ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

 

Edifício do “La Prensa”, atualmente a Secretaria de Cultura. Um emblemático edifício da Avenida de Mayo (foto da Wikipedia)

  A avenida de Mayo foi construída em 1894 com a intenção de emular o Champs Élysées de Paris. Mais de um século depois de sua inauguração, é o lugar para ver a pujança econômica que a Argentina teve na virada do século passado, época na qual também era o centro cultural da América Latina.

Atualmente, a avenida, que liga os dois centros do poder no país – a Casa Rosada e o Parlamento – possui vários em péssimo estado de conservação, enquanto que pessoas sem-teto procuram abrigo em cantos de suas fachadas.

Alguns prédios, no entanto, estão sendo reformados, dando à avenida – em alguns pontos – o charme que teve no passado. Esta emblemática via do centro da capital é também um microcosmos que simboliza as crises políticas e econômicas da Argentina nas últimas décadas.

Esta é a via preferida para as manifestações políticas e sociais de todo o leque político argentino. O sentido das manifestações quase sempre ocorre desde a praça do Congresso até a Praça de Mayo (isto é, de oeste para leste). Dificilmente é na direção oposta.

  PRAÇA DE MAYO - Nos primeiros cem anos de vida independente do país a praça foi somente cenário de cerimônias oficiais e plácidos pedestres. Mas, no segundo século transformou-se no centro de manifestações sociais. É o lugar do protesto semanal das Mães e Avós da Praça de Mayo, que pedem pelo paradeiro dos 30 mil desaparecidos da ditadura militar (1976-83).

Veteranos da única guerra perdida pela Argentina no segundo século de existência do país, a das Malvinas (1982), acampam há três anos na praça para exigir maiores pensões.

Veteranos das Malvinas exigem atenção do governo

Ali, em 2001, no meio do caos econômico, a polícia matou 20 pessoas que exigiam a renúncia do presidente Fernando De la Rúa.

Por golpes de Estado ou crises políticas e econômicas, a praça assistiu constante troca de presidentes. Em 1930, um grupo de cadetes comandado pelo general Félix Uriburu atravessou a praça e derrubou o governo do presidente civil Hipólito Yrigoyen. De lá para cá, somente três presidentes eleitos democraticamente conseguiram concluir seus mandatos.

Em 1910, todos os ex-presidentes argentinos ainda vivos estavam presentes nas celebrações do centenário. Nas cerimônias do bicentenário em 2010, evidenciando os profundos antagonismos políticos, nenhum ex-presidente foi convidado pela presidente Cristina Kirchner, exceto o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente.

Para detalhes sobre a Casa Rosada e as brasileiras palmeiras que ornamentam a praça, ver uma postagem do ano passado, aqui.

Na esquina da Avenida de Mayo e a rua Bolívar está o edifício do Cabildo, cuja lateral foi derrubada para abrir a avenida.

O edifício do Cabildo foi construído para ser a sede do poder civil colonial. No entanto, sua construção foi prolongada e, em várias ocasiões, suspensa. O edifício original, iniciado em 1635, passou por obras eternas e em 1711 já estava totalmente defasado para sua missão. Um novo prédio foi construído no lugar, que só foi concluído em 1783. Mas, onze anos depois passou por uma reforma. Desta forma, o cabildo só funcionou plenamente como centro do poder civil nesse edifício entre 1794 e 1821, quando foi dissolvido.

Cabildo encolheu. A parte marcada pelo “X” em vermelho – algumas arcadas do lado norte – foi para o beleléu quando a avenida de Mayo foi aberta. A torre do cabildo também sofreu modificações.

  OS JORNAIS DA AVENIDA, O LA PRENSA E CRÍTICA - No primeiro quarteirão da avenida está o luxuoso edifício do jornal “La Prensa”, referência internacional durante décadas. Em 1951 foi confiscado pelo presidente Juan Domingo Perón e entregue a sindicatos. Em 1955 voltou às mãos dos donos, mas entrou em decadência (hoje é a Secretaria de Cultura, cujo edifício pode ser visitado. Para mais detalhes, aqui).

Perto dali está a antiga sede do “Crítica”, que chegou à marca de 900 mil exemplares diários em 1926. Pressionado por vários governos, fechou em 1962  (atualmente o edifício pertence à Polícia). A tensão entre mídia e governos permaneceram com o passar das décadas e intensificaram-se nos últimos anos.

Na avenida de Mayo não existe a sede de jornal algum, atualmente.

No primeiro quarteirão, na frente da Secretaria de Cultura, está o “Pasaje Roverano”, uma galeria pitoresca, construída em 1918, que atravessa essa quadra da Av de Mayo até a rua Hipólito Yrigoyen. O prédio era frequentado nos anos 30 pelo autor de “O Pequeno Príncipe”, o francês Antoine de Saint-Exupéry, que na época era piloto dos aviões da Companhia Aérea Nacional.

Salão do Tortoni acolheu parte da intelectualidade portenha e da classe política durante um século e meio (foto da Wikipedia).

  TORTONI, CASTELAR E MAJESTIC – O Café Tortoni, no número 825 da avenida de Mayo, foi o epicentro da intelectualidade argentina durante décadas. Por sua mesas passaram personalidades como o escritor Jorge Luis Borges, o pianista polonês Arthur Rubinstein, além do filósofo espanhol José Ortega y Gasset.

Celebridades também iam ao Hotel Castelar, moradia do poeta espanhol Federico García Lorca durante um ano e meio na década de 30, quando usou a cidade como quartel-general para tours de conferências na região.

Perto dali está o antigo Hotel Majestic, na esquina da avenida de Mayo com a rua Salta. Ali residiu a estrela do balé mundial Vaslav Nijinsky.

Hoje, o Tortoni vive dos turistas estrangeiros, bem como o Castelar. O Majestic tornou-se repartição pública (é um dos edifícios da Receita Federal argentina e está em estado deplorável. Mas, pela fresta da porta, pela av de Mayo, ainda dá para ver o fantástico saguão).

Na esquina da avenida com a rua Salta está o café Iberia, que nos anos 30, quando transcorria a guerra civil espanhola, transformou-se em Buenos Aires no reduto dos republicanos. Coincidentemente, na esquina da frente, onde hoje existe um banco, estava o café Español, que era o bunker de seus inimigos franquistas. Os dois grupos sentavam-se às mesas colocadas nas duas calçadas e, com frequência, após troca de epítetos, protagonizavam brigas com arremessos de cadeiras de um lado a outro da rua Salta.

No número 1265 da avenida de Mayo está o café 36 Billares, aberto 24 horas. Como o nome diz, o estabelecimento possui uma miríade de billares, localizados no subsolo.

Representantes de tribo indígena da província de Formosa acampa na esquina da avenida de Mayo e da avenida 9 de Julio. Eles exigem que o governo leve ao banco dos réus os responsáveis pelo assassinato de indígenas na província de Formosa, controlada por Gildo Insfrán, aliado da presidente Cristina Kirchner. Fazendeiros amigos de Insfrán estariam por trás das mortes. No entanto, o governo está ignorando os pedidos dos indígenas.

 UNIÃO INDUSTRIAL ARGENTINA (UIA) E PASAJE BAROLO – Quando em 1922 a UIA instalou-se no edifício da Avenida de Mayo 1147, o país representava 50% do PIB latino-americano. Um ano depois, a duas quadras dali, o italiano Luigi Barolo, imigrante que ‘havia feito a América’ e tornado-se o maior empresário têxtil da Argentina, inaugurava o Pasaje Barolo, o edifício mais alto da América Latina, com cem metros de altura. O empresário, que tinha nesse edifício a sede de sua empresa, sonhava em enterrar ali o corpo do poeta italiano Dante Alighieri.

Quase um século depois a empresa de Barolo desapareceu e a UIA é atualmente um aglomerado de pequenas e médias empresas que constantemente pedem medidas protecionistas. O PIB argentino representa hoje 10% do total regional.

Para ver mais detalhes sobre o Barolo, uma postagem do ano passado que conta com vários detalhes, aqui.

 

 O edifício Pasaje Barolo,  carregado de simbolismos alusivos à Divina Comédia (foto da Wikipedia).

 PRAÇA DO CONGRESSO - Um dos oito originais que o escultor francês Auguste Rodin fez de “O Pensador” foi instalada em 1907 nessa praça, como símbolo da pujança argentina e da esperança que o Parlamento desse país – que promessa de potência – seria um fórum de debates iluminados. Abandonada e pichada, a estátua permanece ali. Dezenas de sem-teto, vítimas das seis crises econômicas graves desde 1975 dormem ao lado da obra de Rodin.

Como símbolo da falta de poder do Parlamento nas últimas décadas, as manifestações de protesto preferem costumeiramente a Praça de Mayo, pois apresentar demandas perante o Poder Executivo é mais eficaz do que reclamar ao Poder Legislativo.

Paradoxalmente, desde a volta da democracia o Parlamento foi gradualmente afastado das decisões. Nos últimos 27 anos o uso de decretos presidenciais supera amplamente aqueles assinados nos 173 anos prévios de vida independente do país.

Para mais detalhes sobre “O Pensador” que está sentado na Praça do Congresso em Buenos Aires (além de referências sobre a obra de Rodin que existe em B.Aires), visite esta postagem do ano passado aqui.

 

Rodin em Buenos Aires: O Pensador. Ao fundo, o edifício do Congresso Nacional.

Acima, mapa da avenida de Mayo da Wikipedia com várias referências de lugares interessantes.

Embaixo, a avenida de Mayo vista do Google Earth.

 

 E a) de presente de Natal atrasado e … b) para começar o ano novo com ritmo, estas melodias para minhas queridas e queridos comentaristas e leitores: 

“Tinta roja”, interpretado por Aníbal Troilo, aqui.

“Volver”, tango de Carlos Gardel, com letra de Alfredo Le Pera. Versão de 1970 com dois emblemas do bandeonéon: Anibal Troilo e Astor Piazzolla, aqui.

“Que me van a hablar de amor”, com Julio Sosa, aqui.

Uma cantora pouco conhecida no Brasil, Teresa Parodi, que na juventude foi respaldada por Mercedes Sosa. Aqui, ela canta a bela “Carta a la abuela Emilia”, aqui.

E esta gravação ao vivo na Casa Rosada, aqui.

Uma das principais compositoras mulheres do tango, Eladia Blázquez, em “Honrar la vida”, aqui.

E a mesma canção, com Mercedes Sosa, aqui.

E Mercedes de novo com um tango de Eladia Blázquez, “El Corazón al sur”, aqui.

E já que estamos em clima de mudanças, de ano novo, “Todo cambia” (Tudo muda), aqui.

Outra voz do tango, Adriana Varela, intepreta “Como dos extraños”, aqui.

E também com Adriana Varela, “Malena”, aqui.

Ela também interpreta um de meus top five de tangos preferidos, o “Vida Mía”, aqui.

E “Vida Mía” com Dizzy Gillespie e a orquestra de Osvaldo Fresedo, aqui.

Um encontro de talentos colossais: Piazzolla e Osvaldo Pugliese, “La Yumba”, aqui.

Soledad Pastorutti entoa a “Chacarera del milagro”, aqui.

Ah, uma surpresa… “Missão impossível”, do argentino Lalo Schifrin, aqui.

O roqueiro Fito Páez canta “Buenos Aires” na companhia de um habitué de B.Aires, o espanhol Joaquín Sabina, aqui.

E Sabina canta “Hoy puede ser un gran día” (Hoje pode ser um grande dia), com o espanhol mais amado na Argentina, Joan Manuel Serrat, aqui.

E – já me despeço deste ano, inté para todos vocês - neste outro link, Serrat sozinho, imperdível, canta a mesma canção, aqui

 A todos vocês, um fantástico 2011!!!

Um gardeliano sorriso para iniciar o ano (e aproveito e deixo aqui um de meus tangos preferidos de Gardel, “Anclao em Paris”, aqui )... e o brinde!

 

 “Hipp, hipp, hurra! Kunstnerfest på Skagen” (Hipp, hipp, hurra! Artistas celebrando em Skagen, de 1888), quadro do batuta pintor norueguês-dinamarquês Peder Severin Krøyer (1851-1909)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (27)| Comente!

Mafalda, Manolito, Felipe, Susanita e Miguelito, com a ironia do estupendo Quino

Caríssimas e caríssimos comentaristas e leitores,

Entre um apagão e a falta de internet, aproveito para colocar esta brevíssima postagem, talvez a mais curta de toda a História deste blog, só para desejar a todos vocês, um Natal fantástico na companhia das pessoas que amam!!!

E, para entrar no clima natalino “bien criollo”, a “Gloria”, da “Missa Criolla” de Ariel Ramírez. Com o coro de San Isidro e o grupo folclórico Los Fronterizos, aqui.

E o Credo da mesma emblemática composição de Ramírez, aqui

E, de presente de Natal para vocês…

- O pungente “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla. O próprio mestre, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Colonia, Alemanha, aqui.

Junto com outro gênio, Gerry Mulligan, Piazzolla interpreta “Years of solitude”. Aqui.

E uma imperdível apresentação de Piazzolla na tv italiana em 1972. Aqui.

Abraços a todos,

Ariel

PS: Por problemas de internet (e tempo) não pude responder grande parte dos comentários das últimas duas postagens. No entanto, no decorrer deste domingo colocarei as respostas.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (18)| Comente!

 

Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.

 ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Essa foi a determinação do Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central do país, condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou uma ditadura que durou sete anos, ao longo dos quais foram torturados e assassinados 30 mil civis.

O tribunal considerou Videla responsável direto de trinta e um assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, transformada na época em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar. Os presos haviam sido detidos meses antes, durante a democracia, antes do golpe de Videla.

Organizações de defesa dos Direitos Humanos, que haviam feito uma vigília ao longo do dia do lado de fora do edifício do tribunal em Córdoba, celebraram com estrépito o anúncio da condenação do ex-ditador. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba – entre eles o general Luciano Benjamín Menéndez – também foram condenados.

O prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, estava presente na sala do tribunal.

O julgamento trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as mulheres detidas.

Na véspera do veredicto Videla havia feito uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

 

‘O MAL EM SEU ESTADO PURO’ - María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, disse ontem ao Estado – em entrevista telefônica – que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura”.

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) “não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o ‘combate ao comunismo’ e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro”.

 

‘GUERRA JUSTA’ E SANTO TOMÁS - “Uma guerra justa, como dizia Santo Tomás de Aquino”. Com estas palavras, Videla defendeu na terça-feira a atuação de seu governo na repressão de civis considerados “subversivos” pela ditadura. Vestido como um civil, com terno jaquetão, Videla falou com voz firme durante 45 minutos no Tribunal Oral Federal Número Um. Seu discurso foi transmitido ao vivo pelos principais canais de TV do país.

Videla insistiu na teoria de que nos anos 70 a Argentina estava sendo assolada por uma  “guerra interna” provocada por “subversivos estimulados pela União Soviética”. Segundo ele, para defender “o tradicional estilo de vida dos argentinos” foi necessário apelar às forças armadas e “aniquilar” os “grupos terroristas”.

Videla argumentou que lei na época permitia “aniquilar” os “subversivos”: “me nego a aceitar a expressão ‘guerra suja’, pois foi uma guerra limpa, defensiva. Como dizia Santo Tomás, há guerras injustas e justas. E esta foi uma guerra justa”.

Videla, sem citar a censura que imperava durante seu governo e o exílio ou prisão dos opositores, ressaltou que a ditadura “contou com adesão majoritária da população, por isso não houve vozes contra

MENÉNDEZ CONTRAFÁTICO - Poucas horas antes do anúncio dos veredictos, outro dos condenados, o general Luciano Benjamín Menéndez, afirmou que há sete anos (em referência ao período em que foram intensificadas as novas investigações sobre os crimes da ditadura) a Argentina está sob a violação sistemática da Constituição. Já são sete anos de autoritarismo!”.

Menéndez, que está em prisão preventiva desde 2008, já acumulava outras quatro condenações a prisão perpétua.

O general fez um jogo de História contrafática e disse que se o Exército Revolucionário do Povo (ERP, uma guerrilha que não tinha mais de mil integrantes, dos quais apenas um terço estava armado) tivesse vencido a “guerra” contra os militares “tudo seria conduzido por um governo totalitário”. Segundo ele, “os subversivos queriam assaltar o poder para transformar a Argentina em um satélite da Rússia. A subversão tinha como objetivo a alma de nosso povo”.

Menéndez sustentou que os “subversivos” dos anos 70 estão “atualmente no poder” na Argentina.

“EL PROCESO” - Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacionla”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).

 

“El Turco” Julián dizia que era o Deus do circuito de centros de torturas. Deus, na ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld, 1860.

‘DEUS DA VIDA E DA MORTE’ PASSARÁ RESTO DE SEUS ANOS NA PRISÃO

 O Tribunal Oral Federal Número 2 da capital argentina condenou à prisão perpétua no final da noite da terça-feira o ex-policial Julio “El Turco” Simón, que operava no circuito dos campos de detenção e tortura de El Olimpo, Club Atlético e Banco, onde foram assassinados ao redor de 1.500 civis, entre os quais velhos e crianças. Os ex-torturadores que operavam neste circuito foram acusados de torturas, sequestros, estupros e assassinatos.

O tribunal também deu veredicto sobre outros dezesseis ex-torturadores que atuaram nesse circuito. Do total, onze foram condenadas à perpétua e quatro a 25 anos de prisão. Um dos réus, Juan “Kung Fu” Falcón, por falta de provas suficientes, foi absolvido.

A “estrela” do grupo era Simón, famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos, com a justificativa de que o fazia “pela Pátria”. Ele ficou notório por seu sadismo extremo com os prisioneiros judeus (aos quais empalava com um cabo de vassoura) e deficientes físicos (que costumava jogar do alto de uma escada).

Simón ostentava uma braçadeira com uma suástica durante as sessões de tortura, enquanto ouvia fitas de marchas alemãs e discursos de Adolf Hitler.

BANHEIRO - Durante a leitura de sua sentença Simón quis sair da sala do tribunal. No entanto, os juízes não permitiram que se ausentasse durante a leitura. Simón retrucou que necessitava ir ao banheiro: “mas estou a ponto de urinar em minhas calças!”. A juíza Maria Garrigós de Rébori deu a tréplica: “não pode sair da sala”.

Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como “Deus da vida e da morte”.

CÓNDOR - Outro integrante do grupo é o ex-agente de inteligência Raúl Guglielminetti, um dos principais homens do “Plano Cóndor”, como foi denominado o sistema de captura e intercâmbio de prisioneiros políticos e informação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Guglielminetti adquiriu notoriedade nas forças de segurança quando – entre 1974 e 1975 – foi o braço direito de Aníbal Gordon, chefe da organização para-militar “Triple A” (Tríplice A). Após o golpe de 1976 ele transformou-se no chefe do poderoso Batalhão 601 de Inteligência. No início dos anos 80 Guglielminetti foi enviado pelos militares para colaborar com os “contras” da Nicarágua, onde especializou-se na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Guglielminetti foi condenado a 25 anos de prisão.

Além deles também sentou no banco dos réus Ricardo Taddei, que simulava ser um sacerdote católico para ouvir confissões dos prisioneiros, aos quais posteriormente “absolvia” ou “castigava”. O ‘padre’ foi condenado a 25 anos de prisão.

Convescote de ditadores: os colegas Videla e Pinochet em 1978.

CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

1976-1983  – Ditadura Militar

1983 – Volta à democracia

1985 – Início dos julgamentos aos militares

1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’

1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’

1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares

1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80

2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.

E, como fazemos tradicionalmente, recordamos de forma esquemática algumas características da ditadura argentina:

MODALIDADES DE ASSASSINATOS

Formas de assassinar civis, por parte dos militares, durante a Ditadura:

- Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

- Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.

- Fuzilamento.

- Morte por terríveis torturas

 MODALIDADES DE TORTURAS

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS
- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.
 
- Os militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa)
 
- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.
 
BEBÊS
- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)
- 102 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares. 

- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

E o humor ácido de Quino sobre os regimes ditatoriais:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (22)| Comente!

Foto de 1914: imigrantes espanhóis em Buenos Aires. A cidade cresceu na virada do século XIX para o XX graças à migração dos países europeus. Naquele ano, metade dos habitantes da cidade não haviam nascido no país.

Buenos Aires, os municípios da Grande Buenos Aires e de áreas vizinhas (entre as cidades de Escobar e La Plata), além das aglomerações urbanas das principais cidades argentinas, como Córdoba, Rosario, Mendoza, Santa Fe, Salta, Mar del Plata entre várias outras, ilustram um peculiar modus vivendi “espremido” dos argentinos: segundo os dados do censo nacional elaborado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), em 1% do território nacional, concentra-se 80% da população do país. 

Isto é, oito de cada dez argentinos residem em cidades de grande ou médio porte que, se estivessem concentradas em um único aglomerado urbano, equivaleria a 22,5 mil quilômetros quadrados, isto é, 1% do território argentino. Ou, o equivalente à menor província em área do país, Tucumán.

Desse total, boa parte – 12,7 milhões – concentram-se na cidade de Buenos Aires e sua região metropolitana. Se for acrescentado o resto da província de Buenos Aires, 18,4 milhões de pessoas (dos 40 milhões do país) aglomeram-se na cidade de Buenos Aires e no território bonaerense.

Este dado – que reforça a denominação da área metropolitana de Buenos Aires como “Cabeça de Golias” (Cabeza de Goliath, nome do livro de Ezequiel Martínez Estrada, que já em 1940 criticava a concentração excessiva da população e atividade política e econômica do país na área da capital) – é um dos diversos resultados do censo nacional. Mas, a maior parte dos dados consolidados somente serão anunciados no ano que vem.

Em diversas áreas do país o estilo de concentração de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires é reproduzida em escala menor. Esse é o caso de Mendoza, cuja capital homônima – e sua área metropolitana – concentra boa parte da população provincial. O mesmo repete-se com as capitais provinciais em Tucumán, Salta, Santa Cruz, La Pampa, entre outras.  Isto é: grande concentração ao redor de uma cidade, enquanto que o resto da província fica semi-deserta.

Por este motivo é que, ao viajar pelas estradas argentinas, o viajante poderá ver imensas áreas totalmente despovoadas entre os aglomerados urbanos.

40 MILHÕES – Segundo o censo a Argentina possui 40 milhões de habitantes. Isso equivale a 10,6% a mais do que no censo de 2001, que registrou na época 36,26 milhões de pessoas. O ritmo do crescimento da população teve uma média anual de 1,17%.

Além disso, o Indec calculou que a densidade demográfica da Argentina passou de 13 habitantes por quilômetro quadrado em 2001 para 14,4 em 2010.

Multidão em comício na portenha avenida 9 de Julio no início dos anos 5o.

BONAERENSES - Os dados indicam que província de Buenos Aires, a maior do país, possui 15,5 milhões de pessoas. Isto é, concentra 38,9% do total dos habitantes da Argentina.

Do total de habitantes no território bonaerense 9,9 milhões residem nos 24 municípios que formam a Grande Buenos Aires, cinturão industrial da capital argentina e feudo político do partido Justicialista (Peronista).

Concentração da população argentina na área de Buenos Aires. Capital do país e sua região metropolitana marcadas com a linha vermelha. Letra A, delta do rio Paraná; letra B, foz do rio Uruguai; letra C, a cidade uruguaia de Colonia; letra U, o Uruguai. A letra D marca o rio da Prata (mapa do Google Earth). Ali estão 12,7 milhões (do total de 40 milhões) de pessoas.

Embaixo, em vermelho,a província de Tucumán: sua superfície equivale a 1% do território nacional. Se a população de Buenos Aires, das cidades da Grande Buenos Aires e as principais cidades do país fossem concentradas em um único aglomerado urbano, caberia dentro desta pequena província.

PORTENHOS – Segundo o censo, a cidade de Buenos Aires teria 2,89 milhões de habitantes. Isso indica que a cidade cresceu somente 4% na última década, já que em 2001 tinha 2,7 milhões de habitantes. No entanto, a população do distrito federal caiu em relação a 1945, momento de maior expansão da cidade, quando contava com 3,2 milhões.

Segundo especialistas, a cidade esvaziou-se nas décadas posteriores com diversos êxodos de profissionais ao exterior nas crises econômicas argentinas, exílios políticos e a mudança de portenhos para bairros privados na Grande Buenos Aires, longe do tumulto do centro da capital.

Do total de habitantes em território portenho, 11% nasceram no exterior. Desse total, 6% são imigrantes de países com fronteiras com a Argentina.

Segundo o censo 5 milhões de pessoas de fora de Buenos Aires circulam diariamente nas ruas da capital. A maior parte delas são habitantes dos municípios da Grande Buenos Aires. 

Buenos Aires em um mapa do ano 1800,  quando ainda era um vilarejo perdido no sul do continente que vivia às custas do contrabando no Rio da Prata.

OUTRAS - Córdoba, capital da província homônima, que tornou-se a segunda maior cidade do país em 2001, mantém o posto com 1,33 milhão de pessoas. Rosario, na província de Santa Fe, e o maior porto de escoamento de cereais da Argentina, possui 1,19 milhão, ficando em terceiro lugar.

As duas províncias com menor quantidade de habitantes estão no extremo sul do país: Santa Cruz, com 272 mil habitantes, e Terra do Fogo, com 126 mil.

MULHERES E HOMENS – O censo também indicou que existem 95,4 homens para cada 100 mulheres em todo o país. Mas, na cidade de Buenos Aires a proporção de homens cai para 85,8 a cada 100 mulheres.

No bairro portenho da Recoleta está o menor índice de presença masculina, com 73,3 homens para cada centena de mulheres.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 ...E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (33)| Comente!

Clérigo faz campanha contra lenda natalina por considerar que é concorrência contra Jesus. Para assustar as crianças, refere-se a Papai Noel como “o homem de vermelho”.Acim, ilustração de Papai Noel do alemão Thomas Nast, de 1881. A origem da lenda data do século IV d.C e é baseada em um bispo cristão grego chamado Nicolau que morava no vale de Lícia, na atual Anatólia (Turquia). Suas relíquias estão hoje na catedral de Bari, na Itália. Mais detalhes de como sua figura foi unida aos presentes (com origens nas antigas festas saturnálias feitas em dezembro na época dos romanos), aqui (em espanhol)…e mais detalhes sobre lendas escandinavas e alemãs da Idade Média que influenciaram a imagem de Papai Noel, aqui (em italiano).

O bispo católico argentino Fabriciano Sigampa exigiu a “oficialização” da inexistência de Papai Noel, já que o famoso velhinho de roupa vermelha que – segundo a lenda – reside no Pólo Norte e distribui presentes às crianças em todo o mundo na madrugada do dia de Natal – representa uma concorrência direta com Jesus Cristo. Exaltado, o bispo alertou perante uma plateia de adultos e crianças na catedral da cidade de Resistencia, capital da província do Chaco: “não devemos nos confundir, não devemos misturar o Natal com isto!”.

O clérigo, durante uma missa em sua diocese, argumentou que os pais católicos possuem a obrigação de contar a seus filhos a verdade sobre Papai Noel.

Para assustar as crianças, o bispo denomina Papai Noel de “el hombre de rojo” (o homem de vermelho). Sigampa também se refere ao velhinho do Pólo Norte como “esse homem gordo”.

Segundo o bispo Sigampa, os pais devem dizer aos filhos que Papai Noel não fornece os presentes para as crianças, já que os obséquios possuiriam outros dois protagonistas.“São seus pais com seu esforço e com a ajuda de Jesus”, ilustrou a autoridade religiosa. 

“O outro dia perguntei a uma criança sobre o Natal e ela me respondeu que sabia que a data havia chegado porque havia sidra e panetone na geladeira. E ela não me disse nada sobre o menino Jesus!”, exclamou.

 

Revertério sobre Papai Noel data do século XVI. A ilustração assim é do “Exame e processo do velho Papai Noel”, de Josiah King, publicada em 1686 pouco depois da restauração da festividade do Natal na Inglaterra (a obra ironiza um julgamento do bom velhinho). Na época os puritanos ingleses haviam proibido a imagem de Papai Noel nas colônias na América do Norte por considerá-lo a) pagão b) católico.

 O bispo Sigampa deslanchou a cruzada horas antes da inauguração da “Casinha do Natal”, um empreendimento conjunto do Rotary Club, a prefeitura de Resistencia e o governo da província do Chaco.

O resultado da intensa campanha foi imediato. Assustados com as pressões do clero, as autoridades ordenaram a remoção de todas as figuras alusivas a Papai Noel na “Casinha do Natal”. A contratação de um ator, contratado para interpretar o denominado “homem de vermelho” também foi cancelada.

Comerciantes de Resistencia, para evitar críticas diretas do bispo, estão removendo a figura de Papai Noel de suas vitrines.

Graças à cruzada do bispo também acabou a campanha para doar presentes para crianças pobres no Natal do Chaco, uma das províncias mais empobrecidas da Argentina.

BISPO, MURAL E MENEM - Sigampa ficou famoso em meados da década quando era bispo na província de La Rioja. Ali ele encomendou um mural para a Catedral na qual apareciam, como integrantes do mesmo grupo de pessoas, a Virgem Maria, o ex-presidente Carlos Menem (1989-99), e diversas outras figuras do clero de La Rioja e prefeitos da província.

Bispo que exige fim da lenda de Papai Noel era amigo do ex-presidente Carlos Menem, a quem colocou em um  mural da catederal de La Rioja, junto com a Virgem Maria. Além de Menem, o próprio bispo está imortalizado nesse mural.

BUENOS AIRES, BLINDADA CONTRA O CIGARRO

 

Freud explica. Fumar cigarros (e congêneres) em Buenos Aires, só em centros psiquiátricos e prisões.

 A capital argentina é desde esta semana uma cidade 100% livre de fumaça de cigarros, charutos e cachimbos. A determinação foi adotada pela assembleia legislativa do distrito federal, que estipula a proibição de fumar em todos os espaços fechados com acesso público, sejam privados ou do setor público.

Os parlamentares a favor da lei argumentaram que a norma tem o objetivo de “proteger a população dos efeitos nocivos do fumo ambiental, prevenir o início do consumo dos cigarros, reduzir a socialização de seu uso e diminuir o consumo dos fumantes”.

Segundo dados do ministério da Saúde, 40 mil pessoas morrem anualmente na Argentina por causa de doenças vinculadas ao consumo de cigarros. Segundo a deputada Paula Bertol, do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, essas mortes equivalem a 16% do total de falecimentos em pessoas de mais de 35 anos de idade.

No entanto, a norma exclui da proibição os centros psiquiátricos e penitenciárias, já que os especialistas argumentaram durante os debates parlamentares de que essas instituições precisam permitir o consumo de cigarros como forma de “descomprimir as tensões”.

A lei existente até a aprovação da nova norma indicava que lugares públicos como bares e restaurantes poderiam ter uma área reservada para fumantes. Com a nova norma, os estabelecimentos comerciais possuem um prazo de 180 dias para eliminar os “fumódromos”.

De forma geral, cada vez é mais raro ver pessoas fumando nas ruas. Eu nunca fumei, mas sempre estive rodeado de pessoas que fumavam, e muito. No entanto, nos últimos tempos, amigos meus que fumam estão evitando fumar na presença de outras pessoas. Geralmente, fumam em suas casas.

E, para encerrar, o tango ”Fumando espero” com a espanhola Sarita Montiel, aqui.

E com Carlos Gardel, em 1922, aqui.

E a letra da canção, escrita por Félix Garzo quando fumar era “um placer genial, sensual”:

Fumar es un placer

genial, sensual.

 

Fumando espero

al hombre a quien yo quiero,

tras los cristales

de alegres ventanales.

 

Y mientras fumo,

mi vida no consumo

porque flotando el humo

me suelo adormecer…

 

Tendida en la chaisse longue

fumar y amar…

 

Ver a mi amante

solícito y galante,

sentir sus labios

besar con besos sabios,

y el devaneo

sentir con más deseos

cuando sus ojos veo,

sedientos de pasión.

 

Por eso estando mi bien

es mi fumar un edén.

 

Dame el humo de tu boca.

Anda, que así me vuelvo loca.

 

Corre que quiero enloquecer

de placer,

sintiendo ese calor

del humo embriagador

que acaba por prender

la llama ardiente del amor. 

 IMPERDÍVEL: Hoje, sábado, ocorrerá a Noite das Livrarias. Começa às 19:00 e terminará às 24:00.

A maior parte dos 70 eventos programados ocorrerão na avenida emblemática das livrarias, a Corrientes, no trecho entre a avenida Callao e a rua Talcahuano.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (10)| Comente!

“Xul Solar criou várias cosmogonias.. em uma única tarde!”. Frase de Jorge Luis Borges sobre seu amigo e pintor Xul Solar.

Aproveitamos que nesta semana ocorreu seu aniversário de nascimento, no dia 14 de dezembro, para contar algo sobre esta rica personalidade.

O adjetivo “excêntrico” é insuficiente para descrever o pintor argentino Xul Solar, nome artístico de Oscar Agustín Alejandro Shulz Solari (1887-1963), um dos emblemas das artes plásticas de seu país no século XX.

Durante sua estadia em Paris, para onde partiu quando tinha 24 anos (ia por apenas um mês em 1912 e acabou ficando 12 anos), bebeu das fontes dos movimentos cubista, o futurismo, o fauvismo, o expressionismo e o surrealismo.

Seu estilo é definido com certa frequência como “surrealista”. No entanto, diversos especialistas preferem classificar sua obra como “fantástica”. Ocasionalmente – e a grosso modo – é comparado com o alemão Paul Klee, a quem Xul Solar admirava. Em outras circunstâncias os especialistas afirmam que sua obra recorda a arte ruprestre.

Seus quadros – plenos de figuras oníricas e com cores marcantes – mostram edifícios, casas, astros, escadas, máscaras, figuras pré-colombianas, bandeiras e uma série de símbolos das mais diversas religiões.

 

Acima, o retrato do polifacético artista

 Amigo dos escritores Jorge Luis Borges (que o apresenta ao mundo literário portenho) e de Leopoldo Marechal (que o inclui em seu livro, “Adán Buenosayres” como o personagem Schultze), Xul Solar foi um dos fundadores da revista Martín Fierro, crucial no âmbito da literatura e das artes plásticas na Argentina nos anos 20.

Tal como um homem do Renascimento, Xul Solar era especialista em uma miríade de assuntos. O pintor conhecia profundamente sobre teologia de diversas religiões e estudava astrologia e filosofia.

De quebra, filho de um lituano de origem alemã e de uma italiana piemontesa, Xul Solar era fascinado por idiomas.

O fascínio pelas línguas o levou a criar o “neo-criollo”, que misturava o espanhol, o português, o inglês, francês, grego e sânscrito, além de um touch de argentinismos.

Xul Solar, além de criar novos caracteres para seu idioma, escreveu o “San Signos”, que reúne 64 escritos baseados nos hexagramas do I Ching.

Posteriormente, quis criar um idioma que fosse mais “universal” e projetou a “pan-língua”, que tem bases na matemática, na astrologia, artes visuais e música. Um idioma puramente monossilábico… e sem gramática.

Mais detalhes sobre a “pan-língua”, aqui.

 

 Segundo Borges, Xul Solar “era um homem versado em todas as disciplinas, curioso de todos os arcanos, pai de escrituras, de linguagens, de utopias, de mitologias e astrólogo, perfeito na indulgente ironia e na generosa amizade.. Xul Solar é um dos acontecimentos mais singulares de nossa época”.

 Xul Solar também criou um “pan-xadrez”, com complexas regras que implicavam em relações com constelações e os signos do zodíaco.

O ‘pan-xadrez’ contava com 200 peças feitas com madeira de cabo de vassoura que eram movimentadas em um tabuleiro de 12 por 12 quadros.

Em vez de representar guerreiros – como no xadrez tradicional, de origem indiano – as peças simbolizam corpos e seres astrológicos. Neste jogo, duas peças (e até três) podem ocupar o mesmo quadro. As peças começam o jogo fora do tabuleiro. De quebra, o jogo também incluia o uso de 24 cartas de tarô modificadas.

 

Seu lar, situado na rua Laprida, número 1212, é atualmente a sede do museu Xul Solar, que exibe grande parte de sua obra.

Mas, nada melhor do que deixar uma descrição mais detalhada de Xul Solar a cargo de Borges, seu amigo. Em setembro de 1980 fez uma conferência em Buenos Aires sobre Xul Solar. O texto, aqui.

 

Segundo Borges, Xul Solar “era único… talvez cada indivíduo seja único. Mas nele notava-se mais essa unicidade. O compararia com William Blak, precisamente, já que William Blake foi um místico como ele, foi um visionário e um grande poeta, além de grande artista plástico”.

O escritor e amigo sustentava que “quase todos nós vivemos aceitando o universo, aceitando tradições, conformando-se com as coisas. No entanto, Xul vivia recriando o universo. O recriava a cada momento”.

 E aqui, a própria definição que Xul Solar fazia de si próprio (no original, em espanhol): “Alejandro Xul Solar, pintor, escribidor y pocas cosas más, duodecimal y catrólico (ca –cabalista, tro – astrológico, co –coísta o cooperador). Recreador, no inventor, campeón mundial de panajedrez y otros serios juegos que casi nadie juega; padre de una panlengua, que quiere ser perfecta y casi nadie habla, y padrino de otra lengua vulgar sin vulgo; autor de grafías platiútiles que casi nadie lee; exegeta de doce (+ una total) religiones y filosofías que casi nadie escucha. Esto que parece negativo, deviene (werde) positivo con un adverbio: aún, y un casi: creciente”. 

“Enterro”, obra de 1914. Esta aquarela sobre papel é um exemplo das “dimensões” da obra de Xul Solar, que geralmente pintava sobre superfícies pequenas. Esta pintura tem 27 cms de altura e 36 cms de largura.

 E para encerrar, o site do Museu Xul Solar, aqui.

 Já que falamos em idiomas, Louis Armstrong se diverte cantando em…italiano(?). Aqui.

E por falar em Armstrong, um vídeo com ele e Sinatra, aqui.

E nada a ver, Francesco Saverio Germiniani, outro mestre do barroco italiano, que viveu entre 1687 e 1762. Seu concerto grosso para dois violinos e cello, Opus 3, número 3. Aqui.

E voltando a B.Aires,  Francisco Canaro, um dos emblemas do tango no Rio da Prata nos anos 30, 40 e 50, interpreta “Candombe criollo”, que mostra bem a herança cultural afro-platina. Canaro, que nasceu no Uruguai, fez a maior parte de sua carreira na Argentina. Aqui.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (14)| Comente!

Bairro de Villa Soldati, em plena capital argentina, é cenário de batalha campal. Moradores atacam e matam imigrantes bolivianos e paraguaios. Prefeito Macri acusa presidente Cristina de omissão e de permitir massacre, governo federal acusa governo municipal de xenofobia e de incapacidade de lidar com crise. Todos contra todos, tal como nesta gravura de 1550 do geógrafo alemão Sebastian Munster, que mostra monstros marinhos tentando matar uns aos outros.

RESUMO: Na semana passada surgiu um assentamento no parque Indo-americano. Moradores de Villa Soldati, em protesto contra a presença desse grupo, iniciaram protestos que transformaram-se em um dia em ataques violentos. Trinta pessoas, a maioria imigrantes, foram feridas nos incidentes. Quatro imigrantes foram assassinados no meio dos choques, segundo sistema médico SAME. Mas, governo federal e municipal, inimigos políticos, discordam e afirmam que foram três mortos.

As cenas de violência protagonizadas pelos habitantes da classe média baixa de V.Soldati gerou a sensação de que ali poderia ocorrer um mini-pogrom.

Durante três dias, o governo da presidente Cristina Kirchner – apesar da emergência – nada fez para impedir os ataques dos moradores de Soldati contra os imigrantes. No mesmo período, o governo do prefeito Maurício Macri tampouco enviou a maior parte de suas forças de segurança para impedir o caos e separar os dois grupos em choque.

Desde o fim de semana existe uma calmaria aparente na área, quando o governo finalmente enviou a Gendarmería (corpo especial de segurança, especializado em dissipar manifestações e rebeliões sociais) ao parque.

A Gendarmería cercou o assentamento. Por um lado, não permite que entrem moradores para agredir ou queimar os barracos dos imigrantes, tal como ocorreu durante a semana. Por outro lado, não permite que os integrantes do assentamento entrem com materiais de construção para edificar suas casas.

 - Nenhuma pessoa responsável pelas mortes está detida…

COMEÇO DA CRISE

 Cenário: Parque Indo-americano, em Villa Soldati, na área sudoeste da cidade de Buenos Aires. O bairro está dentro das fronteiras portenhas, sob administração do prefeito Maurício Macri, de oposição. V.Soldati é um bairro de classe média baixa. Dentro de seus limites existem três favelas pequenas.

Na área do parque também está um bairro de casas populares construídas para300 famílias do bairro Los Piletones pela organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Mayo, cuja líder é Hebe de Bonafini, há vários anos aliada do governo Kirchner.

 Estopim: Na 2afeira, Sergio Schocklender, braço-direito da líder das Mães da Praça de Mayo Hebe de Bonafini, solicitou o auxílio da Polícia Metropolitana porque “narco-traficantes armados tentaram ocupar a tiros a área da construção” das casas construídas pelas Mães da Praça de Mayo. “Eram os narcos das favelas mais conhecidas. Queriam ocupar as casas e nos ameaçavam matar se não fôssemos embora dali”, disse Schocklender. “Uns espertalhões que queriam ocupar as moradias que estavamos construindo”. O integrante das Mães criticou Macri e que disse que em vez de remover os integrantes do assentamento, “a polícia da prefeitura ficava vigiando apenas os bairros de Palermo, Puerto Madero e o norte da cidade”. Schocklender, que antes da ameaça de ocupação do bairro da organização que integra era a favor de assentamentos, nesta semana disse que “não se pode permitir que em cada praça ou terreno seja montada uma favela”. Segundo ele, os “narcos” haviam enganado centenas de pessoas para que se instalassem nos terrenos vizinhos do parque.

 Primeiros choques: Na terça-feira, após o pedido de Schocklender, a Polícia Federal e a Polícia Metropolitana foram ao parque Indo-americano para despejar as famílias que ali haviam instalado-se.

Os integrantes do assentamento responderam com pedradas e tentaram fazer barricadas de pneus em chamas para evitar o despejo. A Polícia Federal espancou com fúria os imigrantes, que foram removidos do lugar.

O saldo do choque nesse dia: dois mortos, Bernardo Salgueiro e Rosemarie Puja. Foram mortos com tiros de armas usadas pela Polícia Federal.

 Mais choques: Na quarta-feira de manhã, mil famílias, de diversas favelas portenhas da área e também da Grande Buenos Aires, instalaram-se novamente nos lotes que haviam marcado nos dias anteriores no parque Indo-americano. O grupo organizou-se e fez um cadastramento das pessoas que eram da área. Eles também indicam que pretendiam negociar com a prefeitura um plano de moradias, em troca de deixar o assentamento. Nesse dia também surgiram denúncias de que dentro do assentamento várias pessoas estavam vendendo os lotes marcados a outras pessoas que não eram do grupo original.

A Polícia, nesse momento, sumiu.

O cenário complicou-se quando moradores do bairro de Villa Soldati começaram a protestar contra a presença dos imigrantes no parque. Na ocasião começaram os gritos xenófobos e as primeiras agressões físicas.

À tarde, a situação estava descontrolada.

 Choques mais intensos: Na quinta-feira as manifestações dos moradores de Villa Soldati cresceram e ficaram mais violentas. Homens armados, encapuzados, atacaram os imigrantes.

Nesse dia morreu um terceiro imigrante com um tiro.

A Polícia Federal, comandada pelo governo Kirchner, e a Polícia Metropolitana, comandada pelo prefeito Macri, ausentaram-se do cenário de violência desatada.

 Área liberada: Na sexta-feira no fim da tarde a área era “área liberada” para a ação de grupos que continuaram atacando os imigrantes. Villa Soldati transformou-se no cenário de uma batalha campal.

De manhã, a viúva de uma das vítimas chorava perante as câmeras de TV a morte do marido. Um morador do bairro, robusto, de cabeça rapada e segurando um pit-bull pela correia, sem se importar com o estado da viúva, lhe gritava: “Vai embora daqui! Vá pedir uma casa para a presidente em El Calafate (trata-se de um acolhedor vilarejo na Patagônia onde a presidente Cristina possui uma luxuosa casa para passar os fins de semana)”.

À noite, o prefeito Maurício Macri pediu auxílio ao governo federal, alegando que a polícia metropolitana, recém-criada, não possui força suficiente para debelar a rebelião surgida em Villa Soldati e impedir que os moradores do bairro ataquem os imigrantes.

Os integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner deixaram claro que não pretendiam ajudar Macri e o culpavam de ter permitido que a crise ficasse fora de controle.

Sem a presença das forças de segurança, os imigrantes imploraram aos jornalistas que cobriam os incidentes não fossem embora dali, já que eram sua única garantia do crescimento do ataque. Os jornalistas também foram ameaçados pelos moradores de Villa Soldatti.

Vários imigrantes foram internados em hospitais com feridas de bala na cabeça e nas pernas. Os disparados teriam sido feitos pelos moradores do bairro. 

 FESTA E MASSACRE – Como se estivesse em outro planeta – enquanto imigrantes estavam sendo espancados e assassinados a três quilômetros de distância da Casa Rosada – a presidente Cristina Kirchner, com a presença do juiz espanhol Baltasar Garzón e o neto de Luther Martin King, celebrava o dia internacional dos Direitos Humanos. A data também coincidia com o terceiro aniversários de sua posse como presidente.

Na ocasião, Cristina Kirchner, em discurso em rede nacional de TV, afirmou que não utilizaria a Polícia Federal para reprimir protestos sociais. Os moradores de Villa Soldati e bairros vizinhos interpretaram as declarações da presidente como um sinal de que os imigrantes não seriam removidos do parque.

Minutos depois, milhares de pessoas do bairro fecharam o cerco sobre o assentamento, espancando cidadãos bolivianos, além de queimar as tendas que haviam montado no parque.

Os moradores de Villa Soldati – dezenas dos quais encapuzados – também atacaram jornalistas e destruíram câmaras de TV. Os imigrantes tentaram defender-se com paus e pedras, enquanto os moradores de Villa Soldati atacaram os integrantes do assentamento com armas de fogo.

Depois, o SAME, o sistema de emergência médica pública, anunciou a morte de um quarto integrante do assentamento.

 Sua morte, segundo relato dos enfermeiros e do médico que o acompanhava: a ambulância conseguiu a duras penas entrar no lugar, pegou o jovem, que havia sido gravemente ferido, e começou a sair dali. Mas, quando estava quase saindo, foi apedrejada pelos moradores, que detiveram a ambulância, removeram o ferido, e apontaram com uma arma em sua cabeça.

O médico, perante a cena, teve um pré-enfarte mas sobreviveu. A ambulância teve que sair dali sem o ferido. O corpo dessa pessoa nunca mais apareceu. Ninguém sabe se foi assassinado na sequência e seu corpo foi escondido ou se, ferido, conseguiu refugiar-se em algum lugar.

CAOS E TROCA DE ACUSAÇÕES – No meio do caos que tomou conta de Villa Soldati, a presidente Cristina, na Casa Rosada, indicava que não tomaria medidas contra os imigrantes, pois não era um “governo xenófobo”.

No entanto, tampouco tomava providências para impedir o massacre de imigrantes nas mãos de moradores dos bairros vizinhos e de hooligans.

Na contra-mão, o prefeito Maurício Macri, criticava a presidente Cristina, acusando-a de “omissão”: “o governo diz que não há policiais para enviar a Villa Soldati por causa do risco de desguarnecer o resto da cidade. Mas, neste exato instante, centenas de policiais estão fazendo a segurança de um show de rock para celebrar os três anos de governo da presidente”.

Cristina criticava Macri, Macri criticava Cristina. Enquanto isso, os moradores de Villa Soldati, com a participação de vários elementos integrantes de torcidas organizadas, continuavam os ataques aos imigrantes aos gritos de “fora os estrangeiros”.

NOBEL, CRÍTICAS A MACRI E CRISTINA: O Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, acusou o governo da presidente Cristina e o prefeito Macri de “ausentes”: “os governos federal e municipal devem buscar uma solução imediata!”.

 NESTE FIM DE SEMANA, CENÁRIO

No sábado durante o dia, a Gendarmería finalmente apareceu no lugar dos crimes e posicionou-se ao redor do assentamento, separando os imigrantes dos moradores de Villa Soldati.

A chuva intensa que caiu sobre a cidade colaborou para impedir as manifestações.

O cenário, neste domingo, permanecia igual.

A Gendarmería pretende realizar um censo dos integrantes do assentamento nesta 2afeira. Também estava em andamento uma tentativa de conseguir “conciliação” entre o assentamento e o bairro.

 

QUEM É QUEM, QUEM GANHA E QUEM PERDE E OUTROS DETALHES

INTEGRANTES DOS GRUPOS DE ATAQUE – No primeiro dia, o grupo que manifestava-se contra o assentamento eram basicamente os moradores do bairro de Villa Soldati. Nos dias seguintes o grupo aumentou com a participação de moradores da vizinha Villa Lugano e de outros bairros do sudoeste portenho. Denúncias dos jornais portenhos indicam que também existiam no grupo de atacantes…

a)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Kirchner.

b)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Macri.

INTEGRANTES DO ASSENTAMENTO – Maioria de imigrantes da Bolívia e Paraguai, além de argentinos. Eles argumentam que são trabalhadores e negam que tenham tentado tomar os terrenos das Mães da Praça de Mayo, foco original do conflito que posteriormente foi ampliado para o resto da área.

POSIÇÕES

KIRCHNER: O governo da presidente Cristina Kirchner tem a política de não reprimir manifestações na área mais “sensível” do país, isto é, a Grande Buenos Aires, onde concentra-se a maior parte do eleitorado do país, os formadores de opinião, os meios de comunicação, etc (embora protagonize a repressão em áreas distantes da capital argentina).

MACRI: O governo do prefeito Maurício Macri teve a política de criar uma polícia própria, alegando que a criminalidade aumentou e que não pode ficar dependendo da Polícia Federal, controlada pelo governo federal.

A criação da polícia portenha foi controversa, pois Macri convidou figuras de passado obscuro para participar da organização da força de segurança.

De quebra, a polícia de Macri ainda é pequena e não está preparada para casos de grande magnitude, tal como o mini-pogrom do parque Indo-americano.

ASSENTAMENTO: “Não iremos embora!”. Com estas determinadas palavras, Alejandro Salvatierra, um dos líderes do grupo de imigrantes que ocupam o parque Indo-americano deixou claro que pretende resistir ao despejo.

MORADORES: O fim de semana de chuva acalmou os ânimos e a presença da Gendarmería havia intimidado os setores mais agressivos. Mas, não descartavam no bairro voltar ao ataque caso o assentamento perdure nas próximas semanas.

QUEM PERDE E QUEM GANHA:

- MACRI: É o grande perdedor desta crise. Perde poder político e está perdendo imagem na opinião pública. Ele demorou em responder à crise, não esteve presente no lugar da violência, não satisfez as demandas dos moradores de Soldati nem as demandas dos integrantes do assentamento. A imagem havia sido ridicularizada quando, no mês passado, durante sua festa de casamento, ao protagonizar um ‘cover’ de Freddie Mercuri, engoliu sem querer o bigode postiço, que quase o sufocou-

Macri é o principal líder do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, de oposição.

- KIRCHNER: A presidente Cristina Kirchner ganha na área política, depois de ter feito o prefeito Macri implorar ajuda. Mas, perde em imagem, já que estava em plena celebração do dia dos Direitos Humanos enquanto na fronteira da cidade o caos imperava. Não enviou forças federais quando era necessário impedir a violência e as mortes que se alastravam a cada minuto.

MORADORES DE SOLDATI: Os moradores dizem que, com a permanência do assentamento, seus imóveis ficam desvalorizados. Eles argumentam que o assentamento será um foco de ladrões. Ganham ou perdem com esta crise? Isso dependerá do desenlace que ainda poder demorar dias ou semanas.

ASSENTAMENTO: Os integrantes do assentamento afirmam que são trabalhadores e que precisam de um lugar para morar. Eles também sustentam que estão dispostos a pagar terrenos em parcelas. Ganham ou perdem? Se conseguirem permanecer no lugar, é uma vitória a curto prazo, com eventuais problemas a médio e longo prazo, já que no futuro poderão ser alvo de novos ataques dos moradores de Soldati.

FÚRIA: Quatro das onze ambulâncias que tentaram na sexta-feira à noite entrar no parque foram impedidas pelos moradores do bairro Villa Soldati. As ambulâncias foram apedrejadas. Em um dos casos, os moradores retiram um imigrante ferido à força da ambulância que o transportava e o executam com tiro na cabeça.

Jornalistas que cobriam o conflito também foram agredidos pelos moradores.

PECULIARIDADES POLÍTICAS:

O governo da Bolívia reclamou oficialmente das posições “xenófobas” do prefeito Macri.

Mas, não reclamou ao governo Kirchner, seu aliado, sobre a ausência de forças federais para proteger os imigrantes que estavam sendo atacados.

POLÊMICAS SOBRE XENOFOBIAS

Detalhes sobre as declarações do prefeito Macri sobre o que ele denomina de “descontrolada imigração”, aqui.

A líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, no ano passado, inesperadamente expressou opiniões xenófobas na Praça de Mayo, quando tentou expulsar imigrantes bolivianos que protestavam na frente da Casa Rosada pela violência da Polícia Federal, que havia morto o imigrante Juvelio Aguayo Pérez, de 29 anos. “Fora daqui, bolivianos de m… a praça é nossa!”. Aqui.

ARGUMENTOS DE SETORES E CONTRA-ARGUMENTOS SOBRE IMIGRAÇÃO

- No meio desta crise, diversos setores pronunciaram-se contra a entrada de imigrantes no país.

Entre eles, uns setores pronunciavam-se contra a entrada de todos os imigrantes, com o argumento de “Argentina para os argentinos”.

Outros setores alegavam que a imigração poderia continuar, embora com menor flexibilidade que a existente atualmente (as barreiras para entrar na Argentina são as mais flexíveis em todo o Cone Sul).

- Os setores que defendem a imigração (ou pelo menos o fim aos ataques aos imigrantes) recordaram que todos os políticos argentinos são descendentes de imigrantes (recentes ou de várias gerações). O economista Lucas Llach, em sua coluna no jornal “La Nación” criticou o braço-direito de Macri, Horacio Rodríguez Larreta (que havia pronunciado críticas contra a imigração): “é por acaso Rodríguez Larreta um diaguita?”.

Diaguita é o nome de um amplo grupo indígena existente no sopé da Cordilheira dos Andes. Llach ironizava com o fato desse político não contar com antepassados indígenas, mas sim, de imigrantes espanhóis. Isto é, imigrantes, no fim das contas.

E, outra interessante coluna que este economista escreveu sobre este assunto, ao recordar que Buenos Aires foi fundada definitivamente, em 1586, por um pequeno grupo de espanhóis comandados por um basco e um grande grupo de paraguaios que desceram de Assunção pelo rio Paraná até o rio da Prata.

Na época, B.Aires dependia de Assunção. E Assunção dependia do comando das autoridades espanholas na área, Lima, no Peru. Aqui. 

DADOS

- Alguns setores contrários à entrada de imigrantes no país alegam que a cidade de Buenos Aires cresceu de forma excessiva nos últimos anos, que está “entupida” e que não há lugar para mais ninguém. Esse, inclusive, é o argumento de vários integrantes do governo municipal. Mas, a realidade é que a cidade “encolheu”.

Dentro de suas fronteiras – a avenida General Paz (uma espécie de “Avenida Marginal” portenha) e o rio Riachuelo – a cidade passou de 3,2 milhões em 1945 para 2,7 milhões no ano 2000.

- Esses setores também costumam afirmar que a maior parte dos crimes são cometidos por imigrantes. No entanto, diversas estatísticas desde os anos 90 indicam que os imigrantes possuem – proporcionalmente – uma menor porcentagem de incidência do que os nativos no contexto geral da criminalidade. 

 E, para encerrar, um pouco de civilização: o segundo movimento da Sinfonia Número 7 de Ludwig van Beethoven, com a Filarmônica de Berlim. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (44)| Comente!

 

Teatro Solís, um marco na Ciudad Vieja de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

San Felipe y Santiago de Montevideo foi fundada em 1726 pelos espanhóis para proteger suas colônias do Rio da Prata dos portugueses. A meados do século XIX expandiu-se além das muralhas que durante longos anos a defendeu sucessivamente dos invasores lusitanos, dos ingleses, argentinos e brasileiros, além de servir de proteção nas inúmeras guerras civis que este país padeceu antes de transformar-se na pacata “Suíça latino-americana”. A cidade conseguiu crescer dentro de uma escala humana, sem perder a orgulhosa identidade.

Fascinada por ela, a Prêmio Nobel de 1945, a poetisa chilena Gabriela Mistral, resumiu o espírito de Montevidéu: “existe nas Américas um pequeno país – o Uruguai – que todos aceitaríamos por pátria, porque tem um quê de mãe perfeita. Os melhores homens das Américas, quando olham para ali, encontram pelo menos alguma das coisa que amam. A liberdade, o sentido da democracia, a cultura. Se, em algum momento, a América Latina se tornasse uma unidade, talvez fosse Montevidéu, a capital escolhida por todo nós, sem ciúmes ou vacilações”.

Meio século após as definição de Mistral, Montevidéu mantém o mesmo charme e clima cálido. O ambiente acolhedor é sentido principalmente na pequena Ciudad Vieja, a Cidade Velha, onde atualmente misturam-se moradores das mais diversas classes sociais – desde remanescentes da aristocracia uruguaia até trabalhadores do porto – junto com ministérios, os principais bancos do setor financeiro uruguaio e edifícios históricos. A área está sendo intensamente reciclada, o que permitiu-lhe que recuperasse o velho charme, após décadas de estancamento.

Das velhas muralhas, que formavam os limites da Ciudad Vieja, só restam a Porta da Cidadela, no ponto no qual a rua Sarandí encontra a Praça Independencia; além de pequenos bastiões na avenida beira-mar. O maior de todos é o que está na rambla Gran Bretaña, na frente do Hotel NH.

Ali também está a peculiar Catedral da Santíssima Trindade (www.uruguay.anglican.org, tel: 5982 – 915 4626), a única igreja anglicana da capital uruguaia, de estilo neo-clássico (com um interior com elementos vitorianos) onde nos domingos pode-se desfrutar de música religiosa (órgão e coro) de alta qualidade.

A poucos metros da porta da Cidadela está o teatro Solís (www.teatrosolis.org.uy, calle Buenos Aires, sem número; tel 5982 – 915 9770), fundado em 1856 com a Ópera Ernani, de Giusseppe Verdi). O teatro foi reformado durante vários anos e reinaugurado em 2005. O resultado foi impecável, e tornou o Solís novamente em uma escala das grandes companhias operísticas, de balé e orquestras sinfônicas, além de cantores populares latino-americanos e europeus.

Voltando para a rua Sarandí está o museu Torres García (www.torresgarcia.org.uy, calle Sarandí 683, tel: 5982 – 916 2663) que reúne parte da obra do pintor mais celebrado pelos uruguaios, Joquín Torres García (1874-1949), fundador do “universalismo construtivo”. Sua obra mais emblemática é um mapa da América invertida, no qual a América do Sul transforma-se na América do Norte.

Obra de Torres García, de 1932.

Caminhando pela Sarandí, na esquina com a rua Juan c. Gómez, está o Cabildo, concluído no começo do século XIX, que foi a sede do poder colonial espanhol em seus últimos anos de domínio.

Cabildo de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

Na frente está a praça da Constituição, onde realiza-se diariamente uma pequena feira de antigüidade e a Catedral.

La Pasiva, point dos chopps em Montevidéu.

Na outra esquina está “La Pasiva”, um tradicional bar e ponto de encontro, ideal para saborear uma cerveja no fim da tarde e os “frankfurters” (uma espécie de cachorro quente) com a mostarda à moda de La Pasiva (feita com um pouquinho de cerveja).

O miolo da Cidadela possui vários marcos arquitetônicos, entre eles o da praça Zabala, com o palácio Taranco, edifício usado pelo governo uruguaio para recepções oficiais.

Praça Zabala. Os vizinhos, todas as semanas, ensaiam o candombe com seus atabaques nessa praça que possui marcos do art-déco de Montevidéu (Foto de Ariel Palacios)

Nos arredores existem vários edifícios art-déco, estilo arquitetônico que em Montevidéu possui um grande número de exemplares. Entre os edifícios interessantes estão a Câmara de Vereadores, em estilo Tudor, nas esquinas das ruas 25 de Mayo e Juan C. Gómez; o Banco de la República; um antigo edifício de escritórios nas esquinas das ruas Cerrito e Bartolomé Mitre; o imponente Clube Uruguaio, na frente da praça Constituição, entre outros.

 

Arquiterura do centro de Montevidéu possui grande variedade de estilos.

Em uma das beiradas da Ciudad Vieja, na rambla 25 de Agosto, está “el Mercado del Puerto” (o Mercado do Porto), que durante mais de um século foi o mercado que vendia peixes, frutas e verduras. Feito em ferro e vidro (foi fabricado na Inglaterra em 1868), o lugar atualmente concentra restaurantes e bares, especializados em pratos de carne bovina. O ambiente é descontraído. Os cozinheiros e garçons fazem o possível para atrair os clientes a seus respectivos estabelecimentos.

Mercado del Puerto. Um lugar emblemático para um repasto carnívoro: morcillas, bifes, chorizos, entre outros produtos. Tudo o que a vaca propicia ao Homo Sapiens (menos o couro e os ossos) ali aparece em cima de um prato.  E do prato rapidamente desaparece para ir à ‘busarda’ (pança) dos clientes.

A higiene – em vários estabelecimentos – não é das melhores, mas comida é saborosa. Nos sábados o mercado é geralmente embalado por música típica, entre eles o “candombe”, um ritmo de origens afro.

As ruas Juncal e Bartolomé Mitre, que atravessam a Sarandí, transformaram-se no ponto de agito dos jovens montevideanos ao longo da última meia década. Os bares ficam entupidos até as 4:00 da madrugada.

Os dias mais agitados são a quinta (uma espécie de “pré-fim de semana”), sexta-feira e sábado. Os bares também são freqüentados por jovens estrangeiros que estudam no Uruguai ou que estão de férias na capital uruguaia. Apesar da multidão que circula na área, são raros os casos de bebedeira misturada com violência. O jovem uruguaio costuma desfrutar a diversão em paz.

O general Artigas, herói da independência uruguaia, está por todos os lados. Aqui, na frente do Banco Central, em pose plácida. Embaixo, na frente do palácio presidencial, na praça Independencia, em pose heróica, a cavalo. Mas, como bom uruguaio, embora a pose seja heróica, é sóbria. Isto é, ao contrário de outros heróis na região, o cavalo não está empinado e o general citado não ostenta o sabre em riste.

MONTEVIDÉU INSPIRA A NOSTALGIA

“Deteve-se no tempo” é uma expressão usada, de forma geral, com tom depreciativo. No entanto, quando os montevideanos ouvem essa expressão, em referência à capital do país, enchem-se de orgulho. “Sim, não é fantástico?”, exclamam a modo de resposta. A cidade manteve o ar dos anos 40, 50 e 60. Até os cartazes das lojas permanecem inalterados pela passagem dos anos. Os portenhos – que passam por ali a caminho do balneário de Punta del Este – costumam dizer que ir à Montevidéu é como entrar em uma máquina do tempo e retroceder quase meio século. As ruas são calmas, os engarrafamentos são uma raridade, embora seja uma cidade de 1,5 milhão de habitantes (metade dos uruguaios reside ali).

Não é uma cidade adequada para as pessoas que desfrutam a modernidade e o agito. Tampouco é cidade para o show off. Os vaidosos e ostensivos abstenham-se. Os uruguaios – que apreciam cores creme e cinzentas tanto na arquitetura como na vestimenta – costumam abominar a ostentação.

A sobriedade é um orgulho nacional. Por esse motivo, costumam olhar com desprezo as hordas de novos ricos e socialites brasileiras e argentinas que entopem Punta del Este no verão.

Montevidéu é para os calmos, que gostam de caminhar e da vida sem estresse. Os montevideanos, ao contrário dos portenhos, desfrutam o rio da Prata como se essa larga via fluvial fosse o próprio mar. Durante todo o dia, milhares de pessoas fazem footing, correm ou tomam sol nas avenidas beira-mar, chamadas “ramblas”. A própria arquitetura de Montevidéu inclui amplos janelões, tal como uma cidade à beira-mar.

Os bairros que mais desfrutam da condição praieira são o de Pocitos, Buceo e Carrasco. Pocitos, no século XIX era o bairro onde as empregadas lavavam as roupas. No século XX já era conhecido como a “Biarritz uruguaia”. Ainda hoje tem um clima de dolce vita que o torna incomparável. Os cafés sobre a orla fluvial embalam os happy hours.

Palácio Salvo, o irmão do portenho Pasaje Barolo. Para ver detalhes sobre o peculiar parente que está em B.Aires, clique aqui.

Longe do rio, no interior da cidade, todos os domingos, os montevideanos e turistas passeiam pela feira de Tristán Narvaja, onde encontram-se desde alimentos artesanais, quinquilharias, livros, antigüidades e até os atabaques utilizados no “candombe” uruguaio. O carnaval uruguaio, com características próprias, que o diferenciam parcialmente do brasileiro, é geralmente festejado no bairro de Palermo, quase ao lado do edifício da Secretaria do Mercosul, um antigo hotel transformado na sede burocrática do Cone Sul, sobre a rambla República Argentina. Ao lado está o parque Rodó, que entre suas peculiaridades, conta com a única estátua do filósofo chinês Confúcio na América Latina.

Entre os edifícios públicos de interesse para o turista está o Parlamento, no final da avenida Libertador Lavalleja; o antigo palácio presidencial, na praça Independencia, e, para os fanáticos do futebol, o estádio Centenário, cenário da primeira Copa do Mundo (1930). No extremo oeste da cidade, sob o morro de Montevidéu, está a fortaleza da cidade. No trajeto, desde o centro, até o sopé do morro, ao passar pelo bairro de La Teja, o turista se deparará com as instalações da estatal ANCAP, que além de produzir cimento, cuidar da distribuição de combustíveis, elabora o único uísque estatal da América do Sul, o Mac Pay.

Café Brasileiro: ponto de reunião de intelectuais. Eduardo Galeano é habitué.

BARES SURGIRAM JUNTO COM FUNDAÇÃO DE MONTEVIDÉU

No interior do Brasil um ditado popular indicava anos atrás que toda cidade, quando era fundada, logo no início tinha que ter, como condição sine qua non uma igreja, a Casa Pernambucanas e a zona de meretrício. Montevidéu, quando foi fundada, foi sui generis, pois contou imediatamente com uma fortaleza e um bar. O boteco, que não era da esquina, pois a cidade não contava com ruas formais, teve primeiro a denominação formal de “armazém de produtos gerais”.

O primeiro bar já desapareceu. Mas um bar quase contemporâneo dele, também do século XVIII é o “Almacén del Hacha” (Armazém do Machado), está na rua Buenos Aires 202.

O nome do estabelecimento recorda que naquele bar, em 1794 (tempos em que as discussões sobre mulheres ou um jogo de cartas eram argumentadas de forma drástica) um dos clientes, Domingo Gambini, enviou para o além um dos empregados, Bernardo Paniagua, utilizando um afiado machado.

Hoje em dia, o ambiente do bar é muito mais saudável.

Perto dali está o Café Bacacay (www.bacacay.com.uy, tel: 5982 – 916 6074) , na frente do Teatro Solís. O lugar é point de pessoas da área teatral e musical. Jornalistas e escritores também costumam reunir-se ali.

Outro ponto de reunião de intelectuais, especialmente da velha guarda, é o Café Brasilero (Ituzaingó, 1447), fundado em 1877 e redecorado em 1920. É o lugar ideal para estar sentado nas tradicionais cadeiras Thonet, bebericar um café, saborear a torta de ricota com passas, enquanto olha pela vidraça o tempo passar.

Perto dali, na esquina das ruas Misiones e 25 de Mayo está o “Las Misiones”. O bar vale mais a pena pelo lado de fora do que de dentro. Seu revestimento externo é ímpar, similar ao dos pubs da cidade inglesa de Manchester.

Outro bar de impreterível visita é o clássico “Fun Fun”, na rua Ciudadela 1229 (tel 5982 – 915 80 05). É moda há décadas ir nos fins de semana ali para beber grapa com limão. Ou, também provar a emblemática “uvita”, um adocicada bebida de composição misteriosa (sua fórmula é um segredo centenário), mas que os montevideanos bebem há gerações sem perguntar a estrutura do milagre. 

Oro del Rhin, emblemática confeitaria de Montevidéu. Uma das especialidade é a torta-árbol (bolo-árvore). Um festival de wagnerianas calorias.

WAGNERIANAS CALORIAS -  E entre as confeitarias está minha preferida, a “Oro del Rhin” (Ouro do Reno), o mesmo nome da ópera de Richard Wagner, teutônico compositor. Esta agradável confeitaria, cuja clientela é de todas as idades, embora predomine a terceira, está na rua Convención, 1413. Telefone: 902 2832.

Ideal para um chá no fim da tarde. E um chá ao meio-dia. E também o café da manhã…bom, confesso, é ideal para qualquer momento. Um paraíso de sanduíches, doces… um perigo para dilatar o ventre e outras partes adiposas do corpo. Uma verdadeira ópera wagneriana calórica. Ao sair dali vai parecer um integrante da ópera Der Fliegende Holländer (“O holandês voador”). Não o capitão Daland, protagonista desta emblemática obra lírica, mas sim o próprio bojudo navio…

E para encerrar, o cantor uruguaio Rubén Rada, cantando “Muriendo de plena”. Aqui. 

E nada a ver com o Uruguai, “La Folia”, de Arcangelo Corelli (1653-1713), aqui.

E, diria, melhor ainda, esta outra de Corelli, o “Concerto Grosso”. Aqui.

E outra coisa, já que falamos no Holandês Voador, a abertura, aqui.

 E, como hoje – 8 de dezembro – é o aniversário de Lucien Freud (nascido em 1922), um de meus pintores preferidos (e neto de Sigmund Freud), aqui seguem dois quadros deste genial artista germano-britânico.

Primeiro, seu auto-retrato.

 

E aqui, um detalhe da face.

 

E este outro ilustra um assunto frequente na obra de Lucien Freud: os cachorros. Um quadro que retrata uma estupenda modorra canino-humana.

 

MOMENTO SENTIMENTAL -  Nada a ver com Montevidéu, Freud e o rio da Prata, é o momento de parabenizar Londrina, minha cidade, por seu aniversário, hoje, dia 10 de dezembro. A cidade, desde sua fundação sempre aberta a pessoas de todo o Brasil e de todo o planeta, completa 76 anos.

O hino da cidade, uma apologia ao recebimento dos imigrantes, aqui.

Bom fim de semana a todos!

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 ...E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (36)| Comente!

 

Ilustração mostra Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, mestre da diplomacia no século XIX. O diplomata francês costumava dizer que “a palavra foi dada ao homem para que possa encobrir seu pensamento”. Isso valeu até o affaire Wikileaks. E, ao lado de Talleyrand, Sigmund Freud, pai da psicanálise. O autor de “Totem e tabu” entre outras obras tem a ver com as tentativas da diplomacia americana de desvendar a psique da presidente Cristina Kirchner. Além dos neurônios de Cristina, as vísceras de Kirchner também eram foco de interesse dos EUA.

“Ineptos” em política externa, “paranoicos” com o poder e “ciumentos” das atenções que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia do governo dos Estados Unidos. Assim eram encarados pela diplomacia americana a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), segundo revelaram os telegramas entre a embaixada americana em Buenos Aires e a Secretaria de Estado dos EUA em Washington divulgados pela WikiLeaks. Os Kirchners eram denominados ironicamente pela diplomacia americana de “first couple” (o primeiro casal).

Segundo os telegramas Washington considerava que Néstor Kichner tinha “duas caras”, tal como “o Dr. Jekyll e Mr. Hyde”. A avaliação dos diplomatas americanos sustentava que o “estilo K” – denominação da forma de governar do casal – era “errático” e caracterizado pela “tensão extrema no curto prazo”. Eles também consideravam que o casal presidencial era “impermeável aos conselhos alheios e muito paranoicos em relação ao poder”.

Em várias ocasiões as fontes de informações sobre os Kirchners foram os próprios ministros do gabinete presidencial. Um deles, com opiniões cáusticas, era o ex-chefe do gabinete de ministros, Sérgio Massa, que disse à embaixada americana que Kirchner era “psicopata, um monstro e um covarde”.

Massa também teria afirmado que o governo de Cristina seria melhor sem a presença de Néstor Kirchner, que faleceu de um ataque cardíaco fulminante há um mês. Na terça-feira Massa desmentiu que tivesse feito essas declarações e ressaltou que não tinha contatos com a embaixada dos EUA.

Cérebro visto de baixo, em ilustração do século XVIII. Conexões sinápticas da presidente Cristina Kirchner despertavam curiosidade no Departamento de Estado nos EUA.

 SAÚDE MENTAL  E MEDICAMENTOS DE CRISTINA - As informações também revelam que a “saúde mental” de Cristina Kirchner era ponto de interesse para a diplomacia americana nos últimos dias de dezembro de 2009, quando nesse âmbito surgiram perguntas sobre os efeitos do estresse na mente da presidente argentina. No telegrama, assinado por “Clinton” (e portanto, atribuído à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton), a diplomacia americana faz perguntas como “de que forma controla Cristina Kirchner seus nervos e sua ansiedade? Como afeta o estresse sua conduta com seus assessores e seu processo de decisões?” e “que medicamentos (Cristina Kirchner) toma?”.

Em Buenos Aires os comentários entre a população sobre uma eventual bipolaridade (ou situação similar com palavras, digamos, menos científicas) da presidente argentina eram comuns desde de sua posse em dezembro de 2007. 

 O CÓLON IRRITÁVEL E A POLÍTICA – A saúde do ex-presidente Kirchner, considerado em Buenos Aires o verdadeiro poder no governo da mulher, também era o foco de interesse, já que os telegramas continham perguntas sobre a magnitude de seus complicados problemas gastrointestinais, mais especificamente, sobre seu “cólon irritável”.

A resposta à inquietude americana veio do círculo mais íntimo do casal presidencial, o secretário de Assuntos Legais, Carlos Zannini, amigo dos Kirchners desde os tempos da faculdade: “Kirchner age de acordo com seu estado de saúde, que se exacerba e determina suas emoções e psicologia. Sofre há anos de irritação intestinal”.

Segundo a diplomacia americana, os problemas intestinais de Kirchner explicam uma personalidade “obsessivo-compulsiva” e provocam “a falta de atenção às longas cerimônias protocolares ou com os horários inflexíveis, que não permitiriam que Kirchner tivesse um acesso rápido aos banheiros”.

Vísceras e vizinhanças em ilustração de gravura de livro médico do século XIX. As vísceras de Kirchner, mais especifícamente seu cólon irritável, eram foco de interesse da diplomacia americana.

 A POSE É DE ESQUERDA, MAS A ATITUDE É ‘PRAGMÁTICA’ – Segundo os telegramas, Washington considera que o governo Kirchner, apesar da pose de esquerda e da proximidade com o presidente venezuelano Hugo Chávez, age de forma “pragmática”: “suas simpatias pela esquerda estão completamente subordinadas a seus interesses políticos e ambições pessoais”.

Os documentos sustentam que “a Argentina não ficará mais bolivariana, já que Cristina Kirchner procura claramente qualquer oportunidade para associar-se com o presidente Obama. A intensidade desse desejo abre oportunidades para os EUA”.

Evo Morales e Hugo Chávez, com figurino tipicamente andino durante conclave presidencial. O segundo não teria influência sobre os Kirchners, na avaliação da diplomacia americana. O primeiro poderia ser abrandado pelos Kirchners, analisavam os diplomatas em Washington, baseados em afirmações da presidente Cristina.

 BOLÍVIA: ARGENTINA OFERECE AJUDA PARA ABRANDAR EVO - O duplo discurso com os países vizinhos e as tentativas de Cristina para aproximar-se dos EUA evidenciam-se pela promessa de ajuda a Obama para conter os ímpetos revolucionários do presidente equatoriano Rafael Correa e tornar mais flexível o presidente boliviano Evo Morales. “Evo não é pessoa fácil, nos informa CFK (Cristina Fernández de Kirchner)”, indica um telegrama que também ressalta que “CFK afirma que a Argentina cooperará com os EUA na Bolívia, mas temos que ser cuidadosos para que não pareça que existe uma operação política contra o governo, devido às suspeitas de Evo”.

O governo boliviano optou por desacreditar os telegramas americanos revelados pelo WikiLeaks sobre a Bolívia. “Não levamos isso a sério, pois podem existir erros”, disse o porta-voz presidencial em La Paz, Iván Canelas.

No entanto, embora negue o conteúdo existente sobre a Bolívia, o vice-presidente Alvaro García Lineras considera como verdadeiras as informações surgidas sobre outros países. “Celebro que estas informações tenham sido publicadas. Celebro que o mundo fique conhecendo de fontes próprias aquilo que dizíamos há tempos. Tudo aquilo que denunciávamos está agora totalmente comprovado“, disse o vice.

 CRISTINA, COM CIÚMES DE LULA - Segundo os telegramas a presidente Cristina considerava que merecia mais atenção dos EUA e melindrava-se por ficar em segundo plano, atrás do Brasil. “Cristina diz que é difícil entender porque o presidente Lula obteve uma entrevista com o presidente Obama, apesar de que o Brasil votou contra no Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA) e de que Lula reuniu-se com (o presidente iraniano Mahmoud) Ahmadinejad, enquanto que nega uma entrevista com ela, que mantém uma forte posição contra o Irã na OIEA e na luta contra o terrorismo”.

Os telegramas indicam que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, lamentou ao secretário de Estado adjunto dos EUA, Arturo Valenzuela, que a relação dos EUA com o Brasil e o Chile fosse encarada como mais positiva. “É especialmente doloroso, pois a presidente Cristina sempre apoiou Obama”, reclamou Fernández, segundo a WikiLeaks.

 

Falando em ciúmes, o dito cujo sentimento, representado acima neste trecho da pintura “Allegoria del trionfo di Venere” (Alegoria do  triunfo de Vênus), de Angelo Bronzino. A obra, realizada entre 1540 e 1545, está na National Gallery, Londres.

 CRISTINA, SUBMETIDA PELO MARIDO - Mais telegramas revelados pelo Wikileaks divulgados ontem (terça-feira) à noite pelo jornal “El País” indicam que o ex-chefe do gabinete de ministros, Sergio Massa – homem de confiança do casal presidencial – disse a diplomatas americanos em Buenos Aires que Néstor Kirchner comandava o governo e que a presidente Cristina Kirchner cumpria ordens”. Segundo Massa, atualmente prefeito da cidade de Tigre, a presidente estava “submetida” por seu marido.

 ARGENTINA NÃO SERÁ VENEZUELA - Massa também indicou que os Kirchners não possuíam qualquer chance de vencer as eleições presidenciais de 2011. Além disso, tentou tranquilizar os americanos ao afirmar que a Argentina não estava no caminho “bolivariano”: “apesar de todos os problemas que a Argentina tem, o país não é a Venezuela. Sua sociedade é mais educada, tem uma ampla classe média e sua economia é muito mais complexa que o monocultivo petrolífero de Caracas. Argentina, explicou (Massa), não permitirá que os Kirchners consolidem seu poder com um governo mais autocrático”.

No documento a embaixada americana indica que a esposa de Massa, Malena Galmarini, fez diversas vezes sinais para que seu marido se calasse. No entanto, não teve sucesso.

 PREFEITO MANIQUEÍSTA E BRUSCO - Os telegramas também indicam que a embaixadora dos EUA, Vilma Martínez, em novembro de 2009 relatou que o encontro que teve na época com o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, de oposição, não foi agradável. Segundo a embaixadora, Macri é “brusco”, possui uma “visão maniqueísta do mundo” e “incomoda-se com as sutilezas das comunicações interpessoais”.

A diplomata americana considerou no telegrama que Macri “compartilha essas características controvertidas com o ex-presidente Kirchner, seu rival político”.

E, um pequeno acréscimo, só de background (nada a ver com o Wikileaks): na semana passada – antes do escândalo Wikileaks – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO), foi alvo de ácidas piadas, já que durante sua festa de casamento, ao fazer uma imitação de Freddie Mercuri (o prefeito é fã de carteirinha desse cantor nascido na ilha de Zanzibar, filho de indianos) colocou um bigode postiço e, enquanto cantava uma passagem de um hit da estrela do Queen, engoliu esse artefato capilar que estava aderido a seu lábio superior. O prefeito da maior cidade argentina engasgou seriamente com o bigode, fato que assustou os convidados. Finalmente, foi salvo por um assessor.

Freddie Mercuri, apesar de sua vasta imaginação – e que nunca teve o prazer de ver este escândalo do Wikileaks - talvez nunca pensou que no extremo sul do planeta um prefeito o imitaria e quase morreria engasgado com um bigode postiço.

 SILÊNCIO – O silêncio do governo argentino foi interrompido ontem (terça-feira) de manhã pelo embaixador do país na ONU, Jorge Argüello, que afirmou que a divulgação dos telegramas diplomáticos “são um assunto muito delicado que colocará o governo dos EUA em uma situação embaraçosa”. Argüello afirmou que ainda falta conhecer “a maior parte” das informações.

Na capital argentina o ministro da Economia, Amado Boudou, não fez avaliações sobre os detalhes contidos nos telegramas sobre a Argentina. Mas, indicou genericamente que “possuem alto nível de babaquices”.

Em Buenos Aires existe expectativa de que o escândalo sobre os telegramas seja um dos principais assuntos da cúpula de chefes de Estado e de governo dos países iberoamericanos, que será realizada na sexta-feira e sábado na cidade de Mar del Plata.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (60)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão