
Alfonsín e seu costumeiro gesto de vitória
Nesta terça-feira às 20:30 o ‘Pai’ da Democracia argentina, o ex-presidente Raúl Alfonsín – que governou o país entre 1983 e 1989 – faleceu aos 82 anos após uma dura luta contra o câncer.
Durante anos, após o encerramento de seu governo, Alfonsín foi intensamente criticado por parte da opinião pública pelo descalabro econômico dos últimos meses de sua gestão, quando o país foi assolado por uma hiper-inflação de quase 5.000%.
Mas, nos últimos anos o ex-presidente estava sendo crescentemente valorizado por seu respeito às instituições democráticas e honestidade. Além disso, desde a virada do século, os argentinos resgataram o apreço de Alfonsín pelo consenso e o diálogo, algo raro na costumeiramente antagônica política argentina
Alfonsín era o único ex-presidente desde a volta da Democracia que nunca havia sido processado por corrupção (embora alguns de seus ex-assessores, sim, protagonizaram escândalos).
Em 2005 entrevistei Alfonsín sobre os 20 anos do histórico encontro que teve com o ex-presidente José Sarney sobre a ponte Tancredo Neves, sobre o rio Iguaçu, na fronteira entre os dois países, no dia 30 de novembro de 1985. A reunião foi o pontapé inicial para a integração Brasil-Argentina.
Na entrevista, Alfonsín, tal como um pai que não vê o filho se desenvolver como era esperado, não teve papas na língua em afirmar que “o Mercosul poderia ter ido mais longe. Ficou aquém do que o Sarney e eu havíamos planejado”.

Pioneiro da integração, Raúl Alfonsín encerrou hipóteses de conflito bélico com o Brasil
Esta é a entrevista que fiz na época com o ex-presidente.
Estado – Que lembranças tem do encontro com Sarney, em 1985?
Alfonsín – Conhecia o Sarney de sua posse. Logo de cara percebi que íamos ser amigos. Pedi ver a represa de Itaipu, que havia sido fonte de discussões anos antes entre o Brasil e a Argentina. Depois o levei à nossa planta de enriquecimento de urânio (que era secreta) para que visse que era de fins pacíficos. Isso mostrou nossa vontade de buscar a integração. A ideia era superar as lendas que indicavam que os dois países sempre seriam concorrentes, especialmente na área militar. Os medos ficaram para trás. Agora temos compreensão mútua.
Estado – Enfrentou, na época, a oposição de setores dentro da Argentina que resistiam à ideia de uma integração com o Brasil?
Alfonsín – Não. Mas, o que sim acontecia era uma posição permanente dos EUA contra qualquer espécie de acordo entre os países da América Latina. Posteriormente foram surgindo alguns problemas no Mercosul, principalmente pela pressa em que a união alfandegária foi sendo levada, tal como havia determinado o Tratado de Assunção. Sarney e eu havíamos pensado a integração em um prazo de 10 anos. Mas, eles (os sucessores) a reduziram para cinco anos. Isto causou problemas. Mas, esses problemas não devem assustar-nos, já que no primeiro ano da comunidade do aço e do carvão (embrião da Comunidade Europeia e posteriomente, União Europeia) registrou mais de 700 conflitos. Os conflitos acontecem…O problema é quando não existem mecanismos que possam resolvê-los, Para isso é preciso um organismo supranacional.
Estado – Imaginou há 20 anos que o Brasil e a Argentina estariam tão integrados?
Alfonsín – Não…Eu imaginava que estariam mais integrados ainda! Sarney e eu pensávamos em outros aspectos, que foram deixados de lado. Nos anos 90 houve grandes avanços na área comercial, que não desmereço, de forma alguma. Mas agora o Mercosul está voltando à essa concepção que havíamos tido no início, que era que a integração englobasse não somente o lado comercial, mas também a área científica, tecnológica, cultural e política. Falta muito a fazer no Mercosul, mas acho que está rendendo bons resultados. Seria sido muito importante ter políticas macro-econômicas compatíveis, especialmente políticas cambiais.
Estado – Se desse uma nota de 1 a 10 para o Mercosul, qual seria?
Alfonsín – Daria uns 6 pontos…Falta muito ainda a fazer. Mas, é uma nota “boa”.
Estado – Há poucos dias, parlamentares dos países-sócios definiram qual será o formato e os prazos para a formação de um futuro Parlamento do Mercosul…
Alfonsín – É bom, sempre que não seja um organismo burocrático a mais. É positivo, pois os povos devem estar representados. Será benéfico, sempre que isso não sirva para que (os políticos) façam turismo…
Estado – A ideia da moeda única é de sua época…
Alfonsín – Pensei que poderia ter o nome “Gaucho”. Sarney gostou da ideia. A palavra é a mesma nos dois países. Pelo menos, a princípio, poderia ser uma moeda usada para o intercâmbio comercial.
Estado – Com frequência aparecem esperneios empresariais que reclamam de invasões de produtos em ambos países. Mas, esses setores em conflito envolvem menos de 5% do intercâmbio comercial…
Alfonsín – Geralmente prevalecem os interesses particulares…e se esquecem os interesses gerais. O estranho desses casos é que quem mais se queixa, e fala da Brasil-dependência, são os mesmos que defendem a ALCA. Mas (fazendo um olhar irônico), se não podem concorrer contra os industriais de São Paulo, vão poder contra os empresários dos EUA?
Estado – Acredita na retomada das negociações da ALCA?
Alfonsín – Não acho que a ALCA seja hoje em dia uma prioridade dos EUA. Por isso, espero que não aconteça uma enorme pressão, o que poderia acontecer se fosse algo importante na agenda do governo americano. Sou muito cético em relação à ALCA.Os EUA pedem tudo e não dão nada em troca. Não poderia aceitar a ALCA nas situação atual, na qual eles continuariam com os subsídios agropecuários e nós teríamos que abrir as portas a seus produtos industrializados.
Estado – O que acha da Comunidade Sul-Americana de Nações?
Alfonsín – É algo que precisa caminhar, é um objetivo, a longo prazo…
Estado – O fato de que a economia brasileira seja maior do que a da Argentina causa desequilíbrios que atrapalhem a integração?
Alfonsín – Isso dá para resolver. Só temos que procurar nichos onde crescer, avançar em alta tecnologia, podemos conviver e crescer junto com o Brasil…
Estado – Fala com Sarney com frequência?
Alfonsín – Somos convidados, sempre juntos, para dar conferências. Por isso, com freqüência tenho a oportunidade de dar um abraço nesse grande amigo, que é o arquiteto do Mercosul.
Estado – Vocês seriam uma dupla dinâmica para o Mercosul, tal como foram Charles De Gaulle e Konrad Adenauer para a União Européia?
Alfonsín (rindo maroto) – Hehehe…bom, sim…bem…levando em conta as diferentes magnitudes…
Após esta conversa, Alfonsín me acompanhou até a porta de seu amplo – embora austero – apartamento na avenida Santa Fe. Ao se despedir, pegou minha mão direita com suas duas mãos e me disse com voz paternal: “que te garúe finito!” (“que a garoa seja levinha!”, uma expressão equivalente a ‘boa sorte’).

Em 2005, no final da entrevista, Alfonsín repetiu o gesto da vitória que costumava fazer nos comícios na volta da democracia (foto de Ariel Palacios)

Quando Maradona abre a boca, é de se esperar alguma polêmica epígrafe
Diego Armando Maradona está novamente na crista da onda. No sábado à noite debutou oficialmente como técnico da seleção argentina em um jogo oficial (os anteriores, nos últimos três meses, haviam sido amistosos). O resultado do embate no estádio Monumental de Núñez com a seleção da Venezuela – um placar de 4 a 0 a favor da Argentina – reduziu drasticamente as críticas que eram feitas ao turbulento “El Diez” desde que havia sido entronizado no final do ano passado como novo técnico da seleção argentina.
Em novembro passado diversas pesquisas indicaram que uma proporção de 60% a 85% dos argentinos não queriam Maradona de forma alguma no comando da seleção. Os argentinos não negavam reconhecimento a “El Pibe de Oro” (O Garoto de Ouro) por seu desempenho como jogador nos anos 80 e início dos 90. Mas, passado de glórias futebolísticas à parte, consideravam que o ex-jogador não tinha estabilidade emocional suficiente para o posto (levando em conta as overdoses de cocaína – e até uma insólita de croissants com doce de leite – o coma hepático, os escândalos com modelos, além dos frequentes acessos de ira, entre outros).
No entanto, o desempenho da seleção neste fim de semana – e o comportamento calmo de Maradona nos últimos meses – começaram a mudar gradualmente a postura da opinião pública a favor do técnico.
O ressurgimento do protagonismo de Maradona também está suscitando expectativas por novas “pérolas” do pensamento maradoniano. O ex-jogador é conhecido pela prática constante do esporte das epigrafes, no qual é expoente na Argentina. Suas frases, costumeiramente condimentadas com toques de humor, também contêm uma dura crueza e ocasionalmente partem para a agressividade explícita.
Segundo os jornalistas Marcelo Gantman e Andrés Burgos, autores do livro “Diego Dijo” (Diego Disse), que reúne mil frases do mais puro pensamento maradoniano, indicam que Maradona – como “frasista” – foi “um talento inesperado”: “sua capacidade de resumir em uma frase curta, às vezes com ironia, outras com ira, quase sempre com destinatário preciso, são equivalentes à resolução de suas jogadas. Diego fala tal como jogou. Pensa rápido e executa da mesma forma”.
A seguir, alguns conceitos pronunciados pelo polêmico “El Pibe de Oro” nos últimos 30 anos:
FUTEBOL – Sobre sua paixão, o futebol, Maradona não tem sutilezas. “Pressão é o que sofre o cara que acorda às 5:00 da manhã para trabalhar e ganhar 10 pesos. Não é o caso da gente, que andamos em BMW ou em Mercedes Benz” (1996), disse, referindo-se à vida dos jogadores de altos salários.
Em suas frases não falta o egocentrismo: “a bola diz ‘Diego’ em todos os pontos do planeta” (1997).
Maradona também tentou derrubar clichês sobre esse esporte: “Como é que dá para falar nessa tal de beleza futebolística?? Se formos falar de beleza, que seja a da Peleritti (Carolina Peleritti, uma morena argentina considerada nos anos 90 uma das mais belas modelos do país)…Beleza do futebol, uma ova!”. (1993).
Além disso, Maradona surpreende com o inesperado: “se não tivesse sido jogador de futebol, gostaria ter feito a carreira de contador”.
DEUS - “El Diez” considera que o futebol surgiu em sua vida como um desígnio divino: “sou um privilegiado, mas somente porque Deus quis. Porque Deus me fez jogar bem. Ele me deu essa habilidade. Por isso faço o sinal da cruz sempre que entro no campo. Se não fizesse isso, ia achar que o estava traindo”.
Sua relação com o Todo-poderoso, afirma, é especial: “é evidente que tenho linha direta com o Barba (expressão que usa para referir-se a Deus)“.
PELÉ – Em um quarto de século de carreira, “El Diez” falou sobre tudo e sobre todos. Um dos assuntos maradonianos foi seu eterno – embora não contemporâneo – rival brasileiro, Pelé.
Há frases nas quais Maradona confessa sua admiração pelo “Rei”: “morro de vontade de conhecer Pelé. Fico satisfeito se tiver cinco minutos com ele. E se tiver dez, sou Gardel (ser Gardel, na Argentina equivale a ser o máximo)“. A frase foi pronunciada em 1979, poucos dias antes do jovem Maradona conhecer o jogador brasileiro.
Logo após conhecê-lo, comentou extasiado: “eu sabia que Pelé era um deus como jogador. Mas, agora que o conheci, sei que também ele é um deus como pessoa”.
Depois, o fascínio com Pelé acabou.
Isso fica evidente em frases como “Pelé fala demais…teria que calar a boca”, pronunciada em 1982. Cinco anos depois, disparou de forma lacônica: “Pelé é homossexual”.
Em 1991, completou: “Pelé é um títere da FIFA e um office-boy de Havelange”. Mas, depois, recuou: “Pelé tem que substituir Havelange no comando da FIFA. Eu adoraria” (1995). Mais uma vez, criticou: “o negão dá pena. Está doente de protagonismo” (2000). No mesmo ano, disparou: “Pelé debutou sexualmente com um garoto, e além disso, espancava a esposa. Pelé continua transando com garotinhos”.
A VIDA – “As pessoas precisam entender que Maradona não é uma máquina de dar felicidade”, afirmou em 1982, quando já começava a falar de si próprio em terceira pessoa. Em 2004, internado em uma clínica psiquiátrica, desabafou sobre seus colegas: “nesta clínica tem um que diz que é o Robinson Crusoé…e ninguém acredita que eu sou o Maradona”.
O ex-astro lamenta que as pessoas se aproveitem dele: “todo o mundo me usou”.
DROGAS – “Para todo o mundo eu fui um drogado, sou um drogado e serei em drogado”, desabafou Maradona em 1996. Em 2004, entre uma overdose e outra de cocaína, murmurou: “estou perdendo por nocaute”. Na mesma época, lamentou: “tenho 44 anos e estou mais próximo do fim de minha vida do que do início”.
POLÍTICA – Cético, Maradona mostrou na virada do século uma visão crua da Argentina: “neste país sempre acontece a mesma coisa. É o mesmo jogo, que passam 40 mil vezes em replay”. Pessimista sobre seus próprios compatriotas, afirmou: “o esporte nacional na Argentina é enganar as pessoas”.
E aqui, um bônus track:
FUTEBOL E FILOSOFIA
“Os argentinos são maradonianos” (1997)
“Chegar até a área e não poder chutar em direção ao gol é como dançar com a própria irmã” (2001)
“Nunca imaginei que existiam pessoas que ficam felizes com minha tristeza” (1990)
DROGAS
“No começo, a droga te deixa eufórico…é como ganhar um campeonato. Aí você pensa: amanhã não importa, já que hoje eu ganhei o campeonato” (1996)
“Não sei como apareceram essas substâncias no controle anti-doping. Com certeza é um engano” (1990).
“Eu me drogo, mas não vendo cocaína” (1994)
“Quando estava internado na clínica psiquiátrica eu dizia aos pacientes que era Maradona…e o louquinho que dizia que era Napoleão me respondia que eu estava maluco” (2004)
POLÍTICA
“Fidel Castro tem os testículos bem colocados” (2001)
SEXO
“Não tenho nada contra os gays. Acho bom que existam, já que dessa forma deixam livres mais mulheres para nós, que somos machos de verdade” (1998)
“Transo com a Cláudia (na época, sua esposa) todos os dias, pois quero ter um filho homem” (1999)
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Juba outrora, a cabeleira do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) atualmente está rala. Por esse motivo, precisa de um exímio coiffeur para recuperar o brilho e presença – pelo menos, parcialmente – que teve no passado. Para isso, o ex-presidente decidiu abrir um concurso para o posto de seu cabeleireiro pessoal.
Segundo o jornal portenho “Perfil”, a competição está na reta final. Após duas árduas provas de tingimento e penteado dos cabelos de Menem – observados atentamente por um dos secretários privados do ex-presidente – restaram cinco candidatos.

Menem, nos tempos áureos de sua frondosa juba que emulava Quiroga
Em 1989, quando foi eleito presidente, Menem chamou a atenção por suas exóticas costeletas, com as quais pretendia emular seu ídolo histórico, o caudilho Facundo Quiroga (do qual, segundo sua biógrafa Gabriela Cerruti, Menem acreditava ser sua reencarnação). Nos anos seguintes, “El Turco” (O Turco), como era conhecido popularmente, foi reduzindo gradualmente o volume de sua cabeleira. Mas, simultaneamente, incrementou os cuidados dedicados à ela.
Com o passar dos anos, o então presidente intensificou a tintura preta de seus cabelos, de forma a esconder suas cãs, que somente apareciam nas suíças. Para cuidar da capilaridade presidencial, Menem colocou o cabeleireiro Tony Cuozzo a seu serviço especial. O então presidente também instalou uma cadeira de cabeleireiro dentro do avião presidencial, on Tango 01.

A cabeleira presidencial mutou em tamanho e estilo ao longo de seus dois governos
Nos últimos dois anos Menem deixou de lado a tintura preta e optou por tingir seus cabelos de loiro claro. O ex-presidente nega que seja tintura e jura que trata-se da coloração natural de seus cabelos brancos.

Menem, com seus cabelos relativamente ‘brancos’
O vencedor do concurso para cabeleireiro de Menem terá que cumprir certos requisitos, tais como contar com visto para entrar nos EUA (Menem viaja com frequência para os Estados Unidos); disponibilidade para viajar à La Rioja a qualquer hora; e manutenção da cabeleira do ex-presidente duas vezes por semana. O escolhido receberá um salário mensal de 6 mil pesos (US$ 1.600).
EMBARGO – Enquanto o ex-presidente e atual senador está atrás de um cabeleireiro, a Justiça decretou um embargo de US$ 54 milhões sobre seus bens. A decisão foi tomada pelo juiz Norberto Oyarbide, que está processando Menem por “administração infiel” na concessão do espaço radioelétrico em 1998.
A Justiça considera que o governo Menem não exerceu o controle necessário sobre a concessão, além de ter recebido supostos subornos da empresa francesa Thales, que na época recebeu o controle do espaço radioelétrico.
Menem também está sendo processado por suposto encobrimento de pistas do atentado realizado em Buenos Aires em 1994 contra a associação beneficente judaica AMIA. Além disso, está no meio de um julgamento oral e público sobre o suposto contrabando de armas para a Croácia e Equador entre 1991 e 1995.
A seguir, um vocabulário ‘jovem’ da noite da capital argentina. Verbetes úteis para mulheres e homens que visitarem a cidade nos próximos feriadões brasileiros. Posologia: usar este palavreado somente em ambientes informais…
Fashion: Os portenhos pronunciam “fáxion” (com um ‘x’ como em ‘queixo’). Que está na moda, mas com categoria. Um lugar pode ser “fashion”. Uma pessoa, idem.
Re-out: O “re”, prefixo usado ad nauseam pelos portenhos, aplica-se para reforçar uma idéia. Re-out é algo muito “out”.
Histérico, histérica: Os argentinos usam esta palavra fora do contexto freudiano. Refere-se à pessoa que gosta de ser olhada, exibir-se, mas na hora “h” não quer nada. Pessoa que provoca por provocar, comportamento considerado (por turistas estrangeiros e também os nativos) como algo “freqüente” na noite portenha.
Mina: Garota
Chico: Garoto, rapaz
El flaco: Literalmente, é “o magro”. Mas, neste caso, usa-se como sinônimo de “rapaz” ou “cara”.
La flaca: O mesmo, usado no feminino.
Gato/gata: Jamais usar como elogio, tal como no Brasil, pois na Argentina refere-se a “uma garota de programa”.
Un táxi: Se for para o veículo com taxímetro, tudo bem. Mas, se alguém referir-se a um rapaz como ‘un táxi’, refere-se a um garoto de programa.
Fuerte: “Forte”, usado para indicar alguém que possui supimpas formas físicas. Ou, aquelas pessoas que no Brasil seriam classificadas como “gostoso” ou “gostosa”.
Re-fuerte: Prá lá de ‘fuerte’.
El celu: O celular. “Dame tu número de celu” significa “me dá teu número de celular”.
No existís: Você não existe. Se toca, meu.
Mirá vos… : Olha só, pois é. Frase usada quando a conversa está chata e tenta-se encerrar o assunto. Uma de minhas expressões preferidas! Usar como se depois viessem três pontinhos. Os “…” são imprescindíveis.
Tipo nada: Pronuncia-se “tipo náááá”. Frase estepe, equivalente a “bem, então….”.
Buenísimo: Pronuncia-se esticando o “i”, desta forma: “bueníííííísimo”. Para indicar que algo é muito legal.
Boludo, boluda: antigamente era – inexoravelmente – um palavrão. Hoje em dia é predominantemente sinônimo de “cara” (para homens e mulheres) se usado entre amigos ou conhecidos. Ou mesmo entre desconhecidos mas com tom amigável, especialmente se forem jovens. Entre adultos continua sendo palavrão. A versão abreviada para o ‘boludo’ com sentido de ‘cara’ é “bolú”. A mudana do uso dessa palavra seria equivalente ao ‘coitado’ em potuguês (que há mais de um século referia-se a quem leva o coito). Com o passar do tempo, perdeu seu impacto e sua conotação original).
Levante: “Ir de levante”. Sair para paquerar, com expectativas elevadas de conseguir algum resultado. “Lugar de levante” é o lugar de paquera.
De gira: quando você sai para “levantar”
Lomo: “Lombo”, ou corpo, no sentido de admiração. “Que lomo!”
Lomazo: Um corpaço. Usado para homens e mulheres.
Lolas: seios.
Gomas: seios.
Delantera: seios
El paquete: palavra genérica para referir-se ao volume do membro viril masculino sob a calça. As mulheres costumam usar uma palavra mais específica, “el bulto”, ou, dito da forma “vesre” (ao contrário), “el tobul”. Elas também aplicam o termo “el pedazo”. Os gays usam a palavra “el bollo”.
Una loca: Gay, mas tresloucado (no entanto, é uma palavra usada dentro da própria comunidade gay. Não é termo que um heterossexual costume utilizar para referir-se a uma pessoa gay).
Chongo: Homem de aparencia altamente masculina, geralmente de comportamento heterosexual, mas com eventual inclinação para relações homossexuais.
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão. E, acima de tudo, serão cortadas frases de comentaristas que façam apologia do delito.
Os argentinos recordam hoje – feriado nacional – os 33 anos do golpe que instaurou, no dia 24 de março de 1976, a mais sanguinária Ditadura Militar da América do Sul. Organizações de defesa dos Direitos Humanos, associações civis, partidos políticos e sindicatos realizarão cerimônias para recordar os 30 mil civis assassinados pela Ditadura. Diversas marchas estão programadas para exigir que a Justiça acelere os processos contra os autores de crimes contra a Humanidade.

O ditador argentino Jorge Rafael Videla acreditava que estava realizando uma missão divina
FATOS E NÚMEROS
- Entre 1976 e 1983 os militares assassinaram ao redor de 30 mil civis, entre eles, crianças e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos.
- Os militares afirmam que mataram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa na virada do século, outros colegas seus dizem que não mataram pessoa alguma)
- O Estado argentino, com a volta da Democracia, recebeu pedidos para indenizações da parte de parentes de 10 mil desaparecidos.
- A Ditadura teria sido responsável pelo sequestro de 500 bebês, filhos das desaparecidas. Desde o final dos anos 70 as avós da Praça de Mayo localizaram e recuperaram a identidade de 95 dessas crianças, atualmente adultos.
- Em 1983, nos últimos meses da Ditadura, um relatório das próprias forças armadas argentinas indicou que a guerrilha e grupos terroristas de esquerda e cristãos nacionalistas teriam assassinado 900 pessoas. Diversos historiadores afirmaram ao longo dos anos que esse número está ligeiramente inflacionado, já que diversos dos mortos da lista militar teriam sido assassinados pelos próprios militares, na miríade de brigas internas (e, convenientemente, teriam colocado a culpa nos terroristas).

Nos últimos anos, equipes de especialistas começaram a descobrir fossas comuns onde estão enterrados os corpos dos desaparecidos
MODALIDADES DE ASSASSINATOS
Formas de assassinar civis, por parte dos militares, durante a Ditadura:
- Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.
- Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.
- Fuzilamento.
- Morte por terríveis torturas
MODALIDADES DE TORTURAS
As modalidades de tortura abrangeram um amplo leque. Algumas foram criadas na Argentina, outras, importadas das forças de segurança da França que haviam atuado na Guerra da Argélia.
- Picana elétrica – criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina. A neta do escritor e filha do torturador, Susana ‘Piri’ Lugones, militante de esquerda, foi torturada e morta na Ditadura com o invento criado pelo próprio pai.
- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.
- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.
- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.
Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

Colegas ditadores: o chileno Augusto Pinochet (ao fundo) e o argentino Jorge R. Videla (em primeiro plano)
GUERRA CIVIL OU GUERRILHA LOCALIZADA?
Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país.
Mas, a realidade é que a pequena guerrilha argentina, mais especificamente a que era protagonizada pelo ERP (Exército Revolucionário do Povo), dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina (localizada no norte do país).
A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.
Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.
Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador.
Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.
FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES
Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura da região no século XX, o regime de 1976-83 foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.
Fiascos Militares:

O general Galtieri – famoso por seu costume de ingerir significativas doses de scotch – protagonizou a invasão das ilhas Malvinas em abril de 1982; em junho seus oficiais já estavam assinando a rendição às tropas britânicas
- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares.
- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.
- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.
Desastres econômicos:

Martínez de Hoz, Ministro da Economia do ditador Videla, aumentou a dívida pública argentina, elevou o déficit fiscal e criou ‘la plata dulce’ (a ciranda financeira argentina)
- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.
- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.
- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%
- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.
- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.
- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.
- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).
- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.
- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.
MILITARES E ESPORTE - Apesar das denúncias de graves violações aos Direitos Humanos a FIFA não cancelou a realização da Copa de 1978. Para a Ditadura, a vitória nesse evento esportivo foi um trunfo político, que lhe garantiu alta popularidade. Os argentinos exilados discutiam no exterior se deveriam torcer a favor ou contra a seleção. Alguns argumentavam que a vitória na Copa não favoreceria a Ditadura, e que esporte e política nunca se misturam. Outros destacavam que esporte e política misturam-se, e muito.
NEGOCIATAS DE 1978 – O Orçamento inicial da Copa de 1978 era de US$ 70 milhões. Custo final da Copa: US$ 700 milhões (o valor supera amplamente o custo da Copa realizada na Espanha, em 1982, que foi de US$ 520 milhões).
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão. E, acima de tudo, serão cortadas frases de comentaristas que façam apologia do delito.

Pio X quis ver o tango de perto para avaliar se era apto para a cristandade
O DIABO DANÇA TANGO - “Demasiado sensual!”. “Obsceno!”. “Satânico!”. Estas eram algumas das duras expressões emitidas pelos bispos franceses ao referir-se ao ritmo sul-americano em 1913, quando arrasava nos salões da burguesia parisiense. Os arcebispos de Paris, Cambray e Sens, junto como o bispo de Poitiers atacaram ferozmente esse ritmo “pecaminoso” desde seus púlpitos, pedindo que a Santa Congregação da Disciplina dos Sacramentos analisasse o caso e considerasse sua proibição.
Diante da polêmica que ameaçava tornar o tango alvo de uma proibição da Igreja Católica, a embaixada argentina em Roma decidiu demonstrar ao papa Pio X (1903-1914) que a dança de forma alguma ameaçava os bons costumes cristãos. Os diplomatas argentinos estavam respaldados por diversos jovens da aristocracia italiana, ansiosos por dançar o tango no carnaval de 1914. Tudo indicava que se a Igreja o proibisse, as Forças Armadas da Itália impediriam que seus oficiais o dançassem nos elegantes bailes que estavam sendo preparados para essa festividade.
TANGO PASTEURIZADO - Poucas semanas antes do carnaval, em fevereiro desse ano, o Sumo Pontífice encarregou-se de julgar, pessoalmente, os eventuais “perigos” do tango. Quem ficou encarregado de defender o ritmo perante o supremo chefe da cristandade foi um casal de irmãos da aristocracia italiana. Os jovens “enganaram” o papa Pio X, dançando uma versão “light”, que fosse o suficientemente “inofensiva” para os padrões morais do Santo Padre.
O cuidado dos dançarinos em evitar qualquer tipo de “obscenidade” obteve resultados exagerados. Pio X, após a exibição do tango no Vaticano, ironizou sobre essa moda proveniente da Argentina: “ela obriga seus escravos (os dançarinos) a dançar um baile tão pouco divertido”. O papa deu o OK pontifício para o tango, mas aproveitou a ocasião para recomendar a “furlana”, dança camponesa do século XIX, que considerava “mais animada”.
Com o prestígio obtido nos salões da aristocracia europeia e certa neutralidade papal, o caminho estava aberto para que o tango voltasse à Buenos Aires. Não sendo mais visto como um ritmo do lumpen, conquistou a classe média e expandiu-se, permitindo, dessa forma, o sucesso de cantores como Carlos Gardel. O tango começava a conquistar os corações e mentes dos argentinos.
NOVO CRIVO – Mas, a má fama do tango ainda permaneceu pairando sobre a Europa em certos setores da sociedade. Uma década depois, no dia 1 de fevereiro de 1924, outro papa, neste caso, Pio XI (1922-39), quis analisar pessoalmente aquilo que Pio X havia autorizado.
Nesta ocasião, o tango foi dançado – novamente em versão “diet” – pelo bailarino argentino Casimiro Aín. A melodia escolhida foi um raro tango com nome religioso, o “Ave Maria”, do compositor Francisco Canaro. Para conquistar o coração do papa, Aín fez um malabarismo no fim do tango que o deixou em posição de genuflexão diante do Sumo Pontífice. Pio XI retirou-se do salão em silêncio. A reação papal foi interpretada como um sinal de aprovação. Nunca mais o tango teve que passar pelo crivo da Santa Sé.

Pio XI – os tangueiros interpretaram que, quem cala, consente
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A presidente Cristina Kirchner, que reúne-se nesta sexta-feira em São Paulo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estará acompanhada ao longo da jornada pela Ministra da Produção da Argentina, Débora Giorgi, que possui um longo currículo de especialista em comércio exterior.
A trajetória de Giorgi também inclui uma fama de ‘durona’ e ‘implacável’ com o Brasil, principal sócio do Mercosul. Essa fama é proveniente dos tempos em que ocupou a Secretaria de Indústria e Comércio no governo do presidente Fernando De la Rúa (1999-2001).
Na ocasião, Giorgi protagonizou diversos conflitos comerciais com o Brasil, país que era acusado de supostas – e nunca comprovadas – “invasões” ou “avalanches” de produtos brasileiros no mercado argentino. Giorgi, definida como “uma negociadora com muita garra”, alegava que o setor industrial argentino deveria ser compensado pela desvalorização do real, ocorrida em janeiro de 1999.
“Invasões” de carne suína e de frango, aço, têxteis, papel, indústria moveleira, calçados, entre outros, foram seus argumentos há quase uma década. Além disso, no ano 2000, Giorgi – que conhece profundamente a estrutura industrial argentina – colocou obstáculos para o avanço da liberação total do comércio automotivo dentro do Mercosul.
DUREZA – “Temos que retomar a dureza nas negociações com o Brasil e ter posições mais firmes. É preciso estabelecer cláusulas automáticas de compensação diante dos prejuízos que os países sofrem quando um dos sócios altera de forma unilateral as regras macro-econômicas, como foi o caso da desvalorização do real”, declarou Giorgi no ano 2000.
SENHORA PROTECIONISMO - Na época, Giorgi afirmou que o governo anterior, do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), havia sido “excessivamente permissivo e frouxo com o Brasil” e alertava para o suposto “êxodo” de indústrias argentinas para o território brasileiro (êxodo que jamais ocorreu). Giorgi representava a linha-dura comercial do governo De la Rúa e pregava “maior severidade” nas negociações com o país vizinho.
Desde a volta de Giorgi – ‘Senhora Protecionismo’- ao governo federal (desta vez ao recém criado Ministério da Produção), no final do ano passado, pipocaram medidas da administração Cristina contra produtos Made in Brazil. Têxteis, tubos de aço, multiprocessadores de alimentos e até as facas Tramontina foram parte da miríade de medidas protecionistas da ministra.

O marmóreo busto da República observa as sorridentes Cristina Kirchner e Debora Giorgi no Salón Blanco da Casa Rosada
Foto da Presidência da República Argentina
SALTO ALTO E PARALELEPÍPEDOS - Durante seu período no comando das negociações comerciais com o Brasil na administração De la Rúa, a então Secretária também era famosa por sair correndo ao ver a imprensa brasileira nas proximidades. Ela costumava afastar-se celeremente dos correspondentes do Brasil com seus saltos altos (altos para valer) com grande habilidade sobre a irregular superfície de paralelepípedos do pátio do Palácio San Martín, sede da Chancelaria argentina.
Nos últimos anos, com os cabelos alisados e aloirados, ao contrário da onduladíssima e preta cabeleira que a caracterizava na época da Secretaria de Indústria, Giorgi transformou-se em uma das economistas preferidas da presidente Cristina Kirchner.
KEYNESIANA PESCADORA – Giorgi, de 51 anos – que auto-define-se como “keynesiana” – ocupava no ano passado a Secretaria da Produção e Assuntos Agrários da província de Buenos Aires. No entanto, perante o agravamento da crise internacional (e o esfriamento acelerado da economia argentina) a presidente Cristina decidiu convocar Giorgi, para quem criou o Ministério da Produção.
A economista formou-se com medalha de ouro na Universidade Católica Argentina (UCA). Na atividade privada comandou a “Alpha”, sua própria consultoria, além do Centro de Estudos para as Negociações Internacionais. Seu hobby é a pesca.
A programação da atual TV argentina é predominantemente convencional. Mas, ali também encontram-se pérolas inesperadas. Esse é o caso do Crónica TV, famoso por seu sensacionalismo. Nesse canal, durante a tarde, uma parte substancial do noticiário é apresentado por dois bonecos: Carozo (um cachorrão azul turquesa) e Narizota (um não-sei-o-quê com nariz vermelho).

A dupla de bonecos não se avexa de sua condição de marionetes
A situação é surrealista, com doses elevadas de ironia. Nos anos 80 Carozo e Narizota apresentavam um programa infantil. Mas, nos anos 90 mudaram de profissão e transformaram-se em jornalistas.
Carozo – com voz de baixo profundo – e Narizota – com voz esganiçada – anunciam aos telespectadores as notícias “light”, tais como novidades do hipódromo, a meteorologia, notícias da seção de espetáculos, entre outras.
Mas, ocasionalmente, durante o horário da dupla, ocorre alguma notícia urgente como a morte do papa ou eleições na França. Carozo e Narizota não se avexam de sua condição de marionetes e apresentam da mesma forma as notícias mais sérias.
O canal surgiu como uma evolução natural do jornal impresso homônimo. Os locutores, indefectivelmente, advertem com um “último momento” qualquer notícia, que é apresentada em letras brancas sobre um fundo vermelho, tendo de fundo musical – sempre, sempre – a retumbante marcha “Stars and stripes forever”. As manchetes podem ser supreendentes, tal como a sequência que dizia: “Caminhão de gado tomba na avenida Gaona – Vacas saem em disparada – Muitas das vacas vão na contra-mão”.
Hierarquia de notícias? De jeito nenhum. Tudo está misturado. Um jacaré que devorou um bebê na Zâmbia ou uma velhinha atropelada na esquina das avenidas 9 de Julio e Belgrano tem o mesmo destaque que o atentado contra as torres gêmeas ou a Bolsa em Wall Street despencando.

Narizota e Carozo no happy hour após uma dura jornada de labuta jornalística
Mais Lunfardo (“gíria”, para argentinos e uruguaios) portenho. Hoje veremos duas palavras utilizadas com assiduidade: “chorro” e “hinchapelotas”.
Chorro – Ladrão. Pode ser usado para designar o batedor de carteira como para o ladrão de alto nível. Exemplo: “El diputado Juan Atilio Piantadini es un gran chorro” (o deputado Juan Atilio Piantadini é um grande ladrão). Ou, como no tango “Chorra!”, de Enrique Santos Discépolo, cuja letra dizia: “Hoy me entero que tu mamá / noble viuda de un guerrero / fue la chorra de más fama / que ha pisado la Treinta y Seis” (Hoje fico sabendo que tua mamãe / nobre viúva de um guerreiro / foi a ladra de maior fama / que colocou os pés na Trinta e Seis). A Trinta e Seis é a delegacia Número 36 de Buenos Aires.
Hinchapelotas – Pessoa que proporciona hipertrofia escrotal em outrem. Indivíduo que possui a capacidade de esgotar rapidamente a paciência do próximo. Aquele que exerce uma chatice anabolizada.

O colossal edifício que nos anos 40 albergou o antigo Ministério de Obras Públicas (que movimentava grande parte do Orçamento Nacional da época) – e que atualmente é a sede da pasta de Ação Social (que hoje em dia movimenta grande parte do Orçamento Nacional) – ostenta o único ‘monumento à propina’ conhecido no planeta.
Na ponta que olha para o norte, do lado direito do edifício art-déco – para quem entra no Ministério – está a estátua de um homem que, com pouca sutileza, coloca os dedos abertos estratégicamente para o lado, na espera de uma “molhada de mão”.
Diz a lenda que o arquiteto colocou essa estátua ali como recado futuro sobre as eventuais negociatas que seriam protagonizadas nesse edifício. Durante anos, o detalhe passou desapercebido.
A estátua está na artéria mais movimentada do centro de Buenos Aires: Avenida 9 de Julio, 1925.

PROPINAS MAIS CARAS – Uma pequisa realizada pela consultoria KPMG no início deste ano destacou que a imensa maioria dos altos executivos entrevistados afirmam que as propinas solicitadas – em média – são de 20% do total da quantia dos contratos.
Isso indica que os custos dos subornos cresceram de forma exponencial ao longo dos últimos 30 anos no país. Segundo fontes empresariais, nos anos 80 o pedido para “molhadas de mão” costumava ser de 6% do contrato.
Mas, nos anos 90 – embalada pelas controvertidas privatizações realizadas durante o governo do presidente Carlos Menem – a proporção elevou-se para uma faixa entre 8% e 10%.
Em 2003, um poderoso ministro do governo do então presidente Néstor Kirchner foi batizado (pelas más línguas) de “Celular”.
O irônico apelido fazia referência ao prefixo “15″ dos telefones celulares na Argentina, em alusão à suposta comissão de 15% que ele cobrava dos contratos que autorizava.
O apelido já não vale, pois – novamente, segundo as más línguas – a tarifa teria subido.
VOCABULÁRIO DAS PROPINAS
Coima – Suborno preparado, organizado. “Propina”, em espanhol, é usado para “gorjeta”.
La Banelco – Alusão à “Banelco”, marca de um cartão de débito bancário. Surgiu no ano 2000, quando o então ministro do Trabalho, Alberto Flamarique, teria afirmado que resolveria um impasse sobre a votação da polêmica Lei Trabalhista no Senado com “La Banelco”. Ou seja, pagando aos senadores. O termo é usado de forma geral para o pagamento de subornos em empresas e governo.
Diego – Alusão a “El Diez” (O Dez), apelido do ex-astro do futebol, Diego Armando Maradona, por causa do número em sua camiseta. Mas, neste caso, o “Diego” refere-se ao 10% de alguma quantia em jogo. Uma espécie de dízimo periódico. Essa proporção, evidentemente, foi superada nos últimos anos.
Sobre – “Sobre” é “envelope”. Os subornos são enviados em envelopes.
Cadena de la felicidad – Rede da felicidade. O dia – ou semana – em que são distribuídos os “sobres”.
Tener el lápis – “Ter o lápis” é ter o poder. E, consequentemente, é quem – no governo – pode autorizar contratos com empresas. Estas, precisam pagar a comissão para quem “tiene el lápis”.
FRASES SOBRE PROPINAS E CORRUPÇÃO
“Para que a Argentina progrida, a gente tem que deixar de roubar pelo menos durante dois anos” (Luis Barrionuevo, um dos principais líderes sindicais do país, nos anos 90).
- “Neste país ninguém faz dinheiro trabalhando” (Luis Barrionuevo, sindicalista, na virada deste século).
- “Se fosse pelos antecedentes penais e judiciários, não sobraria ninguém no país” (José Luis Manzano, Ministro do Interior no governo Menem, no início dos anos 90).
- “A economia da Argentina só cresce porque de noite os políticos e empresários estão dormindo e não podem roubar” (estadista francês Georges Clemenceau, após sua visita à Buenos Aires no começo do século vinte).
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