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Ariel Palacios

Caras e caros,

Estarei fora do ar durante duas semanas. Parto daqui a poucos minutos para uma viagem para preparar um material especial.

E já que este é um breve intermezzo blogger, deixo para vocês o intermezzo da “Cavalleria rusticana”, de Pietro Mascagni, aqui.

Até logo! Nos vemos a partir do 30 de maio.

Abraços,

Ariel

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Clemente e sua inexorável azeitona

O cartunista argentino Carlos Loiseau, mais conhecido pelo nome artístico “Caloi”, morreu ontem (terça-feira) em Buenos Aires, após vários dias de internação hospitalar por “grave doença”, segundo informaram amigos da família do artista. Caloi, que tinha 63 anos, foi o criador de “Clemente”, um peculiar pato com listas pretas e amarelas no corpo – tal como uma abelha – que não tinha asas nem braços. No entanto, Clemente era um rapaz de um bairro portenho, bom-vivant que amava o futebol, o tango, a política e as mulheres. E fazia psicanálise.

O personagem, que com frequência protagonizava situações surrealistas e delirantes, sempre tinha algum comentário sutilmente irônico na ponta da língua. Clemente era considerado o “alter ego” dos portenhos.

Nas eleições parlamentares de outubro de 2001, quando começava o “que se vayan todos” (que todos vão embora) contra a classe política, dezenas de milhares de votos foram destinados – a modo de protesto – a favor de Clemente.

Em 2004 a prefeitura portenha designou Clemente – publicado ininterruptamente desde 1973 – “patrimônio cultural da cidade de Buenos Aires”.

Clemente tornou-se um sucesso nacional quando, durante a Copa do Mundo de 1978, convocava os argentinos a jogar papel e confete nos estádios. A convocação ia de encontro ao pedido do locutor oficial do regime militar que governava a Argentina na época, que fazia campanha contra o confete nos estádios por ser algo “sujo”.

Uma tarde de abril de 1997 fiz uma entrevista com o cartunista Caloi em sua casa localizada na frente do Parque Lezama, por ocasião dos 25 anos da criação de Clemente. Aqui segue a íntegra da entrevista.

 

Nasceu de uma chocadeira desligada, teve um filho com uma azeitona, voa sem asas e seu corpo é cheio de listras pretas. Ah, sim, jogou no Boca Juniors e fala com todos os erros inimagináveis de ortografia. Namora uma mulata e uma francesa. Foi diplomata na guerra entre as passas e as azeitonas.

O personagem em questão é Clemente, que está soprando 25 velinhas. É o mais portenho dos cartuns. Em sua tirinha do jornal “Clarín”, um olhar de canto de olho e uma perna cruzada, todas as manhãs, são suficientes para Clemente concluir uma análise arguta. Amplo repertório: dos clones ao presidente, de futebol à libido. Seu universo que vai do reles cotidiano ao onírico em poucos segundos. Ou melhor, em poucos quadrinhos.

Ele saiu do tinteiro do cartunista argentino Carlos Loiseau, alias, Caloi, que além de Clemente, dedica-se a apresentar um dos raros programas sobre desenhos animados de arte na TV latino-americana. Aos, domingos, em horário nobre, Caloi desfila la creme de la creme do traço polonês, húngaro, canadense e indiano. Admirador dos irmãos Caruso, Caloi nunca esquece quando os gêmeos mais arteiros do Brasil o levaram a um bar homônimo do filho predileto: “Clemente”. Não saberia dizer onde era. “Cidade confusa, São Paulo!” exclama.

Caloi recebeu o Estado em sua casa de cinco andares na frente do Parque Lezama em uma sala despojada de decoração, mas cheia de inusitados frascos entupidos de rolhas. Ali, ele contou com quantos Clementes se conspira.

Estado – O que é um Clemente?

Caloi – Não há muitos segredos. Trata-se somente de um personagem do absurdo, que tem definição na escala zoológica. Quando me encarregaram a tirinha, pensei criar um personagem que não me escravizasse. É esse o principal fantasma que um desenhista tem na tira diária: ficar prisioneiro de sua própria criação. Todos os personagens até o momento, tinham tido uma profissão ou uma característica psicológica fixa. Isso permitia muito pouco o absurdo. Na minha infância, os personagens de sucesso eram o Piantadino, um sujeito que vivia fugindo da prisão ; o Avivato, que era um espertalhão, que tirava partido de qualquer situação. Cada um com uma característica permanente. Mais tarde, isto mudou. Mafalda revoluciona o âmbito dos personagens. Mas ela mesma está presa à sua própria personalidade. Era uma menina contestatária, que se ligava a outros personagens como Manolito, que se interessava pelos negócios. Susanita, que pensava como uma senhora. Quino obtinha variedade misturando essas características. Eu achava que se tivesse que trabalhar com estas premissas, ia ficar doido. Então fiz algo absurdo, para poder entrar e sair da realidade quando eu quissesse, sem pedir licença a ninguém. E assim apareceu Clemente.

Estado – Mas o protagonista inicial da tirinha era Bartolo…

Caloi – Essa era a idéia inicial. Bartolo andava em um bonde muito especial, sobre uma única roda, pela ruas de Buenos Aires onde ainda existem trilhos. Mas logo percebi que Bartolo também estava ligado a uma visão limitada da realidade porque estava amarrado a uma coisa nostálgica: o bonde. Além disso, dava muito trabalho desenhar um bonde em cada quadrinho. Fui exitinguindo Bartolo em favor do crescimento de Clemente, um personagem secundário. Ele cumpria mais o jogo livre que havia proposto com a realidade e com as etapas que a Argentina ia atravessando. É difícil que uma tira diária se desprenda do peso que a informação tem, e assim, aparece ligado à política, economia, esportes, cultura…

Estado – Esse é um atributo que fez Clemente perdurar e Mafalda não?

Caloi – Quino dediciu terminar a Mafalda, e é incrível a vigência que tem. É tão genial que foi feita durante 10 anos. Há 20 não a desenha. Há outro tipo de tratamento com Clemente, que acompanha as pessoas no andar. Mafalda é uma filósofa.

Estado – Noto que com o passar dos anos, Clemente foi tomando formas mais arredondadas. O mesmo aconteceu com o Pato Donald e muitos outros personagens no mundo inteiro. Quando um personagem amadurece…

Caloi – (interrompendo)…Ele vai engordando (ri). Vamos conseguindo uma síntese. O comparo com a assinatura. Começamos escrevendo todas as letras e o nome compreende-se claramente. Até colocamos pingos nos “i”. Depois, tudo transforma-se no rabisco de algo que foi a escrita do nome. Acho que o personagem vai se aburguesando.

Estado – Para um personagem que tocava a política, como parte do cotidiano, como eram as restrições na época da Ditadura?

Caloi – Tive ameaças telefônicas de morte, e decidi desaparecer um pouco indo para a casa de minha mãe. Mas logo foi ela que começou a me ameaçar, para que fosse embora (ri). Tive restrições, como todo o jornalismo da época. Mesmo notícia de tempestades ou de granizo eram proibidas, por serem más notícias…

Estado – Houve um período onde Clemente era jogador de futebol, do time Boca Juniors…Como chegou a isso?

Caloi – Era seu sonho. Como aquelas crianças que estão jogando sozinhas com uma bola e vão falando como se estivessem transmitindo o jogo. Clemente usava uma camiseta grande demais, tropeçava nela. Mas driblava 10 jogadores e fazia o gol no último minuto. Era de Boca porque Bartolo era de River…como eu. Na Copa de 1978, adquiriu grande notoriedade, pois ultrapassou as fronteiras do jornal, com sua figura aparecendo nos tabuleiros eletrônicos dos estádios.

Estado – Criou a mania argentina de jogar papeizinhos no campo, ou a reforçou?

Caloi – Acho que a reforcei. O locutor oficial da copa, José Muñoz fazia uma campanha contra jogar papéis nos estádios, que era um costume nacional. Antes, tenho que explicar que nós, desenhistas, somos uma raça de sobreviventes, de conspiradores…tigres de papel. Como o “Pasquim” no Brasil, ou a “Codorniz”, na Espanha, estavamos sempre à espreita, para dar uma alfinetada nesse regime. E existia esta coisa tão inocente dos papéis. O governo tinha medo das multidões, que lembravam outros tempos políticos. Começaram então, uma campanha que tratava todo mundo como inadaptado social, para que déssemos a melhor imagem do país para os turistas. Munhoz dizia que os papeizinhos davam a impressão de sujeira. E Clemente começou a dizer que era para jogar mais papel do que nunca, já que essa era a forma que os argentinos tinham de se manifestar.

Estado – Como Clemente lidou com a Guerra das Malvinas ?

Caloi – Alheio. Existia um artificialismo triunfal no qual eu não acreditava e não fiz humor a respeito. Dois dias antes da invasão argentina havia sido realizada uma imensa manifestação contra os militares na Plaza de Mayo. A polícia botou todo mundo para correr, eu incluído. A invasão era um delírio de alguns generais.

Estado – Durante uma época, reduziu Clemente a poucos traços e sua fala era abreviada como anúcio classificado…Era o “Mundo da Síntese”. Como o público reagiu?

Caloi – As pessoas não estavam acostumadas. Mas o segredo de Clemente foi uma lenta elaboração de um código de entendimento com o público. Ele estabeleceu um código em que tudo é sugerido e nada é dito expressamente. O pensamento é completado pelo leitor. No momento mais duro da censura, Clemente fazia algo tão pueril como dar uma piscada, cruzava as perninhas e dizia algo de canto. As pessoas entendiam. Era popular como elas.

Estado – Na TV teve muito sucesso. Porque não permanceu lá ?

Caloi – A TV, para mim, era uma nova linguagem. Começamos timidamente, com bonecos desajeitados tentando ter o estilo Muppets. Eu estava preocupado pelos problemas estéticos, mas as pessoas já cantavam as musiquinhas de Clemente nas ruas. Ele incorporava um público que não era do jornal. Durou três anos, mas depois, acabou, pois aTV precisa renovar permanentemente seus personagens.

Estado – Clemente seria o portenho por excelência?

Caloi – Não era essa a idéia, embora ele possua idéias e pensamentos dos portenhos. É o torcedor de futebol, o pensador, é uma mistura de tudo, como os próprios portenhos.

Estado – De quem possui influências?

Caloi – Quino e Oski. Este era absolutamente original. Ele havia se encarregado de redesenhar toda a natureza em aberta competição com Deus. Seus pássaros, árvores e até o sol eram muito pessoais. Trabalhei nas revistas Patoruzú e Nicabur, onde havia caras que eram grandes construtores de personagens. Calé foi um desenhista que fez uma excelente radiografia da alma portenha dos anos 50 e 60. Quino foi o “joelho” na revolução desses comunicadores. Mafalda tinha mais preocupações além do bairro em que morava. Seu primeiro livro está dedicado ao secretário-geral da ONU, U Thant. Ela era uma garotinha que podia ter insônia por causa do “perigo amarelo”…!

Estado – Poderia contar sua experiência na “Hipotenusa”, uma revista que definiu como “surrealista com o subsídio do Estado”?

Caloi – A “Hipotenusa” surgiu na época da ditadura do general Onganía. Era uma revista arriscada em termos gráficos. Quanto mais ousado fosse o material, mais esquisito, eles publicavam. Durou 15 números, ou seja, bastante. Depois que foi fechada ficamos sabendo que era uma aposta cultural do Estado! (ri)

Estado – Há um desvario de personagens que contracenam com Clemente: pedras filosofais falantes, uma pardal-namorada francesa, uma mulata, o Clementossaurio, seu filho Jacinto, que nasceu de um affaire com uma azeitona…

Caloi – Uma das namoradas de Clemente, a “Mulatona”, é uma colombiana que dança a Cumbia, um ritmo latino. Ela é a coisa telúrica. Por outro lado, Mimi, a pardal francesa, tem a ver com aquele ideal antigo da mulher delicada. O Clementossaurio, o Clemente alado, são desdobramentos de sua personalidade. Lembrei de uma novela de Hermann Hesse, onde o personagem percorria as ruas da cidade com um cartaz onde dizia “Só para loucos”, e era seguido por outros que representavam sua múltipla personalidade.

Na tirinha publicada na manhã de sua morte, Clemente analisava com o filho Jacinto a morte do Universo.

Estado – O que aconselharia aos jovens cartunistas?

Caloi – Que trabalhem muito. Esta é uma época difícil para os jovens. Não existem tantas revistas de humor como quando comecei. Quase parece que têm que pagar para que publiquem seus desenhinhos.

Estado – É mais difícil fazer Humor hoje do que antes ?

Caloi – Pode-se fazer Humor nas piores circunstâncias, nas condições mais adversas, como durante a Ditadura. Nós, cartunistas, somos uma espécie de avis rara que sobrevivem e que ainda, além de tudo, conspiram um pouquinho.

Homenagem do cartunista Liniers a Caloi.

  

  

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Cristina Kirchner e seu braço-direito na área de comércio exterior, o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno

O secretário de comércio interior da Argentina, Guillermo Moreno – virtual comandante da área de comércio exterior do país – desembarcou hoje em São Paulo. Moreno, autor de várias medidas que barraram a entrada de produtos brasileiros na Argentina nos últimos dois anos, chegou acompanhado de uma missão de empresários argentinos – que viajaram ao Brasil em três aviões charter da Aerolíneas Argentinas – com a intenção de vender mais produtos Made in Argentina no Brasil.

O protecionista Moreno será uma das principais figuras do “Encontro Empresarial Argentina-Brasil”, organizado pelo ministério da Economia, reúne na sede da Fiesp 600 empresários argentinos com 400 brasileiros. Segundo os argentinos, já estão agendadas mais de 2.500 reuniões de negócios para aumentar o comércio bilateral e diversificar as vendas de produtos argentinos no sócio do Mercosul. O governo Kirchner pretende reduzir o déficit que o país possui com o Brasil.

As diversas medidas de Moreno, especialmente a “Declaração Juramentada Antecipada de Importação (DJAI)” – que desde fevereiro obriga todas empresas que desejem importar a apresentar, de forma prévia, um relatório detalhado ao organismo de arrecadação tributária – provocaram uma queda de 23,2% das exportações brasileiras para a Argentina em abril em comparação com o mesmo mês do ano passado.

A apresentação dessa declaração não é suficiente para importar, já que o empresário importador precisa esperar pela resposta positiva – ou não – do governo argentino sobre seu pedido, sem prazo de tempo definido.

Em abril a Argentina importou do Brasil menos motores para veículos, veículos de carga, polímeros plásticos, minério de ferro e tratores, entre outros produtos.

Entre janeiro-abril o comércio bilateral foi favorável ao Brasil em US$ 970 milhões. Mas, o volume indica uma queda de 27,1% em relação ao superávit que o mercado brasileiro exibia com a Argentina nos primeiros quatro meses de 2011.

Entrada na Argentina dos primos do Marquês de Rabicó está complicada. A ilustração acima é “Chasing the Greased Pig”de RichardDoyle (1824-83).

SUÍNOS BARRADOS - Em março o ministro da Agricultura do Brasil, Jorge Mendes Ribeiro, e seu colega argentino Norberto Yahuar reuniram-se em Buenos Aires para conversar sobre os problemas que a carne suína brasileira estava enfrentando para entrar na Argentina. Eles chegaram a um acordo preliminar que implicaria em cotas somente para o Brasil. A média brasileira em 2011 havia sido de 3.500 toneladas por mês e seria encolhida para 3 mil. No entanto, o acordo verbal entre os dois ministros esbarrou no secretário Moreno, que bloqueou de forma quase permanente o ingresso dessas importações.

Segundo fontes do setor na Argentina disseram ao Estado, Moreno não permitiu a entrada de carne suína brasileira nas últimas semanas. “A entrada de polpa brasileira está fechadíssima”, indicaram.

Na semana passada o secretário recebeu 50 empresários argentinos importadores de carne suína. “Moreno obrigou os presentes a viajar nesta terça-feira a São Paulo com ele – sim ou sim – para vender produtos suínos argentinos no Brasil, mesmo que isso não seja um item deles”, explicou um representante do setor. “Mas, com que cara a gente vai aparecer lá, se a Argentina não está permitindo a entrada de produtos brasileiros?”.

Moreno, segundo as fontes, afirmou que só permitirá importações aos empresários que também exportem. O secretário obriga as empresas a exportar um dólar por cada dólar importado. “Empresários do setor suíno terão que viajar com amostras para oferecer produtos, mesmo que não sejam do mesmo item. Há colegas, fabricantes de presunto que terão que ir à São Paulo com amostras de canetas, camisetas e tênis”, indicaram as fontes.

PERFIL DE GUILLERMO MORENO

Os apelidos de Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior, são os mais variados e sugestivos. Ele era chamado de “Lassie” – tal como a simpática e doce cadela collie imortalizada no cinema – pelo ex-presidente Néstor Kirchner, em alusão irônica a seu comportamento agressivo (Moreno, em seu escritório, tem uma foto da cachorrinha). Ele também é o “Napia” (“Nariz”, em gíria portenha) para seus colegas de gabinete por seu perfil aquilino.

Moreno é a mais polêmica das figuras do gabinete da presidente Cristina Kirchner. Ele passou incólume a todas as reformas ministeriais que ela e Kirchner fizeram, apesar dos pedidos dos empresários, que pedem sua cabeça.

Segundo os analistas, é o homem que faz o “trabalho sujo” do governo Kirchner, já que ele é o responsável pela manipulação de índices da inflação, pobreza, desemprego e PIB realizada pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob férrea intervenção do governo há dois anos e meio.

Moreno inicia encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa. Ele também telefona aos executivos às 6:00 da manhã – nos fins de semana – para exigir, em frases entremeadas de sonoros palavrões, que congelem seus preços ou deixem de importar produtos para não atrapalhar as contas fiscais do governo. Suas ordens, muitas das quais não-escritas, também provocam demoras para a liberação de produtos nas alfândegas.

E falando em Lassie, na foto acima Elizabeth Taylor e a protagonista canina que deu o nome ao filme. E ao apelido do secretário.

  

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Publicidade da YPF nos anos 70

VOTAÇÃO: O projeto de expropriação da YPF foi concretizado graças ao placar de 208 votos a favor. O total de votos contrários foi de 32. As abstenções foram 5.

DEBATE: O debate na Câmara de Deputados começou na quarta-feira às 15:30 e concluiu na quinta-feira às 21:30. No meio do debate houve todo tipo de trocas de acusações entre o governo e os representantes da oposição. O diálogo foi nulo.

A seguir, um breve “quem é quem” e uns “quiequiéissu” no caso YPF.

 DRAMATIS PERSONAE (E EMPRESAE)

YACIMIENTOS PETROLÍFEROS FISCALES (YPF): A companhia petrolífera YPF, fundada em 1922, foi a principal estatal argentina até 1992, quando, dentro do processo de privatizações realizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99), foi vendida para um grupo de empresários argentinos. Na época, a privatização foi respaldada enfaticamente pela então deputada Cristina Kirchner e seu marido, Nestor Kirchner, que era o governador da petrolífera província de Santa Cruz. O Estado nacional ficou com 20% das ações.

No entanto, na segunda metade da década dos 90, as crises mexicana, russa e japonesa abalaram a economia argentina. Sem cash, as províncias começaram a vender suas ações. Os empregados da YPF, que tinham 10%, também desprenderam-se dos papéis da companhia. Em 1999, depois da desvalorização do real no Brasil, Menem – cujo governo estava com problemas para cumprir as metas fiscais com o FMI – ordenou a venda das ações do Estado nacional, e assim, obter os recursos que precisava.

Desta forma, nesse ano, o Estado e os empresários argentinos venderam a totalidade da YPF à espanhola Repsol. A partir dali, a YPF passou a representar metade do faturamento do grupo ibérico. O management da companhia foi deslocado de Buenos Aires para Madri.

Em 2004 o então presidente Nestor Kirchner, sem cacife político nem fundos para reestatizar a YPF, anunciou a criação de uma nova estatal petrolífera, a Enarsa, chamada ironicamente de “a mini-YPF”. O plano inicial de Kirchner era que a Enarsa – sem dinheiro, nem equipamento – poderia crescer graças a alianças estratégicas com a venezuelana PDVSA e a Petrobrás. No entanto, a mini-estatal permaneceu com baixo perfil ao longo dos últimos oito anos, praticamente sem sair do papel.

Mas, em 2007, Kirchner mudou de estratégia e decidiu respaldar os Eskenazi, família de empresários argentinos, donos do Grupo Petersen, a comprar 15% das ações da YPF à Repsol. A partir dali, a presença argentina – embora privada – começou a aumentar. No início de 2011 os Eskenazi compraram outros 10%.

PRESIDENTE CRISTINA KIRCHNER: A atual presidente da República Argentina era parlamentar provincial de Santa Cruz em 1992, ano da privatização da YPF. Na época, seu marido, o defunto Nestor Kirchner, era governador da província petrolífera de Santa Cruz. Ela defendeu a privatização com garras e dentes na assembléia legislativa local. O casal Kirchner foi crucial no lobby do presidente Carlos Menem (1989-99) para privatizar a YPF.

MINISTRO JULIO DE VIDO: De Vido é um dos mais antigos integrantes da “Pinguineira”, denominação do círculo íntimo do casal Kirchner (chamados popularmente de “pinguins”). Arquiteto, De Vido foi o secretário de Economia e Obras Públicas de Néstor Kirchner quando este era prefeito de Río Gallegos e posteriormente governador da província de Santa Cruz.

Quando Kirchner foi eleito presidente em 2003, De Vido ocupou a pasta de Planejamento e Obras, posto do qual comandou a economia do país, passando por cima dos diversos ministros da Fazenda que os Kirchners tiveram. Do marido, a presidente Cristina herdou De Vido, que permaneceu no posto.

De Vido, que raramente fala em público, é suspeito de diversos casos de corrupção, entre eles, o “Caso Skanska”. A oposição o apelidou de “ministro-celular”, em alusão ao prefixo com o número “15” necessário para fazer uma ligação telefônica para um celular na Argentina. O número é uma irônica referência à suposta cobrança de 15% de propinas por parte do polêmico ministro.

VICE-MINISTRO AXEL KICILLOF: “É como Mandrake…o cara conseguiu exercer uma mágica sobre a presidente Cristina Kirchner”. Com estas palavras, um deputado do governista Partido Justicialista (Peronista) definiu ao Estado em off o efeito que Axel Kicillof, secretário de política econômica (equivalente a vice-ministro da Economia), está tendo desde o ano passado sobre a presidente argentina. Boa-pinta, o economista de 41 anos – embora pareça mais jovem – que ostenta costeletas retro, tornou-se o “mentor” econômico do governo Kirchner. Autor do projeto de expropriação da YPF, o jovem de olhos azuis e sorriso amplo tornou-se o primeiro economista de total confiança da presidente Cristina desde a morte do ex-presidente Nestor Kirchner, que entre 2005 e 2010 foi o ministro de Economia de facto da Argentina. Kicillof conseguiu entrar no círculo mais íntimo de decisões do governo, basicamente constituído por pessoas veteranas de extrema confiança de Cristina, que estiveram com os Kirchners desde que Néstor Kirchner era prefeito de Rio Gallegos no final dos anos 80.

Kocillof, que formou-se no difícil curso de economia da Universidade de Buenos Aires e acumula diversas pós-graduações, é um especialista da obra do emblemático heterodoxo sir John Maynard Keynes. Dando um toque peronista ao keynesianismo kirchnerista, Kicillof defende a fórmula de inflar a demanda interna e recuperar a influência estatal.

O jovem economista com jeitão de galã atualmente tem mais influência sobre Cristina do que qualquer outro integrante da equipe econômica, entre os quais a ministra da Indústria Débora Giorgi (conhecida pelo apelido de “Senhora Protecionismo”), a presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, e seu ex-ministro da economia e atual vice-presidente, Amado Boudou.

A presidente Cristina cogitou em colocá-lo no posto de ministro da Economia em dezembro passado, quando iniciou seu segundo mandato presidencial. No entanto, perante a reação da velha ala do peronismo, que dizia que Kicillof ainda era muito jovem para o cargo, Cristina o designou vice-ministro. Antes disso havia sido vice-diretor da reestatizada Aerolíneas Argentinas.

Mas, Kicillof transformou-se imediatamente no virtual ministro da Economia, já que o ocupante formal da pasta, Hernán Lorenzino, é praticamente desconhecido do grande público.

Os analistas políticos enquadram Kicillof como um “fundamentalista do kirchnerismo”. Sem papas na língua, na terça-feira chamou de “imbecis” as pessoas que consideram que o Estado argentino deveria pagar à Repsol a indenização de 8 bilhões de euros. O economista também definiu de “palavras horríveis” as expressões “segurança jurídica” e “clima de negócios”, já que considera que são conceitos determinados pelo establishment.

ANTONIO BRUFAU: Presidente da empresa espanhola Repsol. Até o ano passado era chamado de “amigo” pela presidente Cristina, que até o chamava diretamente – e em público – de “Antonio”. Após a expropriação da subsidiária YPF Brufau está na corda bamba em seu posto de comando da companhia espanhola.

 O QUE DIZEM

ARGUMENTOS DO GOVERNO PARA EXPROPRIAR A EMPRESA: O governo Kirchner argumenta que a Repsol não investiu de forma adequada na subsidiária YPF nos últimos anos. Além disso, argumenta que enviou bilionários lucros à Madri, em vez de aplicá-los na Argentina.

ARGUMENTOS DA REPSOL PARA DEFENDER SUA SUBSIDIÁRIA: A empresa espanhola argumenta que investiu no país, inclusive mais do que suas rivais de outros países que também exploram petróleo na Argentina.

ARGUMENTOS DA ESQUERDA PARA CRITICAR O GOVERNO: Os partidos de esquerda real, como o Projeto Sul, exigia uma reestatização completa da YPF, e não apenas 51%. Outro grupo, o Partido Operário, exigia que o projeto de lei tivesse uma cláusula que impedisse futuras privatizações da empresa. O fato é que a nova lei permite que, com dois terços do Parlamento, um presidente da República poderá vender as ações que o Estado argentino possui com esta expropriação.

ARGUMENTOS DA DIREITA PARA CRITICAR O GOVERNO: A direita argumenta que o governo Kirchner, com esta expropriação, complica a imagem do país no exterior, já que consolidaria-se a fama de “juridicamente inseguro”.

ARGUMENTOS DO CENTRO PARA CRITICAR O GOVERNO: Os partidos de centro são favoráveis à reestatização da YPF. No entanto, criticam a administração Kirchner por não ter fiscalizado a atuação da Repsol na empresa. Os alertas sobre a queda de investimentos arrastavam-se desde 2005, quando a deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, denunciou que a Repsol não estava colocando dinheiro.

ARGUMENTOS DO GOVERNO PARA EXPLICAR SEU APOIO À PRIVATIZAÇÃO NO PASSADO: A presidente Cristina Kirchner omite qualquer espécie de esclarecimento explícito sobre seu respaldo à privatização há 20 anos.

 FAITS DIVERS YPEFIANOS E CONGÊNERES

COMO ERA A COMPOSIÇÃO ACIONÁRIA DA YPF A.E (ANTES DA EXPROPRIAÇÃO) E D.E.: Antes da expropriação, a composição acionária da empresa dividia-se entre 57,43% da Repsol; 25,46% do argentino Grupo Petersen, além de 17,09% cotados na Bolsa (principalmente investidores dos EUA). Mas, desde o dia 16 de abril, data na qual a presidente Cristina anunciou a expropriação, do total de ações, 26,03% passaram às mãos do Estado federal. Outros 24,99% das ações foram destinadas às províncias petrolíferas. Desta forma, o Estado federal, junto com as províncias, ficam com 51,02% das ações.

Outros 25,46% continuam com o Grupo Petersen, holding dos Eskenazi, família de empresários que até o ano passado eram amigos da presidente Cristina.

Além disso, 17,09% constituem as ações cotadas na Bolsa (basicamente, investidores dos EUA).

A Repsol ficou com apenas 6,43% das ações.

A OUTRA ESTATAL PETROLÍFERA: Em 2004, o então presidente Nestor Kirchner decidiu criar a Energia Argentina SA (Enarsa), dedicada ao estudo e exploração de jazidas de petróleo e gás na Argentina e nos países vizinhos. No entanto, a empresa praticamente não saiu do papel. Kirchner colocou a nova empresa estatal (que era chamada ironicamente de “a pequena YPF) nas mãos do economista Aldo Ferrer, que na época era o mentor econômico dos Kirchners. Ferrer – que comandou a Enarsa nos primeiros anos – havia sido ministro da Fazenda de dois ditadores militares: Levington e Lanusse. O futuro desta empresa, perante a nacionalização da YPF, é uma incógnita.

OUTRAS EMPRESAS REESTATIZADAS DESDE 2003: Nos últimos nove anos os governos de Nestor Kirchner (2003-2007) e de sua mulher e sucessora Cristina reverteram de forma parcial as privatizações realizadas nos anos 90 com uma política de “reargentinização”. Desta forma, voltaram para mãos estatais o Correio Argentino, as Minas de Carvão Río Turbio, o Sistema Radioelétrico Nacional, a Águas Argentinas (rebatizada com o nome de Aysa). Os Kirchners também reestatizaram a totalidade do sistema de aposentadorias.

Além de reestatizações, os Kirchners também criaram pequenas estatais. Uma delas, a Enarsa, ambiciona recuperar o protagonismo na área energética que o Estado argentino perdeu com a privatização da YPF. Outra estatal foi a companhia aérea Lafsa, fundada em 2003 para absorver os trabalhadores da Lapa e Dinar, empresas privadas que haviam falido. Esta empresa contou com uma estrutura de funcionários e verbas federais mas nunca teve um único avião e jamais operou. A Lafsa foi desativada discretamente no ano passado.

 NUANCES POLÍTICAS

NO QUESITO INTERVENCIONISMO EM EMPRESAS, CRISTINA KIRCHNER É PARECIDA A HUGO CHÁVEZ, EVO MORALES E RAFAEL CORREA?: Diria que não. Não mesmo. As reestatizações feitas pelo governo Kirchner foram em menor escala que as protagonizadas pelos presidentes bolivarianos. Isso, no entanto, não exclui os anúncios retumbantes de expropriação, críticas ao imperialismo yankee e coisa e tal. Mas o falatório presidencial costuma ser maior que as medidas nessa área específica.

Além disso, o governo Kirchner, que pratica o “capitalismo de amigos”, favoreceu amplamente poderosas multinacionais, que obtiveram benefícios quase monopólicos no país. Um dos casos é o da Telefônica da Espanha, que graças à ajuda da presidente Cristina, pode controlar a Telecom no país. Desta forma, a empresa espanhola domina 75% da telefonia no país. Outra multinacional favorecida é a Barrick Gold, que conseguiu que o governo Kirchner suspendesse um projeto de lei que complicaria sua exploração na Cordilheira dos Andes para evitar uma catástrofe ecológica.

A outra diferença com Chávez e Morales é que Cristina nunca enviou as forças armadas para ocupar as instalações de uma empresa expropriada.

Eventualmente enviou piqueteiros ou sindicalistas para bloquear as portas de alguma empresa. Mas nunca as forças armadas. Há uma nuance substancial nisso. 

ESTATIZAÇÃO, NACIONALIZAÇÃO OU REARGENTINIZAÇÃO DA YPF? Estatização é um termo que está sendo utilizado pelo próprio governo e a oposição. Mas, na realidade, a YPF não se transforma em uma estatal no sentido clássico da coisa. A própria presidente C.E.Fdez de Kirchner ressaltou no dia do anúncio, que não se tratava de uma “reestatização” (boa parte de seus parlamentares não deu bola pra isso), já que ela ordenava uma “transformação em sociedade anônima”, pois a nova empresa contará com presença privada.

Nacionalização? Beeemmmm….mmmmm…sim talvez…diria, pois 51% passaram para o Estado federal e as províncias. E além disso, 25% continuam nas mãos do grupo Petersen, da família Eskenazi, amigos do casal Kirchner. Isto é: uns 76% das ações estariam em mãos “argentinas”.

Mas, a argentinidade do Grupo Petersen é “pero no mucho”, já que o Grupo Petersen Energia Sociedade Anônima é uma empresa radicada…na Austrália. País onde a britânica rainha Elisabeth II de Windsor é a chefe de Estado.

Acima, o velho logotipo da YPF, que poderia voltar. Embaixo, o velho logotipo, dos tempos em que a YPF era controlada pela espanhola Repsol. Eu, pessoalmente, acho mais legal o vintage logotipo. O da YPF repsoliana não tinha a mesma “personalidade”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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30 anos da Guerra das Malvinas
 

Bahia de Algeciras: do lado esquerdo, Gibraltar, domínio britânico desde o século XVIII, quando a Espanha assinou um tratado cedendo a península. Do lado direito, Algeciras. Ali estavam os argentinos desta sui generis missão.

“Levar a guerra à própria Europa!”. Este era o plano do almirante Jorge Isaac Anaya, integrante da troika que formava a Junta Militar argentina em 1982, comandada pelo general Leopoldo Fortunato Galtieri. O almirante, nos primeiros dias da guerra, começou a elaborar alternativas que poderiam permitir que a Argentina ganhasse a guerra sem entrar em combate direto no Atlântico Sul. O plano escolhido foi o de afundar navios britânicos dentro do porto de Gibraltar, uma das principais bases navais de Sua Majestade, localizada em um enclave no sul da Espanha.

O nome-código foi “Operação Algeciras”, já que teria como base de atividades a cidade espanhola de Algeciras, na frente de Gibraltar.

O plano era um remake de um velho projeto ultra-confidencial do almirante Emílio Massera, famoso por seu maquiavelismo e predecessor de Anaya no comando da Marinha. A intenção era afundar os navios mas não reivindicar o ataque. O projeto inicial era o de realizar um ataque na própria Grã-Bretanha. Mas, levando em conta que dificilmente o grupo argentino passaria desapercebido, optaram pela Espanha, onde simulariam que eram turistas.

Em 2002 Anaya confirmou pela primeira vez a existência da operação. O ex-almirante declarou na época que “a operação devia ser um segredo, já que não queríamos que os ingleses pensassem que por trás dos atentados havia argentinos envolvidos”. Segundo ele, “a idéia era que a OTAN, sem pensar que os argentinos estavam por trás disso, pedisse à Grã-Bretanha que atendesse os problemas que tinha no Hemisfério Norte, e dessa forma ganharíamos tempo nas negociações sobre as Malvinas”.

O grupo que afundaria os navios ingleses estava composto por uma fauna heterogênea que reunia em uma única missão dois grupos que até pouco tempo haviam odiado-se mutuamente: os guerrilheiros montoneros e os militares argentinos. No grupo estava Máximo Nicoletti, um ex–montonero, que depois de preso pelos militares, havia delatado grande parte de seu grupo original. Transformado em um defensor da ditadura, Nicoletti treinava os militares em explosões submarinas. Escafandrista de grande habilidade, em 1975 havia atacado a fragata Santíssima Trinidad, da Marinha argentina (depois da guerra Nicoletti transformou-se em pirata do asfalto).

O grupo viajou à Espanha três semanas depois da invasão argentina às Malvinas. Os explosivos foram até Madri via mala diplomática. No total, eram duas minas submarinas de fabricação italiana, com 25 quilos de trotyl em cada uma.

Dali, partiram em carro para o sul da Espanha. No meio do caminho compraram um bote de borracha. O plano consistia em fingir que eram pescadores argentinos que faziam turismo na costa espanhola. Desta forma, circulariam pela baía de Algeciras, diante da base de Gibraltar, sem levantar suspeitas. Parte do grupo mergulharia na água e colocaria as bombas no casco dos navios. Nos primeiros mergulhos de exploração, os argentinos descobriram que os ingleses não haviam colocado as redes de proteção submarina. Portanto, deduziram que não esperavam qualquer tipo de ataque.

O primeiro alvo seria o HMS Ariadne, que estava a ponto de atracar na base no 2 de maio. Mas, o plano foi suspenso durante algumas horas, já que o presidente do Peru, Belaúnde Terry, havia proposto um plano de paz para ambos lados em conflito. Anaya ordenou que o grupo ficasse em stand-by, já que uma eventual explosão em Gibraltar poderia colocar a pique um plano de paz que favoreceria a Argentina.

No entanto, nesse mesmo dia o cruzador argentino General Belgrano foi afundado pelo submarino britânico HSM Conqueror fora da área de guerra, entre as Malvinas e o continente. Anaya ordenou que o grupo prosseguisse em sua missão original de levar o conflito militar até a Europa.

ALMOÇO – No entanto, os argentinos não conseguiram sequer subir no bote. No dia 3 de maio, antes de chegar a Algeciras, quando estavam hospedados em um hotel em Málaga, chamaram a atenção de um delegado espanhol pelos gastos excessivos que estavam fazendo com dinheiro em espécie. Além disso, o delegado Miguel Catalán considerou que os argentinos eram “mal-encarados” e deduziu que deveriam ser narco-traficantes ou os integrantes de uma quadrilha de argentinos e uruguaios que nos meses prévios haviam assaltado joalherias no sul da Espanha. Quando os deteve, depois de verificar que os passaportes eram falsos, o policial descobriu o carregamento de explosivos.

Na delegacia, o chefe da missão, o capitão Rosales, pediu ao delegado um minuto a sós. Quando ficaram sozinhos no escritório, disse ao espanhol: “sou oficial da Marinha argentina. Estou em uma missão secreta. A partir deste momento me considerou prisioneiro de guerra e não direi uma palavra a mais”. O delegado respondeu rindo: “se você é um marinheiro argentino, eu sou o sobrinho do Papa!”

Os trâmites para a detenção do grupo eram lentos e burocráticos. Cansados, os argentinos propuseram aos policiais espanhóis que todos almoçassem juntos. À mesa, o grupo confessou a missão. O delegado espanhol respondeu: “que pena que você não me disse isso antes de ter comunicado sua detenção a meus superiores! Se tivesse sabido que iam afundar um navio inglês os teria deixado livres. No fim das contas, Gibraltar também é um território roubado pela Inglaterra”.

Mas, já era tarde para voltar atrás. Os argentinos foram colocados em sigilo pelo governo do primeiro-ministro Leopoldo Calvo Sotelo em um avião até as ilhas Canárias. Dali, foram embarcados rumo à Buenos Aires. O governo espanhol manteve silêncio sobre o evento, já que a Espanha havia entrado pouco tempo antes na OTAN.

Almirante Anaya: mentor do desembarque da ditadura nas Malvinas, retirou a frota do mar quando viu que as coisas iam de mal a pior na guerra contra a Grã-Bretanha.

CONDENADO - Em 1986 o ex-almirante Anaya foi condenado pelo Conselho Superior das Forças Armadas a 14 anos de prisão pela incompetência no comando da Guerra: “ele causou lesões graves à honra de nossas armas e feriu profundamente a fé da nação em seu valor e eficiência profissional”. Foi anistiado em 1990 pelo ex-presidente Carlos Menem.

Em 2006 foi acusado de 266 casos de sequestros de civis que teriam sido torturados e assassinados na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No entanto, poucas horas antes de sair de casa rumo ao tribunal, sofreu um ataque do coração. Anaya ficou em prisão domiciliária, com câncer, até que morreu em 2008.

  

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Publicidade da YPF nos anos 30

Após 15 horas de intensos debates o Senado argentino aprovou na madrugada desta quinta-feira a expropriação da companhia YPF de gás e petróleo, que até dez dias antes havia sido propriedade da empresa espanhola Repsol. O governo da presidente Cristina Kirchner conseguiu 63 votos a favor do projeto de lei. Três senadores votaram contra a expropriação, enquanto que quatro preferiram a abstenção. Em meio a uma sessão na qual não faltaram trocas de críticas entre os parlamentares, referências às políticas econômicas dos ex-presidentes Hipólito Yrigoyen, Juan Domingo Perón e Néstor Kirchner (e até referências sobre a obra “Anna Karenina”, do russo conde anarquista León Tolstoi), o governo obteve amplo respaldo de partidos da oposição.

No entanto, os senadores da União Cívica Radical (UCR) e a socialista Frente Ampla (FAP) exigiram que o governo Kirchner administre a YPF “de forma transparente” e mais eficaz do que a reestatizada Aerolíneas Argentinas, companhia que não conseguiu sair do déficit nos três anos transcorridos desde o confisco realizado pela presidente Cristina.

Antes da expropriação, a composição acionária da YPF dividia-se entre 57,43% da Repsol; 25,46% do argentino Grupo Petersen, além de 17,11% cotados na Bolsa (principalmente investidores dos EUA).

Com a expropriação, a relação de forças na YPF dividem-se em 26,03% das ações para o Estado argentino; 25,46% para o Grupo Petersen; 24,99% das províncias e 6,43% que permanecerão nas mãos da Repsol. Outros 17,09% continuarão sendo cotados na Bolsa.

Cartaz pede uma YPF 100% estatal e argentina.

CAPITALISMOS E CAPITALISMOS - “Não dá para continuar importando petróleo”, exclamou no início da madrugada o kirchnerista senador Aníbal Fernández, ex-chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, em defesa da expropriação da empresa. “Precisamos de auto-abastecimento”, afirmou. O senador Miguel Ángel Pichetto, chefe do bloco kirchnerista, disparou fortes críticas contra a administração da Repsol nos últimos 13 anos. Depois, sustentou que “o capitalismo espanhol, ao contrário do capitalismo anglo-saxão, é depredador”.

Pichetto também sustentou que esta expropriação era um “alerta às empresas que (estão instaladas na Argentina mas) não investem”. O comentário do parlamentar – que nos anos 90 respaldou a privatização e atualmente é um estatizador – gerou rumores sobre eventuais novas expropriações de empresas estrangeiras no país nos próximos tempos.

Entre os representantes da oposição, a senadora Norma Morandini, da Frente Ampla, considerou que o projeto “não passa de uma chantagem emocional”. Morandini, que sempre defendeu uma YPF estatal, discordava da forma como o governo Kirchner estava realizando esta expropriação. Na mesma linha, a senadora Maria Eugenia Estenssoro, da Coalizão Cívica, criticou o projeto da presidente Cristina: “para mim é impossível respaldar esta iniciativa. Isto é uma grande fraude emocional que estão fazendo para os argentinos. Por trás desta expropriação existem muitas irregularidades”.

A discussão e votação na Câmara de Deputados começará no dia 2 de maio e, após um intervalo na madrugada, concluirá no dia 3. Ali, tudo indica, o governo também conseguiria aprovar o polêmico projeto de lei com confortável margem de votos. Segundo o chefe do bloco kirchnerista na Câmara, o deputado Agustín Rossi, o governo obteria pelo menos 200 votos de um total de 257.

Caricatura da guerra hispano-americana. Os espanhóis saem de Cuba e arriam bandeira enquanto entram os americanos.

OS YANKEES ESTÃO CHEGANDO (SAEM OS ESPANHÓIS) - Uma semana e meia depois de ter removido de forma compulsória a espanhola Repsol do controle da empresa YPF de gás e petróleo, o governo Kirchner iniciou uma série de reuniões com os CEOs de multinacionais estrangeiras. O objetivo do governo é o de seduzi-las a investir nas áreas confiscadas à Repsol e de formar parcerias com a expropriada YPF.

Um dos encarregados da estratégia de sedução é o ministro do Planejamento Federal e Obras Públicas, Julio De Vido, designado pela presidente Cristina para o cargo de interventor da YPF. De Vido – que acompanha o casal Kirchner desde que Nestor Kirchner era prefeito da cidade de Rio Gallegos, em 1987 – é o homem-forte da presidente Cristina na área energética. Nos últimos nove anos ele comandou as alianças estratégicas com a estatal venezuelana PDVSA e é suspeito de vários escândalos de corrupção envolvendo a construção de gasodutos no sul e norte da Argentina.

De Vido é acompanhado do jovem vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, designado por Cristina para o posto de vice-interventor da YPF. Kicillof é o autor do projeto de expropriação da empresa, é considerado o “mentor” econômico da presidente argentina. O vice-ministro é um dos principais homens de “La Cámpora”, denominação da organização que congrega a Juventude Kirchnerista.

De Vido e Kicillof receberam Roger Becker, vice-presidente da área de exploração da Exxon, a maior empresa petrolífera dos EUA. Durante o encontro, analisaram a possibilidade de que a companhia americana produza gás e petróleo na Argentina. Segundo o governo, a Exxon “manifestou seu interesse em participar do desenvolvimento de hidrocarbonetos não-convencionais na província de Neuquén, onde existem áreas adjudicadas, algumas delas em associação com a YPF”.

A área que desperta o interesse da Exxon é a região de Vaca Muerta, a maior jazida de gás não-convencional da Argentina, descoberta há dois anos pela espanhola Repsol.

O governo Kirchner também teve reuniões com a Chevron, empresa que o ministro De Vido quer convencer a explorar a província de Chubut. Neste caso, a ideia é que a Chevron faça, além de investimentos próprios, parcerias com a YPF.

De Vido e Kicillof também reuniram-se com empresas canadenses, chinesas e francesas.

REESTATIZAÇÕES – Os críticos do governo afirmam que a nova YPF deveria evitar as falhas da reestatizada empresa Aguas Argentinas. A companhia, rebatizada de “Aysa”, recebeu US$ 681 milhões no ano passado das mãos do governo Kirchner. No entanto, quase um terço da quantia foi utilizada para financiar seu déficit.

Mas, as principais críticas são direcionadas contra a Aerolíneas Argentinas, que em 2011 registrou perdas diárias de US$ 2 milhões. Do total de US$ 757 milhões de fundos públicos recebidos no ano passado, a empresa – com boa parte da frota sucateada – destinou somente US$ 94 milhões para a compra de novos aviões. O resto foi utilizado para cobrir o déficit da companhia, que é administrada por integrantes de “La Cámpora”, denominação da Juventude Kirchnerista, que transformou-se na ala “ultra-kirchnerista” do governo.

INDUSTRIAIS – O presidente da União Industrial Argentina (UIA), José Ignácio De Mendiguren – ex-ministro da Produção em 2002, durante o governo do presidente provisório Eduardo Duhalde – declarou seu respaldo à expropriação da YPF. Segundo ele, “a capacidade do país em gerar energia em quantidade, qualidade e segurança de abastecimento, além de custos razoáveis, é de vital importância para o desenvolvimento da indústria argentina”.

No entanto, os industriais locais – que estão de olho no fornecimento de serviços e equipamentos para a nova e nacional YPF – pediram que o governo “siga os passos institucionais, jurídicos e normativos para garantir o adequado desenvolvimento do processo de expropriação”.

VIZINHANÇA - Do outro lado da Cordilheira dos Andes, no Chile, Matias Mori, o vice-presidente do Comitê de Investimentos Estrangeiros – um organismo estatal composto pelo ministério da Economia, Banco Central, a chancelaria e o Planejamento – afirmou que toda a região corre o risco de entrar em uma “lista negra” internacional depois do confisco da YPF por parte do governo argentino.

No ano passado o Chile recebeu investimentos de US$ 17,53 bilhões, além de solicitações para outros US$ 6 bilhões. Mas, o fato de ter um vizinho complicado – neste caso, a Argentina – pode trazer problemas, indicou Mori com uma metáfora urbanística: “não adianta de nada ter a casa mais bonita se o bairro fica feio perante a ótica dos investidores”.

No entanto, Mori não descarta que surja um cenário no qual, os investidores internacionais não encarem a região como um todo, mas sim, privilegiem somente os países “com políticas mais estáveis na área de investimentos”. Neste caso, sustenta, “o Chile seria beneficiado”.

PESQUISA - A expropriação da YPF conta com a aprovação de 62% dos argentinos, segundo uma pesquisa elaborada pela Poliarquia, uma consultoria independente de opinião pública. A estatização da companhia tem a rejeição de 31%, enquanto que os indecisos constituem 7%. A companhia, que era a subsidiária argentina da espanhola Repsol, foi extraditada, sem negociações prévias – e sequer indenização – por ordem da presidente Cristina, que celebrou a “recuperação da soberania energética”.

No entanto, o controle da YPF possui um respaldo “crítico” dos argentinos, já que 44% dos pesquisados consideram que o governo de Cristina e o ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) são os responsáveis pela queda de produção de gás e petróleo do país. Uma proporção inferior, 36% acreditam que a culpa é da iniciativa privada.

A pesquisa da Poliarquia sustenta que 49% dos entrevistados consideram que a expropriação terá um impacto positivo na economia argentina, enquanto que 31% acredita que o efeito será negativo. No entanto, 47% dos pesquisados admitem que a estatização da empresa, arrancada da Repsol, provoca uma imagem negativa da Argentina no exterior. Somente 22% consideram que a operação ordenada pela presidente Cristina melhorará a imagem do país.

YPF, ESTATIZADA, PRIVATIZADA E “ARGENTINIZADA”

A companhia petrolífera YPF, fundada em 1922, foi a principal estatal argentina até 1992, quando, dentro do processo de privatizações realizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99), foi vendida para um grupo de empresários argentinos. Na época, a privatização foi respaldada enfaticamente pela então deputada Cristina Kirchner e seu marido, Nestor Kirchner, que era o governador da petrolífera província de Santa Cruz. O Estado nacional ficou com 20% das ações.

No entanto, na segunda metade da década dos 90, as crises mexicana, russa e japonesa abalaram a economia argentina. Sem cash, as províncias começaram a vender suas ações. Os empregados da YPF, que tinham 10%, também desprenderam-se dos papéis da companhia. Em 1999, depois da desvalorização do real no Brasil, Menem – cujo governo estava com problemas para cumprir as metas fiscais com o FMI – ordenou a venda das ações do Estado nacional, e assim, obter os recursos que precisava.

Desta forma, nesse ano, o Estado e os empresários argentinos venderam a totalidade da YPF à espanhola Repsol. A partir dali, a YPF passou a representar metade do faturamento do grupo ibérico. O management da companhia foi deslocado de Buenos Aires para Madri.

Em 2004 o então presidente Nestor Kirchner, sem cacife político nem fundos para reestatizar a YPF, anunciou a criação de uma nova estatal petrolífera, a Enarsa, chamada ironicamente de “a mini-YPF”. O plano inicial de Kirchner era que a Enarsa – sem dinheiro, nem equipamento – poderia crescer graças a alianças estratégicas com a venezuelana PDVSA e a Petrobrás. No entanto, a mini-estatal permaneceu com baixo perfil ao longo dos últimos oito anos, praticamente sem sair do papel.

Mas, em 2007, Kirchner mudou de estratégia e decidiu respaldar os Eskenazi, família de empresários argentinos, donos do Grupo Petersen, a comprar 15% das ações da YPF à Repsol. A partir dali, a presença argentina – embora privada – começou a aumentar. No início de 2011 os Eskenazi compraram outros 10%.

No entanto, ao longo do ano passado, os Ezkenazi caíram em desgraça com a presidente Cristina, que começou a buscar alternativas para que empresários amigos comprem sua parte. A meta é a “argentinização” da empresa que foi estatal e privatizada.

Nos anos 90: Néstor Kirchner, governador de Santa Cruz; Carlos Menem, presidente da República, e Cristina Kirchner, parlamentar.

  

E, nada a ver com a postagem acima, um pouco de tango: com Julio Sosa, “Nada”:

http://www.youtube.com/watch?v=e-BAr8ZOlgc&list=PL38B1118CDEFB3B69&feature=plpp_play_all

  

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Comentários (4)| Comente!

Pneus, liquidificadores e eletrônicos são “espécies em extinção” nas lojas. Na foto acima, Lívia Stevaux, estudante brasileira que reside na Argentina desde 2006, exibe seu amado ferro de passar roupa e ironiza a sui generis situação criada pelas barreiras do secretário G.Moreno: “o bom das barreiras nas importações é que me fizeram ver meus eletrodomésticos quase como um animal de estimação, que merecem todo o carinho e amor…”. Com o liquidificador não houve jeito. Ele passou desta pra melhor e é impossível encontrar um substituto.

“Não queremos importar nem um prego! Queremos que tudo seja produto argentino!”. Com estas palavras, pronunciadas em dezembro passado, poucos dias antes da posse de seu segundo mandato, a presidente Cristina Kirchner deixou claro que sua cruzada anti-importações era a sério. O governo em peso está mobilizado para blindar as fronteiras da Argentina e evitar o máximo possível a entrada de produtos estrangeiros. Os próprios sócios do Mercosul – entre os quais o Brasil – também foram atingidos pelas barreiras, que violam o espírito de livre comércio do bloco do Cone Sul.

No início deste mês, 40 países, entre os quais os EUA, os integrantes da União Europeia e o México, denunciaram na Organização Mundial do Comércio (OMC) “séria preocupação” pelas barreiras impostas pela Argentina. No entanto, o governo Kirchner não se intimidou com a possibilidade de um isolamento internacional cada vez maior e ressaltou que pretende continuar em sua política comercial.

Segundo o vice-presidente argentino, Amado Boudou, a política protecionista “é útil para todos os argentinos…Não estamos contra as importações. Estamos protegendo a indústria argentina”.

Atualmente são escassos na Argentina pneus importados para ônibus, telefones Blackberry, discos duros para notebooks, peças para aparelhos de tomografia, fraldas (além do gel para fabricá-las), agulhas para extração de sangue de bebês, líquido para revelação de raios-x, máquinas para tratamento de madeiras, peças para câmeras fotográficas, shampoos da marca Pantene, produtos da Nike, Adidas, Lacoste e Zara, além de Levi’s, entre outros produtos.

As facas Tramontina – apreciadas pelos argentinos há mais de duas décadas – também estão em falta. As barreiras para a entrada desse produto levaram a empresa a rescindir o contrato de patrocínio que tinha com o clube River Plate em fevereiro passado.

A falta de produtos gerou um boom de comentários na rede de micro-bloggings Twitter. No hashtag #Falta, os consumidores argentinos reclamam da ausência de diversos produtos nos comércios em todo o país.

ESPÉCIE EM EXTINÇÃO - Os ferros de passar e os liquidificadores tornaram-se uma espécie em extinção nas lojas de eletrodomésticos na Argentina. Desde dezembro, milhares de argentinos atravessam o rio da Prata para comprar ferros no Uruguai. “Quem tem um ferro deve cuidá-lo como se fosse o vaso de cristal herdado da avó!”, exclama Petrona Aguirre, dona de casa do bairro de Caballito. “Várias amigas cujos ferros quebraram tiveram que comprar de segunda mão”, explica.

Segundo Diego Noriega, diretor da Alamaula.com, companhia do E-Bay, a demanda de eletrodomésticos usados aumentou em 1.200% desde dezembro na Argentina. “Por causa das barreiras na alfândega ferros e liquidificadores tiveram um aumento enorme na demanda. E esta é muito maior que a oferta”.

“Ia trazer um liquidificador do Brasil. Mas, lembrei que a voltagem aqui é 220 e desisti”, relata ao Estado Lívia Stevaux, estudante brasileira que reside na Argentina desde 2006. “Tinha um liquidificador antes, mas acabou quebrando quando fui fazer mousse de maracujá e não travei bem. Resultado: leite condensado por todo o “motor” do coitado. O liquidificador que estou usando agora é emprestado”. Depois, lamenta: “tenho que devolver o aparelho na semana que vem”.

Lívia possui um ferro de passar roupa que cuida com extrema delicadeza. Com ironia, comenta: “o bom das barreiras nas importações é que me fizeram ver meus eletrodomésticos quase como um animal de estimação, que merecem todo o carinho e amor…”.

VITRINES HUMILDES - Grandes empresas como a Apple e a Sony exibem vitrines humildes, já que os produtos não são liberados nos containers no porto. Um dos casos é a playstation PS Vita, da Sony, empresa que – segundo informações extraoficiais – teve que demitir mais de 50 pessoas no país nas últimas semanas.

Outros produtos eletrônicos também estão padecendo problemas, que levam os consumidores ao desespero ou a resignação. Esse é o caso de Mathias Rothkopf, que disse ao Estado que, por causa da falta de insumos para eletrônicos, teve que vender um computador que não conseguia consertar por falta de peças. “O cara que comprou meu computador estava muito feliz, porque desmancharia a máquina para revender peças que estão faltando no mercado”, explicou. “Computadores usados são um elemento muito apreciado hoje em dia em Buenos Aires, mesmo que não funcionem”.

A vaidade feminina também está em xeque na Argentina, já que faltam diversas linhas de cosméticos, entre eles os da Natura, Mary Kay e Avon. Para evitar problemas, os catálogos somente exibem os produtos que estão em estoque.

Apesar do cenário de escassez, não adianta ficar nervoso. Caso os consumidores angustiem-se com a falta de produtos, deverão fazer o possível para contornar essa situação por conta própria, já que as barreiras de Guillermo Moreno também atingiram a entrada de ansiolíticos como o Rivotril e Lexotan. “O problema é que a produção local de genéricos desses produtos não é suficiente para cobrir a crescente falta de tranquilizantes”, disse ao Estado o diretor de uma empresa farmacêutica em off. “Coincidentemente, alguns laxantes também começam a escassear”, acrescentou com ironia. As barreiras também bloquearam na fronteira produtos eróticos como vibradores e tecidos especiais para lingerie.

A gastronomia japonesa na Argentina também está em colapso, já que praticamente não há salmão disponível para o sushi. “E quando entra, é com aumento de 15%”, explicam fontes do setor.

Aquele ferro de passar da bisavó Henriqueta? Bom, tente reaproveitá-lo…

LOJAS FECHADAS - O setor de construção civil padece a falta de vários tipos de materiais de encanamento e torneiras. Os vasos sanitários e bidês italianos desapareceram do mercado e os consumidores precisam recorrer ao leque reduzido que a indústria nacional oferece.

O setor vinícola também está em problemas, já que as adegas padecem a falta de peças para as colheitadeiras e produtos químicos para os vinhedos. Perante este cenário, várias empresas vinícolas tiveram que suspender ou atrasar suas vendas ao exterior.

As restrições às importações, com a consequente falta de insumos, estão provocando demissões e fechamentos de comércios em todo o país.

Lojas que abasteciam-se totalmente de produtos provenientes do exterior, como a Barbour, tradicional marca inglesa de jaquetas impermeáveis, languideceram ao longo do último ano. Em março, com as prateleiras quase vazias, a Barbour fechou suas portas em pleno bairro da Recoleta, em Buenos Aires. Outra tradicional marca de roupas, a Daniel Hechter, está a ponto de fechar suas portas na elegante avenida Santa Fe.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Edmundo Rivero, o emblemático cantor de tangos e milongas que compôs o irônico “Amablemente” (Amavelmente)

“Y luego, besuqueándole la frente, con gran tranqüilidade, amablemente, le fajó treinta y cuatro puñaladas” (E na sequência, beijando-a na testa, com grande tranquilidade, amavelmente, lhe desferiu trinta e quatro punhaladas). Esses são os versos finais do tango “Amablemente” (Amavelmente), do compositor e cantor Edmundo Rivero. A letra ilustra bem o comportamento mutável dos governos do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua sucessora Cristina Kirchner com a Petrobrás, empresa do principal parceiro estratégico da Argentina, que desembarcou no país em grande estilo em 2002, quando adquiriu os ativos da Pérez Companc (Pecom), que era a última grande empresa privada do setor energético da Argentina que ainda estava em mãos nacionais.

Na época, a compra quase foi a pique pela oposição do presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003). No entanto, depois de ter driblado os obstáculos, a Petrobrás também teve problemas com o sucessor de Duhalde, Néstor Kirchner (2003-2007), que também preferia que empresários argentinos amigáveis com o governo controlassem os ativos adquiridos pela empresa brasileira.

Para embalar a leitura, “Amablemente”, com Edmundo Rivero. Gravação ao vivo, no El Viejo Almacén.

 http://www.youtube.com/watch?v=QJG_LkQJSYs

Em 2004 Kirchner exigiu que a Petrobrás Energia – nome da subsidiária argentina – colocasse os fundos que faltavam para a conclusão da ampliação do gasoduto San Martín, que liga o sul da Argentina com a Grande Buenos Aires. Nervoso, durante um encontro na Casa Rosada com o então chanceler Celso Amorim, Kirchner esbravejou duramente sobre o assunto. Ou, mais especificamente, teve um inesperado e frenético esperneio na frente do ministro. A crise só foi suspensa graças à intervenção do BNDES, que enviou os fundos exigidos pelo presidente. Na seqüência, Kirchner fez longos elogios à capacidade tecnológica da Petrobrás e à associação estratégica com o Brasil.

Um ano depois a Petrobrás Energia começou a sofrer pressões de Kirchner para vender a participação acionária que possuía na Transener (companhia responsável pela maior parte da distribuição da energia elétrica no país). A empresa retrucou, afirmando que no contrato a venda dessas ações era “voluntária” e sem prazo determinado. Mas, Kirchner continuou pressionando e a Petrobrás teve que colocar as ações à venda. A opção da empresa era vender às ações à americana Eton Park. No entanto, Kirchner bloqueou a operação e forçou a venda à empresa argentina Electroingeniería, de empresários com vinculados aos Kirchners.

O ano 2012 começou com novos problemas, pois a Petrobrás – junto com outras companhias petrolíferas – foram acusadas por Cristina Kirchner de “cartelização de preços” e ameaçadas com aplicação da “Lei do Abastecimento”, que consiste em ações de castigo às empresas que sejam consideradas responsáveis por alta de preços e desabastecimento. A lei permite que o governo confisque mercadorias, coloque executivos na prisão e feche empresas.

MAIS INVESTIMENTOS - No dia 7 de março o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, reuniu-se em Buenos Aires com o ministro do Planejamento Federal, Julio De Vido, e a presidente Cristina. Na ocasião, Lobão declarou que Cristina havia pedido “mais investimentos da Petrobrás na Argentina”.

Lobão relativizou a venda de 365 postos de gasolina (de um total de 565 postos) e de uma refinaria da Petrobrás na Argentina realizada em 2010: “sim, a empresa reduziu sua presença aqui…mas pode voltar a aumentar nossa atuação!”

Essa foi a segunda vez em menos de um mês que o governo Kirchner pediu “mais investimentos” da Petrobrás na Argentina. Em fevereiro o ministro De Vido havia estado em Brasília com o mesmo pedido. Na segunda-feira, durante o discurso de anúncio da expropriação da YPF, a presidente citou a Petrobrás como modelo a seguir de sociedade anônima. Ela também sugeriu, muito superficialmente, a necessidade de uma “parceria” com a empresa brasileira na YPF.

Na sexta-feira, De Vido, o braço-direito de Cristina na área energética, esteve em Brasília para uma reunião com a presidente da Petrobrás, Maria das Graças Silva Foster e Lobão. Ali, pediu mais investimentos na Argentina.

  

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J.R. Videla e A. Strössner M.: Ditadores, respectivamente, da Argentina e do Paraguai. O paraguaio morreu em um confortável exílio. O argentino está preso, por crimes contra a Humanidade. Em um novo livro, o “Disposição Final”, Videla admite o massacre de 7 mil a 8 mil civis.

“Disposição final”. Esta era, segundo o ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, a expressão utilizada pelos militares para referir-se à eliminação dos prisioneiros civis da ditadura que governou a Argentina entre 1976 e 1983. Videla nega que os integrantes do regime que torturou e assassinou 30 mil civis – segundo estimativas dos organismos de defesa dos direitos humanos – tivessem usado a expressão “Solução Final”, utilizada pelo Terceiro Reich para designar o genocídio de judeus. Segundo ele, a expressão aplicada, “Disposição Final”, “são duas palavras muito militares e significam retirar de serviço uma roupa que já não se usa ou que não serve porque está gasta…aí, passa para a Disposição Final!”.

As declarações de Videla foram publicadas no livro “Disposição Final – A confissão de Videla sobre os desaparecidos”, do jornalista Ceferino Reato. Na obra, o ex-ditador, que está preso há vários anos na cela número 5 da Unidade 34 do Serviço Penitenciário do quartel de Campo de Mayo por crimes contra a Humanidade, afirma que a ditadura “desapareceu” os corpos dos presos políticos para “evitar protestos dentro do país e no exterior”.

“Tínhamos que fazer algo que não fosse tão evidente (os desaparecimentos), de forma a evitar que a sociedade percebesse”, argumentou.

Segundo Videla, – que não se arrepende das mortes, pois afirmou a Reato que o assassinato de civis foi necessário para vencer a “Guerra contra a subversão” – a ditadura “eliminou” de 7 mil a 8 mil pessoas.

Videla sustenta que era impossível levar milhares de pessoas à justiça. “E tampouco podiam ser fuziladas”, explicou. “Mas eram pessoas que tinham que morrer para vencer a guerra contra a subversão”. O ex-general justificou as mortes: “eram pessoas irrecuperáveis”.

No livro, Videla também sustenta que não existem listas com o destino final dos desaparecidos. “Poderiam existir listas parciais, mas bagunçadas”.

Videla admitiu que o golpe militar de 1976, que deu início a uma ditadura de sete anos de duração, foi um “erro”. Segundo Videla, atualmente com 87 anos, a conquista do poder por parte dos quartéis foi “desnecessária” do ponto de vista militar. No entanto, o ex-ditador ressaltou que o objetivo dos generais com a derrubada da presidente civil Maria Estela Martinez de Perón (mais conhecida como “Isabelita”) era o de “disciplinar uma sociedade anarquizada”.

A líder da organização de defesa dos direitos humanos das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, anunciou que “deplora a falta de arrependimento” de Videla, que no livro afirma que Deus sempre esteve de seu lado.

Ceferino Reato, autor do livro com as declarações de Videla, afirmou neste fim de semana que havia ficado surpreso com a atitude do ex-ditador: “parecia que ele estava fazendo uma análise dos crimes que outra pessoa havia cometido, e não ele próprio!”

PRÉVIA - Em fevereiro, em declarações à revista espanhola “Cambio 16”, Videla por segunda vez desde o fim da ditadura quebrava seu silêncio com a imprensa (a primeira vez, no ano 2000, foi quando dois jornalistas argentinos o entrevistaram para sua primeira biografia não-autorizada, “El Dictador”). Na ocasião, afirmou que “a ditadura militar cumpriu seus objetivos” e admitiu a morte de 7 mil civis por parte da ditadura.

A declaração implicou em uma drástica mudança na posição de Videla, que durante as últimas três décadas, nos diversos julgamentos aos quais foi submetido, negou a existência de desaparecidos, da política sistemática de campos de concentração e da eliminação física dos críticos do regime.

OS DESAPARECIDOS – Os organismos de defesa dos direitos humanos na Argentina afirmam desde 1983 que a ditadura provocou 30 mil desaparecidos.

A Comissão Nacional de Desaparecidos (Conadep), comandada em 1985 pelo escritor Ernesto Sábato afirma a existência de 10 mil pessoas mortas pela ditadura.

Em 2002, ex-ditador Reynaldo Bignone (o último presidente da ditadura), declarou à TV francesa que militares mataram “somente” 8 mil civis.

BALANÇO SOCIAL, ECONÔMICO E MILITAR DA DITADURA - Ao longo de seus sete anos de duração, além da morte de milhares de civis, a maioria dos quais sem militância na guerrilha, os militares seqüestraram 500 bebês, filhos das desaparecidas, dos quais apenas 105 foram recuperados ou identificadas por suas famílias biológicas.

Centenas de milhares de pessoas se exilaram por motivos políticos e econômicos, já que na área financeira o regime militar argentino teve uma política caótica, que fez a dívida externa disparar de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

A inflação, nos sete anos de regime, aumentou de 182% anual para 343%, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%.

Além disso, a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978, que disparou o déficit fiscal. Depois, em 1982, protagonizou um estrepitoso fracasso militar na improvisada invasão das ilhas Malvinas.

 

Videla, no final da vida (ou pelo menos, próximo disso) volta a falar. Na época em que comandava o país ele não perdia uma chance de realizar discursos ou declarações. Na foto acima, Videla, no apogeu de seu poder, em 1979, fala – em transmissão ao vivo para a TV – com o jogador Diego Armando Maradona, após o triunfo da seleção juvenil no campeonato mundial do Japão. O jogador, na conversa, dedicou o triunfo “a usted (Videla) y todos los argentinos”. Maradona tinha 19 anos na época. No mesmo período, milhares de jovens argentinos, muitos dos quais mais novos que o jogador, estavam sendo torturados nos cárceres do regime militar por sua militância política. Videla soube capitalizar os dividendos políticos da Copa de 1978 e de outros eventos esportivos ao longo de seu governo.

  

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Amado Boudou, vice-presidente argentino, na 6afeira passada durante uma coletiva de imprensa que não permitiu perguntas dos jornalistas. Monólogo do vice, ex-ministro da Economia,durou 45 minutos.

O “Boudou-gate”, irônica denominação do escândalo de corrupção cujo principal suspeito é o vice-presidente Amado Boudou, provocou nesta terça-feira por efeitos colaterais a primeira baixa nas fileiras do governo com a renúncia do procurador-geral da República, Esteban Righi. O motivo da saída de Righi – um histórico peronista – foi a denúncia feita pelo vice-presidente na sexta-feira passada, quando acusou Righi e seus assessores de terem tentado suborná-lo em 2009. Na ocasião, Boudou, para esquivar explicações sobre seu suposto envolvimento em tráfico de influências, disparou acusações contra a mídia e integrantes da oposição. No entanto, causou surpresa ao atacar diversos aliados do governo, entre eles Righi.

“Meu passado me defende. A esta altura de minha carreira não tenho que me defender do ataque de Boudou”, teria dito Righi, visivelmente ofendido, a um grupo de amigos na segunda-feira à noite. Ontem à tarde, Righi apresentou formalmente sua renúncia à presidente Cristina. Na carta, o ex-procurador indica que as acusações de Boudou são falsas.

O vice é suspeito de tráfico de influências na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-americana, a maior gráfica do país especializada na impressão de cédulas de pesos.

O contrato da Casa da Moeda é para imprimir 50% do total das notas de 100 pesos (seriam 600 milhões de notas).

O dono da empresa, Alejandro Vanderbroele, é – segundo sua ex-esposa, Laura Muñoz – testa de ferro de Boudou. O vice-presidente, no entanto, afirmou publicamente que nunca viu Vanderbroele em sua vida. Mas, Muñoz retruca e afirma que seu ex e o vice são amigos de longa data. Por este motivo, o juiz Rafecas também está investigando Boudou por suposta lavagem de dinheiro.

Além disso, a Justiça investiga se Boudou interferiu a favor da suspensão do estado de falência da gráfica quando foi comprada por Vanderbroele.

Na quinta-feira passada o juiz federal Daniel Rafecas ordenou uma blitz no apartamento que Boudou possui no elegante bairro de Puerto Madero. O vice aluga o imóvel para Fabián Carosso Donatiello, sócio e amigo de Vanderbroele. Mas, na hora em que as forças de segurança entraram no apartamento para fazer a blitz, o imóvel estava totalmente vazio, já que o inquilino não visita o país desde o ano passado. No entanto, o juiz verificou que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo do apartamento que Boudou aluga para Donatiello.

Além disso, embora o vice diga que não possui vínculo algum com o empresário, Boudou mora em um apartamento em Puerto Madero que – coincidentemente - aluga de outro sócio de Vanderbroele.

Boudou participa de uma cerimônia oficial na Casa Rosada.

Na sexta-feira, perante o crescimento do escândalo, Boudou – “desesperado”, segundo os analistas políticos – convocou uma coletiva de imprensa para explicar sua posição. Mas, em vez de responder as perguntas dos jornalistas, fez um monólogo de 45 minutos ao longo dos quais lançou uma saraivada de acusações contra a oposição e alguns integrantes do próprio governo Kirchner.

Na segunda-feira, perante o crescimento de pedidos da oposição para que Boudou explicasse porque não havia denunciado a suposta tentativa de suborno feita pelos assessores de Righi, o vice-presidente foi aos tribunais apresentar uma denúncia contra o escritório de advogados do ex-procurador.

Segundo o vice, o escritório de advogados de Righi ofereceu fazer lobby para Boudou,para evitar problemas na Justiça (tal como possui agora, com Vanderbroele). Boudou rejeitou a oferta na época. E, coincide, que o promotor que pediu a investigação sobre o vice é Carlos Rívolo, protegido de Righi.

Boudou também acusou o juiz Rafecas, indicando que age como “uma agência de notícias”, filtrando informações à imprensa. Rafecas, até este escândalo, era um dos juízes mais elogiados pelo kirchnerismo.

O analista político e ex-embaixador Jorge Asís, sustenta que em seu “tobogã” de queda de popularidade “a presidente Cristina cometeu três erros gaves em relação a Boudou. O primeiro foi designá-lo vice; o segundo, o de sustentá-lo mesmo quando o escândalo estava crescendo sem parar. O terceiro, o de ter armado uma defesa de seu vice quando já era tarde demais”.

O vice-presidente Boudou, segundo uma pesquisa elaborada pela consultoria Isonomia, está com a credibilidade arrasada: somente 15,4% dos entrevistados consideram que é totalmente inocente deste escândalo de corrupção.

O ataque a Righi feito por Boudou – que os peronistas tradicionalistas encaram como um ex-neoliberal arrivista no peronismo – foi criticado pelo filósofo Ricardo Foster, um dos líderes do Carta Abierta, grupo de intelectuais ultra-kirchneristas. “Tenho muito respeito por Righi e pelo juiz Rafecas”, disse Foster. “A Justiça seguirá seu caminho, independentemente do que o vice diga”, afirmou o filósofo, em uma inédita crítica a Boudou.

Setores da oposição pedem o julgamento político do vice. Além disso, dentro do próprio governo, um grupo quer que Boudou renuncie, enquanto outros setores consideram que isso implicaria em um imenso custo político. Em off, um alto ex-ministro do ex-presidente Nestor Kirchner afirmou ao Estado que “Cristina não removerá Boudou. Não somente porque isso implicaria em um custo político que ela não quer enfrentar. Mas, principalmente por teimosia. Ela quis colocar Boudou no posto de vice-presidente e não atura que alguém possa lhe recomendar o contrário”.

Na quarta-feira à noite a presidente Cristina Kirchner definiu que o novo procurador-geral da República será Daniel Reposo, homem que colaborou com Boudou em 2009 quando o então economista era o diretor da ANSES, o sistema previdenciário argentino.

No entanto, a designação de Reposo dependerá do Parlamento. Mas, ali o governo possui uma confortável maioria.

Esteban “Bebe” Righi, peronista militante há cinco décadas, renunciou por causa de Boudou, peronista há meia década.

1973, a “Primavera Peronista”: Esteban “Bebê” Righi, na extrema direita da foto. A seu lado, o então presidente Héctor Cámpora.

RIGHI, HISTÓRICO DA ESQUERDA PERONISTA – Esteban “Bebê” Righi – militante do partido peronista há meio século – foi ministro do interior durante os três meses de governo do presidente Héctor Cámpora, em 1973, quando centenas de prisioneiros políticos, entre os quais dezenas de montoneros, foram colocados em liberdade. O período, conhecido como a “primavera peronista”, é admirado pelos atuais integrantes do governo, a maioria dos quais eram jovens militantes nos anos 70, tal como a própria presidente Cristina Kirchner.

Righi, na época, tinha 35 anos. Sua juventude e sua cara arredondada valheram-lhe o apelido de “Bebê”.

Em 2005 o então presidente Nestor Kirchner designou Righi para o posto de procurador-geral da república. O experiente advogado deixou seu escritório, administrado por sua mulher e filho, que continuou com uma carteira de clientes que incluem o ministro do Planejamento Julio De Vido, o secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno e o ministro do Trabalho, Carlos Tomada.

No novo posto, Righi foi útil ao governo, arquivando uma série de denúncias de casos de corrupção da Era Kirchner.

 

“Bebê” Righi, recentemente, quando ainda era procurador-geral da República. Righi, com 50 anos de militância peronista, renunciou por causa de Boudou, que está no peronismo há pouco mais de meia década.

ROCK, I PHONE & NACIONAL y POPULAR - Boudou costuma exibir seus dotes de roqueiro amador tocando a guitarra elétrica em cerimônias do governo e comícios. O vice não conta com o respaldo de diversos setores internos do governo, especialmente os peronistas tradicionais, que consideram que Boudou tem um passado “excessivamente neoliberal”. Esses setores encaram o vice como um “arrivista” no estatizante kirchnerismo.

O vice coleciona canetas-tinteiro e motos Harley Davidson (obviamente, importadas). E é um fã dos eletrônicos feitos no exterior. No entanto, o vice faz pose de defensor do “nac y pop” (nacional y popular), denominação da política protecionista do kirchnerismo e de defesa da produção nacional.

Paradoxalmente, na semana passada Boudou protagonizou uma curiosa cena quando, pela rede de micro-bloggings Twitter defendeu a indústria nacional…desde um IPhone importado.

O comportamento de Boudou, definido como “fútil” pelos analistas políticos, parece ter preocupado a própria presidente Cristina. Em dezembro passado, antes de iniciar uma breve licença médica, interrompeu um discurso na Casa Rosada para virar para Boudou – que ficaria na presidência interina do país – e fazer um alerta: “vê lá o que vai fazer, hein? E isto que eu disse não é brincadeira!”

  

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