamente, oito dias antes de morrer, modificou seu testamento, tornando Kodama única herdeira. A ex-aluna e ex-secretária transformada em viúva expulsou a ex-governanta, cobrando-lhe até o condomínio dos cinco meses passados desde a partida para a Suíça. Anos depois, a ponto de ir morar em uma favela, Fani colocou uns sapatinhos da infância de Borges à venda. Um colecionador, Alejandro Vaccaro, soube disso, e se dispôs a ajudá-la: colocou Fani na sede de uma associação vinculada ao Clube Boca Juniors. Ali ela limpa o lugar e tem casa e comida.

Vaccaro fica indignado quando fala sobre o caso: “Kodama foi nojenta com Fani”, disse ao Estado. E especula sobre uma possibilidade: “vou dizer algo que nunca disse. Se Fani tivesse sido um pouco mais inteligente, Borges teria se casado com ela. Como aconteceu com Proust e sua governanta Celeste. Se Fani não tivesse sido a mulher simples e honesta que sempre foi, teria feito isso”.

Na casa decorada com bandeiras do time do Boca, ela falou ao Estado, e sustentou, da mesma forma que Bioy Casares afirmava, que Borges não queria partir para a Suíça com Kodama.

No dia que ia viajar, Fani foi avisá-lo que o carro que ia levá-lo ao aeroporto havia chegado. “Não quero ir, Fani”, disse Borges. “Se eu for, morrerei por lá”. Nesse momento, Fani sustenta que entrou Kodama, que ao ouvi-lo, ameaçou: “eu vou embora e não volto mais”. Assustado, Borges concordou, e foi colocado às pressas dentro do carro. “Foi embora sem me dar adeus. Isso vai me doer por toda a vida”, diz.

Segundo ela, Borges tentou o suicídio um dia que Kodama bateu a porta de casa dizendo que nunca mais o veria. Borges encheu a banheira de água fervendo, e pretendeu matar-se entrando ali. Foi só colocar os pés, e desistiu. “Coitado, ficou cheio de bolhas e sentindo-se ridículo”, diz.

Falando sobre Borges como se estivesse vivo, ela sustenta que “ele se apaixona sempre”. E aproveita para contar uma anedota sobre Borges e as mulheres: “após a cerimônia de casamento com Elsa Astete foram na casa da mãe de Borges. Nessa mesma noite, haviam ocorrido protestos nas ruas da cidade. A mãe pediu que eles ficassem e dormissem ali. Elsa negou-se. Como ia passar sua noite de núpcias na casa da sogra? Ela e Borges discutiram e Elsa foi embora sozinha. Mesmo casado, Borges ficou essa primeira noite na casa da mãe.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (13)| Comente!

 

Borges, desenhado pelo genial uruguaio Alberto Breccia

“Sou um anarquista à moda de Spencer” era a forma como o escritor Jorge Luis Borges costuma explicar suas posições políticas, referindo-se a Herbert Spencer, filósofo britânico do século dezenove que pregava uma peculiar forma de “anarquismo individualista”. No entanto, o autor de “O informe de Brodie” começou sua carreira literária flertando com a Revolução Russa, ocorrida quando ele tinha 18 anos. Nos anos seguintes Borges publicou um livro de poemas, “Os ritmos vermelhos”, nos quais faz uma apologia da revolta que pregava a igualdade entre os homens.

Rapidamente desencantado com o socialismo, Borges entusiasmou-se com a União Cívica Radical (UCR), partido argentino que nos anos 20 representava a classe média e era comandada por Hipólito Yrigoyen. “Borges até escreveu um poema, no qual declarava sua admiração pelo líder radical”, afirmou ao Estado Maria Esther Vázquez, escritora, ex-colaboradora e amiga de Borges.

Nos anos 30 Borges escreveu um artigo que causou intensa polêmica, o “Sou Judeu”, no qual criticava o nazismo e o fascismo e defendia os judeus, reivindicando sua contribuição cultural para o mundo. A publicação do texto provocou a ira dos setores nacionalistas e pró-eixo da sociedade argentina, marcada pelo antisemitismo.

Novamente Borges provocaria polêmica a partir de 1946, quando o então coronel – posteriormente general – Juan Domingo Perón chegou ao poder. Considerado representante da oligarquia, Borges foi humilhado publicamente pelo peronismo ao ser removido do posto de bibliotecário municipal para ser colocado no cargo de inspetor de aves vendidas em feiras públicas. Borges pediu demissão, iniciando um confronto com o peronismo que o levaria a cunhar uma frase usada frequentemente na política argentina: “os peronistas não são bons nem ruins… são incorrigíveis”.

A decisão política do governo peronista também teve o efeito de levar Borges à procura de fontes de renda alternativa. Desta forma, começou sua carreira de conferencista.

A escritora Maria Esther Vázquez afirmou ao Estado que durante o período em que foi perseguido pelo peronismo Borges recebeu a proposta de dar aulas em uma universidade dos Estados Unidos. “Mas, era a época do macartismo. E, quando os americanos souberam que ele havia havia escrito poemas elogiando a revolução russa na juventude, o descartaram por comunista”.

Em 1955 Perón foi derrubado por um golpe militar. Meses depois, quando o novo regime precisava um diretor para a Biblioteca Nacional, a mecenas Victoria Ocampo recomendou que Borges fosse colocado no posto. Desta forma, o escritor chegou à centenária instituição que tornou famosa em todo o mundo.

Na mesma época, por uma brincadeira com um amigo, Borges afiliou-se ao Partido Conservador. “Essa inscrição dele no partido não passava de uma forma de Borges dizer que não acreditava na política”, afirmou ao Estado Alejandro Vaccaro, autor de “Georgie 1899-1930”, biografia que disseca a infância e juventude do autor.

Em 1976 Borges foi novamente o foco de polêmica quando participou de um almoço com o novo ditador argentino, o general Jorge Rafael Videla. “Ernesto Sábato também foi ao almoço. O problema de Borges foi que, ao sair, disse que Videla era um cavalheiro. E meses depois foi a uma conferência no Chile, governado pelo ditador Augusto Pinochet”, explica Vaccaro. O próprio Borges explicou na época: “a comenda é do povo chileno, não do general Pinochet”.

“Mas, rapidamente mudou de idéia sobre a ditadura argentina. Ele foi um dos poucos intelectuais que assinaram o primeiro abaixoassinado contra os militares, pedindo o paradeiro de milhares de desaparecidos políticos da ditadura. Além disso, foi um intenso crítico da Guerra das Malvinas, protagonizada pelo regime militar”, diz.

Outro Borges de Breccia

O respaldo inicial à ditadura teria sido o motivo para que a academia sueca negasse a Borges o Nobel de Literatura, que não levou em conta as críticas que fez na sequência contra o regime militar.

Os amigos de Borges sustentam que isso não é um problema: “desta forma, ele está acompanhado por Marcel Proust e James Joyce, que nunca receberam o prêmio”.

Um de seus amigos, Esteban Peicovich, autor de diversas antologias dos “causos” borgianos, disse recentemente que “Borges não era um ‘gorila’ (gíria para designar um fanático anti-peronista) nem era de direita. Ele está por cima de toda as baixezas humanas. É uma das grandes flores da espécie, como Kafka”.

SOBRE O PERONISMO, BORGES DIXIT:

- Os peronistas são pessoas que se fazem passar por peronistas para tirar vantagem.

- Olhe, eu detesto os comunistas. Mas, eles, pelo menos, possuem uma teoria. No entanto, os peronistas são uns esnobes.

- O peronismo é algo inverossímil.

SOBRE A DEMOCRACIA:

- A democracia é um abuso da estatística…

 

Jorge Luis e Juan Domingo

O DIA EM QUE BORGES ENCONTROU PERÓN

Os encontros inacreditáveis voltam ocasionalmente à moda na literatura e no cinema. No celulóide Sigmund Freud já encontrou Sherlock Holmes, e Indiana Jones deu de cara com A.Hitler.

Mas, mais complicado teria sido juntar dois homens e carne e osso como Borges e o general Juan Domingo Perón, que governou a Argentina entre 1946 e 1955 e novamente entre 1973 e 1974.

Perón destituiu Borges de um cargo secundário em uma biblioteca de bairro em Buenos Aires para colocá-lo como inspetor de galinhas em feiras livres. Borges não representava perigo para o militar, já que nos anos 40 era apenas conhecido por um restrito círculo de leitores. Mas o escritor fazia ácidas críticas aos sistemas ditatoriais em seus textos.

Borges demitiu-se do emprego de inspetor e aí nasceu uma rivalidade que iria até a morte dos dois. O mundialmente famoso escritor sempre comparou Perón a Rosas, um ditador do século XIX.

Os dois nunca se encontraram na vida real. Mas, reuniram-se na literatura. Esse é o caso de “Borges & Perón, entrevista secreta”, do autor uruguaio Enrique Estrázulas, que trata deste imaginário rendez-vous. Na obra, um tranqüilo Borges recebe a notícia inesperada de sua secretária:

“Secretária: Borges…ali fora está o general Perón.

Borges: É uma notícia ruim ou uma piada?

Secretária: É Perón, que pede desculpa por não ter solicitado uma audiência…ele diz que não leve a mal, e se for o caso, volta outro dia.”

No decorrer da obra, escritor e presidente falam sobre a ficção, a política e a relação conflitiva entre os dois.

Na vida real, Borges chegou a dizer que cada vez mais odiava Gardel “porque parecia Perón”. Perón nunca falou publicamente sobre Borges, embora deixasse clara sua opinião sobre o escritor através das ameaças que seus seguidores faziam ao autor de “O Aleph”.

Estrázulas considera que o encontro não seria tão impossível, já que Perón “possuía um alto nível cultural, embora as massas ignorassem isso, ou ele fazia com que elas ignorassem esse detalhe”.

O livro de Estrázulas foi lançado em 1996. A peça de teatro baseada na obra foi aos palcos poucos meses depois, coincidindo com a estréia de “Evita”, de Alan Parker.

…E falando em encontros impossíveis (aí, por um caso de cronologia), um divertido exemplo é o filme “O dia em que Maradona conheceu Gardel”, de 1996. Com o subtítulo de “Uma fábula de heróis”, tratava de um pacto entre o Diabo e o cantor que imortalizou o Tango. Gardel deveria cantar por toda a eternidade para o “Tinhoso”. Para salvar Carlos Gardel, era necessário um mito da mesma magnitude. O escolhido foi alguém que já desceu várias vezes ao Inferno, mas com intenções diferentes às de Dante: Diego Armando Maradona.

 

A literatura e o teatro uniram as duas irreconciliáveis figuras para uma agradável tertúlia. Jean Pierre Noher interpreta o autor de “O Aleph”, enquanto que Victor Laplace faz o papel de “El Conductor”.

RECONHECIMENTO REVOLUCIONÁRIO - E antes que esqueça, é interessante destacar que a esquerda latino-americana está mudando seu ponto de vista sobre Borges.

Um dos emblemas da esquerda revolucionária da região, o líder sandinista Tomás Borge Martinez (fundador, em 1960, com Carlos Fonseca Amador e Silvio Mayorga, da Frente Sandinista de Liberação Nacional da Nicarágua), no ano passado, durante o Foro de São Paulo realizado em Buenos Aires, definiu o escritor Jorge Luis Borges como um dos “gloriosos arquétipos desse extraordinário país (a Argentina), junto com Ernesto Che Guevara, Juan Domingo Perón, Julio Cortazar e Carlos Gardel”.

Foto do Bundesarchiv de Tomas Borge, líder sandinista, revolucionário latino-americano… e admirador de Borges, Jorge Luis.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (4)| Comente!

Jorge Luis Borges. Ou “Georgie”, segundo era chamado pelos amigos e parentes. Há exatos 25 anos ele partia deste mundo para tornar-se tal como em seu poema sobre sua amada Buenos Aires em “eterno como a água e o ar”. 

Há um quarto de século o escritor argentino – ou universal, segundo vários críticos – Jorge Luis Borges, falecia em Genebra aos 86 anos. Hoje relembramos o autor de “O Aleph”, “O Informe de Brodie”, “Ficções” e “O Livro de Areia” com uma variada postagem.

Começamos por seus “causos” e depois passaremos à cartografia borgiana. Amanhã, 4afeira, teremos postagem sobre polêmica sobre o lugar de enterro e o destino de seu corpo. Na 5afeira veremos as posições políticas peculiares deste homem que definia-se como “um anarquista à moda de Spencer” e finalmente algo sobre Borges e as mulheres e os mitos sobre sua obra (Mick Jagger de lambuja).

CAVALHEIRISMO E SUICÍDIO – Borges preparou um pequeno conto para o jornal “La Nación” em 1977 no qual ele próprio era protagonista. No relato ele explicava que sonhava consigo mesmo e via como suicidava-se no dia 24 de agosto de 1983, data na qual completaria 84 anos. Os anos passaram. Enquanto isso, muitas pessoas estavam preocupadas por um eventual suicídio real do escritor na data marcada. Borges – que viveria ainda outros três anos – comentou na ocasião: “o que faço? Me comporto como um cavalheiro e transformo em realidade essa ficção para não decepcionar as pessoas? Ou eu faço de conta que estou distraído e deixo a data passar?”

MORTE PREMATURA – Anos antes da morte de Borges em 1986 na Suíça, os jornais franceses, além do New York Times, publicaram a notícia de que ele havia morrido. Preocupado, o ensaísta Ulysses Petit de Murat tentou entrar em contato Borges, até que conseguiu encontrá-lo e confirmar que estava vivo. Murat expressou a Borges seu desagrado pela “notícia apócrifa de sua morte”. Borges corrigiu: “apócrifa não…somente prematura”.

FUNERAL NÃO-DECIMAL - Aos 99 anos, em 1975, morreu Leonor Acevedo de Borges, mãe do escritor, que nos 20 anos anteriores, por causa da cegueira do filho, havia servido de secretária para os textos que ele lhe ditava. No velório, uma mulher lhe deu os pêsames e disse “coitada de dona Leonor, morrer tão pouco antes de fazer 100 anos. Se tivesse esperado um pouquinho mais…”. Borges lhe respondeu: “percebo, minha senhora, que é uma devota do sistema decimal!”.

SER OU NÃO SER - Borges caminhava pela rua, sozinho, quando uns rapazes que passavam de carro lhe perguntam “Mestre! Quer que o levemos? Para onde vai?”. Borges lhes responde “para minha casa, na rua Maipú”. Já dentro do carro, a ponto de chegar, o escritor pergunta: “Como é que vocês perceberam que era eu? Ah, claro, porque sou Borges….”.

MEDIOCRIDADE - Nos anos 80, na França, Borges estava sendo entrevistado para a TV, quando o jornalista lhe perguntou se percebia que era um dos grandes escritores deste século. Com sua habitual elegância para escapar das lisonjas, Borges respondeu: “é que este foi um século muito medíocre”.

METAFORICÍDIO – Borges um dia foi ao banco, onde uma funcionária lhe disse: “embora eu saiba (de memória) qual é seu saldo bancário, vou verificá-lo, pois não gostaria de dizer uma coisa e que seja outra”. Borges depois relatou ao amigo Esteban Peicovich: “essa senhorita acabou de assassinar a metáfora”.

UM BLEFE, EMBORA INVOLUNTÁRIO – Nos anos 60 Borges realizava uma série de conferências em várias universidades americanas. Em uma delas, uma pessoa na platéia levanta-se e grita: “Borges, o senhor é um blefe”. Borges respondeu com voz suave: “sim, mas leve em conta que é involuntário…”.

Em outra conferência um estudante contestador grita ao escritor: “você, Borges, está morto!”. Borges retrucou: “é verdade, só existe um erro nas datas”.

A TRADICIONAL ESCADA – Borges está um dia, nos anos 60, na espera do elevador na Biblioteca Nacional, da qual era diretor. Depois de esperar muito tempo, impaciente comenta para a pessoa que o acompanhava: “não prefere que a gente suba pela escada, que já está totalmente inventada?”

AMEAÇAS E AMEAÇADOS – No início dos anos 70 Borges havia realizado duras declarações contra o Peronismo e críticas sobre Evita Perón. Imediatamente o escritor começou a receber telefonemas de simpatizantes peronistas que o ameaçavam de morte. No entanto, os anônimos autores das ameaças depararam-se com a sra Leonor, a mãe do escritor, que morava com ele no pequeno apartamento da rua Maipú. A nonagenária dama indicava aos simpatizantes peronistas que não seria difícil matar seu filho, já que ele era cego, e portanto, não existiam riscos para seu assassino, já que dificilmente ele se defenderia. O próprio Borges colaborava com os autores da ameaça, passando o endereço exato de sua residência. “O sr. não tem como errar. Na porta existe uma placa na qual está escrito ‘Borges’. E quem abre a porta sou eu”.

SINCERIDADE E ESTADO – Durante uma entrevista à revista portenha “Siete Días” em 1973 o jornalista conversava com Borges sobre as modalidades de Estados.

- Que tipo de Estado desejaria?

- Um Estado mínimo, que não fosse notado. Morei na Suíça cinco anos e ali ninguém sabia o nome do presidente.

- A abolição do Estado que o senhor propõe tem muito a ver com o anarquismo.

- Sim, exato, com o anarquismo de Spencer, por exemplo. Mas não sei se somos suficientemente civilizados para chegar ali.

- Acredita seriamente, sr. Borges, que tal Estado é factível?

- Evidentemente. Mas, uma coisa é verdade: será preciso esperar 200 ou 300 anos.

- E enquanto isso?

- Enquanto isso a gente se f…

DEUS E SUA SUBALTERNA MÃE – O editor polonês-americano Walter Bara, da editora McGraw-Hill conta a Borges que havia estado em um avião que quase estatelou-se no chão porque um de seus motores havia desprendido da fuselagem. No entanto, depois de uma vertiginosa queda, o piloto conseguiu equilibrar o avião e aterrissar. Bara cumprimentou o piloto efusivamente. Mas, os outros passageiros ficaram zangados com ele, já que atribuíam a salvação de suas vidas à uma medalhinha da Virgem Maria que uma das passageiras pegou em sua maleta quando o avião caía. Borges ouviu o relato e comentou: “isto é, Deus havia ordenado que o motor se soltasse e que eles morressem. Mas, graças a um apelo à Virgem, intervém um subalterno de Deus (a Virgem em questão) e muda os planos. Como alguém pode pensar assim?”.

DEUS E SEU GOSTO POLÍTICO – Nos anos 70 Borges comenta uma peculiar teogonia: “As pessoas diziam que Deus era peronista. Que gosto Deus tem! Mas, bom, isso não me surpreende…” 

REVOLUÇÃO - Em outubro de 1967 um estudante interrompeu a aula de literatura inglesa proferida por Borges na faculdade anunciando que as aulas teriam que ser imediatamente interrompidas pela recém-ocorrida morte de Che Guevara. Borges diz ao estudante que terminará sua aula, e que depois os alunos poderão prestar a homenagem. O estudante grita que tem que ser nesse instante e que Borges terá que ir embora. O escritor replica: “Não vou embora. Se você for tão valente, venha em tirar daqui”. O aluno ameaça apagar a luz da sala. E Borges responde: “Eu já tomei a precaução de ser cego esperando este momento…”.

COPO D’ÁGUA - Borges está sentado, pronto para dar uma conferência no Hotel Bauen, em Buenos Aires. Na sala, o público conversa sem parar. A organizadora, Silvia Gherghi, lhe pregunta se pede silêncio para que ele possa começar a conferência. Borges lhe pergunta se em cima da mesa há um copo d’água e uma jarra, como ele pediu. A organizadora diz que sim, e ele então comenta com um sorriso maroto: “então não peça silêncio. Eu vou fazer de conta que procuro o copo, lentamente, como se não pudesse encontrá-lo. Isso faz as pessoas se calarem rapidamente”.

DE SHAKESPEARE A CERVANTES – Borges aprendeu o inglês com sua avó britânica Frances Haslam. E foi no idioma de Shakespeare que escreveu seu primeiro conto, quando era criança. Apesar de ter recuperado expressões típicas do interior da Argentina e o uso de gíria, o suposto peso do idioma inglês na literatura de Borges criou o mito de que o escritor primeiro escrevia em inglês para depois passar seus textos ao espanhol.

Cansado de ser perguntado frequentemente pelos jornalistas sobre o assunto, Borges comentou com ironia, citando um argentiníssimo poema seu: “outra pergunta que me repetem sempre é se tudo o que eu escrevo primeiro o faço em inglês e depois o traduzo ao espanhol. Eu digo que sim, e que, por exemplo, ao ler os versos “Siempre el coraje es mejor/ nunca la esperanza es vana/ vaya pues esta milonga,/ para Jacinto Chiclana” (Sempre a coragem é melhor/ nunca a esperanza é vã/ vai, pois, esta milonga/ para Jacinto Chiclana) dá para perceber que foram pensados em inglês. E, dá para perceber, inclusive, os vacilos do tradutor…”.

ÓCULOS E A AUSÊNCIA DOS MESMOS – No início dos anos 80 Borges estava reunido com seu amigo e escritor Adolfo Bioy Casares.

Bioy comenta sobre seus problemas de vista: “que coisa incômoda é não ver sem os óculos”.

Borges, que estava cego há quase três décadas, replica: “que coisa incômoda é não ver com os óculos”.

Borges era admirado por escritores de ficção científica como James Graham Ballard (1930-2009), britânico-chinês (nasceu em Shanghai). Nesta foto, à esquerda o autor de “História Universal da Infâmia”; à direita o autor de “O mundo submerso” e de “O Império do Sol”

UM FUTURO OBITUÁRIO ENCICLOPÉDICO – Uma década antes de morrer Borges também escreveu uma peculiar biografia de si próprio, imaginando como os enciclopedistas do futuro fariam referências sobre ele e sua obra. As auto-ironias abundam, começando por seu nome errado no verbete (Isidoro era seu avô paterno). Esta biografia – futuramente publicada em Santiago do Chile (!!!) – aparece no epílogo das “Obras Completas”, publicada pela Emecé Editores,

Para vocês, no idioma original, para sentir melhor o sabor:

 A riesgo de cometer un anacronismo, delito no previsto por el código penal, pero condenado por el cálculo de probabilidades y por el uso, transcribiremos una nota de la Enciclopedia Sudamericana, que se publicará en Santiago de Chile, el año 2074. Hemos omitido algún párrafo que puede resultar ofensivo y hemos anticuado la ortografía, que no se ajusta siempre a las exigencias del moderno lector. Reza así el texto: 

BORGES, JOSÉ FRANCISCO ISIDORO LUIS: Autor y autodidacta, nacido en la ciudad de Buenos Aires, a la sazón capital de la Argentina, en 1899. La fecha de su muerte se ignora, ya que los periódicos, género literario de la época, desaparecieron durante los magnos conflictos que los historiadores locales ahora compendían. Su padre era profesor de psicología. Fue hermano de Norah Borges (q. v.). Sus preferencias fueron la literatura, la filosofía y la ética. Prueba de lo primero es lo que nos ha llegado de su labor, que sin embargo deja entrever ciertas incurables limitaciones. Por ejemplo, no acabó nunca de gustar de las letras hispánicas, pese al hábito de Quevedo. Fue partidario de la tesis de su amigo Luis Rosales, que argüía que el autor de los inexplicables Trabajos de Persiles y Segismunda no pudo haber escrito el Quijote. Esta novela, por lo demás, fue una de las pocas que merecieron la indulgencia de Borges; otras fueron las de Voltaire, las de Stevenson, las de Conrad y las de Eça de Queiroz. Se complacía en los cuentos, rasgo que no recuerda el fallo de Poe, “There is no such thing as a long poem”, que confirman los usos de la poesía de ciertas naciones orientales. En lo que se refiere a la metafísica, bástenos recordar cierta Clave de Baruch Spinoza, 1975. Dictó cátedras en las universidades de Buenos Aires, de Texas y de Harvard, sin otro título oficial que un vago bachillerato ginebrino que la crítica sigue pesquisando. Fue doctor honoris causa de Cuyo y de Oxford. Una tradición repite que en los exámenes no formuló jamás una pregunta y que invitaba a los alumnos a elegir y considerar un aspecto cualquiera del tema. No exigía fecha, alegando que él mismo las ignoraba. Abominaba de la bibliografía, que aleja de las fuentes al estudiante.

“Le agradaba pertenecer a la burguesía, atestiguada por su nombre. La plebe y la aristocracia, devotas del dinero, del juego, de los deportes, del nacionalismo, del éxito y de la publicidad, le parecían casi idénticas. Hacia 1960 se afilió al Partido Conservador, por que (decía) ‘es indudablemente el único que no puede suscitar fanatismos’. “El renombre de que Borges gozó durante su vida, documentado por un cúmulo de monografías y de polémicas, no deja de asombrarnos ahora. Nos consta que el primer asombrado fue él y que siempre temió que lo declararan un impostor o un chapucero o una singular mezcla de ambos. Indagaremos las razones de ese renombre, que hoy nos resulta misterioso…

BREVE CARTOGRAFIA BORGIANA

Jorge Luis Borges amava sua cidade natal, Buenos Aires, da qual uma vez disse que a considerava “tão eterna quanto a água e o ar”. O guia mais completo sobre a relação do escritor com a cidade é “A Buenos Aires de Borges”, do jornalista Carlos Zito, que em entrevista ao Estado fez um panorama da geografia borgiana.

“Borges recriou Buenos Aires de acordo com uma imaginação profícua capaz de envolver o bairro de Palermo em um paradoxo metafísico, uma esquina de San Telmo em um pesadelo e a Praça Once em um incomparável inferno”, sustenta. 

Na seqüência, algumas dicas da cartografia borgiana de Zito misturadas com outras minhas:

AS CASAS DA INFÂNCIA - Borges nasceu em uma casa da rua Tucumán, 840. A residência não existe mais, embora a edificação substituta ostente uma placa de bronze comemorativa. Dois anos depois, sua família mudou-se ao bairro de Palermo, na rua Serrano, 2147, onde moraria até os 13 anos, quando partiria para a Europa. Segundo Zito, ali, passou os anos mais felizes de sua vida, especialmente na biblioteca de seu pai.

“De fato, às vezes penso que nunca saí dela. Ainda posso vê-la”, escreveu Borges anos depois. O bairro onde estava, Palermo, seria o palco de inúmeros contos e ensaios. Na sua juventude era um subúrbio relativamente rude, onde ainda sobreviviam alguns tipos que serviriam para seus relatos: bandidos, jogadores de cartas, músicos e assassinos.

O bairro estava povoado por homens cujo sentido da honra estava tão vinculado à coragem física que pareciam saídos de uma saga medieval. Nas ruas de Palermo, Borges teve seus primeiros contatos com o tango e a milonga, e o vasto material para sua mitologia de Buenos Aires.

Georgie e sua irmã Norah

APARTAMENTO DA CALLE MAIPÚ – No mesmo ano em que publica “Ficções”, em 1944, os Borges se mudam à rua Maipú, 994, apartamento 6B. Ali, o escritor morará durante 41 anos. O apartamento era mínimo: um exíguo hall, uma sala de visitas que se prolongava na sala de jantar, o quarto da mãe de Borges, que faleceu nos anos 70, e o quarto de Epifanía Uveda (conhecida como “Fani”), a eterna e fidelíssima governanta da família. Zito conta que Borges dormia na sala, protegendo sua intimidade com um biombo. Com a morte de sua mãe, o escritor, já septuagenário, conseguiu ter um quarto próprio.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, que o visitou em 1981, descreveu seu quarto como “uma cela: estreito, com uma cama tão frágil que parece de criança, e uma pequena estante cheia de livros anglo-saxões”. O quarto também possuía uma velha cadeira cinza com o estofado pintado com uma “Dame à la Licorne” de autoria de sua irmã Norah, duas aquarelas de Xul Solar. Também havia uma emblemática gravura de Piranesi, ilustrando um labirinto. Nesse apartamento Borges ditou à sua mãe suas principais obras: “O Aleph”, “Outras Inquisições”, “O Informe de Brodie”, “Os Conjurados”, entre outros.

BIBLIOTECA NACIONAL - Quando o Peronismo chegou ao poder, Borges foi afastado de seu cargo em uma biblioteca, e colocado como “inspetor de galinhas nas feiras públicas”. Com a queda do presidente general Juan Domingo Perón em 1955, Borges foi redimido, e nomeado diretor da Biblioteca Nacional, situada até o começo desta década na rua México 564.

O novo trabalho recuperou para Borges um velho e esquecido prazer: frequentar a zona sul da cidade. No começo, Borges ainda podia enxergar e ler os títulos dos livros.

Mas, três anos depois, já não via nada. E assim, escreveu o “Poema dos dons”: “Ninguém rebaixe à lágrima ou acusação/ esta declaração do poder/ de Deus, que com magnífica ironia/ me deu ao mesmo tempos os livros e a noite”.

Em “O Livro de Areia”, Borges, personagem ele mesmo de um conto seu, esconde o perverso livro de páginas infinitas que perturbava sua mente. À sua amiga Maria Esther Vázquez uma vez confessou : “em qualquer lugar do mundo onde esteja, sonho com a Biblioteca Nacional…ela é infinita e me pertence”.  

CEMITÉRIO DA RECOLETA - Neste aristocrático cemitério, no mausoléu da família, Borges esperava passar a eternidade. No entanto, hoje repousa em Genebra. “Aqui está a recatada morte portenha”, disse o escritor de La Recoleta. Borges gostava de passear pelo cemitério, onde estão enterrados os principais nomes da História do país.

Em “Fervor de Buenos Aires”, escreveu: “Belos são os sepulcros, /o nu latim e as travadas datas fatais, / a conjunção do mármore e da flor / e as pracinhas com frescor de pátio/ e os muitos ontens da História / hoje detida e única”.

PUENTE ALSINA - Borges e seu inseparável amigo e escritor Adolfo Bioy Casares apreciavam a desolação da ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires (que liga a capital com o município de Lanús). Eles se deleitavam com a fama de bairro de malandros e pessoas armadas de facões.

Um ano antes de morrer, Bioy Casares me disse que “as vezes levávamos algum intelectual recém-chegado da Europa a Ponte Alsina. Sempre perguntavam ‘E agora ?’. ‘E agora nada’, respondíamos. ‘É isto aqui’, explicávamos. Gostávamos dali, não sei porquê…Durante um ano, fomos todas as noites até ali”.

 Ponte Alsina. “E agora?”… “E agora, nada”.

   

E, para encerrar a jornada – sem nada a ver com Borges – um pouco de Giuseppe Torelli (1658 – 1709), aqui.

Mas, agora, tudo a ver com Georgie, aqui vai a Milonga de Jacinto Chiclana, recitada pelo próprio Borges. Aqui.

A mesma milonga, agora cantada pelo supimpa Edmundo Rivero. A música é de outro emblema do tango argentino, Astor Piazzolla. Aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (48)| Comente!

Vulcão e quitutes: graças ao Puyehue, secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, saboreia alfajor santafecino em posto de gasolina à beira da estrada.

Dezenas de índios mapuches – os habitantes originários da Patagônia – postaram-se em diversas ocasiões ao longo da última semana à beira do lago Nahuel Huapi, nas vizinhanças de Bariloche, na província de Rio Negro, para suplicar ao Pillán de Puyehue – o espírito que, segundo as crenças religiosas desse grupo, reside no vulcão Puyehue – que acalme sua “ira” e pare de emitir as cinzas que estão soterrando milhares de hectares no sul da Argentina.

Enquanto isso, os habitantes de diversas cidades da Patagônia pedem ao governo da presidente Cristina Kirchner urgência no envio de ajuda federal às áreas afetadas. No entanto, na semana passada a própria presidente Cristina, em discurso na TV, sustentou que os efeitos das cinzas no cotidiano dos argentinos era “algo psicológico”. Nesta segunda-feira, a presidente voltou a referir-se ao assunto ao afirmar que “é impossível controlar o clima, sequer com decretos presidenciais”. Depois, ironizou: “não temos nada contra os chilenos, mas as cinzas são deles”.

Mas, apesar das brincadeiras de Cristina, as cinzas impediram que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, pudesse desembarcar em Buenos Aires. O secretário-geral teve que aterrissar no aeroporto de Pajas Blancas, em Córdoba, e percorrer em um ônibus da portenha companhia Chevallier, fretado pela organização internacional os 713 quilômetros que separam a segunda maior cidade do país da capital argentina.

Ban Ki-Moon teve que parar em um posto de gasolina na estrada, nas vizinhanças da cidade de Rosario, para tomar o café da manhã. Acompanhado por sua mulher, Yoo Soon Taek, o diplomata coreano, que celebrava seu sexagésimo-sétimo aniversário, celebrou a data de forma prosaica na lanchonete do posto com um cafezinho e um típico alfajor santafecino (da província de Santa Fe).

DESMORONAMENTO – A erupção do vulcão, localizado do lado chileno da fronteira, a apenas 90 quilômetros da cidade de Bariloche, em Rio Negro, e de Villa La Angostura, do lado da província de Neuquén, também provocou um desabamento sobre a estrada nacional número 231, no passo Cardeal Samoré, na fronteira da Argentina com o Chile, a 10 quilômetros de distância do Puyehue.

A avalanche de cinzas e material vulcânico – arrastadas pelas fortes chuvas que assolaram a região meridional da Cordilheira dos Andes – empurrou uma faixa de 66 metros da estrada a um precipício.

“Foram toneladas de pedras, cinza e água”, explicou Ernesto Arriaga, porta-voz da Departamento Nacional Viário (DNV).

Enquanto a situação dos habitantes da região complicava-se a cada dia, neste domingo a província de Neuquén realizou eleições para governador. No entanto, devido à situação precária de várias cidades, somente 30% dos neuquinos compareceram às urnas. O governador Jorge Sapag – que foi reeleito – recebeu intensas críticas por parte da oposição e de vários setores da população, que o acusaram de ter distribuído em seu nome alimentos da Cruz Vermelha nas áreas afetadas pelas cinzas com fins eleitorais.

As novas emissões de cinzas por parte do Puyehue levaram as autoridades em Bariloche – localizada a 90 quilômetros do vulcão – a suspender novamente as aulas escolares. Perto dali, em Villa La Angostura, a apenas 40 quilômetros do Puyehue, as aulas estão suspensas desde a semana passada.

Índios Mapuches rezam para que Pillán de Puyehue acalme sua ira.

AGROPECUÁRIA E ESTRADAS – Na província de Chubut, ao sul de Rio Negro, estavam em risco de vida 750 mil ovelhas, já que as pastagens estavam cobertas por dez centímetros de cinzas. O abastecimento de água para os animais também estava comprometido, já que as cinzas cobriam os lagos e riachos da região. Antes da catástrofe do Puyehue a província havia perdido um milhão de ovelhas nos últimos quatro anos por causa das secas.

Depois de uma semana de intensos pedidos de ajuda por parte do setor agropecuário da Patagônia, o governo Kirchner anunciou ontem que declarará “emergência nacional” para o setor. O anúncio foi realizado pelo secretário-executivo de Emergência e Desastre Agropecuário Federal, Haroldo Lebed, que declarou que as províncias afetadas pelas cinzas do Puyehue já padeciam problemas por três anos acumulados de seca na região meridional do país.

O diretor da Defesa Civil de Chubut, Evaristo Melo, fez uma avaliação sombria sobre as próximas semanas: “as cinzas vieram para ficar, portanto, será preciso acostumar-se a elas”.

Mas, de forma geral o governo da presidente Cristina Kirchner costuma ser hermético quando trata-se de catástrofes ambientais e seu impacto na sociedade. Desta forma, ontem, quando o Estado telefonou à Comissão Nacional de Regulação do Transporte, as autoridades consultadas indicaram que não contavam com “dado estatístico algum” sobre o aumento do volume de transporte nas estradas no território argentino, devido à suspensão do tráfego aéreo em grande parte do país.

Na Secretaria de Transporte, as fontes consultadas pelo Estado tampouco puderam propiciar informações sobre os eventuais planos de contingência para situações de catástrofe ambiental.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (5)| Comente!

“Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas os dois se entregam” dizia o escritor argentino Jorge Luis Borges.

Aproveitamos o dia dos namorados para colocar uma série de poemas de amor, comentários feitos em entrevistas e pensamentos esparsos sobre o amor e a paixão pronunciados pelo escritor argentino Jorge Luis Borges.

Nesta terça-feira completam-se 25 anos de seu falecimento em Genebra. Estão convidados a voltar ao blog nesse dia, para ver uma ampla postagem sobre o autor de “O Aleph”.

 O AMOR, SEGUNDO BORGES

Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível. “O Encontro com Beatriz”, 1949

Vale a pena ser infeliz muitas vezes para ser feliz um minuto. Petit, 1980.

Estar apaixonado é perceber o único que há em cada pessoa, esse único que não pode se comunicar a não ser por meio de hipérboles ou de metáforas. “Assim escrevo meus contos”, 1981

Apaixonar-se é produzir uma mitologia particular e fazer do universo uma alusão à única pessoa indubitável. Contraviento, 1984.

Parece que esta época tem se afastado de todas as versões do amor…parece que o amor é algo que deve ser justificado, o que é raríssimo, porque a ninguém se lhe ocorre justificar o mar, ou um pôr do sol, ou uma montanha: não necessitam ser justificados.  ABC, 1986.

POEMAS

O ENAMORADO                                            1977

Luas, marfins, instrumentos, rosas,

Lâmpadas e a linha de Dürer,

As nove cifras e o mutável zero,

Devo fingir que no passado foram

Persépolis e Roma e que uma areia

Sutil mediu a sorte da ameia

Que os séculos de ferro desfizeram.

Devo fingir as armas e a pira

da epopeia e os pesados mares

Que roem da Terra os pilares.

Devo fingir que há outros. É mentira.

Só tu és. Tu, minha desventura

E minha ventura, inesgotável e pura.

TWO ENGLISH POEMS                         1964

                                          To Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich

The big wave brought you.

Words, any words, your laughter; and you so lazily

and incessantly beautiful. We talked and you

have forgotten the words.

(…)

Your profile turned away, the sounds that go to

make your name, the lilt of your laghter;

these are illustrious toys you have left me.

(…)

I must get at you, somehow: I put away those

illustrious toys you have left me, I want your

hidden look, your real smile – That lonely,

mocking smile your cool mirror knows.

II

What can I hold you with?

I offer you lean streets, desperate sunsets, the

moon of the jagged suburbs.

(…) I offer you explanations of yourself, tehories about yourself, authentic and surprising news of yourself.

I can give you may loneliness, my darkness, the

hunger of my heart; I am trying to bribe you

with uncertainty, with danger, with defeat.

A ESPERA

Antes que toque a apressada campainha

E abram as portas e entres, oh esperada

Pela ansiedade, o universo tem

que ter executado uma infinita

série de atos concretos.

Ninguém pode computar essa vertigem,

a cifra daquilo que multiplicam os espelhos,

de sombras que se alongam e regressam,

de passos que divergem e convergem.
A areia não sabia numerá-los.

(Em meu peito, o relógio de sangue mede

O temerário tempo da espera).

Antes que chegues,

Um monge tem que sonhar com uma âncora,

Um tigre tem que morrer em Sumatra,

Nove homens têm que morrer em Bornéu. 

Borges e umas groupies no final dos anos 60

LE REGRET D’HERACLITE                 

Eu, que tantos homens tenho sido, nunca fui              

aquele em cujo amor desfalecia Matilde Urbach.                   

Gaspar Camerarius, em Deliciae Poetarum Borussiae, VII,16.

FRAGMENTOS DE UN EVANGELIO APÓCRIFO (ELOGIO DE LA SOMBRA)

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

AS MULHERES, SEGUNDO BORGES

 É uma sorte que existam; e existem quase mais do que eu. São seres muito mais práticas. Bienek, 1965

Imaginar uma mulher é um ato de fé. Milleret, 1970

No século XIX, Ibsen assombrou toda a Europa com sua “Casa de Bonecas”. Nessa comédia, Nora Helmer deixa seu lar para viver sua própria vida. Em Paris tiveram que lhe acrescentar um amante para que essa decisão não fosse um escândalo. Em Londres e em Berlim, fizeram que se arrependesse e voltasse à casa.

Sou, evidentemente, feminista. É uma insensatez não sê-lo. Nos Estados Unidos ser feminista é algo que não exige explicações. Em nossa América ainda há muito que fazer. Para um homem há algo mágico em todas as mulheres. Montenegro, 1983

Muitos mais sensatas que os homens e a prova está na história universal. Oscar Wilde tinha razão ao dizer que o universal era uma série de crônicas policiais. Em todas essas crônicas – guerras, conflitos, confrontos, etc. – a mulher foi sempre mais sensata que o homem. Conde, 1985

Em uma entrevista perguntaram a Borges:

“Que imagem tem das mulheres?”

Borges respondeu: “A mesma que todo mundo…A mulher é algo tão vago, são tão diferentes uma das outras, não se pode generalizar”.

Apesar de meus 82 anos, elas continuam a ocupar (um lugar em minha vida), porque, de uma maneira ou de outra, a gente se sente jovem (…)com a idade os homens perdem a capacidade de amar. Com a idade eles perdem a capacidade de mentir. Mas eu não perdi, com a idade, a capacidade de me surpreender com tudo.

 Enganam-se aqueles que pensam que não conheci o amor. Posso afirmar que tenho vivido enamorado. O primeiro amor (ideal, certamente) de minha vida foi uma atriz, Ava Gardner. Costumava ver seus filmes duas vezes por dia. Tão logo terminava a sessão, desejava que chegasse o dia seguinte para voltar a vê-la. O amor exige provas. Provas sobrenaturais. (Peicovich, E. 1988, 27)

Adolfo Bioy Casares disse, após a morte de Borges que seu amigo “passou a vida enamorado, sofrendo muitíssimas vezes”, No entanto, não aceitava levar o amor para a literatura. “Borges tinha uma postura quase puritana contra o amor”.

BÔNUS TRACK

“Enamorar-se é criar uma religião cujo deus é falível” (Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).

“Infinitamente existiu Beatriz para Dante; Dante, muito pouco, talvez nada, para Beatriz” ( Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).

“A amizade não é menos misteriosa que o amor e que qualquer das outras facetas desta confusão que é a vida” (O Informe de Brodie, 1970).

“O matrimônio é um destino pobre para a mulher” (1980)

“O coito é aquele momento da felicidade em que cada um é dois, a união em que nos perdemos logo no sonho” (1980).

“Escrevi “Ulrica”, um conto de amor, porque agora posso fazê-lo; porque perdi o pudor” (1980). 

Borges fala sobre o amor e a amizade, aqui.

E, nada da ver com o autor de “O Informe de Brodie” e “A História da Eternidade”, “Love is a many splendored thing”, do filme homônimo, por Nat King Cole, aqui.

E, falando em filmaços românticos, “An affair to remember”, do filme do mesmo nome, cantada pela genial Deborah Kerr, uma das mais emblemáticas ruivas do cinema mundial, aqui.

E – para terminar – do mesmo filme, minha cena preferida, quando Cary Grant visita a avó no sul da França em companhia de Deborah Kerr. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (9)| Comente!

 

Os camaleões – chamaeleonidae – são famosos por sua habilidade de mudar de cor de acordo com as circunstâncias, por sua língua rápida e alongada, além dos olhos, que podem ser movidos de forma independente um do outro. Os Menems – Carlos e Zulemita – protagonizaram nas últimas semanas uma camaleônica transformação política que os levou de ferozes inimigos do kirchnerismo a declarados admiradores da administração da presidente Cristina. “O grupo é bastante antigo, já que são conhecidos fósseis procedentes do Paleoceno”, segundo a Wikipedia…sobre os camaleões, claro. O simpático representante acima é o Bradypodion pumilum. Foto da Wikipedia.

 “Os peronistas não são bons nem ruins… são incorrigíveis!”. A frase, do escritor Jorge Luis Borges, indicava que os integrantes do movimento político criado pelo general Juan Domingo Perón eram capazes das mais estranhas manobras para permanecer no poder. Esse é o caso da transformação do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) e sua filha Zulemita Menem de arqui-inimigos em aliados do governo da presidente Cristina Kirchner.

Menem, famoso por suas políticas neoliberais, expoente do consenso de Washington na América Latina, costumava chamar o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) de “satânico”, por causa de suas políticas estatizantes. Além disso, acusava a presidente Cristina de “levar o país ao apocalipse”.

Há pouco tempo Menem considerava o casal Kirchner como representante de Satã na Argentina. Acima, o tinhoso em ilustração de Gustave Doré, nosso supimpa artista francês do século XIX. A imagem mostra o sr. das Trevas após levar um peteleco divino.

 Mas, o discurso com alusões bíblicas ficou para trás. Dias atrás Menem anunciou que votará na reeleição de Cristina, já que é a “única pessoa capacitada para governar”. Menem aposta que a presidente “vencerá no primeiro turno”. Sobre seu marido, morto em outubro passado, Menem disse que “foi um bom governante e fez o país funcionar”.

A transformação de Menem em aliado dos Kirchners começou em 2009, quando o ex-presidente respaldou uma série de projetos de lei do governo no Senado. Seu voto – e abstenção, em algumas ocasiões – foi crucial para permitir o uso, por parte do governo, das reservas do Banco Central, entre outras medidas.

Desta forma, Menem – um ortodoxo neoliberal e integrante da ala direita do partido peronista (Justicialista) – favoreceu o governo Kirchner (da ala centro-esquerda do peronismo) em leis que ampliavam a interferência estatal na economia.

Em troca, Menem – que precisa ser reeleito senador para continuar com a imunidade parlamentar, e assim, evitar ser colocado no banco dos réus por uma série de casos de corrupção – conseguiu o respaldo político do governador kirchnerista de La Rioja, Beder Herrera, que conta com abundantes fundos da Casa Rosada.

Em Buenos Aires, os ministros do gabinete Kirchner não declaram respaldo direto a Menem. No entanto, as críticas que costumavam fazer ao período menemista saíram da agenda diária. Coincidentemente, os processos contra Menem na Justiça tiveram um ritmo lento nos tribunais nos últimos dois anos.

Kirchners foram declarados aliados de Menem no início dos anos 90. Uma década depois eram inimigos mortais. Mais um decênio passou e agora são circunstanciais aliados.

Desta forma, o nome de Menem e de Cristina Kirchner estarão juntos nas listas de votação daqui a quatro meses. Além disso, o ex-presidente quer que sua filha Zulemita siga a carreira política da família e que seja candidata a deputada federal nas eleições de outubro.

Zulemita, que depois da separação dos pais em 1991 agiu como virtual primeira-dama de Menem – tal como Keiko Fujimori foi de seu pai Alberto nos anos 90 – faz mistério sobre o assunto. Mas, declarou que respalda a reeleição de Cristina, à qual declara “a digna admiração”: “é uma mulher com garra e faz tudo por nós”.

Gregor Johann Mendel ( 20 de julho de 1822 – 6 de janeiro de 1884) foi o “pai” da genética graças a seus estudos com as ervilhas. Segundo o ex-ministro do Interior de Menem, Carlos Corach, o menemismo e o kirchnerismo possuem a mesma marca “genética”.

GENÉTICA: “É o melhor soldado que o governo de Cristina Kirchner possui!”, dispara com ironia o senador Luis Juez, do Partido Novo, que acusa Menem de ter migrado às “fileiras kirchneristas”. O senador Gerardo Morales, da União Cívica Radical (UCR), o principal partido da oposição, afirma: “Menem está trabalhando para o governo”.

Carlos Corach, ex-ministro do Interior, que nos anos 90 foi o principal articulador político de Menem, declarou neste fim de semana que não existe contradição no respaldo do ex-presidente ao atual governo: “o kirchnerismo e o menemismo possuem a mesma marca genética”.

MENEM, PODER ATOMIZADO E BANCO DOS RÉUS: Durante duas décadas Carlos Menem foi uma das principais figuras da política argentina e o indiscutível caudilho do peronismo. Mas, em 1999, ao deixar a presidência da República – que havia ocupado por dez anos e meio – começou a perder influência e aliados.

Em 2001 ficou em prisão domiciliária durante cinco meses, acusado de contrabando de armas. Liberado, voltou à arena política. No entanto, só acumulou fracassos. Em abril de 2003 disputou a presidência do país contra Néstor Kirchner mas desistiu de concorrer ao segundo turno, decepcionando militantes e aliados.

Em 2005 amargou o segundo lugar nas eleições para senador de La Rioja, província que havia controlado durante 30 anos. Em 2007, candidato a governador, ficou em terceiro lugar.

Atualmente Menem está sendo julgado na Justiça pela explosão da fábrica militar de Río Tercero, ocorrida em 1995. A Justiça suspeita que a explosão foi feita para encobrir a ausência de armas e pólvora contrabandeadas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1994. Menem também está sendo processado por irregularidades na investigação do atentado realizado em 1994 contra a associação beneficente judaica AMIA, que causou a morte de 85 pessoas.

Apesar dos reveses Menem – que completará 81 anos daqui a quatro semanas – não perde a pose e diz que continuará na ativa por várias décadas. Nos comícios, perante seus simpatizantes, com voz alquebrada, exclama: “viverei como o faraó Ramsés, até os 104 anos!”

PECULIARES CONEXÕES: Os Kirchners respaldaram ativamente a política de privatização nos anos 90 feita por Menem. Como governador da província de Santa Cruz, onde estão algumas das maiores jazidas de gás e petróleo do país, Nestor Kirchner apoiou – e fez campanha a favor – da privatização da estatal energética argentina, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). Em 2004, quando estava na presidência do país, Kirchner criou uma mini-estatal energética, a Enarsa. A YPF continua privatizada, nas mãos da espanhola Repsol. No entanto, de forma gradual, o Grupo Petersen, controlada pela família Eskenazy, aliada dos Kirchners há longo tempo, está adquirindo ações da empresa (atualmente possuem mais de um quarto do total do pacote acionário).

Durante os anos 90 os Kirchners tampouco se opuseram à anistia que Menem concedeu em 1991 aos ex-comandantes da ditadura militar (1976-83). Mas, depois da posse, em maio de 2003, Kirchner decidiu que o julgamento dos militares – e o fim da anistia – era sua prioridade na área de direitos humanos.

No atual gabinete Kirchner existem diversos ex-integrantes do governo Menem, além de velhos aliados parlamentares.

Menem já havia protagonizado guinadas peculiares desde o início de sua carreira. Durante 30 anos foi um intenso crítico dos EUA e da Grã-Bretanha. Nos meses prévios à eleição presidencial de 1989 foi à Líbia e Síria pedir fundos para sua campanha. Na mesma época pregava recuperar as ilhas Malvinas “a fogo e sangue”. No entanto, após sua posse, manteve um alinhamento automático com os EUA (as denominadas “relações carnais”), tentou reaver as Malvinas com uma insólita estratégia diplomática (a chancelaria argentina enviou ursinhos de pelúcia aos habitantes das ilhas – os kelpers – além de vídeos de Winnie The Pooh).

Menem também negou seu passado de muçulmano (toda sua família é muçulmana, inclusive seus filhos com a ex-esposa Zulema Yoma) e apresentou-se como “católico apostólico romano” para disputar as eleições de 1989. Na época, a Constituição argentina determinava que uma pessoa, para tomar posse como presidente da República, deveria ser católico e casado.

A canção do camaleão (The chamaleon song) Um hit dos anos 20, aqui.

E outro “Chameleon”, desta vez com Maynard Ferguson, batuta trompetista canadense que tocou com Dizzy Gillespie e Stan Kenton. Ele foi o autor de “Goona fly now”, a música do filme Rocky, protagonizada por Sylvester Stallone. Para ouvir o “Chameleon”, Aqui.

E, não poderíamos deixar de citar um dos emblemas dos anos 80, George Alan O’Dowd - a.k.a. Boy George - com seu “Karma Chameleon”, na qual um de seus versos diz “I’m a man without conviction…I’am a man who doesn’t know how to sell a contradiction”. Aqui.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (18)| Comente!

 

Carlos Gardel, ícone do tango no Rio da Prata, fuma em um filme da Paramount nos anos 30.

O tango Fumando espero”, cuja letra dizia “Fumar é um prazer genial, sensual…Fumando espero a mulher que eu quero”, não poderá mais ser colocado na prática de forma 100% pelos argentinos e qualquer estrangeiro que esteja dentro do território nacional. O ato de fumar, sentado em um café – enquanto olha pela janela - acabou. As únicas alternativas serão a de esperar na rua – sob a chuva, sol ou vento, dependendo do enlouquecido clima portenho – ou trancado dentro de casa, já que a atividade de fumar estará categoricamente limitada às residências, ruas e praças. Nunca mais uma pessoa poderá esperar fumando em um restaurante, bar, cinema, teatro, cemitério, hall de um prédio, discoteca, entre outros lugares.

Quem quiser colocar na prática a espera nicotínica imortalizada por Carlos Gardel (e na versão feminina, pela espanhola Sarita Montiel), também terá a oportunidade – pouco romântica – de esperar fumando nos estádios. Mas somente os estádios não cobertos.

Isso é o que determina a lei aprovada pelo Senado em dezembro passado e confirmada pela Câmara de Deputados na terça-feira à noite. A nova lei será promulgada pela presidente Cristina Kirchner em breve e entrará em vigência antes do fim do ano, segundo afirmou o senador Daniel Filmus, ex-ministro da Educação e autor do projeto de lei.

O tradicional cigarro colocado na mão esquerda da estátua de Gardel em seu túmulo no cemitério de La Chacarita será uma lembrança do passado. Nas últimas sete décadas e meia, desde seu enterro em 1935, a mão de Gardel quase sempre ostentou um cigarro fumegante colocado pelos fãs.

“É um dia histórico” exclamou Verônica Schoj, coordenadora da ONG Aliança Livre de Fumaça Argentina. Segundo ela, a nova lei “não estigmatizará os fumantes, pois vai ajuda-los a deixar os cigarros”. O ministro da Saúde, Juan Manzur, declarou que a lei será “crucial” para reduzir o número de 40 mil mortes anuais provocadas pelo cigarro na Argentina.

A norma, que transformou a Argentina nesta semana no oitavo país 100% livre de fumaça de cigarros na América Latina (depois do Uruguai, Peru, Venezuela, Colômbia, Panamá, Guatemala e Honduras), também estipula restrições à publicidade de cigarros e demais estímulos para o consumo de produtos elaborados com fumo.

A partir de sua promulgação será proibida a colocação de publicidade em meios de comunicação e na via pública. Além disso, as empresas de cigarros não poderão patrocinar eventos ou atividades públicas.

Os maços – que deverão ostentar advertências sanitárias sobre os riscos de fumar – não poderão mais utilizar as denominações “light”, “suave” ou “baixo conteúdo de nicotina”.

A lei estipula que fica expressamente proibida a atividade de fumar em escritórios públicos ou privados. A única possibilidade que fica aberta é a dos escritórios de apenas uma pessoa, sem atendimento ao público e sem empregados.

A lei foi aprovada na Câmara por 182 votos a favor. Um deputado absteve-se, enquanto outro votou contra a lei. Após a votação, o deputado Jorge Obeid destacou que os próprios parlamentares deveriam dar o exemplo do cumprimento das restrições ao fumo e remover os cinzeiros espalhados no plenário dos deputados.

As multas para os infratores da nova norma oscilarão entre os valores equivalentes de 250 e um milhão dos maços mais caros de cigarros (entre US$ 437 e US$ 1,5 milhão).

Acima, mais uma vez Gardel com o cigarro na mão.

Tango “Fumando espero” Canta Ignacio Corsini. Aqui.

“Fumando espero” foi composto em 1922, época em que o tango era um gênero que causava furor na Europa. Este tango específico foi criado na Espanha pelo músico barcelonês Juan Villadomat Masanas, com letra de Félix Garzo. A obra, originalmente, foi preparada para uma peça teatral, “La Nueva España”.

Mas, o estilo espanhol não vingou neste caso. “Fumando espero” só tornou-se um sucesso quando foi levado para a Argentina por um grupo chamado “The Mexicans” (assim, em inglês, embora com referência aos mexicanos, apesar de ser integrado por espanhóis que tentavam conquistar o mercado argentino).

A estrela do grupo era  cantora Ana Luciano Divis, mais conhecida pelos argentinos como Tania (ela nasceu em Toledo, Espanha, em 1893, foi para Buenos Aires em 1917 e casou com o compositor Enrique Santos Discépolo em 1927 e morreu na capital argentina em 1999).

Em Buenos Aires, além de Tânia, este tango foi interpretado por Gardel e muitos outros tangueiros. Em 1957 este tango teve um novo impulso mundial com o filme “El último cuplé”, protagonizado por Sarita Montiel.

Na realidade, a letra de Félix Garzo refere-se a um cigarro que possui cocaína dentro. Só com este detalhe fica clara a letra do tango.

O cantor mexicano Tin Tan, que sabia bem como imitar o sotaque portenho, em uma versão do mesmo tango, aqui.

E a versão com a emblemática espanhola Sarita Montiel. Aqui.

A letra de Fumando espero:

Fumar es un placer

genial, sensual.

Fumando espero

al hombre a quien yo quiero,

tras los cristales

de alegres ventanales.

Y mientras fumo,

mi vida no consumo

porque flotando el humo

me suelo adormecer…

Tendida en la chaisse longue

fumar y amar… 

Ver a mi amante

solícito y galante,

sentir sus labios

besar con besos sabios,

y el devaneo

sentir con más deseos

cuando sus ojos veo,

sedientos de pasión.

Por eso estando mi bien

es mi fumar un edén.

Dame el humo de tu boca.

Anda, que así me vuelvo loca.

Corre que quiero enloquecer

de placer,

sintiendo ese calor

del humo embriagador

que acaba por prender

la llama ardiente del amor. 

Seção Efeméride quae sera tamen (um pouquinho tamen):

Parabéns à Itália pelos 150 anos da Reunificação (celebrada ontem, dia 2 de junho)!

G.Garibaldi, “herói de dois mundos”, acima.

Hino, aqui.

E o “samba italiano”, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (44)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão