Aos leitores, comentaristas e amigos, um 2012 sem profecias maias (mas pelo menos lendo Os Maias, do Eça de Queiroz) e com superavitária alegria, plenitude no amor, colesterol de 120 e respaldo financeiro abundante!!
Que todos seus desejos possam ser cumpridos. Ou, pelo menos, parcialmente cumpridos.
Nos veremos no ano que começa.
Abraços a todos,
Ariel
Mafalda, de Quino, e a esperança de um ano novo melhor para todos
E para começar o ano novo, “Le Grand Tango”, de Astor Piazzolla, interpretado por Mstislav Rostropovich:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. “El sillón de Rivadavia”, apelido da cadeira presidencial. Cristina Kirchner estará ausente durante algumas semanas dessa sala. Seu vice, Amado Boudou, estará ali sentado (foto da presidência da República Argentina).
A presidente Cristina Kirchner está com câncer na tireóide. Ela será operada no dia 4 de janeiro. O anúncio de sua doença foi feito na terça-feira no final da noite por seu porta-voz, Alfredo Scoccimarro. Muitos argentinos foram dormir sem saber nada sobre a notícia. Na manhã seguinte, milhares de argentinos, ao serem informados da doença da presidente Cristina acharam que era uma piada, já que era o dia 28 de dezembro, denominado “Dia dos Inocentes”, o equivalente hispano-americano ao 1 de abril, o dia da mentira. Vários governadores kirchneristas ficaram sabendo pela TV da doença da presidente ou muitas horas depois.
Mas, apesar do impacto inicial que a notícia teve na presidente, nesta quarta-feira, poucas horas depois do anúncio de sua doença, Cristina cumpriu rigorosamente sua agenda do dia e até fez um discurso no qual falou sobre sua saúde.
Exibindo bom ânimo, a presidente reuniu-se com governadores das províncias argentinas, prometeu-lhes a rolagem da dívida provincial e agradeceu o apoio recebido por diversos setores políticos e sociais. No entanto, Cristina aproveitou o discurso, transmitido pela maioria dos canais, para disparar críticas contra os meios de comunicação, os sindicatos e as companhias de combustíveis.
Cristina exigiu mais esforços de todos os setores e indicou que ela não tem condições de fazer tudo ao mesmo tempo. Depois, sugeriu que está sacrificando-se, “colocando a saúde a serviço do país”.
Cristina disse que o presidente venezuelano Hugo Chávez foi o primeiro em telefonar para desejar uma recuperação rápida. Cristina recordou que o líder bolivariano propôs a criação de um clube de presidentes que venceram o câncer e ressaltou que ela disputaria a presidência dessa entidade.
Nesta quinta-feira a presidente viajará para El Calafate, no extremo sul do país, onde possui uma elegante casa para descanso. Ali ela passará o Reveillon junto com a família. Ela volta direto de El Calafate para sua operação na semana que vem.
HOSPITAL PRIVADO - A presidente Cristina não utilizará a unidade presidencial do Hospital Argerich (um hospital público) inaugurado em 2003 pelo então presidente Néstor Kirchner (acompanhado de sua esposa e então primeira-dama e senadora Cristina) para atendimento dos presidentes argentinos.
Cristina, em vez desse centro, utilizará o elegante e privado hospital Austral, da Opus Dei, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, em Pilar (a principal área dos condomínios fechados na Argentina).
O casal Kirchner nunca utilizou as instalações do Argerich.
MERCADOS, PREOCUPAÇÕES E O VICE ROQUEIRO - Os mercados ficaram relativamente preocupados com a notícia sobre o câncer de Cristina Kirchner. A Bolsa de Buenos Aires teve queda de 1,3%.
O motivo da preocupação é que o sistema político argentino está extremamente centralizado na figura do presidente, fato que gera incertezas quando a pessoa que comanda o país está com problemas de saúde.
Os aliados do governo declararam apoio enfático para Cristina Kirchner, enquanto que grupos de militantes já planejam uma vigília que começará na frente do hospital um dia antes da operação do câncer na tireóide.
Durante a ausência de Cristina – a presidente terá uma licença de 20 dias – ficará na presidência interina do país o vice-presidente Amado Boudou. Nesta quarta-feira, no discurso, Cristina até fez uma piadinha com seu vice-presidente: “olha aí o que você vai fazer, hein?”.
Piadas à parte, o vice Boudou não é pessoa do agrado de Máximo Kirchner, filho da presidente, que embora sem cargo algum, é muito influente no governo de sua mãe.
Boudou, roqueiro nas horas vagas – e também em horário de trabalho – tampouco conta com o apreço dos setores mais à esquerda do kirchnerismo, que não esquecem que ele foi um economista da ala mais ortodoxa do neoliberalismo há menos de uma década. Além disso, ele é visto como um “arrivista” pelos kirchneristas mais puros.
Os analistas afirmam que Boudou não tem o jogo de cintura que é imprescindível para lidar com a costumeiramente turbulenta política argentina.
Para complicar, Boudou tampouco base política própria. Ele era o ministro da Economia de Cristina Kirchner, sem muita autonomia, já que o ex-presidente Nestor Kirchner, enquanto esteve vivo, foi o ministro da economia virtual do governo de sua mulher. Depois da morte de Kirchner, a economia ficou em piloto automático.
Cristina escolheu Boudou para o cargo de vice porque confia plenamente em sua lealdade, de forma a evitar a traumática experiência que teve com o vice de seu primeiro mandato, Julio Cobos. E, além disso, porque Boudou não representa um perigo interno.
O vice apareceu recentemente, durante sua festa de aniversário, de cueca samba-canção tocando a guitarra elétrica ao lado do roqueiro Andrés Calamaro. A presidente Cristina não gostou da imagem e deu um puxão de orelhas no vice.
Há poucas semanas Cristina chamou Boudou – em rede nacional de TV – de “mauricinho”, já que o vice reside no elitista bairro de Puerto Madero.
Boudou entoa um rock nacional com o roqueiro Andrés Calamaro. Foto da revista Gente.
APOGEU - O surgimento desta doença coincide com o momento de apogeu de Cristina, que foi reeleita com 54% dos votos em outubro. Ela tomou posse de seu segundo mandato há 18 dias, conta com a obediência de 21 dos 24 governadores argentinos, tem maioria no Senado e na Câmara de Deputados.
BLINDAGEM - Os analistas afirmam que Cristina Kirchner será fortalecida com este cenário, da mesma forma que sua popularidade disparou quando ficou viúva no ano passado. Eles sustentam que esta é uma chance de mostrar o lado mais “humano” de Cristina, que costuma ter fama de durona. Além disso, ela ficará temporariamente “blindada” contra as críticas.
Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país, que havia disparado fortes críticas sobre Cristina nas últimas semanas, exigindo aumentos salariais e mais espaço de poder aos sindicatos, declarou nesta quarta-feira que estava “consternado” pela notícia. Moyano, em rota de colisão com Cristina há meses, fez uma trégua temporária e expressou que a presidente conta com toda a “solidariedade” dos operários argentinos.
Scully e Mulder poderiam resolver o caso? H.Chávez considera que “El Império” aplicaria tecnologia para induzir ao câncer de presidentes da esquerda (ou esquerda light ou esquerda ma non troppo) sul-americana. Não incluiu seu antigo rival, Alvaro Uribe, na equação.
X FILES CARIBENHO - Não é trama de filme de James Bond nem ficção-científica. Mas, quase isso: o presidente Hugo Chávez apresentou nesta quarta-feira sua teoria de que “El Império” – o “O Império”, isto é, os Estados Unidos – estaria por trás dos casos de câncer que afetaram diversos presidentes e ex-presidentes sul-americanos desde 2009.
O líder bolivariano disse que suspeita que os americanos teriam desenvolvido uma tecnologia para induzir ao câncer. Chávez citou a lei das probabilidades e disse que é muito difícil encontrar explicações para o que está acontecendo com os políticos da esquerda ou esquerda light (ou esquerda ma non troppo) sul-americana, como os presidentes do Paraguai Fernando Lugo, o próprio Chávez, além de Cristina Kirchner agora. Nessa lista Chávez inclui Dilma Rousseff, quando ainda era ministra, além de Luiz Inácio Lula da Silva, já na categoria de ex-presidente.
Mas, Chávez não incluiu na lista seu inimigo, o ex-presidente colombiano Alvaro Uribe, que sofria de uma queratose actínica, doença que pode transformar-se em um câncer de pele.
No entanto, o fato é que – teorias conspiratórias à parte – os líderes políticos sofrem tensões acima do normal e cuidam pouco da saúde. Se for para encontrar um grupo de outros líderes com problemas de saúde podemos ver qualquer época.
Por exemplo, o ano 1940, quando Adolf Hitler e Benito Mussolini tinham sífilis (com seus efeitos no sistema nervosos); o britânico Winston Churchill com problemas cardíacos (e inícios de problemas vasculares cerebrais) e Iósif Stálin e Franklin Delano Roosevelt com AVCs que escondiam da população. Na época, só Charles De Gaulle exibia uma saúde de ferro.
O colunista político e médico argentino Nelson Castro chama estes males de “doença do poder”.
“É só uma gripe” ou “é apenas um check up”: frase clássicas dos governo argentinos para dissimular doenças graves de seus presidentes. Em 1993 Carlos Menem – a.k.a. “El Turco” (ou “Méndez”) estava sendo operado da carótida. Mas governo tentava convencer que era um baita resfriado.
DOENÇAS PRESIDENCIAIS - Os governos argentinos, de forma geral, não sabem lidar bem com a comunicação sobre as doenças dos presidentes. Esse foi o caso em 1974, quando o presidente Juan Domingo Perón estava gravemente doente, o governo afirmava que ele tinha “apenas uma gripe”.
Em 1993 o então presidente Carlos Menem foi internado às pressas. Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, na realidade ele estava sendo operado da carótida. Quando a verdade veio à tona os mercados ficaram tumultuados, já que o país estava em plena etapa de privatizações e o ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer na TV diversas vezes para acalmar os ânimos.
Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa, que teve uma obstrução na carótida em meio à grave crise econômica e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia argentina no final daquele ano. O ministro da Saúde, Héctor Lombardo, médico pessoal de De la Rúa, complicou o cenário ao afirmar de forma naif que o presidente tinha “um pouquinho de arteriosclerose…”.
Em 2004 o presidente Néstor Kirchner foi internado com uma hemorragia no duodeno. Nas primeiras horas os porta-vozes da Casa Rosada afirmavam que a internação às pressas do presidente não passava de uma reação a um medicamento do tratamento dentário. Posteriormente revelaram a verdade.
No ano passado, Kirchner foi operado duas vezes por obstruções da carótida. Mas, em ambas ocasiões o governo – nas primeiras horas – afirmava que havia sido internado para um mero “check-up”.
Uma semana depois da segunda operação Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro foi submetido à uma angioplastia. Menos de 48 horas depois participava de um comício ao lado da mulher. E um mês e meio depois, morreu.
CRISTINA E SUA SAÚDE - Em janeiro de 2009 a presidente Cristina passou mal e cancelou todas suas atividades durante cinco dias. Na época o governo disse que Cristina havia sofrido um desmaio por causa de uma “desidratação”.
Mas as explicações oficiais não convenceram, já que a presidente sempre carrega uma garrafinha de água mineral.
Nelson Castro, colunista político e médico – que escreveu um livro sobre o sigilo que costuma aparecer em torno às doenças dos presidentes argentinos disse na época que o comunicado oficial sobre o desmaio “não refletia toda a verdade”.
Castro sustentou que a versão sobre o desmaio de Cristina Kirchner foi uma demonstração de que as doenças dos presidentes “são assuntos de Estado que tem enormes implicâncias políticas”.
Neste ano a presidente Cristina passou mal em cinco ocasiões.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Celebração de arromba toma conta do quartel-general náutico do blog “Os Hermanos” na noite do dia 23, a pré-Véspera Natalina. A noitada foi embalada por um de nossos dois grupos (amadores) de gaita de foles, o “Los troesmas de Villa Crespo”. Os integrantes do outro conjunto, de “Los avivados de Balvanera”, passaram mal com a maré do Rio da Prata, assaz encrespado. O grupo embalou o início da ceia com o clássico “I left my heart in Chascomús”, passando depois para uma versão techno-milonga de “Adiós Quixeramobim mía”. Como de costume, o deputado Mutatis de Olivera e seu irmão e senador Mutandis de Olivera – reeleitos em outubro passado – fizeram discursos com um balanço de 2011 (Mutatis) e sobre as perspectivas para 2012 (este, o Mutandis). Na seqüência, o senador Byron Bezerra, que veio especialmente de S.Luis (Maranhão, não o território puntano), começou a recitar um poema épico. No entanto, a ingestão opípara de mollejas, preparadas por nosso chef, Bolívar Pueyrredón-Billinghurts, somado ao balançar do navio, e um chimichurri de duvidosa validade, provocaram distúrbios de caráter estomacal que interromperam a leitura poética. No entanto, o parlamentar não perdeu a oportunidade de despotricar contra o monopólio do sal de frutas e pediu “alka-seltzer para todos”. Foi ovacionado pelos presentes, que pediram a criação de uma comissão – em caráter de urgência – para encaminhar um projeto de lei a ambos países “nesse sentido”. Menu da noitada: mollejas à provençal, pizza e fainá “revisitado”. Tudo regado – comme il faut – com moscato “El Vasquito”.
Aos amigos, comentaristas e leitores, uma supimpa jornada natalina!
Abraços,
Ariel
PS: De obséquio natalino, deixo esta breve seleção musical:
Ariel Ramírez e sua “Misa Criolla” (Gloria e AgnusDei):
A voz de Mercedes Sosa, que canta “Todo cambia” na delirante cena de “Habemus papam” do diretor italiano Nanni Moretti:
Charles Trènet canta “La Mer”
Charles Trènet canta “Boum!”
Sweet Georgia Brown, com Django Reinhardt e Stephane Grapelli
Sweet Georgia Brown, na versão de Mel Brooks e Anne Bancroft…em polonês!
E Oscar Alemán, em “Al gran Horacio Salgán”
Los Troesmas de Villa Crespo em todo seu esplendor.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Pinguins de Madagascar preparados para o Natal, com gorrinho de Papai Noel ad hoc. No Senado em Buenos Aires, “los pinguinos” (os pinguins, denominação do entourage kirchnerista) aprovaram uma série de leis que entregaram como presente natalino à presidente Cristina Kirchner, a.k.a. ”La Pinguina”.
CONTROLE SOBRE O PAPEL-JORNAL - Nesta quinta-feira o Senado aprovou o projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que declara de “interesse público” a produção, comercialização e distribuição do papel-jornal em todo o território argentino. A lei é um golpe direto aos jornais “Clarín” e “La Nación”, críticos do governo Kirchner, que possuem respectivamente 49% e 22,49% das ações da Papel Prensa, a única fábrica de papel-jornal em funcionamento no país. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.
Com a nova lei o Estado argentino poderá aumentar sua participação acionária, sem limites, dentro da empresa. Além disso, a norma cria um sistema que implica na fiscalização de todos os compradores de papel-jornal do país.
Desta forma, os parlamentares kirchneristas, com maioria no Senado, cumpriram sua promessa de aprovar esta lei como “presente de Natal” para a presidente Cristina, que desde 2008 mantém um duro confronto com os meios de comunicação não-alinhados, especialmente o Grupo Clarín.
Presidente Cristina Kirchner segue o pedido de seu defunto marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), o de “colocar o Clarín de joelhos”. Ofensiva contra os meios de comunicação não-alinhados promete ficar mais intensa em 2012.
A oposição afirma que essa lei levará à uma “estatização encoberta” da Papel Prensa. Os constitucionalistas afirmam que viola a Carta Magna, pois o governo passaria a exercer um controle direto sobre um insumo necessário para a liberdade de expressão.
Neste cenário, o governo – tal como faz há vários anos com as verbas de publicidade oficial – poderá determinar que jornal vai receber mais ou menos papel, condicionando a mídia não alinhada.
A Constituição argentina reconhece a liberdade de expressão, isto é, a liberdade de poder criticar o governo, entre outros. Mas, a lei aprovada pelo Senado estabelece um controle estatal sobre o papel no qual essas críticas seriam impressas.
O octogenário senador Carlos Menem, ex-presidente, é cumprimentado cálidamente pelo líder do bloco kirchnerista no Senado, Miguel Ángel Pichetto. Menem deixou de ser “arqui-inimigo” e transformou-se em enfático aliado do governo da presidente Cristina. Em outubro Menem foi reeleito para o senado com respaldo dos kirchneristas da província de La Rioja. Nos últimos meses, em diversas ocasiões, Menem afirmou que a política da presidente Cristina “está mais do que certa”. O ex-presidente foi absolvido recentemente no julgamento sobre suas responsabilidades no caso do contrabando de armas para o Equador e a Croácia.
VOTOS E MENEM - Na Câmara de Deputados – onde o governo, desde o dia 10 de dezembro, conta com maioria – o projeto de lei foi aprovado por 134 votos a favor e 92 contra.
Do total de 72 cadeiras do Senado, o governo Kirchner obteve 41 votos a favor e 26 contra, além de uma abstenção. Um dos votos favoráveis foi o do senador e ex-presidente Carlos Menem, que nos últimos dois anos passou de ser “inimigo” a “aliado” da presidente Cristina.
A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) sustenta que, com a nova lei, o governo controlará e distribuirá o papel-jornal de forma arbitrária.
Lei do governo Kirchner segue caminho de legislações similares do presidente chileno Sebastián Piñera e do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. A forma de definir o que é terrorismo poderia englobar qualquer um. Acima, falando em terroristas comme il faut, Ossama Bin Laden.
PODER PARA DEFINIR QUEM É TERRORISTA – O Senado também aprovou a lei anti-terrorismo, que determina de forma extremamente abrangente quem é “terrorista”. Líderes kirchneristas no Congresso, como Carlos Kunkel, deixaram claro que o “terrorista” não é somente a pessoa que coloca bombas, mas também a pessoa que “aterrorize” a população e o obrigue o governo argentino a “realizar um ato ou abster-se de fazê-lo”.
O diretor da Unidade de Investigações Financeiras (UIF), José Sbatella, indicou que que um jornalista que publique uma notícia que gere uma corrida bancária, poderá ser preso. Segundo ele também seria punida uma medida especulativa que que “bata no governo” (sem especificar o que seria “bater”)
De acordo com a nova lei, as penas previstas no Código Penal serão “duplicadas” quando os delitos previstos tenham sido cometidos com a finalidade de aterrorizar a população”.
Isto é, hipoteticamente, caso um jornalista publique suas investigações sobre um plano do governo de realizar um confisco bancário, ele poderá ser detido por publicar a realidade.
A lei levantou mais de uma sobrancelha no âmbito jornalístico argentino, já que a presidente Cristina Kirchner costuma afirmar que é vítima de um “fuzilamento midiático” e que existe uma “tentativa de golpe de Estado” dos meios de comunicação (embora nunca tenham realizado uma denúncia na Justiça sobre algum organizador de um suposto coup d’état).
A interpretação de “aterrorizar” ficará nas mãos dos juízes argentinos.
O.B.L. em montagem fotográfica ostentando a vestimenta de Papai Noel, o bom e adiposo – e barbudo – velhinho que veste-se totalmente de vermelho.
A publicação dos índices de inflação calculados pelos economistas independentes, na contra-mão do índice oficial (acusado de maquiagem), também poderiam ser punidos pela lei, caso os juízes considerem que essas informações “aterrorizam” a população.
Essa lei causou uma intensa reação na oposição. O deputado Fernando “Pino” Solanas, líder do esquerdista Projeto Sul, afirmou que é um “absurdo” deixar à legislação penal as interpretações futuras sobre as intenções dos protestos sociais.
Isto é: quem quiser fazer uma manifestação corriqueira e tradicional (elementos da paisagem do cotidiano argentino) agora ficará na dúvida se seu protesto poderá ser considerado “terrorista” ou não. Ou, tudo dependerá do grupo que realize o protesto.
A lei também abre espaço para a criminalização dos protestos sociais. Desta forma, poderiam ficar na mira do governo as organizações ecologistas e comunidades indígenas que realizaram vários protestos no último ano.
Diversas organizações não-governamentais aliadas da presidente Cristina perceberam que o governo havia ido “longe demais” e criticaram a lei.
Esse foi o caso do Centro de Estudos Sociais e Legais (CELS), comandado pelo veterano jornalista Horacio Verbitsky, costumeiramente um enfático defensor do casal Kirchner. No entanto, desta vez, o CELS emitiu um comunicado no qual afirma que a forma “vaga” do texto da lei que define os delitos terroristas implante um limite difuso que poderia atingir os protestos sociais: “criminalize modalidades de participação sem precisar quais são os delitos para os quais a figura está destinada”.
As Avós da Praça de Mayo também fizeram objeções à nova lei. As Mães da Praça de Mayo-Linha Fundadora expressou “profunda discordância” com a lei.
No entanto, o outro grupo, as Mães da Praça de Mayo, comandadas por Hebe de Bonafini, evitaram qualquer tipo de comentário negativo sobre a lei.
O juiz da Corte Suprema de Justiça, Eugenio Zaffaroni, aliado do governo, também considerou que desta vez o cenário estava degringolando. O juiz, que recentemente esteve envolvido em um escândalo sobre a existência de prostíbulos em cinco apartamentos que ele alugava, sustentou que a lei era uma “extorsão” internacional do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), que recomendou esta lei. “Mas no país não precisamos esta lei anti-terrorismo”, sustentou.
A lei do governo Kirchner segue caminho de legislações similares do presidente chileno Sebastián Piñera (onde foi usada para prender índios mapuches que protestavam para exigir a devolução de terras indígenas) e do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.
UM SUICÍDIO NA CÚPULA
O corpo sem vida de Iván Heyn, pendendo do cabideiro do armário de seu quarto do Hotel Victoria Radisson, no centro da capital uruguaia, com um cinto enforcando seu pescoço, tumultuou nesta semana a reunião de cúpula de presidentes e ministros dos países do Mercosul. O jovem, de 34 anos, ocupava há 10 dias o cargo de sub-secretário de comércio exterior da Argentina.
Na terça-feira ao meio-dia sua ausência nas reuniões no edifício da Secretaria do Mercosul chamou a atenção dos integrantes da equipe econômica, que foram buscar o economista, que foi encontrado morto. Ao ser informada do suicídio do subsecretário – que estava nu na hora da morte – a presidente Cristina Kirchner passou mal e foi atendida por seu médico pessoal na sede da Secretaria do Mercosul.
A morte de Heyn – que integra a equipe que intensificaria o protecionismo do segundo mandato da presidente Cristina – provocou o cancelamento da tradicional foto oficial dos presidentes do Mercosul. É a primeira vez, em 42 cúpulas, que o bloco do Cone Sul registra a morte de um de seus negociadores durante o período de reuniões.
A notícia do suicídio interrompeu os trabalhos no meio da tarde, que, no entanto, foram retomados na seqüência.
ESTRELA - Heyn foi velado na quarta-feira em Buenos Aires. A morte de Heyn, ocorrida durante a cúpula de presidentes do Mercosul na capital uruguaia, causou grande impacto dentro do governo, já que o jovem, de 34 anos, despontava como o economista-estrela do kirchnerismo. Além disso era amigo pessoal do filho da presidente Cristina Kirchner, Máximo, que possui grande influência no governo de sua mãe.
Os analistas consideravam que Heyn tinha potencial como futuro ministro da economia, devido a seu jogo de cintura que lhe possibilitava relações fluidas com o empresariado e simultaneamente com a ala radical do kirchnerismo.
Grande parte do gabinete de ministros foi ao velório de Heyn, além de militantes da organização “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista, que ele integrava.
“Quando me comunicaram sua partida, senti que ficava sem ar”, admitiu na quarta-feira em Buenos Aires a presidente Cristina, durante um discurso em rede nacional de TV. “Ele tinha a idade de meu filho, 34 anos”.
A presidente indicou que se pudesse colocar um nome ao decreto que assinou ontem, que determina um teto para as taxas de juros dos créditos para os aposentados, “poria o nome de Iván Heyn”.
O economista, que suicidou-se nu, não deixou cartas com explicações sobre os motivos que o levaram à morte em seu quarto do décimo andar do Hotel Victoria Radisson. Diversos amigos do subsecretário morto afirmam que ele estava “muito cansado”, “sobrecarregado de trabalho” e “zangado”.
A Polícia uruguaia indicou que o corpo de Heyn “não exibia sinais de violência”. Além disso, descartam, a princípio, um assassinato, já que as gravações das câmeras de segurança do hotel não mostravam pessoa alguma entrando em seu quarto.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Foto que mostra a mão esquerda amarrada de uma vítima dos voos da morte. O corpo foi fotografado nas areias de uma praia uruguaia.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) entregou nesta quinta-feira 130 fotos inéditas de vítimas dos denominados “voos da morte”, denominação dos voos que a aeronáutica naval argentina realizava durante a ditadura militar (1976-83) sobre o rio da Prata e o mar para jogar nas águas os prisioneiros, ainda vivos, desde os aviões. A maior parte dos cadáveres dos prisioneiros políticos argentinos encontrados naquela época foram levados pela correnteza às costas do Uruguai, cujo governo acreditava no início que eram vítimas de um naufrágio de um navio asiático.
Além das fotografias – de alta qualidade – a CIDH enviou à Buenos Aires relatórios dos anos 70 da Guarda Costeira e dos serviços de inteligência do Uruguai sobre a descoberta dos corpos nas praias uruguaias.
O material também contém mapas indicando onde os corpos foram encontrados. A maior parte dos cadáveres apareceram nas praias entre as cidades de Colônia (sobre o rio da Prata) e La Paloma (no oceano Atlântico).
As fotografias mostram pessoas nuas, a maioria com as mãos e os pés amarrados com cordas. Os militares argentinos teriam amarrado os prisioneiros para evitar distúrbios dentro dos aviões, além de impedir que tivessem qualquer chance de nadar, em caso de sobrevivência quando eram arremessadas desde os aviões.
Os corpos também exibem marcas de torturas, como fraturas ósseas múltiplas no tórax e membros, além de crânios esfacelados. Os cadáveres exibem marcas de choques elétricos.
Em vários casos, especialmente mulheres, os cadáveres tinham marcas de perfurações feitas com objetos pontiagudos em seus púbis e ânus. Outra foto mostra um homem que havia sido castrado com um certeiro corte de faca pouco tempo antes de sua morte.
O material fotográfico e os relatórios feitos na época pela Guarda-Marinha do Uruguai foram entregues ontem ao juiz federal Sérgio Torres, responsável pelas investigações e o julgamento dos envolvidos no “mega-processo ESMA”, denominação do processo que envolve dezenas de ex-torturadores da Escola de Mecânica da Armada (ESMA).
Os arquivos confidenciais, que pertencem ao relatório secreto realizado pela CIDH entre 1979 e 1980 na Argentina e no Uruguai, foram encontrados em novembro pelo juiz Torres dentro de 65 caixas na sede da Comissão Interamericana, nos EUA.
Ao ver os primeiros relatórios Torres fez algumas fotocópias. Mas, depois, ao perceber que ali poderia estar material que pudesse comprovar a existência dos “voos da morte”, solicitou à CIDH o material original.
O secretário-executivo da CIDH, Santiago Cantón, declarou que estes documentos possuem alto valor, já que até agora, todas as provas sobre os voos da morte eram depoimentos.
Os integrantes atuais da CIDH não sabem qual é a origem dos documentos encontrados. No entanto, suspeitam que poderiam ter sido entregues pelo ex-marinheiro e fotógrafo da Marinha uruguaia, Daniel Rey Piuma, que – chocado pelos horrores da ditadura de seu país (1973-85), desertou e fugiu para o Brasil. Posteriormente pediu asilo na Holanda, onde reside. Piuma teria escapado do Uruguai com material fotográfico que teria entregue a representantes do CIDH no Brasil na época.
A revelação da documentação é uma atitude inédita da CIDH, que pela primeira vez abre seus arquivos confidenciais para seu uso em um processo na Justiça. Além disso, os documentos poderiam gerar um pedido da Justiça argentina ao Estado uruguaio para que Montevidéu desclassifique os documentos relacionados à descoberta de corpos de argentinos nas costas do Uruguai nos tempos da ditadura.
Estimativas de ONG argentinas e de organismos internacionais como a Anistia Internacional indicam que a ditadura argentina assassinou 30 mil civis. Destes, 5 mil teriam passado pela ESMA. Menos de 150 sobreviveram às torturas e os fuzilamentos feitos pelos oficiais da Marinha.
A ESMA era comandada pelo almirante Emilio Massera, definido pelo escritor Miguel Bonasso como “o serial killer com sorriso de Gardel”, em alusão à sua crueldade e personalidade esquizofrênica. Massera morreu em novembro do ano passado, após uma década em estado vegetativo.
Floreal, aos 14 anos, pouco antes de ser sequestrado, torturado nas mãos e genitais e finalmente empalado vivo.
EMPALADO VIVO - Uma das fotos, relativas a três corpos encontrados no dia 22 de abril de 1976, quase um mês após o golpe que deu início à ditadura argentina, mostra o cadáver de um jovem com a marca de uma tatuagem com as letras “FA”. Segundo a Equipe Argentina de Antropologia Legista – responsável pela identificação de centenas de corpos de desaparecidos nos últimos anos – a foto seria do cadáver do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril. O corpo, com a tatuagem que o jovem havia feito, foi encontrado pelos uruguaios e enterrado em Montevidéu. Posteriormente sua família foi informada sobre a descoberta do corpo do garoto.
Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal, que tinha 14 anos quando foi sequestrado, sofreu torturas nas mãos e genitais. Depois, foi empalado vivo.
Mapa da Guarda Costeira do Uruguai que mostra a origem dos corpos encontrados no litoral uruguaio.
CORPOS NAS PRAIAS - Na época do surgimento dos primeiros cadáveres, a ditadura militar uruguaia acreditou que tratavam-se de pessoas afogadas em um naufrágio de um navio asiático. Os militares confundiram no início que eram de etnias orientais, pois os corpos estavam “amarelos”. Mas, posteriormente perceberam que tratavam-se de ocidentais.
Nos anos seguintes os militares em Montevidéu reclamaram aos colegas argentinos em Buenos Aires que o surgimentos de corpos em suas praias estavam causando constrangimentos ao regime, além de pânico nos turistas, que deparavam-se com os cadáveres trazidos pela maré. A partir dali, os pilotos argentinos deixaram de arremessar os prisioneiros na área do rio da Prata começaram a fazer voos até o mar. No entanto, as correntes marítimas continuaram levando os corpos às costas uruguaias.
VALOR DOS DOCUMENTOS - Valeria Barbuto, diretora da área de pesquisa do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), disse ao Estado que a revelação das fotos e documentos por parte da CIDH é “fantástico”, pois “demonstra que ainda existem muitos documentos que ainda não conhecemos e que podem ser de utilidade para a memória e as investigações na Justiça”. Segundo ela, “esta contribuição de documentos confere mais solidez aos processos na Justiça” sobre os crimes da ditadura.
Barbuto sustentou que o real valor destes documentos “poderá ser avaliado ao longo das próximas semanas”. Segundo ela, o material entregue pela Comissão Interamericana “servirá para provar que os voos da morte eram uma sistemática da ditadura e não algo circunstancial”.
A representante do CELS considera que a desclassificação dos documentos da CIDH estimulará que vários países da região acelerem o processo de abertura de seus arquivos sobre os períodos das ditaduras no Cone Sul.
DITADURA ARGENTINA APLICOU VÁRIOS MÉTODOS PARA ELIMINAR PRISIONEIROS
Tal como os funcionários do Terceiro Reich que recorreram aos fornos crematórios para eliminar os prisioneiros dos campos de concentração – como forma rápida de eliminar os vestígios dos corpos dos judeus massacrados – a ditadura argentina optou pelos “voos da morte” como uma de suas modalidades preferidas para “desaparecer” as pessoas sequestradas.
Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos “voos da morte”, revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no rio da Prata e no mar desde os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a Humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas sim, parte de um plano de grande escala de eliminação dos corpos dos desaparecidos.
Além da Armada argentina, a Aeronáutica e o Exército também realizaram “voos da morte”, embora em menor escala, já que estas duas forças preferiam o enterro dos cadáveres em fossas comuns clandestinas. Na quarta-feira, na província de Tucumán, no norte da Argentina, a Justiça revelou a descoberta de uma fossa comum com quinze corpos de desaparecidos da ditadura.
Um dos corpos encontrados foi o do ex-senador Guillermo Vargas Ainasse, que foi sequestrado pelos militares em abril de 1976, aos 35 anos. A Equipe de Antropologia Legista fez um exame de DNA
A ditadura argentina também amarrava prisioneiros e os dinamitava vivos, além de fuzilamentos em massa.
A fossa comum com os esqueletos dos desaparecidos da ditadura na província de Tucumán.
PROTAGONISTA DOS VOOS FALAVA COM O ‘PEQUENO JESUS’ - Um dos criadores dos “voos da morte” foi o capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, uma das “estrelas” da ESMA. O oficial, que falava sozinho à noite, em delírio místico explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões.
Acosta – famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos – também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA, em cuja maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.
Em outubro passado, Acosta, acusado de violar diversas prisioneiras, foi condenado à prisão perpétua por seus crimes durante a ditadura.
![]()
Mudando de assunto: Na segunda-feira que vem, dia 19, às 17h, a TV Estadão fará um debate sobre a Primavera Árabe com Reginaldo Nasser e Heni Ozi Cukier, moderado pelo Lameirinhas. O debate será transmitido ao vivo no portal e permitirá participação em tempo real dos internautas pelo Twitter, Facebook, email e pelo Radar Global.
Mais informações, aqui.
As perguntas para o debate poderm ser enviadas aqui: estadaointer@gmail.com
ara encerrar esta semana, de Ludwig van Beethoven, Sétima Sinfonia, 2º movimento. Com o maestro Leonard Bernstein, que rege a Weiner Philharmoniker.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
A presidente Cristina Kirchner assinou um decreto publicado na segunda-feira no Diário Oficial da Argentina, no qual convoca o Congresso Nacional a realizar sessões extraordinárias para debater e votar uma série de projetos de lei, entre os quais está a declaração de “interesse público” da produção, comercialização e distribuição de papel de jornal em toda a Argentina. A presidente Cristina, no decreto, determinou que esse projeto – entre outros – sejam votados no plenário da Câmara de Deputados e no Senado no máximo até a véspera do Reveillon, dia 30 de dezembro.
O projeto – aprovado na comissão da Câmara nesta terça-feira com uma velocidade nunca antes vista – é um golpe direto aos dois maiores jornais do país, o “Clarín” e o “La Nación”, ambos de posições críticas com o governo.
O projeto poderia ser votado na Câmara de Deputados nesta sexta-feira. Se for aprovado – como tudo indica, graças à maioria do governo no plenário – irá na semana que vem ao Senado.
Se for aprovada, a lei irá na contra-mão da Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José de Costa Rica – que proíbe expressamente a aplicação de controles sobre papel-jornal.
Alguns setores da oposição – principalmente os partidos de centro e centro-direita – afirmam que o projeto da presidente Cristina não passa de uma “estatização encoberta” da única fábrica de papel de jornal em funcionamento no país.
Atualmente o Clarín possui 49% das ações da Papel Prensa. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. O jornal “La Nación” possui 22,49%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.
Caso o projeto seja aprovado, o “Clarín” e o “La Nación” serão forçados a vender suas ações, já que as novas normas proíbem que empresas de jornais impressos possam ter ações na “Papel Prensa”.
“Claramente, é um projeto com intencionalidade política. Apesar do impacto que isto pode ter, o governo pretende votá-lo às pressas, antes do fim do ano, com um Parlamento novo, que acabou de tomar posse há poucos dias. Além disso, nenhum meio de comunicação foi convocado às comissões parlamentares para expressar sua opinião sobre o caso”, disseram ontem ao Estado fontes do jornal “Clarín”. “É um confisco encoberto”, sustentaram as fontes, que ressaltaram que o projeto visa, além de um controle estatal sobre o papel de jornal, o favorecimento dos meios de comunicação aliados do governo, o denominado ‘amigopólio’”.
O projeto também determina que qualquer pessoa que tenha mais de 10% de ações de uma empresa de jornal impresso não poderá participar da “Papel Prensa”. Desta forma, fica aberto o caminho para que os novos acionistas sejam empresários de outros setores da economia. Analistas afirmam que donos de empreiteiras, com boa relação com o governo Kirchner, já estão de olho na “Papel Prensa”.
Nos artigos 16 e 41 o projeto determina que o Estado, que possui atualmente 27% das ações da Papel Prensa, poderá ampliar seu capital na empresa.
FISCALIZAÇÃO ESTATAL - Caso o projeto seja transformado em lei o papel de jornal será fiscalizado por uma entidade ainda a ser criada, a Autoridade Federal para o Controle e Acompanhamento da Produção, Distribuição e Comercialização de Papel de pasta de celulose para os jornais (AFePDICop). Esta entidade será comandada por um funcionário, designado pelo Poder Executivo, com um mandato de quatro anos de duração.
O governo Kirchner havia tentado aprovar esse projeto no ano passado, quando estava em minoria no Parlamento. No entanto, desde a semana passada a presidente Cristina conta – somando parlamentares próprios e aliados – com uma confortável maioria para obter a aprovação da lei.
CARTAZES - Neste fim de semana, após a posse de Cristina, reeleita para um segundo mandato que se prolongará até 2015, cartazes com os dizeres “Tchau, Clarín” em letras garrafais foram colocados nas paredes de Buenos Aires.
Os cartazes, de autoria da Juventude Peronista, do Movimento de União Popular e da “Kolina” (grupo político da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro de 2010 e cunhada da presidente Cristina), também ostentavam a frase “nenhum monopólio resistirá três governos populares” (alusão ao governo de Kirchner e os dois mandatos de Cristina).
“O FIM” - O jornalista e historiador Jorge Lanata, fundador do jornal “Página 12” na segunda metade dos anos 80, disse ao Estado que a eventual aprovação da declaração de “interesse público” da produção e distribuição de papel de jornal, será “o fim do jornalismo na Argentina”. Segundo Lanata, os governos de plantão poderão determinar maiores quantidades de papel de jornal aos periódicos alinhados ou condescendentes com a Casa Rosada, enquanto que os jornais críticos correriam o risco de receber quantidades mínimas desse insumo.
Lanata foi recentemente apedrejado por militantes kirchneristas enquanto o jornalista participava ao ar livre de um debate sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo.
Ao longo do ano passado o governo tentou culpar o “Clarín” e o “La Nación” de terem realizado em 1976 uma compra irregular, por intermédio de torturas, durante a ditadura, da “Papel Prensa”. No entanto, nada foi comprovado até o momento.
Um breve interlúdio musical com o argentino-israelense Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim. Barenboim rege um clássico das milongas argentinas: “Taquito Militar”. Na sequência, a rocambolesca história da Papel Prensa.
A PECULIAR HISTÓRIA DA PAPEL PRENSA
David Graiver, banqueiro de Perón que financiava militares de direita e guerrilheiros de esquerda, morreu misteriosamente no México.
Em 1969 Papel Prensa foi criada por decreto do general Juan Carlos Onganía. Em 1972, quando governava o general Alejandro Lanusse, a empresa foi entregue a Cesar Augusto Civita e à Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia, José Ber Gelbard, forçou a venda ao banqueiro David Gravier, aliado do governo peronista. Além desta aliança com Perón o banqueiro também tinha intrincadas relações financeiras com os militares e com o grupo guerrilheiro Montoneros.
Em 1975 os guerrilheiros entregaram a Graiver US$ 17 milhões de um total de US$ 60 milhões obtidos com sequestro dos irmãos Born (os principais milionários da Argentina na época) para que o banqueiro os investisse.
Em 1976 os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón. Graiver morreu em agosto de 1976 em estranho acidente de avião no México. Seus bancos na Europa e EUA faliram. Nessa conjuntura complicada, seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa no dia 2 de novembro daquele ano. Um mês depois, os Montoneros pressionaram a víuva para que entregasse o dinheiro que seu falecido marido havia administrado para a guerrilha, ameaçando-a jogar pela janela de seu edifício.
Seis meses depois Papaleo e seu cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, acusados de ter o dinheiro do sequestro feito pelos Montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram Lídia e Isidoro.
Em 1986 Papaleo prestou depoimento nas investigações realizadas na época sobre crimes da ditadura. Na ocasião afirmou que havia sido detida em março de 1977, meses depois da venda de Papel Prensa. Ela foi indenizada em US$ 84 milhões pelo presidente Raúl Alfonsín pelos confiscos aplicados pelos militares. Na ocasião, Lídia nada reclamou sobre a Papel Prensa.
O surgimento da polêmica sobre Papel Prensa trouxe à tona, além de Lídia Papaleo, seu irmão, Osvaldo, que foi porta-voz em 1975 da então presidente Maria Estela Martinez de Perón, a.k.a. “Isabelita”, viúva de Perón.
Osvaldo Papaleo, que participou abertamente de reuniões políticas com integrantes do kirchnerismo, foi também um dos principais homens de José López Rega, astrólogo e super-ministro da então presidente Isabelita Perón. López Rega criou na época uma força paramilitar de extrema-direita, a “Tríplice A”, com a qual perseguia representantes de partidos da esquerda e da própria ala esquerdista do partido governista, o Justicialista.
OS TIMERMAN - Graiver também havia investido no jornal “La Opinión” e no “La Tarde”, respectivamente de Jacobo Timerman e de Héctor Timerman, pai e filho.
Jacobo, que foi um enfático defensor do golpe de Estado de 1976 (já havia defendido o golpe de 1966, que derrubou o então presidente Arturo Illia), posteriormente foi detido e torturado selvagemente pelos militares, seus ex-aliados. Jacobo foi salvo graças à intervenção pessoal do presidente americano Jimmy Carter.
O filho de Jacobo, Héctor, que também comandou um jornal que respaldou a preparação do golpe militar, transformou-se nos anos 80 em ativista dos direitos humanos. Atualmente é o chanceler do governo Kirchner.
DIFERENTES VERSÕES PARA UMA HISTÓRIA
- Dos jornais Clarín e La Nación
a) Ambas empresas – junto com o já extinto La Razón – afirmam que compraram as ações da família Graiver-Papaleo em novembro de 1976. As torturas, nas quais indicam que não tiveram participação, só começaram em março de 1977.
b) Além disso, o jornal “La Nación” publicou em 2010 uma denúncia feita pelo presidente da diretoria do próprio periódico portenho, Julio Saguier, que indica que Lidia Papaleo de Graiver, a viúva de David Graiver – o falecido dono da empresa Papel Prensa – teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner um pagamento para contar outra versão da História sobre a venda em 1976 da companhia, a única produtora de papel de jornal da Argentina.
Saguier afirma que reuniu-se em maio deste ano com Papaleo para um café no elegante Hotel Alvear. Na ocasião, o governo Kirchner já havia deslanchado o confronto com o “Clarín” e o “La Nación” por causa da Papel Prensa. Papaleo aceitou conversar com Saguier por agradecimento à boa relação que teve com seu pai, Julio César Saguier, primeiro prefeito de Buenos Aires com a volta da democracia, em 1983.
Papaleo, nessa conversa, teria confessado a Saguier que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil de entrada, caso confirmasse a versão do casal presidencial sobre o caso de Papel Prensa. Mas, na hipótese de que a “operação fosse coroada com sucesso” contra ambos jornais, receberia outros US$ 2 milhões.
Papel Prensa era comandada em meados dos anos 70 pelo banqueiro David Graiver. Mas, com a misteriosa morte deste, em agosto de 1976, em um acidente de avião no norte do México, as ações passaram para sua viúva Lídia, que era psicóloga e mãe da filha de ambos, María Sol Graiver. Em novembro daquele ano, em meio a problemas financeiros provocados pela falência dos bancos do falecido marido, Papaleo vendeu as ações aos jornais “Clarín”, “La Nación” e o “La Razón” (posteriormente extinto).
Na conversa com Saguier a viúva admitiu que precisava do dinheiro oferecido pelos Kirchners, já que sua fortuna havia ficado com sua filha María Sol, com a qual não conversa há anos. Papaleo teria dito a Saguier que o acordo com os Kirchners foi pactuado após três reuniões. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros realizados na residência presidencialde Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo de juventude dos Kirchners e um de seus principais homens no Parlamento, levou Papaleo pessoalmente em seu carro.
- Do governo Kirchner
Meses atrás o governo afirmou que Lidia Papaleo foi torturada em novembro de 1976, ocasião na qual foi forçada a vender as ações da empresa.
Depois, perante a polêmica, o governo emitiu uma segunda versão, na qual sustentava que os membros da família Graiver-Papaleo viviam em uma “liberdade ambulatória” e que haviam sido levados à força para a assinatura da venda das ações.
- Da viúva Papaleo (quatro versões diferentes)
a) Na segunda metade dos anos 80 declarou perante a Justiça – durante o julgamento das juntas militares – que havia sido torturada em março-abril de 1977 porque os militares suspeitavam que ela tinha dinheiro da guerrilha Montoneros. Na ocasião, Papaleo não vinculou suas torturas com a venda de Papel Prensa.
b) Nos últimos meses sustentou que foi intimidada e posteriormente detida e torturada para vender as ações de Papel Prensa.
c) Perante a Justiça em La Plata afirmou que enquanto esteve detida pelos militares não saiu da prisão para assinar a venda das ações de Papel Prensa.
d) A mais recente versão é a da conversa com Saguier, na qual teria admitido que receberia dinheiro para inventar um relato favorável às intenções dos Kirchneres.
- De Isidoro Graiver, irmão do falecido David Graiver, torturado no mesmo centro de detenção de Lidia Papaleo
A venda das ações foi em novembro de 1976; prisão e torturas ocorreram em março e abril de 1977. Segundo Isidoro, não há vínculos entre os dois jornais e as torturas contra a família.
- De Gustavo Caraballo, ex-embaixador do governo de Juan Domingo Perón na Unesco
Caraballo afirma que foi torturado junto com Lídia Papaleo de Graiver em 1977, confirmou que as sessões de tortura ocorreram vários meses depois da operação de venda
Presidente argentina tenta conseguir controle da mídia, tal como fundador do peronismo fez há 60 anos. Na foto, Perón abraça o ditador e general paraguaio Alfredo Stroessner.
NA GUERRA CONTRA A IMPRENSA, CRISTINA SEGUE OS PASSOS DE PERÓN
Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.
A presidente Cristina Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.
Um dos sinais mais evidentes foi a aprovação – em 2009 – da polêmica lei de radiodifusão – também denominada de “lei de mídia” – que determina maior controle da mídia por parte do governo.
Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, Perón e sua esposa Eva colocaram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma super-estrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.
DEFENSIVA E OFENSIVA - Segundo o historiador Eduardo Lazzari, Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.
Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.
O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.
MÍDIA ALIADA - O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.
Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” em 2009 ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.
O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.
Capas do La Prensa quando havia sido confiscada pelo governo de Perón. Manchetes mostram alinhamento ostensivo com Perón, que havia ficado viúvo (pela segunda vez) com a morte de Eva Perón.
LA PRENSA - Esse foi o caso de “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz – definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época – e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.
O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.
Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.
Na sequência, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.
Outros jornais, como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.
Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um períodico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.
Modelo francesa da década de 1920 posa com vestido feito de papel-jornal.
“Tranqüilo, viejo, tranqüilo”, com Tita Merello:
“Se dice de mi”, também com Tita Merello:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Cristina Kirchner, Hugo Moyano e Eva Perón. Foto dos tempos em que os dois vivos (isto é, os dois primeiros citados) eram aliados incondicionais.
O secretário-geral da Confederação do Trabalho (CGT), o caminhoneiro Hugo Moyano, fará uma demonstração de força sindical nesta quinta-feira, quando pretende reunir mais de 80 mil militantes no portenho estádio de Huracán. Moyano, ex-aliado incondicional do governo de Cristina Kirchner, atualmente em rota de colisão com a presidente, exigirá ao governo a concessão de mais subsídios às famílias pobres com filhos. Ele também pedirá a aprovação no Parlamento do projeto de lei elaborado pela CGT que determina distribuição de lucros das empresas entre os trabalhadores.
O projeto, criticado pelo empresariado, era respaldado pelo governo no início do ano, mas a administração Kirchner não contava com maioria no Parlamento. Após as eleições de outubro, a presidente Cristina passou a ter maioria na Câmara e no Senado. No entanto, há poucos dias a presidente Cristina deixou claro que não apoiaria mais essa iniciativa da CGT.
A relação entre a CGT e Cristina ficou mais tensa a partir da cerimônia de posse, neste fim de semana, quando a presidente - em uma crítica inédita a Juan Domingo Perón, fundador do Peronismo (o partido de Cristina) - afirmou que nos tempos de Perón não havia direito à greve, e que portanto, nenhum sindicalista poderia usar a imagem de Perón contra o governo Kirchner.
“Hoje em dia existe direito de greve, mas não de chantagem e de extorsão”, disse Cristina, em alusão direta ao caminhoneiro.
Horas depois, Moyano retrucou: “a presidente está mal-assessorada”.
“A relação do governo com a CGT atravessa um momento difícil”, admitiu nesta segunda-feira Juan Carlos Schmidt, um dos braços direitos de Moyano. Em tom de cobrança ao governo, Schmidt argumentou que Moyano serviu de cabo eleitoral para o governo durante a campanha presidencial: “estivemos ao lado do governo em diversos momentos complicados para sustentar este projeto nacional e popular”.
No entanto, o sindicalista tentou colocar panos quentes sobre a polêmica gerada pela ausência do líder da CGT na posse presidencial da reeleita Cristina Kirchner no sábado: “institucionalmente, a CGT estava representada”.
Diversos setores sindicais afirmam que Cristina, neste segundo mandato, fará “La Gran Menem” (A Grande Menem), isto é, uma guinada para a direita, afastando-se dos sindicatos.
A CGT foi tradicional aliada de todos os governos peronistas, inclusive com cargos nos ministérios e estatais. Esta é a segunda vez em mais de seis décadas que a central sindical entra em rota de colisão com um governo peronista.
PODER - Moyano, o principal respaldo do governo na área social desde os tempos do ex-presidente Nestor Kirchner, está melindrado com Cristina desde o segundo trimestre deste ano, quando ela recusou-se, apesar de seus pedidos, a designar um vice-presidente de origem sindical.
A presidente tampouco concedeu espaço à CGT na lista de candidatos a deputado nas recentes eleições presidenciais e parlamentares. Cristina somente ofereceu um lugar ao filho de Moyano, Facundo, que foi eleito.
O clã Moyano, no entanto, reclama e recorda que no último governo de Juan Domingo Perón os deputados sindicalistas representavam um terço do total dos peronistas no Congresso Nacional.
O melindre ficou evidente na festa da reeleição de Cristina, quando Moyano optou por não comparecer às celebrações. Simultaneamente o governo fez acenos a sindicalistas rivais de Moyano, que pretendem removê-lo do cargo em 2012.
Nos dois primeiros governos do general J.D.Perón não havia direito à greve, disse Cristina Kirchner, em recado direto à CGT. Na foto acima, do início de 1974 (terceiro governo de “El Conductor”), Perón cumprimenta com um sorriso o general e ditador chileno A.R.Pinochet.
TELEFONEMA - Desde a morte do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) a relação entre a presidente Cristina e Moyano foi marcada pela crescente tensão. Rumores no âmbito político indicam que a presidente coloca no caminhoneiro parte da culpa da morte do marido, já que na noite anterior ao enfarte fulminante que matou Kirchner, o líder da CGT e o ex-presidente mantiveram uma violenta discussão por telefone.
DETALHES - Mais detalhes sobre Moyano e sua relação com o governo, nesta postagem de meses atrás, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Este será o segundo mandato de Cristina. Mas, será o terceiro do kirchnerismo. Ou, o terceiro mandato “pinguino”. E será o primeiro mandato de Cristina sem a presença do defunto marido e ex-presidente.
“Um espelho! Quero um espelho!”. O pedido desesperado – em tom de exigência – foi pronunciado em julho de 1982 por Cristina Elisabet Fernández de Kirchner. Ela havia acabado de acordar no hospital de Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz, na Patagônia. Uma hora antes havia sofrido um grave acidente de carro do qual salvou-se da morte por um triz. Coberta de sangue, logo que recuperou a consciência, sua primeira preocupação foi seu estado estético. Os médicos e enfermeiras estavam estupefatos.
Quase três décadas depois do acidente, as pessoas que conheceram a atual primeira-dama na época indicam que esse “causo” ilustra bem seu caráter: “vaidosa” e “autoritária”. Assim é Cristina Kirchner, capaz de ter um acesso de fúria por uma marca errada de água mineral colocada em cima de sua mesa ou por uma crítica da imprensa, inclusive com uma caricatura que destaque seus lábios – supostamente – recheados de botox. Os humoristas deliciam-se em ilustrá-la como uma “shopaholic”.
A revista “Notícias” afirmou em seu primeiro ano de governo que era psicologicamente “bipolar”. Seus antigos colegas do Senado reconhecem sua oratória mas a definem como “arrogante”. Mas, Cristina retruca. Ela afirma que as críticas não passam de comentários “machistas” e “misóginos”.
Cristina, a segunda presidente mais rica da América do Sul, com US$ 17 milhões – segundo a declaração oficial de bens, basicamente investidos em imóveis e aplicações financeiras – é uma declarada admiradora de Evita Perón, a “mãe dos humildes”. Cristina, cuja fortuna aumentou 930% desde 2003, define sua política como “nacional e popular”, mais conhecida pela abreviatura “nac e pop”.
Em abril de 2003, pouco após o primeiro turno presidencial, Cristina e seu marido, Nestor Kirchner, receberam o Estado para uma entrevista em seu apartamento no elegante bairro da Recoleta. Ali admitiram que nunca haviam estado no Brasil, a não ser no aeroporto de Cumbica como escala para viagens às americanas Nova York e Miami, únicas cidades que conheciam fora da Argentina. Mas, ao chegar ao poder, Cristina e seu marido transformaram-se em enfáticos defensores da unidade sul-americana e visitaram os países que antes não conheciam.
ADVOGADA - Nascida na cidade bonaerense de La Plata em 1953, Cristina estudou Direito (mas antes havia feito um ano de Psicologia). No curso conheceu um estudante veterano desajeitado, estrábico, que falava com a língua presa e disparava perdigotos. Cristina, que apaixonou-se por ele, salientou que foi cativada por seu senso de humor. O rapaz mal-ajambrado era Néstor Kirchner, que após o golpe de Estado de 1976 a levou para sua terra natal, Rio Gallegos, onde a repressão do regime militar era menor.
Ali, os dois, que haviam militado na Juventude Peronista – embora sem cargos de importância – dedicaram-se ao lucrativo negócio das hipotecas de casas. Durante o regime militar os casal de advogados não assinou hábeas corpus algum em favor de prisioneiros políticos, assunto sobre o qual os Kirchners calam.
Nos anos 80 ele foi eleito prefeito de Río Gallegos, enquanto ela transformava-se em deputada. Quando Néstor elegeu-se governador, ela chegou ao Senado. Durante a presidência do marido participou das decisões mais cruciais do governo.
Em 2007 ela tornou-se a primeira cônjuge na História do mundo a suceder o próprio marido por intermédio das urnas. Até o ano passado o plano do casal era continuar as sucessões alternas de forma indefinida. Mas, a morte de Kirchner, no dia 27 de outubro do ano passado, interrompeu drasticamente o projeto. Cristina, de luto, citando o marido morto em todos seus discursos, fez campanha para suceder a si própria. Neste sábado ela toma posse como presidente reeleita (a primeira mulher reeleita na História da A.Latina).
Este será o segundo mandato de Cristina. Mas, será o terceiro do kirchnerismo. Ou, o terceiro mandato “pinguino”. E será o primeiro mandato de Cristina sem a presença do defunto marido e ex-presidente.
BIOGRAFIAS - Cristina já acumula três biografias best-sellers. A primeira, com o título de “Rainha Cristina”, foi escrita por sua amiga de faculdade, a jornalista Olga Wornat. A segunda, “Cristina, de parlamentar combativa a presidente fashion”, é de Sylvina Walger, que realiza uma ácida anatomia da personalidade da presidente. A última, da jornalista Sandra Russo, que trabalha no canal estatal TV Pública, é “A presidenta. História de uma vida”, livro que elogia a vida e obra de Cristina.
PODER - Cristina assume com um amplo poder conseguido graças aos 54,1% dos votos nas eleições presidenciais de outubro, além de iniciar o novo mandato com maioria – graças a parlamentares próprios e aliados – no Senado e na Câmara de Deputados.
Entre os 24 governadores das províncias, Cristina terá a obediência direta de 19. Dois governadores são aliados permanentes, enquanto que outro, José Manuel de La Sota, de Córdoba, alinha-se com o governo circunstancialmente. Somente os dois governadores restantes – Maurício Macri, do Distrito Federal de Buenos Aires, e Cláudio Poggi, de San Luis – representam a oposição. No entanto, o próprio Macri deixou claro que pretende evitar confrontos com a presidente Cristina.
Apesar do grande poder com o qual inicia o novo mandato, Cristina também herdará do governo anterior – isto é, dela própria – uma série de problemas econômicos cujas soluções adiou ao longo dos últimos quatro anos. No entanto, a equipe econômica permanece praticamente a mesma. Somente muda o ministro da Economia, já que o ocupante dessa pasta, Amado Boudou, será empossado como vice-presidente. Seu sucessor, Hernán Lorenzino, ex-secretário de finanças, é seu homem de confiança.
O novo gabinete é praticamente igual ao antigo, já que a presidente só mudou três de seus 19 ministros.
Cristina destacou que haverá “continuidade do modelo” econômico. Mas, desde as eleições do dia 23 de outubro a presidente deu uma guinada ao afastar-se dos sindicatos – os históricos suportes políticos dos governos peronistas – e aproximou-se do empresariado, com o qual havia tido uma relação de elevada tensão desde sua posse em 2007. Enquanto que os sindicalistas afirmam que sentem saudade de Kirchner e começam a criticar sua viúva, os empresários emitem elogios rasgados sobre a presidente Cristina.
PARLAMENTO PRÓPRIO - Na Câmara de Deputados, a presidente Cristina – que comanda a Frente pela Vitória, uma sublegenda do Partido Justicialista (Peronista) – contará com 115 parlamentares próprios, além de outros 20 aliados. Isto é, ela terá 135 deputados (seis cadeiras a mais do número necessário para o quorum, de 129 cadeiras). Desta forma, encerra-se a fase dos últimos dois anos, quando, depois da derrota nas eleições parlamentares de 2009, o governo Kirchner ficou em minoria.
No total, a Câmara tem 257 cadeiras. Destes, a União Cívica Radical, que nos últimos 60 anos foi a grande rival do Peronismo, terá 41 deputados. No entanto, o partido está dividido entre “moderados”, os simpatizantes do kirchnerismo e um pequeno grupo que opõe-se a qualquer tipo de acordo com o governo.
A Frente Ampla Progressista (FAP), coalizão de centro-esquerda comandada pelos socialistas, que prometeu protagonizar uma “oposição responsável”, terá 22 deputados.
O peronismo dissidente (basicamente os setores conservadores desse partido), reunido na Frente Peronista, contará com 23. O partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO) terá 13 parlamentares, enquanto que a Coalizão Cívica, de centro-esquerda, ficará com seis cadeiras. Os restantes 17 deputados de oposição espalham-se em pequenos partidos que oscilam entre a direita e a esquerda. Destes, os partidos provinciais reúnem 13 deputados.
No Senado a presidente também terá maioria. Das 72 cadeiras (para quorum precisa 37), o kirchnerismo contará com 33 senadores próprios, além de cinco aliados peronistas (um total de 38 cadeiras), entre os quais o ex-presidente Carlos Menem. “El Turco” deixou de ser “inimigo” e passou ao status de “colaborador”.
A UCR será a primeira minoria, com 17 senadores. O peronismo dissidente, que sofreu um êxodo de seus integrantes rumo às fileiras kirchneristas, formará um bloco de nove senadores. A Frente Ampla Progressista terá quatro senadores. Outros partidos menores dividirão as quatro cadeiras restantes.
“Rainha Cristina” – Cristina Kirchner, por sua pose de diva, é chamada “A rainha Cristina”, em alusão ao filme protagonizado por Greta Garbo nos anos 30, no qual interpretava a absolutista e vaidosa rainha Cristina da Suécia. Biógrafos não-autorizados afirmam que ela adora ser chamada de “rainha”.
Presidenta: “Presidenta! Presidentaaa! Que fique bem claro para vocês. É ‘presidenta’”. Desta forma, com dedo em riste e marcando a letra “a” da palavra “presidenta”, a então primeira-dama repreendeu a plateia que participava do comício de lançamento presidencial em julho de 2007 (o público havia gritado em coro “Cristina presidente!”). Só nos primeiros 45 dias de governo, por ordens diretas suas, a Casa Rosada rejeitou mais de 300 documentos em cujo cabeçalho e texto aparecia a palavra neutra “presidente” (com “e” final). Atualmente, todos os documentos ostentam a versão com “a” exigida por Cristina.
“És too much” – “É demasiado”. Expressão que mistura espanhol com inglês usada por Cristina para reclamar de algo. Pronúncia da presidente: “tchúmátch”.
Louis Vuitton – Versace foi a marca no período menemista, já que o então presidente Carlos Menem apreciava as sedas multicoloridas do estilista italiano. Mas, durante o período kirchnerista, a marca – especificamente, com Cristina Kirchner (não Néstor) – passou a ser a francesa Louis Vuitton.
O Pinguim – Apelido de Néstor Kirchner por suas origens patagônias e seu perfil nasal, similar ao da ave polar. Cristina Kirchner é chamada de “La Pingüina” (a Pinguim-fêmea).
A Pinguineira – Refere-se aos mais de 2 mil funcionários de origem patagônia que Kirchner e seus ministros trouxeram à Buenos Aires. O termo também define o círculo íntimo presidencial.
Pinguins “puros” – Aqueles que estavam com o casal Kirchner desde que estes governavam a província de Santa Cruz nos anos 90. São as pessoas de maior confiança da presidente Cristina.
Kirchnerismo: Denominação da corrente política que, dentro do Peronismo, reuniu políticos de diversas tendências. O grupo apresenta-se como “progressista”, embora conte com vários caudilhos que estão no poder há décadas.
Nac e Pop: Nacional e Popular. Definição abreviada que os kirchneristas dão para contextualizar seu movimento político
Estilo K – Estilo de falar sem papas na língua, que também implica em bater primeiro para depois negociar.
Economia K – Termo que define medidas que misturam pragmatismo econômico a curto prazo com tons keynesianos, embalados por políticas neoliberais camufladas. Segundo uns, é “flexibilidade” ideológica. Segundo outros, “oportunismo”. O termo “empresariado K” define os industriais que respaldam sua política econômica, entre os quais diversas multinacionais estrangeiras.
“Él”: Ele. Forma como a presidente Cristina começou a referir-se sobre seu marido Nestor Kirchner após sua morte há um ano.
Cristinistas – Dentro do kirchnerismo, são os seguidores de Cristina. Basicamente jovens ministros, secretários e diretores de estatais cujo poder cresceu com Cristina. Exemplos: o novo vice, Amado Boudou e o novo chefe do gabinete de ministros, Juan Abal Medina.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Kirchner discursa perante um microfone. Esta imagem é a tatuagem que o parlamentar M.Funes começou a ostentar há poucos dias.
O ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) estará presente na epiderme do deputado Miguel Funes enquanto estiver vivo. A não ser que a tecnologia dermatológica evolua, o parlamentar – militante de “La Cámpora”, a juventude kirchnerista – ostentará para sempre a efígie monocromática de Kirchner em uma tatuagem em um de seus braços.
Funes, que declara idolatria pelo ex-presidente morto em outubro do ano passado, sustenta que Kirchner protagonizou uma “tatuagem política” em toda a Argentina.
“Considero que Néstor (Kirchner) marcou todos nós. Ele, de alguma forma, nos tatuou. Todos temos uma lembrança indelével dele. Eu precisava tê-lo em minha pele”, explica o jovem deputado sobre a marca indelével em seu corpo.
E já que o assunto é esse, “Tatuaje”, uma “copla” de 1941, interpretada por Concha Piquer:
A mesma canção, por Ana Belén, em 1999:
A figura de Kirchner, além de tatuagem de parlamentar, será protagonista de filme de amor. O anúncio foi realizado pelo diretor argentino Pablo Yotich durante o Festival de Havana, Cuba, que disse que o longa-metragem, que está em etapa de pré-produção. A obra, “Balada de um povo”, contará o surgimento do romance de Néstor e Cristina nos anos 70, quando ambos eram estudantes de Direito na Universidade de La Plata.
Yotich ressaltou que pretende “refletir a vida de dois jovens apaixonados um pelo outro, com as mesmas convicções e ideais políticos”. Segundo ele, o filme não pretende ser uma “épica”. O diretor quer que a filha de Diego Armando Maradona, Dalma Maradona, seja uma das protagonistas do filme, embora não tenha dito se ela feria o papel de Cristina.
Presidente Chávez debuta no mundo das artes plásticas com quadro de Kirchner (e com o autor incluído). Abaixo, detalhe da obra.
ARTE BOLIVARIANO - O presidente Hugo Chávez também usou a figura de Néstor Kirchner para mostrar ao mundo que possui aspirações de ser artista plástico. Na semana passada, em Caracas, durante a visita da viúva, Cristina, mostrou um grande espaço do palácio presidencial de Miraflores que foi batizado com o nome de “Salão Nestor Kirchner”, decorado com vários quadros alusivos ao ex-presidente e símbolos da Argentina.
Ao ver a tela na qual aparecia Kirchner em primeiro plano, de perfil, e com o próprio Chávez auto-retratado no quadro (em segundo plano) Cristina arregalou os olhos, surpresa com a pintura.
O líder boliviariano, rapidamente explicou que era o autor da obra pictórica que ali estava pendurada. “Pintei-o (Kirchner) para você, minha querida”, disse Chávez, exibindo um quadro de estilo realista convencional, sem toques revolucionários.
O OUTRO KIRCHNER
O outro Kirchner. Neste caso,o pintor suíço Ernest Ludwig Kirchner, que fez este felino entre 1924 e 1926. E abaixo, uma gravura de Kirchner intitulada “Cavalheiro com cãozinho no colo”.
Nascido em 1880 em Aschaffenburg, foi um expressionista que fundou a sociedade artística Die Brücke (A Ponte). E.Kirchner, que fez carreira na Alemanha, foi perseguido pelos nazistas. Sua obra foi considerada “degenerada” pelo Terceiro Reich, cometeu suicídio em 1938, quando estava mentalmente perturbado.
Néstor Kirchner e Ernesto Kirchner – apesar do mesmo sobrenome – não são parentes.
Acima, foto de Kirchner, Ernst. Não Néstor. Ernst.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Cinco presidentes em 13 dias. Assim foi o carrossel presidencial argentino entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002.
Milhões de argentinos surpreenderam-se no dia 21 de dezembro do ano 2000 quando viram – ao vivo – que o sisudo presidente Fernando De la Rúa, que participava de um programa de auditório de TV como convidado especial para tentar melhorar sua imagem pública, era segurado drasticamente pela gravata e na lapela do terno por um jovem militante de esquerda, Ernesto Belli, que havia invadido o palco. Estupefatos, os guarda-costas de De la Rúa ficaram imóveis enquanto o presidente era sacudido. De la Rúa – que tampouco conseguiu reagir – foi salvo pelo “Tamanduá Arturo”, um boneco de cor lilás simulando ser um tamanduá, do programa de auditório do apresentador Marcelo Tinelli.
Após a constrangedora cena, De la Rúa – embora nervoso – conseguiu manter a pose e conversou durante alguns minutos sobre política com Tinelli. Depois, cumprimentou seu imitador, Freddy Villareal, que havia popularizado a sarcástica imagem de um De la Rúa em constante estado de distração. Na sequência, o presidente pareceu emular sua paródia: sem saber por onde sair, caminhou erraticamente pelo palco, até encontrar a saída do palco. De la Rúa superava De la Rúa.
O tamanduá Arturo, guarda-costas involuntário do presidente da República Argentina em dezembro de 2000.
Neste vídeo do Youtube, parte dos peculiares incidentes do programa de Tinelli há 11 anos.
Nos 364 dias seguintes a agonia da imagem presidencial agravou-se de forma acelerada, até levar à renúncia de De la Rúa.
Em apenas 13 dias – entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002 – o “sillón de Rivadavia” (a “cadeira de Rivadavia”, denominação da cadeira presidencial) teve cinco ocupantes: o próprio De la Rúa, em seu último dia no poder, o presidente do Senado Ramón Puerta, o governador de San Luis Adolfo Rodríguez Saá, o presidente da Câmara de Deputados Eduardo Camaño e o senador Eduardo Duhalde. Essa sequência acelerada de sucessores enfraqueceu mais ainda a já debilitada figura presidencial.
De la Rúa e suas trapalhadas, além da permanente distração, eram um prato cheio para os caricaturistas. Nik, o autor da charge acima, enfurecia De la Rúa (enquanto os leitores deliciavam-se).
SCHWARZENEGGER – Ele interpretou inúmeros personagens que, sem temor, podiam enfrentar um destacamento soviético completo até um irascível monstro do espaço sideral. Mas a dimensão da crise argentina chamou a atenção do ator austro-americano Arnold Schwarzenegger, que declarou-se impressionado com o caos que imperava neste país.
Durante uma entrevista do programa “Siempre Listos” (“Sempre prontos”) do Canal 13, de Buenos Aires, o ex–mister Olímpia deixou de lado o anúncio de seu novo filme e comentou inesperadamente: “aah…Argentina, país confuso, não? É ali que toda hora vocês mudam de presidente?”.
Com a confirmação constrangida do entrevistador e depois de perguntar se já havia um outro novo presidente, em relação aos quatro homens que passaram pela Casa Rosada desde a renúncia de Fernando De la Rúa a meados de dezembro, Schwarzengger emendou: “ali, quando um presidente vai tomar posse, em seu discurso já anuncia que está ali vindo o próximo para ocupar o cargo”.
Falando em Argentina e Schwarzenegger, o ex-Mister Olympia dança um tango, o “Por uma cabeza”. Schwarzenegger pode ser péssimo dançarino, mas a curvilínea Tia Carrere, havaiana descendente de chineses, filipinos e espanhóis vale a cena. A cena do tango, aqui.
A RECUPERAÇÃO DO PODER PRESIDENCIAL - Em maio de 2003 Kirchner foi eleito com apenas 22% dos votos, o nível mais baixo em toda a História argentina. Os cientistas políticos na época destacavam que a figura presidencial estava irremediavelmente comprometida. No entanto, em poucos meses o hiperativo Kirchner começou a reconstituir o poder presidencial. Quatro anos depois colocou sua própria mulher, Cristina, como candidata à sucessão. Em outubro passado a presidente obteve sua reeleição.
“Será um hiperpresidencialismo exacerbado, com o agravante de que a oposição não a enfrenta”, afirma Marcos Novaro, sociólogo e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), analisando o cenário que desponta no segundo mandato de Cristina Kirchner.
“O casal Kirchner possui o mérito de ter fortalecido a figura presidencial, que estava muito desgastada. Mas, evidentemente, foram além do previsto e hoje a presidente Cristina tende à hegemonia. A oposição, enquanto isso, está atomizada”, afirmou ao Estado o analista Silvio Santamarina, colunista da revista “Notícias”.
Tamanduá, em gravura de 1902.
MESMOS POLÍTICOS, CARGOS DIFERENTES – “Que se vayan todos!” (Que todos vão embora!) era o grito das manifestações de dezembro de 2001 e nos primeiros meses de 2002, quando a população pedia a remoção total dos integrantes da classe política da época. Um punhado de senadores e deputados viram suas carreiras afundar em meio às marchas de protesto e nunca mais se recuperaram. Um dos políticos que afundou totalmente foi De la Rúa, de nula influência política há uma década.
No entanto, a maioria da classe política permaneceu a mesma. As únicas modificações foram as trocas de postos: senadores na época que agora são deputados, prefeitos que tornaram-se governadores; governadores que foram eleitos senadores. O gabinete da presidente Cristina Kirchner – senadora e esposa de governador na época de “El Colapso” – é composto, em sua imensa maioria, por pessoas que já estavam na política antes da crise.
“A maior parte da classe política continua a mesma. Não houve uma grande renovação, tal como pedia a população. E nesse grupo dos políticos de sempre está o caso do próprio casal Kirchner, que até promoveu uma reforma constitucional em sua província, Santa Cruz, para permitir a reeleição indefinida de governador”, afirmou ao Estado a senadora socialista Norma Morandini, um dos poucos casos de políticos atuais que iniciaram sua carreira após a crise de 2001.
E a versão de “Por una cabeza” com Carlos Gardel, em filme da Paramount, aqui.
Osvaldo Pugliese, um dos emblemas do tango argentino.
E saímos da crise de 2001-2002 para lembrar que ontem, sexta-feira, o compositor Osvaldo Pugliese teria soprando 106 velinhas.
Mas Pugliese – Made in Villa Crespo – infelizmente partiu há 11 anos.
Ateu e militante do Partido Comunista, dirigia uma orquestra musicalmente impecável, na qual todos os músicos tinham o mesmo salário (ele dizia que “o trabalho deve ser uma dignidade pessoal e não um castigo”). Pugliese, em contrapartida, exigia um rígido código dentro do grupo, que estabelecia horários firmes nos horários e ensaios.
Atualmente Pugliese uma espécie de amuleto popular.
Sua imagem é usada como “santinho” para proteger do mau-olhado, etc. Ele transformou-se em “San Pugliese”.
Os músicos, especialmente, o usam para obter boa sorte. Outros artistas idem. Nos camarins, sua imagem é freqüente.
Alguns, antes de um show, diziam “merde”. Nos últimos anos também dizem “Pugliese, Pugliese”.
Quem quiser, pode imprimir a imagem abaixo e colocar em algum lugar que sirva para essa função.
Aqui, mais detalhes da vida de Pugliese: http://es.wikipedia.org/wiki/Osvaldo_Pugliese
E uma de suas composições mais famosas, “La Yumba”, aqui.
E sua interpretação da valsa “Desde el alma”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
2013
2012
2011
2010
2009