Alguns generais morrem em campo de batalha. Outros falecem no leito doméstico, pronunciado supostas frases patrióticas. Alguns morrem assassinados em revoluções, golpes e complôs. Outros caíram do cavalo (sem metáforas) e fraturaram o pescoço. Mas, até agora, não havia registros de um ex-ditado/general sul-americano que tenha morrido sentado no vaso sanitário, ao lado do prosaico rolinho de papel higiênico. J.R.Videla encerrou sua carreira desta última forma, com um óbito digno de entrar nos anais da História.
O “senhor da vida e da morte” durante a última ditadura militar argentina (1976-83), o ex-general Jorge Rafael Videla, morreu na manhã da sexta-feira sentado no vaso sanitário de sua cela na prisão de Marcos Paz. O ex-ditador, que havia tido disenteria na véspera, acordou após uma noite com problemas estomacais e intestinais e sentou-se no vaso. Ali, nesse âmbito, ocorreria o desenlace.
Às 6:40 da manhã, um dos guardas da prisão, em sua recontagem de presos, viu pelo visor da cela que Videla estava sentado no vaso.
Mas, em uma segunda ronda, tempos depois, o guarda percebeu que Videla permanecia sobre o vaso, embora reclinado para a frente. Imediatamente, o guarda chamou um médico. Os dois entraram na sala e perceberam que Videla não tinha pulso. Suas pupilas não reagiam.
Com as calças de seu pijama arriadas, sem o aprumo militar que o caracterizou durante décadas, o todo-poderoso homem da ditadura militar argentina encerrou sua carreira.
Cecilia Pando, esposa de um ex-militar e líder de um pequeno grupo de extrema direita que reivindica a ditadura argentina, havia divulgado na sexta-feira a informação de que Videla havia morrido placidamente na cama de sua cela. Pando, amiga de Videla, tentava evitar uma imagem escatológica no final da vida de seu ídolo. No entanto, as autoridades penitenciárias confirmaram no fim de semana que sua morte ocorreu em um cenário mais sui generis. Eventos assim não abundam. Um óbito para entrar nos anais da História.
Documento que indica a forma como Videla foi encontrado em seus primeiros momentos póstumos.
Videla havia sido condenado em 2010 à pena de prisão perpétua pelo assassinato de civis. No ano passado acumulou uma pena de 50 anos pelo sequestro de 35 bebês, filhos das desaparecidas políticas. Na ocasião, em declarações nos tribunais, admitiu pela primeira vez na História as mortes dos desaparecidos políticos. No entanto, deixou claro que não se arrependia dos fuzilamentos.
O ex-ditador – que comandou o país nos primeiros cinco anos de um total de sete da ditadura militar – não receberá qualquer tipo de honra militar durante seu enterro, já que, além de ter sido destituído de seu grau militar, desde 2009 está em vigência uma resolução que proíbe a realização de honras militares nos funerais de ex-integrantes das Juntas Militares.
A líder da organização das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, declarou que Videla era “um ser desprezível que deixou este mundo”. Carlotto destacou que o ex-ditador “nunca se arrependeu do genocídio que cometeu”.
O deputado Horacio Pietragalla, que foi sequestrado pelos militares quando era um bebê de oito meses em 1976, declarou que Videla morreu “da forma como tinha que ser: preso e condenado”. No entanto, lamentou que “nunca se arrependeu” dos assassinatos que ordenou. Pietragalla recuperou sua verdadeira identidade quando tinha 25 anos.
Segundo Pietragalla, “os crimes de Videla nos recordam a que ponto tão sinistro a Humanidade pode chegar”.
Sua ditadura teve o saldo de 30 mil civis sequestrados, torturados e mortos, além de 300 mil exilados.
Além disso, a ditadura roubou 500 bebês, filhos das desaparecidas. Deste total, as Avós da Praça de Mayo conseguiram nas últimas três décadas e meia devolver a identidade a 108 jovens que eram crianças recém-nascidas na época da ditadura.
Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacional”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).
CARREIRA - Descendente de uma tradicional família do interior da Argentina, Jorge Rafael Videla nasceu em 1925 na cidade de Mercedes, província de Buenos Aires. Filho de um coronel do Exército, seguiu a carreira do pai. O jovem Videla formou-se na Academia Militar em 1942 com o grau de subtenente da infantaria. Aluno destacado, foi o sexto colocado de um total de 196 cadetes. Sua ascenção foi constante. Em 1971, designado general de brigada, tornou-se o diretor do Colégio Militar. Em agosto de 1975 a então presidente Isabelita Perón colocou Videla no posto de Comandante em chefe do Exército.
Poucos meses depois, no dia 24 de março de 1976, Videla liderou o golpe de Estado que derrubou Isabelita. O general – que foi presidente de facto da Argentina até março de 1981 – comandou o período de maior repressão da ditadura.
Apesar da violência de seu governo, era considerado a ala “suave” dos líderes militares.
JULGAMENTOS - A ditadura acabou em dezembro de 1983, quando Videla estava na reserva. Com a volta da democracia, começaram as investigações sobre os crimes do ex-ditador. Ele foi condenado à prisão perpétua pela primeira vez em 1985, durante o julgamento das juntas militares – denominado de “Nuremberg argentino”. Mas, em 1990 foi anistiado pelo presidente Carlos Menem.
Em 1998, os organismos de defesa dos direitos humanos driblaram as leis de perdão aos militares e conseguiram a detenção de Videla pelos sequestro de crianças, crime que não havia sido incluído no indulto presidencial.
Em 2007, com a anulação dos indultos, declarados inconstitucionais, Videla tornou-se alvo de uma série de processos na Justiça relativos aos assassinatos ordenados por ele durante a ditadura.
Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.
Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.
MISSA E MORTOS - Videla diferenciou-se dos outros líderes de regimes militares da América Latina pela aplicação de um plano de apropriação sistemática de bebês e o ocultamento de sua identidades. Os bebês, filhos das prisioneiras políticas, nasciam no cativeiro de suas mães, nos centros clandestinos de detenção e tortura da ditadura. Após os partos eram entregues a famílias de militares e policiais estéreis. Na sequência, as mães biológicas eram assassinadas e seus corpos “desapareciam”.
Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar.
Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.
María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, me disse que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”
Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 500 campos de concentração da ditadura”.
APELIDO – Durante a ditadura Videla foi apelidado de “a pantera cor de rosa”, por dois motivos:
a) sua sorte em escapar de vários atentados enquanto era ditador, tal como a pantera do desenho animado.
b) Era magro e tinha o mesmo caminhar cadenciado da pantera cor de rosa.
Caronte e seu ferry boat que faz a travessia do Aqueronte. O barqueiro do Inferno de Dante Alighieri foi brilhantemente retratado por Gustavo Doré no século XIX para ilustrar “A Divina Comédia”.
E aqui, uma cronologia e um fait-divers sobre a ditadura e seu modus operandi:
CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS
1976-1983 – Ditadura Militar
1983 – Volta à democracia
1985 – Início dos julgamentos aos militares
1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’
1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’
1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares
1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80
2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.
MODALIDADES DE TORTURAS DA DITADURA DE VIDELA
- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.
- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.
- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.
- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.
Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.
- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.
- Vários militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis. Esse é o número que o general e ex-ditador Reynaldo Bignone, declarou à TV francesa. Videla, no ano passado, citou mais de 7 mil.
- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.
- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)
- 108 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas
FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.
Fiascos Militares:
- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares.
- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.
- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.
Desastres econômicos:
- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.
- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.
- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%
- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.
- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.
- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.
- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).
- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.
- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.
Paradoxos: A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.
‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.
No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.
A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.
A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.
Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.
Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.
JR Videla e sua troupe em discurso durante a ditadura militar argentina. Seu governo, além de protagonizar um massacre de civis, foi um fracasso econômico e militar.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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A morte do general Jorge Rafael Videla, ocorrida nesta sexta-feira dia 17 de maio, salvou o ex-ditador de ser julgado neste ano por “genocídio cultural”, uma nova figura jurídica que debutaria no julgamento que transcorreria na cidade de Rosário, província de Santa Fe.
Videla, de 87 anos,condenado em 2010 à prisão perpétua por torturas, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar (1976-83), também estava sendo acusado de ser o responsável pelo saque e queima dos 80 mil livros da Biblioteca Popular Constancio Vigil no dia 25 de agosto de 1977 em Rosario.
Grande parte dos livros dessa biblioteca – que valeria hoje US$ 40 milhões – foram queimados por serem considerados “subversivos” pelos militares. Outra parte foi roubada e revendida pelos oficiais. O caso desta biblioteca também foi enquadrada na área de delitos econômicos da ditadura. “O ataque foi pensado e planejado para destruir a obra educativa e cultural, e atrás disso estava também a intenção de negociatas”, afirmou o promotor Gonzalo Stara.
O julgamento estava marcado para meados neste ano, embora não tenha uma data definida, segundo fontes da Assembleia Permamente de Direitos Humanos de Rosario. Outros envolvidos no caso da destruição da biblioteca serão levados ao banco dos réus.
Videla, Jorge Rafael: nesta sexta-feira ele morreu de uma parada cardíaca em sua cela na prisão de Marcos Paz, onde cumpria pena por torturas, sequestros e assassinatos de civis. O curriculum vitae do ex-general também incluía sequestros de bebês. Ele estava a ponto de ser julgado por “genocídio cultural”. Mas, Caronte o salvou dessa.
PIROMANÍACO - O ex-ditador, além de piromaníaco, foi uma espécie de serial killer com cargo presidencial. Protagonista do golpe que em março de 1976 implantou a ditadura militar mais sanguinária da História da América do Sul, seu regime teve um saldo de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 108 recuperaram sua identidade até hoje.
A ditadura protagonizou várias incinerações de livros em diversas cidades do país. O general Luciano Benjamin Menédez – com a autorização de Videla – transformou-se em um dos principais protagonistas das queimas, para as quais organizava solenidades que presidia e que imitavam as queimas de livros feitas pela Inquisição e o nazismo.
“Da mesma forma como destruímos pelo fogo a documentação perniciosa que afeta o intelecto e nossa maneira cristã de ser, serão destruídos os inimigos da alma argentina”, disse Menéndez em abril de 1976.
Em junho de 1980 a ditadura queimou 24 toneladas de livros confiscados do Centro Editor América Latina.
Na lista de autores suspeitos dos militares estavam escritores como Gabriel García Márquez, passando por Julio Cortázar, Sigmund Freud e até Marcel Proust.
O regime proibiu o ensino da teoria matemática dos conjuntos, por considerar que era “subversiva”. A palavra “vetor” também foi proibida nas escolas, já que os militares consideravam que era utilizada na terminologia marxista.
Soldados chilenos queimam livros após o golpe de 11 de setembro de 1973, que instaurou a ditadura do general Augusto Ramón Pinochet.
INTELIGÊNCIA MILITAR - Em setembro de 1980 as autoridades da ditadura de Videla proibiram o uso do livro “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Éxupery, nas escolas, por considerá-lo “subversivo”.
As autoridades também proibiram um livro de engenharia elétrica, o “Cuba electrolítica” (isto é, ‘célula eletrolítica’). Os censores acreditaram que o ‘cuba’ referia-se à ilha caribenha, controlada pelo regime comunista de Fidel Castro.
O general Ramón Camps, o chefe da polícia da província de Buenos Aires, que instalou dezenas de centros de detenção e tortura e era declarado admirador de Adolf Hitler. Camps defendia o sequestro de bebês, filhos das desaparecidas políticas, alegando que a subversão era “genética” e que era necessário combatê-la criando as crianças em “lares cristãos”.
Biblioclasmo ou Livrocídio: Denominações das práticas de destruir – em alguns casos, com cerimônias incluídas – livros e outros tipos de material escrito.
A queima de livros é uma forma clássica de regimes opressivos que pretendem censurar ou silenciar algum aspecto da cultura de uma nação.
Na ilustração acima, a queima de livros protagonizadas pelos nazistas no dia 11 de maio de 1933 na Praça da Ópera em Berlim (foto dos Arquivos Gerais da Alemanha).
Heinrich Heine, poeta alemão, escreveu em 1821: “ali, onde queimam-se livros, depois acabam queimando seres humanos”.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, quando ficou sabendo que os nazistas haviam queimado livros seus, comentou com um misto de ironia e estupefação: “como o mundo avançou…na Idade Média teriam me queimado” (pouco tempo depois da morte de Freud o Terceiro Reich começaria a queimar pessoas nos campos de concentração)
Lista de bibliotecas destruídas ao longo da História mundial: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_destroyed_libraries
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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O Império contra-ataca: soldados imperiais de Star Wars sobem por rolo de papel higiênico, prestes a realizar mais um inesperado ataque. “The force be with you”, teriam dito os jedis.
O governo do presidente Nicolás Maduro anunciou nesta terça-feira que importará 50 milhões de rolos de papel higiênico para uso urgente no mercado interno da Venezuela. Segundo as autoridades chavistas, o objetivo é “saturar” o mercado local com papel higiênico e assim derrotar os agentes do imperialismo. Desta forma, afirma o governo em Caracas, a Revolução Bolivariana acabará com a suposta “campanha midiática” que a oposição e a “oligarquia” estiam fazendo sobre este visceral assunto.
O governo acusa a oposição e os empresários de estocar e provocar o sumiço de diversos produtos – do papel higiênico aos alimentos – para tentar derrubar o presidente Maduro, que tomou posse recentemente.
A administração Maduro deixa claro que não se intimidará, pois o ministro do Poder Popular para o Comércio, Alejandro Fleming afirmou que ”a Revolução trará ao país 50 milhões de rolos de papel higiênico para que nosso povo se tranquilize!”.
Mas, para eliminar dúvidas sobre a capacidade industrial nacional, o ministro Fleming destacou que ”não existe deficiência na produção de papel higiênico”. Isto é: não há problemas com o papel fabricado dentro da pátria venezuelana.
Nunca antes na História da Humanidade o papel higiênico esteve presente nas teorias de conspiração de um governo.
No entanto, Fleming admitiu que a Venezuela está registrando uma demanda adicional de papel higiênico por parte dos cidadãos (se bem que não explicou o motivo para o aumento da demanda).
Segundo Fleming, a Venezuela possui um consumo mensal costumeiro de 125 milhões de rolos de papel higiênico. Mas, explica o ministro, a demanda extra atual para esse insumo imprescindível para a limpeza dos esfíncteres é de 40 milhões de rolos.
Fleming – para dar uma demonstração de força – sustentou que o governo chavista levará mais rolos para os venezuelanos. E explicou o motivo: “vamos trazer 50 milhões de rolos para demonstrar a esses grupos que não conseguirão nos derrotar!!”.
O cenário de escassez papiro-higienística gerou piadas a granel na Venezuela. Uma delas indica que o governo fará uma distribuição equitativa dos rolos, a 1,78 rolo por pessoa (50 milhões de rolos divididos entre 28 milhões de habitantes). Outras piadas indicam que o presidente Maduro, com intenso approach à realização de redes nacionais de TV (foram 26 redes nos últimos 21 dias) fará um anúncio especial em todos os canais para celebrar a chegada do primeiro carregamento de rolos de papel higiênico.
Yan Zhitui, a quem devemos o primeiro comentário registrado sobre o uso do papel higiênico. Ou, pelo menos, do uso que ele não faria.
CHINESES E RABELAIS
O primeiro registro histórico sobre o uso do papel higiênico é da China Medieval, século 6, citado pelo filósofo Yan Zhitui, que também era funcionário público. “Papéis nos quais existem citações ou comentários dos cinco clássicos, ou que contenham nomes de sábios, não ouso utilizar no vaso sanitário”, disse o acadêmico em seus escritos.
Na Europa, uma menção famosa é do século 15, por François Rabelais, em sua novela “Gargântua e Pantagruel” (o personagem Gargantua menospreza na obra o uso do papel para fins higiênicos).
O produto começou a ser industrializado em sua forma moderna a partir de 1857 nos Estados Unidos,
Falando em papel higiênico, não podemos esquecer do inventor do vaso sanitário, o inglês Sir John Harrington, que em 1590 descreveu sua idéia no livro “Metamorfose de Ájax”, obra na qual fala sobre o vaso sanitário, embora com algumas alusões escatológicas e anatômicas que irritaram a rainha Elisabeth I, madrinha de Harrington, que ficou furiosa com a repercussão e suspendeu a construção do aparelhos dentro das residências.
Mas, a rainha manteve um retrete para ela própria e permitu que seu sobrinho tivesse um também.
Sir John está saindo gradualmente do esquecimento histórico. Ele até ficou “pop”, pois apareceu como fantasma em um episódio de South Park.
Sir John, criador do vaso sanitário moderno, um incompreendido em sua época. Acima, o inventor e poeta aparece como fantasma em um epispódio da escatolíógica série “South Park”.
ORIENTAÇÃO DO ROLO DE PAPEL HIGIÊNICO: PORCIMISTAS VERSUS PORBAIXISTAS
Posição “por cima”, à esquerda. Posição “por baixo”, à direita. Um debate interminável.
Os rolos de papel higiênico possuem posições. Na Venezuela, a pesar da escassez desse produtos, por enquanto não surgiram discussões ideológicas (por enquanto, pelo menos) sobre qual deveria ser a forma na qual os rolos são colocados nos suportes nos banheiros.
Mas, just in case – mais além da Venezuela – explicaremos aqui os pontos básicos da orientação do papel higiênico e as discussões que surgem em vários pontos do planeta sobre esta questão:
A ponta do rolo de papel pode ficar …
a) pendurada por cima
b) pendurada por trás
Esta escolha é o resultado de uma decisão pessoal de cada usuário (ou de quem arruma o banheiro).
Pesquisas feitas nos EUA indicam que existe uma tendência à uma maioria (que dependendo dos relatórios vai de 55% a 70%) de pessoas que optam por colocar a ponta do rolo do papel “por cima”.
O debate envolveu economistas nas últimas décadas, que argumentam, com teorias e estatísticas próprias, que “por cima” ou “por baixo” implicam em maior gasto de papel higiênico (o argumento é que na hora de puxar – e partir/cortar – o papel, em uma posição determinada, gasta-se mais do que deveria).
No debate também entraram engenheiros, arquitetos e decoradores. A seguir, um breve resumo das discussões sobre as posições papiro-higienísticas:
A favor de “por cima”
- Reduz o risco de tocar a parede com os dedos. Isto é, reduz o contato com germes e outras coisa. Urgh.
- É uma posição mais fácil para localizar a ponta, e assim, puxar o papel (na posição contrária, segundo um estudo de 2011 nos EUA, uma pessoa perde em média meia hora por ano procurando a ponta).
- Nos hotéis é a posição mais fácil para dobrar a ponta e mostrar que o quarto foi arrumado.
A favor de “por baixo”
- Dá uma sensação de limpeza, pois não se vê a ponta
- Torna mais difícil que um bebê ou o cachorrinho encontre a ponta e puxe dali…algo como tornar o papel uma espécie de “red carpet”, sem ser red, nem carpet, nem noite do Oscar ou equivalente. E sem Anne Hattaway passando por ali.
- No caso de terremoto, tornaria mais difícil as chances de desenrolar (desconheço os argumentos sobre o assunto que envolve o movimento de placas tectônicas)
E, evidentemente, estão os “indiferentes”, também chamados “neutros”, que indicam que não possuem posições ideológicas sobre o caso, e que não estão contra nem a favor de uma tendência ou outra.
O debate é longo e promete durar séculos. Os especialistas indicam que, no caso do compartilhamento de um banheiro por duas pessoas que tenham divergentes opiniões sobre a posição da ponta do rolo, uma alternativa pacifista é a de colocar dois suportes de rolo, um ao lado do outro. Desta forma, aplica-se a solução da presença simultânea de dois rolos com pontas em posições diferentes.
Além disso, os especialistas indicam que existem pessoas que, ao visitar a casa de outros, ao entrar nos banheiros dos anfitriões, trocam a posição do rolo.
LATERALISTAS - Também existe uma alternativa para esquivar este debate que confronta os “porcimistas” os “porbaixistas”: o suporte vertical para o papel higiênico, tal como na ilustração abaixo.
Lateralismo, uma eventual alternativa para os confrontos?
Desta forma, não existe como puxar por cima ou por baixo, fato que elimina o debate que gera o confronto. A puxada papiro-higienística, com esta alternativa vertical, passa a ser “lateral”.
Assim, em vez de um mundo dividido em “porcimistas” e “porbaixistas”, todos poderiam ser “lateralistas”.
No entanto, este suporte vertical gera outra discussão: a posição do papel deve ser no sentido horário ou anti-horário?
Além destes, surgem outros debates no âmbito banheirístico, entre os quais o clássico
- A tampa do vaso sanitário deve estar aberta sempre? Ou fechada?
O Feng Shui, recordo, indica que a tampa deve estar para baixo.
Algumas contribuições adicionais sobre o uso dos banheiros:
- Dinâmicas do papel higiênico (uma análise cinética): http://www.mfractal.esimez.ipn.mx/integr…
- Bathroom politics: Introducing studentes to sociological thinking from the bottom up: http://www.jstor.org/discover/10.2307/32…
E para encerrar, o grupo cômico-musical argentino “Les Luthiers” canta ” Louvor ao banheiro”:






PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Governo Kirchner mantém uma sessão de pugilato com jornais não alinhados há meia década. O rival neste ringue – que está mais pra telecatch – é o Clarín. Acima, o violoncelista Paul Casals lê em 1966 notícias sobre boxe durante o café da manhã em Puerto Rico, onde estava fazendo um tour.
O governo da presidente Cristina Kirchner implementou em fevereiro um congelamento de preços de produtos que foi acompanhado por uma proibição às redes de supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios com ofertas nos jornais e canais de televisão da cidade de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires. No entanto, desde ontem (domingo), a proibição não está sendo mais aplicada para os meios de comunicação.
Ou, quase todos os meios de comunicação. Ficam de fora desta suspensão da proibição os jornais “Clarín”, “La Nación” e “Perfil”. Coincidentemente, estes três periódicos possuem tons críticos com a administração Kirchner. Um deles, o “Clarín”, é considerado “inimigo mortal” pela presidente Cristina.
Os outros meios de comunicação, a grande maioria aliados do governo Kirchner, são ironicamente denominados de “amigopólio” pela oposição, já que constituem em conjunto um grande grupo de mídia, que possui a maioria dos canais e estações de rádio da Argentina. Estes meios foram favorecidos neste fim de semana com a suspensão sobre a proibição de publicidade.
A proibição sobre a publicidade, imposta em fevereiro, não foi escrita, já que o autor da medida, o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno (o braço-direito da presidente Cristina na área de medidas sobre a inflação) costuma telefonar pessoalmente aos grandes empresários para avisá-los sobre suas novas medidas, por intermédio de ordens verbais.
O argumento de Moreno era que “se os preços estão congelados, não faz falta publicidade para vender mais”. Mas os líderes da oposição contra-argumentaram, afirmando na época que o governo estava implementando uma forma adicional para “estrangular” a mídia não-alinhada com a administração Kirchner.
Desta forma, nos últimos três meses e meio os consumidores portenhos e da Grande Buenos Aires não tiveram acesso às informações sobre os preços dos produtos. Além disso, as empresas jornalísticas ficaram sem uma de suas principais fontes de renda, os anúncios das grandes redes de supermercados.
O Grupo Clarín, com esta medida, perdeu em média mensalmente US$ 5 milhões em faturamento.
Enquanto que em janeiro deste ano (antes do congelamento de preços, aplicado desde o dia 1 de fevereiro) o “Clarín” contou com 264 de páginas com publicidade de supermercados e lojas de eletrodomésticos, em fevereiro o volume havia despencado para 61 páginas.
Estimativas divulgadas pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) indicaram que a proibição sobre a publicação de publicidade de supermercados provocou uma queda de quase 20% nas receitas dos jornais portenhos.
“Isto, em pouco tempo, poderia comprometer a viabilidade destes meios de comunicação”, me disse em abril uma alta fonte de um dos principais matutinos portenhos. “Nos próximos meses, o prejuízo poderia ser equivalente a US$ 80 milhões”, explicou a fonte.
O “Clarín” – o jornal de maior tiragem da Argentina – também foi excluído há pouco tempo da publicidade da maior empresa petrolífera do país, a YPF, expropriada pelo governo Kirchner há quase um ano.
Os analistas destacam que a proibição para os supermercados e lojas de eletrodomésticos de colocar publicidade nos jornais críticos com o governo é uma espécie de mecanismo de censura indireta, já que desfinancia as empresas de mídia, fato que, por tabela, poderia afetar a liberdade de expressão.
Enquanto os meios de comunicação críticos do governo sofrem pressões, diversos empresários aliados da administração Kirchner começaram a comprar canais de TV, jornais e rádios. Representantes da oposição afirmam que o governo está fortalecendo sua própria estrutura de comunicação com os empresários aliados e o sistema estatal de imprensa, que inclui a TV Pública e a Telam (a maior agência de notícias do país e a Rádio Nacional). Com ironia, denominam o conjunto destes grupos amigáveis de “o amigopólio”. Acima, a presidente Cristina em um discurso em rede nacional de TV no ano passado.
CONGELAMENTO - O governo Kirchner – que paradoxalmente nega a escalada inflacionária alertada por economistas independentes e sindicatos – aplica um polêmico congelamento de preços desde o dia 1 de fevereiro a supermercados e lojas de eletrodomésticos. O congelamento seria inicialmente aplicado até o dia 1 de abril.
Mas, em março o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno, decidiu ampliar o congelamento até o dia 1 de junho. Informações extra-oficiais sustentam que Moreno poderia eventualmente anunciar em breve uma nova ampliação do mecanismo de freezer, estendendo o prazo até outubro, coincidindo com as eleições parlamentares desse mês.
Segundo os analistas econômicos, o governo tenta chegar até as eleições sem altas inflacionárias que compliquem a popularidade da presidente Cristina Kirchner, em baixa gradual ao longo do último ano.
No ano passado a inflação oficial foi de 10,8%, embora os economistas indiquem que esse índice foi “maquiado” e que a alta real foi superior a 25%.
Desde abril o governo da presidente Cristina Kirchner aplica o congelamento de preços de combustíveis em todo o país. A princípio, este congelamento ordenado por Moreno terá vigência por seis meses.
Perón, pouco antes de voltar para Buenos Aires, em 1973. Na década e meia anterior havia residido em Madri, onde contou com o recebimento do ditador espanhol, Francisco Franco, generalíssimo da Espanha e “caudillo por la gracia de Dios” (a quem Perón havia apoiado intensamente quando era presidente da Argentina entre 1946 e 1955). Um ano depois Perón morreria em Buenos Aires. Uma semana antes de falecer assinou a Lei do Abastecimento.
ABASTECIMENTO - O governo conta com a “Lei do Abastecimento” para o caso das empresas que não acatem o congelamento. Essa lei foi criada em junho de 1974 pelo então presidente Juan Domingo Perón, que morreu uma semana depois de assinar o decreto.
A norma foi anulada parcialmente pelo presidente Carlos Menem nos anos 90 e foi ressuscitada em 2006 pelo presidente Kirchner. A lei – que até agora não foi aplicada em sua totalidade – prevê penas de prisão de até quatro anos.
A Lei do Abastecimento pode ser aplicada para os bens de primeira necessidade, entre eles, alimentos, medicamentos, além dos próprios combustíveis. Ela permite que o governo confisque mercadorias, coloque executivos na prisão e feche empresas em caso de problemas no abastecimento.
A lei também permite que o governo possa fixar preços e congelá-los. Além disso, concede à Casa Rosada os poderes para obrigar empresas a continuar produzindo uma mercadoria e comercializá-la.
“O AMIGOPÓLIO” - O governo Kirchner costumeiramente afirma que enfrenta um “monopólio midiático”, em alusão ao Grupo Clarín, dono de vários jornais, estações de rádio e canais de TV. Mas, a oposição retruca e sustenta que nos últimos anos o casal Kirchner armou seu próprio “monopólio” de meios de comunicação aliados.
Além do Grupo Szpolski, os Kirchners contam com o respaldo midiático (em maior ou menor intensidade) do jornal “Página 12”, do canal “C5N”, do “Canal 9”, e do canal “Telefé” (o de maior audiência do país).
No caso da Telefé, pertencente à Telefônica da Espanha, contava como colunista com o senador Aníbal Fernández, braço-direito de Cristina na Câmara Alta.
Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner.
Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibida pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são “argentinos”.
Além disso, o governo Kirchner possui uma grande rede estatal nacional de TV e rádio (a TV Pública e a Rádio Nacional, entre outras).
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Gardel olha sua idolatrada “viejita querida”, dona Berthe Gardés, que morreu anos depois de seu filho.
As letras dos tangos podem ser divididas em vários tópicos: paixões arrebatadoras e traições, a saudade de Buenos Aires, a nostalgia dos amigos, entre outros assuntos.
Um dos tópicos hit parades são as mulheres. E nesta categoria, uma as mães possuem presença sine qua non. Além disso, as mães são as únicas mulheres 100% reverenciadas nos tangos, sem exceção.
A mãe, nessas letras, é chamada de “mamá” (mamãe) ou “vieja” (velha, no sentido carinhoso). Ou ainda, “viejita” (velhinha, mais carinhoso ainda).
A mãe é o porto seguro dos protagonistas dos tangos nos momentos de angústia. Ou, quando o protagonista, arrependido de sua vida, busca o perdão. “Só uma mãe nos perdoa nesta vida, é a única verdade, é mentira todo o resto”, diz a letra de “La casita de mis viejos” (A casinha de meus pais).
Dona Berthe olha as fotos de seu filho, Carlos.
Neste caso, também existe uma subdivisão temática, a da casa materna, abundante nos tangos.
Carlos Gardel sempre falava sobre sua mãe, Berthe, e levava um retrato seu para todos os lados.
Em meados dos anos 60 um jornalista perguntou ao tangueiro Aníbal Troilo qual era o motivo da existência de tantas mães nos tangos. Troilo respondeu perplexo: “E onde você queria que elas estivessem???”.
Acima, Edmundo Rivero (o criador de “El Viejo Almacén”) canta o tango “Bonjour mamá”, do uruguaio Alberto Mastra. Esta canção também foi imortalizada pelo cantor Sandro, falecido há poucos anos.
MAMÁ BORGES – O escritor Jorge Luis Borges literalmente morou na casa da mãe Leonor Acevedo de Borges até ela morrer, com 99 anos, em 1970. Borges, que na época tinha 71 anos, viveu apenas 16 anos a mais, morando “independente” no mesmo apartamento materno no edifício da rua Maipú, esquina com a rua Marcelo T.de Alvear, no bairro de Retiro.
Durante décadas, até morrer, sua mãe lia todos seus contos e fazia observações e correções. Leonor Acevedo foi a grande incentivadora da carreira do filho, e, quando ele estava cego, encarregava-se de anotar os contos e poemas que Borges lhe ditava.
Mãe e filho eram muito irônicos, inclusive, sobre a morte. Ela morreu com 99 anos. No velório, uma amiga da mãe se aproximou e comentou com o escritor: “que pena, pensar que dona Leonor morreu poucos meses antes de completar 100 anos! Se ela tivesse esperado um pouco…”. Borges respondeu: “pois é, minha mãe não era devota do sistema decimal…”
Dona Leonor e seu filho Jorge
MAMÁ PALACIOS - Na semana passada, quando minha mãe, Marta, morreu inesperadamente de um ataque cardíaco, uma colega – levada por aquela clássica morbidez funérea – me telefonou para dizer “puxa, não queria incomodar, mas sua mãe morreu repentinamente, sem avisar, sem sinais prévios? Como foi??”.
Nas horas anteriores eu já havia explicado, por mail, tudo o que havia ocorrido (do ponto de vista da causa mortis), e que – pela tristeza extrema que me assolava (e ainda não acredito que ela tenha falecido) – não tinha vontade de falar sobre o assunto com ninguém, por alguns dias. Mas, esta explicação não foi suficiente.
Então, quando esta colega me perguntou sobre o assunto, respondi (inspirado de certa forma no bom e velho Borges): “pois é, minha mãe era boa em improvisos…”
Minha mãe, que apreciava as ironias, teria se divertido, e muito…
E aqui, Beniamino Gigli cantando “Mamma, son tanto felice”, um hit dos anos 1920, que fazia os imigrantes italianos chorar de saudade na América do Sul.
O dia das mães na Argentina não é hoje, ao contrário do Brasil, EUA e outros países no planeta. O dia das mães na Argentina é no terceiro domingo de outubro. Esta data celebra-se no país desde a primeira metade do século XX. Mas, os historiadores não possuem registro dos motivos da escolha desse dia na Argentina.
Às mães, feliz dia!
Aos filhos, aproveitem cada dia de convívio com suas mães!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Argentinos guardam no ‘colchão’ US$ 170 bilhões. Só no ano passado colocaram neste refúgio um total de US$ 12 bilhões. Os colchões – este magnífico invento do Neolítico que foi brilhantemente aperfeiçoado pelos árabes antes das cruzadas – são o símbolo do dinheiro em lugar seguro. Eles foram um dos diversos esconderijos que os argentinos utilizaram ao longo das últimas décadas para resguardar suas economias.
O refúgio financeiro preferido dos desconfiados habitantes deste país, os colchões, estão cada vez mais cheios de dólares que saem do sistema financeiro nacional. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), em média, mensalmente em 2012, US$ 1 bilhão partiu em êxodo do sistema para formar parte daquilo que os economistas na city financeira portenha chamam de “riqueza oculta” da Argentina. No total, atualmente, os argentinos contariam com US$ 170,7 bilhões nos mais variados refúgios.
Mais além do simbólico colchão – cada vez mais king size – os argentinos, para esconder seus dólares recorrem livros nas estantes, potes velhos de conservas e buracos embaixo do assoalho, entre outros. Além destas alternativas improvisadas, guardam suas economias em lugares ortodoxos como caixas de segurança dentro de território nacional e contas bancárias no exterior.
O volume de dinheiro nos colchões e outros refúgios equivale a 40% do PIB da Argentina. Além disso, é quatro vezes maior que as reservas atuais do Banco Central, que na semana passada estavam em US$ 39 bilhões.
O ato de colocar o dinheiro nos colchões – e fora do país – é um clássico argentino há tempos. Mas, essa tendência acentuou-se desde a crise econômica, política e social de 2001. Logo antes da explosão da crise em dezembro daquele ano, os argentinos tinham um total de US$ 81,87 bilhões fora do sistema. Desde a crise o dinheiro fora do sistema aumentou em mais de 100%.
Neste colchão repousa Hermafrodita, a famosa figura da mitologia grega.A pintura é de Louis Gabriel Blanchet (1705-1772).
Por trás deste fenômeno estão quatro décadas de desconfiança nos governos de plantão (que volta e meia realizavam confiscos) e dos bancos instalados no país (que com frequência fechavam suas portas, deixando os correntistas sem suas economias). Segundo estimativas da city financeira portenha, o grau de bancarização dos argentinos é um dos mais baixos do ocidente: em 2010 53% das famílias do país não operam com banco algum.
Na última meia década o dinheiro nos “colchões” deu grandes saltos, acompanhando os momentos de crises e incertezas políticas. Esse foi o caso do ano 2008, quando o governo Kirchner manteve um duro confronto com os ruralistas. Nesse ano, o dinheiro fora do sistema aumentou em 23 bilhões. Em 2009, quando a presidente Cristina desatou uma guerra contra a mídia não-alinhada, gerando mais incertezas sobre a segurança jurídica, o volume aumentou em 14 bilhões.
Os analistas afirmam que o volume em 2012 poderia ter sido substancialmente maior ao registrado. Mas, o “corralito verde” (denominação das medidas de restrição para a compra de dólares) provocou uma desaceleração do fenômeno.
Metade do dinheiro fora do sistema estaria nos esconderijos domésticos, afirmam os analistas. A outra metade estaria em contas bancárias no exterior na Suíça, paraísos fiscais do Caribe e no Uruguai.
No colchão acima, São Martim de Tours (316-397) dormindo profundamente (embaixo do colchão, umas misteriosas grandes caixas). A obra, que está na capela de São Martim,na igreja de São Francisco, em Assis, Itália, é “O sonho de São Martim”, pintada entre 1312 e 1317 por Simone Martini (1284-1344), um dos grandes pintores do ‘trecento’ italiano (e o mais famoso no domínio da cor). São Martim de Tours, coincidentemente, é o patrono da cidade de Buenos Aires (e como ele se transformou no patrono portenho,bom… essa é uma história divertida que vale a pena contar em outra postagem, mais especificamente, no dia 11 de novembro, que é o dia deste santo).
FERRY BOAT E BANCOS - Uma das alternativas dos argentinos é o de colocar o dinheiro em bancos no Uruguai (país que também foi o tradicional ponto de refúgio de exilados políticos ao longo de quase dois séculos, que ali buscavam a segurança que não obtinham em seu país).
Para fazer isso, as pessoas que moram em Buenos Aires ou sua área metropolitana só precisam pegar um avião e estão em meia hora em Montevidéu. Ou, tomar o ferry-boat no porto de Buenos Aires e desembarcar uma hora depois na cidade uruguaia de Colônia, onde os bancos estão especialmente abertos nos sábados, para atender os argentinos.
Ali, desde milionários, passando por profissionais liberais, comerciantes, autônomos até aposentados colocam suas economias a resguardo. Isto é, desde volume milionários até contas com depósitos de US$ 3 mil.
Sketch do grupo Monty Python em seu programa de TV, o ”Monty Python’s Flying Circus”, no qual um casal tenta comprar um colchão.
ROMANOS, ÁRABES E O MARIO PUZO - Em diversas partes do planeta também usa-se a figura do colchão como uma quantia de dinheiro que serve de resguardo para imprevistos ou como base para um investimento.
A palavra em português e em espanhol vem do latim “culcita”, que significa colcha ou lugar para deitar. Dali vem o verbo francês “coucher” (deitar ou ter sexo).
Em outros idiomas, como o inglês (mattress), o francês (matelas), o alemão (matratze), o italiano (materasso) e o russo (Матрас) a origem da palavra provém do árabe máʈraħ (مطرح ), que significa lugar onde se joga alguma coisa (que deriva do verbo طرح (pronuncia-se ṭaraḥa, isto é, “jogar”).
No romance “O Poderoso Chefão” (The Godfather, de 1969) o escritor Mario Puzo cita a expressão mafiosa “to go to the mattresses” (ir aos colchões), como equivalente a ir para a guerra, usar táticas rudes, agira sem limites.
- I want Sollozzo. If not, it’s all-out war. We’ll go to the mattresses.
(Quero o Sollozzo. Se não for assim, será guerra total. Nós iremos aos colchões)
Va bene…mas quantos ministros mesmo, caro?
40 ANOS, 33 MINISTROS DA ECONOMIA, 33 PRESIDENTES DO BC E 19 PRESIDENTES DA REPÚBLICA
No dia 4 de junho de 1975, o então ministro da Economia, Celestino Rodrigo, anunciou um pacote de medidas que causou o primeiro grande colapso econômico e financeiro que o país sofria desde a crise mundial de 1929. O pacote – “El Rodrigazo” – implicou em uma desvalorização de 160% da moeda, aumentos de 100% das tarifas de serviços públicos, entre outras controvertidas medidas.
Em seis meses, a inflação escalou 183%, enquanto protestos sociais, sindicais e políticos alastravam-se. A presidente Isabelita Perón perdeu respaldo e foi derrubada por um golpe militar oito meses depois.
Coincidentemente, de 1975 para cá o país teve uma grave crise econômica a cada sete anos.
Nos últimos 40 anos a instabilidade política e econômica da Argentina gerou uma troca constante dos nomes do comando da política econômica que intensificou a desconfiança dos argentinos e os levou a colocar suas economias fora do alcance dos governos e dos bancos. Nestas quatro décadas a Argentina teve 33 ministros da economia. Coincidentemente, o país também teve 33 presidentes do Banco Central.
O número de presidentes da República foi menor, em um total de dezenove, entre militares, civis eleitos nas urnas, além de civis provisórios colocados pelo Parlamento. Mas, marcados pela constante da instabilidade, somente três completaram seus mandatos.
Os analistas indicam que o motivo para o substancial volume de dinheiro nos colchões não indica uma tentativa de driblar o fisco, mas sim, o temor pela instabilidade econômica do país.
Nestas quatro décadas a Argentina passou por seis graves crises econômicas que incluíram períodos recessivos, confiscos bancários, mega-desvalorizações da moeda e calote dos títulos públicos. Os diversos governos de plantão alternaram fases de políticas estatizantes, privatizações e restatizações.
Pinguins (os de Madagascar) e um reboliço com colchões e travesseiros. “La Pinguina”, Cristina Kirchner, desatou uma intensa cruzada anti-dólar após sua reeleição em 2011. As medidas, ironicamente chamadas de “corralito verde” pelos portenhos, praticamente impediram que os argentinos comprem dólares para poupar. Paradoxalmente, a própria presidente Cristina em bancos tinha aplicações financeiras na moeda de “El Imperio”, a.k.a. Estados Unidos. O escândalo foi de tal magnitude que La Pinguina teve que anunciar que “pesificaria” essas aplicações.
EXPRESSÕES PARA A FUGA DE DÓLARES
“Cruzar o charco”: Expressão para indicar que a pessoa atravessará o “charco”, denominação irônica do rio da Prata, rumo ao Uruguai (onde milhares de argentinos possuem contas bancárias, longe da fiscalização do Estado argentino e de eventuais confiscos ou restrições).
“Quem aposta no dólar perde”: Frase de Lorenzo Sigaut, ministro da economia da Argentina em 1981. No entanto, em menos de uma semana a cotação do dólar aumentou em 35%, contrariando as previsões do ministro.
“Quem depositou dólares receberá dólares”: Frase do presidente provisório Eduardo Duhalde em plena crise em janeiro de 2002. Dias depois percebeu que isso seria impossível e implantou o “corralón” (confisco das contas em dólares). Os dólares foram “pesificados” compulsoriamente a 1,40 pesos. Três meses depois o câmbio real chegava a 4,00 pesos.
“Corralito verde”: Denominação irônica das medidas aplicadas pelo governo Kirchner para restringir as operações de compra e venda de dólares.
Colchões: Em meio às turbulências das políticas econômicas dos governos de plantão nem sempre é possível dormir placidamente como neste quadro do batutésimo Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). É o “Dans le lit” (Na cama), de 1893. Exposto no Musée D’Orsay, Paris
E aqui, o vídeo sobre colchões & dólares na TV Estadão:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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José ‘Pepe’ Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro e atual presidente do Uruguai causou polêmica com mais uma de suas peculiares frases. Desta vez o foco eram assuntos etários da presidente Cristina e a órbita ocular esquerda do fenecido N.Kirchner.
“Esta velha é pior que o caolho”. A insólita frase foi disparada na quinta-feira pelo presidente do Uruguai, José Mujica, em alusão à presidente argentina Cristina Kirchner e seu marido, morto em 2010, o ex-presidente Néstor Kirchner, que tinha o estrabismo (e não era propriamente “caolho”) como uma de suas mais famosas marcas físicas. Mujica, conhecido por seus comentários sinceros – geralmente fora de protocolo – fez estas declarações durante uma reunião com o prefeito da cidade uruguaia de Florida e outros políticos. Mas, não percebeu que os microfones estavam ligados e que a imprensa reunida no lugar ouviu suas observações sobre a dificuldade nas relações do Uruguai com a Argentina.
“O caolho era mais político…esta velha é mais teimosa”, acrescentou Mujica em relação ao casal Kirchner. O presidente uruguaio também indicou que sempre que precisa resolver algo com a Argentina precisa pedir ajuda ao Brasil.
“Não vou dar bola nem percorrer o mundo esclarescendo coisa alguma”, disse Mujica aos jornalistas minutos depois, quando soube que sua frase havia sido ouvida.
No entanto, nas primeiras horas, em vez de sofrer críticas, Mujica tornou-se um virtual herói nas redes sociais, onde sua frase era celebrada no Facebook. No Twitter, virou hashtag, o “#EstaViejaEsPeorQueElTuerto” (#EstaVelhaEPiorQueOCaolho) por parte de tuiteiros uruguaios e argentinos.
Ao longo dos últimos anos o Uruguai sofreu uma saraivada de medidas protecionistas comerciais por parte do governo da presidente Cristina Kirchner. O antecessor de Mujica, Tabaré Vázquez (2005-2010), enfrentou um virtual bloqueio na fronteira argentina por parte de manifestantes estimulados pelo governo Kirchner que protestavam contra uma hipotética poluição de uma fábrica de celulose instalado no rio Uruguai, que divide os dois países.
Em 2002, com a pequena economia uruguaia afetada pelo colapso financeiro argentino, o presidente Jorge Batlle causou grande polêmica ao declarar que “os argentinos, do primeiro ao último, são ladrões”. Batlle teve que viajar à Buenos Aires, convocado pelo então presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), para pedir desculpas. No entanto, Batlle conseguiu esquivar o pedido de desculpas, chorando em público enquanto rememorava os tempos nos quais havia residido na capital argentina.
CHIMARRÃO - Há poucas semanas a primeira-dama do Uruguai, a senadora Lucia Toplansky – famosa por não ter papas na língua, tal como seu marido – declarou que a relação com a Argentina “era muito complicada” e criticou as barreiras que o governo Kirchner coloca à integração regional.
Lucia e Mujica foram guerrilheiros tupamaros nos anos 70. O atual presidente foi brutalmente torturado durante treze anos pelo regime militar.
Mujica também ironizou a recente viagem de Cristina Kirchner à Roma, onde reuniu-se com o cardeal Jorge Bergoglio, entronizado como papa Francisco, a quem entregou de presente uma cuia de chimarrão com uma bomba. Na ocasião, Cristina explicou detalhes sobre como beber chimarrão a Bergoglio, que sempre tomou esta infusão clássica dos Pampas. “Para um papa argentino, com 77 anos de idade, ela (Cristina Kirchner), vai explicar o que é uma cuia e uma garrafa térmica?”, disse Mujica, estupefato.
No mesmo dia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao visitar o Uruguai, sem saber sobre as declarações do presidente uruguaio, defendeu a integração do Mercosul e declarou que “nunca viu ninguém como Mujica”.
No fim da turbulenta jornada, em Buenos Aires, o chanceler Héctor Timermam convocou o embaixador uruguaio para passar uma carraspana e ressaltar seu desgosto sobre os comentários etários sobre Cristina e a órbita ocular do fenecido Kirchner.
Em um comunicado, o Palácio San Martín sustentou que os comentários eram “inaceitáveis e denigrentes”. Além disso, destacou que a presidente Cristina não realizaria comentários sobre o assunto.
A gafe que virou “cumbia”: a frase de Mujica sobre Cristina e Nestor Kirchner inspirou um compositor uruguaio:
PERFIS - Os analistas destacam que os dois presidentes platinos, embora conjunturais aliados no Mercosul, possuem perfis de vida extremamente diferentes.
Mujica esteve preso durante 13 anos, entre 1972 e 1985 em diversos cárceres da ditadura uruguaia, onde foi brutalmente torturado. No mesmo período a presidente Cristina Kirchner enriqueceu como advogada na Patagônia executando hipotecas de pessoas falidas pela política econômica do regime militar argentino. Enquanto que Cristina tem apreço pelas griffes de luxo (e é a segunda presidente mais rica da América do Sul, segundo dados da declaração oficial de bens), Mujica mora em um casebre em sua espartana chácara. Há poucos anos trocou sua lambreta por um Volkswagen modelo 1982.
FRASES DE MUJICA (desde sua posse presidencial)
“Ser livre é gastar a maior quantidade de tempo de nossa vida naquilo que a gente gosta de fazer”.
“Se eu tivesse muitas coisas, teria que me ocupar com elas. A verdadeira liberdade está em consumir pouco”.
“O poder não muda as pessoas…só revela quem elas são verdadeiramente”.
“Não se intimidem, companheiros..gostem muito uns dos outros. Mas, nem tanto a ponto de perdoar as cagadas…”
“Talvez esteja errado, pois eu erro muito…mas eu o digo do jeito que o pensei”.
“Pelo caminho mais longo a viagem é mais curta”.
“Não encha a paciência, meu! Qualquer problema passa lá em casa e a gente bebe uns vinhos”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Low profile e direto, novo papa – que até ser o novo pontífice pegava metrô em Buenos Aires – é portenho do bairro de Flores, leitor de Dostoyevski, fã de Jorge Luis Borges e torcedor do time San Lorenzo de Almagro
“Low profile”, “calado”, “sóbrio” e “frugal” são alguns dos adjetivos usados por seus mais fiéis colaboradores. Seus inimigos, no entanto, preferem defini-lo como “calculista”, “frio”, “traiçoeiro” e “autoritário”. Mas, para a maioria dos argentinos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio era simplesmente um mistério. No entanto, em 2005 ele saiu de seu semi-anonimato para virar um dos homens mais comentados do país, já que o arcebispo portenho passou a ser um dos papáveis da América Latina. Mas, na ocasião Bergoglio ficou em segundo lugar, com 40 votos, sendo superado por Joseph Ratzinger, que foi entronizado Bento XVI.
Nos últimos anos, antes de deixar de ser primaz da Argentina, Bergoglio sofreu um duro revés político quando o Parlamento argentino aprovou um projeto de lei do Partido Socialista (mas respaldado pelo governo da peronista Cristina Kirchner) de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bergoglio, na véspera da votação, deixou de lado seu estilo sóbrio e, perdendo as estribeiras de uma forma ostensiva (o conservador jornal “La Nación” até criticou o ato do cardeal) desferiu um furioso sermão contra o projeto, que foi aprovado com ampla maioria. Muitos integrantes do clero acharam que esta derrota implicaria na perda de pontos como “papável” em um seguinte conclave.
Ontem (quarta-feira), ao tornar-se Francisco I, Bergoglio, além de se tornar o primeiro latino-americano (e habitante de todas as Américas) a ocupar o trono de São Pedro, também quebrou a restrição – implícita – de que um jesuíta seja transformado em papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a outrora poderosa Companhia de Jesus jamais conseguiu que um representante chegasse a líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento.
Homem afável, mas de poucas – embora certeiras – palavras, o ex-primaz da Argentina sempre fez questão de manter um profundo silêncio sobre sua vida.
Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoyevski, seu escritor preferido. “É um jesuíta até a medula. Ele fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve”, me disse em 2005 um ex-embaixador argentino em Roma, que completa dizendo que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo. Com ironia, explica: “Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso”.
Fiódor Dostoyevski, escritor russo, é o autor preferido do novo papa.
Filho de imigrantes italianos (seu pai era ferroviário e sua mãe, dona de casa), Bergoglio nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 no bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires.
Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma grave operação para a retirada de um de seus pulmões.
Após se formar como técnico químico e encerrar o namoro com uma vizinha, Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por sua obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar.
Ordenado sacerdote aos 33 anos, aos 36 já era o comandante dos jesuítas na Argentina. Nos anos que se seguiram – as décadas de 1970 e 1980 –, paira uma nebulosa sobre a vida de Bergoglio. O jornalista investigativo argentino Horacio Verbitsky, do jornal ”Página 12″, sustenta que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando os jovens sacerdotes, que foram seqüestrados pelos militares.
Nos anos 80, Bergoglio migrou ao setor mais conservador da Companhia de Jesus e passou por um obscuro ostracismo na Alemanha. Ao voltar à Argentina, foi posto em cargos de baixa importância. Esse período só terminou quando, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. “É um jesuíta sereno e preciso. Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum”, comentou.
O salto internacional de Bergoglio ocorreu em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma. Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem e, até poucos anos atrás, só se deslocava pela cidade em metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia “para estar perto do povo”. Os críticos sustentam que era “puro populismo”.
Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com freqüência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como “o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente”. No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques contra o neoliberalismo.
Esta é a segunda vez que a Argentina conta com um papável. O anterior foi o arcebispo de Mar del Plata, cardeal Eduardo Pironio, morto em 1996, que nos dois conclaves de 1978 despontava como o principal papável sul-americano.
METRÔ – No ano 2001 participei de um café da manhã com o então cardeal Bergoglio na sede de uma ONG em Buenos Aires para uma conversa em estrito off. Éramos oito jornalistas estrangeiros reunidos com o primaz da Argentina. O papo durou duas horas. Bergoglio foi cordial e expôs sua visão sobre a crise econômica que assolava o país. Tomou café com leite e comeu uma “medialuna de grasa”. Foi meu primeiro encontro com o clérigo.
Seis anos depois, em uma manhã de sábado, minha mulher e eu caminhávamos por uma rua do bairro de Monserrat quando repentinamente, ao virar a esquina, vimos o cardeal. Vestindo o clergyman, Bergoglio caminhava sozinho, carregando uma valise.
O cumprimentamos e conversamos durante um quarteirão e meio. Bergoglio se despediu de nós amavalmente e entrou na estação do metrô Moreno, na avenida Nueve de Julio. O futuro papa pegaria uma das mais congestionadas linhas do “subte” de Buenos Aires.
ATEUS ULTRAPASSAM CATÓLICOS PRATICANTES NA ARGENTINA
Segundo pesquisas realizadas em 2009 e 2011, 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes. Enquanto isso, a totalidade das igrejas evangélicas na Argentina não reúne mais de 10% da população. Mas, ao contrário dos católicos, o grupo evangélico é totalmente praticante. Os evangélicos argentinos não possuem uma bancada que os represente no Parlamento, e sequer contam com redes de televisão.
Os ateus, no entanto, segundo a pesquisa, ultrapassam católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população.
O país conta com a maior comunidade judaica da América Latina – calculada entre 300 mil e 500 mil pessoas – além de uma presença muçulmana (estimada em 500 mil pessoas) nas províncias do norte e noroeste.
CRISTINA PRIVILEGIOU IGREJA CATÓLICA COM LEI DE MÍDIA
A Lei de Midia, aprovada em 2009 pelo Parlamento argentino, implicou em grandes benefícios para a Igreja Católica argentina. Menina dos olhos da presidente Cristina Kirchner – e principal aríete na batalha de seu governo contra o Grupo Clarín – a lei determina em seu artigo número 37 que a Igreja Católica equipara-se aos privilégios que somente serão ostentados pelo Estado argentino e as Universidades federais: apenas estas três entidades poderão estar presentes em todo o território nacional.
As empresas privadas terão que resignar-se a operar em uma área restrita a apenas 24 municípios. O país é laico…mas a Igreja Católica será a única entidade religiosa que terá direito a canais de TV e e estações de rádio sem necessidade de autorizações prévias ou licitações.
Esse ponto gerou grande irritação entre os evangélicos deste país, além de outros grupos religiosos da sociedade argentina, que consideram que são discriminados pelo governo Kirchner.
Oficialmente, a Argentina possui um Estado laico, embora a presidente Cristina Kirchner cite Deus com freqüência e o marido defunto (sempre) em seus discursos.
A decisão do governo de privilegiar a Igreja na Lei de Mídia constrange os militantes kirchneristas. O próprio Martín Sabbatella, diretor da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (Afsca), além de deputados, evitam falar sobre o assunto.
Coincidentemente, a alta hierarquia do clero em Buenos Aires – que havia desferido duras críticas contra os Kirchners durante vários anos – desde a aprovação da lei de mídia, embora pronuncie alguma eventual crítica, manteve um perfil mais baixo e evitou participar das controvérsias sobre a norma que limitará a atuação das empresas privadas na área de jornalismo.
E já que o papa é portenho, aqui vai um tango com temática religiosa. Na realidade, ironicamente religiosa, já que o protagonista aproveita a missa das onze para flertar com uma bela cordeiro de Deus: “Misa de once” (Missa das onze), com Carlos Gardel.
E hoje, quinta-feira dia 14, lanço meu livro “Os Argentinos” em Brasília upon-the-Paranoá! E neste embalo vaticanista, destaco que o livro – que é um “manual” sobre a Argentina e os argentinos – tem uma parte que explica a posição da Igreja Católica na Argentina. E também uma parte na qual conto sobre o dia em que o papa (há 100 anos) abençoou o tango.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Na foto acima, Velasco Ibarra, símbolo da instabilidade institucional que assolou o Equador na maior parte de sua História. Velasco Ibarra foi eleito cinco vezes presidente da República. Mas só completou um único mandato. O atual presidente equatoriano, Rafael Correa – que define-se como “cristão de esquerda” - neste domingo disputa sua segunda reeleição presidencial. As pesquisas indicam que ele vencerá com ampla margem de votos a atomizada oposição e obterá seu terceiro mandato. Correa protagoniza o período de estadia no poder mais longo do último século e meio, algo raro na História equatoriana, marcada pelos mandatos interrompidos.
Ao longo dos últimos 17 anos o Equador teve oito presidentes. Desses, vários foram derrubados pelo Parlamento (um dos casos, o de Abdalá Bucaram, destituído por insanidade mental), diversos caíram por rebeliões populares ou por um mix destas em conjunto com apoio militar. Outros foram apenas presidentes interinos entre uma crise política e outra.
O presidente Rafael Correa, que autodefine-se como um “cristão de esquerda”, eleito em 2007, modificou a Constituição Nacional e encerrou seu primeiro mandato em 2009 ao realizar uma nova eleição presidencial. Na ocasião foi eleito para um mandato de quatro anos, que encerra-se agora. Neste domingo os equatorianos comparecem novamente perante as urnas.
Veintemilla, o presidente que mais tempo durou sentado na cadeira do Palácio Carondelet, na conturbada História do Equador. Correa – o presidente que mais tempo permaneceu de forma ininterrupta no século XXI – está a ponto de superar a marca
Junto com a Argentina, o Equador é o país da América do Sul que teve mais presidentes que não conseguiram completar seus mandatos desde a volta da democracia na região nos anos 80.
Correa, que tenta hoje emplacar nas urnas a aprovação para seu terceiro mandato, é o presidente da História de seu país com o mandato ininterrupto mais longo do Equador nos séculos XX e XXI.
O presidente equatoriano que durou mais tempo no poder foi o militar Ignácio de Veintemilla, que presidiu o Equador por sete anos no final do século XIX.
“Se me derem uma sacada em cada cidade, serei presidente”, dizia Velasco Ibarra, cinco vezes presidente, que apostava em seu carisma e oratória para vencer qualquer eleição.
SUCESSO E FRACASSO - Um dos casos mais emblemáticos que ilustra as turbulências políticas do Equador é José Maria Velasco Ibarra (1893-1979), que poderia ser definido como o político de maior sucesso da História de seu país, já que foi o único que conseguiu a marca de ser eleito cinco vezes.
Formado em universidades em Quito e em Paris, foi considerado um dos maiores oradores de seu país, além de ser indicado como o responsável direto da eliminação dos vestígios da economia colonial que ainda predominava no início do século vinte.
Nenhum outro presidente o superou na construção de rodovias ou escolas. Além disso, foi a figura dominante do cenário político durante quatro décadas.
No entanto, Velasco Ibarra também poderia ser classificado como um dos políticos com maior nível de fracasso na História do Equador e de toda a América Latina por não ter conseguido concluir quatro de seus cinco mandatos. Eleito pela primeira vez em 1934 em meio à crise econômica mundial, chegou ao poder com respaldo dos conservadores. Mas, logo afastou-se desses grupos para deslanchar um programa de reforma agrária. Em 1935 foi derrubado por um golpe militar.
Velasco Ibarra foi eleito cinco vezes mas só completou um mandato
Em 1944 foi eleito novamente. Mas, durou menos de três anos no poder. Foi removido pelos militares e teve que partir para o exílio. Ao voltar ao país em 1952 foi eleito para o único mandato (o terceiro) que completou graças à prosperidade que o país desfrutou na época pelo boom da produção de bananas.
Em 1960 foi eleito novamente. Mas durou apenas duas semanas no poder. Desta vez foi destituído pelo Parlamento. Em 1968 foi eleito para seu quinto e último mandato. Influenciado pela Revolução Cubana, pregou o “esmagamento da oligarquia”. Foi derrubado pelos militares na terça-feira de carnaval de 1972, cinco meses antes de terminar seu mandato. Um tom tragicômico encerrou seu derradeiro governo quando a população batizou o golpe de “El Carnavalazo” (O Carnavalaço). por transcorrer durante a terça-feira de Carnaval.
Em 1977, dois anos antes de morrer, seus aliados o procuraram em Buenos Aires para que retornasse do exílio e comandasse o “sexto velasquismo”. Velasco Ibarra, aos 84 anos, declinou: “renuncio à essa vaidade…”.
E falando nos mandatos não concluídos de Velasco Ibarra, de nosso querido Franz Schubert, a Sinfonia Número 8, a ”Inconclusa”. Rege Herbert von Karajan:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Neste sábado dia 9 completaram-se dois meses desde o desembarque do presidente Hugo Chávez em Havana, Cuba, para preparar-se para sua 4ª. cirurgia para extirpar o câncer que o assolava. Nesta segunda-feira dia 11 completam-se dois meses de sua operação. De lá para cá nunca mais os venezuelanos e o resto do planeta puderam ver uma imagem nova de Chávez, sequer ouvir sua voz em um áudio recente. Neste período, o vice-presidente Nicolás Maduro somente mostrou documentos que estavam, segundo sustentou, assinados por seu chefe.
Na semana passada, para demonstrar que o documento havia sido realmente assinado por Chávez, mostrou a pasta de cartolina onde estava o papel, com o escudo presidencial. “Vejam só, é a pasta presidencial”, ilustrou Maduro, indicando que exibia uma prova irrefutável da permanência de Chávez com vida. “E tem o escudo presidencial”, ressaltou.
O cenário dos últimos dois meses foi radicalmente diferente do panorama anterior, já que durante os anteriores 13 anos a presença midiática de Chávez foi praticamente onipresente na Venezuela.
“Mejor que decir es hacer” (Melhor do que dizer é fazer). A frase é um dos top ten dos epigramas do general e presidente argentino Juan Domingo Perón. No entanto, o laconismo que Perón pregava não foi seguido por seus admiradores (se bem que o próprio fundador do peronismo tampouco seguia o que dizia). Um deles, declarado peronista em versão caribenha é o presidente venezuelano Hugo Chávez, fez da atividade midiática permanente sua marca de governo.
A verborragia do líder bolivariano foi pesquisada detalhadamente por seu compatriota, o sociólogo Andrés Cañizales. No livro “A presidência midiática” o acadêmico cita como exemplo o discurso de 10 horas que Chávez fez no dia 13 de janeiro de 2012 perante o Parlamento venezuelano. Nesse monólogo – o mais longo de um presidente na História desse país perante os deputados – Chávez pronunciou a palavra “eu” um total de 586 vezes.
Do total de vezes em que Chávez fez referências sobre políticas pública, falou sobre si próprio em terceira pessoa 75% das vezes
Chávez fala sobre si próprio, mas em 3a pessoa, na maior parte de seus discursos em rede nacional de TV
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) fez uma medição dos discursos que Chávez proferiu nos primeiros dez anos de seu governo, entre 1999 e 2009. Ao longo dessa década os canais de TV e estações de rádio venezuelanos transmitiram 1.992 redes nacionais de TV e rádio protagonizadas por Chávez.
O total equivale a 1.252 horas e 41 minutos.
Se por acaso Chávez pudesse ter concentrado todos seus discursos em rede nacional, para falar de forma corrida, essas horas equivaleriam a 52 dias seguidos. Isto é: seria como ter alguém em casa sem parar de falar durante quase dois meses de forma ininterrrupta.
Os líderes da oposição venezuelana não poupavam críticas sobre a presença ostensiva de Chávez e acusavam o presidente de tentar uma virtual onipresença midiática. Enquanto Chávez estava presente dicursando de forma constante não faltaram irônicas alusões ao “Grande Irmão”, o personagem do livro “1984”, do britânico George Orwell, que estava de forma quase permanente nas telas dos habitantes de Oceania, um país ditatorial.
Segundo Cañizales, Chávez aplicou durante seu governo (e possivelmente continuaria aplicando, em um virtual e hipotético retorno) o “decisionismo midiático”, já que muitas decisões governamentais – estatizações, acordos internacionais, entre outros – eram tomadas na hora, ao vivo para toda a nação, para surpresa dos próprios ministros, ocasionalmente.
O planeta Marte - com teorias sobre o fim de sua suposta vida - também entrou nos discursos presidenciais venezuelanos em tom de “blame it on Adam Smith”.
POEMAS & HIGIENE. E MARTE - O presidente Chávez dissertava sobre os mais variados assuntos em seus speeches.
O líder bolivariano dedicava tempo para intercalar piadas durante sua fala e conversa com o público (quase um monólogo, pois dificilmente dá para ouvir as breves respostas das pessoas na audiência).
Chávez também cantava e declamava poesias durante suas falas em rede nacional de TV. Além disso, dava ordens sobre o modus operandi no qual seus compatriotas devem proceder com a higiene em 2009 quando a Venezuela estava em crise energética: “há pessoas que cantam no banheiro meia hora. Ora, mas que comunismo é esse? Eu contei o tempo: três minutos é mais do que suficiente, não fiquei fedendo. Um minuto para se molhar, outro para ensaboar. E um terceuro para enxaguar. O resto do tempo é um desperdício”.
Polifacético, o tenente-coronel das brigadas para-quedistas que chegou à presidência venezuelana, também fazia peculiares alusões político-astronômicas, tal como na ocasião em que avaliou que existiu vida no planeta Marte, mas que esta teria acabado pela ação do capitalismo marciano.
Mas apesar da verborragia, existem assuntos que Chávez esquiva. No discurso em janeiro do ano passado no Parlamento – que conteve 60 mil palavras – ele citou a expressão “falta de segurança” somente duas vezes, enquanto que “desemprego” foi dita apenas uma vez.
A ausência dos discursos de Chávez nos últimos dois meses está sendo parcialmente coberta pela presença constante do vice-presidente Nicolas Maduro na mídia, bem como o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, além do genro de Chávez, o ministro do Poder Popular para a Ciência, Jorge Arreaza, e o ministro do Poder Popular da Informação, Ernesto Villegas.
Nenhum deles conta com o carisma e a verbe de Chávez, embora Maduro, nos últimos discursos, tenha se esforçado em copiar seu líder convalecente, emitindo frases com tom exaltado e declarações nacionalistas.
O mise-em-scène não eximiu o vice de recorrer a alguns momentos de efeito, como o de, no 10 de janeiro, dia da virtual posse de Chávez sem Chávez, após anunciar a permanência das medidas revolucionárias, Maduro recorreu a outras medidas, impactantes, de 90-63-90 centímetros de busto, cintura e quadril da curvilínea miss Mundo de 2011, a venezuelana Ivian Lunasol Sarcos, estudante de Relações Internacionais e ativa militante chavista, que subiu no palanque para declarar seu respaldo ao governo em meio a aplausos e “fiu-fius”.
A partir do minuto 1:00, até 1:42, a estonteante miss saúda e dá uma voltinha:
E para embalar este fim de semana, um pouco de off-Momo com Scheherazade (a esperta moça que todas as noites enrolava o rei com um novo conto…e assim passaram 1001 noites) de Никола́й Андре́евич Ри́мский-Ко́рсаков (Nikolái Andréyevich Rimski-Kórsakov). Na batuta o genial Valeri Gergiev.
E embaixo, o caríssimo Rimski-Kórsakov. O quadro é de Valentin Serow, de 1898.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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