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Antonio Prata

16.novembro.2010 19:14:51

Rodízio

Nem a Biblioteca de Alexandria nem o acelerador de Hádrons, as pontes estaiadas ou as viagens à lua, o transplante de coração ou a Nona Sinfonia de Beethoven: o ápice da civilização é uma churrascaria rodízio.

Das savanas africanas até a plaquetinha verde/vermelho, foi uma longa caminhada. Durante o trajeto, nós pastamos bastante e comemos o pão que o diabo amassou. Alguns companheiros foram atropelados por mamutes ou viraram comida de leão, bateram os queixos e as botas em invernos sem fim ou voltaram ao pó do qual vieram em desertos escaldantes. Tivemos que cruzar o Bojador, passar além da dor, atravessar o estreito de Bering e remar da polinésia ao Chile, em barcaças de palha; foi preciso inventar a matemática e a irrigação, entender o movimento dos astros e o comportamento da matéria, mas ora, vejam só – “o senhor aceita uma picanha argentina?” – vencemos! Dominamos a natureza – “sim, mal passada, por favor” – e a churrascaria rodízio nada mais é, meus amigos, que a festa de comemoração de nosso triunfo – “Mais uma fatia, por favor. Obrigado”.

Alguém já disse que os jardins eram a vingança do homem contra a selva. O canteiro seria a floresta subjugada. A planta no vaso, um souvenir do passado adverso, como um pedaço do muro de Berlim, um cartucho da Segunda Guerra. Ora, se o jardim é um índice de nossa vitória, o que falar dos bufês de salada das churrascarias? As folhas de alface, rúcula e agrião, o tomate, a cenoura e os rabanetes, todos ali, fresquinhos e com gotículas de água, a provocar nossas papilas gustativas e tripudiar do passado não muito distante em que éramos a presa assustada na garganta da floresta: chuuuuupa, natureza ingrata! Em breve a ti voltaremos, seremos os minerais absorvidos por suas raízes, mas nesse ínterim, aqui estamos, topo da pirâmide alimentar, bípedes mamíferos, córtex cerebral evoluído e polegar opositor, colorindo com seus despojos o branco de nossos pratos.

Nós nos esquecemos, porque a amnésia parece ser uma das características marcantes da nossa espécie, mas a maior parte do tempo que passamos sobre a Terra, o passamos batalhando miseravelmente por comida. Começamos como mendigos, colhendo apenas as esmolas dos galhos das árvores, esperando que um raio caísse dos céus na cabeça de um quadrúpede para que comêssemos carne assada. Deveríamos, toda vez que entramos numa churrascaria rodízio, fazer um minuto de silêncio em homenagem aos supracitados camaradas que ficaram pelo caminho diante de perrengues glaciais, animais, virais, etecétera e tais. Acho que tínhamos até que construir estátuas para o Coletor Desconhecido e o Caçador Anônimo que nos precederam – Remos e Rômulos de nosso império gastronômico.

Fomos moldados na escassez. A adversidade é a mãe da evolução – o gene mutante é o pai – mas agora, vejam só, “o senhor aceita uma linguicinha?”, “picanha nobre?”, “maminha na manteiga?”, “pintado na brasa?”, quebramos a banca, meu parceiro de espécie, e o bufê de massas, sem as carnes, sai por vinte e nove e noventa e nove. Amém!

Se um marciano pousasse por aqui e nos pedisse um resumo do que andamos fazendo nos últimos milhões de anos, não o levaria ao Louvre, mas a uma dessas churrascarias da Rebouças. Veja só, amigo alienígena: a ciência moveu montanhas para arrancar da terra os minerais de que são feitos nossos talheres, conhecimentos de três mil anos são aplicados na cerâmica dos pratos, o vidro, que os Fenícios inventaram e venderam por todo o Mediterrâneo, contem o sal, a pimenta, o azeite e o vinagre. Está vendo esse salmão, meu caro ET? Faz vinte anos, era artigo de luxo, prato principal em casamento chique: agora está aí, plebeu, sobre a cama de gelo picado, entre o salpicão e as ervilhas. Esse ao lado dele é o tomate seco. Também já teve seus dias de glória, desfilou por salões e bocas selecionadas. Agora aguarda, paciente, por um ou outro comensal saudoso, como uma rapariga decadente.

Há quem veja os rodízios com profundo horror. Vegetarianos, ecologistas, puristas em geral. Acusam-no se ser a ponta da cadeia corrosiva da pecuária, fonte de veneno para nossas veias, suruba estética onde tocam-se sushis e calabresas. Talvez tenham razão. Talvez as churrascarias sejam mesmo fruto do demônio – o que só reforça minha convicção: são elas, não Shakespeare ou a turbina de um Boeing, o ápice de nossa civilização. “Cupim? Fraldinha? Paleta de cordeiro uruguaio?”. Por favor, meu caro. E aquela banana a milanesa, sai ou não sai?

comentários (14) | comente

14 Comentários Comente também
  • 16/11/2010 - 19:34
    Enviado por: Izabela

    Hahaha excelente! Baseando-me em sua crônica, vejo que sou muito civilizada e adoro vingar os meus ancestrais. Mas se prepare Comentários de vegetarianos chocados a partir de 5, 4, 3…

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  • 16/11/2010 - 19:48
    Enviado por: Marcos Sena

    Finalmente algo para alimentar esta fome de textos bons que nos assola a todos. Ótimo banquete teu blog meu amigo.

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  • 16/11/2010 - 19:55
    Enviado por: Renan

    sensacional!!! uma das suas melhores!!!

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  • 16/11/2010 - 23:03
    Enviado por: Tweets that mention Rodízio « Antonio Prata -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by João Vitor Leal, Leticia Muniz. Leticia Muniz said: achei a cara do @joaovitorleal: http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/rodizio/ [...]

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  • 16/11/2010 - 23:22
    Enviado por: Sofia

    Maravilhosa sua cronica!!! Incrivel!
    Infelizmente um ET nao teria como exemplo uma civilização amigavel, de amor e solidariedade… mas num simples rodizio de carne viria o poder, controle, dominação … o planeta continua com presos politicos, religiosos, guerras por controle, luta sexual, poder….
    Mas nada melhor do que ir a um belo rodizio, comer uma picanha sangrenta e tomar uma caipirinha pra nao pensar em nada disso e falar da loira da mesa do lado, da peruca do outro…
    quanto orgulho da nossa espécie!
    um ponto de vista inedito e marcante!

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  • 17/11/2010 - 13:58
    Enviado por: Glúon

    .
    __________________
    .
    Ápices da civilização
    .
    __________________
    .

    Alka-Seltzer
    Sonrisal
    Sal de Frutas Eno
    Engov
    Papel Neve
    .
    ______________________________
    .

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  • 18/11/2010 - 12:34
    Enviado por: Liese

    Não se pode esquecer do ritual de ir em uma churrascaria e sua função social.
    É uma questão de perseverança, passar no mínimo absoluto uma hora e meia comendo. (e isso já é uma vergonha…) Levar mais pessoas possíveis, como por exemplo a família inteira, com tararavós a primos de quinto grau, e falar mais alto possível, afinal é uma celebração.

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  • 20/11/2010 - 17:28
    Enviado por: Anna H.

    Humor refinado ! Bom, nem preciso dizer que você é ótimo, Antonio Prata.Sim, também quase chorei de rir lendo esta crônica (ou seja o que for).

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  • 21/11/2010 - 02:01
    Enviado por: Larissa

    FAN-TÁS-TI-CO!!!! Antônio, um dos melhores textos seus que eu já li. Tô aqui chorando de rir enquanto um pouco de saliva escorre pelo canto da boca. Você falou das churrascarias do Rebouças. Acredito que devam ser muito boas. Mas como boa gaúcha que sou, recomendo que você, se algum dia vier a Porto Alegre, faça um favor à si próprio: vá jantar no Galpão Crioulo. É uma churrascaria folclórica, com shows de música e dança, mas isso é o de menos. Lá você vai comer A MELHOR picanha da sua vida. Eu garanto.

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  • 22/11/2010 - 15:26
    Enviado por: Nathália Aragão

    Antonio! acompanho seu blog há tempos. Semana passada, fazendo um exercício da FUVEST no Anglo, meu professor Eduardo (gramática) comentou que havia dado aula pra você no Equipe! Fiquei feliz. sempre saio daqui ou pensando muito ou rindo muito hahaha ou os dois! Parabéns! Quem sabe o Edu me conta seu segredo! hahahah muito boooommm

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  • 23/11/2010 - 20:30
    Enviado por: Bia Madruga

    você vê um monte de complexidade em qualquer detalhezinho do nosso cotidiano…

    ;)

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  • 24/11/2010 - 19:32
    Enviado por: Nina Vieira

    Minha turma de colegial vai passar a formatura em uma churrascaria rodízio.
    Não acho que a ocasião permite que demonstremos nossos instintos canibais.
    Não vou.
    Abraços.

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  • 26/11/2010 - 12:40
    Enviado por: Sâmia

    Sugestão de livro: Eating animals, de J. Safran Foer.
    Lá está o que quero te dizer sobre esta questão trivial de comer outros animais.

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  • 29/11/2010 - 16:18
    Enviado por: Diego

    Que lixo.

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