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Ariel Palacios

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O ex-guerrilheiro tupamaro Jose ‘Pepe’ Mujica reciclado em floricultor, não conseguiu vencer as eleições presidenciais deste domingo no Uruguai no primeiro turno. Mujica de acordo com as projeções de grande parte dos votos apurados, ficou em primeiro lugar, com 48% dos votos. Mas, desde a reforma constitucional de 1996, para vencer no primeiro turno é necessário obter metade mais um dos votos. Desta forma, Mujica terá que enfrentar o segundo colocado nas urnas, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco), que teve, segundo dados ainda não definitivos, 30% dos votos.

Ambos candidatos, no entanto, não despertam paixões no eleitorado. Ao contrário, enfrentam restrições em vários setores de seus respectivos partidos e na militância.

Mujica não conseguiu capitalizar os mais de 60% de popularidade de seu correligionário e presidente da República Tabaré Vázquez, um socialista light.

Lacalle teve menos votos que seu colega (e candidato a vice) teve nas eleições presidenciais de 2004, Jorge Larrañaga, que conseguiu ha meia década 34% dos votos (Lacalle, neste domingo, teria tido 30% dos votos).

O segundo turno, que promete ser acirrado, será no dia 29 de novembro.
O embate será entre o floricultor que deseja ‘ordenhar a burguesia’ e o ex-presidente que promete passar a ‘serra elétrica orçamentária’ no gasto público.

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Mujica e Manuela, sua ‘cachorra política’, no sítio do ex-guerrilheiro nos arredores de Montevidéu

O ORDENHADOR DA BURGUESIA
Uma cachorra de 16 anos de idade, com a perna dianteira esquerda amputada, corre alegremente ao redor de um septuagenário floricultor na periferia da capital uruguaia. A cachorra é Manuela, a mascote do ex-guerrilheiro tupamaro, ex-ministro da agricultura e senador José ‘Pepe’ Mujica, de 74 anos, candidato da coalizão de governo Frente Ampla à presidência do Uruguai. Mujica acaricia a fiel companheira e ressalta que é a única “cachorra política” da História de seu país.

A afirmação tem seus motivos, já que Manuela é presença frequente nas carreatas e comícios de Mujica. A imagem da militante canina vira-lata potencia o tom de informalidade deste ex-preso político da ditadura (1973-85). Mujica abomina as gravatas e despreza o protocolo. Mas, coloca limites em sua privacidade.

Esse foi o caso de uma visita inesperada que recebeu poucos dias antes das eleições. Um grupo de jornalistas estrangeiros, entre eles o Estado, apresentou-se na porteira de seu sítio de 34 hectares. Mujica disse categoricamente que não daria entrevistas, pois estava recluído para preparar-se para o dia das eleições.

No entanto, levou o grupo em uma breve visita guiada por seu estabelecimento, onde possui viveiros de flores e planta hortaliças. Mujica lamentou o aquecimento global, que causou uma seca intensa na região que afetou suas plantações.
A simples casa onde mora com sua esposa, a senadora Lucia Topolansky, também ex-guerrilheira, é um retrato da modéstia na qual o casal vive.

Os meios de locomoção de Mujica também ilustram seu espartano modus vivendi. Durante duas décadas teve uma lambreta que – segundo depoimento de amigos – “caía aos pedaços”. Mas, há menos de cinco anos, já no governo de Tabaré Vázquez, optou por incrementar sua forma de transporte e adquiriu um Fusca modelo 1982.

Se for eleito no segundo turno, Mujica, mais conhecido como ‘Pepe’, se transformará no primeiro ex-guerrilheiro que chegará à presidência de uma República na América do Sul.

Mujica nasceu em Montevidéu no dia 20 de maio de 1935, no seio de uma família de austera classe média . Na juventude militou por partido Nacional (Blanco). Mas, nos anos 60 optou pelos movimentos de esquerda e integrou o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros.

Rapidamente tornou-se um dos principais líderes do grupo que protagonizou as principais ações da guerrilha armada no Uruguai. Em 1969, durante algumas horas, os tupamaros tomaram a cidade de Pando. Durante confrontos com as forças de segurança, Mujica foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Preso várias vezes, na última etapa de detenção, o então guerrilheiro sofreu treze anos de cárceres, ao longo dos quais foi torturado

Em 1985, com a volta da democracia, recuperou a liberdade. Mujica aproveitou os novos tempos e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que posteriormente integrou a coalizão Frente Ampla, uma colcha de retalhos de sucesso que aglutina socialistas, comunistas e democratas-cristãos.

Mujica foi eleito senador e em 2005, com a posse do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da agricultura. Nesse posto, indicou – com uma metáfora pecuarista – que não pretende mais combater a “burguesia”, mas sim, usá-la a favor da economia: “não quero esmagar a burguesia…eu quero é ordenhá-la”.

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Lucía Topolansky, ex-guerrilheira, senadora e esposa de Mujica. Tudo indica que poderia ser a presidente do Senado. Quando participava das operações da guerrilha, no início dos anos 70, ia inexoravelmente maquiada.

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Lacalle é neto de caudilho histórico uruguaio

O FREDDY KRUEGER DA ESQUERDA, JASON DO GASTO PÚBLICO
Luis Alberto Lacalle ouviu falar sobre política desde que era um bebê mimado por seu avô, Luis Alberto de Herrera, um dos mais famosos caudilhos do partido Nacional (Blanco) do século vinte, que costumava embalá-lo sobre seus joelhos enquanto reunia-se com outros correligionários para discutir manobras políticas. Nesse ambiente embebido de debates, Luis Alberto cresceu e direcionou seus passos para seguir a trilha aberta pelo avô.

Desta forma, militou na política desde os 18 anos, quando afiliou-se formalmente no partido Nacional. Nos anos 70 foi detido pela ditadura durante umas poucas semanas. Liberado, integrou os movimentos de oposição à ditadura. Em 1978 a ditadura tentou envenená-lo com vinho, mas alertado por sua esposa, Julia Pou, não experimentou a bebida. Outro colega seu, que havia recebido uma garrafa similar, morreu imediatamente após provar o vinho.

Com a volta da democracia foi eleito deputado e senador. Em 1989 venceu as eleições presidenciais com 22,57% dos votos (na época, o país não contava com um segundo turno). Em 1990 tomou posse e deu início a um governo que causou polêmicas com tentativas de privatizações, tema tabu na sociedade uruguaia, acostumada à uma economia com forte presença estatal. Seu governo também sofreu diversas denúncias de corrupção.

Em 1999 tentou voltar à presidência. Mas, amargou terceiro lugar. Em meados deste ano venceu a conveção partidária. Aos 68 anos, espera impedir uma vitória da Frente Ampla no primeiro turno, e assim, no segundo turno, capitalizar os votos de seu partido e do partido Colorado, o terceiro colocado nas pesquisas.

Seus críticos o classificam de “político de direita”. Mas, ele se auto-define como um “nacionalista pragmático”. Lacalle, para diferenciar-se do governo do socialista Vázquez, promete “modernizar” o país. O ex-presidente sempre retorna ao palco da política local, após pausas ocasionais, tal como um Freddy Krueger da esquerda, à qual sempre persegue.
No entanto, para modernizar o país, explica sua modalidade com sua voz metálica e humor peculiar que o faz parecer mais ao personagem Jason: “vou passar a serra elétrica no gasto público”.

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Lacalle e ‘Julita’, sua esposa, famosa pelo caráter ‘duro’

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Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como back ground antropológico).

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Rio da Prata. O Mar Doce, segundo seu descobridor, Solís. O rio “cor de leão”, segundo Jorge Luis Borges. “El charco”, isto é, “o charco”, segundo o irônico humor que floresce há séculos em ambas margens. À direita, a Argentina. À esquerda, o Uruguai. Mihares de uruguaios que residem na Argentina atravessam o rio para votar no Uruguai

maoazinha1 Mais de 600 mil uruguaios, quase 20% da população do país, residem fora do Uruguai. Eles são denominados de “uruguaios do êxodo” ou da “diáspora”, já que partiram do país ao longo das últimas quatro décadas, principalmente por exílios econômicos ou políticos.

O contingente de uruguaios no exterior concentra-se principalmente na vizinha Argentina, onde reside um terço dos emigrados. Os outros espalham-se pelos Estados Unidos, Espanha, Austrália e Brasil.

Nenhum outro país sul-americano possui tal proporção de cidadãos morando fora de suas fronteiras. “Todos as famílias uruguaias possuem um integrante que está morando fora do país”, me disse o cientista político Gerardo Caetano.

Neste domingo estes uruguaios serão o pivô de um plebiscito que ocorrerá de forma simultânea à eleição presidencial e parlamentar do Uruguai.

Mais de 2,5 milhões de pessoas irão às urnas para definir se aprovam – ou não – o “voto epistolar”. Essa é a denominação da possibilidade de – no exterior – votar nas eleições uruguaias por carta.

O voto do êxodo é costumeiramente de esquerda. Por esse motivo, a ideia do voto epistolar é defendida pelo governo do presidente Tabaré Vázquez, um socialista moderado que lidera a coalizão Frente Ampla, e seu candidato à sucessão presidencial, José ‘Pepe’ Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro.

Em 2004, o voto do êxodo foi considerado crucial para a vitória de Vázquez, que conseguiu 50% mais um dos votos graças a 15 mil votos colocados nas urnas por uruguaios provenientes da Argentina, onde residiam.

No total, naquela ocasião, 20 mil uruguaios atravessaram a fronteira para votar.
Neste ano, segundo as estimativas durante a semana passada, de 10 mil a 12 mil uruguaios que residem na Argentina desembarcariam neste fim de semana no Uruguai para votar. No entanto, cálculos realizados neste domingo de manhã indicavam que ao redor de 22 mil pessoas haviam atravessado a fronteira.

O governo da presidente Cristina Kirchner, que manteve uma tensa relação com o presidente Tabaré Vázquez, possui uma relação cordial com Mujica.

Mas, para evitar uma eventual vitória da oposição conservadora, representada por Lacalle, um crítico do governo Kirchner, a presidente Cristina decretou dois dias de feriado para os uruguaios que trabalham nas repartições públicas argentinas, de forma que possam viajar ao Uruguai para votar.

“No entanto, nem todos os uruguaios possuem dinheiro para fazer uma viagem para votar. Por isso defendemos o direito ao voto por carta, para que seja enviado desde o exterior, seja lá onde um compatriota nosso esteja morando”, me disse a senadora Lucía Topolansky, líder da esquerda e esposa do candidato ‘Pepe’ Mujica, durante entrevista no quartel-general de seu grupo, o Movimento de Participação Popular (MPP), que integra a Frente Ampla.

No entanto, o “voto epistolar” é criticado pelos candidatos da oposição, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-95), do partido Nacional (Blanco) e Pedro Bordaberry, do partido Colorado.

“Não concordo com o voto epistolar, o considero um absurdo” disse ao Estado o ex-presidente e atual senador da oposição, Julio María Sanguinetti, do partido Colorado, em sua casa no bairro de Punta Carretas. “Alguém que mora fora do país há muito tempo não vota pensando no Uruguai. Essa pessoa está com a mente lá no país onde mora”.

Por seu volume, os uruguaios do êxodo são objeto de interesse dos partidos políticos, que ficam de olho nos votos que podem propiciar, pois seu volume possuem a capacidade de alterar o resultado de uma eleição presidencial.

Por esse motivo, em época de campanha eleitoral, é sine qua non a visita à Buenos Aires, do outro lado do Rio da Prata.

A capital argentina, a maior “cidade uruguaia” fora do Uruguai (calcula-se que pelo menos 150 mil uruguaios residiriam na capital argentina e sua area metropolitana) está a apenas 25 minutos em avião de Montevidéu (ou três horas em ferry boat).

Só a crise econômica de 2002 foi a responsável pela partida de 100 mil uruguaios. Na época, a pobreza alcanou níveis recorde, atingindo um terço dos habitantes do país.

Em 2008, os uruguaios que residem fora do país, enviaram US$ 200 milhões a seus parentes no Uruguai.

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Marcada com a letra ‘A’, a cidade de Montevidéu. A letra ‘B’ marca a cidade de Colonia (a Colônia de Sacramento dos portugueses). A letra ‘C’ marca a área de Buenos Aires e a Grande Buenos Aires, onde reside uma grande concentração de uruguaios.

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Juan María Bordaberry, o fazendeiro que tornou-se presidente e posteriormente títere civil dos militares, que virou neologismo político. Nesta foto, de 1974, Bordaberry ao lado de um colega militar, o ditador e general Augusto Pinochet

Os uruguaios irão às urnas neste domingo para eleger o novo presidente da República. Mas, eles também depositarão seu voto em um plebiscito que definirá a suspensão – ou não – da “Lei de Caducidade Punitiva do Estado”, denominada informalmente de “lei de perdão aos militares”. A lei, aprovada em 1986 e confirmada por um plebiscito em 1989, implicou na anistia dos militares que cometeram violações aos Direitos Humanos durante a ditadura (1973-85).
José Mujica, candidato da coalizão governista, a Frente Ampla, está a favor da revogação da lei de perdão.

O próprio Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro, foi torturado na prisão, onde esteve 13 anos. Na contra-mão, os candidatos da oposição Luis Alberto Lacalle, do partido Nacional (Blanco) e Pedro Bordaberry, do partido Colorado, posicionam-se a favor da permanência da anistia.

Durante a ditadura os militares assassinaram dentro do território uruguaio 34 civis suspeitos de “subversão”. Além disso, segundo as estimativas de organismos internacionais e uruguaios, a ditadura torturou de forma clandestina 4.700 pessoas. Destas, oito suicidaram-se nas prisões para evitar a continuidade dos tormentos.

Além dos mortos dentro do Uruguai, por intermédio do “Plano Cóndor”, em conjunto com os regimes militares contemporâneos da Argentina, Brasil, Chile e Paraguai, os oficiais uruguaios foram responsáveis pela tortura e morte de outros 106 cidadãos uruguaios no exterior, a maioria dos quais na Argentina.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Interconsult indica que 47% dos uruguaios votariam no plebiscito a favor do fim da lei de anistia aos militares. Outros 40% votariam contra. O número de indecisos equivale a 13% do eleitorado. Outras pesquisas indicam que o fim da lei teria o respaldo de 47% dos uruguaios, enquanto que 34% estariam a favor de sua manutenção.

No entanto, para aprovar o fim da lei de anistia no plebiscito, seria necessário metade mais um dos votos, incluindo os brancos e nulos.

Os analistas políticos destacam que os setores mais conservadores da sociedade uruguaia – que posicionam-se a favor da permanência da lei do perdão aos militares – não manifestam publicamente seu voto.

Na contra-mão, os uruguaios que residem na Argentina – com um predominante perfil de centro-esquerda – que atravessariam o rio da Prata nos próximos dias para votar no Uruguai neste domingo (e que não foram pesquisados) tenderiam a votar a favor da suspensão da lei de anistia.

O advogado Oscar Goldaracena, um dos líderes do movimento a favor do fim do perdão aos militares, argumentou que a lei de caducidade é “uma aberração jurídica”. No entanto, outros setores argumentam que sem a lei de perdão, teria sido impossível realizar a transição no Uruguai.

Na segunda-feira, seis dias antes do plebiscito, a Corte Suprema de Justiça determinou que a lei de caducidade é “inconstitucional”. A decisão, aplicada a um caso específico, de Nibia Sabalasagaray, uma jovem comunista assassinada em 1974, foi aprovada por quatro dos cinco juízes da Corte. Embora aplicado a um caso específico, a decisão da Justiça abre precedentes para que novos processos sejam abertos.
A organização Anistia Internacional fez um apelo nesta semana para que a lei de caducidade seja eliminada.

PRESOS
Desde 2006 a lei de caducidade foi driblada por vários juízes uruguaios, que colocaram em prisão preventiva alguns militares e civis – entre os quais os ex-presidente civil Juan María Bordaberry e o presidente e general Gregorio Álvarez – para julgamento por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior (esses casos não estavam previstos pela lei de anistia, que contempla somente os crimes cometidos dentro do território uruguaio). Além deles, oito ex-militares e policiais foram condenados a penas de 20 a 25 anos de prisão.

AMBÍGUA
No final do ano passado a Coordenadoria Nacional pela Anulação da Lei de Caducidade (que reúne a principal central sindical do país, a PIT-CNT e diversas organizações de defesa dos Direitos Humanos), iniciou uma grande mobilização para conseguir 250 mil assinaturas (equivalente a 10% do eleitorado do país), número exigido para solicitar a convocação de um plebiscito. Graças à campanha, a Coordenadoria reuniu 340 mil assinaturas.

Setores da esquerda uruguaia alegam que a Lei de Caducidade, além de “ambígua” – já que impedia o julgamento dos militares, mas não a investigação sobre seus crimes – foi aprovada pela população por temor a novos golpes militares.

MODALIDADE URUGUAIA
Os regimes militares do Chile e da Argentina caracterizaram-se por eliminar seus opositores por fuzilamentos, jogados vivos no mar ou mortos em sessões de tortura. Poucos prisioneiros desses regimes sobreviveram. No entanto, a Ditadura uruguaia ficou notória por um menor número de assassinatos, embora tenha aplicado prisões por tempo recorde nos regimes militares do Cone Sul. A maioria dos tupamaros permaneceram os treze anos da Ditadura dentro da prisão.
Além do próprio candidato presidencial, José Mujica, vários integrantes da coalizão de governo são ex-guerrilheiros tupamaros, que foram presos e torturados pela Ditadura.

FATOS E NÚMEROS DA DITADURA URUGUAIA
- Ditadura, que começou com um presidente civil títere, respaldado pelos militares, durou de 1973 a 1985.

- Ditadura foi implantada apesar do fim da guerrilha dos tupamaros em 1972. Os próprios militares anunciaram que a guerrilha havia sido “liquidada” um ano antes do golpe.

- Estimativas indicam que militares uruguaios torturaram 4.700 civis. A imensa maioria das vítimas não tinham vínculos com a guerrilha.

- Dentro do Uruguai militares assassinaram 34 pessoas. Outras 8 suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

- Militares uruguaios assassinaram 106 civis de seu país no exterior, principalmente na Argentina.

- Entre os desaparecidos existem seis crianças, das quais três nasceram durante o cativeiro das mães.

- Estimativas conservadoras afirmam que por causa da Ditadura, 250 mil uruguaios partiram em exílio. Outras estimativas sustentam que o êxodo chegou a 400 mil exilados. Em 1973, ano do golpe, o Uruguai tinha 2,8 milhões de habitantes.

BORDABERRIZAÇÃO
O presidente civil do início da ditadura uruguaia, Juan María Bordaberry, entrou para a História por gerar a criação, nos anos 70, de um termo da ciência política, a “Bordaberrização”. A palavra refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência civil e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência.
Bordaberry havia sido eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.
A ditadura no Uruguai foi encerrada no dia 1 de março de 1985. Quinze dias depois, terminava a ditadura militar no Brasil.

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Parlamento do Uruguai, em Montevidéu. Hoje começamos uma série de postagens sobre as eleições presidenciais e parlamentares deste país

Dois milhões e meio de uruguaios irão às urnas neste domingo eleger o novo presidente da República. Na reta final da campanha eleitoral, os candidatos à presidência da República tentam conquistar o voto dos indecisos, que oscilam entre os 10% e 12% do eleitorado, segundo diversas pesquisas.

A proporção é elevada para os níveis historicamente altos de engajamento político dos uruguaios. Além de elevada, a proporção de indecisos apresentou um comportamento insólito, já que cresceu enquanto aproximava-se a data da eleição.

Segundo as pesquisas realizadas pela consultoria Mori, os indecisos, que eram 8% em abril, cresceram para 10% no final de agosto. Neste fim de semana as pesquisas da Mori indicavam que a proporção de indecisos chegava à faixa de 12%. A consultoria Factum também coloca os indecisos na mesma proporção.

O ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica, candidato da Frente Ampla, a coalizão do governo do presidente Tabaré Vázquez (um médico oncológico que em 2004 tornou-se no primeiro socialista eleito presidente no Uruguai) teria 44% das intenções de voto, segundo uma média de diversas pesquisas.

O candidato da oposição, o neoliberal ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), do partido Nacional (também chamado de “partido Blanco”) teria 30%. O terceiro colocado é Pedro Bordaberry, filho do ex-ditador Juan María Bordaberry oscila ao redor dos 10%.

Se não conseguir 50% mais um dos votos, Mujica, um ex-guerrilheiro transformado em floricultor que odeia ternos e gravatas, terá que ir para o segundo turno. Mujica – famoso por não ter papas na língua – foi prejudicado nas últimas semanas por disparar polêmicos comentários, entre eles, o de xingar os vizinhos argentinos de “imbecis” e de criticar a Justiça.

De quebra, a Igreja Católica criticou suas posições a favor do aborto. O Uruguai é o país mais laico do continente americano. No entanto, o confronto de Mujica com a Igreja poderia provocar a perda de alguns milhares de votos.

Mas, um punhado de milhares de votos no pequeno Uruguai possui um peso especial. O próprio Vázquez foi eleito em 2004 no primeiro turno graças a 15 mil votos que permitiram que pudesse atingir o mínimo necessário para vencer.

“É uma tal massa de indecisos que gera uma situação na qual qualquer cenário é possível. Isto é, a eleição pode se resolver no primeiro turno…mas também pode ocorrer um segundo turno”, ponderou o analista político Oscar Botinelli, da Factum.

Desta forma, a denominada “batalha final” somente ocorreria no segundo turno, na qual confrontariam-se Mujica e Lacalle, no dia 29 de novembro.

Neste domingo, além de eleger o novo presidente, os uruguaios também votarão na definição de 30 senadores e 99 deputados.

SEM DEBATE
No meio da polêmica gerada pelo candidato do governo, o presidente Vázquez impediu a realização de um debate na TV entre Mujica e Lacalle, por temor que seu candidato comprometesse a Frente Ampla com nova controvérsia.

Mujica não era o candidato original do presidente Vázquez, que preferia seu ex-ministro da Economia, o discreto Danilo Astori (o vice na chapa de Mujica). Por esse motivo, Vázquez, que possui mais de 60% de aprovação popular, não se engajou ativamente na campanha do ex-guerrilheiro.

Somente na segunda-feira, na reta final da campanha, Vázquez participou de uma cerimônia em companhia de Mujica, ocasião em que o abraçou em público. Esse gesto, somado à decisão – também na segunda-feira – da Justiça uruguaia de declarar inconstitucional a lei de anistia aos militares poderiam ajudar Mujica a recuperar terreno entre os eleitores.

PLEBISCITO
No domingo, junto com a votação para presidente e parlamentares, os uruguaios também votarão em um plebiscito para definir a eventual suspensão da “lei de caducidade punitiva do Estado”, denominação da lei de anistia aos militares que cometerem violações aos Direitos Humanos durante a ditadura (1973-85).

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O teutônico Friedrich Nietzsche dizia que ‘um bom escritor possui não somente sua própria inteligência, mas também a inteligência de seus amigos’. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares souberam potenciar ambas inteligências com sua amizade. Segundo disse em 1968 o ensaísta Emir Rodríguez Monegal, quando Bioy Casares e Borges trabalhavam em conjunto, o resultado era uma um texto que parecia escrito por uma nova personalidade, mais do que a somatória de suas partes. Monegal sustentava que nesse momento surgia o “Biorges”, o qual, considerava, era “o mais importante escritor argentino de seu tempo” (foto dos dois amigos nos anos 40)

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Sabia que havia feito uma entrevista com Bioy Casares, das várias que fiz com ele entre 1995 e 1998, que não estava encontrando. Mas, neste fim de semana, a encontrei por puro acaso (acasos borgianos, a achei enquanto procurava uns dados do breve presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá). Nesta entrevista, Bioy explica como foi a criação de Honorio Bustos Domecq, um escritor que ele e Jorge Luis Borges inventaram, dando origem à uma verdadeira escritura à quatro mãos. Esta entrevista foi feita em agosto de 1996, dois meses depois do décimo aniversário da morte de seu amigo Borges.

maozinha344sds Um abajur quebrado levou a um folheto sobre iogurtes. O texto comercial sobre lactobacilos levou à uma das camaradagens mais frutíferas da história da literatura. Parece estranho, mas este foi o modo como duas privilegiadas mentes argentinas do século XX se uniram: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Tudo começou com uma reunião na casa de Victoria Ocampo, a rabugenta – e brilhante – dublê de Gertrude Stein da Argentina do anos 30, 40 e 50. Bioy Casares, casado com Silvina Ocampo, estava presente na tertúlia por temor às repreensões da cunhada. Victoria recebia um escritor estrangeiro com um cocktail.

Por acaso, Bioy Casares sentou-se ao lado de Jorge Luis Borges. “No meio da festa começamos a conversar animadamente. Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida”.

A amizade os uniria para sempre. Bioy Casares, sobrinho e filho e sobrinho de empresários do setor de laticínios, foi contratado pela própria família para escrever um folheto cultural “e comercial” sobre o iogurte. “Chamei Borges e ficamos dias na fazenda pensando no folheto. Mais do que trabalhar no tema, acabávamos criando personagens. Assim escrevemos “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”. Queríamos escrever contos onde houvesse um enigma e uma solução clara. Mas fazíamos brincadeiras e nos perdíamos nelas. “Que faremos com este personagem?”, perguntávamos rindo.

Antes de partir para a Europa, o autor de “A invenção de Morel” e “Diário da Guerra do Porco” e inseparável partner de Borges, falou para o Estado sobre sua amizade com o autor de “Ficciones”:

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Bioy Casares, em 1968, fotografado por Alicia D’Amico (1933-2001), uma das grandes fotógrafas argentinas (as outras foram Annemarie Heinrich e Sara Facio)

Estado – Honorio Bustos Domecq, o imaginário autor de “Seis Problemas para Don Isidor Parodi” era uma criação com os sobrenomes dos avós e bisavós…

Bioy Casares - Bustos era do lado de Borges. Domecq era minha avó paterna. A Editorial era “Oportet et Jerezes, convém que haja hereges”.

Estado – Como escreviam a quatro mãos?

Bioy Casares - A gente sempre escrevia à noite. Borges sempre vinha para nossa casa jantar. Após o jantar conversávamos sobre uma ideia relativa a um assunto. Eu sentava na frente da máquina de escrever e começávamos….um de nós dois propunha a primeira frase…e assim vinham a segunda, terceira frases. Os dois íamos falando ao mesmo tempo. De vez em quando Borges dizia ‘não, acho melhor a gente enveredar por outro lado’…ou eu dizia ‘espera..acho que já temos demasiadas piadas juntas aqui’..e assim íamos escrevendo!.

Estado – Os srs. eram muito diferentes. Borges, quase um calvinista, o sr. era…

Bioy Casares - (rindo) Borges era incapaz de andar a cavalo. Eu percorria até 250 km. Borges se apaixonava profundamente por cada mulher. Eu tive muito amores e a sorte de que minhas ex-amantes são muito boas amigas até hoje.

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O tímido Borges, no final dos anos 60, cercado por ‘groupies’ borgianas

Estado – Qual influência o sr. teve em Borges e ele no sr.?

Bioy Casares - Ele, com Paul Valèry, me retiraram do surrealismo. Recebi grandes dicas, conduzidas pela inteligência. Combati em Borges o estilo em que cada frase tinha um efeito de surpresa no final. O ajudei, onde ele chegaria sem minha ajuda, a chegar no que era um estilo mais clássico.

Estado – Como foi publicar a revista “Destiempo”, junto com Borges?

Bioy Casares - Estavámos muito contentes com isso. Saímos da gráfica com duas caixas das revistas e fizemos uma fotografia para uma histórica posteridade. A fotografia desapareceu. Nunca a recuperamos. Todos os exemplares do número um da revista desapareceram. O estúdio onde fizemos a foto também sumiu. Não era possível fazer uma revista sem dinheiro. Os colaboradores demoravam semanas para entregar os textos e a revista morreu…

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Borges, em 1951, foto de Grete Stern

Estado – Como foi seu primeiro encontro com Borges?

Bioy Casares - Victoria Ocampo estava convidando alguns estrangeiros ilustres por alguns dias. Muito autoritária, quando convidava alguém, tinha que ir, porque senão ouviria repreensões pelo resto da vida. Ali estava o convidado ilustre, mas Borges, que estava sentado a meu lado começou a conversar comigo. Começamos a conversar animadamente no meio da festa. Mas Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida. Naquela noite, fomos embora logo da festa. O levei em meu carro a sua casa e fomos todo o trajeto conversando.

Estado – Os senhores eram como uma dupla de filme…

Bioy Casares – (ri) Não o vejo assim, mas foi uma amizade maravilhosa. Um dia me encarregaram um folheto pseudocientífico e eficazmente comercial sobre o iogurte. Como pagavam muito, convidei Borges para que escrevesse comigo. Fomos até a fazenda de meu pai. Como nos entediávamos, pensamos que seria bom se escrevêssemos contos juntos.

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Os dois amigos, no início dos anos 80

Estado – O que acha das obras que Borges não quis reeditar, que foram recentemente reeditadas (“O Idioma dos Argentinos” e “Borges en Revista Multicolor”)?

Bioy Casares - Sinto-me muito identificado com ele, pois espero que quando morrer, nunca reeditem meus primeiros livros. Quando fomos compilar minhas “Obras Completas” minha editora me disse que seria uma mentira chamá-las assim. Eu disse que eram livros antes de que me convertesse em um escritor consciente.

Estado – Entre a poesia e a prosa de Borges, qual prefere?

Bioy Casares - Prefiro a prosa, mas gosto muito da poesia dos últimos anos. Não gosto de seu tempo de surrealismo.

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Bioy Casares escreveu até sua morte em 1999

Estado – Como foram suas incursões no mundo dos roteiros cinematográficos?

Bioy Casares - Quando começamos ainda não sabíamos fazer roteiros. Depois aprendemos um pouco…

Estado – Borges tornou o sr. um dos mais conhecidos personagens da literatura fantástica. Em “Tlön, Uqbar e Orbis Tertius” o sr. é o personagem que faz a trama começar, com a citação “abomino os espelhos e a cópula, porque multiplicam a espécie humana”

Bioy Casares - Ele me faz dizer coisas que nunca disse (ri). Gosto muito de espelhos, os acho misteriosíssimos. Para mim são uma fonte de inspiração. Era só uma brincadeira de Borges. Para ele, os espelhos eram atrozes. Nunca compreendi o porquê, mas ele tinha uma repulsão, talvez mais intelectual do que físico, pois não me parece que alguém possa ter uma repulsão física por algo tão bonito como um espelho.

Estado – O sr. teme a morte?

Bioy Casares - Diria que não, mas me impressiona. Me parece espantoso morrer. Borges e eu falávamos muito sobre isso. O coitado poderia agora me dizer o que se sente. Eu sigo com temor e com horror. É algo que me desgosta. Não gostaria que acontecesse.

Estado – O sr. viu Borges partir, sabendo que não o veria mais…

Bioy Casares – É horrível morrer. Sua morte foi dolorosa, penso eu. Antes de partir para Genebra, lhe perguntei se não era melhor ficar aqui, já que os médicos o haviam desenganado. Me respondeu: “para morrer, dá no mesmo estar em qualquer lugar…”. Uma frase literariamente eficaz, que me calou.

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Bioy Casares, em seus últimos anos, sem a presença do amigo Borges

BENGALA, UM TERCEIRO AUTOR E GARGALHADAS

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares fizeram, desfrutando – e muito – um trabalho conjunto deixando seus egos de lado. Não tentaram impor um ao outro suas ideias e palavras. Foi uma dupla simbiótica, que foi mais além da colaboração, já que Bustos Domecq tinha um estilo diferente ao dos dois escritores de carne e osso.

Honorio Bustos Domecq surgiu primeiro como F.Bustos, nome com o qual Borges publicou a primeira história de ficção de sua carreira, “O homem da esquina rosada”. Quando apareceu a parceria entre Borges e Bioy Casares o nome do escritor-fantasma foi trocado para Honorio Bustos Domecq.

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Capa de um dos livros de Bustos Domecq, quando os dois autores reais já haviam confessado sua identidade

Bustos era o sobrenome de um antepassado de Borges, enquanto que Domecq era um antepassado de Bioy.
H. Bustos Domecq começou sua carreira com “Seis problemas para Isidro Parodi”, de 1942. Em 1946 lançaram “Duas fantasias memoráveis”.

Bustos Domecq tornou-se um “autor” de sucesso. A Argentina pensava que existia de verdade e chegaram a lhe oferecer prêmios literários. Mas H. Bustos Domecq nunca aparecia para receber as honras. Borges e Bioy Casares davam gargalhadas.

De quebra, também criaram um segundo autor-fantasma, Benito Suárez Lynch (também utilizando os sobrenomes de outros antepassados de Borges e Bioy). Com este pseudônimo publicaram “Um modelo para a morte”.

Com os anos, Bioy foi-se parecendo a Borges, seu indefectível partner: a bengala, a fragilidade causada pela morte dos seres queridos, o desejo de viver muito mais. Unidos por causa de um abajur quebrado e um folheto sobre iogurtes, esta dupla produziu obras que integram a lista de clássicos da literatura do século XX. Borges era um potencial calvinista, tímido com as mulheres. Bioy se envolvia com as sobrinhas de sua esposa. O primeiro exercia o estilo mais erudito, o segundo primava pela simplicidade. Borges abandonou o planeta há dez anos. Bioy Casares continua aqui, aos 82 (a entrevista, lembrem, foi em 1996…Bioy Casares morreu três anos depois).

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Nietzsche, que dizia que ‘um bom escritor possui não somente sua própria inteligência, mas também a inteligência de seus amigos’, acompanhado de alguns de seus especiais amigos: Lou Salomé e Paul Ree. Foto de 1882, realizada no atelier de Jules Bonnet, em Lucerna, Suíça.

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Representação de fellatio em vaso de cerâmica da cultura Moche (civilização do norte peruano que floresceu entre o ano 100 a.C e o ano 800 d.C). Peça arqueológica exibida no Museu Larco, em Lima. A obra é do ano 300 de nossa era.
Fellatio provém do latim fellātus, particípio passado do verbo ‘fellāre’, isto é, ‘sugar’

Propostas de Fellatio e de introdução de objetos inanimados no reto anal. Estas foram as ofertas de Diego Armando Maradona aos jornalistas que criticaram sua atuação nos últimos meses como como técnico da seleção argentina. De quebra, atribuiu às mães de todos os trabalhadores da mídia portenha a profissão de prestadoras de serviços sexuais.

“Me chupem…e que continuem chupando” foi a frase que entrou para a antologia maradonianas de epígrafes.

Depois, utilizou o verbo “mamar”, expressão usada em alguns países hispano-falantes, entre eles a Argentina, para….
a) mamar, tal como em português, isto é, absorver o leite materno
b) ingerir bebidas alcoólicas
c) prática do fellatio com a consequente ingestão do sêmen ejaculado

Na quarta-feira à noite, após a suada vitória de sua seleção em Montevidéu, Maradona repetiu três vezes sua proposta de sexo oral.

De quebra, ao ser consultado por um jornalista de Buenos Aires, Totti Passman, antes de responder a pergunta, Maradona fez uma nova ressalva, com outra alusão sexual: “você tem uma dentro…”.

As frases de Maradona imediatamente despertaram em um empresário argentino a ideia de estampar a epígrafe do ex-astro em uma camiseta. Desta forma, no site “Mercado Libre”, podem ser adquiridas as camisetas com as frases que já entraram para a antologia maradoniana. As camisetas são vendidas ao módico preço de 39 pesos.

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Você pode ostentar o pensamento maradoniano por apenas 39 pesos

Nesta quinta-feira Maradona deixou claro que não pedirá desculpas a ninguém.
O presidente da Associação de Futebol da Argentina, Julio Grondona, declarou que compreende as declarações do técnico e tentou encerrar o caso.

Mas, a divulgação mundial das frases de Maradona causou irritação no presidente da FIFA, Joseph Blatter, que anunciou que pedirá ao Comitê de Disciplina dessa organização investigue as polêmicas afirmações de “El Diez”.

Se Maradona for punido, poderia ser suspenso durante cinco jogos da seleção.

CAMINHÃO E ESPINGARDINHA
A relação de Maradona com a imprensa, insultos à parte, foi complicada.
Nos anos 90, Maradona ia aos treinos do Boca Juniors na boleia de um caminhão, para evitar que os jornalistas se aproximassem de sua janela para lhe fazer perguntas.

Em meados dessa década, diante de um grupo de jornalistas que o esperava na porta de uma chácara onde passava o fim de semana, Maradona empunhou uma espingardinha e disparou, alvejando um dos profissionais que estavam de plantão na porta do terreno.

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SITUAÇÕES ATRIBULADAS
Ao longo da última meia década Diego Armando Maradona protagonizou situações atribuladas. Antes da antologia desta livin’ la vida loca maradoniana, um breve resumo:

maoazinhadireitposd A vida de Maradona foi marcada pelo descontrole. Nos anos 80 tornou-se famoso por sua irreverência e peculiaridades na forma de jogar o futebol. Seu gol com a mão contra a seleção da Inglaterra na Copa do México causou ampla polêmica. Mas, o jogador sempre respondeu rindo às acusações de irregularidade nesse gol.

Durante sua estadia no Napoli, Maradona envolveu-se com várias amantes. Uma delas, Cristina Sinagra, deu à luz a um filho que Maradona rechaça reconhecer.

No ano 2000, durante suas férias no balneário uruguaio de Punta del Este teve a primeira overdose de cocaína. Na sequência, convidado por Fidel Castro, Maradona foi à Cuba realizar um tratamento para livrar-se da dependência das drogas.

No entanto, o tratamento cubano foi polêmico, já que quatro anos depois de estadia na ilha caribenha, o ex-jogador estava obeso e continuava consumindo cocaína.

Em março de 2004 voltou à Buenos Aires. Depois de um mês de festas, Maradona teve uma nova overdose que o levou ao coma. Maradona foi internado na clínica Suíço-Argentina.

Mas, dias depois de recuperar-se do coma, o ex-astro fugiu e refugiou-se na chácara de um empresário amigo onde dedicou-se à farra. Cinco dias depois, Maradona foi levado às pressas novamente à clínica. Ele havia tido uma overdose de croissants com creme.

O ex-astro, lamentavam os comentaristas esportivos, parecia um lutador de sumô. Pesava quase 120 quilos e não conseguia respirar nem falar direito.

Nos meses que seguiram Maradona realizou uma cirurgia de redução do estômago na Colômbia. Com o look renovado, o ex-astro voltou a ser um sucesso de marketing. Cinquenta quilos mais magro, foi convocado para realizar um programa de TV, “La Noche del Diez” (A Noite do Dez), que teve recordes de audiência para o que seria um talk show na Argentina. No entanto, os índices não eram tão elevados para um programa apresentado pelo argentino mais famoso das últimas duas décadas.
Entre seus convidados estiveram Pelé, Xuxa e Mike Tyson.

Maradona exibia seus abdominais, jogava ao tênis, futebol, corria e dançava. De quebra, fazia proselitismo da vida saudável e da dieta alimentícia que aplicava. Os fãs respiravam aliviados, pois o ídolo mostrava exuberante saúde. Seu único vício, dizia, era “um charuto por dia”.

Mas, sem trabalho ou uma atividade definida desde fins de novembro de 2005 (o contrato de seu programa não foi renovado), Maradona começou a deprimir-se e voltou a engordar.

Entre dezembro de 2005 e meados de 2006 o ex-astro envolveu-se em brigas com a Polícia Federal no Rio de Janeiro; agrediu uma ex-miss nas ilhas de Bora Boca , e – em Buenos Aires – bateu sua camionete contra uma cabine telefônica, cujos cacos de vidro voaram pelo ar, ferindo um casal de jovens que passava pela rua.

Na segunda metade de 2007 “El Diez” foi internado por graves problemas hepáticos gerados, entre outros motivos, pelo intenso consumo de champagne brut.

BREVE ANTOLOGIA DE ATRIBULAÇÕES MARADONIANAS
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Maradona protagonizou insólita overdose de croissants

CROISSANTS – Em maio de 2004 Maradona estava recuperando-se de uma overdose de cocaína que quase o matou e o manteve em coma durante três dias. Poucos dias após acordar, Maradona fugiu da clínica Suíço-Argentina, no centro de Buenos Aires, rumo à elegante chácara de um amigo na zona oeste da Grande Buenos Aires.

Nos cinco dias que esteve na chácara, Maradona passou o tempo como na canção de Ricky Martin “Livin’ la vida loca” (vivendo a vida louca). No primeiro dia, poucas horas depois de ter deixado a UTI, ele causou surpresa ao jogar golfe durante 40 minutos no campo da chácara. No fim da noite, reuniu-se com velhos amigos e disparou fogos de artifício.

No dia seguinte, jogou golfe, deu uma entrevista a Susana Giménez, uma das divas da TV argentina. Na conversa, com a voz embrulhada, sem conseguir terminar as frases, “El Diez” – depois de apreciar o derrière da diva – conseguiu explicar que havia visto a morte “de perto” e sustentou que, quando estava em um “túnel escuro” que o levaria para o além, foi salvo no último minuto por “uma multidão de torcedores”.

Ao longo dos dias que se seguiram, Maradona jogou golfe durante longas horas (em ocasiões sem camiseta, no meio de um frio que oscilou entre 13 e 16 graus), fez uma festa de despedida, e de quebra, deixou de lado a dieta, devorando tudo o que encontrava na geladeira e fora dela.

O pináculo destas jornadas de arromba foi a noite em que uma “overdose” de croissants levou Maradona à UTI da Clínica Suíço-Argentina.

Na noite da véspera, “La Mano de Dios” (A Mão de Deus), como é popularmente chamado, recebeu o time de vôlei da cidade de Bolívar, na província de Buenos Aires.

Os jogadores levaram a Maradona um pacote de “facturas”, a denominação genérica popular para os croissants e demais variáveis calóricas com creme e doce de leite.

Segundo testemunhas, Maradona – que não conseguiu resistir ao poder de atração dos quitutes – “se morfó todo” (“comeu tudo”, na gíria portenha).

O comunicado oficial da clínica Suíço-Argentina foi mais sutil, preferindo denominar o caso de “transgressão alimentícia”. Isso teria agravado o quadro sensível de insuficiência respiratória que sofria.

O estômago e fígado do ex-jogador – que pesava na ocasião 120 quilos – já acumulavam uma comilança de dois dias antes, durante um churrasco que organizou para dezenas de pessoas a modo de despedida.

Maradona posteriormente recuperou-se e até apresentou um show em meados de 2005, o “La Noche del Diez”. O programa, uma espécie de talk show que reunia amigos do ex-astro do futebol e convidados especiais nacionais e internacionais, foi um sucesso de breve duração.

Mas, foi um sucesso relativo, já que apesar da fama de Maradona (atualmente o argentino mais famoso em todo o mundo), e da curiosidade popular sobre sua recuperação das drogas, o programa nunca conseguiu superar a média de 30% de audiência.

No dia do lançamento, que contava com a presença de Pelé, o programa de Maradona, no canal Trece, perdeu por um ponto percentual em audiência para um filme de Harry Potter no canal Telefé.

Poucos meses depois Maradona voltou ao descontrole.

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Charles Baudelaire costumava afirmar que “Deus é um escândalo..um escândalo que vende!”.
Outro “deus”, isto é, “Dios”, tal como é chamado D.A.Maradona por seus seguidores, também propicia excelentes vendas. Protagonizando vitórias ou fracassos na seleção de seu país (como jogador ou como técnico) ou em sua vida pessoal ou social, Maradona sempre gera notícias, vende camisetas, livros, filmes e revistas.
Altar de Maradona em Nápoles. Anos 90

GALEÃO - Em dezembro de 2005, na última semana do ano, protagonizou um confuso episódio no aeroporto do Galeão, onde proferiu impropérios (acompanhados de um explícito gesto com o dedo médio, em riste) contra a Polícia Federal brasileira, minutos depois de ter perdido um voo para Buenos Aires. O atraso do ex-jogador teria sido causado por uma curvilínea modelo brasileira.

VASO EM MISS - Em janeiro de 2006 O paraíso tropical da ilha de Bora Bora, na Oceania, foi tumultuado pela passagem de Maradona, que ali foi de férias com uma de suas filhas. Durante um fim de semana na casa noturna do Clube Méditerranée na ilha, Maradona jogou um vaso na cabeça da ex-miss local, Tumata Vaimarae.

A ex-miss recebeu oito pontos por causa dos ferimentos na cabeça. Para livrar-se do processo na Justiça e da elevada chance de levar três anos de prisão, Maradona teve que desembolsar US$ 6 mil a modo de indenização à ex-miss agredida.

CABINE ATROPELADA - Em fevereiro de 2006 Maradona, em pleno território argentino, no modesto bairro de Mataderos, bateu sua camionete contra uma cabine telefônica, cujos cacos de vidro voaram pelo ar, ferindo um casal de jovens que passava pela rua. O ex-jogador – e seus amigos que o acompanhavam – juram que o ex-astro não estava dirigindo o veículo na hora do acidente.

Os jovens acidentados indicaram que era o próprio Maradona que estava na poltrona do motorista. Segundo eles, o ex-jogador nem olhou para eles, pois estava mais preocupado com o estado do veículo.

Uma hora depois, Maradona entrava na casa dos pais. Ao chegar, foi abordado na porta do edifício por um repórter do canal Crónica TV. “Nem bem desceu do carro, vi que estava muito bêbado. Não conseguia caminhar direito. A língua estava embrulhada”, explicou o repórter Daniel Gretzchel.

Segundo ele, Maradona, ao ser interpelado, ameaçou: “se te pego, te faço um estrago”. Gretzchel faz seu diagnóstico: “antes de entrar em sua casa, tentou fazer um ’4′ (com as pernas) e quase caiu. Entrou, e lá dentro, dava para ouvir que gritava e gargalhava alto. Pouco depois chegou sua filha Gianina, chorando. Percebi que havia retornado o Diego bagunceiro. O Diego de antigamente”.

TÊNIS – No mesmo dia, após ter atropelado a cabine telefônica de manhã, Maradona foi à tarde assistir um jogo da Copa Davis, da qual participava seu amigo, o tenista David Nabaldian. Desde as arquibancadas, onde assistia o jogo, “El Diez” disparou uma saraivada de palavrões contra o jogador sueco que enfrentava-se com Nabaldian. Aos gritos, as palavras de baixo calão – em tom de descontrole – foram mais um sinal de que o ex-astro estaria perturbado emocional ou quimicamente.

Jornalistas e o público presente nas arquibancadas ficaram irritados como retorno da faceta mais abominável de Maradona.

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Maradona, há poucos anos, quando exibia physique du rôle de urso panda mix com Buda

CHAMPAGNE – Em 2007 Maradona foi internado no Sanatório Güemes, no bairro portenho de Palermo. No primeiro dia a família e os médicos alegavam que tratava-se apenas de uma internação para um check up. Mas, nos dias seguintes admitiram que “El Diez” estava com problemas de alcoolismo.
Maradona havia consumido dez garrafas de champanhe nas 48 horas prévias à internação.

Além do champanhe o ex-astro devorou subtanciais nacos de carne bovina e abusou do costume que adquiriu em Cuba, os charutos (o líder cubano Fidel Castro abastece regularmente Maradona com os mais finos chrarutos da ilha caribenha).

Na ocasião, um dos principais “maradonólogos” do país, Ernesto Cherqui Bialo, afirmou que Maradona – durante a visita de seus pais ao hospital – teria ameaçado suicidar-se.

Os rumores também indicavam que “El Diez” havia tentado jogar-se por uma janela. Por esse motivo, três guardas ficaram constantemente alertas para evitar que o ex-jogador tentasse o suicídio.

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Enquanto assiste jogo do Boca Juniors desde seu camarote em La Bombonera, Maradona com simbologia cristã, charuto e boné com estrela da Revolução Cubana

FILHOS EXTRAMATRIMONIAIS - Maradona, ao longo dos anos, revelou-se um prolífico reprodutor. Ele teve uma vida plena de affaires amorosos com modelos, garçonetes e atrizes, desde a Argentina, passando pelo Brasil, até a Itália.

Mas “El Diez” sustenta que suas únicas e verdadeiras filhas são Dalma e Gianina, filhas de sua ex-esposa Claudia Villafañe (de quem divorciou-se em 2004). Maradona fica furioso quando a imprensa pergunta sobre seus filhos extramatrimoniais.

Os “maradonólogos” indicam que o ex-jogador jamais reconhecerá seus filhos fora do casamento que teve com Claudia Villafañe para evitar um rompimento emocional com Dalma e Gianina, filhas que Maradona idolatra.

O ex-jogador possui imensas tatuagens nos braços com os nomes de ambas filhas, em letras góticas.

Maradona afirmou em 2005 que “os filhos nascidos fora do amor, não são filhos”. Para justificar a existência dos outros filhos, o ex-astro explicou que os “erros cometidos” estão sendo pagos com dinheiro, em referência à pensão que mensalmente envia às mães das crianças que supostamente teria concebido.

O filho extramatrimonial mais famoso do ex-jogador é o italiano Diego Armando Maradona Sinagra Junior, nascido em 1986, jogador de futebol na Itália, filho de Cristiana Sinagra. O escândalo dessa relação explodiu em 1992. Maradona nunca quis fazer o exame de DNA. No entanto, a Justiça confirmou a paternidade de Maradona.

A Justiça também determinou que o ex-astro também seria pai de Jana Sabalain, nascida em 1996, filha de Valeria Sabalain.

Outro processo que corre na Justiça é para comprovar se Maradona seria o pai de Santiago, um menino argentino de seis anos cuja mãe, Natalia Garat, faleceu de câncer pulmonar. Os advogados da família Garat encaminharam à Justiça em 2005 um pedido de exame de DNA a Maradona, como forma de comprovar – ou não – se o ex-astro é o pai de Santiago. A família Garat exige que o ex-jogador sustente a criança.

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PROBLEMAS RECENTES
Maradona está atualmente com problemas imobiliários. Há poucas semanas a Justiça embargou e leiloou um apartamento seu no bairro de Palermo por causa de condomínios não pagos.

De quebra, a vida familiar de Maradona está ficando tensa. Suas filhas não digerem sua namorada, Verónica Ojeda, nem a família da jovem, que cada vez mais interfere nos negócios de Maradona.

O técnico também está sendo pressionado por Valeria Sabalain, mãe de Jana, uma das filhas extramatrimoniais de Maradona.

A menina – de 13 anos – e sua mãe, de 32, residem no norte da Argentina, sob extremo low profile.

Mas, recentemente, Valeria abriu um processo contra Maradona (que nunca reconheceu a menina de forma voluntária) para que este aumente a mensalidade dos US$ 1.000 atuais determinados pela Justiça para US$ 10.000.

Segundo Valeria, Maradona, que recebe US$ 100 mil mensais pelo posto de técnico, pode pagar mais para a manutenção de sua filha.

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DETALHES
Em tempo 1: Maradona nunca ajudou os moradores de Villa Fiorito, o modesto bairro operário onde nasceu, localizado no município de Lanús, na zona sul da Grande Buenos Aires.

Em tempo 2: A única campanha da qual Maradona participou, “Um sol sem drogas”, para combater o consumo de narcóticos durante o verão de 1995-1996, terminou com o próprio Maradona consumindo os produtos que ele recomendava não aspirar.

Em tempo 3: Politicamente, Maradona respaldou figuras neo-liberais como o expresidente Carlos Menem e o líder comunista cubano Fidel Castro.

Em tempo 4: Maradona com frequência lança ofensas contra a comunidade gay, disparou ao longo das últimas duas décadas afirmações machistas, e volta e meia dispara considerações racistas.

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O Capitão A. Haddock elevou o insulto à categoria de Belas Artes

DE MARADONA A HADDOCK
Caso Maradona prefira proferir epítetos menos explícitos – mas mais pitorescos – ele pode recorrer ao arcabouço de insultos aplicados pelo capitão Archibald Haddock, personagem da tirinha Tintin, do belga Hergé.

Haddock, que apareceu pela primeira vez no álbum “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” (Le Crabe aux pinces d’or), de 1940 (o nono da série) deslanchou uma profícua carreira de criativas ofensas, tornando-se uma metralhadora verbal sem paralelos no mundo dos quadrinhos. Homem do mar, era capaz de transformar qualquer verbete em insulto (ele elevou o insulto à categoria de belas artes).
A seguir, um Pequeno Haddock Ilustrado, a serviço de eventuais necessidades de Maradona:
Babuíno

Sacripanta

Catacrese

Giroscópio

Logaritmo

Astronauta de água doce

Coruja mal empalhada

Mussolini de carnaval

Aprendiz de ditator com creme de noz

Analfabeto diplomado

Cataplasma

Protozoário mal penteado

Diplodoco

Cyrano de quatro patas

Nictálope mal ajambrado

Hidrocarboneto (e também o ‘extrato de hidrocarboneto’)

Viviseccionista com molho tártaro

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Cão belga, acompanhado por seus colegas Homo sapiens: o toscano Giovanni di Nicolao Arnolfini e sua esposa Contanza. Na época dejetos dos caninos e humanos eram deixados nas ruas do fedorento – mas supimpa – Renascimento. Quadro de Jan Van Eyck, 1434. Atualmente na National Gallery, em Londres

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A cidade de Buenos Aires conta com 425 mil perros (cachorros). O número equivale a um cachorro a cada sete portenhos humanos.
A capital argentina é uma cidade substancialmente “perrera”, como dizem os portenhos, isto é, uma urbe “cachorreira”.
A grande presença de cidadãos caninos em Buenos Aires implica em uma miríade de dejetos provenientes destes melhores amigos do homem.

No total, segundo estatísticas do governo da cidade de Buenos Aires, 70 toneladas de excrementos caninos por dia são depositadas nas ruas portenhas.
Isto é, são 7 mil toneladas de esterco canino em 100 dias.
Esta presença ostensiva de dejetos caninos torna perigosa a caminhada desprevenida pelas ruas de vários bairros de Buenos Aires. Entre os setores mais “bombardeados” estão os da Recoleta, Caballito, Flores e Palermo.

Em 150 dias os portenhos caninos produzem o equivalente a 10.500 toneladas, o equivalente ao peso da torre Eiffel! Ou, similar peso ao de oito germânicos tanques Panzer da Segunda Guerra Mundial por dia.

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Paseadores de perros (passeadores de cães). Figuras tradicionais do cotidiano portenho.

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Passeadores de cães, de Queóps ao bairro da Recoleta? Representação egípcia do ano 3.000 a.C.

Mas, para fiscalizar os resultados das vísceras caninas espalhados por toda a cidade existem apenas 10 inspetores (uma dezena de fiscais para 425 mil cachorros).
Nos primeiros oito meses deste ano este time conseguiu fazer o registro de mil multas a aplicar (as multas oscilam de 25 pesos a 200 pesos…mas, quase ninguém as paga).

Fazer a multa é complicado, pois o inspetor deve encontrar o cachorro ‘in fraganti’ – isto é, em pleno movimento peristáltico – com o imediato resultado depositado na via pública. De quebra, o fiscal deve provar que o dono do cachorro não pretendia limpar os dejetos recém colocados.

No ano passado o governo municipal instalou grades ao redor das praças e proibiu a entrada de cachorros.

A prefeitura tentou algumas campanhas de conscientização que não deram certo, como a que tinha o slogan: “Su perro, su caca”. O slogan acabou virando motivo de piada.

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À direita, o canis lupus familiaris, em mosaico romano

Em alguns bairros, perante a lerdeza da prefeitura portenha para vários assuntos, a ação foi realizada dos próprios moradores, para ter ruas mais limpas.
No bairro de Almagro, os moradores criaram o que denominaram de “área livre de dejetos caninos”.
No bairro de San Telmo organizaram o “Festival No Caca”. O festival consistia em dar um presentinho ao dono de um cachorro que fosse visto limpando os restos na rua. Mas, sem apoio das autoridades, a iniciativa diluiu-se após seis meses de existência.

CÃES E QUINO
TIRINHA:
burocracia
Cachorros. E Mafalda e sua tartaruga, Burocracia (tirinha do cartunista Quino)

FRASE:
“A medio mundo le gustan los perros; y hasta el día de hoy nadie sabe qué quiere decir ‘guau’ “. Metade do mundo gosta de cachorros, mas, até agora ninguém sabe o que quer dizer “au” (De Mafalda).

GUAU!: “Au!”. Latido de um cachorro, em espanhol. O equivalente no idioma de Cervantes ao shakespereano “bark” ou o dantesco “bau”.

Outros idiomas:
• Albanês – ham, ham
• Árabe – hau, hau; how how (هو هو)
• Basco – au-au (genérico), txau-txau (pequenos cães), zaunk-zaunk (cachorros grandes) and jau-jau (cães velhos)
• Chinês (cantonês) – wow, wow (汪汪)
• Chinês (mandarim) – wang, wang
• Esperanto – boj, boj
• Finlandês – hau, hau
• Francês – waouh, wouf, wouaf-waf, e também jappe jappe
• Alemão – wau, wau
• Grego – ghav, ghav (γαβ γαβ)
• Hebraico – hav, hav
• Hindi – bho, bho
• Japonês – wan, wan (ワンワン)
• Coreano – meong, meong (멍멍)
• Russo – gav, gav (гав-гав); tyav, tyav (тяв-тяв, para cachorros pequenos)
• Tailandês – hoang, hoang
• Vietnamita – ẳng ẳng
• Gaélico (para aqueles que apreciam música celta) – wff, wff

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O drama de cachorros binacionais e o portunhol canino: Guau ou Au? Guão!
Canis lupus familiaris em dolce far niente

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Cemitério da Recoleta é um ‘museu ao ar livre’ por sua quantidade de estátuas. Estes são os anjos que decoram o mausoléu da família Indart (foto de Ariel Palacios)

A estética e a ostentação são duas marcas do cemitério da Recoleta, localizada ao lado do centro portenho. A grosso modo, poderia ser definido como o “Père Lachaise portenho”, já que ali, tal como no cemitério parisiense, estão enterradas as principais figuras da História do país, entre heróis da independência, presidentes, intelectuais e cientistas. Seria o equivalente a um cemitério que no Brasil reunisse no mesmo lugar figuras como Dom Pedro I (que está enterrado em São Paulo), Dom Pedro II (em Petrópolis), Machado de Assis (que está no Rio), ou o marechal Castelo Branco (em Fortaleza) e Juscelino Kubistcheck (em Brasília).

Este lugar de repouso eterno da elite argentina foi criado em 1822. Paradoxalmente, seu criador, o presidente Bernardino Rivadavia, que morreu no exílio na Espanha, está em um mausoléu construído na Praça Miserere, no bairro de Balvanera (uma área popularmente conhecida como “Once”).

No século XIX e início do século XX, as famílias da aristocracia exibiam sua riqueza nos túmulos. Nos fins de semana, faziam piqueniques ali, para ficar perto de seus antepassados.

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Felino portenho aproveita a hora da siesta para relax funéreo sobre tumba de humanos (foto de Ariel Palacios)

Com 6 mil sepulcros e 70 mausoléus familiares – e uma área equivalente a de quatro quarteirões – esse cemitério é costumeiramente definido como “uma cidade miniatura com um quê de labirinto”.

Ele está rodeado ao sul por bares, por um complexo de cinemas no lado oeste, por um centro cultural e um shopping do lado leste, e motéis verticais no lado norte.

O mais famoso túmulo no cemitério da Recoleta é o de Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, ou, “a mãe dos descamisados”. Segunda esposa do general Juan Domingo Perón, Evita mobilizou as massas populares para seu marido, que governou o país entre 1946 e 1955. Em 1952 morreu de câncer. Perón ordenou seu embalsamamento e expôs o corpo da sede da maior central sindical. Mas, em 1955 o viúvo foi derrubado por um golpe e partiu em exílio.

Os militares sequestraram o corpo de Evita e levado para a Itália, onde foi enterrada com nome falso. Em 1973, Perón, que estava a ponto de voltar depois de 18 anos de exílio, fez um acordo com os militares, que lhe devolveram o corpo. No ano seguinte, foi a vez do viúvo morrer.

Durante dois anos os corpos repousaram na residência oficial de Olivos. Nesse intervalo, o país foi governado pela terceira esposa de Perón, María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”.

Isabelita morria de inveja do carisma de sua antecessora. Por esse motivo, seu braço direito, o ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), fazia que Isabelita deitasse em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos”. O golpe militar de 1976 interrompeu estas tentativas esotéricas.

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Túmulo de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón. Uma amostragem informal sempre mostra que a maior parte das pessoas que visitam este túmulo são estrangeiras (foto de Ariel Palacios)

Perón foi levado para o cemitério de La Chacarita (há poucos anos ele foi levado para um mausoléu no município de San Vicente), enquanto que Evita foi enterrada na Recoleta, onde suas irmãs haviam comprado um túmulo para a família. Enterrada definitivamente no meio de um regime militar visceralmente anti-peronista, o túmulo de Evita evitou a monumentalidade que seus fanáticos teriam sonhado.

Ela descansa em um dos túmulos mais simples, rodeada pelos corpos da aristocracia que a detestou. E vice-versa (se bem que ela ostentava caríssimos vestidos e jóias, imitando a elite que ela afirmava que abominava).

Ironia do destino, Evita descansa a 100 metros do túmulo do general Pedro Eugenio Aramburu, autor do plano de esconder seu corpo, e um dos principais inimigos de seu marido. O próprio corpo de Aramburu foi sequestrado de seu túmulo pela guerrilha peronista em 1971.

Quando foi recuperado, a família ordenou a construção de um mausoléu a prova de novas profanações. O general repousa hoje sob toneladas de cimento. Atrás dele, em um elegante túmulo está o presidente Carlos Pellegrini, que governou o país no fim do século XIX.

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Em primeiro plano o baixo túmulo de Aramburu, a prova de guerrilheiros. Atrás, com menos temores e mais charme, Pellegrini (foto de Ariel Palacios)

Outro presidente que descansa na Recoleta é Manuel Quintana, que comandou o país na primeira década do século, quando Buenos Aires era a “Paris da América do Sul”. Quintana, considerado um dos mais elegantes presidentes que o país teve, é retratado com uma estátua em bronze que o mostra vestido a rigor, como se estivesse fazendo uma breve “siesta”.

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Quintana descansa. Pra valer. Deitado no caixão, deitado em sua estátua (foto de Ariel Palacios)

Nos fundos do cemitério um panteão do centenário partido União Cívica Radical (UCR) alberga os corpos de três presidentes: Hipólito Yrigoyen, Arturo Frondizi e Arturo Illía.

A poucos metros dali está o peculiar mausoléu de um casal que se detestava: o primeiro vice-presidente constitucional da Argentina, Salvador del Carril e sua esposa Tibúrcia. Del Carril recusou-se a pagar as dívidas de sua mulher e publicou um anúncio nos jornais na época avisando que não deveriam esperar que ele arcasse os gastos da gastadeira cônjuge. Ela nunca mais lhe dirigiu a palavra.

Há um século e meio descansam no mesmo lugar, mas, cada um olhando para a eternidade em diferentes direções. Ele, sentado em uma cadeira, olha para um lado. O busto dela, de costas, na parte de trás do mausoléu, para outro.

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Tibúrcia, shopaholic decimonônica e seu marido e vice-presidente Salvador. De costas, pela eternidade (foto de Ariel Palacios)

A elegância predomina nos túmulos da Recoleta. Isso pode ser visto no mausoléu da família Leloir, famosa por Federico Leloir, prêmio Nobel da Química. O mausoléu possui enormes colunas que sustentam uma cúpula verde decorada com um mosaico. Outro exemplo, ali próximo, são as estátuas dos anjos que decoram o túmulo da família Indart.

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Mausoléu da família Leloir. Federico, o mais brilante de todos, foi Nobel, além de inventor do molho ‘Golf’ (foto de Ariel Palacios)

Nas vizinhanças também está o túmulo de Pierre Benoit, um cultíssimo e misterioso francês que chegou à Buenos Aires no início do século XIX. Ele é indicado como o “delfim”, o filho herdeiro de Luis XVI, que – segundo a lenda, contrariando o que indica a História oficial – não teria morrido em Paris durante a Revolução Francesa. Benoit, que morreu em 1833, foi um arquiteto importante na Argentina. Ele teve um filho que seguiu seus passos e está no mesmo túmulo.

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Pierre Benoit ou Luis XVII? (foto de Ariel Palacios)

O escritor Jorge Luis Borges, em vários poemas, indicou que descansaria na Recoleta, tal como seus antepassados. Mas, no último ano de vida, 1986, residiu em Genebra, Suíça, onde mudou de ideia, pedindo para ali ser enterrado. No entanto, diversos intelectuais argentinos pedem que seu corpo seja repatriado e colocado no mausoléu da família de seu avô, o coronel Isidoro Suárez, imortalizado nos poemas e relatos do neto.

A Recoleta também tem suas histórias de fantasmas. A mais famosa relaciona-se com o túmulo de Rufina Cambaceres, filha de uma família aristocrática, morta no dia de seu décimo-nono aniversário, em 1903.

Enterrada às pressas, por causa da dor de seus pais, ela teria ainda estado viva no momento do funeral (sofreria de catalepsia), já que dias depois, por desconfiança de um deslocamento da terra acima, seu caixão foi aberto e encontraram o corpo da jovem fora da posição original.

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Aqui tenta descansar Rufina Cambaceres, ‘la dama de blanco’

A tampa do féretro de Rufina, do lado interno, tinha as marcas de suas unhas, mostrando sua desesperada tentativa de sair. A lenda indica que ela é a “dama de branco” que vaga ao redor do cemitério durante algumas noites.

Um dos túmulos mais pungentes da Recoleta – relativamente novo, de 1970 – alberga os restos de Ana Crociatti, uma jovem que morreu em sua lua de mel no meio de uma avalanche. Seus pais erigiram-lhe uma estátua que a representa, ao lado do cachorro que amava, Sabu. A placa, em bronze, registra a imensa tristeza dos pais, que ali perguntam, em italiano, “perché, perché…? (porquê, porquê?).

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‘Perché, perché’, perguntavam-se os Crociatti. Ana ao lado do fiel Sabu (foto de Ariel Palacios)

MORTOS ILUSTRES TAMBÉM ESTÃO EM PRAÇAS, IGREJAS E CHÁCARAS
O criador da Recoleta, o presidente Bernardino Rivadavia, que morreu no exílio na Espanha, paradoxalmente não descansa no cemitério que inaugurou, mas sim, a 24 quarteirões dali, no meio da Praça Miserere, em um monumental mausoléu que passa despercebido da imensa maioria dos portenhos por causa dos camelôs que circulam a seu redor.

Rivadavia havia deixado instruções explícitas para não ser enterrado nem em Buenos Aires ou Montevidéu ou “em qualquer outra cidade à beira do rio da Prata”.

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Mausoléu de Rivadavia, primeiro presidente da Argentina. Camelô vendendo saborosos sanduíches. Fila para os sanduíches incluída

Mas, em 1857 seu corpo foi levado à capital argentina, no meio de uma cerimônia fúnebre apoteótica que reuniu 60 mil pessoas, mais da metade da população da cidade na época. Desde 1932 ele descansa, contra sua vontade, no mausoléu rodeado pelas barraquinhas de cachorro-quente e pipoca.

O general Manuel Belgrano, criador da bandeira argentina, está enterrado sob um monumento localizado na frente da Basílica do Santíssimo Rosario, nas esquinas da avenida Belgrano e da rua Defensa, no bairro de Monserrat, ao lado do turístico bairro de San Telmo.

Belgrano estava enterrado dentro da igreja, mas em 1897, o governo decidiu construir um túmulo mais destacado para o herói nacional. Durante a transferência, o caixão foi aberto pelas autoridades. Diversos ministros surrupiaram dentes do defunto criador da bandeira, a modo de souvenirs, fato que transformou-se em um escândalo. Quase todos os dentes foram devolvidos. Quase todos.

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Túmulo do criador da bandeira, na frente de igreja no centro portenho. Ministros tentaram surrupiar dentes do defunto para tê-los como souvernirs (foto de Ariel Palacios)

Outra figura da História argentina que tampouco está presente em um cemitério é o herói da independência, o general José de San Martín, que descansa em um “puxado” da catedral de Buenos Aires, na frente da Praça de Mayo. Por ser maçom, o general não podia repousar no terreno da catedral.

Mas, a esperteza portenha encontrou uma saída, a de aderira ao corpo central do edifício um anexo onde as cinzas de San Martín descansariam pela eternidade. O cofre com os restos do herói são protegidos durante o dia por uma dupla de granaderos, o corpo especial do Exército criado pelo general.

Longe do centro de Buenos Aires descansa outro general, a figura mais emblemática da política argentina no século XX, o general Juan Domingo Perón. Ao morrer, em 1974, ficou provisoriamente em uma sala da residência de Olivos.

Mas, com o golpe de 1976, Raquel Hartridge, esposa do ditador Jorge Rafael Videla, foi morar em Olivos. Ela indicou rapidamente ao marido que não pretendia morar sob o mesmo teto de dois defuntos, mais ainda, porque eram dois mortos que abominava, Perón e Evita.

Evita foi colocada no cemitério da Recoleta e Perón ficou até 2006 no cemitério de La Chacarita. Nesse ano ele foi transferido para um mausoléu construído na antiga chácara no município de San Vicente, na Grande Buenos Aires, que possuía quando era presidente.

Lideranças peronistas tentaram convencer a família de Evita a permitir o traslado de seu corpo para San Vicente. Mas, suas irmãs recusaram a proposta. A alternativa foi a de realizar um novo enterro para Perón, que continuaria descansando sem a companhia da esposa.

O segundo funeral de Perón foi conturbado, já que facções antagônicas do Peronismo confrontaram-se aos tiros no dia do enterro, ao lado do caixão, que foi depositado no mausoléu às pressas. As lideranças peronistas levaram um ano para eliminar vestígios da destruição realizada durante os confrontos.

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Fotos de outros túmulos na Recoleta (fotos de Ariel Palacios)

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Túmulo da família Poli

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Túmulo da família Borges

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Túmulo do presidente Julio A.Roca

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Túmulo dos Alvear

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Túmulo do boxeador Luis A. Firpo

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Túmulo de um imigrante italiano que fez a ‘América’

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Túmulo do general Luis María Campos

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Túmulo de soldados argentinos, uruguaios e brasileiros mortos na Guerra do Paraguai

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Túmulo do presidente Mitre

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Gaucho argentino, fotografado em 1868 em Lima, Peru. Feita no atelier dos irmãos Courret

Para começar a semana, umas expressões tipicamente portenhas…

Haceme una gauchada: “Me faz uma gauchada”. ‘Gauchada’ seria algo relativo ao ‘gaucho’, o habitante dos Pampas. Mas, neste caso, atribuindo ao gaucho uma boa disposição para ajudar as pessoas, equivale a “me quebra o galho”.
Segundo José Gobello, da Academia del Lunfardo, é um “favor que se faz generosamente e sem esperar recompensa alguma”.
Frase: “gracias, me hiciste una gauchada” (obrigado, você me fez uma gauchada).

Se hizo pomada: “Ficou feito pomada”. Isto é, ‘estatelou-se’. Exemplo: o deputado Mutatis Piantadini foi esmagado por um meteorito quando saia de sua garçonnière na rua Juncal. O meteorito ‘lo hizo pomada’. Também pode ser usado no sentido de “fazer alguém pomada”. Voltando ao deputado Mutatis Piantadini: no debate na TV, o deputado Mamerto Zoilo de Azcuénaga y Azcárate ‘hizo pomada’ o deputado Mutatis. Mais um exemplo: o plano econômico do governo ‘hizo pomada a los pobres’.

Que julepe!: “Que medo!” Julepe viria do árabe ‘chuleb’. Este, por seu lado, viria do persa ‘gul-ab’ (rosa-água), que possui o sentido de ‘xarope’. Um xarope com um toque adocicado, para dissimular o sabor. E, como muitas pessoas, especialmente tem (ou tinham, antigamente) medo de xarope, daí o ‘julepe’. A palavra integra o lunfardo portenho há pelo menos um século.

Jorobate!: Literalmente, ‘fique corcunda!’. Joroba é corcunda. Equivalente a ‘dane-se!”

Ni fu ni fa: Mais ou menos. Nem chove nem molha. Não cheira nem fede.

Chau pinela!: Tchau pinela! Expressão usada por pessoas de mais de 60 anos para indicar que algo acabou. Normalmente vem acompanhado do Y (e) na frente. “Y..chau pinela!”.

MARADONIANO ‘CHAU PINELA’?
“Depois das eliminatórias vou conversar com ‘Don’ Julio para ver se continuarei”. Com estas palavras, o técnico da seleção argentina, Diego Armando Maradona, indicou na terça-feira, pela primeira vez, que poderia deixar o posto que ocupa há quase um ano.

“Don Julio” é Julio Grondona, o poderoso presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), entidade que comanda há 30 anos de forma ininterrupta.

Maradona está com a imagem em baixa. Após uma sequência de derrotas que colocaram a Argentina à beira da desclassificação para Copa do Mundo da África do Sul, a torcida exige sua remoção. Diversas pesquisas indicam que mais de 80% dos torcedores desejam que ele abandone seu posto.

“Meu compromisso é com os ‘muchachos’ (rapazes) e com Julio, a quem eu disse que aceitava o cargo quando ele me convocou. Depois que tudo isto passe (as eliminatórias da Copa do Mundo) voltarei a me reunir com Grondona. É que há coisas que aconteceram e que eu não gostei, e agora vou lhe dizer”, disse Maradona, com olheiras, o rosto inchado e visivelmente irritado com a perda de prestígio que está sofrendo.

Os analistas esportivos destacam que Maradona – errático em sua função de técnico – perdeu a autoridade perante vários jogadores que meses atrás o idolatravam.

“Quando cheguei, era o homem mais feliz do mundo. Mas, depois mudaram algumas coisas, sobre as quais falarei na hora adequada. Vou avaliar se eu continuo…com minhas condições”.
Maradona também lamentou a ausência do jogador Pablo Zabaleta, que está machucado, no jogo decisivo que a Argentina terá contra o Peru neste sábado. “Vou me virar com este plantel”, disse Maradona resignado.

A Argentina enfrentará o Peru no portenho estádio Monumental de Núñez no dia 10 de outubro. Quatro dias depois será a vez do confronto dos argentinos com o Uruguai em Montevidéu, no estádio Centenário.

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E de brinde, umas frases de Mafalda, a menina-filósofa criada pelo cartunista Quino:

- Todos acreditamos no país! O que já não sei a esta altura é se o país acredita na gente…

- Estamos fritos rapazes! Acontece que, se a gente não se apressa em mudar o mundo, depois é o mundo que muda a gente…

- Mais do que um planeta, este aqui é uma grande casa da mãe Joana espacial!

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recentes

AQUELLAS PEQUEÑAS COSAS
Mercedes canta com o catalão Joan Manuel Serrat “Aquellas pequeñas cosas” (Aquelas pequenas coisas).
O link do Youtube:

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Mercedes Sosa faleceu neste domingo às 5:15 horas da madrugada, após mais de duas semanas internada por problemas renais e hepáticos agravados por complicações cardíacas e respiratórias. A intérprete que imortalizou canções como “Gracias a la vida” (Obrigado à vida) e “Alfonsina y el mar” (Alfonsina e o mar), de 74 anos, havia recebido a extrema-unção das mãos de um de seus amigos, o padre José Luis Farinello.

Políticos e intelectuais argentinos expressaram seu pesar pela morte da cantora, que nos anos 70 e 80 foi símbolo de resistência às ditaduras militares na América Latina.

A artista estava em coma farmacológico desde a quinta-feira. Ela havia sido internada no dia 18 de setembro na clínica de la Trinidad, no portenho bairro de Palermo.
Poucas horas antes de sua morte, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, havia manifestado seu “carinho e admiração” por Mercedes.

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A cantora, em um de seus últimos shows

A cantora possuía um vínculo especial com esse país, já que havia tornado famosos em todo o mundo diversos poemas da poetisa chilena Violeta Parra e do poeta Pablo Neruda (1904-73).

Mercedes também imortalizou poemas do argentino Atahualpa Yupanqui (1908-92).

Uma das canções mais famosas interpretadas por Mercedes era “Alfonsina y el mar”, que relata poeticamente a morte da poetisa suíço-argentina Alfonsina Storni (1892-1938), cujo organismo havia sido devastado pelo câncer.

Haydee Mercedes Sosa, ou mais simplesmente “La Negra” (A Negra, por seus cabelos pretos e tez morena) – como era chamada carinhosamente por seus colegas e fãs – foi a “voz” dos exilados argentinos durante a última Ditadura Militar (1976-83).

A contralto também interpretou tangos e rocks argentinos.

Recentemente havia recebido três indicações para o Grammy Latino 2009 por seu álbum “Cantora 1″, no qual fez duetos com cantores internacionais, entre eles a colombiana Shaquira e o catalão Joan Manuel Serrat.

Seu corpo será velado ao longo deste domingo no Congresso Nacional.

As primeiras informações indicavam que, seguindo os desejos da falecida cantora, seu corpo seria cremado. Suas cinzas seriam espalhadas em Buenos Aires e algumas províncias argentinas.

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Mercedes e Shaquira, duas gerações em perfeita sintonia

DUERME NEGRITO
Mercedes Sosa cantando “Duerme negrito”.
O link do Youtube:

LA MAZA
Mercedes, acompanhada da colombiana Shaquira, canta ‘La Maza’.
O link do Youtube:

HERMANO DAME TU MANO
Mercedes entoa ‘Hermano dame tu mano’, um clássico latinoamericano.
O link do Youtube:

E um tango com Mercedes, do último álbum, “Cantora 1″.
NADA
Mercedes canta um dos mais belos (e pouco conhecido no exterior) tangos, “Nada” (letra de Horacio Sanguinetti e música de José Dames)
O link do Youtube:

TONADA DEL VIEJO AMOR
Esta canção é de Eduardo Falú. Neste domingo, o artista lamentou, pouco depois da morte da amiga: “estamos cada vez mais sozinhos”.
“Tonada del viejo amor”. O link do Youtube:

pavarotti
Mercedes Sosa e Luciano Pavarotti. Quando o tenor italiano faleceu, há dois anos, o recordou como um “grande cavalheiro”. Juntos, cantaram no estádio do Boca Juniors em Buenos Aires em 1999

GRACIAS A LA VIDA
Os versos de uma das mais famosas canções interpretadas por Mercedes Sosa são da autoria da chilena Violeta Parra.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida

A canção, na voz de Mercedes Sosa.
O link do Youtube:

ALFONSINA Y EL MAR
E para encerrar, “Alfonsina y el mar”, uma das canções mais emblemáticas da carreira de Mercedes Sosa.
A letra foi escrita pelo historiador Félix Luna.
Os versos “Cinco sirenitas / Te llevarán /
Por caminos de algas / Y de coral”
são de dilacerar o coração.

Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

A música é do pianista Ariel Ramírez.
Aqui, em uma versão de Mercedes Sosa.
O link do Youtube:

sabato
Eduardo Falú, Mercedes Sosa e Ernesto Sábato

JORNAIS ARGENTINOS
No La Nación, o texto do jornalista Gabriel Plaza, um dos melhores que cobrem a área artística.
 http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota…

E este artigo, do jornal Crítica:
 http://www.criticadigital.com/index.php?…

No Clarín:
 http://www.clarin.com/diario/2009/10/04/…

A notícia, no jornal Perfil:
 http://www.perfil.com/contenidos/2009/10…

olhosfechados
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