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Ariel Palacios

blognetunoveneza-tiepolo-1740

Netuno, o aquático brother do manda-chuva dos manda-chuvas, Júpiter – e portanto, integrante do entourage divino do Monte Olimpo – exibe a cornucópia da fortuna para a bela jovem, que representa a cidade de Veneza. O quadro é “Netuno oferece presente a Veneza” de Giovanni Domenico Tiepolo (Veneza 1727-1804). A obra, que exibe-se no Palazzo Ducale, foi pintada entre 1748 e 1750.

blog1dedo2bDriblando as crises econômicas e a disparada da inflação, a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner prosperaram de forma exponencial desde que chegaram em 2003 à Casa Rosada, o palácio presidencial. Nesse ano, quando Kirchner foi eleito presidente, a fortuna do casal era de US$ 1,74 milhão. De lá para cá – e especialmente depois da posse de Cristina como sucessora em 2007 – a fortuna do casal aumentou aceleradamente.

No ano passado, segundo a declaração de bens oficial do casal, apresentada ao Departamento Anticorrupção e divulgada recentemente, o patrimônio era de US$ 14,16 milhões, o equivalente a um aumento de 20,65% em relação a 2008. No entanto, no total dos sete anos em que estão no poder, a casal Kirchner registrou um aumento de 710,55% de seu patrimônio.

O enriquecimento dos Kirchners, segundo sua declaração de bens, teria sido conseguida por intermédio da compra, venda e aluguéis de imóveis, além de investimentos em hotelaria na Patagônia e aplicações financeiras em dólares em bancos argentinos. Além disso, acrescentam-se os salários da presidente Cristina (US$ 3,9 mil) e a pensão de Kirchner como ex-presidente (US$ 7,6 mil).

Representantes da oposição indicam que é chamativo o aumento da fortuna dos Kirchners, já que teoricamente os afazeres governamentais não permitiriam tempo de sobra para ocupar-se com os investimentos pessoais.

blogGaiusCaesaCaligula

O escritor francês Albert Camus (1913-1960) colocou na boca de seu personagem Calígula (na peça homônima) as palavras: “Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”. A frase, cunhada por Camus, já era aplicada por muitos governantes antes da estreia de sua peça, em 1944. E, evidentemente, continuou sendo aplicada por governantes em todo o planeta depois da peça. Integrantes da oposição argentina afirmam que o casal presidencial aplica o teorema de Calígula, pelo menos na primeira parte da frase. O Calígula em questão é o famoso Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus (Caio Julio César Augusto Germânico), nascido em 31 de agosto do ano 12 d.C. e morto no dia 24 de janeiro do ano 41. Na profissão de imperador durou um pouco menos do que muitos presidentes, isto é, três anos e 10 meses. Mas, fez o suficiente para ser lembrado ao longo dos séculos. Acima, busto do polêmico imperador em Carlsberg, Alemanha. Embaixo, sestércio com a efígie de Calígula, cunhado ao redor do ano 38.

blogcaligulasestercio

IMÓVEIS LUCRATIVOS - A oposição destaca pontos polêmicos da declaração, como o caso do terreno de 20 mil metros quadrados que compraram da prefeitura de El Calafate (o refúgio dos Kirchners nos fins de semana, na província de Santa Cruz, na Patagônia). Os Kirchners adquiriram o terreno por US$ 34 mil em 2006. Mas, três anos depois, em janeiro de 2009, o venderam por US$ 1,65 milhão. O casal teve um lucro de 4.752% com esse investimento imobiliário, recorde em todo o país.

Suas aplicações financeiras também revelam que os Kirchners supostamente conseguiriam taxas de juros 20 vezes superiores à média de mercado.

Nos últimos anos, as três investigações que foram abertas na Justiça sobre o suposto enriquecimento ilícito dos Kirchners foram arquivadas.

blogcornucopiacesareripa

Outra cornucópia. Desta vez, em “A abundância”, gravura do italiano Cesare Ripa (1555-1622) que integra sua obra “Iconologia overo Descrittione dell’Imagini universali”, livro de extrema influência em sua época.

FLORESCIMENTO - Em 2003 o casal Kirchner tinha um patrimônio oficial de 6.851.810 pesos (US$ 1.747.910, no câmbio atual). Em 2008, um ano após a posse de Cristina Kirchner, o patrimônio havia florescido para 46.036.711 pesos (US$ 11.744.058). Em 2009, no meio do mandato de Cristina (que termina em 2011), o patrimônio do casal Kirchner driblava a crise econômica mundial e acumulava 55.537.290 pesos (US$ 14.167.676).

blog1vinheta91

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

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100Pesos03

Nota de 100 pesos cada vez vale menos. E o governo não pensa emitir uma nota com valor numérico maior, já que nega a escalada inflacionária. Na cédula – que antes comprava muito e agora pouco – o general e presidente Julio Argentino Roca (1843-1914).

blog1dedo2bA efígie de Julio A. Roca, general e presidente argentino do século dezenove e início da vigésima centúria, está desprestigiada, embora decore as notas de 100 pesos, as de maior numeração em circulação no país há duas décadas. Apesar disso, estas cédulas possuem um poder de compra cada vez menor por causa da escalda inflacionária que assola o país. Segundo o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, ao longo da última meia década as notas de 100 pesos sofreram uma desvalorização de mais de 50%. Mas, embora exista a necessidade de notas com maiores números, o governo da presidente Cristina Kirchner – que nega a existência da escalada da inflação – rejeita a ideia de emitir cédulas de 200 ou 500 pesos.

Em 2005 – antes do início da escalada inflacionária – as notas de 100 pesos constituíam 35% do total de notas em circulação na Argentina. Atualmente estas cédulas representam 46% do total do papel-moeda, fato que indica que estas notas estão sendo cada vez mais requisitadas. Cada vez mais o governo emite maior volume de notas de 100 pesos e menos notas de 20 e 50.

Susana Andrada, presidente da Centro de Educação de Consumidores, considera que o Banco Central está tentando evitar a emissão de uma nova nota. Segundo os especialistas, isso implicaria em admitir que o valor da maior nota existente não é suficiente para a maioria das compras realizadas pelos argentinos, e portanto, teria que confessar que a inflação “real” é maior que a “oficial”.

O economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, afirma que desde a crise de 2001 até junho deste ano a Argentina teve uma inflação acumulada real de 244%. Por esse motivo, afirma, o governo “pelo menos poderia emitir uma nota de 200 pesos”. Andrada, defensora dos consumidores, sustenta que a nota de 100 pesos que no ano 2008 um argentino gastava em três dias, “atualmente a gasta em 24 horas”.

blogmoedasargentinas

A moeda de 1 peso, a última à direita, não vale para quase nada. Logo, as colegas que estão à sua esquerda…

blog1dedo2bAs moedas de um peso também estão com sua utilidade comprometida. Cada vez mais, sozinhas, não compram ou pagam nada. Atualmente, com um peso uma pessoa pode pagar uma passagem de trem do bairro de Liniers, na fronteira da cidade de Buenos Aires até a estação de Once, no centro da capital. Além disso, o Estado conferiu em um quiosque na estação de trem de Retiro que uma moeda de um peso apenas pode comprar pequenos doces e unidades de balas e chicletes.

blog1milhaopesosnotaversoeanverso2

Quem quer ser um milionário? O general José de San Martín, em sua versão ‘senior’, na desprestigiada nota de 1 milhão de pesos, emitida no final da última ditadura militar (1976-83). Na época, estas notas foram vendidas nos EUA por um empresário que fez a seguinte publicidade: “Quer ser um milionário? Compre esta nota de 1 milhão de pesos por US$ 10,00! Enviaremos a nota em uma fantástica moldura para que impressione os amigos!”. E falando em “Quem quer ser um milionário”, o irônico “Who wants to be a millionaire”, de Cole Porter. Nesta versão, com Frank Sinatra, no filme do qual também participa Louis Armstrong (o filme é o “High Society”). O link, aqui.

 blog1vinheta58 ‘OFICIAL’ E ‘REAL’ - O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) – organismo sob controvertida intervenção federal há mais de três anos – anunciou que a inflação de julho foi de 0,8%. Na contra-mão, economistas independentes, sindicatos não-alinhados com o governo e associações de defesa dos consumidores, afirmam que a administração Kirchner “maquia” o índice e sustentam que a inflação “real” de julho teria sido de 1,7 a 2%.

Segundo a consultoria Estudio Bein a inflação acumulada nos primeiros sete meses deste ano é de 13,5%. A consultoria Ecolatina calcula a alta em 15,6%. Mas, de acordo com os números do governo anunciados há pouco mais de uma semana, a inflação acumulada desde janeiro seria de 6,7%

Desta forma, a inflação registrada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, ultrapassa as estimativas feitas no Orçamento Nacional de 2010, no qual calculou uma alta de 6,1%.

Os economistas independentes afirmam que a inflação neste ano será superior a 28%.

Mas, na população, a percepção da inflação é mais dramática que a calculada pelos economistas críticos do governo. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Investigação em Finanças da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos esperam uma inflação acumulada de 32,5% para os próximos doze meses.

Enquanto diversos sindicatos conseguirm altas salariais que até quadruplicam a proporção de inflação estimada pelo governo (por via das dúvidas, negociaram nas últimas três semanas altas salariais de até 30%), o discurso oficial da cúpula, isto é, Confederação Geral do Trabalho (CGT) é o de que a inflação argentina é “mínima”.

Segundo Hugo Moyano, secretário-geral da CGT e aliado da presidente Cristina, a atual inflação “está controlada” e “não é prejudicial”.

blog-inflacaoapezieren

Cidadão alemão usa notas com valor implodido pela hiper-inflação dos anos 20 como papel de parede. A foto é do acervo do Bundesarchiv.

blog1dedo2bCUMPRIMENTAM, MAS NÃO COMPRAM - O jornaleiro Juan Carlos Brescia, 60 anos, disse ao Estado que “ri” quando vê os números do governo. “Esses números estão longe da realidade dos trabalhadores”, sustenta, enquanto arruma as revistas em sua banca. “Muitos clientes passam pela frente da banca e dizem ‘oi!’ mas não compram nada por causa da alta de preços”.

Brescia afirma que o aumento de preços e a consequente perda do poder aquisitivo de seus clientes na Recoleta, um bairro de classe média alta e classe alta, provocou uma perda de 50% de suas vendas.

Segundo a Ecolatina, a inflação de 2010 será a maior registrada desde a desvalorização do peso, em 2002, ano em que o índice foi de 40%.

A carne bovina registrou um aumento de 60% no preço desde janeiro. O pão subiu 10% no mesmo período, enquanto que os combustíveis, desde o início deste ano, registraram uma alta de 28% a 40%, dependendo do produto. Neste último caso, na semana passada o governo Kirchner anunciou que aplicará a “Lei de Abastecimento”, de 1974, para punir empresas que aumentem o preço dos combustíveis.

 blogbrescia3a

Assustado com a inflação, Brescia tem um consolo: “os clientes não compram mais como antes… mas pelo menos passam na frente da banca e dizem ‘oi!’ “

blog1dedo2x SENSAÇÃO DE POBREZA – Uma pesquisa do Centro de Economia Regional e Experimental (Cerx) indicou que 72,7% dos argentinos sentem-se “pobres”, já que afirmam que o volume de dinheiro que ganham mensalmente não é suficiente para chegar no fim do mês. A proporção de pessoas que sentem “pobreza subjetiva” – segundo a denominação aplicada pela diretora da Cerx, Victoria Giarrizzo – era de 63,3% no ano passado. Os analistas da consultoria afirmam que por trás desta sensação de pobreza está a crescente inflação.

QUEIJO, OBJETO DE COBIÇA: Neste link, do jornal Perfil, detalhes sobre a cobiça que os cada vez mais caros lácteos estão despertando no nicho profissional dos ladrões. Aqui.

blog1vinheta78

blog1vinheta67 FANTASMA DA INFLAÇÃO ASSOMBRA ARGENTINOS HÁ QUATRO DÉCADAS

 bloglandruonganiaTia vicenta

General e ditador Juan Carlos “La Morsa” Onganía começou a moda de cortar zeros. De lá para cá 20 presidentes e 43 ministros da economia tentaram combater espiral inflacionária. Charge do irônico Landrú, cartunista que despertou a ira do militar.

 

blog1mao2bOs economistas ressaltam que entre 1890, quando foi instituído o “peso nacional”, até o “peso lei” do final dos anos 60, a Argentina teve estabilidade financeira. Mas, em 1969 o então presidente e ditador general Juan Carlos Onganía decretou a primeira lei que eliminou zeros das notas de pesos, com o intuito de dissimular a escalada inflacionária. De lá para cá, as notas argentinas perderam treze zeros.

Nestes últimos 41 anos o país foi assolado de forma persistente pelo fantasma da inflação, contra o qual tentaram lutar, com escassos resultados, os 20 presidentes que passaram pela Casa Rosada – o palácio presidencial – e os 43 ministros da Economia que ocuparam a pasta.

Em 1989 a Argentina teve sua primeira hiperinflação, que chegou a 4.923,6%. A espiral inflacionária levou Alfonsín à renúncia seis meses antes do fim programado de seu mandato.

Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99), tentou de forma errática diversas fórmulas econômicas. O resultado foi um segundo período hiperinflacionário, que chegou a 1.343,9% em 1990.

Nos anos 90, a conversibilidade econômica – que estabelecia a paridade um a um entre o dólar e o peso – apesar dos problemas que trazia em seu bojo, foi respaldada com entusiasmo pelos argentinos, que depois de décadas viam finalmente um período de inflação zero (e até de deflação.

Mas, a conversibilidade naufragou em dezembro de 2001. A inflação só não voltou a galopar de forma imediata porque a economia estava estancada e o poder de compra era quase nulo. Mas, a economia recuperou-se a partir de 2003. E a inflação voltou a aparecer.

Economistas, associações de defesa dos consumidores, empresários e sindicatos afirmam que o casal Kirchner, sem sucesso para deter a inflação, camufla os índices elaborados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Em sarcástica alusão à persistência da inflação na economia argentina, Roberto Dvoskin, professor da Universidade de San Andrés e ex-secretário de Comércio, afirma: “a Argentina é alcoólica em relação à inflação. E o alcoolismo não se cura… administra-se!”.  

blogongania1

O ‘La Morsa’ original, J.C.Onganía, militar que – segundo as más línguas – não era famoso por contar com muitas sinapses em sua massa cinzenta.

 blog1vinheta71O desejo incontrolável de escrever “zeros”, aqui.

blog1vinheta71bE um artigo da Times, de 1923, sobre o assunto, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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 chess

O jornalista argentino Rodolfo Walsh jogava placidamente xadrez quando uma informação interrompeu seu jogo, mudando a História do jornalismo argentino. Walsh, que  é um  marco no jornalismo investigativo argentino, poderá ser lido a partir do final de setembro pelos brasileiros graças ao lançamento no Brasil, pela primeira vez, dos livros “Operação Massacre”(Companhia das Letras)  e “Essa mulher e outros contos” (Editora 34).

blog1dedo2bNo final do ano de 1956 Rodolfo Walsh estava jogando xadrez em um café na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires. Naquele bar – afirmaria tempos depois o próprio Walsh – falava-se mais nos enxadrista Paul Keres e Aron Nimzovitch do que sobre o general Pedro Aramburu ou o almirante Isaac Rojas – autores do golpe militar contra o presidente Juan Domingo Perón um ano antes – e a única manobra militar que tinha alguma fama no recinto era o “ataque baioneta” de Carl Schlechter na abertura siciliana, uma modalidade no tabuleiro de xadrez. Mas, inesperadamente, quando todos estavam concentrados nas jogadas, um dos habitués disparou uma informação lacônica: “há um fuzilado que está vivo”.

O vivo que deveria estar morto era uma das pessoas fuziladas de forma clandestina (e sem julgamento prévio) em junho daquele ano no lixão de León Suárez, um município da Grande Buenos Aires. Ali, dezenas de militares e civis peronistas – liderados pelos generais Juan José Valle e Raúl Tanco na fracassada rebelião contra o governo militar – haviam sido massacrados. No entanto, alguns deles – embora gravemente feridos – haviam sobrevivido e estavam escondidos.

Nunca antes uma interrupção em um jogo de xadrez teve tal repercussão para a História do jornalismo argentino. Walsh deixou os peões e o rei de lado e investigou os massacres.

As detalhadas reportagens, que tiveram grande impacto na opinião pública e desacreditaram os militares envolvidos no massacre, foram publicadas no jornal “Mayoría”. Na sequência, as matérias foram compiladas em formato de novela e publicadas como livro com o título de “Operação Massacre”. O subtítulo que Walsh colocou foi: “Um processo que não foi clausurado”.

A obra, que aplica procedimentos do gênero novela ao relato de fatos verdadeiros, antecipando em vários anos ao “New Journalism” (um dos marcos do Novo Jornalismo, ‘A sangue frio’, de Truman Capote, é de 1966) foi uma das primeiras novelas de “não-ficção” em castelhano. O estilo de Walsh, que já tinha vasta experiência no jornalismo policial, marcou gerações de jornalistas argentinos.

rodolfowalsh

Walsh nasceu em 1927 no vilarejo de Lamarque, no município de Choele Choel, província de Río Negro, Argentina. Ele morreu em março de 1977.

blog1dedo4cEm 1959 Walsh foi para Cuba, onde havia triunfado a revolução de Fidel Castro. Ali, entrou para a recém-criada agência de notícias “Prensa Latina”, da qual também participou o escritor colombiano e posterior Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez. No entanto, poucos anos depois Walsh retorna a seu país.

Em 1966 escreve o conto “Essa mulher”. O relato, que tem como epicentro o cadáver embalsamado da mítica Evita Perón (sem citá-la, no entanto), é uma conversa entre o jornalista e um coronel que está por trás do sequestro do corpo da “mãe dos pobres”.

Em 1970 Walsh começa sua atividade política de resistência aos governos militares junto com a organização guerrilheira cristã-nacionalista “Montoneros”. Seu nome de guerra tinha um toque irônico, “Professor Neurus”, em alusão ao desenho animado de mesmo nome, um cientista maluco que utilizava óculos de grossas lentes como ele.

Com o início da última ditadura, iniciada em 1976, Walsh criou uma rede de informação que operava de forma secreta, a Agência de Notícias Clandestina (Ancla). No dia 25 de março de 1977 Walsh colocou nas caixas de correio na área do Congresso Nacional os envelopes que continham sua “Carta aberta de um escritor à Junta Militar”, enviada às principais redações do país, na qual denunciava os assassinatos de milhares de civis e a criação de campos clandestinos de detenção e tortura.

Walsh estava na esquina das avenidas San Juan e Entre Ríos quando um grupo de militares da Escola de Mecânica da Armada (Esma), o maior centro de torturas da capital argentina, controlado pela Marinha, o encontrou. Um dos oficiais, posteriormente relatou: “acabamos com Walsh. O filho da p… se entrincheirou atrás de uma árvore e se defendia com uma 22. O c… com tiros, mas o filho da p-…não caía!”.

Outros relatos indicam que Walsh – à beira da morte, sangrando abundantemente, com o tórax quase partido pelos tiros – foi colocado dentro da viatura militar e levado à Esma. Seu corpo nunca foi encontrado.

blogcarnewalsh

Credencial de jornalista de Rodolfo Walsh

blog1dedo4cO escritor Osvaldo Bayer, autor do prólogo que a edições argentinas de “Operação Massacre” tiveram após a ditadura, afirmou que Walsh “teve um compromisso (político) e o levou até o final”.

“Ele me disse que estava orgulhoso de ser combatente, pouco antes de morrer”, relatou há poucos anos a filha do jornalista, Patricia Walsh, ex-deputada de esquerda.

Em outubro de 2006 doze militares acusados de envolvimento na morte de Walsh foram detidos. Os oficiais estão atualmente sendo julgados pelo assassinato do jornalista.

blog1vinheta62 Aqui, um link com um trecho do filme “La Hora de los Hornos”, do então jovem diretor Fernando ‘Pino’ Solanas. Nesse trecho está o depoimento de um dos sobreviventes dos fuzilamentos de León Suárez, uns anos depois da publicação do livro de Walsh. O link, aqui.

 blogxadrez

“Os jogadores de xadrez”. Quadro de Honoré Daumier (1808-18079). Está no museu do Petit-Palais, Paris.

blog1vinheta71ESTILO – O jornalista Rogelio García Lupo – amigo de adolescência, companheiro de militância política na juventude e colega de trabalho de Walsh em Cuba e na Argentina – afirmou ao Estado que seu falecido amigo destaca-se mais de três décadas após sua morte “pela qualidade do texto…e essa é a marca do autor”. García Lupo, de 79 anos, sustenta que “a qualidade estilística de Walsh permanece apesar do tempo transcorrido”.

García Lupo e Walsh divergiam sobre a implementação da revolução à moda cubana na Argentina. “A analogia com nosso país era um erro grave. Isso era um suicídio, e ficou demonstrado. Mas, enfim, eram decisões pessoais”, diz e suspira em sinal de lamento pelo amigo falecido.

“Meses antes de sua morte havíamos perdido contato. Ele o fez por razões de segurança para mim, já que eu não estava implicado com a aventura da guerrilha de montoneros. De vez em quando eu recebia alguma mensagem dele. Fiquei sabendo de seu assassinato uns dias ou semanas depois que havia ocorrido”. 

blog1vinheta71DISFARCE E VERDADE – “O estilo preciso de Walsh fica claro em seu derradeiro texto, o ‘Carta aberta à Junta Militar’ ”, afirma ao Estado o jornalista Carlos Ulanowsky, autor de diversos livros sobre a História do jornalismo argentino, entre eles, o “Parem as rotativas”.

A “carta aberta” inclui uma longa lista dos crimes contra a Humanidade cometidos pela ditadura militar em seu primeiro ano. “Não é panfletário. É um texto de uma densidade informativa impressionante”, afirma.

“A todos nós, jornalistas, nos ensinaram que era preciso trabalhar com a verdade, que esse era o capital principal do jornalismo. No entanto, Walsh, em diversas investigações, disfarçava-se, tal como o alemão Günter Wallraff, que escreveu ‘Cabeça de turco’, diz Ulanowsky.

“Ele não vacilava em ser outro para buscar a verdade. De fato, quando Walsh foi encontrado pelos militares que o assassinaram na rua, ele estava vestido como um ancião, como se tivesse 25 anos a mais…Tenho um grande respeito pela enorme valentia desse cara”.

blog1vinhetas5

blog1anotacaostylus3DETALHES

Sobre o Novo Jornalismo, mais detalhes, aqui.

Sobre Wallraff, mais detalhes, aqui.

E sobre o livro de Wallraff, o “Ganz Unten”, ou “Cabeça de Turco” (nome do livro no Brasil), mais detalhes aqui.

Sobre um dos emblemas do Novo Jornalismo, o artigo “Frank Sinatra está resfriado”, alguns detalhes, aqui.

E aqui, para encerrar, uma entrevista publicada no jornal “El Pais”, de Madri, com o jornalista peruano Julio Villanueva Chang, fundador da revista “Etiqueta Negra”, amigo meu e pessoa com a qual as conversas sempre são saborosas. Aqui.

blogojogodexadrezBargue

O jogo de xadrez, de Charles Bargue (1825-1883)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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 blogSimone_Martini3

Argentinos possuem US$ 148 bilhões nos colchões e fora do país. Dinheiro fora do sistema financeiro e investimentos empresariais diretos no exterior equivalem a 60% do PIB. No colchão acima, São Martim de Tours (316-397) dormindo profundamente (embaixo do colchão, umas misteriosas grandes caixas). A obra, que está na capela de São Martim,na igreja de São Francisco, em Assis, Itália, é “O sonho de São Martim”, pintada entre 1312 e 1317 por Simone Martini (1284-1344), um dos grandes pintores do ‘trecento’ italiano (e o mais famoso no domínio da cor). É impressionante o detalhe das dobras da colcha (quem quiser ver mais minúcias da ilustração, clique para ver uma versão ampliada, aqui). São Martim de Tours, coincidentemente, é o patrono da cidade de Buenos Aires (e como ele se transformou no patrono portenho,bom… essa é uma história divertida que vale a pena contar em outra postagem, mais especificamente, no dia 11 de novembro, que é o dia deste santo).

blog1dedo2bOs colchões – este magnífico invento do Neolítico que foi brilhantemente aperfeiçoado pelos árabes antes das cruzadas – são o símbolo do dinheiro em lugar seguro. Eles foram um dos diversos esconderijos que os argentinos utilizaram ao longo das últimas décadas para resguardar suas economias. Desconfiados dos governos de plantão (que volta e meia realizavam confiscos) e dos bancos instalados no país (que volta e meia fechavam suas portas, deixando os correntistas na mão), os argentinos acumularam grande parte do dinheiro não somente nos colchões, mas também em caixas de segurança, latas de conservas, o interior de livros (entre várias outras modalidades de esconderijos caseiros), além de instituições financeiras no exterior.

A Argentina conta com 67 bancos em todo o território nacional. Deste total, 12 bancos são públicos, enquanto que os outros 55 são particulares. O sistema financeiro argentino possui com 4.065 filiais bancárias, com apenas 10.700 caixas eletrônicos.

Segundo estimativas da city financeira portenha, o grau de bancarização dos argentinos é um dos mais baixos do ocidente. O volume de créditos representa somente 14,7% do PIB (enquanto que a média da América Latina é de 33%). A desconfiança no sistema financeiro é evidenciada por este dado: 53% das famílias do país não operam com banco algum.

blog1dedo2x Dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) indicam que em 2009 o total acumulado pelos argentinos fora do sistema bancário nacional alcançou US$ 148 bilhões, volume que constituiu um recorde histórico.

O volume de dinheiro acumulado fora do sistema pelos argentinos equivale a quase três vezes o volume que compõe as reservas do Banco Central do país, de US$ 50 bilhões.

O ex-secretário de Fazenda, Mario Brodersohn, sustenta que o elevado índice de risco do país da Argentina, atualmente em 683 pontos básicos, significativamente superior ao do Brasil (197 pontos) e do México (131), pode ser explicado em grande parte pela fuga de capitais que caracteriza a Argentina.

Além do dinheiro nos colchões ou nos bancos no exterior que os cidadãos argentinos possuem, as empresas deste país contam com um total de US$ 29,44 bilhões em investimentos diretos privados no exterior.

Desta forma, o total dos investimentos de empresas no exterior e o dinheiro que os argentinos possuem fora do sistema alcança a faixa de US$ 177 bilhões. Isso equivale a 60% do PIB argentino.

Embora o ato de colocar o dinheiro fora do país e nos colchões seja um clássico há tempos, essa tendência acentuou-se desde a crise de 2001, ano em que o país afundou no caos social, na disparada da pobreza e no descalabro financeiro. Na época, os argentinos tinham um total de US$ 81,87 bilhões fora do sistema, pouco mais da metade que possuem atualmente.

Diversos economistas sustentam que a crise só não foi mais dantesca graças ao dinheiro que os argentinos tinham fora do alcance do governo nos esconderijos caseiros e no exterior. O dinheiro de vastos setores da classe média, resguardados em bancos uruguaios, retornou gradualmente ao país, permitindo a injeção de cash na colapsada economia argentina da época.

blogpoderosochefao

Don Vito Corleone, isto é, Marlon Brando, protagonista de “O Poderoso Chefão”. “To go to the mattresses” era a modalidade preferida de Don Corleone e seu filho Sonny.

blog1dedo4baixo

ROMANOS, ÁRABES E O MARIO PUZO - Em diversas partes do planeta também usa-se a figura do colchão como uma quantia de dinheiro que serve de resguardo para imprevistos ou como base para um investimento.

A palavra em português e em espanhol vem do latim “culcita”, que significa colcha ou lugar para deitar. Dali vem o verbo francês “coucher” (deitar ou ter sexo).

Em outros idiomas, como o inglês (mattress), o francês (matelas), o alemão (matratze), o italiano (materasso) e o russo (Матрас) a origem da palavra provém do árabe máʈraħ (مطرح ), que significa lugar onde se joga alguma coisa (que deriva do verbo طرح (pronuncia-se araa, isto é, “jogar”).

No romance “O Poderoso Chefão” (The Godfather, de 1969) o escritor Mario Puzo cita a expressão mafiosa “to go to the mattresses” (ir aos colchões), como equivalente a ir para a guerra, usar táticas rudes, agira sem limites.

- I want Sollozzo. If not, it’s all-out war. We’ll go to the mattresses.

(Quero o Sollozzo. Se não for assim, será guerra total. Nós iremos aos colchões)

blogisabelita-longa

Isabelita Perón, ex-dançarina de cabaré no Panamá transformada em vice-presidente e posteriormente em presidente da Argentina, levou o país ao primeiro grande descalabro econômico de sua História. O primeiro de uma série de descalabros. Isabelita atualmente reside confortavelmente nas redondezas de Madri.

blog1vinheta55b COLCHÕES REQUISITADOS! “EL RODRIGAZO”, O DÉBUT DOS AJUSTES E DESCALABROS ECONÔMICOS –  Há 35 anos, no dia 4 de junho de 1975, o então ministro da Economia, Celestino Rodrigo, anunciou um pacote de medidas que causou o primeiro grande colapso econômico e financeiro que o país sofria desde a crise mundial de 1929. O pacote – “El Rodrigazo” – implicou em uma desvalorização de 160% da moeda, aumentos de 100% das tarifas de serviços públicos, entre outras controvertidas medidas.

Em seis meses, a inflação escalou 183%, enquanto protestos sociais, sindicais e políticos alastravam-se. A presidente Isabelita Perón perdeu respaldo e foi derrubada por um golpe militar oito meses depois.

Coincidentemente, de 1975 para cá o país teve uma grave crise econômica a cada sete anos. Em 1982, a Guerra das Malvinas gerou um descalabro financeiro que levou à uma nova crise que afundou o país em uma inflação de mais de 300%.

A seguinte grande crise ocorreu em 1989, com a hiper-inflação do final do governo do presidente Raúl Alfonsín, que passou de 5.000%. A pobreza disparou, junto com saques em massa a comércios.

Quase sete anos mais tarde, em 1995, o país foi duramente afetado pela crise mexicana, enquanto tentava de todas formas manter a conversbilidade econômica. Esta acabou com a seguinte crise, a de 2001-2002, quando o governo do presidente Fernando De la Rúa caiu no meio do caos social e financeiro. A pobreza, que estava na faixa dos 28%, disparou a 57%. O desemprego, de 17%, subiu para 28%. O PIB em 2002 despencou 11%.

O país entrou novamente em problemas em 2008, meses antes da crise mundial. O estopim, desta vez, foi o confronto do governo com o setor ruralista, o crescimento do gasto público, a escalada inflacionária e a retomada do crescimento da pobreza, que passou de 20% em 2006 para 30% (segundo a Central dos Trabalhadores Argentinos e diversas consultorias econômmicas) ou 40% (segundo a Igreja Católica).

blogcolcaoHenri_de_Toulouse-Lautrec

Em meio às turbulências das políticas econômicas dos governos de plantão nem sempre é possível dormir placidamente como neste quadro do batutésimo Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). É o “Dans le lit” (Na cama), de 1893. Exposto no Musée D’Orsay, Paris.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
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blogetiqueta_mayol

O escritor espanhol Manuel Mayol, quando residia na Argentina nas primeiras décadas do século XX, saía com frequência para noitadas embaladas pelo tango. Para o caso de ser encontrado inconsciente devido à ingestão de significativo volume de etílicos, pedia a quem o visse nesse estado que amarrasse na lapela de seu paletó o cartão acima, que tinha a legenda: “ESTOU DE FARRA – Suplico à pessoa que me encontre ‘en pedo’ (bêbado), amarrar esta etiqueta na casa do botão de meu paletó. ENVIE-ME PARA CASA. Nome: Mayol, Manuel. Endereço: Av. de Mayo 1334 – 3-10. Por favor, não bata na porta, mas sim, toque a campainha e espere que me recebam”. Mayol era o editor da principal revista argentina da época, a “Caras y Caretas”.

blog1dedo2b“Sacar viruta al piso” (tirar lascas do chão) – uma das mais típicas expressões do tango para indicar o frenesi pela dança – marca o espírito que promete tomar conta de Buenos Aires nas próximas duas semanas, já que nesta sexta-feira iniciou o “Tango Buenos Aires, Festival e Campeonato mundial”.

Esta oitava edição do evento contará com shows de dança, apresentações musicais, além de conferencistas que dissertarão sobre as origens, presente e futuro deste ritmo musical que o escritor argentino Jorge Luis Borges costumava definir como “uma forma de caminhar pela vida”.

Mais de 430 casais da Argentina, outros países da América do Sul, Europa e Ásia demonstrarão seus talentos tangueiros neste festival, que concentrará a nata dos dançarinos do tango mundial até o 31 de agosto, dia do encerramento.

As apresentações de dança estarão divididas entre o “tango cenário” (estilo de tango com coreografia elaborada para shows) e o “tango salão” (o tango tradicional, dançado nos salões das tanguerías ou milongas).

blogmilonga

Foto do festival do ano passado. Público ’saca viruta del piso’ durante festival de tango (Crédito: prefeitura da cidade de Buenos Aires)

O Buenos Aires tango contará com 150 shows e atividades gratuitas, entre concertos de tango, shows de dança, conferências, aulas de tango (uma das professoras será uma das estrelas atuais, a dançarina Mora Goodoy) e ciclo de cinema sobre esse ritmo do rio da Prata. Os organizadores afirmam que a ambição é superar a faixa de 300 mil participantes do ano passado.

As finais do campeonato de tango salão e tango cenário serão realizadas nos dias 30 e 31 de agosto no Luna Park, em pleno centro portenho.

O link oficial do Festival de Tango, aqui.

TANGO, DAS ORIGENS AFRICANAS AO TECHNO

Tango platino: O ritmo surgiu às margens do rio da Prata nos bairros dos ex-escravos africanos em Buenos Aires e Montevidéu ao redor de 1850. Na três décadas seguintes foi absorvido pelos argentinos não-africanos, que incorporaram o violão ao ritmo. No final do século dezenove estava totalmente transformado com as influências dos imigrantes italianos, que incluíram o piano, a flauta e o violino. Na mesma época, graças aos imigrantes alemães, entrou em cena o bandoneón. A partir do século vinte tornou-se a música-símbolo da Argentina e do Uruguai. É também um ritmo popular na distante Finlândia, onde o tango chegou com força na década de 20 e desenvolveu-se de forma independente. Para mais detalhes sobre a origem do tango, veja esta postagem, aqui. 

E outra postagem, sobre como continuou o caminho do tango, aqui.

Carlos Gardel: Os argentinos e os franceses afirmam que nasceu em Toulose, França, e migrou com sua mãe para a Argentina aos três anos de idade. Os uruguaios afirmam que Gardel nasceu no interior do Uruguai, na cidade de Tacuarembó. Em seu documento de identidade Gardel se apresenta como nascido no Uruguai. Mas, o próprio Gardel, em seu testamento, afirma que é francês de nascimento. No meio deste imbroglio de informações, a única certeza sobre sua vida pessoal (no que concerne à nacionalidade e preocupações afins sobre passaportes) é que ele passou sua infância, adolescência e parte da vida adulta em Buenos Aires, portanto, “portenho” de criação. E além disso, que morreu em 1935 em um acidente de avião na Colômbia. Seu corpo está enterrado no cemitério portenho de La Chacarita. Para mais detalhes sobre Gardel, esta postagem do ano passado, aqui.

Le Pera, o ítalo-brasileiro-argentino: As letras de maior sucesso de Gardel foram compostas por seu parceiro Alfredo Le Pera, nascido no Brasil, filho de imigrantes italianos (mas, criado desde os três meses de idade na Argentina).

Astor Piazzolla: Este bandoneonista, nascido na cidade de Mar del Plata, que morou parte da infância em Nova York (onde conheceu Carlos Gardel), renovou o tango a partir dos anos 50 (mas com mais ênfase a partir dos 60). Foi a principal corrente de renovação do tango até o surgimento do tango techno. Para mais detalhes de uma das mais famosas melodias de Piazzolla, o “Balada para um loco”, aqui.

Tango techno: Ritmo que renovou o tango. O gênero cresceu em meio à crise social e econômica de 2001-2002. Um dos principais expoentes é o grupo “Bajofondo” e o “Gotán Project”.

Milongas: “Milonga” é um ritmo de tango acelerado, com raízes africanas mais evidentes. No entanto, como estabelecimento, “milonga” significa lugar onde se dança o tango. Exemplo: “ontem à noite fui dançar em uma milonga no centro”.

Consumo: Autoridades portenhas e especialistas afirmam que apesar do tango ser um dos principais símbolos da Argentina no imaginário dos visitantes estrangeiros, ele é consumido por uma faixa que oscila dos 25% aos 30% de habitantes do país. 

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Jorge Luis Borges. Segundo ele, o tango “é uma forma de caminhar pela vida”.

LETRAS DE TANGOS, OS ASSUNTOS TOP FOUR (breve guia):

La Pebeta: La pebeta, a garota. A mulher amada. Ou aquela pela qual estamos inexoravelmente atraídos. Sempre está na nas letras. E em boa parte das canções, ela deixa os protagonistas. O tango “Percanta”, em uma versão techno, aqui.

La vieja, viejita: A velha, a velhinha. Ora, a mãe. Mãe é sempre sagrada. Mas no tango, mais ainda. Sempre trabalha para dar tudo aos filhos. E os filhos, nem sempre percebem isso. Ou percebem quando já são marmanjos. O famoso tango “Silêncio”, aqui.

La barra, los muchachos: A turma, os rapazes. Os amigos de toda a vida. Em “Cafetín de Buenos Aires” os amigos estão muito presentes. Um link do Youtube sobre este tango, aqui.

El barrio: O bairro. O lugar onde os protagonistas nasceram e passaram boa parte de suas vidas. É quase um ‘feudo’ no qual transcorrem as letras. Ou, em vários casos, os tangos transcorrem em outra parte do planeta…mas, sempre chora-se a saudade do bairro. Sobre o amor por um bairro, “Barrio de Tango”, aqui.

Buenos Aires: Buenos Aires é assunto de muitos tangos. É a cidade comme il faut desse ritmo musical. Não é à toa que “Mi Buenos Aires querido” é um dos tangos mais famosos. Mas, o meu preferido, neste caso, é “Anclao en Paris”, no qual o intérprete fala sobre B.Aires, desde a capital francesa. Um link do Youtube com este tango, aqui.

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Rodolfo Mederos, um dos artistas do ano passado, que também estará presente no festival que começou sexta-feira.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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 blogtouro-toro-picasso1945-b

Uruguaios acabam de ocupar a pole position mundial de consumo de carne bovina per capita. Argentinos, os maiores ‘carnívoros’ da turma de Homo Sapiens durante mais de um século, ficaram sem segundo lugar no pódio da bovinofagia. Acima, um exemplar de Bos taurus, simpático e apetitoso integrante da família dos Bovidae. O ‘bos’aqui ilustrado é do espanhol Pablo Picasso (gravura de 1945).

blog1dedo2b“Os argentinos são carnívoros por excelência”. Esta era o argumento oficial do Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina da Argentina até o ano passado. Motivos havia de sobra para isso, já que comer carne bovina praticamente definiu o modus vivendi dos argentinos durante o século vinte e no início desta centúria, quando foram os maiores “carnívoros” do planeta. Em 1969 os habitantes deste país chegaram ao consumo recorde mundial de 100 quilos per capita por ano de carne. Embora o volume tenha caído nas décadas seguintes – por diversificação alimentícia, temores ao colesterol e perda do poder aquisitivo – os argentinos continuaram ostentando as principais marcas mundiais, muito acima de outros países. No entanto, a Argentina – a emblemática terra do ‘bife de chorizo’ – acaba de perder a pole position mundial no consumo de carne bovina.

BOVINÓFAGOS EM RECUO - Segundo a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes da Argentina (CICCRA) o consumo de carne bovina per capita caiu dos 68, 1 quilos registrados em 2009 para uma média de 56,7 quilos nos primeiros seis meses deste ano.

Desta forma, o primeiro posto no pódio passou para o vizinhos uruguaios. Beatriz Luna, assessores de imprensa do Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (INAC) disse ao Estado que o consumo per capita de carne bovina no Uruguai neste ano é 58,2 quilos, isto é, um quilo e meio a mais do que os argentinos.

Por trás da queda do consumo da carne bovina na Argentina – 16,7% em relação ao ano passado – está o sideral aumento dos preços, de 60%, registrado desde janeiro deste ano. Esse aumento acumula-se à alta de 180% entre janeiro de 2007 e dezembro de 2009.

blogvangogh-vacasj1890

Os quadrúpedes estão aqui ilustrados pelo holandês Vicent Van Gogh.

blog1dedo4cCONFLITO - Os produtores acusam os governos do ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa e sucessora, a presidente Cristina Kirchner, de torpedear a produção de carne bovina por intermédio da imposição de um controle de preços a partir de 2006.

“O governo aplica uma política anti-pecuarista elaborada por um incompetente funcionário”, afirmou a Ciccra nesta semana em um comunicado que faz alusões indiretas ao secretário de Comércio, Guillermo Moreno, conhecido no Brasil por ordenar verbalmente proibições contra a entrada de alimentos não frescos importados.

Em meio ao conflito que mantém há vários anos com os produtores agropecuários, a presidente Cristina retruca as críticas dos ruralistas, chamando-os de “golpistas” e de pretender “lucros abusivos”.

Ambas administrações Kirchners aplicaram uma controvertida redução das exportações com o objetivo de redirecionar o produto para o mercado interno, e assim, forçar a queda de seu preço. No entanto, segundo a CICCRA, “apesar da intervenção estatal para garantir o abastecimento doméstico e controlar os preços da carne, a queda da oferta de gado provocou uma escalada de preços ao consumidor desde o início de 2010”.

Sem estímulo, os pecuaristas estão investindo menos no setor. Segundo a CICCRA, o abate registrou em junho uma queda de 30,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado. No primeiro semestre de 2010, a redução do abate foi de 22,4% em relação ao mesmo período de 2009.

asado

Um típico ‘asado’ em pleno Pampa. Esta cena ainda é muito frequente. Mas, cada vez menos.

blog1dedo4cDE EXPORTADOR A PAÍS IMPORTADOR - As exportações argentinas registraram uma queda de 41,9% em volume. Das 274.497 toneladas exportadas no primeiro semestre de 2009, no período janeiro-junho deste ano as vendas ao exterior caíram para 159.366 toneladas. O governo afirmou que – para impedir maiores altas de preços no mercado interno – impedirá que as exportações passem de 400 mil toneladas em 2010.

A queda das exportações em valor foi de 20,9%, passando de US$ 732,5 milhões na primeira metade de 2009 para US$ 579 milhões no primeiro semestre de 2010.

A perda argentina da pole position no ranking mundial de consumo de carne – e a queda da produção interna – está sendo acompanhada da importação de carne do Uruguai. Segundo o INAC, a Argentina é um bom nicho para colocar a carne uruguaia”.

blognoemestrefrances

Noé, famoso neto de Matusalém e supostamente o construtor do primeiro transatlântico. E além disso, carnívoro com a permissão divina. “Tudo que vive e se move vos servirá de comida” (Gênesis 9:3-6, de acordo com a tradução da Bíblia pela Editora Vozes) teria dito Deus a Noé. Acima, quadro do pintor conhecido como Französischer Meister (O Mestre Francês), de 1675. O quadro está exposto em Budapeste, no Magyar Szépmüvészeti Múzeum.  

blog1dedo4cDA VACA AO LEITÃO E AO FRANGO (o torresmo no leito presidencial) - “Neste país, os vegetarianos são uma raridade” afirma ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938.

No entanto, perante o aumento dos preços da carne bovina, a própria presidente Cristina envolveu-se pessoalmente em uma campanha para tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribuindo-lhe poderes afrodisíacos, que, segundo disse, comprovou com seu próprio marido em um fim de semana de arromba em El Calafate, província de Santa Cruz, após degustar um leitão da província de Córdoba (*). Além disso, Cristina Kirchner também alardeou os valores da carne de frango para as mulheres argentinas que pretendem fazer regime.

* Na prática, o casal Kirchner violou a lei, já que as normas fitossanitárias argentinas impedem que a carne de leitão produzida em Córdoba possa entrar na zona sul do país, isto é, a Patagônia.

blogcuatro-vacas-gordas2

As vacas, presentes até no nome de um vinho argentino, o “Quatro vacas gordas”.

blog1vinheta55b GAÚCHOS, OS MAIS CARNÍVOROS DO BRASIL - O volume uruguaio e argentino é substancialmente superior ao consumo brasileiro, onde a ingestão é de 36 quilos anuais. No entanto, a proporção sobre no Estado mais “carnívoro” da federação, o Rio Grande do Sul, com 46 quilos por ano.

blogvacanota1869

Nota de cinco pesos emitida em 1869 pela província de Buenos Aires. A efígie é a de algum herói da independência ou de um caudilho do momento? Que nada! A homenageada é a vaca, essa heroína nacional.

blog1vinheta55b PONTOS BÁSICOS SOBRE OS ARGENTINOS E SEU QUITUTE NACIONAL, A CARNE

- As primeiras vacas que entraram na Argentina, em 1580, vieram do Paraguai. Estas – sete vacas e um touro da raça holandesa – haviam vindo da Espanha em 1555, atravessando o estado brasileiro de Santa Catarina, levadas aos pastos paraguaios pelos irmãos portugueses Scipião e Vicente Góes.

- Em 1969 o consumo de carne bovina per capita argentino chegou a seu recorde, de 100 quilos anuais.

- Ao longo do século vinte a carne e o trigo foram símbolos da Argentina no mundo.

- Ao longo do século vinte, as crianças argentinas não escreviam a clássica redação “Minhas Férias” (como ocorria no Brasil). A redação por excelência era “La Vaca” (A Vaca), na qual o quadrúpede era exaltado pelos estudantes por sua carne e couro, como fonte da riqueza argentina. 

- Em 2002, no meio da maior crise da História argentina, o consumo foi de 51 quilos per capita (o mais baixo desde 1914, ano em que o consumo começou a ser medido).

- Política do governo Kirchner com setor pecuário provocou alta de preços e queda drástica de consumo do principal quitute gastronômico argentino.

- Consumo per capita argentino em 2009 foi de 68,1 quilos, o mais alto do mundo. Nos primeiros seis meses deste ano despencou para 56,7 quilos.

- Uruguaios ostentam atualmente a pole position do consumo de carne mundial, com 58,2 quilos per capita.

blogtourocreta

Touro, tão adorado em Creta que até surgiu ali a lenda do Minotauro. Mural no palácio de Cnossos.

blog1dedo2bE O BOI SUBIU NO TELHADO… : “O boi no telhado” não tem nada a ver com o emblemático e anônimo felino sempre citado no Brasil que subiu no teto da casa como prenúncio de problemas. Não. Sequer é uma pálida alusão. Bos taurus de um lado, os Felis silvestris catus de outro.

Neste caso trata-se de uma animada melodia do batuta compositor francês Darius Milhaud (1892-1974. Na verdade, trata-se de uma desculpa minha para falar sobre Milhaud, já que estamos falando de bifes, bois e vacas. “Le boeuf sur le toit” (O boi no telhado) é uma das mais conhecidas composições de Milhaud, que foi adido na Embaixada da França no Rio de Janeiro entre 1917 e 1919. Ele voltou para a França empapado de ritmos sul-americanos, principalmente brasileiros. Em 1922 foi aos EUA, onde também absorveu os ritmos do jazz.

Le boeuf sur le toit (O boi no telhado) com o “AlmaViva Ensemble”, em apresentação em Paris. O link do Youtube, aqui.

O “AlmaViva Ensemble” foi criado em 2003 por um grupo de músicos argentinos radicados na França. O site do grupo, dedicado à música de câmara latino-americana (ou com um touch latino-americano, como o caso de Milhaud), aqui.

E o AlmaViva, neste vídeo, tocando “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla. O link, aqui.

E voltando à vaca fria, isto é, ao boi, de brinde, um detalhado ensaio de Daniella Thompson sobre como o boi foi parar em cima do telhado. Aqui.

blogDariusMilhaud

Darius Milhaud, com plácido olhar bovino. O autor de “Le boeuf sur le toit”.

blog1vinheta55b VACAS E BATMAN. E O GATO QUE NÃO SUPORTA LA ‘RADICIAÓN’ - E já que estamos em ritmo bovino, Alfredo Casero, em canção na qual faz paródia das visitas à feira da Sociedade Rural, um dos passeios top tem do inverno portenho. Aqui.

Casero foi citado no ano passado na postagem sobre o batman portenho, o “Juan Carlos Batman”. Aqui.

E além disso, uma paródia de Casero sobre a bossa nova, “O Gato não suporta a radiação”. Em portunhol, comme il faut, com legenda em espanhol… aqui.

blog1dedo4cAPOLOGIA INFANTIL DA VACA LEITEIRA – Gaby, Fofó e Miliki formaram o trio de cômicos infantis que teve descomunal sucesso na América Latina e na Espanha entre os anos 40 e 80. Em 1946, os três irmãos deixaram a Espanha arrasada pela guerra civil e controlada pelo franquismo e partiram em exílio voluntário para Cuba (onde participaram das primeiras transmissões de TV da ilha) e México.

Em 1970 instalaram-se na Argentina (país para onde voltaram várias vezes). Em 1972, com o início do fim do regime de Franco, voltaram à Espanha.

Gaby, Fofó, Miliki (e Fofito, um dos filhos, neste vídeo) cantam “La vaca lechera” (A vaca leiteira), um hit parade das canções infantis durante mais de meio século no mundo hispano-falante. O link, aqui.

A letra:

Tengo una vaca lechera,

no es una vaca cualquiera,

me da leche merengada,

ay! que vaca tan salada,

tolón , tolón, tolón , tolón.

Un cencerro le he comprado

Y a mi vaca le ha gustado

Se pasea por el prado

Mata moscas con el rabo

Tolón, tolón

Tolón, tolón

Qué felices viviremos

Cuando vuelvas a mi lado

Con sus quesos, con tus besos

Los tres juntos ¡qué ilusión!

A letra da canção foi composta pelo espanhol Jacobo Morcillo Uceda, em 1946. Uceda era um sobrevivente da Divisão Azul, o grupo de milhares de soldados que o general e ditador da Espanha, Francisco Franco, enviou aos campos de batalha da Rússia, para lutar ao lado das tropas nazistas.

Depois da guerra, Uceda dedicou-se à publicidade. Ele compôs a letra de La vaca lechera enquanto viajava em um trem de Madri à Galícia. Uceda não era músico, mas ficou assobiando a melodia que havia bolado durante horas, até que desceu do trem e foi procurar às pressas um parente seu, o maestro García Morcillo, a quem removeu pelo braço de um ensaio que estava dirigindo. A melodia, apresentada no Teatro Jai de Madri, foi um sucesso. Uceda acompanhou a apresentação tocando um sino de vaca.

Um dia, o ginecologista de sua esposa lhe pediu um favor: “ouça meu filho cantar”. Uceda o ouviu e ajudou o rapaz a dar seus primeiros passos na carreira musical. O ginecologista era Julio Iglesias Puga, pai do posteriormente cantor Julio Iglesias.

O autor da letra de La vaca lechera morreu aos 87 anos em 2004 em Madri. 

blog1letrasmut-eXPRESSÕES IDIOMÁTICAS

“No decir ni mu” (Nem dizer sequer mu): expressão usada em espanhol para indicar que a pessoa fica caladinha e sequer se atreve a dar um mugido. Exemplo: “Juan le gritó a Carlos… y Carlos no dijo ni mu” (João gritou com Carlos… e Carlos nem disse mu).

Sobre não dizer sequer um ‘mu’, aqui está a tira do cartunista chileno Alberto Montt. Seu engraçadíssimo site, aqui.

blogmontt-no-dijo-ni-mu1

blog1vinheta81

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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 blogsangaetanodithiene1721francesosolimena

São Caetano, ‘San Cayetano’ para os argentinos (e os outros hispano-falantes) é  um dos santos mais populares e requisitados pelos fiéis - principalmente em tempos de crise – devido a sua capacidade de headhunter. Quadro de S.Caetano, pintado entre 1721 e 1725 por Francesco Solimena (1657-1747), o napolitano emblema dos estertores do barroco italiano.

blog1dedo2b “Headhunter” celestial par excellence, San Cayetano (São Caetano) é o santo com maior ibope entre os argentinos, já que sua especialidade é a de conseguir trabalho para os desempregados e manter o emprego daqueles que já o possuem.

Hoje, sábado, dia 7 de agosto, é o dia de San Cayetano. Portanto, dia de peregrinar às paróquias que este santo possui em diversas partes do país.

Motivos para ostentar a pole position nos top ten dos santos na Argentina existem de sobra, já que o país passou por seis graves crises econômicas desde 1975, com a consequente eliminação de postos de trabalho e aumento da pobreza.

Neste cenário de crises intermitentes, a peregrinação a San Cayetano é a principal do país. Sua paróquia mais famosa na Argentina está localizada no bairro de Liniers, na beirada oeste da cidade de Buenos Aires. Neste sábado foi visitada por dezenas de milhares de pessoas. A paróquia conta há décadas com uma “bolsa de trabalho” para pessoas desempregadas.

blog1vinheta71REQUISITADO NAS CRISES ARGENTINAS - Originalmente um civil da cidade italiana de Vicenza, Gaetano de Thiene (filho do conde de Thiene), nascido em 1480, entrou no serviço clerical em sua juventude, onde criou uma entidade de beneficência, o “Monte di Pietà” (posteriormente transformado no Banco de Nápoles). O nome da entidade deu origem à palavra “montepio”, como sinônimo de estabelecimentos que conjugam a associação beneficente com a de instituição bancária.

Gaetano faleceu em 1547.

Foi canonizado em 1671.

Seu sucesso em diversos países começou a partir do crack da Bolsa de 1929.

Na Argentina começou a ser requisitado durante a Grande Depressão. Mas, transformou-se no santo que ocupa a pole position dos top ten do setor a partir da crise de 1975, o famoso “Rodrigazo”. Na crise de 2001-2002, a devoção pelo santo disparou.

É comum ver a imagem do santo italiano colado nas caixas registradoras de comércios, dentro dos táxis ou simplesmente dentro da carteira das pessoas, junto com o cartão de crédito.

blog1vinhetas44-b2002, RECORDE EM PEREGRINAÇÃO - No dia 7 de agosto de 2002, quando a Argentina estava mergulhada na pior crise econômica de sua História (53% dos argentinos estavam  na época imersos na pobreza), 1,5 milhão de pessoas passaram pela paróquia de San Cayetano no bairro de Liniers, na beirada oeste da cidade de Buenos Aires.

Naquela ocasião, outras 300 mil pessoas não conseguiram entrar na paróquia naquele dia, devido ao volume sem precedentes de pessoas que por ali tentavam passar para pedir a bênção celestial.

blog1vinhetasmarca-b POBREZA – O desemprego, segundo o governo da presidente Cristina Kirchner, atinge 7,9% da população economicamente ativa. Mas, de acordo com as consultorias econômicas, que afirmam que o governo adultera os índices, o desemprego real seria de 11% a 12%.

A pobreza, segundo o governo, atinge 13% dos argentinos. Mas, de acordo com economistas, a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA, a segunda maior central sindical do país) e partidos de esquerda a pobreza seria na verdade de 30%. A Igreja Católica, por intermédio de suas paróquias em todo o país afirma que a pobreza assola quase 40% dos argentinos.

Uma recente pesquisa elaborada pelo Barômetro da Dívida Social Argentina da Universidade Católica Argentina (UCA) indica que 17% da população total do país mora em favelas, “conventillos” (cortiços), assentamentos precários, casas ocupadas ou pensões. Em 2004, a proporção de pessoas que residiam nessas condições era de 10% da população argentina.

Segundo a secretaria de Desenvolvimento Social da província de Buenos Aires, entre 2001 e 2006 a população das favelas em território bonaerense aumentou em 57,5%. No total, segundo os dados do último ano pesquisado (2006), existiam 819 favelas em toda a província de Buenos Aires (a maior província do país, que concentra quase 40% da população argentina).

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São Caetano (colagem) na visão do artista plástico argentino Daniel Juárez. Para ver seu site, clique aqui.

blog1vinhetarecomendar-pequena SANTO E PIZZA (e já que estamos falando em santo italiano e na zona oeste…) - Caso alguém passe por Liniers, rumo à paróquia de S.Cayetano, recomendo que dê um pulo no bairro anterior, a pacata (pacatíssima!!!) Villa Luro (um bairro típico portenho de classe média, média-baixa), e detenha-se uns minutos para saborear uma pizza no “El Fortín”, uma autêntica pizzaria “de barrio”, localizada na esquina da avenida Lope de Vega e a rua Jonte. Simples, barata, essa pizza é considerada um dos supra-sumos do gênero na área oeste da cidade.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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