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Ariel Palacios

frankenstein
Frankenstein (Boris Karloff – 1887-1969 – na verdade, com muita maquiagem em cima) beberica um cafezinho enquanto espera 2010. Será um bom ano!

Caras e caros,
Aproveito o último dia do ano para uma postagem múltipla.
Temos férias, Jack Nicholson perdendo a mala em Ezeiza e sóis sorridentes.
Vamos por partes.

mao345s FÉRIAS
Nosso emérito Gustavo Chacra, amigo e blogueiro de “De Beirute à Nova York”, comenta em sua postagem de fim de ano sobre o êxodo de pessoas à procura de praias no verão (a não ser os sortudos que residem em centros urbanos à beira do mar). Neste caso, cita os portenhos dos bairros da classe média, média alta e alta, que viajam para praias brasileiras. E, sem dúvida, a elite argentina também vai em peso à uruguaia Punta del Este (e, nas proximidades desta, a mais elitista ainda José Ignacio). Aliás, Punta del Este fica cada vez mais cheia de brasileiros.

Os portenhos – e argentinos do interior – de menores recursos financeiros devem resignar-se a algumas praias da província de Buenos Aires, entre elas Mar del Plata, que no passado remoto foi o balneário ‘in’ do país.

No entanto, alguns setores oceânicos bonaerenses também possuem prestígio, e recebem pessoas mais abastadas. É o caso de Pinamar, Cariló e Mar de las Pampas. E eventualmente, algumas famílias passam parte do verão em Cariló e outra parte em Punta del Este.
Mas, é preciso destacar que também existem praias fluviais argentinas ao longo dos rios Paraná e Uruguai, que ficam repletas de pessoas nos dias quentes de verão.

No entanto, as praias brasileiras, são, sem dúvida, um dos pontos de permanente interesse para os argentinos.
Os argentinos foram em massa ao Brasil desde 1978, época da famosa “Plata dulce” (Dinheiro doce), isto é, a ciranda financeira na qual a Argentina embarcou por causa das peculiares políticas econômicas do ministro José Martínez de Hoz, o ministro mais notório da última ditadura militar. O fluxo de argentinos ao Brasil persistiu apesar das constantes crises econômicas e das desvalorizações da moeda nacional, o peso.
Em 2008 mais de um milhão de argentinos visitaram o Brasil. Primordialmente as praias.

Ah! Os portenhos, de qualquer classe social, que ficam na cidade (pelos mais diversos motivos), sem uma praia nas vizinhanças, não se avexam, e – à europeia – tomam sol nas praças da cidade.

A praça do cemitério da Recoleta, a Praça Francia, os parques de Palermo, Parque Thays, Parque Las Heras, Parque Rivadavia e Parque Centenário ficam lotadas de portenhos que tentam adquirir um “bronze” urbano com biquínis ou bermudas (a sunga não integra o vestuário de balneário, ainda que balneário ‘seco’ dos argentinos).

BUENOS AIRES É GENIAL (mas, sempre é bom estar precavido com certos assuntos, para que as férias não azedem)
Por isso, vamos para esta outra parte de nossa postagem…

maoindicasSHOWS E COMÉRCIOS
De quebra, já que falamos em férias, umas recomendações aos brasileiros que desembarquem aqui hoje ou nos próximos dias:
- Buenos Aires não conta com grandes shows ao vivo para celebrar o ano novo. Nada de festivais apoteóticos de fogos de artifício ou espetáculos de tango ao lado do Obelisco. Nem grandes jantares em restaurantes (pouquíssimos hotéis e restaurantes farão celebrações hoje para seus hóspedes e clientes). Nada disso. O portenho celebra o Reveillon junto com a família, em suas casas.

Depois, se for o caso, sai para festejar com os amigos, ao redor das 3:00 da manhã.

Antes disso, é assunto familiar, ocasião para conversar com os parentes, ingerir opíparas porções de raviolis, ‘ensalada rusa’, carne bovina (comme il faut, estamos nos Pampas), leitão, entre outros quadrúpedes, bípedes e representantes do reino vegetal que transformam-se em carboidratos.

- Não há jornais neste dia 1 de janeiro (não há jornais nos dias 25 de dezembro, no dia 1 de maio, no dia do ‘canillita’ (jornaleiro) celebrado no 7 de novembro.

- Boa parte do comércio estará fechado neste primeiro dia do ano. Prepare-se para um dia de caminhadas pela cidade, que é genial para isso.

maoindicasJACK NICHOLSON EM EZEIZA (esperemos que não seja necessário, mas, por via das dúvidas, é bom estar preparado)

iluminado
O bom e velho Jack sempre ajuda a montar o personagem para reclamar sobre objetos perdidos ou roubados.

- O aeroporto internacional de Ezeiza conta com uma ativa máfia especializada na abertura de maletas alheias. Portanto, é recomendável, além de cadeado, e plastificar a mala, que não coloque nenhum objeto do qual vá sentir saudade dentro da mala.

Para atrasar o trabalho da máfia de Ezeiza existem várias estratégias, entre elas, a colocar uma grossa e grande folha plástica na parte de dentro da mala e assim, “embrulhar” o conteúdo interno em uma derradeira capa de “resistência” às mãos alheias (esse embrulho interno de plástico é devidamente acompanhado de várias voltas de firme fita adesiva).

Dá trabalho, mas é uma forma de propiciar à sua mala melhores chances de chegar incólume.

A máfia de Ezeiza foi denunciada pela imprensa portenha. Após o escândalo, há dois anos, a máfia teve um período de atividade light. Mas, diante da ausência de medidas concretas por parte das autoridades, voltou à ativa.

41vinhetas Atenção: as companhias áreas (de vários países, não só daqui), não costumam dar muita bola para as reclamações de passageiros que tiveram suas bagagens roubadas, desaparecidas em missão ou saqueadas (um termo mais sincero).

Aquela tradicional frase das companhias “preencha este formulário com a descrição da mala e seu conteúdo” pode ser rebatido com uma lista previamente impressa do conteúdo e…golpe de efeito (ahá!!), uma foto da mala antes de embarcar (leve em um pen-drive ou imprima. Ou ambas).

Defesa do consumidor? Não existe, praticamente.

Mas, tomando as devidas precauções, com a mala blindada (o ideal seria colocar um localizador eletrônico dentro delas…), é relativamente possível passar pelo aeroporto de Ezeiza incólume para poder desfrutar de vários dias na agradável Buenos Aires.

41vinhetas Atenção 2: O aeroporto de Ezeiza pode ser um reduto da máfia das malas..mas uma situação pior existe em Roma. E no imenso aeroporto madrilenho de Barajas, as malas se perdem com frequência intensa.

Na hora de reclamar, pense que você tem a cara enlouquecida de Jack Nicholson em “O iluminado”…mas fale como Anthony Hopkins interpretando o doutor Hannibal Lecter, em “O silêncio dos inocentes”.

Treine na frente do espelho. Claro, sem fazer aquele ‘slurp’ que Hopkins faz na frente de Jodie Foster, já que pode ser interpretado de outra forma…

hannibal
“Onde está minha maleta?” Com certeza, Hannibal Lecter sempre recuperou suas malas perdidas.

- As greves são frequentes em companhias aéreas que operam no país. Portanto, leve sempre um bom livro ou música para ouvir, já que o risco de esperas prolongadas sempre existe. No caso de greves, desista. Aí não tem jeito mesmo. Não adianta fincar o pé. Os sindicatos possuem o respaldo explícito do governo. E uma greve em uma companhia possui um efeito dominó sui generis nas outras.

A saída é ficar de olho na mídia para ver se há greves do setor pairando – valha o trocadilho – no ar. Tudo isso para não ficar em terra, e não ficar (trocadilho náutico) vendo navios…

maoindicasDINHEIRO
As pessoas na Argentina estão acostumadas a usar dinheiro cash. E possuem bons motivos para isso. Um dos motivos (a lista é longa, mas me atenho ao quesito ‘férias’) pelos quais um turista deveria inspirar-se neles é o do costumeiro não-funcionamento adequado dos caixas eletrônicos.

Outra coisa: ao chegar em Ezeiza, caso tenha pressa em trocar dinheiro, troque no Banco de La Nación, no hall do aeroporto. Costuma estar aberto todos os dias. Outros lugares nem sempre possuem um câmbio, digamos assim…’justo’.

Mais um detalhe: a falsificação de dinheiro é grande na Argentina. Há grandes especialistas na falsificação de dólares e pesos. Fique de olho. As falsificações são muito boas. Em grande parte das ocasiões, as pessoas que repassaram notas falsas (um lojista para seu cliente, por exemplo) nem perceberam que a cédula entregue era pura falcatrua monetária.

maoindicasTÁXIS
Nada de pegar os táxis que se oferecem no hall de Ezeiza. É arriscado. Pegue um táxi – isto é, um remis, um carro de aluguel – de uma agência que tenha guichês no hall do aeroporto. Ou um ônibus dessas empresas.

maoindicasROUBOS
Buenos Aires é uma cidade onde a criminalidade aumentou de forma substancial ao longo da última década. Mas, apesar disso, ainda é uma cidade muito menos insegura do que o Rio de Janeiro ou São Paulo.
No entanto, os batedores de carteira estão mais ativos no período de férias e ficam de olho nos desavisados turistas estrangeiros que caminham pela cidade.
Os pontos preferidos para estes “amigos del ajeno” (amigos do alheio, como dizem os portenhos) são:

- A calle Florida (via de pedestres que até início dos anos 90 ainda mantinha o charme. Agora, não mais. Só recomendaria os últimos quarteirões da Florida, isto é, no trecho entre a Avenida Córdoba e a Avenida Santa Fe).

- O bairro da Boca (bairro que costuma ser ‘pega-turista’…mas isso é assunto para uma outra postagem, na qual explicarei que as cores do ‘Caminito’ são algo fake e que de italiano o bairro quase não tem mais nada. E muito menos é o bairro do tango…)

- Ocasionalmente algum roubo pode ocorrer na área da Recoleta. Neste caso, a modalidade mais frequente é a dos ‘motochorros’, isto é, o ladrão que passa de motocicleta e arranca a bolsa de uma turista (ou nativa) que passa muito rente ao meio-fio.

solmoneda

mao345s SÓIS SORRIDENTES EM AMBAS MARGENS DO PRATA

O motivo dos sóis ‘sorridentes’ nas bandeiras da Argentina e do Uruguai era uma das inquietudes de nosso leitor-comentarista Mané. Aqui explicamos a origem destes sóis sorridentes:

As bandeiras da Argentina e do Uruguai possuem vários pontos em comum. Por um lado, ostentam o branco e o azul (no caso da Argentina, mais do que azul, é o celeste, se bem que em outras épocas era mais escuro esse azulado…mas esse é um assunto saboroso para outra postagem).

bandeiraarghentina
Bandeira argentina

Além disso, também ostentam um sol, muito similar. O sol parece sorridente…não de forma exagerada, mas mais como um sorrido de Mona Lisa. Ele possui uma ‘carinha’, com olhos, sobrancelhas e nariz.

solargentina

O sol na bandeira argentina foi adotado em 1818, durante uma reunião do Congresso em Buenos Aires. É o mesmo sol que aparece na primeira moeda nacional cunhada pela Assembleia de 1813.

Este sol possui 32 raios. Dos quais 16 raios “retos” e 16 “flamejantes”. Isto é, 16 raios retinhos e outros 16 com curvinhas, como se estivessem em plena ação de ‘chamas’.

É chamado de “sol de mayo”, em referência à Revolução de Maio de 1810, estopim das revoltas de independência no rio da Prata.

O design deste sol foi realizado por um ourives de sobrenome Rivera (que tinha antepassados incas). Rivera recuperou o símbolo do sol dos incas, o ‘Inti’.
O mesmo sol inspirou os uruguaios, quando estes fizeram sua bandeira definitiva.

Até 1985 a bandeira com o sol era considerada “bandeira-mor” da nação (ou também a bandeira de guerra), e portanto, só podem ser usadas pelos edifícios públicos e as forças armadas. Os cidadãos argentinos só podiam usar as bandeiras sem o sol no centro.
Mas, atualmente a bandeira com o sol é a bandeira da Argentina de forma geral.

soluruguayo

Na bandeira uruguaia, o sol tem uma carinha levemente mais sorridente. Possui menos raios que seu colega argentino. No total, o sol uruguaio possui oito raios flamejantes e oito raios retos.

uruguay
Bandeira uruguaia

vinheta2

Alguns dos nossos queridos comentaristas-leitores que participaram da divertida reunião que realizamos em setembro em São Paulo. Possivelmente repetiremos o encontro em março. Em janeiro, para quem estiver em Buenos Aires, faremos uma reunião aqui mesmo, na ‘Reina del Plata’.
comentaristas

Um supimpa ano novo para todos!

E de presente de ano novo, um poema que Jorge Luis Borges apreciava muito, que não era dele, mas do inglês William Blake (1757-1827).

To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.

Para ver o mundo em um grão de areia
E um céu em uma flor silvestre
Segura o infinito na palma de tua mão
E a eternidade em uma hora

vinheta2

Para despedir 2010, o mais emblemático tango de Astor Piazzolla, “Adiós Nonino”, na versão com o próprio Piazzolla…
 http://www.youtube.com/watch?v=eyJGDmgg0…

E na versão, mais recente, com Yo yo Ma:

E para começar o ano, Mercedes Sosa, recentemente falecida, em “Honrar la vida”. A música e letra é de Eladia Blázquez.
 http://www.youtube.com/watch?v=I1z9GhWAP…

E, evidentemente, não podíamos terminar 2009 sem a ironia de Mafalda…

demort

Abraços,
Ariel
PS – Neste domingo acrescentaremos o capítulo sobre os santos populares.
E na semana que vem continuaremos com a série sobre os sui generis suicidados argentinos.

PS2: E, como dizia um humorista argentino, Tato Bores (obrigado pela lembrança deste ao comentarista Jorge Trimboli), “Vermouth com batatas fritas e goood shoow!!” Bom ano!

tato2
Bores e seu telefone

royal

karloff

Um novo ano em boa companhia sempre é melhor, evidentemente!
Boris Karloff e Josephine Hutchinson em um momento de relax no meio da rodagem do clássico da Universal “Son of Frankenstein” (1939)

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

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O Palácio de La Moneda, Santiago Chile. Construído para ser uma casa da moeda, foi primeiro casa da moeda, depois foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda…até finalmente ser exclusivamente palácio presidencial

De presente de Natal para os leitores comentaristas hoje e nos próximos dias teremos uma série de postagens que estavam prometidas há meses para algumas pessoas (depois continuaremos com a sequência dos “suicidados” sui generis).
Martha Argel, que queria saber se a Casa da Moeda do Rio de Janeiro e o Palácio de La Moneda no Chile eram planos “trocados”; Laerte Carmelo, que desejava uma postagem sobre os santos populares argentinos; o Mané, que estava curioso sobre os risonhos sóis das bandeiras da Argentina e do Uruguai.
Hoje começaremos pela lenda da troca de projetos da Casa da Moeda e o Palácio de La Moneda.

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A antiga Casa da Moeda, na ex-imperial Rio de Janeiro. Foi a casa da moeda praticamente durante toda sua existência. Agora é o Arquivo Nacional. Nunca foi pensada para ser palácio presidencial ou imperial. Nem no Rio de Janeiro, muito menos na distante Santiago do Chile

A INEXISTENTE CONEXÃO SANTIAGO-RIO
indicandos Entre Santiago do Chile e o Rio de Janeiro aparece ocasionalmente a versão de que o Palácio de La Moneda – o palácio presidencial chileno – na verdade teria que ser a Casa da Moeda – o atual Arquivo Nacional – do Rio de Janeiro. E que a Casa da Moeda da ex-capital brasileira seria o palácio presidencial do Chile.

A lenda é saborosa e indica que os projetos de um edifício e do outro, supostamente importados da Europa (algumas versões indicam que os projetos vinham da Inglaterra), teriam sido trocados no navio que descia da Europa rumo à América do Sul.

Segundo a lenda, os rolos de papel com os detalhes do palácio presidencial chileno, por confusão, teriam desembarcado no Rio de Janeiro.

…E os planos destinados à construção da Casa da Moeda do imperial Rio dos Habaurgos e Bragança teriam virado pelo Cabo Horn, desembarcado em Valparaíso e finalmente levados até Santiago do Chile.

Mas, a lenda – apesar de divertida – não tem justificativas, já que os dois prédios são de épocas totalmente diferentes. A realidade, infelizmente, foi bem mais prosaica.
Os planos não foram encomendados à Europa. Foram feitos aqui mesmo na América do Sul (se bem que no caso do Chile, o arquiteto era um italiano que passou o resto de sua vida em Santiago e havia chegado anos antes para outras obras na cidade).

As obras do prédio do chileno Palácio de La Moneda começaram em 1786…enquanto que a ordem para construção do novo prédio (o tal da lenda) da Casa da Moeda no Rio de Janeiro é de 1853. As obras deste prédio carioca concluíram em 1868.

O Palácio de la Moneda foi construído para ser a Casa da Moeda em Santiago, no Chile colonial.

As obras começaram em 1786 e terminaram em 1812 . O projeto é do italiano Gioacchino Toesca (que espanholizou seu nome para Joaquín Todesca). No entanto, ele não fez o projeto à distância. Toesca havia desembarcado em Santiago seis anos antes de iniciar a obra de La Moneda, para concluir a construção da catedral da cidade.

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Gioacchino, aliás, Joaquín; Toesca, aliás, Todesca

A construção do prédio terminou no meio do conjunto de guerras de independência do Chile e dos outros países da região. Nesse prédio, em 1814 foram cunhadas as primeiras moedas do Chile independente.

Em 1845 a imensa construção começou a ser utilizada também como sede do governo da República e residência dos presidentes chilenos (antes disso, desde 1817, a sede do governo havia sido o edifício da Real Audiência, na Praça de Armas de Santiago, hoje transformada no Museu Histórico Nacional).

A Casa da Moeda funcionou – junto com os escritórios presidenciais – no Palácio de La Moneda até 1924. Isto é, durante quase um século foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda chilena.
Nesse ano a função de cunhar moedas passou para outro edifício. E o Palácio de La Moneda ficou somente como palácio presidencial.

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O La Moneda sob bombardeio em pleno centro de Santiago, em 1973

Em 1973 o Palácio de La Moneda foi bombardeado pelas forças do general (e depois do golpe, ditador também) Augusto Pinochet. Os foguetes lançados pelos aviões Hawker Hunter e os canhões do Exército destruíram grande parte do palácio e destruíram obras de arte, além da ata da independência chilena, documento que foi destruído pelas bombas de Pinochet.

O estilo do palácio em Santiago é o neoclássico italiano puro.

O prédio da Casa da Moeda no Rio de Janeiro – situada na antiga Praça de Aclamação, atual Praça de República – é obra dos engenheiros Teodoro de Oliveira (geralmente o mais citado) e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro (quase sempre esquecido).

Seu estilo é um neoclássico adaptado ao Brasil…um estilo denominado de “Imperial Brasileiro”.

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A antiga Casa da Moeda no Rio. Nunca esteve pensada para ser construída do outro lado da Cordilheira dos Andes

A Casa da Moeda esteve nesse palacete até 1983, ano em que foi removida para o Parque Industrial Santa Cruz. Hoje é a sede do Arquivo Nacional.

O prédio no Rio parecia mais palácio presidencial do que o Palácio de La Moneda em Santiago. Este tem mais physique du rôle de uma grande caixa de sapatos (uma excelente caixa de sapatos, segundo opinião de vários chilenos conhecidos) do que de qualquer outra coisa. Isso, evidentemente, alimentou a lenda da troca de projetos entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile.

De quebra, o edifício carioca possui colunas dóricas no andar de baixo e jônicas no andar de cima. E, além disso, uma imponente escadaria.

O edifício parecia mais imponente ainda quando o bairro estava vazio no final do século XIX, então chamado Campo de Santana.

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Sem dúvida, Agatha Mary Clarissa Miller Christie Mallowan (1890-1976) teria deliciado-se com um caso como este. A “Rainha do Crime”, como era conhecida a autora de “O caso dos dez negrinhos”, “A morte visita o dentista” e “Morte no Nilo”, bem poderia ter escrito “Morte no Prata”, sobre a misteriosa morte de Marcelo Cattaneo.

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cattaneo
paracima

Principal testemunha de um dos maiores casos de corrupção da Argentina, Cattaneo suicidou-se de noite, com óculos escuros. Naquela noite de outubro de 1998 usou uma corda de náilon com nó simples (e não o nó que desliza das forcas). Dentro de sua boca, um recorte do jornal “La Nación”, de três dias antes, falando sobre seu desaparecimento.

indicas Quando Pablo Romero saiu para pescar acompanhado por seu neto na manhã do domingo 4 de outubro de 1998, ficou irritado por não conseguir peixe algum. Mais irritado ficou quando o tempo fechou, estragando seu passeio dominical. No entanto, ao proteger-se da chuva em um refúgio de pescadores à beira do Rio da Prata nos terrenos baldios nos fundos da Cidade Universitária, seu estado de ânimo passou da irritação à estupefação: ali, pendurado de uma torre metálica, balançando pendularmente com o vento, jazia o corpo sem vida de Marcelo Cattaneo, uma das testemunhas-chave do caso IBM-Banco de La Nación, o maior escândalo de subornos da História da Argentina.

Esta morte, foi o terceiro suposto suicídio em 1998 de um personagem fundamental envolvido em um escândalo político no país. Os analistas políticos, ao tomarem conhecimento da morte de Cattaneo, não puderam deixar de erguer uma sobrancelhas em sinal de desconfiança: as circunstâncias dessa morte possuíam todos os elementos de uma “queima de arquivo”.

Cattaneo era suspeito de ter sido o “distribuidor” dos subornos do caso IBM-Banco Nación, um contrato de US$ 250 milhões onde foram pagos US$ 21 milhões em subornos. O irmão de Marcelo Cattaneo, Juan Carlos, esteve ligado ao governo do presidente Carlos Menem: foi o vice-secretário de Alberto Kohan, o todo-poderoso secretário-geral da presidência.

Em 1993 o principal banco estatal do país, o Banco de La Nación, contratou a IBM para informatizar todas suas filiais. Na época, a IBM subcontratou outra empresa – a Consad – para implementar um sistema alternativo caso o sistema principal entrasse em colapso. Cattaneo era o presidente da Consad.
A pequena empresa, que realizaria um sistema alternativo que não estava previsto na licitação, teria sido utilizada como via de pagamento dos funcionários do Banco de La Nación que teriam colaborado na obtenção do multimilionário contrato para a IBM.

19vuinhe ‘PARTICIPAR DA ALEGRIA’
Cattaneo havia sido “desprocessado” pela Justiça argentina. No entanto, as investigações sobre ele foram retomadas nos meses anteriores à cena citada acima à beira do rio da Prata, quando foi acusado por Genaro Contartese e Alfredo Aldaco – dois ex-diretores do Banco de La Nación – como o distribuidor do dinheiro do suborno, no nome da IBM.

Em abril e maio de 1998, Contartese e Aldaco confessaram que haviam recebido o dinheiro de Cattaneo. Este teria lhes dito que a multinacional dava o dinheiro como “um reconhecimento”, e “uma forma de participar da alegria da empresa por ter conseguido o contrato”.

Além deles, também estão envolvidos no escândalo o ex-presidente do Banco de La Nación, Aldo Dadone e seu irmão Mario, o ex-presidente da IBM, Ricardo Martorana, o vice-presidente da IBM, Gustavo Soriani e o ex-diretor da receita federal argentina, a DGI, Ricardo Cossio.

Cattaneo ia ser convocado pela Justiça para depoimento em outubro de 1998 quando apareceu morto. Nas semanas derradeiras de sua vida sustentava que sentia-se um bode expiatório, e afirmava que queria voltar a depor, para “contar tudo” o que sabia.

“Tudo o que sabia” poderia implicar em graves problemas para diversos funcionários do governo Menem.

vinhetas18 GUARDA-ROUPA MUDADO E CORDA DE NÁILON
No dia em que desapareceu, uma quarta-feira, Cattaneo, de 42 anos, vestia terno e gravata.

No domingo, quando reapareceu pendurado de uma corda de náilon a três metros de altura do chão, balançando levemente ao sabor do forte vento proveniente do Rio da Prata, Cattaneo estava com guarda-roupa mudado: de training azul e tênis vermelhos.

A família ficou surpresa: Cattaneo era particularmente sóbrio, e não usaria esse tipo de roupa.

Além disso, outro fator chamou a atenção: porque alguém que se suicida à noite estaria usando, como ele, óculos escuros?

O lugar escolhido para sua morte também gerou suspeitas: um imenso terreno vazio nos fundos da Cidade Universitária.

Também suscitou desconfiança o fato de que Cattaneo teria chegado ali a pé, já que seu carro particular foi encontrado, dias depois, estacionado a quarenta quarteirões de distância, em Olivos. Os pneus do carro, uma camionete Fiorino, estavam cheias de lama, o que indicaria que foi movimentada após a chuva do domingo de manhã, quando foi encontrado seu corpo.

Se Cattaneo chegou até esse inóspito lugar a pé, pelo menos preocupou-se em poupar trabalho para quem o encontrasse, já que no bolso de sua calça esportiva foram encontrados seus documentos.

A roupa original de Cattaneo também havia desaparecido do carro, mas foi encontrada por dois mendigos a mais de 200 metros do local da morte. Dentro do bolso do paletó, havia um barbeador recém-utilizado. Além disso, um recibo de uma casa de vestimenta esportiva. No entanto, na loja ninguém lembra de Cattaneo comprando o jogging e os tênis.

A 51a. Delegacia de Buenos Aires, responsável pelo região da cidade onde o corpo de Cattaneo foi encontrado, não foi notificada que o principal suspeito do caso IBM-Nación estava sendo procurado desde a quarta-feira. “Talvez o aviso perdeu-se no meio da papelada”, desculpou-se um porta-voz da polícia.
A atuação da polícia levanta suspeitas: o cadáver de Cattaneo foi encontrado por um pescador; o carro, por uma equipe de reportagem de TV, e as roupas, por dois mendigos.

Os policiais que retiraram seu corpo da torre sem ter feito perícia alguma, afirmaram que o corpo não apresentava sinais de violência. Além disso, pontificaram: “suicídio na certa”. Mas a juíza Gabriela López de Ouviña definiu a investigação como “averiguação de suicídio”.

vinhet26is ESFORÇO PARA SUICIDAR-SE
Além destas estranhas omissões da Justiça e da Polícia, há outros pontos obscuros na morte de Cattaneo: o lugar escolhido para seu suicídio é de difícil acesso.

A torre metálica onde se pendurou está dentro de um pátio.

Para chegar ali, deve-se subir ao teto de uma casa abandonada e dali pular para o pátio.

Depois disso, Cattaneo teria que ter subido à torre, para seu concretizar seu suicídio.
A manobra era complexa, e se fosse para pendurar-se de algum lugar, Cattaneo poderia ter escolhido uma das diversas árvores existentes no local.

O laço da corda com a qual se enforcou tinha um nó simples, e não um nó de laço para enforcar, Além disso, morreu por asfixia, que é uma das prováveis causa mortis de quem se enforca, embora a grande maioria das pessoas que se pendurem a essa altura morra por rompimento da medula.

Os óculos escuros não pertenciam a Cattaneo, mas entre seus pertences dentro da camionete, foram encontrados seus verdadeiros óculos escuros. Mas o elemento que mais chamou a atenção no caso foi que dentro da boca de Cattaneo foi encontrado um pedaço de papel: um recorte do jornal La Nación, com um artigo sobre o escândalo IBM-Nación e ele próprio.

vinhetas41l CONVENIENTEMENTE ‘SUICIDADOS’
O pescador que encontrou o corpo não foi convocado pela Justiça para prestar depoimento. Nem outros pescadores que afirmam que na noite anterior viram um carro vermelho e uma camionete parecida à Fiorino de Cattaneo circular perto da torre onde se suicidou, na mesma noite da morte. Outra testemunha, tampouco convocada, sustenta que poucas noites antes da morte de Cattaneo, três homens vestidos com roupas pretas andavam pela área com lanternas.

“Por quê um lugar tão sinistro para o suicídio, por quê a roupa de ginástica, por quê os documentos, porquê havia comido tão bem na noite anterior, se estava deprimido?”, perguntava-se o principal analista policial da Argentina, o jornalista Enrique Sdrech, já falecido (de causas naturais, há poucos anos).

Segundo ele, a morte de Cattaneo foi similar em muito pontos aos intrigantes suicídios do empresário Alfredo Yabrán (principal suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas) e do capitão Horácio Estrada (uma das testemunhas-chave do escândalo da venda de armas à Croácia e Equador).

Somado à falta de resultados sobre os atentados à Embaixada de Israel (em 1992) e da associação beneficente judaica AMIA (em 1994) e à obscura morte de Carlos Menem Jr. (em 1995), o filho do presidente argentino – entre várias outras – Cattaneo acrescenta-se à longa lista de mortes oportunas que eliminam os cada vez mais evidentes rastros entre o delito e os integrantes da administração argentina de plantão.

indicardors E é sempre bom lembrar o que dizia Ezra, o cético antiquário de tira Mort Cinder, do emblemático desenhista uruguaio Alberto Breccia (1919-93) e do roteirista argentino Héctor Oesterheld (1919-77)…
breccia

indicandos
Este blog interrompe a programação funérea para desejar um batuta Natal para todos os leitores e comentaristas…

Boa Véspéra de Natal a todos!!!! Meus desejos de uma excelente noite na companhia das pessoas que mais gostam!

E que todos recebam os presentes que esperam, desde a paz mundial, passando por uma caixa de castanhas de caju cristalizadas, a nova edição do Cortázar, um abraço e um afago na cabeça das avós e dos avôs, o fim da fome no mundo, a bicicleta nova, um quilo de queijo manchego e até um hipotético CD de ‘Sérgio Reis meets Plácido Domingo’.

E de prévia de presente natalino, duas tirinhas da Mafalda, de Quino!

nataalmafalda

Abraços a todos!!!
Ariel

vinhetas23

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Comentários (17)| Comente!

dequinceu
Thomas De Quincey (1785-1859), autor de ‘O assassinato como uma das belas artes’ teria ficado horrorizado com o amadorismo dos peculiares “suicidados” dos escândalos de corrupção da Argentina

mao
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O capitão Estrada era destro, mas o revólver que disparou o tiro estava perto de sua mão esquerda. Ele ‘suicidou-se’ com um tiro na nuca. E com a arma posicionada de baixo para cima… E estava segurando o revólver com as duas mãos, já que ambas estavam borrifadas de sangue. Um verdadeiro contorcionista? Ou, quem o ‘suicidou’ era um mero amateur da ‘arte’ referida por De Quincey?

maoindicas A cena poderia ter sido a dos primeiros minutos de qualquer thriller: Uma tranquila manhã na área central de Buenos Aires. A diarista abre a porta do apartamento de seu patrão para mais um dia de limpeza. Apesar de diversas tentativas, a porta não abre. Está fechada com chave, por dentro. A empregada toca a campainha diversas vezes. Desce à rua e chama o patrão pelo telefone público. Ninguém atende. Ela volta com o serralheiro, que consegue abrir a porta. A empregada entra, e vê seu patrão – um homem envolvido no tráfico internacional de armas – morto, com um tiro na cabeça. Na sua mão direita, o revólver com o qual se suicidou.

Suicídio? O revólver estava na mão esquerda, mas o capitão-de-navio da reserva Horacio Pedro Estrada, 65 anos, era destro, e não canhoto. Poderia ser a cena de um thriller, mas foi apenas mais um capítulo na complexa trama do escândalo de vendas ilegal de armas da Argentina ao Equador e a Croácia, um affaire ainda sem solução.

Estrada, que fora o encarregado da supervisão do envio das armas à cidade equatoriana de Guayaquil, havia negado comparecer à Justiça. No entanto, o militar havia enviado uma declaração escrita onde admitia sua participação na operação, embora negasse ser o responsável.

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Explosão que arrasou bairros de Rio Tercero teria sido provocada para ‘desaparecer várias provas’

O ESCÂNDALO DO CONTRABANDO ARMAS
maoindicas O então presidente Carlos Menem (1989-99) e diversos ministros e assessores ficaram envolvidos no escândalo de contrabando de armas.

Além disso, como em uma superprodução cinematográfica onde não podiam faltar os efeitos especiais, o escândalo contou com a colossal explosão da fábrica militar de Rio Tercero, em 1995.

A chuva de estilhaços e as granadas espalhadas por toda a cidade provocaram a evacuação de 60 mil pessoas do local e arrasou os bairros vizinhos à fábrica. Onze pessoas morreram e 300 foram feridas.

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Explosão de Rio Tercero feriu mais de 300 pessoas

A parte principal trama começou em 1991 e continuou até 1995, quando Menem e vários ministros assinaram três decretos presidenciais que autorizavam vendas de armas ao Panamá e à Venezuela.

Mas, as armas para a Venezuela nunca chegaram lá: foram parar na Croácia, país que no meio da Guerra da Ex-Iugoslávia estava sob embargo de armas da ONU. Para complicar, a Argentina participava da missão de paz da ONU na área.

Foram enviadas ao território croata 6.500 toneladas de armas e munições, que incluíram pelo menos 18 canhões Citer de 155 milímetros.

E as armas oficialmente vendidas ao Panamá, tampouco chegaram a esse país no istmo americano. Na verdade, o o carregamento foi desembarcado no Equador: um total de 5 mil fuzis FAL e 75 toneladas de munições.

Na ocasião o Equador estava em guerra com o Peru pela Cordilheira do Cóndor. Paralelamente, a Argentina era desde 1940 avalista do tratado de Paz entre os dois países.

Quando o caso das armas veio à tona, Menem foi criticado pela estranha decisão de ter assinado um decreto de venda de armas ao Panamá, já que desde a invasão norte-americana de 1989, o país não possui forças armadas.

De quebra, o Peru havia sido um histórico aliado da Argentina desde os tempos da independência. E além disso, o Peru havia oferecido ajuda (aviões) à Argentina durante a Guerra das Malvinas (1982).

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Menem nos anos 90. Atualmente está sendo julgado pelo escândalo das armas

Em 1994, Luis Sarlenga, o interventor da empresa estatal de material bélico da Argentina, a “Fabricaciones Militares”, determinou que o envio clandestino seria feito com armas em uso pelo exército. Esta foi a falha que tornou público o envio ilegal: os equatorianos receberam material defeituoso, e reclamaram, ameaçando processar o Estado argentino.

Com a denúncia pública sobre o envio ilegal das armas, começou uma crise política que foi paliada momentaneamente pela renúncia de vários ministros. Na sequência, a Justiça pediu à Interpol a captura internacional do tenente-coronel Diego Palleros, que agiu como intermediário dos envios de armas, utilizando empresas uruguaias como fachadas.

Em 1998 Palleros foi preso na África do Sul, onde disse que Menem sabia do destino real dos envios de armas e ameaçou contar “tudo o que sabia”. Um mês depois, o capitão Estrada, sócio de Palleros, foi convocado pela Justiça em Buenos Aires.

Quatro dias mais tarde, Palleros foi solto pela Justiça sul-africana, que simultaneamente recusou o pedido de extradição feito pela Argentina. No mesmo dia, o 25 de agosto, Estrada apareceu morto. A estranha morte de Estrada foi interpretada como um “sinal” a Palleros, para que este não continuasse falando.

Desde o início das investigações sobre as vendas ilegais de armas uma série de mortes aumentaram as suspeitas: as primeiras foram as onze mortes ocorridas na explosão da fábrica militar de armas de Rio Tercero, em Córdoba. Suspeita-se que a explosão foi uma forma de ocultar a falta de diversas armas.

Um ano depois, em 1996, o helicóptero onde viajava o general Juan Andreoli, sucessor de Sarlenga no posto de diretor da Fabricaciones Militares, espatifou-se ao tentar um pouso de emergência no Campo de Pólo no bairro de Palermo.
O aparelho tentou um um pouso forçado na pista de pólo da região, mas espatifou-se e todos as dez pessoas que nele viajavam faleceram na hora.
No helicóptero também estava o coronel Rodolfo Aguilar, que havia sido convocado como testemunha no processo sobre a venda ilegal de armas. Além deles, no acidente morreu uma cunhada do general Martín Balza, chefe do Estado-Maior do Exército.

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Helicóptero espatifou-se em plena área residencial de Buenos Aires

Em 1997, duas testemunhas de irregularidades na venda de armas – Carlos Alberto Alonso (encarregado dos controles da Alfândega) e Vicente Bruzza (operário da fábrica militar de Río Tercero que havia denunciado uma ‘maquiagem’ no registro das armas) morreram na mesma semana de estranhos ataques cardíacos.

Na mesma época, faleceu de um derrame cerebral Francisco Callejas, técnico das Fabricações Militares, que havia ido à Croácia para calibrar os canhões (que deveriam ter sido enviados para a Venezuela.

Outro “suicídio”, com um tiro a um metro de distância (!), do banqueiro Mario Perel, envolvido nesse escândalo (e em outros) também marcou os anos 90. Perel teria “falado demais” com deputados da oposição que estavam investigando lavagem de dinheiro e o escândalo das armas.

E finalmente, a morte do capitão Estrada.

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“Contorcionista”, cerâmica da civilização Tlatilco, México. Museu Nacional de Antropologia do México. A cultura Tlatilco floresceu no vale do México entre os séculos XIII e VIII a.C. Estrada teria dado uma de tlatilco para disparar na própria nuca, de baixo para cima, com as duas mãos

SUICÍDIO PECULIAR E TOUCH CONTORCIONISTA
maoindicas As estranhas circunstâncias da morte de Estrada fizeram que a Justiça rotulasse o processo de investigação como “averiguação de suicídio”.

Estrada apareceu morto sentado, com o torso sobre sua escrivaninha, em cima da qual havia um revólver 9 milímetros.

Mas essa não era a arma que havia provocado sua morte: o tiro havia sido disparado do revólver calibre 38 que estava caído no chão.

Outro ponto que aumentou as suspeitas foi a trajetória que a bala fez na cabeça de Estrada: o tiro foi dado ao lado da orelha esquerda, perto da nuca, de trás para a frente, e de baixo para cima.

O tiro, feito do lado esquerdo, pareceu mais estranho quando se soube que Estrada não era canhoto. Os conhecidos e amigos de Estrada destacaram que o defunto militar não era “acrobata” ou “contorcionista” para implementar um suicídio com tal esforço de flexibilidade muscular.

Além disso, as duas mãos de Estrada estavam borrifadas de sangue, o que demonstraria que o militar havia disparado a arma com as duas mãos. Uma posição muito incômoda para quem vai se suicidar.

As suspeitas de que Estrada não se matou aumentaram mais pela falta de rastros de pólvora nas mãos, uma evidência que quase nunca falta em quem dispara uma arma.

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De Quincey, outra vez. O britânico ensaísta teria levantado uma sobrancelha em sinal de desgosto por tantas mancadas no ‘suicídio’ de Estrada

CURRICULUM TUMULTUADO
O curriculum vitae de Estrada acumulava a participação, quando jovem, do bombardeio da Praça de Mayo, em 1955, durante uma tentativa de golpe de Estado. No bombardeio morreram de 200 a 300 civis.

Além disso, teve sórdidas ocupações além de “traficante de armas”: era acusado por 25 casos de violações aos direitos humanos. Estrada havia sido chefe de um “grupo de tarefas” da ESMA, o principal centro detenção e torturas durante a última Ditadura Militar.

Como se fosse pouco, Estrada participou da falsificação de passaportes para o líder da logia maçônica P-2, do italiano Licio Gelli.

O trabalho de Estrada era feito por dois seqüestrados – um especialista em fotocromia e um gráfico – que imprimiram 10 mil passaportes nas gráficas da ESMA.

Após o fim da Ditadura Estrada fugiu e foi julgado à revelia pelos crimes que cometeu durante o regime militar. No entanto, foi anistiado pela “Lei de Obediência Devida” do presidente Raúl Alfonsín.

JULGAMENTO DE MENEM
Em 2001 o juiz federal Jorge Urso processou o ex-presidente Carlos Menem e o colocou em prisão domiciliar, por considerá-lo chefe de uma “máfia” que havia protagonizado o maior caso de contrabando de canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições registrado na História argentina.

Cinco meses e meio depois a Corte Suprema (dentro da qual Menem contava com juízes que haviam declarado publicamente sua amizade com o ex-presidente), no meio de grande polêmica, colocou “El Turco” – como Menem era chamado popularmente – em liberdade.
Mas, em 2007 ele foi novamente processado. No final do ano passado começou o julgamento oral e público do ex-presidente e de outros 17 envolvidos. O ex-presidente tentou apelar e anular o julgamento. Mas, na semana passada Corte Suprema desconsiderou o pedido de Menem.

FATOS, NÚMEROS E DRIBLES
Os envios de armas – um total de 6.500 toneladas remetidas em dez remessas confirmadas (suspeita-se que podem ter ocorrido remessas ainda não descobertas) – foram realizados entre 1991 e 1995.

A estimativa é que o Estado argentino teve um prejuízo de mais de US$ 180 milhões com o contrabando das armas. As armas foram vendidas de forma clandestina para a Croácia e o Equador.

O status de parlamentar propicia a Menem a imunidade necessária para evitar que, se for condenado, seja enviado à prisão cumprir uma pena que poderia ir de 12 a 32 anos de cadeia.
Menem só poderia ser preso se o Senado suspender sua imunidade. Ou, a partir de 2014, quando acaba seu mandato de senador.

Um total de 424 testemunhas foram convocadas para prestar depoimento sobre o caso, incluindo o ex-presidente Fernando De la Rúa.

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

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“Hipp, hipp, hurra! Kunstnerfest på Skagen” (Hipp, hipp, hurra! Artistas celebrando em Skagen, de 1888), quadro do batuta pintor norueguês-dinamarquês Peder Severin Krøyer (1851-1909)

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Uma breve interrupção na programação normal deste blog para fazer um anúncio…(podem continuar ali embaixo com a leitura sobre o Graf Spee, o orgulho de Hitler que afundou na frente de Montevidéu)

Queridos comentaristas e leitores, com imenso prazer (já dava para ver pelo quadro do querido Krøyer que tratava-se de uma celebração) lhes conto que vosso blogueiro, em conjunto com o grande (grandíssimo) amigo Gustavo Chacra, recebemos o primeiro prêmio de melhor blog(s) do Estadão!

maozinhjkilod Primeiro: estar com o Gustavo em um prêmio, compartilhando a honraria, é um prazer imenso.
O conheci no ano 2000, em Buenos Aires, quando ele era um jovem correspondente da concorrência, a Folha de São Paulo. Brilhante já naquela época, era evidente que seria um grande jornalista.

Ele é “The guy”, o cara que entende de Buenos Aires, São Paulo Beirute e Nova York, que pode fazer paralelos entre o Higienópolis, a Recoleta e o East Side sem cair jamais em um único clichê. De quebra, prepara saborosos textos seja sobre um senhor semifeudal nas montanhas no Líbano ou um jogo de pólo aquático entre universitários nova-iorquinos.

Um real cosmopolita ‘avant la lettre’!

Modesto, ponderado, ético, correto e trabalhador, excelente pessoa! E um pouco maluco como eu.
E de quebra, tem uns pais geniais, simpaticíssimos!

maozinhjkilod Segundo: é um deleite fazer este blog, e isso deve-se a várias coisas….
a) a liberdade de estilo e conteúdo que o Estadão permite. Aqui pude colocar leitões assobiando para ilustrar uma postagem sobre as eleições uruguaias, uma lista de epítetos pronunciados pelo capitão Haddock, imensos textos que em um jornal impresso teriam requerido duas páginas, pude recuperar entrevistas feitas há tempo com grandes figuras como o escritor Adolfo Bioy Casares ou o cartunista Quino. E ainda, tiveram paciência com meu hobby de aspirante a historiador-mirim!

b) a possibilidade de ter a opinião de leitores-comentaristas. Eles me propiciaram informação, feedback, reconfigurações de opiniões, divergências (sempre educadas, civilizadas, respeitando a posição um do outro) e convergências… e acima de tudo, estímulo para continuar nesta empreitada. Com alguns deles organizei uma reunião em São Paulo em setembro passado, um saboroso encontro com pessoas interessantíssimas (que espero repetir em março…e ainda tenho uma reunião pendente com os comentaristas-leitores que estão aqui mesmo, na ‘Reina del Plata’, B.Aires). Vários dos comentaristas tornaram-se amigos (meus amigos e entre eles)! Alguns conheci pessoalmente, enquanto que outros ainda não conheci, mas espero fazê-lo em breve. Há leitores-comentaristas não somente no Brasil, mas também em Buenos Aires, em Lisboa e até nos excelsos yankees cafundós de Iowa!

Participam deste blog brasileiros que residem no Brasil, argentinos que residem no Brasil, brasileiros que residem na Argentina, Uruguai, Paraguai…todas as combinações possíveis de leitores-comentaristas, interessados em política, economia, História, literatura, quadrinhos, cinema, esportes e as mais variadas peculiaridades da Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, isto é, os “Hermanos” do Cone Sul.

Algumas destas pessoas, só para fazer uma lista breve daqueles que seguem o blog desde o início e também recentemente:
- Yoko, Cláudia, Santiago, Jorge, Carlos, Sica, Do Contra, Otávio, Laerte, Mónica, Lívia, Caetano, Henrique, Sô Ramires, Cláudio, Aixa, Guilherme, Lito, Santos, Osvaldo, Marcos, Natan, Bruno, Raphael, Karina, Goytá, Abraão, Sued, Priscila, O Botocudo, Simone, Ricardo, Lafayette (nous voici!), Eduardo, Telmo, Marcelo, Walter, Tito, Emílio, Glúon, Tradutor, Danton, Dr ‘Doc’ Sallere, Rizzo, Celso, Ciro, Nelson, Chirac, MarioS, Fábio, André, Reinaldo, Jean, Lea, Yannkick, Ernesto, Márcia, Afonso, Tatiana, Bissoli, Hipólito, Claudio, Flávio, Adelmo, Marco, João, Alexandre, Reinaldo, Mario, Adenilson e o Poeta… E muitos, muuuuuuuuuitos outros mais.

fcorneta23d Hurra para todos os leitores-comentaristas! O blog também é feito com seus comentários!

c) é também um deleite fazer este blog graças à uma equipe de primeira linha do Portal do Estadão, onde jovens cérebros (o futuro do jornalismo brasileiro) são orientados por tarimbados Mestres (com M maiúsculo mesmo, e se fosse possível, em fonte ‘Trajan’, corpo 18, para ter um tom mais magno!). Pedro Dória (‘O’ Blogueiro par excellence), Otávio Dias, Gabriela Allegro (sempre me faz lembrar uma sinfonia), Rodrigo Martins, Edmundo Leite, Pablo Pereira, Jair Stangler, Talita, Felipe Machado (ah..ainda farei uma postagem sobre os emblemáticos derrières das divas do Cone Sul, assunto que implicará em seus comentários analíticos), Daniel Jelin, Luiz Raatz entre vários outros.

maozinhjkilod Terceiro E é imprescindível agradecer a…

1 – Meus pais, minha irmã e minha esposa, que sempre – além do estímulo permanente ao longo destes 43 anos de vida (bom, no caso de minha mulher, 14 anos) – elogiaram, criticaram e fizeram observações sobre os textos.

2 – Aos colegas do jornal como a adorável e imprescindível Fernanda Andrade, que me estimulou desde o início de meu trabalho como correspondente há 14 anos, tem paciência comigo todos os dias do ano…e foi a primeira a comentar a primeira postagem, em fevereiro passado! À Damaris Giuliana, que na véspera da postagem, me disse “vá em frente”; à Paula-san Moura, que sempre tem enriquecedores comentários para os assuntos que toco neste blog. E a Marta, que antes de começar a trabalhar no Estadão, já lia meu blog! Uau! À Sandra Carvalho, que também sempre me estimulou. E o Muniz, o André Dusek, e muitos outros colegas e amigos que deram conselhos, dicas e ideias.

Comecei o blog (durante as férias!) em fevereiro passado (nossa, menos de um ano!), achando que seria uma tarefa interessante. Mas, rapidamente descobri que tratava-se de um fascinante deleite.

Parabéns Gustavo, obrigado aos leitores-comentaristas e à equipe do Portal e aos colegas do jornal.
Devo o prêmio a todos.

Abraços,
Ariel
PS: Boa noite e bom descanso!

descansos

mao3celebrad Este blog volta à programação normal. Aqui embaixo, o caro leitor poderá continuar com a postagem sobre o Graf Spee, o orgulho do Führer, que foi à pique na frente de Montevidéu.
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Orgulho da frota do Terceiro Reich afundou no Rio da Prata em 1939

Há 70 anos, no meio da via fluvial mais larga do mundo, o Rio da Prata, uma massa de aço de 186 metros de comprimento, pesando quase 16 mil toneladas, afundou depois de duas fortes explosões. No lamacento fundo do rio que separa o Uruguai da Argentina, ficou imobilizado para sempre o poderoso encouraçado “de bolso” da Kriegsmarine – a Marinha de Guerra alemã – o Admiral Graf Spee.

Depois de ter protagonizado uma das últimas batalhas navais clássica da História (sem a presença de aviões ou porta-aviões), o Graf Spee foi afundado por Hans Langdorff, seu próprio capitão.

Os motivos especulados pelos historiadores posteriormente sobre o auto-afundamento:o de evitar o massacre dos marinheiros alemães, que estavam em minoria; a sensação de inevitabilidade da derrota que Langsdorff tinha e assim, e evitar que a tecnologia naval alemã – na época, uma das mais avançadas do mundo – caísse nas mãos da inimiga marinha britânica, que a esperava na foz do Rio da Prata.

Pela força de seus motores e a blindagem, o Graf Spee era definido na época como “Mais forte que o mais veloz, e mais veloz que o mais forte”.

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ORGULHO DA FROTA
O Graf Spee era um dos orgulhos da frota do Terceiro Reich. No dia 3 de setembro de 1939, dois dias após o início da Segunda Guerra, começou sua tarefa: afundar todos os navios mercantes possíveis no Atlântico Sul, como forma de estrangular a economia e o abastecimento dos aliados.

Em cem dias de atividade frenética, comandado pelo astuto capitão Langsdorff, o Graf Spee colocou a pique nove mercantes (sem causar a morte de nenhum dos tripulantes das embarcações inimigas) e distraiu a atenção de dezenas de navios de guerra ingleses e franceses do principal cenário de guerra, o Atlântico Norte.
Os aliados tentavam desesperadamente captura o Graf Spee.

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Percurso do Graf Spee ao longo do Atlântico

Quando navegava perto da costa uruguaia, entrou em combate com três navios britânicos, ação que entrou para a História com o nome de “a batalha do Rio da Prata”.

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Mapa, em espanhol, da parte final da Batalha do Rio da Prata, ocorrida na frente de Punta del Este. O navio com a sigla “GS” é o Graf Spee. Os outros são os navios britânicos

Langsdorff conseguiu atingi-los duramente, mas foi forçado a retirar-se para consertar os próprios danos. Desta forma, colocou o navio na direção do porto neutro(embora pouco amigável com o Terceiro Reich) de Montevidéu.

O embate levou dezenas de milhares de pessoas em Montevidéu e em Buenos Aires às respectivas avenidas beira-rio, para aguardar a aproximação dos navios com a esperança de assistir de “camarote” o duelo entre as mais poderosas marinhas de guerra do mundo.
Durante dias, a Segunda Guerra Mundial esteve presente neste recanto longínquo da América.

O navio ficou ancorado no porto de Montevidéu.
A população de Montevidéu e o governo temiam os canhões do poderoso Graf Spee, que poderia – se quisesse – arrasar a pacata capital uruguaia.

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O navio na frente do morro da fortaleza colonial de Montevidéu

Mas, o governo do Uruguai arriscou-se e deu um ultimato: somente concederia a Langsdorff 72 horas para consertar danos no casco, levar os marinheiros feridos a hospitáis em Montevidéu e enterrar os homens que haviam falecido na batalha do rio da Prata.
Langsdorff aceitou as condições, depois de protestar.

Finalmente, depois de ouvir os rumores de que mais navios britânicos se aproximavam da foz do Rio da Prata, Langsdorff percebeu que essa via fluvial havia transformado-se em um beco sem saída.

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Langsdorff em Montevidéu, no funeral de seus marinheiros. Ao contrário de outras pessoas presentes, Langsdorff recusou-se a fazer a saudação nazista (embora a Marinha estivesse formalmente isenta disso, os oficiais importantes realizavam a saudação). Aqui vemos o capitão fazendo a tradicional continência militar. Essa posição lhe valeu suspeitas por parte dos representantes de Hitler de que Langsdorff era um capitão ‘anti-nazista’

Após enterrar 36 marinheiros no cemitério da capital uruguaia, zarpou do porto de Montevidéu. Dezenas de milhares de pessoas acotovelaram-se na praia e no porto para ver o que o poderoso navio faria.

A sete quilômetros de distância da costa, ordenou que os marinheiros abandonassem o navio. Cargas explosivas detonaram no fundo do encouraçado, que foi à pique.

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Graf Spee no meio da fumaça começa afundar

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Graf Spee afunda lentamente no rio da Prata

A tripulação alemã refugiou-se em Buenos Aires, porto neutro (mas amigável com o Reich). Posteriormente, grande parte dos marinheiros foram para província de Córdoba. Vários marinheiros retornaram à Alemanha, para continuar a guerra.

No entanto, Langsdorff não voltou a seu país. Depois de assegurar o refúgio a seus marinheiros na Argentina, retornou a seu quarto do City Hotel, ao lado da Praça de Mayo em Buenos Aires.

Ali, o capitão deitou na cama. Enrolado na bandeira alemã – não a nazista com a suástica, mas sim a velha insígnia imperial, já que ele próprio não se considerava um nazista – suicidou-se com um tiro.

Nos anos seguintes, os capitães aliados – seus inimigos – foram unânimes em defini-lo como “um cavalheiro”.

O grão-almirante Erich Raeder (comandante da Marinha do Terceiro Reich na primeira metade da guerra), em suas memórias escritas após o conflito bélico mundial, considera Langsdorff um “covarde” e o acusa de ter perdido um navio “à toa”. Outros especialistas, no entanto, afirmam que o capitão tentou evitar um massacre inútil em uma batalha que estava previamente perdida.

Raeder era a favor de afundar navios sem prévio aviso, mesmo que fossem navios-hospitais ou de transporte civil.

Na contra-mão, Langsdorff seguia à risca a Convenção de Haia e fazia questão de deter os navios mercantes, avisar que seriam afundados, esperava que a tripulação estivesse a salvo, e só então disparava seu canhões para afundar a nave.

Langsdorff foi enterrado no setor alemão do cemitério de La Chacarita, em Buenos Aires

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Túmulo de Langsdorff na Chacarita

NEONAZISTAS
O túmulo de Langsdorff voltou a ser notícia há um ano, quando um grupo de 26 neonazistas argentinos realizaram na noite do 21 de dezembro de 2008 uma cerimônia de homenagem ao Terceiro Reich no cemitério de La Chacarita. Mais especificamente, na frente do túmulo do capitão do Graf Spee (este, por seu lado, não se considerava nazista, uma informação que os neonazistas platinos supostamente desconheciam).

Os skinheads, que portavam insígnias nazistas, cartazes e bandeiras com a suástica, gritaram frases antissemitas durante a manifestação clandestina, quando o cemitério estava com as portas fechadas.

A polícia deteve os manifestantes, exceto quatro menores de idade que participavam do grupo.

A Argentina possui a maior comunidade judaica da América Latina, com mais de 500 mil integrantes. No entanto, o país também conta com ativos grupos neonazistas e fascistas, que pregam a expulsão dos judeus do país. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, pelo menos 300 criminosos de guerra nazistas refugiaram-se na Argentina.

RESGATE
Imobilizado para sempre no fundo do rio da Prata? Não, se depender das atividades de um grupo de empresários uruguaios e argentinos, que começaram em 2004 o resgate do navio.

A ambiciosa ideia é retirar do fundo do rio o navio inteiro, que está a apenas oito metros de profundidade, partido em duas partes. Na época, o diretor da operação, o uruguaio Héctor Bado, o resgate completo levaria vários anos.

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Representação artística de como estaria atualmente o Graf Spee no fundo do rio da Prata.

“Este é o último encouraçado alemão que tecnicamente pode ser resgatado do fundo das águas em todo o mundo. Queremos trazê-lo à tona, restaurá-lo e exibi-lo em Montevidéu”, disse Bado na ocasião.

Para poder removê-lo do fundo do rio, será necessário retirar entre 6 mil e 8 mil toneladas de lodo de dentro do navio, entre outras tarefas (além de uns 24 milhões de euros).

Alfredo Etchegaray, proprietário dos direitos sobre o navio afundado, afirmou que o cineasta americano James Cameron – o diretor de “Titanic” – iria à capital uruguaia para filmar o resgate. Por enquanto Cameron não foi à Montevidéu.

O empreendimento é privado, mas conta com apoio do governo do Uruguai, que declarou o projeto como de “interesse turístico”.

As operações de resgate estiveram paralisadas nos últimos dois anos. Mas, segundo Bado, serão retomadas no próximo dia 15 de março. O próximo objetivo: recuperar um dos canhões principais.

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Mapa que mostra onde está afundado o encouraçado de bolso

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Mapa completo do circuito do Graf Spee

ÁGUIA POLÊMICA
Em 2004 a equipe conseguiu recuperar o telêmetro do navio. A imensa peça, de 27 toneladas, está atualmente na praça do porto de Montevidéu.

Em 2006 a polêmica agitou Montevidéu quando a equipe resgatou a águia nazista que estava afixada à popa do encouraçado “de bolso”.

A presença da enorme suástica nas garras da escultura tornou-se o centro de intensos debates entre os exploradores, historiadores, o governo e a comunidade judaica uruguaia.

A comunidade judaica uruguaia ficou preocupada com o surgimento da águia. Na ocasião, Ernesto Kreimerman, presidente da Comunidade Israelita do Uruguai, declarou que era preciso que a sociedade tomasse as medidas necessárias para que “estes símbolos não sejam usados por grupos neonazistas como forma de propaganda”.

A águia de bronze pesa mais de 400 quilos, tem dois metros de altura e quase três de largura. Suas garras de metal estão aferradas a uma grande suástica. A peça foi a a insígnia nazista do Graf Spee.

A peça é única, pois trata-se do último símbolo – de grande tamanho – do nazismo em todo o mundo. Peças similares foram destruídas logo após o fim da Segunda Guerra pelas tropas aliadas.

Para não causar ofensas, a águia foi inicialmente exposta na frente do Hotel Palladuim, em Montevidéu, com a suástica coberta por uma lona. Após a polêmica ter sido amainada, e no cenário de ausência de militantes neonazistas, a lona foi removida.

A Universidade de Oxford calcula que a águia do Graf Spee valeria US$ 3 milhões.

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No Uruguai, a história do Graf Spee, além de peça de teatro, curiosidade turística e objeto de pesquisa histórica, também virou história em quadrinhos

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O anjo loiro da morte. Retrato do sequestrador quando jovem

O “garoto mimado” da última Ditadura Militar argentina (1976-83), o ex-capitão Alfredo Astiz, está sendo julgado desde a sexta-feira passada por sequestros, torturas e assassinatos de civis durante o regime militar. Conhecido entre suas vítimas como “O anjo loiro da morte” – e também como “O Corvo” – Astiz está sendo acompanhado no banco dos réus por outros 18 ex-integrantes da ditadura – também acusados de crimes durante a ditadura – que operavam com ele no Grupo de Tarefas 3.3.2.

A base do grupo era a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o maior centro clandestino de torturas do regime militar, situado no bairro portenho de Núñez.

Astiz era uma das estrelas da ESMA, já que as missões mais complexas eram encomendadas ao jovem oficial pelos integrantes da alta hierarquia militar.

As estimativas indicam que 5.000 prisioneiros civis passaram pela ESMA, dos quais sobreviveram menos de 170.

Um total de 280 testemunhas comparecerão perante o tribunal, incluindo vários sobreviventes da ESMA. Fontes dos tribunais indicaram que o julgamento de Astiz e seus companheiros poderia prolongar-se por um período de seis meses a um ano.

No primeiro dia de julgamento oral e público Astiz provocou o público levantando um livro que levava consigo. O título: “Voltar a matar”.

Entre os outros ex-militares que também estão sendo julgados estão Alfredo Donda Tigel – que sequestrou seu próprio irmão e a cunhada, os assassinou e ficou com suas filhas – além Jorge “El Tigre” Acosta, famoso por estuprar as prisioneiras.

Astiz é considerado o ex-integrante da ditadura com o perfil psicológico mais intrincado. “Ele tinha absoluta certeza que estava destinado a grandes missões em sua vida…ele achava que era um cavaleiro nas Cruzadas!”, disse ao Estado Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, ex-prisioneira de Astiz e autora do livro “Esse inferno”, sobre a passagem de várias prisioneiras mulheres nesse centro de torturas.

Outra sobrevivente, Sara Osatinsky relatou que o centro da vida do loiro oficial era a ESMA: “em uma ocasião Astiz saiu de férias, mas voltou quatro dias depois, pois havia descoberto que não podia compartilhar suas atividades com os amigos. Por isso passou o resto de suas férias na ESMA, conosco”.

Astiz apreciava reunir os prisioneiros para que estes ouvissem suas longas dissertações nas quais argumentava que os africanos eram “racialmente inferiores”.

Diversas testemunhas indicam que, enquanto outros repressores somente ficavam na ESMA o tempo suficiente para o “trabalho”, Astiz desfrutava do cheiro de urina e fezes que emanava das celas, além dos gritos dos torturados.

Protegido pela cúpula militar, Astiz foi recompensado por seus serviços durante o período mais intenso de repressão com o cargo de governador das ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 1982. No entanto, essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito bélico.

Após um único tiro de bazuca disparado pelos britânicos, Astiz desistiu de resistir. Com com um copo cheio de whisky em uma das mãos, assinou a rendição incondicional.

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Astiz rende-se rapidamente aos britânicos durante a Guerra das Malvinas

Astiz foi beneficiado em 1986 e 1987 com as leis de perdão aos militares (leis de ponto final e de obediência devida). Solteiro, ao longo dos anos 90 era visto com frequência em discotecas. Mas, por ser reconhecido facilmente, Astiz também foi alvo de freqüentes socos e cusparadas dos jovens que dançavam nesses lugares.

Em 1998 Astiz concedeu sua primeira e última entrevista à imprensa, gerando intensa polêmica. Em declarações à revista “Trespuntos”, o ex-capitão definiu-se como “o melhor homem para matar um presidente”.

FREIRAS E GARGALHADA
Astiz foi responsável pelo assassinato de três fundadoras das Mães da Praça de Mayo, entre elas, Azucena Villaflor. Ele também é requerido por vários tribunais na Europa. Na Itália, ele foi acusado de ter sido o autor do desaparecimento de três cidadãos italianos em território argentino durante o regime militar.Em 1990 a Justiça francesa condenou o ex-capitão – à revelia – à prisão perpétua pela morte das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet.

As duas freiras foram sequestradas em uma operação planejada por Astiz, que com suas suas feições de “menino bem-comportado” infiltrou-se na organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Maio, fazendo-se passar pelo irmão de um desaparecido. A cara ingênua de Astiz convenceu as Mães, que somente perceberam quem ele era tempos depois. Sob este disfarce, Astiz recolheu informações e decidiu que as duas religiosas idosas deveriam ser eliminadas.

Astiz também é procurado pela Justiça da Suécia, já que durante uma operação para sequestrar militantes de esquerda, ele e seu grupo entraram na casa de uma estudante na Grande Buenos Aires. Ali estava Dagmar Hagelin, uma jovem sueca, amiga da estudante procurada pelos militares. A adolescente fugiu dos repressores e foi derrubada com um tiro certeiro de Astiz na nuca. O oficial, ao comprovar sua pontaria – segundo testemunhas – soltou uma gargalhada.

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Pátio da Esma, com a presença de cadetes e oficiais, nos anos 70

ESMA FOI O MAIOR CENTRO DE TORTURAS DA AMÉRICA DO SUL
Dos 651 campos de concentração da Ditadura, a ESMA tornou-se o mais emblemático. Dentro da cidade de Buenos Aires, a poucos quarteirões do estádio Monumental de Núñez, foi o cenário das torturas mais cruéis do regime militar.

A ESMA, segundo o jornalista e analista político Eduardo Aliverti, era “um clube de perversão”.

Enquanto que nos outros campos de concentração os militares recorriam a métodos “clássicos” como o fuzilamento, na ESMA os oficiais da Marinha, “eliminavam” os prisioneiros por meio dos “vôos da morte”. Esta era a denominação da modalidade de jogar os prisioneiros dos aviões em pleno voô sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

A ESMA também contava com um armazém onde eram acumulados os objetos saqueados dos prisioneiros e suas famílias. Roupas, sapatos, eletrodomésticos, quadros e antiguidades eram alguns dos frutos do saque realizado pelos militares da ESMA.

A Marinha também organizou uma imobiliária clandestina que vendia as casas e apartamentos dos “desaparecidos”. O dinheiro era embolsado pelos oficiais.

“Viva Hitler”, “Nós somos deuses” eram algumas das frases que os oficiais haviam pintado nas paredes das salas de tortura, onde também violentavam as prisioneiras que minutos depois levavam – ainda em estado de choque e sangrando – para jantar em uma churrascaria de luxo em pleno centro portenho.

A jornalista Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, relatou ao Estado o modus operandi dos militares: “eles tinham métodos muito refinados. Vários prisioneiros viram como torturavam seus bebês, na sua frente, ameaçando esmagar a cabeça das crianças”.

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Assinatura, em uma viga de uma das celas da Esma, do prisioneiro Horacio Maggio, posteriormente assassinado

Espalhados em 17 hectares, os diversos edifícios da ESMA que compõem o antigo centro de torturas possuem nomes que indicam o humor negro dos oficiais: “Avenida da Felicidade”, “Eldorado”, “O Capuz” e “O Pequeno Capuz” (estes dois últimos, em alusão aos capuzes que os militares colocavam sobre a cabeça dos prisioneiros, que freqüentemente ficavam semanas ou meses sem ver a luz do dia).

A Escola de Mecânica da Armada está a poucos quarteirões do estádio Monumental, do time River Plate.
Durante a Copa do Mundo de 1978, os prisioneiros podiam escutar desde suas celas as torcidas no estádio gritando “gol”.

Nos dias de jogo os oficiais detinham as sessões de tortura para dedicar-se a ver pela TV os embates futebolísticos. Quando os jogos concluíam, dedicavam-se novamente a aplicar choques elétricos ou arrancar as unhas dos prisioneiros.

ESQUIZOFRENIA
“O comportamento desses militares era uma coisa esquizofrênica”, disse ao Estado Graciela Daleo, uma ex-prisioneira que no dia em que a Argentina venceu a Copa, foi levada pelos oficiais para um “passeio” de celebração pelas avenidas da cidade.

Daleo, que havia sido torturada com requintes de crueldade, olhava a multidão dançando pelas ruas. “Eu olhava pela janela do carro, rodeadas de oficiais da Marinha, e pensava que se começasse a gritar às pessoas na rua que eu era uma prisioneira política, ninguém daria bola para mim”. Após o passeio, Daleo foi levada novamente à cela.

Grande parte dos prisioneiros ficavam encapuçados até seis meses ininterruptos. Esta era uma forma dos carcereiros eliminarem qualquer noção de tempo e espaço dos detidos.

Quase todos, antes de serem torturados recebiam uma refeição de boa qualidade. Essa a “última ceia”, servida pelos oficiais com um sorriso de sarcasmo. Depois, eram levados pela “Avenida da Felicidade”, tal como denominavam o corredor que conectava os alojamentos dos prisioneiros com as salas de torturas.

Logo, a longa seqüência de padecimentos começava com choques elétricos sobre um colchão. As fortes descargas causavam pequenos “apagões” no resto das instalações da Esma. Para que a condução elétrica fosse melhor, os oficiais de Massera molhavam os corpos dos torturados.

Nos pavilhões onde amontoavam-se os prisoneiros, havia uma mistura de alívio e desespero. “Você implorava que o companheiro fosse deixado em paz…mas, ao mesmo tempo, sabia que quando isso acontecesse, você era o seguinte”, explica Victor Basterra, um dos sobreviventes.

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Parte da frente da Esma, atualmente

AMPLO LEQUE DE TORTURAS
Depois dos choques, os prisioneiros eram as vítimas do “submarino úmido”, que consistia em colocar suas cabeças em baldes d’água cheios de urina, fezes e outros dejetos. Os oficiais também aplicavam o “submarino seco”, ou seja, a asfixia com uma bolsa de plástico.

Uma das mais temidas era o “saca-rolhas”, que consistia na introdução de um aparelho pela via anal, que ao ser puxado para fora, arrastava junto as vísceras.

Algumas torturas eram inesperadas. Os homens de Massera dedicavam várias horas para imaginar novas formas de atormentar os prisioneiros. Uma manhã, os detidos ficaram perplexos ao ver que os oficiais levavam uma motocicleta até o porão onde estavam. Nas horas seguintes, os militares, montados na moto, divertiram-se circulando pelo salão passando por cima dos prisioneiros, deitados no chão a modo de paralelepípedos.

Teresa, uma das prisioneiras que morreu na Esma e cujo sobrenome é desconhecido, era violada cada vez que ia ao banheiro. “Se ela ia uma vez, a estupravam nessa ocasião. Mas, se, horas depois, ia de novo, era novamente violada. Todas as vezes que ia ao banheiro, era impreterivelmente estuprada. Todas”, relata Enrique Fuckman, ex-detido das masmorras da Esma.

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Dagmar Hagelin, a adolescente estudante sueca vítima de Astiz

‘ASTIZ DAVA UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO PARA UM PRISIONEIRO…E DEPOIS O LEVAVA À SALA DE TORTURA’

“O Verdugo – Astiz, um soldado do terrorismo de Estado” é a mais recente biografia não-autorizada de Alfredo Astiz. Seu autor, o jornalista Jorge Camarasa, famoso nos anos 90 por seus livros sobre nazista na Argentina, em entrevista ao Estado, conversou sobre a intrincada personalidade de Astiz, a quem define de “sinistro paradigma do terrorismo de Estado”.

Estado: Como definiria a relação de Astiz com suas vítimas e seu trabalho?

Camarasa: Astiz possuía uma série de patologias. Ele costumava recordar os aniversários de alguns prisioneiros, aos quais levava presentes na ESMA! Era uma relação de amor-ódio muito complexa. Astiz era capaz de realizar coisas estranhas como levar um prisioneiro a um restaurante, e depois transportá-lo para o lugar onde seria torturado…e ele pretendia que fosse uma espécie de relação na qual todos seriam amigos!

Estado: Astiz pertence aquele grupo de ex-torturadores e ex-sequestradores que consideram que seus atos durante a ditadura foram uma ‘missão divina’? Ou o enquadraria como um ‘aproveitador’ das circunstâncias?

Camarasa: Era um aproveitador. Ele limitava-se a cumprir as ordens que recebia, sem jamais questionar se elas estavam bem ou mal. Se o patrão de Astiz tivesse sido outro governo, outro regime, com certeza ele teria agido da mesma forma.

Estado: Astiz foi um garoto mimado da ditadura? O almirante Massera o encarregou de realizar complexas tarefas de espionagem, apesar de ser muito jovem…o ditador e general Leopoldo Galtieri, durante a Guerra das Malvinas, o colocou como comandante das ilhas Geórgias do Sul….

Camarasa: Foi mais do que um garoto mimado. Isso tem a ver com a formação de Astiz. Ele foi um oficial treinado nos Estados Unidos, além da Escola das Américas. Era um cara com instrução militar acima de seu camaradas.

Estado: Qual foi o destino de Dagmar Hagelin?

Camarasa: Sabemos detalhes da operação na qual Dagmar foi pega. Mas não sabemos se morreu na hora, se foi levada viva e posteriormente torturada. E depois morta.

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Nas eleições presidenciais de 2007, do total de 27 milhões de eleitores votaram 19 milhões. Cristina Kirchner recebeu 8,65 milhões de votos.
No entanto, 8 milhões de eleitores abstiveram-se de votar. Outros 1,33 milhão votaram em branco. Outros 240 mil eleitores anularam seus votos.
No total, 9,570 milhões optaram por não depositar seus votos a favor de candidato algum. Isto é, foram a principal opção no processo eleitoral argentino de 2007.

Cristina Kirchner (CFK) e seu marido, antecessor, ex-presidente e partner político, Néstor Kirchner.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal ‘Crítica’ no qual publica diariamente: www.criticadigital.com )

FATOS, NÚMEROS E PECULIARIDADES DOS DOIS ANOS DE CFK NO GOVERNO
Cristina E. F de Kirchner completa nesta quinta-feira dia 10 de dezembro dois anos no governo. Está no meio de seu mandato. Há exatos dois anos foi empossada como presidente da República e recebeu a faixa e o bastão presidencial do próprio marido, Néstor C. Kirchner. Foi a primeira vez na História do mundo em que um presidente, eleito nas urnas, passava o poder à cônjuge, também eleita por vias democráticas.
A campanha de Cristina foi realizada com o respaldo de toda a máquina do governo do marido e antecessor.

DENOMINAÇÕES
Cristina Kirchner faz questão de ser chamada de “presidentA“, com a letra ‘A’ no final.
Apelidos de Cristina: “Rainha Cristina”, “A rainha do Botox”, ou diretamente as iniciais ‘CFK’.

VOTOS
Evolução da votação dos Kirchners, desde que chegaram ao poder, há seis anos:
Presidencial, em 2003: 22% dos votos
Parlamentar em 2005: 38,9% dos votos
Presidencial em 2007: 45,6% dos votos
Parlamentar em 2009: 30% dos votos
(Todos os votos referem-se aos votos válidos emitidos)

APOGEU
Cristina controlava, quanto tomou posse em dezembro de 2007, entre parlamentares próprios e aliados
- 161 deputados, de um total de 257
- 47 senadores, de um total de 72

QUEDA
Cristina controla, dois anos após sua posse, entre parlamentares próprios e aliados
- 104 deputados, de um total de 257
- 36 senadores, de um total de 72

PLANOS DE PODER
Entre 2006 e 2007, os Kirchners definiram um plano para a sucessão (segundo fontes do governo e analistas) :
- Kirchner, com o primeiro mandato, entre 2003 e 2007.

- Entre o final de 2006 e início de 2007 ficou definido que a candidata para a sucessão de Kirchner seria Cristina.

- Cristina foi eleita em 2007 (cujo mandato conclui em 2011).

- O casal monitoraria clima político para ver se em 2011 conviria mais a candidatura de Kirchner, que voltaria ao poder, ou a de Cristina, que apresentaria-se para reeleição.

- Se Cristina fosse a candidata para reeleição em 2011, Kirchner esperaria seu turno para 2015.

- Esses planos estariam em stand by atualmente, já que o casal possui 70% de imagem negativa. Mas, os Kirchners tentam ampliar sua base de poder com uma série de leis, aprovadas recentemente:
1 – Lei de Mídia (que restringe a ação dos meios de comunicação críticos com o governo)
2 – Prorrogação dos ‘superpoderes’ econômicos (pacote de leis que permite que a presidente possa alterar grande parte do Orçamento Nacional sem necessidade de aprovação do Parlamento)
3 – Reforma política (que complica a existência dos partidos pequenos e favorece o Peronismo e a União Cívica Radical)

FALHAS, PROBLEMAS E CRÍTICAS
- Cristina Kirchner é criticada por sua vaidade pessoal, sua fama de shopaholic, supostas cirurgias plásticas e autoritarismo.

- Ela e seu marido são suspeitos de enriquecimento ilícito

- Ministros e ex-ministros são suspeitos de vários casos de corrupção

- Oposição afirma que Kirchners ‘improvisam’ política econômica

- Cristina é acusada de “fraca”, por deixar que seu marido seja o real poder do governo

- Em março de 2008 Cristina Kirchner abriu um conflito de vários meses de duração com os ruralistas. Tentou implementarn um impostaço agrário para arrecadar US$ 2 bilhões. Mas, o país e o Estado argentino tiveram perdas de US$ 7 bilhões.

- Desde o ano passado abriu uma guerra contra os principais meios de comunicação do país

- No ano passado o governo de Cristina foi o alvo dos primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002

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ECONOMIA

Evolução do PIB
2003 (quando seu marido Néstor Kirchner tomou posse): 8,8%
2004: 9%
2005: 9,2%
2006: 8,6%
2007: 8,6% >(Cristina tomou posse em dezembro desse ano)
2008: 7%
2009: (previsões) O governo calcula que o PIB crescerá 0,5%; os economistas afirmam que teria queda de 3%.

Pobreza
- A pobreza caiu de 54% em 2003, quando Kirchner tomou posse para 23,4% em 2006.

- Em 2007, começam disparidades entre as estatísticas do governo e economistas independentes

- Em julho de 2009,
a) segundo o governo, a pobreza atingiu 13% da população;
b) para economistas independentes e a Igreja Católica, a pobreza voltou a crescer e atinge de 30% a 40% dos argentinos

Desemprego
O desemprego caiu…
- Dos 17,8% em 2003
- Para 8,1% em 2007 (quando Cristina tomou posse)
E começou a subir…
- Atualmente o governo afirma que o desemprego é de 9%, mas analistas privados dizem que passou dos 12%

Reservas do Banco Central
As reservas do BC passaram de US$ 14 bilhões em 2003 para US$ 50 bilhões em 2007 (quando Cristina tomou posse).
Atualmente são de US$ 47 bilhões.

Cotação do dólar
A cotação do dólar passou de 2,9 pesos em 2003 para 3,16 pesos em 2007. Atualmente a cotação é de 3,80 pesos.

Fuga de divisas
2008: US$ 23,6 bilhões
2009: US$ 14,5 bilhões (entre janeiro e novembro)

O ‘MEIO DO CAMINHO’

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Em dois anos o casal Kirchner dilapidou hegemonia política e levou o país à crise econômica

Cristina Kirchner completa nesta quinta-feira dois anos de governo, o exato ponto no meio de seu mandato presidencial. Quando chegou ao governo, no dia 10 de dezembro de 2007, com o respaldo de 45,6% dos votos nas eleições presidenciais – o dobro dos 22% obtidos em 2003 por seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner – e uma popularidade de 55%, ela contava com o respaldo de 20 dos 24 governadores e o apoio de intelectuais, organizações de defesa dos Direitos Humanos e os sindicatos.

Além disso, controlava – entre aliados e parlamentares próprios, 161 deputados, de um total de 257 na Câmara. No Senado era obedecida por 47 senadores de um total de 72.

Na ocasião, o cientista político Rosendo Fraga, afirmou ao Estado: “começa um período de hiper-presidencialismo”. O casal Kirchner estava no pináculo do poder. Perante esse cenário de hegemonia a classe política apenas fazia uma pergunta na época: “quem será candidato à sucessão em 2011? Cristina ou Néstor?”.

Mas, dois anos depois, grande parte desse capital político está desintegrado. O golpe de misericórdia no encolhimento do poder dos Kirchners foi a derrota nas eleições parlamentares de junho, quando o governo obteve somente 30% dos votos válidos em todo o país.

Atualmente, juntando aliados e deputados próprios, na Câmara o casal Kirchner somente possui 104 parlamentares de um total de 257.
No Senado também perdeu a maioria que ostentava, já que conta com 36 senadores de um total de 72.
O problema é que o voto de Minerva está nas mãos do vice-presidente da República, Julio Cobos (que também é o presidente do Senado), que rachou com Cristina Kirchner durante o conflito com os ruralistas no ano passado. Para irritação dos Kirchners, Cobos é um potencial presidenciável da oposição.

Pela primeira vez em seis anos o governo será minoria no Parlamento. “O kirchnerismo não poderá mais sentir-se o dono do Congresso Nacional. Será apenas um inquilino a mais”, ressalta o colunista político Fernando Laborda.

Dos 24 governadores, apenas 10 obedecem Cristina, especialmente aqueles das províncias em graves problemas financeiros, que dependem dos fundos federais para pagar o funcionalismo público e evitar conflitos sociais. O esvaziamento do poder também foi interno, já que um terço do peronismo deixou as fileiras do governo e organizou-se como um grupo dissidente.

Nesse intervalo de dois anos a presidente deflagrou um insólito conflito com o setor ruralista que paralisou o país, gerou desabastecimento de alimentos, intensificou a escalada inflacionária. De quebra, o conflito mobilizou a classe média das grandes cidades, que protagonizou os primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002. A fuga de divisas bateu todos os recordes históricos, enquanto que os investidores internacionais optavam por países previsíveis como o Brasil, Chile e até o pequeno Uruguai.

O cenário conturbado complicou-se mais com a decisão da presidente de pressionar o empresariado para aumentos salariais. A estatização inesperada da companhia aérea Aerolíneas Argentinas, do sistema de aposentadorias e das transmissões dos jogos de futebol intensificaram os temores do empresariado. Na semana passada, a Associação Empresarial Argentina (AEA), costumeiramente de baixo perfil, criticou a “excessiva intervenção do Estado na economia”.

Mas, desde a derrota nas eleições parlamentares em junho, até a semana passada, quando o novo Parlamento prestou juramento, os Kirchners atarefaram-se em conseguir uma série de medidas que lhes garantirão poder político, apesar da elevada impopularidade.

Entre as medidas estão a aprovação dos superpoderes econômicos (com os quais poderá reconfigurar grande parte do Orçamento Nacional sem aprovação do Congresso), a lei de mídia (que limitará os meios de comunicação críticos) e a reforma política (que restringirá a criação de novos partidos).

A socióloga e analista política Graciela Römer disse ao Estado que inicia um cenário insólito para a Argentina, já que nos dois anos que restam o casal Kirchner terá que lidar com um Parlamento opositor: “este é o governo menos disposto a submeter-se às restrições que um sistema republicano de governo impõe. Este governo faz isso em nome de uma concepção cesarista da democracia e de colocar a luta contra os ‘inimigos do povo’ antes das regras formais do sistema democrático”.

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Néstor Kirchner, ‘cão de guarda’ de Cristina no Parlamento, promete ‘guerra’ contra oposição.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal ‘Crítica’ no qual publica diariamente: www.criticadigital.com )

NÉSTOR, O VERDADEIRO PODER POR TRÁS DE CRISTINA
Ao longo dos anos 80 e 90, Néstor Kirchner e sua esposa Cristina Kirchner fizeram carreiras política paralelas. Enquanto ele era eleito prefeito de Río Gallegos e posteriormente governador da província de Santa Cruz, ela chegava à Câmara de Deputados, para entrar no Senado na sequência. Quando Kirchner chegou à presidência, os rumores do âmbito governamental indicavam que Néstor pedia constantemente os conselhos de Cristina. Por este motivo, quando ela foi eleita sua sucessora (a primeira vez na História mundial que uma esposa sucedia ao próprio marido por intermédio das urnas) a classe política e a opinião pública consideravam que o país teria um “governo bicéfalo”.

Mas, imediatamente os argentinos perceberam que o verdadeira cabeça do governo de Cristina Kirchner era seu marido Néstor. O ex-presidente, formalmente fora da administração federal, continuou reunindo-se com seus ministros (que havia repassado à esposa). Líderes sindicais encontram-se primeiro com Kirchner para fechar acordos antes de assiná-los com a presidente.

Graciela Römer considera que “os argentinos esperavam que Cristina Kirchner se encarregasse dos pontos fracos do governo de seu marido, isto é, melhorar a institucionalidade e abrir diálogo com a oposição. Nada disso aconteceu. E para complicar, acrescenta-se o impacto da crise financeira mundial, o desemprego e a inflação. De quebra, o aumento da criminalidade. Isso tudo explica a derrota que os Kirchners sofreram nas eleições parlamentares”.

Römer destaca que a “hiper-presença de Néstor Kirchner em seu governo não permitiu que Cristina Kirchner desenvolva uma agenda e um perfil próprio, fato que a expôs a um enfraquecimento de sua imagem”.

Kirchner, na semana passada, prestou juramento como deputado federal. Os analistas afirmam que nesse posto agirá como “cão de guarda” do governo de sua esposa.

O cientista político Rosendo Fraga sustentou que o encolhimento do poder no Parlamento será uma experiência política nova para o kirchnerismo e para o próprio Néstor Kirchner. Fraga sugere que a adaptação não será fácil: “se bem os líderes políticos mudam de ideologia de acordo com os interesses, conveniências e as circunstâncias, eles não mudam de personalidade…”.

‘CÃO DE GUARDA’
Kirchner prestou juramento pela primeira vez em sua vida como parlamentar e assumiu sua cadeira de deputado federal, para a qual foi eleito nas eleições de junho passado.

Na ocasião o “kirchnerismo” sofreu uma derrota histórica, ao ficar com apenas 30% dos votos em todo o país. A derrota implicou na perda da maioria que Kirchner e sua esposa e presidente Cristina Kirchner ostentaram na Câmara e no Senado ao longo dos últimos seis anos e meio.

Kirchner, que até ontem havia acumulado cargos executivos (prefeito da cidade de Río Gallegos, governador da província de Santa Cruz e presidente da República), não será um deputado qualquer do governista partido Justicialista (Peronista). Kirchner – segundo parlamentares governistas e da oposição indicaram ao Estado – será um “cão de guarda” de sua esposa nessa casa do Congresso Nacional.

O próprio Kirchner declarou à imprensa: “eu é que vou apresentar no plenário os projetos do Poder Executivo”.

Os analistas políticos estão curiosos pelo comportamento que Kirchner terá no plenário, já que o ex-presidente foi conhecido por governar por decretos, prescindindo em boa parte de seu mandato (2003-2007) do Parlamento. “Kirchner despreza a instituição do Parlamento”, disse recentemente ao Estado o ensaísta Marcos Aguinis, autor de “O atroz encanto de ser argentino”.

Durante o juramento dos colegas Kirchner não seguiu o protocolo e conversou e riu com parlamentares sentados a seu lado.

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Ácido humor portenho não poupa os Kirchners

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Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias argentinas começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas “quase-moedas” – criticadas intensamente pelo FMI – passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para…38%! O patacón, a quase-moeda bonaerense, foi o hit parade das moedas paralelas.

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Mais de meia década após a extinção dos patacones, lecops e cecacors, o governo de Córdoba, uma das principais províncias da Argentina, ameaçou reimplantar o sistema de “moedas paralelas” – as moedas sem lastro emitidas pelas províncias como medida de emergência para pagar as contas – utilizado durante a crise econômica de 2001-2002.

Segundo o governo cordobês, essa será a drástica alternativa a adotar, na hipótese de que não consiga driblar os graves problemas financeiros na qual está mergulhado.

“Caso a União não envie os fundos que nos deve, a província terá que cobrir o ‘buraco’ com uma moeda paralela”, afirmou, sem sutilezas, o secretário de Finanças de Córdoba, Ángel Elletore.
Segundo ele, a União não enviou fundos federais para província ao longo de novembro. “E acho que em dezembro tampouco receberemos dinheiro algum”, lamentou.

O governador Juan Schiaretti autorizaria a emissão de moedas paralelas caso a União não desembolse os US$ 555 milhões que deve à província de Córdoba. Além da dívida deste ano, a província disputa na Corte Suprema o pagamento de US$ 315 milhões, relativos a dívidas previdenciárias da União com Córdoba no período 2002 e 2007.

Uma parte da emissão realizada por Córdoba seria em bônus, enquanto que a outra – para pagar os salários do funcionalismo – teria o formato de “moeda paralela”, que seria utilizado como circulante dentro da província.

Na quinta-feira no final da noite o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou que remeteria ao governo cordobês quase US$ 20 milhões.
O governo de Córdoba paralisou o plano de lançamento da “moeda paralela”.
…Mas apenas por enquanto.
“Vamos esperar que a União faça aquilo que prometeu para que a gente defina este assunto (o assunto das moedas paralelas)”, disse o governador Schiaretti.

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As “moedas paralelas” apareceram há décadas na Argentina. Nos anos 80, Carlos Menem, na época governador da província de La Rioja, emitiu bônus provinciais em sinal em rebeldia com o governo do presidente Raúl Alfonsín (na verdade, mais do que ‘rebeldia’, a emissão de moedas paralelas cobria o festival de gastos públicos de Menem e a péssima administração financeira de La Rioja)
As moedas ostentavam a efígie de Facundo Quiroga, caudilho do século XIX que Menem emulava.
Nos anos 90, diversas províncias pequenas emitiram estes bônus de forma ocasional, para paliar seus déficits fiscais.
Na gravura acima, Facundo. Na foto embaixo, Menem.

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maizinhad No início desta semana a província de Buenos Aires, responsável por um terço do total do PIB argentino, anunciou que emitirá bônus para saldar as dívidas de US$ 210 milhões que possui com os fornecedores do Estado. No entanto, o governo bonaerense descartou que esteja planejando a emissão de moedas paralelas para usar como circulante.

Outras províncias, assoladas por crescentes déficits fiscais, estão em situação similar à de Córdoba. Segundo a consultoria Abeceb, o déficit fiscal primário consolidado das 24 províncias argentinas em 2009 chegaria a US$ 4,31 bilhão. Isso equivale a 1,4% do PIB da Argentina.

Os especialistas afirmam que as emissões de “moedas paralelas” aumentam as incertezas do público e dos mercados sobre o estado das finanças públicas.

Nos últimos meses, secretários da fazenda de várias províncias sugeriram que as circunstâncias poderiam criar um cenário no qual essas emissões seriam novamente necessárias.

Os economistas ressaltam que no primeiro semestre deste ano os governos provinciais realizaram um festival de gasto público por causa das decisivas eleições parlamentares de junho passado. As províncias elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para impedir a derrota nas urnas.

Diversos governadores, que estão atrasados nos pagamentos do funcionalismo público e fornecedores do Estado, avaliam pagar os salários em parcelas.

Segundo a consultoria Economia e Regiões, as províncias e a capital federal concentram 1,3 milhão de funcionários públicos, cujos salários absorvem 51% de suas finanças.

Extraoficialmente, os governos provinciais não descartam a medida drástica de emitir “moedas paralelas”, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002, caso o cenário financeiro fique mais sombrio.

Após a derrota do governo nas eleições parlamentares do dia 28 de junho, os governadores começaram uma romaria pela Casa Rosada para pedir fundos extras à presidente Cristina Kirchner. No entanto, não tiveram muito sucesso.

Segundo o Instituto Argentino para o Desenvolvimento das Economias Regionais (Iader), entre as províncias com maiores problemas estão a de Buenos Aires (que concentra quase 40% da população argentina e é responsável pela produção de mais de um terço do PIB nacional), Río Negro, Mendoza, Tierra del Fuego e Chaco.

A província de Buenos Aires é a que está em pior estado financeiro. Governada por Daniel Scioli, fiel aliado dos Kirchners, o território bonaerense possui atualmente um déficit fiscal de US$ 1,43 bilhão.

Vinte províncias argentinas estão com problemas graves para fechar o ano. O cenário é intensamente diferente do ocorrido em 2008, quando 15 das 24 províncias argentinas encerraram o ano com superávit fiscal.

Os economistas alegam que de lá para cá, as províncias – que neste ano passaram por eleições cruciais – elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para tentar impedir a derrota nas urnas.

Esse festival de gasto público foi agravado pelo aumento de 15,5% no salário do funcionalismo dias antes das eleições e a queda abrupta na arrecadação tributária provocada pelo conflito ocorrido em 2008 entre a presidente e o setor agropecuário, que protagonizou cinco locautes.

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O governador A. Schwarzenegger, nesta foto como Terminator após uns sopapos da srta. Sarah Connors (ou de seu filho), foi duramente afetado pela crise econômica e precisou recorrer a uma modalidade de californianos patacones. Link para matéria do jornal portenho “El Cronista”:
 http://www.cronista.com/notas/194906-sch…

No início deste ano, Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, EUA, decidiu emitir promissórias para o pagamento de dívidas desse estado americano. Essa medida, por tabela, intensificou os rumores que correm nos últimos meses em Buenos Aires sobre uma eventual cenário no qual as “moedas paralelas” ressuscitariam, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002.

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Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas “quase-moedas” – criticadas intensamente pelo FMI – passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para 38%.

Na época, além das “pseudo-moedas”, a Argentina contava com o peso, a moeda nacional (e, de quebra, o dólar, cujo intenso uso transformou a Argentina no país com maior número de dólares nas mãos da população depois dos EUA e a Rússia).

Córdoba emitiu os “Lecor” em dezembro de 2001. A moeda circulou até 2003, quando foi resgatada pelo governo provincial. Ao longo de dois anos, circularam Lecors com valor equivalente a US$ 300 milhões. Mas, os Lecor foram apenas uma parte das moedas paralelas que circulavam pelo país na época.

A emissão de “Patacones”, da província de Buenos Aires, chegou a um valor equivalente a US$ 900 milhões. A própria União, falida, teve que emitir os Lecops. O total desta moeda paralela equivaleu a US$ 1,06 bilhão.

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Nota de dois lecops. Esta foi a moeda paralela que o próprio governo federal teve que emitir na época

BASTARDAS APRECIADAS
maizinhad Desprezadas, ou pelo menos encaradas como párias ou bastardas ao longo de 2001, as “moedas paralelas” tornaram-se rapidamente – no meio da crise argentina de dezembro daquele ano – as novas divas do circulante monetário argentino.

O motivo para esta mudança de status quo foi o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários imposto pelo governo do presidente Fernando De la Rúa em dezembro de 2001.

O “corralito” deixou fora do páreo do cotidiano uma ampla circulação de pesos e dólares, até esse momento, as moedas fortes do país.

Na categoria de “pseudo-moedas”, os bônus não entraram dentro do confisco, já que somente podiam ser “custodiados” nos bancos, e não “depositados”.

Desta forma, quem recebia em patacones estava com seu dinheiro livre do confisco.

Várias das moedas paralelas eram aceitas fora de suas próprias províncias, como o “patacón” e o “lecor”, que tinham valores iguais ao do peso.

Mas, nem todas as moedas paralelas tinham “boa saúde” como os patacones.
No caso dos “cecacors”, da província de Corrientes, as notas não chegavam a 45% de seu valor numérico nominal. Na prática, eram vistas como notas do jogo “Banco Imobiliário”.

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Patoruzú, um dos emblemáticos personagens dos comics argentinos, criado pelo desenhista Dante Quinterno.
Patoruzú possuía milhões em patacones. No entanto, não era em referência à recente moeda paralela, mas sim, alusão ao dinheiro usado nos tempos coloniais, feito de prata e ouro. Patacón e Pataca (esta, usada mais em Portugal) provém do árabe “batakká”.
Na Argentina, os patacones também foram usados no período 1881-83. Eram moedas de prata.

RETROSPECTIVA

Estadão faz retrospectiva da década: gol mais emblemático, o mulherão, conflito internacional, líder político,etc: http://blogs.estadao.com.br/retrospectiv…

A meu cargo está a moderação do debate sobre a/o líder política/o da década. Estão todos convidados:
 http://blogs.estadao.com.br/retrospectiv…

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pigassobia

maoooa “Presidente? Hehehehe…! Tão difícil como um leitão assobiando!“. Desta forma, com uma piada típica do interior do Uruguai, o senador José ‘Pepe’ Mujica respondia quando um simpatizante ou um jornalista lhe perguntava, há poucos anos, se um dia disputaria as eleições presidenciais. Há apenas meia década parecia impossível que este ex-guerrilheiro tupamaro, que em 1969 havia protagonizado a ocupação armada da cidade de Pando, uma das principais do país, poderia aspirar à presidência.

Mas, Mujica conseguiu ser eleito presidente graças à uma combinação de carisma pessoal, moderação ostensiva de suas posturas políticas, um vice com grande trânsito pelos mercados (Danilo Astori, ex-ministro da Economia) e cinco anos de prosperidade econômica durante o governo do socialista ‘diet’ e atual presidente Tabaré Vázquez, seu colega na centro-esquerdista coalizão Frente Ampla.
Evidentemente, tudo condimentado com muito pragmatismo e aquilo que o próprio Mujica denomina de “paciência oriental”.

Números preliminares indicavam que Mujica recebeu neste domingo 53% dos votos, meta que ele considerava tão impossível quanto a de ver primos do Marquês de Rabicó entoando melodias assobiadas.

Seu rival, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco), de centro-direita, obteve 42,9% dos votos.

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MESMO CACHORRO, MESMA CORREIA
Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro que há exatamente 40 anos defendia a luta armada para a conquista do poder e a implantação de um regime marxista, transformou-se nos últimos anos naquilo que ele próprio costuma definir de “vegetariano” ideológico, isto é, um pragmático que – embora mantendo certo verniz de utopia socialista – afirma que pretende atrair os capitais estrangeiros, manter o sigilo bancário, fazer acordos comerciais com os Estados Unidos e a China.

Mas, acima de tudo, Mujica sustenta que manterá a política econômica do presidente Vázquez.

De quebra, na reta final de campanha – além de ressaltar o respeito à propriedade privada e o equilíbrio fiscal – emitiu vários sinais de distância ideológica e de estilos com o presidentes Hugo Chávez da Venezuela e o boliviano Evo Morales e indicou similitudes com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

MARKET FRIENDLY
maoooa Para mostrar que será “market friendly” (amigável com os mercados), Mujica recorre aos ditados populares uruguaios e afirma que seu futuro governo manterá o mesmo clima aberto aos investidores e a previsibilidade na política econômica que a administração Vázquez: “será o mesmo cachorro com a mesma coleira”.

O provérbio será levado à sério, afirma Mujica, que também ressalta que seu vice, o economista Danilo Astori, será a pessoa que se ocupará das questões econômicas. Astori, em quatro dos cinco anos de governo Vázquez, foi o ministro da Economia.

Além disso, Astori definiu a nova equipe econômica, que, em sua grande maioria está composta por moderados economistas de sua extrema confiança.

Nesta equipe, o ex-diretor de macro-economia de Astori, o economista Fernando Lorenzo, é apontado como o virtual novo ministro da Economia.

Em entrevista ao Estado poucas horas antes da eleição, Lorenzo – embora não confirme o novo posto – sustentou: “continuaremos com a previsibilidade das políticas econômicas, que foram parte muito importante do sucesso que teve o governo de Vázquez”.

Segudo Lorenzo, o desenvolvimento que Mujica projeta para o Uruguai “é a somatória da prosperidade e da equidade social”.

O economista Marcelo Sibille, da consultoria KPMG afirmou ao Estado que Mujica “mostrou sinais de continuidade” da política de Vázquez “que foram compreendidos pelos mercados”.

Segundo ele, o melhor termômetro para mensurar temores, o mercado cambial, manteve-se plácido nas últimas semanas, ao longo das quais as pesquisas apontavam uma vitória assegurada de Mujica.

“Não temos temores”, afirma Javier Carrau, vice-presidente da Câmara de Indústrias. Na mesma linha, Alfonso Varela, presidente da Câmara de Comércio e Serviços, indica: “estamos tranquilos”.

Nas ultimas semanas Mujica também indicou que “a política econômica não estará aferrada a nenhum dogma definitivo”.

O ex-guerrilheiro sustentou, com ironia, que “não será Mandrake ou Papai Noel que chega ao governo. A vontade de repartir possui os limites impostos pela realidade de uma sociedade de mercado”. Segundo ele, a política de distribuição da riqueza “não poderá afetar o andamento da economia”.

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Mujica, em sua chácara no bairro Rincón del Cerro, na periferia de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

maoooa Nascido em 1935 no seio de uma família de classe média austera, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional. Mas, nos anos 60 passaria para a esquerda e fundaria, junto com outros colegas de origens comunistas e anarquistas, o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, uma bela militante que transformou-se em senadora e sua esposa.

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Mujica, nos tempos que participou da criação do movimento tupamaro, antes da Ditadura

Em 1972 foi detido no meio de um confronto com as forças de segurança. Foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Sua prisão foi prolongada. Um total de 14 anos, ao longo dos quais foi torturado físicamente com intensidade pelos militares no final do governo civil e ao longo da Ditadura (1973-85).

Sua psique também foi alvo de terrorismo. Mujica, nos dias de bom humor dos guardas, só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, com um capuz na cabeça que o impedia ver e com as mãos algemadas.

Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, suas fezes e urina escorriam pelas pernas.

Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, recentemente, em um comício, indicou que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer ao próprios fluídos corporais. “Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve que beber sua urina”, ilustrou.

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Mujica é o primeiro ex-guerrilheiro a chegar à presidência de um país na América do Sul. Foto de Mujica quando estava preso

Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla.

Eleito senador, posteriormente, no governo do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da Agricultura.

Ali, começou a planejar sua conquista da presidência. Para não assustar a classe média e alta, indicou – com uma metáfora bovina – que não pretendia mais combater a burguesia: “não quero mais esmagá-la. Não. Eu quero é ordenhar a burguesia!”.

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‘NÃO PODEMOS TER DOGMAS’
Mujica diz que será o ‘Néstor’ da ‘Ilíada do Mercosul’

Cansado de longos e intensos meses de campanha, o septuagenário senador e floricultor José ‘Pepe’ Mujica decidiu driblar sua própria equipe de assessores no fim da noite da quinta-feira, quando desapareceu dos principais eventos eleitorais da última jornada política antes da votação deste domingo. A ponto de transformar-se no primeiro ex-guerrilheiro que chega à presidência de uma república sul-americana, Mujica optou pela calma de um show de tango no tradicional Teatro Solís, em pleno centro de Montevidéu.

Acompanhado de sua esposa e um único guarda-costas, Mujica, ao sair do espetáculo, no hall do teatro, concedeu uma breve entrevista ao Estado – na qual misturou gírias com alusões à odas gregas – enquanto adolescentes aglomeravam-se ao redor para fazer uma foto com o informal líder esquerdista que pretende – por sua idade – ser uma espécie de ‘Néstor’ (o sábio guerreiro ancião da Ilíada de Homero) entre os jovens presidentes da região.

Estado – Recentemente o senhor disse, em relação à integração internacional de um país pequeno como o Uruguai, que “leitão magro sonha com milharal gordo”…

Mujica – Temos que nos localizar no mundo no qual vivemos. O mundo está ficando cada vez menorzinho e estão sendo formadas grandes unidades. Nós, uruguaios, nos perguntamos o que faremos. O mundo caminha – aos tropeções – para a abertura econômica. Não podemos de jeito nehum ter dogmas. O mundo está em momento de inflexão. É provável que daqui a um certo tempo teremos que fazer algumas mudanças para nos reposicionar. Essa matéria do ‘mundo’ vai ficar um pouco mais complicada do que hoje em dia, né? As fronteiras ficam ‘porosas’ com o desenvolvimento tecnológico. O caso do Brasil é que é um pais continental. Mas, o Brasil precisa também do resto do mundo. Agora, é evidente que o Brasil possui a responsabilidade natural (de liderança no Mercosul), derivado de suas dimensões e recursos…

Estado – O senhor costuma elogiar o governo Lula e até indica admiração pela forma como lida com a oposição…

Mujica- Lula é um velho amigo. Há pouco lá em Brasília deu para a gente um grande conselho, o de transformar grandes tensões em negociações, e não em confrontos. Ora, Lula comanda um país enorme, tem minoria no Parlamento e por isso dá mais espaço à política do que ao confronto. E nós, aqui, vamos dar sustentabilidade para que os conflitos se transformem em saídas.

Estado – O senhor sempre foi favorável à integração do Mercosul. Mas este cresceu da forma esperada? No Uruguai existe certo ‘merco-ceticismo’…

Mujica – O Mercosul começou muito ‘fenício’ (em alusão ao mercantilismo), essa coisa de ‘quanto você vende para mim e quanto eu te vendo’. Alguém pode acreditar que agricultura argentina ou brasileira será comida neste continente? Por muitos anos teremos que vender alimentos ao mundo. Por isso digo que precisamos integrar a energia, portos, estradas, e a inteligência!

Estado – O senhor tem 74 anos, tomará posse quase aos 75 e concluirá o mandato a menos de dois meses do octogésimo aniversário…

Mujica – Uma das coisas vantajosas da velhice é que a gente pode dizer o que pensa. Mas isso geralmente provoca um ‘rebu’, pucha!(‘putz’)!!! (Ri e faz uma loga pausa como se fosse encerrar a entrevista, mas inesperadamente retoma)…Me disseram o outro dia que serei o presidente mais velho da América Latina. Os presidentes da região terão que lembrar o discurso de Néstor, na Ilíada de Homero…

Estado – Néstor, embora sendo um ancião, não ficaria nas naves, já que participaria da conquista de Tróia dando ponderados conselhos aos jovens…

Mujica – Pois é, é algo antropológico, os gregos escutavam os mais velhos! Eram velhos e muito ouvidos também (Winston) Churchill e aquele general russo que fez que Napoleão se retirasse da Rússia (o caolho Mikhail Kutusov). Ora, eles (os presidentes mais jovens) vão ter que me respeitar…(ri)

BAIRRO
Mujica disse que ainda não sabe quando voltará ao Brasil, onde esteve recentemente. Mas, declarou que, com certeza, sua primeira visita oficial será “no bairro”, maneira como – informalmente – designa a região.

maoooa Candidatos presidenciais uruguaios, tão velhos como a população, segundo “El Observador”:
 http://www.observa.com.uy/actualidad/not…

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