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Do que não estava planejado

Thais Arbex

11 junho 2014 | 20:34

(Foto: Reprodução)

Confesso que estava me achando um máximo por ser uma grávida ativa e saudável. Não ficava contando vantagem por aí, mas me orgulhava de continuar seguindo minha rotina numa boa – cuidando de casa, de mim, organizando a chegada da Valentina, lendo os jornais e buscando o furo diário de cada dia. Claro que o pique já não é o mesmo, mas, no fundo, no fundo, eu tinha incorporado o padrão ‘gravidez tranquila’, tipo de celebridade. Mas eis que surgiu aquilo que não estava nos meus planos: ficar quase uma semana no hospital por causa de uma gripe.

Foi a primeira vez, nesses pouco mais de sete meses, que senti medo de verdade. Foram dois dias de cama até que o médico me mandasse para o pronto-socorro, já que os sintomas só pioravam. “Pode ser H1N1.” Senti um frio na espinha quando ouvi essa frase, mas me controlei para não entrar em pânico – àquela altura me desesperar só ia piorar tudo. No caminho para o hospital, no entanto, bateu o looping do inconformismo e da culpa: “estava tudo tão bem e, justo agora, na reta final, isso acontece? por quê?; o que fiz de errado?; será que a Valentina está bem?; e se for algo mais sério?”.

Já na triagem do pronto-socorro, descubro que o teste de H1N1 só era feito em pacientes que estivessem internados. E, antes mesmo que o médico confirmasse minha internação, minha mãe já estava à caminho do hospital. Aí aquele frio na espinha veio mais forte. Fiz exames de sangue, raio X e a cardiotocografia, que avalia a vitalidade fetal. Enquanto a enfermeira me conectava ao aparelho e me explicava que ele mostraria a frequência cardíaca da Valentina, meu pânico aumentava. “Será que estão me escondendo alguma coisa?”. Mas tive de me controlar.

O alívio só veio com os primeiros batimentos. Mesmo não tendo a certeza de que estava tudo bem com ela, ouvir seu coração me deixou mais segura. E, naquele instante, me aproximei mais da maternidade. A ficha do “em breve serei mãe” caiu de maneira tão forte, tipo um chacoalhão mesmo – daqueles que a vida dá de vez em quando para a gente acordar, sabe? Por mais que já tivesse ouvido algumas vezes “agora não é só você, tem uma outra pessoa aí dentro”, ainda não tinha entrado em contato, de fato, com o signficado dessa frase. O “eu sei” como resposta saía sem que eu pensasse muito. Era no automático mesmo.

Já no quarto, na ala da maternidade, sendo recebida por enfermeiras com máscara de proteção, senti o peso da responsabilidade. A gripe me derrubou justamente dias depois de eu começar a controlar os carboidratos das refeições – fruto do primeiro surto da gravidez por causa do ganho de peso. Não foi coincidência, eu sei.

Foram três dias até que o resultado saísse e confirmasse que, não, não era H1N1 e que eu poderia voltar para casa. Para mim, uma eternidade. Mas extremamente necessária.