Publicado na revista Wish
Como todo mundo, eu comecei pelo e-mail. Algumas vezes por dia, no meio de um texto, minimizava o Word e abria o Outlook. Não é que eu estivesse à espera de alguma mensagem importantíssima – como percebi com o tempo, importa menos a mensagem do que a expectativa em relação a ela, o milionésimo de segundo em que vemos surgir aquela linha em negrito e pensamos: quem será? O que dirá? É como a bolinha girando na roleta, a carta deslizando sobre o feltro verde, em sua direção; o futuro numa compota; o porvir num grão de areia.
Percebi que a coisa estava fugindo ao meu controle quando me peguei, diante da caixa de entrada vazia, clicando ansiosamente no ícone “enviar e receber” — uma, duas, três vezes em seguida. Como todo viciado, inventava justificativas para não encarar a situação. Dizia a mim mesmo: se clico tanto é porque pode ter algum e-mail preso ali, nalgum gargalo eletrônico, precisando apenas de uma chacoalhada pra cair. Ou: vai que alguém me escreveu justamente um segundo depois da primeira clicada? É preciso tentar de novo, e de novo, e…
Enquanto fiquei apenas no e-mail, a vida seguiu sua marcha – um pouco mais lenta, claro, devido a tantas interrupções postais, mas seguiu. O e-mail, agora sei, é a maconha do mundo digital. Viciante, sim, mas não muito nocivo. A droga que iniciaria minha derrocada, a cocaína do mundo virtual, ainda estava para ser inventada: o Orkut.
Quando ele apareceu, em 2006, eu caí de nariz. Abandonava trabalho, família, interrompia sexo e refeições no meio só para percorrer, de um lado pro outro, eufórico, as catacumbas sem fim daquele inferno azul bebê. Brotava conhecido de tudo quanto era lado: primo que você não via desde 83, namoradinha da terceira série, a turma inteira do segundo B se comunicando: “não acredito, o Luba virou veterinário!”, “nossa, a Vanessinha ficou gostosa!”, “quem aí lembra da Mariana Leme, que espirrou na aula de ciências e voou meleca na professora?!”.
Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social.
Tentei me salvar. Saí do Orkut e disse a mim mesmo: vou me curar. Vou tirar os olhos da tela e recolocá-los no mundo. Veio o Myspace, eu ignorei. Vieram o Linkdim e o Flicker, não dei bola. Mesmo diante do Facebook, a rede de todas as redes, evitei a recaída. Até que surgiu o Twitter. “Que mal tem?”, me perguntaram os falsos amigos. “São só 140 caracteres! Experimenta, todo mundo usa: O Obama, o Tom Waits, a Xuxa! Vai!” Eu fui.
Se o e-mail era a maconha e o Orkut a cocaína, o Twitter é o crack. Nos dois meses seguintes, eu fingi que trabalhava, eu fingi que conversava, eu fingi que vivia, mas minha cabeça estava todo o tempo pensando em sacadinhas para tuitar. Ouço um trovão, penso: “chuva, raio, São Pedro… O que pode haver de engraçado e curto, aí?”. Panetones surgem no mercado, começo: “panetones, natal, mercado, vamos lá, Antonio, o que dá pra escrever em 140 toques sobre o assunto?” Nos últimos meses, vi jogos de futebol, debates e a reprise de Vale Tudo com o lap top no colo, tuitando, retuitando, checando retuites, até minha cabeça dar tilt.
Foi no salvamento dos mineiros chilenos que me dei conta da gravidade da situação. Ao vê-los ali, nas entranhas da Terra, e ter o sentimento de solidariedade solapado pelo desejo de tuitar piadinhas, percebi que era eu quem estava no fundo do poço. Como o drogado que rouba a mãe para alimentar o vício, eu estava prestes a abrir mão da dignidade em troca de 140 caracteres engraçadinhos.
Nas 24 horas seguintes, enquanto a Phenix trazia os mineiros da escuridão da caverna para as luzes dos flashes, eu viajava de avião, barco e canoa para um vilarejo isolado, às margens do rio Tapajós, onde agora me encontro. Aqui não há computador, luz, nem mesmo caneta esferográfica. Escrevo essa crônica com um toco de carvão, num pedaço de papel de embrulho. Seu Leôncio, um garimpeiro amigo meu, é quem a enviará à Wish, por telex, em São Nonato do Caribó, cidade mais próxima. Espero que o isolamento funcione, pois do twitter, assim como do crack, só existem duas saídas: a cura ou a morte. Seja o que Deus quiser.
Fenomenal!
Fantastico o texto!
Venha para o Twitteiros Conhecidos porque de anonimo não tem é nada!
Abraço
Colucci
@antoniocolucci
Caro Antonio,
Ler seu triste texto me lembra do meu próprio calvário. Mas não sou viciado em Twitter, sou um Google Reader junkie.
Clico toda hora em refresh para ter em primeira mão alguma atualização dos cerca de 50 sites e blogs cadastrados, incluindo o teu.
Pena que vc não vai ler meu comentário.
[...] This post was mentioned on Twitter by Gabriel Louback, Braulio Mendes, Andy , Iramaya, Juliana Campoy and others. Juliana Campoy said: Para os twitteiros viciados de plantão: http://bit.ly/iaEdMn (por @antonioprata) [...]
Muito bom o texto.
Se deixar, a internet vira um vício mesmo – e a gente passa a achar que está perdendo alguma coisa se não conectar, quando na verdade está perdendo o que acontece “aqui fora”.
A diferença em relação a mim é que você sacou o peso desse vício enquanto rolava uma tragédia; você viu que o mundo não gira em torno de um umbigo desenhado por 140 caracteres. Foi nobre da sua parte. Já eu percebi lendo um texto na internet a respeito. Quando li o relato demorei um tempão para digerir e confesso que me senti um idiota que só faltava publicar no twitter o que comeu no almoço. Depois disso, resolvi maneirar.
Indico a você, vale a pena:
“Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social”.
Pi-or!!
antonio, genial como sempre. beijo antonio!
Senti enorme simpatia por você agora.
Parabéns, vi o MIME na lista dos melhores da década da Bravo. Super merecido!
Tá, e você ainda coloca a paradinha pra tweetar seu link? Meu ovo mano.
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Cheiradaço
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E-mail
Orkut
Myspace
Linkdim
Flicker
Facebook
Twitter
WikiLeaks
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solidarizo-me : ) rs
não conhecia esse espaço, foi graças a uma postagem no facebook.é por essa e outras que não abandono, chega coisa boa por lá rs.
“Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social”. (2)
num gostei desse…
Antonio, aposto que quase todo mundo que leu o texto se identificou. Eu, pelo menos, me identifiquei muito. E o que pode ser tao urgente e importante assim que faz a gente checar tudo o tempo todo, ne? Acho que a gente, no fundo, espera que apareca la alguma coisa pra nos salvar do tedio.
Beijos
Eu aperto muitas vezes o “enviar e receber todas” e isso me da uma agunia..hehehehehehhehe
Pensei que era só eu..
Abraço
Antonio,
Comecei a ler seus textos na Capricho há uns 8 ou 9 anos. É incrível ver como seus textos cresceram conosco estes anos, e o melhor ainda, sem perder qualidade! Fui no lançamento do livro “Estive Pensando” há muito tempo também… Sempre gostei dos seus textos!
Estou adorando acompanhá-lo no Estadão.
: )
2010
2009
2008
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