
Uma seleção de 2010 pode pagar uma promessa feita pela seleção de 1986? Messi pode substituir espiritualmente Maradona? 14 jogadores que não cumprem uma promessa em um momento, podem pagá-la depois? Existem ‘juros’ celestiais? Todos os jogadores devem ir juntos pagar? Podem ir em etapas? Pode ir um grupo representando o todo que ficou devendo a promessa religiosa? Debate teológico-futebolístico poderia ter entusiasmado Santo Agostinho de Hipona (354 d.C-430 d.C), teólogo que – embora não conheceu o football, divertimento concebido em terras inglesas - apreciava estes peculiares desafios dos detalhes. E de quebra, já que estamos em ritmo de Copa da África do Sul, Santo Agostinho era africano, de Tagaste (atual Souk Ahras, Argélia), e fez carreira e faleceu em Hipona (hoje chamada de Annaba, também na atual Argélia). Quadro de 1650, do pintor flamengo Philippe de Champaigne (1602-1674), que retrata o prolífico autor de “De civitate Dei” e “De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvolorum ad Marcellium”.
O técnico da seleção argentina, Diego Armando Maradona, partirá nesta sexta-feira junto com seus ‘muchachos’ para África do Sul com a ambição de vencer a Copa do Mundo. No entanto, se depender da Virgem de Copacabana del Abra de Punta del Corral, mais conhecida como a “Virgem de Tilcara”, a seleção argentina não vencerá a Copa. Esta, pelo menos é a crença que existe não somente em Tilcara – vilarejo encravado na Cordilheira dos Andes, na província de Jujuy – mas também em diversas partes da Argentina, onde milhares de torcedores alertam para a “maldição celestial” que paira sobre a seleção do técnico que outrora foi chamado de “Dios” (Deus).
Este imbróglio divino-futebolístico começou em 1986, quando a seleção argentina preparava-se para ir à Copa do México. Na época, o então técnico Carlos Salvador Bilardo (atualmente manager da seleção) levou catorze jogadores (entre eles, o jovem Maradona) para treinar em um lugar de elevada altitude com o objetivo de adaptar-se às altitudes mexicanas. A escolhida foi Tilcara.
Após dias de treino, Bilardo – acompanhado de diversos jogadores – foi até a pequena igreja local – a Senhora do Rosário, construída em 1865 – para prometer a Virgem que, se a Argentina ganhasse a Copa, voltaria à Tilcara em peregrinação. Ajoelhados na frente do altar, Bilardo e os jogadores juraram que levariam o troféu da FIFA para a Virgem.
Poucos meses depois, no México, parcialmente graças à ‘Mão de Deus’, a Argentina venceu a Copa. No entanto, a seleção jamais retornou para pagar a promessa. Desde então, coincidentemente – ou como dizem no mundo hispânico, para referir-se às forças ‘não-terrenas’, “no creo em las brujas, pero que existen, existen” (não acredito nas bruxas, mas que elas existem, existem) – a seleção nunca mais venceu uma Copa do Mundo.
Os tilcarenses sustentam que enquanto a promessa não for paga, a “maldição” da Virgem permanecerá, impedindo que a Argentina chegue à final de uma copa e ganhe. Segundo os habitantes, de nada servirá a habilidade de Lionel Messi ou a garra de Carlos Tevez. Eles afirmam que a Virgem Maria, ofendida com o desplante da seleção de 1986, não quer que a Argentina vença a Copa.

Imagem da Virgem de Tilcara, em Tilcara, Jujuy
CAMPANHA DE PAGAMENTO - Um grupo de angustiados torcedores argentinos tentou nas últimas semanas convencer Maradona e os jogadores a ir até Tilcara e – de alguma forma, mesmo sem o troféu – pagar a promessa. Preocupados, criaram um site na internet, o www.cumplamoslapromesa.com.ar , que deslanchou uma campanha de pagamento da promessa de Tilcara, que conta com mais de 2.700 simpatizantes. O próprio genro de Maradona, Sergio ‘el Kun’ Agüero, aderiu à causa.
NU NO OBELISCO - No entanto, Maradona partirá nesta sexta-feira sem pagar a promessa. Na terça-feira à noite, em declarações à Rádio Metro, fez outro tipo de promessa: “se a Argentina vencer a Copa, ‘fico em bolas’ (ficar nu) e corro ao redor do Obelisco (o monumento-símbolo de Buenos Aires)”.
DÚVIDAS TEOLÓGICAS - No vilarejo – que todo ano realiza uma peregrinação que reúne 10 mil pessoas da região – os fiéis sustentam que pessoa alguma pode realizar tal desfeita à Virgem e não ser punido. Por esse motivo, segundo a lenda, a Argentina – a partir daí amaldiçoada – nunca mais conseguiu vencer a Copa. Para desfazer o mal-entendido com os Céus, a seleção deveria retornar à Tilcara e pagar a promessa. Só assim, reconciliada com a Virgem – afirmam os religiosos - a seleção poderia aspirar a vencer outra Copa no futuro.
No entanto, neste ponto surgem algumas dúvidas teológicas sobre o modus operandi para pagar a promessa feita. Quem deveria ir à Tilcara? A atual seleção, ou a de 1986? Teria que ir toda a seleção de 1986? Ou a totalidade dos jogadores poderia ser espiritualmente representada por um grupo menor? Seria necessário levar o troféu até lá? Uma cópia do troféu vale? Ou é necessário o original? A demora no pagamento da promessa (já passaram 24 anos) implica em ‘juros’, isto é, o pagamento de um ‘plus’ por não cumprir a promessa, isto é, a de voltar ao país após a vitória? Ou já, diretamente, não vale mais?
Em 2006, antes da Copa da Alemanha, o presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, enviou à Tilcara uma delegação para oferecer à Virgem uma camiseta da seleção e uma réplica da Copa de 1986. No entanto, o padre Ernesto Vilte, da paróquia de Tilcara, deixou claro na época que a oferta de nada servia: “a promessa foi que viriam o técnico e os jogadores (de 1986)”.
O pagamento da promessa, sem dúvida, implicaria em uma colossal mobilização, além de vencer vários obstáculos burocráticos, já que para transportar a taça até Tilcara eria necessário a autorização do país que tem a posse temporária da Copa, além de uma permissão especial da FIFA.
BREVE AUSÊNCIA: Caras e caros, nesta 2afeira e na 3afeira estarei fora do ar, pois farei uma célere viagem aos campos de Piratininga, isto é, a excelsa São Paulo, para participar na 3a.feira de manhã do III Fórum de Liberdade de Imprensa & Democracia, que será no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso, o Teatro do SESI, na Av. Paulista, 1.313.
Nesse evento falarei sobre a “censura sutil” (ou sutil pero no mucho) que ocorre na imprensa argentina. Terça-feira à noite estarei de volta à B.Aires para continuar com o blog.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Mapa do périplo do chanceler Amorim no centro de Buenos Aires
0 – Amorim sai da Casa Rosada
1 – Amorim é barrado na Praça de Mayo
2 – Depara-se com a banda dos Granaderos e volta para a Casa Rosada
3 – Na Casa Rosada é também barrado
4 – Passa ao lado do prédio do Banco de La Nación, obra de Alejandro Bustillo
5 – Esquina da 25 de Mayo e Bartolomé Mitre. Grupo decide caminhar pela Mitre
6 – Casal brasileiro depara-se atônito com ministro Amorim, ao vê-lo como pedestre normal
7 – Passa ao lado do prédio do Banco de La Província, um marco art-déco
8 – Esquina da Diagonal e Florida. Multidão impede passagem para ver Lula e o desfile. Monumento que retrata o presidente Sáenz Peña.
9 – Pela calle Florida, Amorim passa ao lado do prédio da Gath e Chávez
10 – É resgatado por veículo da embaixada
Em vermelho, o trajeto feito por Amorim
Em verde, o trajeto que teria que ter feito, se não fosse o descalabro da organização do evento
O chanceler Celso Amorim foi vitima ontem (terça-feira) à noite da desorganização do governo da presidente Cristina Kirchner. O ministro do país que absorve 30% das exportações argentinas teve que vagar pelo centro portenho, no meio da multidão, que festejava a data nacional e não conseguiu assistir a segunda parte das celebrações do bicentenário da Revolução de Maio de 1810.
O imbroglio começou quando Amorim, acompanhado pelo assessor de relações internacionais do presidente Lula, Marco Aurelio Garcia, e o embaixador brasileiro na Argentina, Enio Cordeiro (e três correspondentes brasileiros) saiu da Casa Rosada – o palácio presidencial – onde havia participado da cerimônia de inauguração da “sala de heróis latino-americanos” (uma sala que reúne quadros de heróis dos países da região) e foi barrado ao tentar atravessar a Praça de Maio.
O governo argentino havia indicado que os convidados especiais passariam por um corredor VIP. O corredor levava os convidados ao lugar da segunda fase das celebrações na avenida Diagonal Norte (onde os presidentes de países sul-americanos, entre eles o presidente Lula, assistiriam um espetacular desfile artístico-histórico).
Mas, Amorim, abandonado pelo cerimonial argentino, deparou-se com a extinção do corredor VIP, e foi barrado por uma policial e um operário, que impediam a passagem de qualquer pessoa.
O policial afirmava categoricamente que pessoa alguma podia passar por ali (embora dezenas de pessoas tivessem passado por ali cinco minutos antes), enquanto que o robusto operário, na grade do lado, sustentava que havia uma obra, e que ninguém passaria por esse lado.
As autoridades argentinas encarregadas da organização, nesse intervalo, haviam desaparecido dali. Ministros do próprio gabinete da presidente Cristina Kirchner também foram barrados.
O resto da praça estava ocupado por uma imensa multidão que se acotovelava para os festejos (calcula-se que 2 milhões de pessoas estavam nesse instante nas ruas do centro de Buenos Aires).
Sem alternativa, Amorim – acompanhado dos jornalistas (entre eles, vosso blogueiro) – deu meia-volta e começou a contornar a Casa Rosada, caminhando apressado pela avenida Rivadavia em direção a Puerto Madero.
Mas, quando chegou na esquina da avenida Rivadavia e da rua 25 de Mayo, na esquina do Banco de La Nación e da Side (o serviço secreto argentino), a banda dos Granaderos (guarda presidencial), subindo a avenida em formação cerrada, obrigou o chanceler a retroceder.
Amorim, estupefato, voltou em direção à Casa Rosada. Mas, nos portões do palácio presidencial, foi barrado pela segurança. Ali, permaneceu uns minutos, enquanto assessores atarefavam-se nos celulares, tentando encontrar uma saída para o insólito imbroglio. Vinte minutos já haviam transcorrido desde o início da confusão. E o resto do imbroglio levaria muito mais tempo.
Enquanto isso transcorria, o presidente Lula, sem saber do destino de seu chanceler, acomodava-se a três quarteirões dali, no palanque de honra, para assistir o desfile artístico de encerramento das celebrações do bicentenário.
Sem soluções à vista, e visivelmente exasperado, Amorim empreendeu novamente o caminho da rua 25 de Mayo, acompanhado por Garcia e o embaixador Cordeiro (e o trio de jornalistas).
- Chanceler, já que estamos aqui, o que o senhor achou das declarações de Hillary Clinton sobre o Irã? (perguntou um colega).
- Não, não vou falar de Irã agora (disse Amorim, enquanto caminhava).
Outro jornalista aproveitou a deixa e perguntou: “chanceler, e sobre as barreiras argentinas para os importados…?”
- Não vou falar de conflitos comerciais hoje, pois este é um dia de festa, é o bicentenário..
Seguiram uns minutos de silêncio enquanto o grupo de diplomatas e jornalistas barrados caminhava sem destino definido.
Para quebrar o gelo, enquanto passávamos ao lado do prédio do Banco de La Nación, comentei:
- Chanceler, esse prédio é interessante…foi construído por Alejandro Bustillo, um dos mais famosos arquitetos do país…quando tentaram dar um golpe contra Perón em 1955, ele quase veio esconder-se aqui, pois o subsolo do banco é blindado…
- Ah, aqui? Em 1955? Edifício impressionante…(pausa)…como é bonita a arquitetura do centro desta cidade (disse Amorim).
Ao chegar na esquina da Bartolomé Mitre, o grupo parou novamente.
“Vamos por esta rua, rumo à Maipú”, disse um integrante do grupo.
Amorim rempreendeu a caminhada, no meio da multidão, que abarrotava a rua e festejava a data nacional. “Estou me divertindo”, disse sorrindo em tom resignado aos jornalistas, enquanto alguns jovens passavam ao lado segurando garrafas plásticas com conteúdo que em uma rápida apreciação me parecia que era de elevada capacidade inebriante, além de exalar o característico cheiro da cannabis sativa.
Além deles, também passavam famílias com suas crianças, aposentados e turistas estrangeiros.
“Pense bem, chanceler, quando poderia caminhar assim, tranquilamente, pelo centro de Buenos Aires?”, disse um colega.
“Pois é”, respondeu Amorim.
“Já passaram por coisas similares?”, inquiriu outro colega.
“Por cada coisa… já passamos por cada coisa em outros lugares!”, disse Marco Aurélio, para minimizar o descalabro da organização do governo Kirchner.
Um casal de turistas brasileiros, nesse instante, passou ao lado e surpreendeu-se ao ver o chanceler do Brasil caminhando prosaicamente no meio da multidão.
“Está perdido, ministro?”, perguntaram.
“Eh…”, disse Amorim, amável, mas de forma enigmática.
O casal, ao ver que o ministro estava constrangido e aparentemente perdido, tentou animá-lo: “eh…bom… eh… um prazer conhecer o senhor!..ehhh…A gente gosta muito do senhor, viu?”
Amorim, sem parar de caminhar, acenou em sinal de agradecimento.
Nesse instante, passamos ao lado do edifício do Banco de la Província de Buenos Aires, uma joia da arquitetura art-déco portenha. Amorim estava nervoso e caminha apressado.
- Ministro, este é um marco da arquitetura da cidade (disse um dos colegas, para ver se o animava com outra coisa)
- Há uns prédios muito bonitos por aqui… É uma cidade impressionante (disse ele)
- É mesmo (completou Marco Aurélio Garcia, o integrante do governo Lula que melhor conhece a capital argentina).
No entanto, ao chegar na esquina da rua Florida e a Diagonal Norte, ao lado do edifício do Bank Boston, um exemplo sui generis (de 1928) de arquitetura plateresca espanhola com arquitetura de bancos americanos dos anos 20.
Ali, o chanceler viu milhares de pessoas que se acotovelavam e gritavam hurras (e outras frases de conteúdo indefinido). Um grupo de jovens havia ‘escalado’ o monumento do presidente Sáenz Peña (em estilo art déco), de autoria do escultor José Fioravanti, e agitava bandeiras dali de cima.
Militantes peronistas tocavam seus tradicionais bumbos com frenesi.
- Ehhh…. teríamos que passar por aqui (disse alguém do grupo)
- Por aqui eu não passo, não! (exclamou Amorim).
Marco Aurelio Garcia levantou as sobrancelhas (as duas juntas, não como o sr. Spock) e concordou com a decisão do chanceler.
O grupo vacilou uns segundos, enquanto avaliava o cenário.
Amorim fez uma pausa e afirmou categórico: “Ah, não! Eu vou pegar um táxi”.
Eu disse: “se for isso, temos que ir para lá (apontando na direção da avenida Córdoba)”
- Essa aqui é a rua Florida? (perguntou um integrante do grupo)
- Sim (disse um dos colegas jornalistas)
- Aqui tem batedor de carteira…vários batedores de carteira (disse outro colega jornalista, alertando sobre um dos problemas que ficaram frequentes na calle Florida)
- Vamos, quero pegar um táxi (disse Amorim, a ponto de transformar-se talvez no primeiro chanceler em visita à Argentina que pegaria um táxi)
Na sequência, como dezenas de milhares de brasileiros que trafegam todos os meses pela outrora rua elegante de Buenos Aires, Amorim, MAG e o embaixador Cordeiro empreenderam a caminhada por essa ‘calle’ de pedestres. Nenhum táxi passava pela área, já que as ruas estavam fechadas para o trânsito.
No meio do caminho, pelo celular, o embaixador conseguiu um veículo da embaixada do Brasil que – furando o bloqueio de guardas – pode entrar no centro da cidade.
- Que prédio é este? (disse Amorim, ao ver um monumental edifício do início do século XX)
- Foi a principal loja de departamentos, um luxo inspirado nas galerias de Paris e Londres. Era o prédio da Gath & Chávez (disse eu ao passar pela esquina da Floria e a calle Perón, antiga calle Cangallo, enquanto driblávamos um batalhão de camelôs que vendiam objetos esverdeados Made in China com psicodélicas luzinhas vermelhas).
- Muito bonito (disse Amorim sobre o prédio)
Na esquina da Florida e Sarmiento, o chanceler Amorim foi finalmente resgatado e levado rumo à embaixada do Brasil.
ALGUNS DOS PRÉDIOS CITADOS DURANTE A CAMINHADA

Banco de La Nación, do arquiteto supimpa, Alejandro Bustillo

Esquina da calle Florida e da Av. Diagional Norte. Estátua do presidente Sáenz Peña. Ao fundo, o citado edifício em estilo ’plateresco’.

Parte interna da Gath Y Chávez, nos anos 20
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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O presidente Marcelo T. de Alvear (1922-28), inaugurando um monumento nos parques de Palermo, nos anos 20. A Argentina vivia anos dourados que durariam outras cinco décadas.
1810 – No dia 25 de maio ocorre o ponto culminante da Revolução de Maio. Nesse dia, com a destituição do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros, acaba na prática o governo espanhol no então vice-reinado do Rio da Prata. No entanto, o país não proclama a independência, pois, a ideia era – enquanto viam o desenrolar dos acontecimentos (a Espanha estava ocupada pelas tropas napoleônicas e o rei espanhol preso por ordem do imperador francês) – realizar uma espécie de autogoverno, já que o governo central espanhola estava suspenso. Os rebeldes proclamavam sua lealdade a Fernando VII, enquanto analisavam alternativas (inclusive, uma alternativa monárquica com Carlota Joaquina..isso mesmo, a esposa de Dom João VI e mãe do futuro Dom Pedro I).
Rebeliões, contra-rebeliões e lutas internas começaram a pipocar em todo o território (o assunto é tremendamente mais complexo, mas tento resumi-lo desta forma…mais detalhes, neste artigo da Wikipedia, aqui. No caso de livros, recomendo os de Félix Luna e os de Luis Alberto Romero sobre o assunto).
“Cabildo aberto de 1810”, do pintor Juan Manuel Blanes (1830-1901)
1816 – Com o passar do tempo, com a restituição do rei da Espanha e a derrota de Napoleão na Europa, o cenário na América do Sul precisava de definições. Ficou claro para os comandantes da rebelião de que existiam as condições e conveniências para a independência total. Após batalhas contra a antiga metrópole, as províncias se reúnem para proclamar a independência, na cidade de Tucumán, no dia 9 de julho (para mais detalhes, este artigo da Wikipedia, aqui ).
Por este motivo, a Argentina conta com duas datas nacionais: o 25 de maio e o 9 de julho. As duas datas são homenageadas com duas avenidas em Buenos Aires: a avenida de Mayo (que vai da Casa Rosada à Praça do Congresso) e a 9 de Julio (que atravessa a avenida de Mayo pela metade e corta o centro em duas partes, ligando os bairros de Constitución e Retiro).
Há 200 anos, quando Buenos Aires efervescia com a Revolução de Maio, a área que pouco tempo depois se transformaria na Argentina, era a menor economia da América do Sul, atrás das outras colônias espanholas na região, e do próprio Brasil, que dois anos antes havia recebido a família real portuguesa.
Um século depois, isto é, há 100 anos, quando a Argentina celebrou o centenário da ‘Revolução de Maio’ de 1810 – o início do processo da independência – o país não se parecia em nada ao que havia sido dez décadas antes.
Em 1910 a Argentina estava no ponto culminante de seu prestígio internacional. Na época, a Argentina representava 50% de todo o PIB latino-americano; Buenos Aires – cujas ruas eram decoradas com estátuas importadas da França (além de edifícios inteiros, tijolos por tijolo) – era chamada de “a Paris da América do Sul” e o próprio país – que recebia uma intensa migração europeia – era considerado um “pedaço da Europa” incrustado na América do Sul.
Escritores em todo o mundo consideravam que a Argentina – na época o décimo PIB per capita mundial – rivalizaria em pouco tempo com os EUA. Os argentinos exibiam exuberante otimismo e acreditavam que o país estava destinado a um futuro brilhante.
“Em 1910, a pátria festejou seu centenário. Era a celebração de um povo que havia encontrado seu lugar na História”, sustenta o ex-embaixador em Paris, Juan Archibaldo Lanús, em seu livro “Aquele Apogeu”. Segundo ele, em apenas uma geração o país passou de ser o cenário dos últimos “malones” (ataques de tribos indígenas) a ter o primeiro metrô da América Latina.
Duas semanas antes do centenário, o jornal “La Prensa” estampava uma pergunta em seu editorial: “como poderia fracassar um país dotado de tal sorte?”.

Iconografia do centenário mostrava um país confiante no futuro
- Mas, o cenário do bicentenário é diametralmente oposto ao imaginado pelos argentinos e pelo “La Prensa” em 1910, embora o governo da presidente Cristina Kirchner tente mostrar otimismo com o slogan “Fomos capazes, somos capazes” para as celebrações da data, que está sendo recordada desde o sábado festividades que incluem desfiles militares, shows de tango e rock.
- Atualmente a Argentina representa 10% do PIB latino-americano, e perdeu para o Brasil o posto de líder regional. Além disso, o país caiu para o quinquagésimo posto do PIB per capita mundial. Longe de aspirar um nível social “europeu” (que exibiu até o final dos anos 80), os sociólogos afirmam que a Argentina aproxima-se cada vez mais do padrão latino-americano de profundas divisões sociais. O porto de Buenos Aires, o segundo em movimento nas Américas atualmente corre o risco de ser superado pelo de Montevidéu.
Em 1910 a cidade de Buenos Aires tinha mais teatros que Paris. “Uma grande cidade da Europa”, categorizou o presidente francês Georges Clemenceau. Mas a melhor definição talvez seja a do brilhantemente cínico escritor francês André Malraux, que a definiu como “a capital de um império imaginário”.
Buenos Aires…em 2010! Assim era imaginada em 1910 pelo ilustrador Arturo Eusevi, na revista PBT
TRÊS PRESIDENTES – A analista de opinião pública Graciela Römer disse ao Estado que “dois de cada três argentinos acreditam que a geração de seus avós vivia melhor do que a deles. Sobre o futuro, somente uma de cada três pessoas acha que seus filhos viverão melhor. O otimismo de 100 anos atrás não existe mais. Antigamente era uma certeza que com educação, esforço e sacrifício subia-se na vida. Hoje não mais. Atualmente, ‘viver melhor’ é simplesmente não cair na pobreza”.
Em 1916 o país teve as primeiras eleições com voto secreto e universal. No entanto, em 1930 iniciou uma série de golpes de Estado, complementados com crises financeiras sem paralelo na região, trocas abruptas de políticas econômicas.
De lá para cá, somente três presidentes eleitos livremente nas urnas puderam completar seus mandatos.
Outro dado mais sombrio: Desde 1930, ano do primeiro golpe de Estado, o país nunca mais teve uma sequência ininterrupta de dois presidentes civis eleitos nas urnas que completassem seus mandatos. O último caso foi o de Hipólito Yrigoyen (1916-22) e Marcelo T. de Alvear (1922-28).
Caso a presidente Cristina Kirchner complete seu mandato, esta será a primeira vez que isso ocorre desde a sequência Yrigoyen-Alvear. Neste caso, serão dois presidentes diferentes em sequência: Néstor Kirchner e Cristina Kirchner (embora com a peculiaridade de serem marido e mulher que se sucederam).
E sequer os militares conseguiram completar os mandatos que previam (exceto o general Jorge Rafael Videla, que concluiu os cinco anos previstos… até os militares derrubaram seus próprios colegas com outros golpes).

O cartunista Daniel Paz, do “Página 12″, ironiza sobre as crises e as oportunidades da Argentina
INSTABILIDADE - A socióloga Beatriz Sarlo disse ao Estado que a Argentina, nos últimos 100 anos, sofreu “a marca maldita dos golpes de Estado, que começaram em 1930 e foram até 1976. Metade desse século vivemos em constante instabilidade política”.
Os economistas argentinos não conseguem consenso sobre o momento do início da decadência. Alguns sustentam que foi em 1930, com a quebra da institucionalidade; outros acreditam que a culpa foi do governo do intervencionista Juan Domingo Perón; enquanto que um terceiro grupo afirma que foi a política econômica caótica da ditadura de 1976-83. Mas, já em 1969 o país causava estupefação para o economista russo-americano Simon Kuznets, que tentou enquadrar o imprevisível país: “existem três tipos de países no mundo. Os normais, o Japão…e a Argentina!”. (a frase é erroneamente atribuída ao amigo de Kuznets, Paul Samuelson).

Kuznets, ao receber o Nobel de Economia, em 1971, das mãos do rei Gustavo VI Adolfo da Suécia
EXILADOS – A decadência econômica e política também teria sido causada pelos exílios, que levaram consigo la crème de la crème dos profissionais e da classe política. Nos anos 50, partiram os intelectuais, pressionados pelo governo peronista. Nos anos 60, emigraram 3 mil cientistas perseguidos pelos militares. Na turbulenta década de 70 partiram profissionais, intelectuais e lideranças políticas. A fins dos anos 80 foram embora milhares de pessoas, pressionadas pela hiperinflação.
Desde meados dos 90, dezenas de milhares partiram por causa do avanço da pobreza. Calcula-se, extraoficialmente, que 1 milhão de argentinos – quase todos mão de obra qualificada – deixaram o país nos últimos 30 anos.
MODELO BRASILEIRO - Enquanto que em 1910 o modelo a seguir era a Grã-Bretanha e a França, nos últimos anos políticos, empresários e de forma geral, a população, começou a encarar o Brasil como um modelo a seguir.
O ex-vice-ministro da Economia, Orlando Ferreres, me disse que ao contrário do Brasil, a Argentina “careceu de estratégias de longo prazo”. Segundo o economista, por este motivo o país vive um cenário no qual até a carne – símbolo nacional – possui uma presença cada vez maior do Brasil: “frigoríficos argentinos são comprados por empresas brasileiras, com respaldo do BNDES, organismo que invejamos, sem similar na Argentina”.
O sociólogo Carlos Fara me comentou que “há 50 anos o Brasil era um país rural, sem indústrias, enquanto que a Argentina já contava com uma classe média de segunda geração, além de prêmios Nobel. O Brasil cresce de forma persistente e representa hoje para a Argentina o sonho daquilo que podia ter sido e não foi”.

Borges, um ácido analista da sociedade argentina, desenhado por Alberto Breccia
PROBLEMAS E ESPERANÇAS - A persistência de crises políticas e econômicas não começou com a crise sem precedentes de 2001-2002, no governo de Fernando De la Rúa (1999-2001). Nem com o de seu antecessor, Carlos Menem (1989-99). Ela teria começado décadas antes. “Este é um país que no segundo século de independência, destruiu tudo o que fez no primeiro”, me disse o think tank Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoría.
O analista, e muitos outros, tentam explicar o que aconteceu para que ocorresse este “grande fracasso nacional”, que tornou a Argentina um dos poucos países que passou do primeiro mundo ao terceiro em poucas décadas.
“Como pode ser que uma nação como esta, beneficiada com invejáveis recursos naturais e humanos, não consiga reverter este lento e melancólico declínio em direção à insignificância?”. Esta foi a pergunta feita há poucos anos por um dos principais estudiosos sobre o país, Nicholas Shumway, da Universidade de Austin, Texas.
Shumway tem a teoria de que existe um fator normalmente esquecido: “a peculiar mentalidade divisória”. O think tank americano considera que o país fracassou na criação de um marco ideológico de união e consenso, caso contrário do Brasil.
O falecido escritor Jorge Luis Borges, costumava dizer que os argentinos eram “brilhantes individualmente, mas coletivamente são um fracasso”. Além de individualistas incorrigíveis, segundo Borges (e outros analistas, ensaístas e historiadores) também padeceriam de outro problema, afirma o sociólogo Guillermo O’Donell: “temos um enorme talento autodestrutivo, somos o espetáculo mundial da auto-destruição”.
No entanto… a crise de 2001-2002 também serviu para que as novas gerações repensassem o país construído (ou destruído) pela geração dos pais. Jovens empresários argentinos, na contra-mão das duas gerações anteriores, investem e apostam no país. De quebra, conseguem fazer que, apesar dos trancos e barrancos, a economia funcione (e, levando em conta que o país teve seis graves crises econômicas desde 1975, a capacidade de recuperação é – no mínimo – invejável).
A cultura está sendo reativada de forma ininterrupta desde a crise da virada do século. O cinema argentino - apesar da crise econômica - se vira e lança filmes todos os anos que competem em festivais internacionais, tal como o recente - “El secreto de sus ojos”, de Juan José Campanella, vencedor, entre outros prêmios, do Oscar de melhor filme estrangeiro (cenas, aqui).
O tango passou por uma renovação e um revival. Longe do estilo tradicional, o tango novo é embalado ao ritmo do techno, como o Bajofondo e outras orquestras. Entre os expoentes está o músico Gustavo Santaolalla (algo de sua obra, aqui), que além de criar um novo estilo e respaldar os jovens músicos, resgata os veteranos compositores (como em “Café de los maestros”, aqui).
Ou, ainda, revisões sobre o tango tradicional, como o caso da carismática Dolores Solá. Neste link, cantando “Que querés con ese loro”. Aqui.
A política, gradualmente, começa a contar com jovens líderes de 20 e 30 anos, que, ao contrário de seus veteranos, aceitam conversar entre si e trocar ideias. Jovens da esquerda, centro e direita mostram disposição ao diálogo, elemento escasso na geração atual de governantes.

O teatro Colón exibe sua restauração. Na foto, a platéia, os camarotes e no forro do teto, a pintura de Raúl Soldi (mais sobre o pintor, aqui)
DA DECADÊNCIA À GLÓRIA RECUPERADA: O COLÓN REABRE SUAS PORTAS EM GRANDE ESTILO
Foram necessários sete anos de árduo trabalho de reformas, diversos adiamentos, trocas de planos e uma miríade de greves e controvérsias políticas. Mas, finalmente, o Teatro Colón – a maior sala de ópera da América Latina e a primeira em qualidade acústica do planeta – reabrirá suas portas. A reinauguração ocorre nesta segunda-feira, dia 24, véspera da data nacional do 25 de maio.
Para esta festa, o Colón receberá 2.400 convidados especiais, entre elas a nata da intelectualidade argentina, representantes da classe política, o empresariado, além do corpo diplomático em peso. O governo, embora convidado, anunciou semana passada que não comparecerá. O motivo está explicado no post anterior, este aqui.
O Teatro Colón estava em estado lamentável. Arquitetos que me guiaram em uma visita às obras indicaram que o estado do teatro era “terrível”, já que as instalações elétricas antes da reforma eram “antiquadas” (algumas, com mais de meio século de instalação) e a falta de sistema de segurança colocavam o edifício em risco de incêndio.
Goteiras estavam espalhadas em diversas áreas do edifício, enquanto que diversos camarins estavam inundados por encanamentos estourados.
A apresentação da reinauguração – o primeiro ato da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, e trechos do balé “O lago dos cisnes”, de Pyotr Illyich Tchaikosvky – será transmitida pelo canal de TV Trece para todo o país. Além disso, 60 mil portenhos poderão ver a apresentação do lado de fora do teatro, em imensos telões colocados estrategicamente sobre a avenida 9 de Julio.
Na noite de gala da reinauguração, a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires será dirigida pelo maestro Javier Logioia Orbe.
Ao longo deste ano o Colón contará com figuras de peso mundial como os maestros Zubin Metha (que regerá a Filarmônica de Munique) e Daniel Barenboim (com a orquestra e coro do Scalla de Milão).
O violoncelista Yo Yo Ma, acompanhado pela pianista Kathryn Scott abrirá o ciclo internacional no dia 11 de junho. No total, as estrelas estrangeiras realizarão oito concertos até dezembro.
O ciclo nacional, com a orquestra do Colón, começa sua temporada de 18 concertos no dia 3 de junho.

OBRAS - As obras implicaram no trabalho de uma equipe de 1.500 pessoas que reformaram 60 mil metros quadrados do Colón. No total, o governo da cidade de Buenos Aires desembolsou US$ 90 milhões para realizar a maior reforma da História do teatro, que ao longo de 102 anos de vida, só havia passado por duas reciclagens parciais.
As obras iniciaram em 2001, com um plano. Em 2003 tudo foi modificado, e as obras foram retomadas com um novo plano (o atual).
Em 2006, perante a polêmica sobre o lerdo andamento das obras, o teatro foi fechado para o público, dando início ao intensivo plano de recuperação que mantiveria a essência arquitetônica do edifício. As obras inicialmente estavam previstas para concluir em 2008, centenário do Colón.
Mas, perante a impossibilidade de cumprir com os prazos – confrontos políticos, basicamente – as celebrações do centenário do teatro foram realizadas no Luna Park, espaço destinado a lutas de boxe e musicais, sem acústica adequada (é impossível qualquer apresentação ali sem microfones).
Furioso, o maestro Daniel Barenboim, contratado para a ocasião, disparou: “a esses responsáveis e irresponsáveis, deixem de lado suas ambições, que são de pouco valor comparados com aquilo que o Colón representa”.
O prefeito Maurício Macri decidiu colocar uma nova data: 2010, ano do bicentenário da Revolução de Maio.
ACÚSTICA – O Instituto Takenaka do Japão indica que o Colón ocupa o primeiro posto no ranking mundial de acústica lírica (seguido pela Semperoper de Dresden e o Scalla de Milão). Estrelas da ópera mundial sabiam que passar pelo Colón era uma prova de fogo, já que qualquer erro era perfeitamente ouvido pelo exigente público.
Por esse motivo, os restauradores realizaram as obras com cautela, para evitar modificações na qualidade do som. O procedimento adotado foi o de “despir” (remover todos os elementos) a sala de ópera em diversas etapas para medir, a cada uma, o impacto acústico.
Isto é, removiam as poltronas e mediam a acústica; retiravam o tecido que cobria os camarotes, e a acústica era novamente medida.
Por este motivo, os restauradores tentaram manter o mesmo revestimento têxtil de cortinas e poltronas (e o tipo de recheio destas), o tipo de assoalho, entre outros, para evitar qualquer alteração que pudesse modificar a famosa acústica do teatro.
“O Colón possui uma das acústicas mais perfeitas do Universo”, afirma o filósofo e ensaísta Marcos Aguinis, ex-ministro de Cultura e autor do livro “O atroz encanto de ser argentino”. Segundo ele, “o Colón, metaforicamente, é um Stradivarius de incalculável valor”.
E, o spot publicitário sobre a reabertura do Colón (que eu achei genial). O link, aqui.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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A sala principal do Teatro Colón está totalmente reformada, após anos de intensas obras (foto de divulgação da Secretaria de Cultura da cidade de B.Aires)
Resumo da opereta
O Teatro Colón, a maior sala de ópera da América Latina (que segundo especialistas da lírica, conta com a melhor acústica para o gênero), será reinaugurado nesta segunda-feira à noite. Ainda não abriu suas portas e já é o foco de uma disputa digna de uma opereta de Franz Léhar ambientada em um inventado país dos Bálcãs.
Cristina Kirchner, irritada com o prefeito Maurício Macri, não irá à principal festividade das celebrações do dia 25 de maio, a data nacional, no Teatro Colón, símbolo da cultura argentina.
Por outro lado, a presidente não convidou ao banquete da terça-feira o vice-presidente Julio Cobos, com quem está brigada desde que ele, que também ocupa a presidência do Senado, votou contra o governo em 2008. O banquete será na Casa Rosada, o palácio presidencial.
De quebra, a presidente Cristina tampouco convidou os ex-presidentes argentinos ainda vivos desde a volta da democracia, em 1983.
O país contará com celebrações paralelas para o Bicentenário: a presidente Cristina, com o banquete na Casa Rosada e um Te Deum em Luján, o prefeito Macri com sua gala no teatro Colón; o cardeal Bergoglio com um Te Deum na catedral portenha, e até o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá, que construiu uma réplica do Cabildo de Buenos Aires (edifício que foi o foco da Revolução de Maio) para fazer seus próprios festejos.
O Bicentenário argentino, longe de mostrar unidade política, exibe um país profundamente dividido, sem fatores externos que causem as divergências.
O colunista político Adrián Ventura, ironizou com amargura: “talvez no Tricentenário não estaremos pior do que agora…”
Personagens
- Cristina Kirchner, presidente, que chegou à Casa Rosada em 2007 como sucessora do próprio marido. Seus críticos afirmam que comporta-se como fosse uma diva de ópera.
- Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, opositor dos Kirchners, ex-presidente do Boca Juniors e filho do empresário Franco Macri (o pai de Macri, por seu lado, é enfático simpatizante dos Kirchners desde 2004).
- Néstor Kirchner, ex-presidente (2003-2007), marido da presidente, secretário-geral da Unasul, presidente do partido Peronista e considerado o verdadeiro poder dentro do governo da esposa.
- Julio Cobos, vice-presidente que rachou com a presidente Cristina em julho de 2008. Considerado “mosquinha morta” quando foi escolhido para o posto de vice (Kirchner o escolheu para ser vice da esposa), agora é “presidenciável” da oposição. Macri não gosta dele, pois o prefeito portenho também ambiciona ser candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2011.
Cenários: Teatro Colón, Casa Rosada, residência oficial de Olivos, prefeitura portenha.
Época: Os dias prévios ao 25 de maio de 2010. O 25 de maio é a data nacional, o dia da Revolução de Maio de 1810, quando iniciou o processo de rebeliões e guerras que levaria à independência do país em 1816. Na terça-feira que vem a Argentina celebrará o Bicentenário da Revolução de Maio. A data está gerando uma série de debates na sociedade sobre os acertos e os erros do país ao longo dos últimos 100 anos. O quiproquó político dos últimos dias deu um toque amargo às reflexões sobre o futuro da Argentina.
Libreto
Ato 1 – Macri fala demais
Mauricio Macri, na quinta-feira, a poucos dias da reinauguração do Teatro Colón, comenta com a imprensa como será quando a presidente Cristina for à sessão de gala na ópera na segunda-feira à noite: “se ela for com seu consorte (o ex-presidente Kirchner) terei que sentar ao lado dele. Mas isso não me deixa contente…”.
Macri, nos dias prévios, havia criticado o governo Kirchner pela investigação sobre o envolvimento do prefeito em uma serie de grampos telefônicos. Macri está sendo investigado pelo juiz Norberto Oyarbide, que nos últimos meses teria favorecido os Kirchners em diversos casos, segundo acusa a oposição.
Dentro da administração Macri alguns assessores admitem que o uso da palavra “consorte” não foi exatamente “conveniente”.
Ato 2 – Cristina perde a pose e se irrita
Cristina Kirchner coloca tom de drama na trama e afirma que não comparecerá ao Teatro Colón. Irritada – ou simulando estar irritada – a presidente envia uma carta ao prefeito Macri na qual indica que “a incrível catarata de ofensas que proferiu durante a última semana, chegando neste dia a manifestações públicas que desqualificam de forma pessoal, marcam um limite que não estou disposta a atravessar”.
No final, com ironia, disparou: “desfrute o senhor tranquilo e sem as presenças incômodas na noite do 24 de maio”.
Analistas políticos afirmam que, se bem a presidente Cristina costuma ter ataques de raiva pelos motivos da mais variada magnitude, neste caso a observação de Macri (sobre sentar ao lado de Kirchner) teria sido útil como argumento para não ir ao Colón.
Motivo: a festa do Colón é organizada por Macri, integrante da oposição. E, comparecer ao Teatro, onde Macri é o anfitrião, seria conceder-lhe alguns dividendos políticos que Cristina não pretendia dar.
Ato 3 – Imbroglio cresce e Cristina não atende o telefone
Macri tenta impedir a ausência da presidente do principal evento das celebrações do Bicentenário argentino para evitar um fiasco da imagem do país e afirma a Cristina Kirchner que lamenta sua decisão. Macri pede a Cristina Kirchner que “deixe de lado das diferenças e esteja à altura da História, que nos transcende”.
O chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, Aníbal Fernández, que nas últimas duas semanas manteve discussões ‘políticas’ em público com uma vedette do teatro de revista, uma modelo de passarelas – entre outras – afirma que a presidente não irá de forma alguma ao Colón. Nem ela nem outros integrantes do governo. Desta forma, ao redor de 200 entradas ficam sem dono para a noite de gala.
Na sequência, Macri telefonou à presidente Cristina na Casa Rosada. Mas, os assessores da presidente explicaram que não estava ai.
Depois, telefonou à residência oficial de Olivos. Mas, os assessores que ali estavam sustentaram que a presidente estava em uma “reunião”.
O chefe do gabinete do prefeito Macri, Horacio Rodríguez Larreta, fez um apelo na noite da sexta-feira à presidente: “por favor pense nisso..ainda existe tempo (para mudar de ideia)”. Depois, com ironia Larreta arrematou, afirmando que se Cristina for ao Colón, poderá passar “a imagem de unidade (nacional) pelo menos por um dia”.
Intermezzo com mais imbroglios e peculiaridades ![]()
No meio deste imbróglio operístico, o vice-presidente da República, Julio Cobos, recorda que não foi convidado para o banquete de gala da terça-feira na Casa Rosada o palácio presidencial, onde a presidente Cristina receberá 200 convidados especiais, entres eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Cobos, como vice-presidente, deveria ser convidado (independente do conflito entre ele e o casal Kirchner). Mas, os Kirchners não querem o detestado vice-presidente por perto.
Cobos irá ao Colón, onde não irá Cristina por vontade própria.
Macri disse que embora Cristina não compareça ao Colón, ele irá ao banquete da Casa Rosada apesar da indisposição da presidente de tê-lo por perto.
Mas, além de Cobos, a presidente Cristina Kirchner .- embora seja uma festa nacional que possui maior relevância pelos 200 anos celebrados – não convidou nenhum dos ex-presidentes civis argentinos ainda vivos (Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Duhalde), com os quais não possui boas relações. A única exceção é o próprio marido, o ex-presidente Kirchner.
E, no meio de todo este quiproquó e comédia de enredos, o presidente do Uruguai, José Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, confirmou que estará presente na noite de gala do Colón, sem se importar com o conflito entre a presidente Cristina e o prefeito Macri.
Mujica, amante do teatro e da música clássica (além do tango), estará no Colón, e concidentemente, sentará ao lado do vice-presidente argentino, Julio Cobos.
No dia seguinte, no 25, Mujica sentará à mesa de Cristina Kirchner, na Casa Rosada, no banquete do bicentenário.
Ato 4 – Deus seria peronista
Na sexta-feira à noite, a presidente Cristina foi à avenida 9 de Julio inaugurar a exposição sobre o bicentenário organizada pelo governo federal. Ali, sem vacilar, afirmou de forma mística: “Deus quis que eu fosse presidente neste bicentenário!”
Ato 5 – Grand Finale, Todos contra todos
Ainda está para acontecer. Na segunda-feira à noite o prefeito Macri receberá 2.400 convidados para a gala do Colón.
No dia seguinte, a presidente Cristina celebra o 25 de maio em si.
Ela irá a um Te Deum, na catedral de Luján, na província de Buenos Aires, onde o bispo local é um dos integrantes do clero com os quais ainda não brigou.
Cristina descartou a cerimônia religiosa na catedral de Buenos Aires (que albergou a maior parte dos Te Deums dos últimos dois séculos), pois mantém uma relação tensa com o cardeal e primaz da Argentina, Jorge Bergoglio. Este, por seu lado, irritado com o descaso da presidente Cristina Kirchner, fará seu próprio Te Deum.
ANÁLISE DA OPERETA: Os analistas políticos criticam a decisão da presidente Cristina. E tampouco poupam Macri de críticas. A socióloga Beatriz Sarlo, no artigo “Brigas que carecem de grandeza” publicado neste sábado no jornal “La Nación”, indica que “não era previsível que ao chegar ao balanço do bicentenário estivéssemos ocupados com brigas cujos motivos carecem de qualquer exemplo”.
Segundo Sarlo, a frase de Macri sobre Kirchner (sobre sentar ao lado dele) é uma demonstração de que o prefeito portenho “acredita que pode comportar-se como se fosse o pai de uma namorada cujos sogros não lhe agradam”.
Sarlo sustenta que ele, falando como chefe de governo de Buenos Aires, não deve declarar que não está contente em receber o marido da presidente no dia 25 de maio no Colón. “Ninguém lhe pede que diga que sentar ao lado de Néstor Kirchner seja seu sonho. Ninguém lhe pede que exagere um tom amistoso que não sente..simplesmente, um político em funções de governo cala a boca”.
Sarlo também critica a presidente Cristina e diz que ela só não vai ao Te Deum na catedral para não encontrar o cardeal Bergoglio ali.
Segundo Sarlo, os motivos destas atitudes “que seriam caricaturescos se não afetassem a vida pública, tem a ver com o pior lado do estilo político nacional”.
O link para a coluna de Beatriz Sarlo, aqui.
LUNFARDO sobre os imbróglios
Ao longo do último século – entre o centenário e o bicentenário – o lunfardo (gíria) portenha acumulou uma longa lista de palavras para designar conflitos, abacaxis e imbroglios da vida cotidiana. Muitas destas palavras podem ser usadas para referir-se aos pepinos políticos que embalam as celebrações do bicentenário.
Aqui segue uma pequena lista usada intensamente pelos portenhos nos últimos dias:
Balurdo: Problema, confusão. Balurdo é uma palavra antiga do lunfardo, que originalmente referia-se a um amontoado de trapos ou papéis. Seu sentido original era o de “mentira”, de alguém que tenta vender gato por lebre. A palavra, como muitas do lunfardo, origina-se do italiano ‘balordo’ (tonto), que com o touch genovês muito presente em Buenos Aires, transformou a letra ‘o’ em ‘u’.
Despelote: Confusão, bagunça. Para indicar um despelote de intensidade existe a expressão “flor de despelote”. Exemplo: “Cristina y Macri armaron flor de despelote”.
Quilombo: Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de ‘bordel’. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a ‘bagunça’ ou ‘imbróglio’ de considerável magnitude.
A palavra “bolonqui” é uma adaptação do lunfardo ‘quilombo’, já que a gíria local também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.
De cuarta, De quinta: Usado para referir-se que algo é “de quarta categoria” ou “de quinta categoria”. Exemplo: “La actitud de Cristina y Macri es de cuarta…”.
A coisa está russa, dizem no Brasil para explicar que certa situação exibe certo grau de dificuldade para os protagonistas e pessoas envolvidas.
Essa expressão surgiu no Brasil nos anos 20 como uma referência à situação da Rússia na crise de 1917 e na guerra civil que ocorreu na sequência (e também refere-se à desastrosa campanha militar russa na Primeira Guerra Mundial, quando os generais russos cometeram uma infinidade de mancadas)
Em resumo, a coisa está russa na política argentina.
RUSSO E RUSSA: E, já que falamos em russos, a palavra ‘russo’ foi (e ainda é) usada na Argentina para designar os integrantes da comunidade judaica, que no início do século XX, quando milhares de imigrantes judeus fugiam dos pogroms na Rússia.
Assim foi chamado na infância o pianista e maestro Daniel Baremboim, nascido em Buenos Aires em 1942, filho de uma família judaica de origem russo.

Daniel Barenboim, que além da música erudita, divulgou também Piazzolla e Zequinha de Abreu na Europa. Um link do Youtube com este argentino regendo Tico-Tico no Fubá, de José ‘Zequinha’ Gomes de Abreu (1880-1935). Aqui.
Quando tinha 10 anos, seus pais mudaram-se para Israel. Posteriormente estudou na Áustria e, com o passar das décadas, transformou-se em um dos principais maestros do mundo. Entre as orquestras que costuma dirigir está a Filarmônica de Berlim e a orquestra do Alla Scala de Milão.
Barenboim criou uma orquestra de judeus israelenses, palestinos e árabes. Em 2008 tornou-se a primeira pessoa no mundo a contar com a cidadania israelense e palestina (honorária) ao mesmo tempo.
Bom, Barenboim, que era chamado de “rusito” (russinho) quando era criança em Buenos Aires, lançou um CD supimpa com uma russa (russa de verdade, da Rússia, mais especificamente, de Krasnodar), a cantora lírica Anna Netrebko (Анна Юрьевна Нетребко). Netrebko está atraindo o público jovem para a ópera com seu carisma e espontaneidade.
O CD é “In the still of the night”, pela Deutsche Grammophon, onde ‘la’ Netrebko e Barenboim (aqui, como pianista), revelam a beleza e a melancolia das canções russas de Nicolai Rimsky-Korsakov e de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, além de uma de Antonín Dvořák e de outra de Richard Strauss.
E, driblando a opereta da política argentina, voltamos ao Colón.
Nesse teatro, uma fantástica sala de ópera, Barenboim (mas sem Anna Netrebko, infelizmente) se apresentará no dia 25 de agosto com a orquestra do Divã Ocidental-Oriental (formada pelos jovens israelenses, palestinos e árabes). E, no dia 30 de agosto, com o coro e orquestra do Scala.

Anna Netrebko, parceira do último CD do argentino-israelense Daniel Barenboim. A bela russa em um trecho de Rusalka, de Dvorak, “A canção da lua”. Aqui.

Sobre os próximos dias:
Domingo - Neste domingo, caso demore em responder os comentários, desculpem vosso blogueiro, mas é meu aniversário número 44 (falta muito para meu próprio centenário…) e estarei em celebração.
Segunda-feira: Nesta 2af teremos uma ampla postagem sobre o Bicentenário.
E mais um bônus track: Daniel Barenboim, em B.Aires, rege “Libertango”, de Astor Piazzolla. Aqui!
Abraços a todos, bom fim de semana!
PS: Ok, não resisti. Vou colocar outro link do Barenboim, com a Filarmônica de Berlim tocando ”El Firulete”, de Mariano Mores. Supimpa, batuta, tri-legal.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Maradona está atrás de qualquer aeronave que leve seus jogadores à África do Sul
O técnico argentino Diego Armando Maradona não consegue deter o acúmulo de conflitos, queda de prestígio e problemas de comando a granel a poucas semanas do início da Copa do Mundo na África do Sul. Depois de enfrentar brigas entre seus próprios comandados e críticas de ex-técnicos Maradona admitiu que ainda não sabe como transportará seus jogadores através do Atlântico Sul para que cheguem a tempo de concentrar-se e preparar-se para a Copa. O motivo da angústia de Maradona é que seus assessores – entre eles o manager da seleção, Carlos Bilardo – não compraram as passagens para que o time possa viajar para a África do Sul.
No entanto, conseguir as escassas passagens aéreas que restam para a África do Sul é uma tarefa de Hércules, afirmam os agentes de viagens.
Para evitar a vergonha pública, informações extraoficiais indicam que Maradona deixou claro a Bilardo que não lhe importa viajar em classe turista, onde também colocaria integrantes do corpo técnico, caso fosse necessário. Mas, sustentou que pretende que todos seus “muchachos” (rapazes) façam o trajeto em classe executiva. Para conseguir os lugares, os assessores de Maradona estão até telefonando aos passageiros com passagens compradas, para ver se conseguem convencê-los a trocar a viagem para outro dia.
“Ficou difícil para que Bilardo encontre passagens em cima da hora”, afirmou o técnico sobre o manager, com o qual possui uma relação tensa.
“Acho que viajaremos no dia 26…quero viajar no dia 26”, balbuciou Maradona em declarações à imprensa portenha, ao referir-se a seu desejo de partir na quarta-feira da semana que vem.
Segundo o técnico, não seria adequado viajar nos dias 27 e 28, já que não existem voos com lugares suficientes para a viagem do time em um único bloco, cenário no qual a seleção teria que desembarcar na África do Sul de forma parcelada. No entanto, Maradona prefere evitar esta opção: “não é sério que seis rapazes viagem por um lado, outros seis em um dia diferente e outros dez jogadores em outro dia. Não é sério”.
Maradona também confessou que está “conversando” com “pessoas” com as quais o jogador Carlos Tevez fez uma “aproximação” para ver a possibilidade de que todos os jogadores da seleção e boa parte da delegação argentina viagem em conjunto em um voo charter.
O presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, enquanto isso, mantém silêncio sobre os imbroglios de “El Diez”.
Na próxima segunda-feira, dia 24, a seleção enfrentará o Canadá para um amistoso no portenho Monumental de River, estádio no qual Maradona já declarou que não gosta de estar.

PALERMO E A EX – Maradona, além de acumular problemas para transportar a equipe para a África do Sul, as brigas entre seus jogadores, e as recentes acusações de ter “conspirado” contra o ex-técnico Alfio Basile para conseguir o posto de técnico no final de 2008, também enfrenta o risco de ficar sem um de seus jogadores favoritos, Martín Palermo.
O motivo de eventual ausência de Palermo na África do Sul é o processo que a ex-esposa do jogador do Boca Juniors, Lorena Barrichi, abriu contra ele. Os advogados de Lorena, uma ex-modelo que casou-se com Palermo em 2005 iniciaram uma demanda penal por sonegação fiscal contra o jogador, suspeito de não ter declarado a totalidade de seu patrimônio. Desta forma, a Justiça poderia impedir Palermo de sair do país para participar da Copa.
CONFRONTOS E DROGAS - Nas últimas duas semanas Maradona teve uma frenética atividade na mídia. A tensão crescente do técnico com Julio Grondona – presidente da AFA há 31 anos – irritou o filho deste, Humberto Grondona. Em declarações à rádio “La Red”, o filho de Grondona ameaçou, sem sutilezas: “se você ataca meu pai, eu te piso”.
Maradona também participou do programa de auditório da apresentadora Susana Giménez. Ali, jurou que há seis anos não consome drogas, isto é, desde a overdose que em abril de 2004 quase o matou em Buenos Aires, pouco tempo depois de retornar de Cuba.
Na sequência foi o alvo de uma nova polêmica quando o filho do ex-técnico Alfio Basile, Alfio Basile Junior, divulgou pela rede de micro-blogs Twitter que Maradona havia “conspirado” para derrubar seu pai e tomar seu posto de técnico da seleção em 2008.
De quebra, após todos estes quiproquós, Jorge Ribolzi, ex-assessor do ex-técnico Basile, foi categórico ao definir Maradona: “como jogador, foi o melhor que eu vi … como técnico, ele terá que mostrar sua capacidade. Mas, como ser humano, é um lixo de pessoa”.
E ATENÇÃO, FINALMENTE…
Agora há pouco, nesta noite de terça-feira, integrantes do entourage de Maradona anunciaram que os jogadores já possuem uma forma de chegar à África do Sul. Desta forma, a AFA evitou o fiasco sobre as passagens para os jogadores.
Segundo os assessores de Maradona, a seleção partirá no dia 28 de maio, em um voo da South African Airways. O avião partirá do aerporto internacional de Ezeiza nesse dia às 16:45.
Neste avião partirão os 23 jogadores, 10 integrantes do corpo técnico, 16 ajudantes e alguns cartolas.

BREVE FOFOCAGEM COM BACKGROUND, dos arquivos de ‘Os Hermanos‘:
- Maradona e o fellatio, aqui.
- Maradona sob o olhar de um sociólogo, aqui.
- E um pouco sobre Julio Grondona, o cartola comme il faut, aqui.

ANÍBAL TROILO, 35 ANOS DE SUA MORTE
E, mudando de assunto radicalmente, hoje completam-se 35 anos da morte de Aníbal “Pichuco” Troilo, considerado um dos maiores compositores do tango.

Aníbal Troilo, uma espécie de Buda do tango. Ele tocava com a alma.
Um artigo de hoje do jornal “Perfil”, no qual o poeta uruguaio Horacio Ferrer, presidente da Academia Nacional del Tango, relembra o amigo. Aqui.
Uma velha gravação de um programa de TV com Troilo, interpretando “Quejas de bandoneón”. Aqui.
Neste link do Youtube, Troilo com um de seus amigos, Astor Piazzolla, interpretam “Volver”. Aqui.
E neste, para encerrar, um trecho de um documentário sobre Troilo, onde ele, com sua voz áspera, recita “Nocturno a mi barrio”. Para os troilanos xiitas, é o filé-mignon, especialmente na segunda metade do video (onde ele recita) e no último terço, onde está com sua orquestra. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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O prosciutto, ou o presunto cru, na mira do secretário preferido do casal Kirchner (foto da Wikipedia, de uso irrestrito)
O QUE: Na semana passada o secretário Guillermo Moreno emitiu uma ordem verbal que determinava a proibição da entrada de produtos alimentícios não frescos estrangeiros que rivalizem com seus similares fabricados na Argentina. Esse seria o caso do presunto cru espanhol e o italiano, que disputam o mercado interno com o presunto cru argentino. Outro caso seria o chocolate brasileiro. Os artigos alimentícios importados representam 3% dos produtos presentes nas gôndolas dos supermercados. A medida foi tomada sem avisar previamente os principais sócios comerciais da Argentina.
COMO: A ordem verbal de Moreno não dá detalhes sobre alimentos importados que, mais do que rivalizar, complementam a demanda interna argentina. Esse é o caso do milho brasileiro, que complementa a produção local para abastecer o mercado interno argentino. A ordem de Moreno implica no fim da venda de produtos alimentícios não frescos importados que concorram com os similares locais a partir do dia 1 de junho. A partir do dia 10 de junho os fiscais de Moreno percorrerão supermercados e demais comércios para verificar a aplicação da ordem.
QUEM: Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior e autor das ordens verbais para deter as importações de alimentos, é considerado o homem que faz o “trabalho sujo” da presidente Cristina Kirchner e do ex-presidente Néstor Kirchner. Moreno, desde que assumiu sua pasta em 2005, ficou famoso por seu modus operandi para intimidar empresários: colocar seu revólver sobre a mesa de reuniões, sem dizer palavra alguma. Moreno também costuma telefonar no meio da madrugada para a casa de empresários para pressioná-los. Seu vocabulário é pleno de palavras de baixo calão e alusões sexuais.
Moreno esteve encarregado de impor a política de congelamento de preços, como forma de combater a inflação, cuja escalada o governo Kirchner não conseguia deter. Perante o fracasso do congelamento em diversos setores, em 2007 Moreno interferiu no Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), para realizar uma camuflagem sem precedentes dos índices de inflação, desemprego e PIB.
O secretário conta com um grupo de professores de artes marciais, militantes do partido peronista, com os quais costuma impedir as constantes manifestações dos funcionários do Indec que protestam contra sua intervenção.
Embora seja formalmente subordinado do ministro da Economia, Moreno – protegido dos Kirchners – confrontou-se com diversos ex-ocupantes dessa pasta como se tivesse a mesma hierarquia no gabinete. Por sua capacidade de sobrevivência política, é ironicamente apelidado de “Highlander”, em alusão ao filme no qual um herói escocês torna-se imortal.
PORQUÊ: O governo explica que por trás da medida está a preocupação pelos preços cada vez mais baratos dos importados europeus, além do encolhimento do saldo comercial argentino nos últimos meses.
No entanto, a medida de Moreno, homem “blindado” pelos Kirchners, causa polêmica dentro do próprio governo, já que diversos organismos relacionados com o comércio, como a Secretaria de Indústria e a Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (ANMAT), estão tentando desvincular-se da polêmica medida.
CONSEQUÊNCIAS: Eventuais retaliações por parte do Brasil e da União Europeia.

Guillermo Moreno, Secretário de Comércio Interior, que impôs ordens verbais contra alimentos é o protegido dos Kirchners. Moreno, adepto da “mão dura comercial”, costuma fazer alarde de possuir genitália de colossais dimensões em reuniões com empresários.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com )
A ordem verbal emitida pelo secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, de impedir a partir do dia 1 de junho a comercialização de produtos alimentícios não frescos importados que rivalizem com similares nacionais, está sendo alvo de intensas críticas dentro do próprio país. O cenário é confuso, já que Moreno citou verbalmente apenas alguns produtos que seriam proibidos, mas não emitiu lista escrita alguma. Desta forma, os empresários não sabem exatamente quais produtos serão atingidos.
Um dos poucos produtos citados explicitamente por Moreno é o prosciutto, ou o presunto cru, que a Argentina importa da Espanha e da Itália, e é (nacional ou importado) parte sine qua non das “picadas” (mesa de petiscos) no país.
“Um absurdo a médio e longo prazo” foi a definição disparada pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, que alertou para o risco que a proibição de alimentos poderia causar à indústria nacional. “Evitar a competência implicará que o setor industrial ficará à margem das mudanças mundiais em matéria de tecnologia, produtos e investimentos”, disse.
Os analistas indicam que a medida não faz sentido como “blindagem protecionista” para os fabricantes locais, já que os produtos atingidos pela ordem verbal de Moreno representam uma pequena porção do total das importações feitas pela Argentina.
Segundo estimativas da consultoria Abeceb, os produtos equivaleriam a 1,5% das importações. “Mas, esta é só uma estimativa, já que não sabemos exatamente quais são os produtos afetados”, afirmou o economista Mauricio Claveri, da Abeceb.
Javier González Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirmou que a medida é um “grave erro”. Segundo ele, a medida de Moreno implicará, no máximo, a proibição de 5% das importações de alimentos, enquanto que eventuais retaliações poderiam criar obstáculos para parte das exportações argentinas de alimentos, que representam 50% do total produzido no país. “Não dá para entender a lógica do governo”, disse González Fraga.
INCOMPREENSÍVEL - A Câmara de Importadores da Argentina (Cira) protestou contra a medida, considerada arbitrária, e sustenta que já existe mercadoria detida no porto de Buenos Aires. Os principais jornais do país criticaram o governo da presidente Cristina Kirchner pela medida protecionista, afirmando que causará uma reação de retaliação comercial por parte dos países que exportam alimentos para a Argentina. Fontes do setor de supermercados afirmam que já existem problemas para a entrada de milho enlatado e bolachas Made in Brazil.
Jorge Rodrigues Aparício, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, declarou que esta crise comercial “é mais complicada do que em outras ocasiões, pois desta vez estamos perante algo que não existe, isto é, perante uma norma puramente verbal”. Segundo Aparício, é “incompreensível que isso tenha acontecido exatamente nos mesmos dias (na semana passada) em que estava sendo realizada em Buenos Aires a reunião de monitoramento comercial entre os dois países. O secretário-executivo do Ministério de Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, Ivan Ramalho, soube da medida pela imprensa e perguntou sobre ela…mas não teve resposta (das autoridades argentinas)”, disse.
Aparício ressaltou que “para complicar, existe uma situação eleitoral no Brasil. É um momento inconveniente para medidas como esta”.
MÍDIA CRITICA - A mídia argentina, de forma geral, disparou duras críticas contra a medida nacionalista do governo, e alertou sobre a iminente retaliação dos países atingidos. A mídia ressalta que na relação comercial com o Brasil, a Argentina tem muito mais a perder do que o parceiro do Mercosul em caso de retaliações.
A opinião pública também opõe-se à medida do governo Kirchner, que padece de elevados índices de impopularidade. Segundo uma pesquisa do site do jornal “La Nación”, 73,9% dos internautas são contra a proibição das importações.
BONZINHOS - O ministro da Economia, Amado Boudou, defendeu na terça-feira a aplicação de barreiras para impedir a entrada de produtos alimentícios importados similares aos elaborados dentro da Argentina. “Precisamos cuidar do mercado interno e os produtores argentinos”, indicou Bodou em declarações à rádio “La Red”.
Sem entrar em detalhes sobre a ordem verbal do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, para impedir as importações de milho, presunto cru e massa de tomate, entre outros, Boudou sustentou que a medida era positiva: “essa história de sermos bonzinhos e abrir nossas portas ao mundo, e, por exemplo, depois não podermos exportar limões aos EUA, é uma ideia muito romântica…mas é muito ingênua. A gente precisa deixar de ser inocente nestes assuntos”.
CRÍTICAS – O empresariado disparou uma série de críticas contra a medida de Moreno. Segundo a Coordenadoria das Indústrias de Produtos Alimentícios (Copal), que reúne as principais câmaras do setor, a decisão do governo Kirchner poderá provocar retaliações comerciais por parte de outros países: “toda medida de política comercial interna ou externa tem que respeitar os critérios dos tratados internacionais dos quais a Argentina é parte, já que é uma das garantias necessárias para evitar represálias no comércio mundial”. Segundo a Copal, diversos países já avaliam retaliações contra a Argentina.
ORDENS VERBAIS - Em diversas ocasiões, apesar das pressões políticas, a presidente Cristina recusou-se a demitir seu secretário. Ao longo dos últimos anos, as ordens verbais foram a marca de Moreno, que determinou congelamentos de preços e restrições para a exportação de produtos apenas por intermédio de ligações telefônicas a empresários ou às câmaras setoriais.
Brasil exporta chocolate para a Argentina. O produto poderia ser detido na fronteira caso o governo Kirchner não der marcha à ré. Imagem mostra dois príncipes mixtecas em papo animado enquanto bebericam um dos produtos comme il faut de seu império, o cacau. Ilustração do Códice Nuttall, do século XIV. Em náhuatl o chocolate era denominado de xocolatl; em maia, chocolhá.
SE BRASIL RETALIAR, ARGENTINA SERIA PREJUDICADA INTENSAMENTE – A consultoria argentina Abeceb, especializada em comércio exterior, afirmou nesta quarta-feira que eventuais retaliações do Brasil contra a Argentina – em revide às medidas de probição de importação de alimentos não frescos – poderiam afetar as economias de diversas províncias argentinas.
Segundo a Abeceb, “se nosso principal sócio comercial decidisse aplicar nesta oportunidade as mesmas medidas, o impacto mais significativo cairia diretamente sobre as economias provinciais que exportam ao Brasil”.
A Abeceb ressalta que as compras ao Brasil que poderiam ser suspensas pela ordem verbal do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, poderiam alcançar um total de US$ 81 milhões. Na contra-mão, eventuais retaliações brasileiras contra a Argentina poderiam provocar ao sócio do Mercosul prejuízos de US$ 351 milhões.
Entre as províncias que ficariam mais fragilizadas por retaliações estão as de Catamarca (que exporta óleo de oliva e azeitonas ao mercado brasileiro) e Santiago del Estero (cebolas). Outras províncias afetadas seriam as de Mendoza e San Juan (vinhos, alhos, ameixas e uvas), além de Neuquén (maçãs e peras). Diversas regiões da província de Buenos Aires, onde são fabricados produtos processados de batatas, também seriam duramente atingidas.

Tomates em lata Made in Brazil também estariam na mira de Moreno
UNIÃO EUROPEIA PEDE FIM DAS MEDIDAS DE RESTRIÇÃO
A delegação da União Europeia em Buenos Aires anunciou nesta quarta-feira no final da tarde que interpelou formalmente as autoridades argentinas sobre as restrições às importações de alimentos. A UE pediu ao governo da presidente Cristina Kirchner que não implemente as medidas anunciadas.
Segundo a UE, “tais restrições, se forem concretizadas, seriam incompatíveis com as normas da OMC e com os compromissos assumidos pela Argentina no marco do G-20”.
A delegação europeia sustenta que “sendo a Argentina um grande exportador de alimentos, tais medidas são inexplicáveis a poucos dias do possível relançamento das negociações comerciais entre a União Europeia e o Mercosul”. Segundo a UE, “tais negociações que a Argentina estimulou” durante sua presidência pro-tempore do Mercosul “tinham precisamente por objetivo aumentar os fluxos de importação e de exportação entre as partes”.
Mais sobre Guillermo Moreno nestas postagens de meses atrás:
Moreno e a inflação, aqui.
Moreno básico, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Fernando Lugo, ex-bispo, atual presidente do Paraguai, teme um golpe contra seu governo
Os líderes dos partidos da oposição no Paraguai dispararam intensas críticas contra as declarações que o presidente Fernando Lugo fez sobre supostas tentativas de armar um golpe de Estado contra seu governo. As declarações, segundo informações extraoficiais, teriam sido feitas pelo presidente paraguaio a seus colegas sul-americanos durante a reunião de cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada na semana passada em Cardales, a 70 quilômetros de Buenos Aires. Na cúpula, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007), eleito para o posto de secretário-geral da Unasul, teria prometido assumir como própria “a causa do Paraguai”. Kirchner, segundo as informações publicadas pelo jornal portenho “Ámbito Financiero”, destacou que Lugo sofre um “sério conflito com seu vice-presidente, Federico Franco”.
Lugo chegou ao poder em 2008, após derrotar o partido Colorado, que havia estado 61 anos ininterruptos no poder. Mas, para chegar ao Palácio de López, o palácio presidencial, Lugo – que não contava com uma estrutura partidária de peso própria – pactuou uma turbulenta aliança com o conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), além de partidos de esquerda.
O PLRA – que propiciou a Lugo mais de 60% dos votos que a coalizão teve nas eleições presidenciais – é representado pelo vice Federico Franco, com o qual o presidente mantém uma tensa relação desde antes da própria posse. Franco sempre criticou Lugo por ter colocado poucos representantes do PLRA no gabinete presidencial.
O ex-presidente Nicanor Duarte Frutos (2003-2008), representante do partido Colorado, de oposição, afirmou ao jornal “ABC Color” que as declarações de Lugo a seus colegas da região sobre um complô “é um relato farsante”. Segundo Duarte Frutos, “Lugo tem uma enorme fraqueza por sua falta de capacidade de construir consensos políticos básicos. Por causa dessa fraqueza tenta instalar no imaginário internacional o relato farsante de conspiração golpista”.
O analista político Bernardino Cano Radil disse ao Estado que “um golpe de Estado é absolutamente inviável no Paraguai. Nem as Forças Armadas, nem os partidos políticos estão pensando nisso. É apenas propaganda do governo para justificar sua incapacidade de poder negociar. O presidente não quer sentar para conversar com as principais forças do Parlamento, sequer com seu vice”.
GUERRILHA – O foco mais recente da crise entre Lugo e Franco foi gerado pela suposta guerrilha do autodenominado Exército do Povo Paraguaio (EPP), responsável por uma série de sequestros e roubos na região norte do país nos últimos dois anos. Lugo, para combater o EPP, declarou estado de exceção em cinco departamentos (equivalentes a estados) e enviou tropas do Exército para perseguir e deter os integrantes da suposta guerrilha.
No entanto, o vice-presidente Franco afirmou que a declaração de estado de exceção era um exagero que constituía um “show midiático”.
O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, em entrevista ao Estado na sexta-feira à noite em Buenos Aires, afirmou que o EPP “não é uma guerrilha…é um grupo de criminosos. São pessoas armadas, perigosas. Mas, não é nem um exército nem uma guerrilha. Não são capazes nem de desestabilizar o país, nem muito menos de atentar contra as instituições democráticas. Mas, repito que não é um problema que deva ser minimizado, pois são pessoas muito bem treinadas, que já roubaram, sequestraram e assassinaram”.
Filizzola, que pertence ao pequeno Partido Democrático Progressista, que integra a coalizão de Lugo, criticou setores “que estão perdendo seus privilégios” (em alusão ao partido Colorado) que estão utilizando o surgimento do EPP para “aproveitar-se da situação”: “precisamos colocar este problema em um contexto histórico. Estamos superando uma História de décadas de hegemonia de um partido político. Isso significou que pessoas que por muito tempo desfrutaram de privilégios políticos que agora os estão perdendo. O EPP e outros assuntos são usados para fazer ataques políticos ao governo Lugo. O EPP como tal não tem possibilidade de colocar em risco a vigência das instituições democráticas. Mas, sim, existem setores radicalizados que estão perdendo seus privilégios e estão aproveitando-se da situação”.

Uma viúva: “Valentina de Milão, chorando pela morte de seu marido Louis de Orléans” (ao redor de 1802). Obra no Museu Hermitage, em São Petersburgo. Quadro de François Fleury-Richard (1777-1852).
‘TER VICE É COMO DORMIR COM A VÍUVA’
“Ter um vice é como dormir com a própria viúva” é uma das definições existentes sobre o cargo de vice-presidente, em alusão à pessoa que só adquirirá a herança política – isto é, o cargo máximo de uma república – quando o presidente falece, renuncia ou é removido. No Paraguai, no entanto, o posto de vice-presidente foi costumeiramente denominado de “vaso de flores”, já que considera-se que sua função é meramente decorativa.
O país não teve vice-presidente durante toda a ditadura do general Alfredo Stroessner (de 1954 a 1989), além da primeira presidência com a volta da democracia, a de Andrés Rodríguez (1989-93), que desconfiado dos vices, tal como seu antecessor, preferiu não implantar o cargo. A partir de 1994 o Paraguai passou a contar com o posto.
Um vice, Luis María Argaña, terminou seus dias de forma trágica, já que foi assassinado com o corpo cravejado de balas, em 1999, quando estava há menos de um ano no posto. Sua morte ainda está submersa em especulações, já que existem diversas teorias para o crime. No entanto, todas possuem um ponto em comum, o de que a trágica morte de Argaña servia para desestabilizar o governo do presidente Raul Cubas Grau, que teve que abandonar o cargo – e o país – poucos dias após o assassinato.
VICE ARGENTINO – No entanto, na Argentina os vices tiveram maior protagonismo em crises. Esse foi o caso de Isabelita Perón, vice de seu próprio marido, o presidente Juan Domingo Perón, que assumiu a presidência do país quando este faleceu em 1974. Seu governo foi caótico e acabou com o golpe de Estado de 1976.
Após a volta da democracia vários presidentes tiveram relações conturbadas com seus vices. Esse foi o caso de Carlos ‘Chacho’ Álvarez, vice do presidente Fernando De la Rúa, que no ano 2000 renunciou depois que este não demonstrou interesse em avançar com as investigações sobre um escândalo no Senado. Sua renúncia deu início à desconfiança dos mercados sobre o país, que em pouco mais de um ano afundou na pior crise de sua História, a de 2001-2002.
O atual vice argentino, Julio Cobos, integrante da União Cívica Radical (UCR), foi o escolhido pelo casal Kirchner para ser o vice na chapa de Cristina Kirchner em 2007. No entanto, em julho de 2008 ele rompeu com os Kirchners ao declarar respaldo aos ruralistas, que estavam em conflito com o governo. De lá para cá, a popularidade de Cobos cresceu de forma exponencial. Para irritação dos Kirchners, o outrora pacato vice atualmente é um dos presidenciáveis mais cotados para as eleições de 2011.

Cena de “A Viúva Alegre”, do compositor austro-húngaro Franz Léhar. Ali vemos Hanna Glawari, a personagem protagonista, intensamente paparicada. E já que estamos em ritmo de opereta, um link do Youtube para uma famosa cena desta obra, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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“O geógrafo”, óleo em tela de Johannes Vermeer (1632-1675). A obra, pintada entre 1668 e 1669, está no Steadelsches Kunstinstitut, em Frankfurt. Vermeer pintou este quadro para mostrar a influência crescente, na época, do saber científico na Europa. Segundo as autoridades argentinas, os professores das escolas aproveitarão os jogos da Copa do Mundo para “transmitir noções de geografia e dados culturais” sobre o país anfitrião da Copa e os países das seleções que enfrentarão a Argentina. Mais detalhes sobre esta obra (a de Vermeer), aqui.
“Não podemos dizer às crianças que venham às aulas, exatamente quando a Argentina está colocando a vida em jogo!”. Com estas palavras – ditas em tom dramático – o técnico da seleção argentina de futebol, Diego Armando Maradona – defendeu o plano do governo da presidente Cristina Kirchner de estimular as escolas públicas em todo o país para que “flexibilizem” os horários, de forma que os estudantes possam assistir aos jogos protagonizados pela Argentina durante a Copa do Mundo da África do Sul nas salas de aula.
As enfáticas declarações de Maradona foram pronunciadas durante o lançamento do livro didático que será enviado a 25 mil escolas com diretrizes para os professores sobre como transmitir às crianças aquilo que o governo denomina de “o lado cultural” da Copa.
Segundo Maradona, graças à competição mundial na África do Sul as crianças argentinas poderão “saber quem é Nelson Mandela, que esteve preso mais de 25 anos por defender os direitos na África do Sul”.
Ao lado de Maradona, o ministro da Educação, Alberto Sileoni, afirmou que a Copa do Mundo é “um fato cultural muito importante, uma festa, e pode ter um grande efeito pedagógico”.
Sileoni, fanático do futebol – e que não parava de sorrir ao lado de Maradona – apresentou um argumento ‘moral’ para defender a suspensão das aulas para assistir os jogos da Copa: “é que também aprendem-se valores dentro dos estádios…os alunos sabem que vão na escola não somente para aprender teoremas, mas também para cultivar os valores que são representados pelos jogadores”.
A medida causou intensa polêmica. Comentaristas esportivos e políticos alegaram que a suspensão das aulas para os alunos das escolas argentinas poderia ser aproveitada para aprender geografia – durante os jogos – graças às referências incontáveis que ocorreriam na TV e rádio sobre as seleções rivais da Argentina.
Alguns até argumentaram – recorrendo a Pitágoras e Tales de Mileto – que seria possível aplicar teoremas para fazer alusões entre um escanteio ou um tiro de meta com a geometria durante os jogos assistidos na sala de aula.
No entanto, diversos pedagogos e pais de família duvidam que os alunos fiquem concentrados nas explicações sobre geometria e os principais rios e montanhas da topografia sul-africana, e consideram que a medida não passa de populismo explícito.

Πυθαγόρας ο Σάμιος, isto é, Pitágoras de Samos (circa 580 aC a circa 490 a.C)…

…e o Θαλῆς ὁ Μιλήσιος, nosso batuta Tales de Mileto (639 a.C a 547 a.C), voltam à baila em Buenos Aires, usados em defesa da Copa do Mundo.
Mario Oporto, secretário da Educação da província de Buenos Aires (que concentra 40% dos alunos de todo o país), discordou dos “efeitos culturais” argumentados pelo governo da presidente Cristina Kirchner: “a Copa não gerará um fato pedagógico…não acho que por causa de um jogo as crianças aprendam algo!”.
Mas, pressionado pelo governo Kirchner, o governador bonaerense, Daniel Scioli, aliado do casal presidencial, ordenou a “flexibilização” das atividades escolares durante a Copa, e disse que estão “bem” os eventuais atrasos dos alunos para chegar à escola por causa dos jogos. O motivo, segundo Scioli, é que esse torneio mundial “é um evento cultural e patriótico”.
Na Argentina, as escolas públicas (com raras exceções) estão sob controle das províncias. O governo federal não pode obrigar as províncias a flexibilizar os horários para os dias da Copa. No entanto, nos últimos dias – após relativa resistência – a maioria das províncias aderiu à iniciativa federal.
Gustavo Iaies, presidente da Fundação Centro de Estudos em Políticas Públicas, discorda. Segundo ele, a autorização do governo para que os jogos possam ser assistidos livremente não possui “justificativa pedagógica”.
Iaies sustenta que os alunos, em vez de aprender conteúdos, passarão horas assistindo os jogos. “Ora, essas crianças vão prestar atenção nos jogos, nos resultados, nas torcidas. Como qualquer pessoa, deverão ter que recuperar posteriormente o tempo que iam dedicar para o cumprimento de suas obrigações”.
Os analistas políticos consideram que o Parlamento, que pouco funcionou ao longo deste ano (basicamente por falta de quórum do governista partido Peronista) ficaria totalmente paralisado ao longo de todo o mês que transcorrerá entre o início e o final dos jogos na África do Sul.

ESQUERDA E DIREITA UNEM-SE NO CHILE
Do outro lado da Cordilheira dos Andes, a esquerda e a direita do leque político concordam em “flexibilizar” os horários trabalhistas e escolares para que os chilenos possam assistir os jogos disputados por sua seleção nacional.
O caso será debatido nos próximos dias no plenário do Parlamento, onde o deputado socialista Fidel Espinoza apresentou um projeto de lei para permitir que os chilenos possam ver os jogos sem restrições.
“Tivemos um ano péssimo com o terremoto (de 8,8 graus na escala de Richter, que causou a morte de centenas de pessoas e graves prejuízos em fevereiro). Por isso, acreditamos que será uma festa única e fantástica, que queremos aproveitar”, argumentou Espinoza, que – além de destacar a condição sui generis do Chile nesta Copa por causa do sismo – ressaltou que esta é a primeira vez em 12 anos que o Chile participa de uma Copa.
O ministro da Educação, o conservador Joaquín Lavín, costumeiramente um ácido crítico dos socialistas, respaldou enfaticamente o projeto de lei de Fidel Espinoza: “os meninos precisam ver os jogos da Copa!”
…E já que falamos em Tales de Mileto, segue um link com o grupo musical humorístico argentino Les Luthiers, cantando o “Teorema de Tales”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Esta é a primeira vez na História do mundo que – simultaneamente – uma chefe de Estado (Cristina Kirchner) tem um cônjuge (Néstor Kirchner) no comando de um organismo internacional (foto da presidência da República)
Personagem: Néstor Kirchner, ex-presidente argentino, esposo da atual presidente argentina (Cristina Kirchner)
Entidade: União das Nações Sul-americanas (Unasul), que reúne doze países da América do Sul (Peculiaridade: a Argentina ainda não aprovou a criação da Unasul).
Posto: Secretário-geral da Unasul, cargo de dois anos de mandato, teoricamente de dedicação exclusiva. Isto é, teria que abandonar os cargos de deputado federal e de presidente do partido Justicialista (Peronista). Mas, nesta terça-feira à noite, cinco horas após ter sido designado secretário-geral da Unasul, Kirchner participou de uma sessão da Câmara de Deputados.
Requisitos: Capacidade de consenso para lidar com crises internas da América do Sul e aptidão para representar a região perante governos de outras regiões.
Sede da Unasul: Quito, capital do Equador. Sede, pero no mucho, já que Rafael Correa, presidente equatoriano, disse que a sede pode ser transferida provisoriamente para Buenos Aires, para facilitar a vida de Kirchner.
Argumento em defesa de Kirchner: “Ele conhece o continente” (presidente Lula)
Argumento contra Kirchner: “Em vez de integrar, vai desintegrar. Sua cultura é a do confronto” (ex-presidente Duhalde)
O ex–presidente Néstor Kirchner, famoso por sua falta de tato e tendência ao confronto, foi eleito nesta terça-feira para o cargo de Secretário-geral da União de Nações Sul-americanas (Unasul) com a missão de aprofundar a integração dos países da região. Kirchner – que já acumula o cargo de deputado e presidente do partido Justicialista (Peronista) – foi eleito por consenso entre os doze governos sul-americanos para um mandato de dois anos, renovável por uma única vez.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva proclamou seu apoio de forma enfática. “Penso que a designação do companheiro Kirchner na Secretaria-geral da Unasul é uma consolidação” para esta entidade, “já que ele conhece o continente”, afirmou. “Ele está 100% apto para ser secretário-geral”, arrematou.
GUINESS BOOK - Esta é a primeira vez na História do mundo que – simultaneamente – uma chefe de Estado (Cristina Kirchner) tem um cônjuge (Néstor Kirchner) no comando de um organismo internacional. De quebra, a Argentina, além de ficar no comando da Unasul, também estará na chefia do Mercosul, pois a secretaria-geral do bloco do Cone Sul está desde o ano passado nas mãos do argentino Agustín Colombo Sierra.
O Uruguai havia sido o principal obstáculo para a aprovação de Kirchner nos últimos dois anos. Por trás da resistência uruguaia à essa designação estava o conflito que o país possui desde 2005 com a Argentina, cujo pivô é a fábrica de celulose Botnia, instalada sobre as margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira dos dois países. Para protestar contra a fábrica, manifestantes argentinos – respaldados por Kirchner – realizam há quatro anos piquetes de forma ininterrupta na fronteira que impedem a livre entrada de mercadorias no Uruguai. No entanto, com o intuito de desativar o conflito, o presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, afirmou que apoiaria a designação de Kirchner, “apesar do alto custo político” que isso lhe causaria no cenário político interno.
Mas, longe de celebrar a designação de um argentino, a eleição de Kirchner foi criticada intensamente por seus próprios compatriotas, entre eles o ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) – um dos defensores da criação da Unasul em seus primórdios em 2004 – que sustentam que o temperamental Kirchner só causará mais problemas dentro da região. “Kirchner não vai integrar a América do Sul…ele é um fator de desintegraçao”.
Na terça-feira, o tradicional jornal “la Nación” dedicou seu editorial para analisar a eleição de Kirchner para a Unasul. Em alusão aos vários casos de corrupção dos quais o ex-presidente é suspeito, o jornal afirma que “seria triste que o primeiro presidente da Unasul fosse atingido por um escândalo”. Em tom fúnebre, o “La Nación” indica que “a unção do ex-presidente argentino será um réquiem para a Unasul”.
Aqui vai um link do jornal La Nación, desta quarta-feira, sobre a polêmica da dedicação exclusiva (ou não) de Kirchner à secretaria, aqui.
O presidente chileno, Sebastián Piñera, que debutou em sua primeira cúpula internacional, apoiou a candidatura de Kirchner, mas foi na contra-mão das tradicionais declarações de intenções sobre “sonhos latino-americanos” das cúpulas regionais ao ressaltar que a região deve estabelecer “metas ambiciosas” para intensificar a integração. “É preciso diferenciar sonhos de projetos. Os sonhos não possuem prazos nem metas. Nós precisamos projetos!”.

Segundo ex-presidente Eduardo Duhalde, Kirchner, será fator de desintegração regional . Mapa que mostra como era a região há um século.
ESTILO K: CONFRONTOS E ALERGIA A PROTOCOLO
“Não cheguei ao governo para ficar indo de cocktail em cocktail”. A frase foi disparada em 2004 pelo então presidente Néstor Kirchner para explicar suas costumeiras ausências em recepções a presidentes de outros países, reuniões com empresários, além de cúpulas internacionais. Naquele ano recusou-se a ir à reunião de presidentes em Cusco, no Peru, na qual seria criada a Comunidade Sul-americana de Nações, que em 2008 adquiriria o nome de Unasul.
De lá para cá, Kichner continuou exibindo aversão a todo tipo de convescotes presidenciais. Seus assessores, ao longo destes anos, confessaram em diversas oportunidades: “ele não suporta essas formalidades”. Paradoxalmente, Kirchner foi eleito secretário-geral da Unasul para propiciar “mais institucionalidade” à essa organização internacional.
Na lista de vítimas da aversão de Kirchner ao protocolo e boas maneiras esteve a Petrobrás, que em 2004 foi alvo de dois adiamentos da assinatura de um acordo de ampliação de um gasoduto. Carly Fiorina, na época a CEO mundial da Hewlett Packard, esperou 40 minutos sentada em um corredor da Casa Rosada por uma reunião com Kirchner até que foi informada – sem maiores explicações – que o encontro havia sido cancelado.

Presidentes e empresários foram vítimas do desprezo de Kirchner. O então presidente Vladimir Vladimirovich Putin, ou, Владимир Владимирович Путин (no alfabeto de Nikolái Andréyevich Rimsky-Korsakov e de María Yúrievna Sharápova), esperou por Kirchner inutilmente. A culpa do atraso: um quitute tcheco.
Os reis da Espanha – o país que protagonizou os maiores investimentos estrangeiros na Argentina – também foram alvo de Kirchner, que os deixou esperando duas horas na cidade de Rosario.
O presidente chinês, Hu Jintao, em sua única visita à Argentina foi tratado com desprezo por Kirchner, que, no encontro oficial na Casa Rosada, mostrou desalinho, com direito à paletó desabotoado e mocassins sem lustrar.
O presidente do Vietnã, Tran Duc Lueong, em sua visita à Buenos Aires, ficou esperando Kirchner no jantar oficial (que o próprio Kirchner havia convocado). No entanto, não deu as caras. Seus assessores explicaram que estava doente. Mas, fontes do governo confirmaram que Kirchner havia estado trabalhando no palácio presidencial até altas horas da noite.
Kirchner também protagonizou um desplante com o então presidente Vladimir Putin. O argentino havia pedido um encontro com russo no aeroporto de Moscou, onde faria uma escala técnica entre Praga e Beijing. No entanto, o avião de Kirchner não apareceu na hora marcada. Putin, depois de esperar, voltou – furioso – para o Kremlin.
A comitiva argentina, na ocasião, alegou que problemas climáticos haviam atrasado o voo entre Praga e Moscou. Mas, os mapas meteorológicos do dia indicam que o trecho entre a capitais tcheca e russa era um “céu de brigadeiro”. Extraoficialmente, fontes do governo admitem que o atraso de Kirchner em Praga foi causado pela degustação de quitutes tchecos em um emblemático restaurante da cidade, que o então presidente argentino insistiu em experimentar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também foi vítimas das repentinas mudanças de humor de Kirchner. Esse foi o caso de uma cúpula de presidentes dos países do Grupo do Rio, realizada no Rio de Janeiro. Kirchner foi esperado para a reunião, à qual só comunicou que faltaria no próprio dia do encerramento. Desde que Kirchner chegou ao poder em 2003, os argentinos denominam essa forma de ser de “estilo K”.
PRESIDENTE DE UM CLUBE DO QUAL NÃO É SÓCIO

O cômico Groucho Marx dizia que nunca aceitaria pertencer a clube que o aceitasse de sócio. Charge do genial Al Hirschfeld (1903-2003) que mostra, da esquerda para a direita, CW Fields, Charles Chaplin, Buster Keaton e o citado Groucho.
A União de Nações Sul-americanas teve na terça-feira o paradoxo de eleger como secretário-geral do bloco um cidadão de um país que ainda não ratificou em seu Parlamento o tratado da Unasul.
A Câmara de Deputados da Argentina ainda não aprovou como lei o tratado que estabelece a criação dessa entidade regional. “É como ser presidente de um clube do qual ainda não é sócio”, disse um diplomata de um país do Mercosul ao Estado, em alusão à insistência de Kirchner em tornar-se secretário-geral da Unasul.
Tempo para a aprovação houve de sobra, já que o governo remeteu o tratado de formação da Unasul para ratificação parlamentar em setembro de 2008. Em dezembro daquele ano o Senado argentino aprovou o tratado. Mas, ficou pendente a ratificação da Câmara de Deputados.
Maioria para aprovar o tratado também existiu na maior parte desse período, já que entre setembro de 2008 e dezembro do ano passado o governo da presidente Cristina Kirchner – uma enfática defensora da Unasul – contou com maioria na Câmara de Deputados.
Somente quatro dos doze países da Unasul aprovaram o tratado que a cria.
OCIOSAS - Em dezembro de 2004, quando os presidentes da América do Sul reuniram-se em Cusco, no Peru, para formar a Comunidade Sul-americana de Nações (posteriormente denominada de Unasul), o então presidente Kirchner – que na época não concordava com sua criação, preferiu não participar. Uma semana antes da reunião, Kirchner deixou claro o motivo: “só vou a cúpulas que considero importantes”. O chanceler de Kirchner, Rafael Bielsa, arrematou o argumento de seu chefe: “algumas cúpulas são um pouquinho ociosas…”.
DA ‘CASA’ À ‘UNASUL’
Em dezembro 2004, durante a terceira reunião de presidentes sul-americanos, na peruana cidade de Cusco, foi criada uma organização paralela às outras entidades regionais (como o Mercosul e a Comunidade Andina). Desta forma, inaugurou-se a Comunidade Sul-americana de Nações.
A sigla, no início, tornou-se assunto de debate, já que no Brasil foi “CASA”, enquanto que nos outros países adotou-se a designação “CSN”. Em abril de 2007 os presidentes da região, com a intenção de mostrar mais integração, decidiram mudar seu nome para “Unasul” (“Unasur”, para os países hispano-falantes; “Usan” na Guiana, onde fala-se o inglês e “Uzan” no Suriname, onde o idioma é o holandês).
A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unsaul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (administradas pela Grã-Bretanha).
A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional criada com a intenção de aprofundar a integração econômica, política e de defesa da região é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.
O tratado de criação da Unasul estipula que a sede do quartel-general será em Quito, Equador. Por outro lado, a sede do futuro “Parlamento da América do Sul” estará na cidade boliviana de Cochabamba, enquanto que o edifício do “Banco do Sul está, por insistência do presidente Hugo Chávez, em Caracas, Venezuela.
Desde sua criação, a Unasul respaldou o presidente Evo Morales para evitar movimentos autonomistas na Bolívia e suavizou as tensões fronteiriças entre a Colômbia e a Venezuela em 2009.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Louis Pasteur (1822-95) jamais deve ter imaginado que seu invento poderia ser – metaforicamente – usado para indicar que a imprensa precisava “vacinas”. Pasteur no quadro feito em 1885 pelo finlandês Albert Edelfelt (1854-1905), exposta na sala Symbolisme do Museu D’Orsay, em Paris..
Na semana passada o casal Kirchner disparou uma nova saraivada de críticas contra a imprensa. A presidente Cristina Kirchner, durante uma visita à uma indústria farmacêutica que fabrica vacinas, não perdeu a oportunidade de fazer alusões sobre a hidrofobia e a mídia e sustentou que diversos jornalistas “deveriam ser vacinados com a antirrábica” por causa das críticas que fazem contra o governo.
Na sequência, quatro horas depois, em discurso a aliados do partido Justicialista (Peronista) e da Confederação Geral do Trabalho (CGT) – a maior central sindical do país – o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e que poderia nesta terça-feira transformar-se no Secretário-geral da Unasul (isto é, no representante que a região teria perante o mundo) – também disparou contra a imprensa.
Segundo o cônjuge da presidente os meios de comunicação “são a primeira força da oposição” e uma “máquina de impedir”.
Ao longo dos últimos anos os Kirchners dispararam frequentes críticas principalmente contra jornalistas do Grupo Clarín, o jornal La Nación, a revista Notícias e o jornal Perfil, além de canais de TV e rádio.
‘TRIBUNAL POPULAR’ CONTRA JORNALISTAS
A tensão entre o jornalismo argentino e o governo da presidente Cristina Kirchner intensificou-se mais ainda na quinta-feira com a realização de um “tribunal popular” convocado pela organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Mayo para “julgar” diversos jornalistas por hipotética colaboração com a ditadura militar (1976-83).
O julgamento dos jornalistas – coincidentemente, todos críticos do casal Kirchner – foi duramente criticado pelos partidos de oposição e associações de defesa da liberdade de imprensa.
Integrantes do governo, como Miguel Pichetto, líder do bloco kirchnerista no Senado, defenderam o formato de julgamento “político e ético” preparado pelas Mães.
O tribunal, realizado em plena Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, o palácio presidencial, foi presidido pela líder das Mães, Hebe de Bonfini, que agiu como juíza auto-designada.
Bonafini, que na véspera do julgamento disse que as condenações já estavam definidas, tornou-se uma figura polêmica nas últimas duas décadas, já que respaldou ao grupo terrorista basco ETA, a guerrilha zapatista e até teceu longos elogios a Ossama Bin Laden.
Um dos integrantes do tribunal convocado por Bonafini foi Néstor Busso, designado pela presidente Cristina para o posto de diretor do Conselho Federal de Comunicação.
Entre os convidados de honra do tribunal estava, paradoxalmente, o jornalista esportivo Marcelo Araujo, que durante a pior fase da Ditadura Militar, em 1978, respaldou ativamente a realização da Copa do Mundo da Argentina (evento esportivo usado intensamente pelo regime para distrair a atenção da população sobre as graves violações aos Direitos Humanos).
No entanto, Bonafini deixou o passado de Araujo de lado, pois o jornalista, desde o ano passado, foi o escolhido pelos Kirchners para tornar-se o locutor oficial do estatal Canal 7, a TV Pública, que transmite todos os jogos de futebol (cuja transmissão foi estatizada pela presidente Cristina Kirchner, em troca de um suculento contrato com os clubes de futebol).
Uma das jornalistas colocadas no virtual banco dos réus, Magdalena Ruiz Guiñazú, acusou Bonafini: “esse tribunal foi inventado para restringir a liberdade de expressão”.
A jornalista retrucou as acusações da líder das Mães ao resgatar uma gravação de 1984 na qual Bonafini lhe agradece por ser a primeira jornalista argentina que divulgou a causa da organização, que procurava seus filhos, desaparecidos durante a ditadura.
Nas últimas duas semanas os muros da capital argentina foram cobertos com cartazes de autoria anônima com nomes e fotos de jornalistas que criticam a lei de mídia do governo, atualmente suspensa por determinação da Justiça.
Gabriel Mariotto, diretor do Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer), o principal organismo governamental que regula a mídia, defendeu a iniciativa, afirmando que tratava-se apenas de “uma expressão”.
Associações de jornalistas fizeram um apelo à presidente Cristina para deter o que denominaram de “linchamento público” de profissionais da mídia.
O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea), registrou em 2009 147 ataques contra jornalistas em todo o país.
DISSIDÊNCIAS - A convocação não foi acompanhada de forma unânime pelas mães. Esse foi o caso das integrantes da organização ”Mães-Linha Fundadora”, setor que separou-se de Bonafini há quase 20 anos. Esta ala prefere um perfil político mais baixo, e dedica-se exclusivamente à procura dos corpos de seus filhos desaparecidos durante a ditadura.
PRESSÕES
Diversas oganizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que a Argentina passa atualmente por um dos “momentos mais críticos para a liberdade de imprensa” desde a volta da democracia, em 1983.
A tensão intensificou-se em março de 2008, quando a presidente Cristina acusou os meios de comunicação de liderar uma tentativa de “golpe de Estado”.
O sindicato dos caminhoneiros, aliado dos Kirchners, em diversas ocasiões realizou no ano passado bloqueios nas portas das gráficas dos jornais “La Nación” e “Clarín”, impedindo a distribuição dos exemplares em diversas ocasiões. A polícia, apesar de chamada, não apareceu para impedir os piquetes.
Segundo os empresários do setor de mídia, os meios de comunicação argentinos estão “sofrendo uma inédita campanha de insultos ao jornalismo por parte do poder político”. Além disso, criticam a distribuição que o governo faz da publicidade oficial, pois privilegia jornais favoráveis à administração Kirchner, mesmo que estes sejam de baixa circulação.
Além disso, as entidades jornalísticas criticaram “a recente negativa do governo em fornecer informação pública sobre as quantias” gastas na publicidade oficial por parte da presidente Cristina.
No ano passado o governo aprovou – no meio de uma votação cheia de irregularidades – a polêmica “Lei de Mídia”, que implica em uma série de limitações para as existentes empresas de mídia e favorece o surgimento de grupos de mídia alinhados com o casal Kirchner (além de favorecer a Igreja Católica).
A lei está temporariamente suspensa na Justiça. No entanto, o governo tenta reverter a situação com apelos nos tribunais. Há poucos dias o assunto foi remetido à Corte Suprema de Justiça.
E para encerrar, algo mais light: o humor do grupo musical argentino Les Luthiers, nestes links:
http://www.youtube.com/watch?v=O-N9z34cVGA&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=CoFWL5yEMMw
http://www.youtube.com/watch?v=plaVQTDGnEE&feature=related
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/
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