- Tiago, meu filho. Você pode ir ali na vendinha comprar ovos para o café da manhã?
- Claro pai! Me dá uma sacola aí por favor.
- Desencana. Vai rapidinho que eles te dão uma lá.
- Se tá maluco pai! De jeito nenhum! Eles vão me dar uma sacola de plástico! Me passa uma de pano aí!
Moramos em Bali há dois anos. A decisão de jogar a âncora aqui por um tempo nasceu da vontade de explorar o sudeste asiático, com a possibilidade de surfar as ondas perfeitas desta região (afinal também somos surfistas…rsrs).
A Green School é mais que uma escola. É quase uma filosofia de vida. Nela, a praxe do cotidiano é colocar a mão na massa em pró da sustentabilidade. Na prática e não na teoria.

As crianças não aprendem sob o ciclo do arroz nos livros. Colocam o chapéu e vão para os arrozais participar, do semear a festa da colheita.
Conceitos como criatividade, inovação e design são estimulados para que cada criança possa seguir o seu sonho, projeto de vida.
Jardins comestíveis plantados pelos alunos separam as salas de aula. Placas solares e uma engenhoca chamada vortex garantem a energia limpa e renovável. Banheiro com separação de líquidos e sólidos, plástico zero, cestas de bambu com folhas de bananeira para os lanches.

Tudo na escola é pensado em reduzir o impacto do homem na natureza e criar líderes para um futuro mais verde.
Contando com cerca de 300 alunos de quase 50 países, a escola abraça a comunidade balinesa. Cerca de 20% dos estudantes são nativos em regime de bolsa integral. Comércio justo: os que têm pagam para os que não podem. A ideia é construir pontes com a comunidade do entorno. Não há muros.

E todas as construções são de bambu, entre elas o Heart of School (o coração da escola, ou a catedral), como eles chamam o prédio sustentado por duas torres de 30 metros de altura.
Meu filho Tiago, agora com quase nove anos, cursando o terceiro ano, está se tornando um menino com sede de realizar a diferença pelo planeta. Meu coração enche de alegria quando o vejo recusando garrafas e sacolas de plástico, reciclando o lixo, apagando as luzes, criando brinquedos com papelão, doando o que não precisa.
Por falar nisso, o Tiago está participando de uma competição muito inspiradora chamada: The Greenest Student on Earth (o estudante mais verde da Terra), que vale uma bolsa integral de uma ano na escola. Seu projeto é muito interessante. Pretende produzir um vídeo reunindo: o que aprendeu na escola, os bons exemplos do povo balinês e soluções mundiais para o problema do lixo plástico.
Quem quiser ver o vídeo do Tiago, e melhor, puder votar nele, a gente agradece. É só clicar abaixo, assistir e votar. Afinal, nossa meta é ajudar a criar nele um líder para o Brasil do Futuro, um Brasil Verde, mais justo, menos desigual, que ama as suas florestas e todas as formas de vida. E que aprendendo, nos ensina também.
Sessão da Tarde, almoço, jogo de peteleco e rituais com os noviços birmaneses
O Mianmar ficou fechado por décadas para o turismo por conta de uma ditadura malvada que custou a vida de milhares de pessoas.
Chamada carinhosamente por aqui de The Lady, foi obrigada a passar quase três décadas em prisão domiciliar. Outros foram os monges budistas, massacrados na chamada Revolução Açafrão, em 2007, na cidade de Mandalay.
Em 1 de abril de 2011, o país promoveu a primeira eleição democrática válida em 40 anos, elegendo Suu Kyi para um posto no parlamento. Estávamos lá nos dias que precederam o pleito e pudemos notar a alegria do povo nas ruas e dos milhares de monges.
Quase 90% da população de 40 milhões de habitantes é praticante do budismo. E por mérito e tradição, ao menos uma vez na vida, entre os 10 e 20 anos, colocam seus filhos para o monastério.

Todos os anos cerca de 500 mil jovens participam do Shinpyu, o ritual de passagem que celebra a cerimônia dos noviços.
Por semanas, meses ou anos, eles farão parte da sangha (comunidade de monges) de algum dos 50 mil monastérios espalhados por todo o país, emprestando uma paz especial e um colorido a mais ao Mianmar.
Com Tiago e Luisa, conversamos e brincamos com eles várias vezes. Vou listar aqui os momentos e as passagens mais bacanas:
Em Nyaungshwe fica o mais fotografado mosteiro do Inle Lake, o tricentenário Shwe Yaunghwe Kyaung.
No mosteiro, fomos convidados a participar de um almoço vegetariano, regado a sopa de macarrão, vegetais e frutas. Logo após comer, os noviços ganharam um tempo para eles.

Alguns ficaram jogando peteleco, uma espécie de sinuca de dedo e convidaram o Tiago para brincar com eles. A Luisa adorou assistir
O que eu gostei de ver é que ganhando ou perdendo, eles sempre davam risada, se importando mais em se divertir do que competir.

Uma outra turma, desencanada do peteleco, preferiu ficar numa salinha, assistindo a um filme de Samurai, ao estilo Bruce Lee.
Quando a tarde chegou os monges foram tomar banho, lavar as túnicas escarlates e depois voltaram as orações, preenchendo os altares com flores e incensos à Buda.
Em Amarapura, uma das antigas capitais do reino, próxima a Mandalay, fica a ponte U-Brein, com quase dois quilômetros de extensão toda erguida em madeira em cima de um grande lago. Por unir um templo sagrado a um mosteiro onde vivem cerca de dois mil monges, a ponte é um eterno ir e vir dos fiéis.
Em Mingun, cidade histórica à beira do rio Irrawady – o mais importante do país, que o atravessa de norte à sul -, os pequenos monges gostam de brincar pelas escadarias do Templo Branco.
Em Mandalay, enfeitados como pequenos Sidarta Gautama, vimos as crianças participarem do ritual de limpeza nos templos para virar noviço. No dia seguinte, de cabeça raspada, os meninos receberão o robe escarlate; as meninas, o rosa.
Já em Bagan, a cidade perdida nas selvas, com dois mil templos erguidos entre os séculos 9 e 12, pudemos ver a devoção de monges mais velhos, jejuando e entoando mantras em templos vazios.
Num destes templos, contemplei um dos momentos mais bonitos da viagem. Junto à imagem de um Buda deitado de quase dez metros, uma monja cega de 90 anos passava a mão nos relevos da estátua, enquanto a sua guia descrevia as nuances. Ela era uma monja japonesa e me disse que sempre sonhou em visitar o Mianmar e agora que o país abriu, realizava um sonho. “Pena que perdi a visão” ela disse. Mas depois, apontando o coração sussurrou e riu. “Ainda posso sentir. E é lindo”.
Brincando com a criançada na ilha de Coron, Filipinas.
A pequena Coron é uma das mais de sete mil ilhas da Filipinas. Mas a única a abrigar os cerca de 2000 remanescentes do povo Tagbanua, que no dialeto local significa, o povo das águas.
Donos de uma das consideradas mais belas ilhas do planeta, com lagoas de água transparente, dezenas de pequenas praias cercadas por falésias rochosas, areia branca e coloridos arrecifes de corais, os Tagbanua administram pessoalmente o fluxo de turistas.
Eles moram em duas vilas no lado norte da ilha, territórios proibidos para turistas, distante duas horas de barco da vizinha ilha de Busuanga, onde os forasteiros, como nós, costumam ficar hospedados.

Em Busuanga o vai e vem de barcos é intenso. A ilha é a principal base para os passeios pela região de Coron
Depois de muito rodar em Busuanga, finalmente conseguimos achar e convencer o líder da comunidade, Rodolfo Aguilar, a nos levar para a vila de Cabugao, a maior delas.
Logo cedinho, fui com o Rodolfo no mercado comprar betelnut para presentear aos anciões e uma bola de basquete para a juventude. Depois entramos com Rodolfo numa pequena bangka, o tipo de embarcação local, e partimos.
Ao chegar em Cabugao não acreditamos na beleza e isolamento do lugar. O cenário parecia do filme do King Kong, de tão selvagem.
Os Tagbanua vivem da pesca, da roça e, principalmente, da lucrativa coleta de ninhos de andorinha, que nidificam nos altos penhascos de Coron.
Depois da coleta, os ninhos são vendido à China, onde a iguaria é conhecida (em inglês) como the Bird Nest Soup.
As crianças de Cabugao são muito amorosas. Queriam todas brincar com a pequena Luisa, que adorou a companhia.
Vivendo num mundo sem energia elétrica, sem TV, nem internet, elas inventam formas divertidas de brincar. Algumas são simples como trepar em árvores.
A mais legal de todas foi a guerra de tampinhas. Para fazer o brinquedo eles batem com um martelo numa tampinha de refrigerante, achatando-a. Depois fazem um furo no meio, passam um novelo de lã pelo furo, enrolam a linha e combatem.
O Tiago aprendeu a fazer o brinquedo e participou de animados combates com a criançada local.
Além de brincar, a criançada ajuda bastante seus familiares no cotidiano, indo cedinho coletar caranguejos no mangue, ou saindo para pescar .
A ilha de Coron poderia ser mais uma das Filipinas entregue aos grandes conglomerados do turismo. Mas graças a luta de Rodolfo Aguilar, espécie de herói, foi reconhecida como do povo Tagbanua.
“Esta proteção é para conservar nossa cultura” diz Rodolfo Aguilar, que aponta. “Veja a liberdade e felicidade de nossas crianças. Olhe a pureza da nossa água, do ar. E eles têm orgulho de nossa cultura.”

Quando chegamos de manhã na vila de Cabugao, esta senhora estava coletando algas. No finalzinho de tarde, ela ainda estava lá.
Se a natureza dependesse do exemplo dos Tagbanuas, nossas crianças iriam brincar num mar sempre limpinho e cheio de peixes. Eles são mesmo o povo das águas.
De como a família caiu na estrada e por onde este blog pretende te levar
“Caminante, no hay caminho, se hace caminho al andar” António Machado, poeta sevilhano
Eu caí na estrada em 1997 para um ano sabático na Ásia. Queria mudar de vida: parar de advogar, viajar pelo mundo e escrever sobre isso. Nessa odisseia conheci a Carol. Ela tinha vinte anos, mochilava pela Indonésia e acabara de comprar uma câmera profissional. Eu tinha 26. Juntamos os trapos, sonhos e começamos a trabalhar juntos, publicando matérias de viagem. Foi o começo de um soltar a voz nas estradas, do qual já não podíamos parar. E pouco importava aonde íamos chegar. O que nos interessava era viver intensamente o presente, focados no caminho do meio, agradecendo a cada novo dia, a dádiva de viajar.
Achei que nossa jornada chegara ao fim em 2004, quando a Carol ficou grávida do Tiago. Mas assim que o menino nasceu mudamos de ideia: “Se o guri pintou é porque quer entrar na barca”. Colocamos o miúdo na mochila e seguimos em frente.
Hoje, aos 8 anos, Tiago já esteve em 20 países dos cinco continentes e fala 4 línguas. A caçula da trupe, Luisa, nasceu em Bali em 2011, mas só na barriga da mãe visitou onze nações. Aos 4 meses, estreou no Mianmar. O aniversário de um ano foi nas Filipinas.
Viajar com a família mudou a nossa perspectiva da vida. Criança não é âncora, é vela, é alegria e companhia. É viajar vivendo um eterno romance incondicional da vida. É deleitar-se com o brilho de seus olhos a cada descoberta que fazem com a beleza da diversidade humana e natural desse lindo planeta. E quanto mais remoto for o lugar, e mais tradicional for a cultura do povo, mais nos sentimos pilhados a chegar lá.
Nesse Blog, pretendemos compartilhar o nosso olhar e sentir dessas viagens. Trazer à tona: dicas, percalços, inspirações, diálogos, entrevistas e conexões. Tudo que possa encorajar outras famílias a se jogar na estrada, seja qual for o caminho, seja qual for o destino. Afinal, como diria o poeta “se faz caminho ao andar”. Será um prazer tê-lo conosco.
Quem Somos:
O Pai: Edu Petta, 42, paulistano, formou-se em direito pela USP em 1994, pendurou o diploma na parede, e foi fazer o que ama: viajar, escrever e surfar nas melhores ondas do planeta.
A Mãe: Carol Da Riva, 36, paulistana, já fotografou em mais de 40 países. Colabora com revistas como a National Geographic Brasil, Viagem e Turismo, Eurobike e Horizonte Geográfico entre outras.
O Filho: Tiago, 8, ubatubense, é fotógrafo-mirim e artista. Ajuda a carregar as malas, a cuidar da mana e quando não está viajando, estuda na escola mais verde do mundo, a Green School (ainda falaremos dela), em Bali.
A Filha: Luisa, 1, depois de visitar 11 países em sua gestação, “escolheu Bali para nascer”. Aos 4 meses estreou do lado de fora da barriga no Mianmar. Apaixonada pelo irmão, água e música, por onde passa distribui sorrisos.
2013
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