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Antonio Prata

22.março.2010 02:11:44

Windows media player

Alguém já disse, num arroubo de nostalgia, que “a televisão matou a janela”. Não poderia estar mais enganado. Aqui no meu quarteirão, pelo menos, TVs e fenestras não são atividades excludentes, mas duas peças complementares num curioso fenômeno sócio-esportivo: o insulto inter-condominial.

Acontece em dias e noites de jogos e funciona da seguinte maneira: o Corinthians, digamos, faz um gol no Palmeiras; imediatamente, os torcedores do Timão correm até suas janelas e gritam, com vozes de barítonos, que em outros tempos os levariam à ópera, ao comando de exércitos ou boiadas: “chuuuuuuupa porco imundo!!!”, “Tooooma porcaiada!!!”, “Choooooora parrrrmêra!”.

Como numa batalha de trincheiras, os palmeirenses esperam, encolhidos, acabar a munição corintiana. Então escancaram os pulmões e as persianas, no contra-ataque: “cala a booooooca maloqueiro!”, “Silêncio gambáááá!”, “Nem estádio cês têm, ô #%^*&!!!!”.

Os insultos ricocheteiam no concreto, ecoam pelos corredores de ar entre os prédios do quarteirão e atingem, numa estimativa cautelosa, mais de mil pessoas. O leitor acha que estou reclamando? Muito pelo contrário. Alguém já disse, num arroubo de otimismo, que “quando uma enorme onda aproxima-se da praia, há os que fogem, os que ficam parados esperando e os que correm para surfá-la”. Não poderia estar mais certo. Proponho surfar essas ondas sonoras, fazendo do insulto inter-condominial uma nova mídia publicitária.

Os profissionais da propaganda quebram a cabeça para conseguir atingir públicos específicos. Criam programas de televisão, shows, passam noites em claro bolando vídeos para jogar no youtube e acendem velas para São Viralito, o padroeiro dos hits espontâneos, rezando para que algum deles emplaque. E o que eu tenho aqui, diante de minha janela? Uma pequena multidão de um dos nichos mais disputados: homens de 16 a 25 anos, classe AA, todos de ouvidos abertos, só esperando para escutar o nome do patrocinador que me procurar no e-mail aí em cima e enviar um cheque no valor a combinar.
Entre um “chuuuupa porcada!” e um “cala a boca, gambá!”, eu viria com “Notoriuns vídeo, a locadora das Perdizes!” ou “Cerveja Riopretana, a melhor das artesanais!”. Topo, até mesmo, fazer campanha política. Quando for gol do Palmeiras, grito “Serra!”. Gol do Corinthians, berro “Lula é Timão! Lula é Dilma!”. Ou, independente do time: “Marina! Um novo jeito de fazer política! Um novo jeito de fazer campanha!

Caso os anunciantes queiram ir além das Perdizes, tenho quatro primos em condições de cobrir as regiões de Pinheiros, Santa Cecília, Higienópolis e Mandaqui, e um tio avô aposentado em Botafogo, Rio de Janeiro, cuja janela dá para uma faculdade particular. Aguardo contatos.

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16.março.2010 22:24:55

Aleatório é o diabo!

(publicado na revista Espresso)

No I-pod, chama-se shuffle. Em outros aparelhos, é random. Segundo o Oxford Universal Dictionary, shuffle significa “a mudança de uma posição para outra, um intercâmbio de posições”. Embaralhar as cartas pode ser o ato de “shuffling playing cards”. Já random é algo “não levado ou guiado numa direção precisa; sem propósito ou meta”.

Como sabem todos os que operaram um aparelho de som nos últimos vinte anos, as duas palavras denominam aquela função que, uma vez acionada num CD ou Mp3 player, faz as músicas serem tocadas não na ordem em que estão dispostas no disco, mas – ham, ham – ao acaso.

Será preciso explicar a razão do meu ham, ham? Ou já não sabem, todos os que nos últimos vinte anos apertaram os botões shuffle ou random de seus aparelhos de som, que a seleção é qualquer coisa, menos aleatória? A escolha das músicas é deliberada e precisa, às vezes sutil, às vezes escancarada, mas sempre muito bem pensada. Por quem? Ora, por um diabinho, uma espécie de Saci minúsculo, que no passado morava nos redemoinhos dos rios e hoje vive dentro dos aparelhos de som, entre as partículas de silício dos microchipes.

Tenho em meu I-pod algo em torno de seis mil músicas. Como explicar, senão pelas artimanhas desses Sacis eletrônicos, que, em meia hora, o shuffle escolha cinco músicas que eu escutei sem parar durante uma viagem à Bahia, em 1996? Ou que, numa corrida na esteira, de quarenta minutos, ele toque três versões de Like a Rolling Stone, uma do Bob Dylan, uma do Hendrix, outra dos Stones? São seis mil músicas! Só uma mão oculta e idiossincrática seria capaz de tais seleções.

O diabo que vive no microchipe, como haverão notado vocês, tem um humor bem pouco estável. Há dias em que ele nos brinda com seqüências matadoras, que só alguém que fosse ao mesmo tempo nosso psicólogo e DJ seria capaz. Outras vezes, contudo, ele quer nos sacanear. Puxa duas ou três faixas que nos acalentaram diferentes pés na bunda, no passado, depois emenda com um axé que você só pôs no I-pod para correr. (Aquele tipo de música que, quando vem um pessoal em casa, a gente torce pro shufflle devil não escolher – e ele escolhe). Mais tarde, você vai correr, ele manda só Leãozinho, Chega de Saudade e Cat Power. Ah, Exu binário! Que forças ocultas te movem?!

Já disse alguém por aí: “coloca seu I-pod no shuffle e te direi quem és”. Mentira. Essa falsa aleatoriedade é o gosto do microssaci, não o nosso. Acho que os gênios das ciências exatas deveriam se juntar aos rabinos cabalistas para estudar shuffles e randoms. Talvez, como acreditam esses hebreus matemáticos, as respostas sobre Deus estejam de fato por trás das letras de Yahveh. Mas o diabo se revela, não tenho a menor dúvida, é entre as músicas de um I-pod.

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10.março.2010 16:47:32

Caros, uma crônica nova do meu pai, Mario Prata, no blog do Ricardo Kotsho: http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/

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22.fevereiro.2010 00:01:03

Déficit público

“Imagine que você tem uma conta corrente no coração de cada pessoa com quem se relaciona. Cada vez que você faz uma coisa boa para ela, ganha crédito. Cada vez que ela faz algo para você, realiza um débito. Como está seu saldo nessas contas?”. Assim falava o homem da TV, uma espécie de palestrante motivacional. Ou desmotivacional, pois mal comecei a vislumbrar meus extratos nos corações alheios, percebi que estava próximo à bancarrota.

Houve um tempo em que eu tinha tempo de sobra, e gastava-o ao meu bel prazer. Uma noite, saía com os amigos. Na outra, encontrava a namorada. Um conhecido lançava um livro? Lá ia eu, se estivesse afim. Era feliz e não sabia: vivia no azul nos peitos de todo mundo e, acredito, tinha até pequenos créditos por aí.

Acho que foi lá por 2004, quando comecei a trabalhar muito, que os negócios desandaram. Sem tempo para nada, passei a gastar meu saldo: “Pedrão, valeu pelo convite, mas tenho que terminar a crônica!”; “Nina, adoraria ir, mas é a última semana aqui do roteiro”; “Mãe, não consigo almoçar esse domingo, tenho que agilizar o romance”. Hoje, para onde quer que eu olhe, estou no cheque especial.
Sábado passado, dois amigos me chamaram para tomar um chope. Antigamente, escolheria. Hoje, calculo: qual deles, caso eu não encontre, mandará nossa amizade para o SERASA? O Pedro foi pai já faz seis meses e eu ainda não conheço a filha, mas o Felipe deu uma festa de trinta anos em outubro e eu não fui. E aí?

Caro leitor, não quero passar a ideia, muitíssimo equivocada, de que sou uma pessoa blasé e reclusa, que prefere a companhia dos livros a das pessoas. Gosto dos outros. Sartre que me desculpe, mas o inferno sou eu mesmo que, com a minha inépcia no equilíbrio entre trabalho, amor e amizades, acabo me endividando todo. E o problema das grandes dívidas é que, a partir de uma certa quantia, você já não consegue amortizá-las. O que faz, então? Aumenta os juros, em forma de promessas. Foi o que eu fiz com o Pedro, quando decidi ir tomar chope com o Felipe: “Queridão, vamos fazer melhor: esquece o chope, vem almoçar em casa, domingo. Vou assar um leitão para você, sua mulher e a filhota!”.

O almoço foi ótimo. Tá pago, então? Com Pedro, tá. O problema é que, para gastar o domingo com ele, eu me afundei mais ainda no vermelho com minha mãe, que havia me chamado para almoçar, com a minha mulher, com quem tinha combinado de ir ao teatro e com a Vivi, editora do Metrópole, a quem deveria entregar essa coluna segunda, mas só a receberá na terça. Tudo bem, Vivi? Não fica brava. Prometo que, na outra semana, te entrego sexta de manhã! (Se bem que combinei de jantar com o Rodrigo, na quinta. Será que eu cancelo? De novo?! E agora?!).

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11.fevereiro.2010 17:55:37

Prata pai

Eis que havia uma crônica do meu pai num dos comentários sobre o último texto. Hoje é aniversário dele mas, como nas propagandas das casas Bahia, quem ganha é você, caro leitor:

“Comentário de: Mario Prata [Visitante]
Deus existe, meu filho.

“Para quem não acredita em Deus, como eu, abandonar a infância implica a incontornável convivência com o absurdo”.

Mal sabe você o quanto, meu filho.
Sim, aquele Deus barbudo dos católicos que eu e a sua mãe não te ensinamos a acreditar, realmente não existe mais. Nem ele, nem Alá, nem Zeus, Thor, nem Adonai, o Deus dos cruzadistas. Todos eles, surgidos há milhões e milhões de anos, estão mortos. Apesar de ninguém saber onde Ele (ainda um certo respeito salesiano é sempre bom) ficava ou morava, acabou-se o que era doce. Digam o que quiserem dEle, era um Deus humano. Nós o criamos, praticamente à nossa imagem e semelhança: velhinho, cabeça branca, aquele olhar casto e pio. Temíamos, orávamos, pecávamos, culpávamos. Mas morreu.

A coisa divina estava tão avacalhada que alguns passaram a adorar até mesmo um indivíduo chamado Edir. E Macedo, como se não bastasse.
Mas um novo Deus surgiu devagarinho, como naquela música. Ele é mais novo do que você, meu filho. E atende por um nome americano já que foi lá a sua invenção, criação e inicialização. Seu nome: God System, mais conhecido no Brasil como Sistema.

E ele, pouco a pouco, está criando um mundo à imagem e semelhança dele. É incrível, God Machine já fala. Mas não ouve, como todos os poderosos e prepotentes, Ele não descansou no sétimo dia, como o velho Deus. Primeiro, porque ele ainda não acabou a sua criação. Está apenas no começo. Até Ele atingir a plenitude espiritual, ou seja, o mundo só de máquinas, ele continua trabalhando e gerundando. Dizia que Ele que não descansou no sétimo dia. Quando Ele quer descansar, não escolhe dia nem hora: sai do ar. Jamais saberemos para onde ele foi. Ele sai a hora que quiser e o mundo todo e você param. Você não podem fazer nada sem o God System no ar. Volta a hora que quiser. E com Ele fora do ar, o mundo terráqueo para.

Vejo debates de políticos preocupados com o poder, brigando, como se eles tivessem algum significado. Eles não têm mais nenhum poder. Aquele velho ex-presidente vai chegar em casa e se dirigir ao God System como um cidadão humano qualquer. E o God System através se suas gerundetes, vai ordenar: aperte o três, aperte o nove. Aguardem até que um dos meus atendentes o atenda. Nem sempre seus atendentes atendem. Já aprenderam com o chefe a ficar fora do ar.

Pouco a pouco o caderno de Informática (vamos também usar maiúsculas, sabe-se lá) está ficando mais volumoso. Dentro de pouco tempo o primeiro caderno será o de Informática.

O God System é um Deus bom. Disponibiliza jogos e até sexo pelo sistema. Você pode se masturbar vendo a sua namorada (ou outra qualquer) em até 42 polegadas nua e rebolativa na sua cara. Mas Ele está vendo, viu? Não fala nada, mas grava. E, se duvidarem ele salva e mostra para alguém quando bem lhe provier.

Você já notou que quando a gerundete fala “o Sistema está fora do ar”, ela fala com S maiúsculo. E mais: em nome de God System, pede desculpas.
É isso, filho. E nós não vamos sobreviver para ver até onde ele, o God System, vai chegar, Só tenho uma certeza. Nenhum de nós verá. O domínio final dele será apenas para as máquinas.

Sim, depois do homo sapiens, teremos o homo artificium (como nos ensina o latim), ou seja, o homem sistema.”

Obrigado, pai. E se você estivesse em São Paulo, não aí próximo à Patagônia, a gente saía pra jantar!

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08.fevereiro.2010 21:27:07

O Piano

Aos dezessete anos eu sonhava com um mundo onde ninguém, em hipótese alguma, falasse sobre o tempo. Escrevia contos em que um sujeito mal terminava de pronunciar “que chuva, heim?” e um piano estraçalhava-se sobre sua cabeça. Se algum idealismo eu já tive, foi esse: tornarmo-nos adultos sem nos entregar à comodidade do lugar comum, viver a vida sem embolorá-la no mormaço do dia-a-dia.

Para quem não acredita em Deus, como eu, abandonar a infância implica a incontornável convivência com o absurdo. Que da água e dos minerais tenham surgido protozoários, cachalotes, eu e você, não é o mais lógico dos acontecimentos. Que das muitas relações sexuais de seu pai e sua mãe, justamente naquela lá, um óvulo tenha sido fecundado e dado início à sua existência – que sorte, não? (Quantos possíveis eus não terminaram em absorventes íntimos ou lenços de papel, no fundo de uma lata de lixo?).

A falta de sentido não me levava, contudo, ao niilismo. Pelo contrário. Já que era tão improvável estarmos aqui, tudo era valioso e, fundamentalmente, engraçado. Não tive um Deus para ordenar-me a realidade, mas as piscadelas cúmplices de Julio Cortázar, Woody Allen, Campos de Carvalho, Monty Python e outros artistas, de dentro de seus livros e filmes, tornaram mais fácil a aceitação e mais intensa a fruição dessa maravilhosa barca furada.

O que mais me angustiava na adolescência não era, portanto, a percepção do absurdo, mas como os adultos pareciam não se dar conta da estupenda improbabilidade de estarmos aqui por esse breve período, tendo ao nosso dispor o sexo, o baião, o bife de chorizo e – mais recentemente, que maravilha! – as cervejas artesanais. Eu os observava comentando a reforma da portaria do prédio ou aflitos com as parcelas do sofá e desejava que aquele piano caísse dos céus: a vida passava e eles não se davam conta.

Semana passada, quando soube da morte de J. D. Salinger, reli O apanhador no campo de centeio. A história de Holden Caultfield tocou-me mais do que da primeira vez que a li, aos quatorze. Talvez porque agora o adolescente revoltado com a falta de sentido da vida e a hipocrisia dos adultos não tenha encontrado em mim um cúmplice, mas um inimigo. Hoje, aos trinta e dois anos, quando fecha-se a porta do elevador e o silêncio toma aqueles três metros quadrados, eu viro para o vizinho e digo: que chuva, heim? Tenho trabalhado muito, me afligido com as contas e faz tempo que não faço um jantar para o meu amor. É preciso abrir os olhos, enquanto é tempo. Para isso servem os livros, para caírem sobre nossas cabeças como pianos e estraçalharem, mesmo que temporariamente, tudo o que não for fundamental.

Obrigado e adeus, Salinger.

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Se o mundo fosse justo, o trocadilho teria seu lugar no panteão das criações humanas. Ficaria abaixo dos sonetos e das sinfonias, sem dúvida, mas acima dos provérbios e das palavras cruzadas. Infelizmente, tido como artifício banal, peixe abundante no vasto lago do pensamento – espécie de lambari do intelecto – o trocadilho é tratado com desprezo. Desdenhado pela maioria dos poetas e escritores, sobrevive apenas à sombra das máquinas de café, na firma, no papo dos donos de churrascaria e – mistério dos mistérios – nas fachadas de pet shops.

Por alguma razão, seres humanos que vendem produtos para animais de estimação têm uma compulsão por jogos de palavras nos nomes de seus estabelecimentos: AUqueMIA, AmiCÃO, CÃOgelados, SimpatiCÃO, Oh my dog!, CÃOboy, Pet&gatô, por aí vai.

Diante desses e de outros exemplos – que encontram-se em todo o território nacional, como provam as fotos no blog http://trocaodilho.tumblr.com – o leitor pode achar que nós, apreciado-res da “poesia de ocasião”, estamos contentes. Muito pelo contrário.

O trocadilho com T maiúsculo não é uma simples molecagem com sílabas. Ele cria um terceiro sentido, maior do que a soma de duas palavras. “Wim Wenders e aprendendo”, por exemplo, retira toda a graça do fato de os filmes do diretor alemão serem muito cabeças e, convenhamos, um pouco chatos. “A justiça farda, mas não talha”, escrito durante a ditadura, por Millôr Fernandes, trazia nas entrelinhas a ideia de que a censura podia até maquiar as aparências, mas não conseguiria evitar que a arte brotasse por aí. Já “guacamole em predra dura, tanto bate até que fura”, embora possa criar um sorriso maroto no rosto do infeliz que imagina o Atlântico transformado em pasta de abacate, não significa absolutamente nada. É só uma firula fonética, como Oh my dog ou uma criança dizendo patapatapata.

De todos os pet shops que já vi, um, no entanto, mereceu meu respeito. Fica na Av. Santo Amaro e chama-se Amaro’s Bichos. Veja que beleza, a introdução de um único apóstrofo antes do S é suficiente para o surgimento de tantos significados. Funciona em inglês, em português, resume a essência da loja e sua localização. Deviam criar para o dono da Amaro’s Bichos um cargo de analista para nomes de estabelecimentos dedicados aos animais. MaluCÃO? Licença negada. CÃO de mel? De jeito nenhum. HomeoPATAS? Talvez, vamos ver.

E já que entramos no terreno dos trocadilhos bilíngües, gostaria de expor um, de minha lavra. Surgiu quando eu descobri que jogo de palavras em inglês é pun, e pode ajudar a todos que, como eu, são repreendidos ao soltarem algo como “Wim Wenders e aprendendo”, numa mesa de bar. Basta encarar seus detratores e dizer, com falso arrependimento: “desculpa, pessoal, soltei um pun”.

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11.janeiro.2010 03:30:58

Os outros

Você não acha estranho que existam os outros? Eu também não achava, até anteontem, quando tive o que, por falta de nome melhor, chamei de SCA – Súbita Consciência da Alteridade.

Estava no carro, esperando o farol abrir e comecei a observar um pedestre, vindo pela calçada. Foi então que, do nada, senti o espasmo filosófico, a fisgada ontológica. Simplesmente entendi, naquele instante, que o pedestre era um outro: via o mundo por seus próprios olhos, sentia um gosto em sua boca, um peso sobre seus ombros, tinha antepassados, medo da morte e achava que as unhas dos pés dele eram absolutamente normais – estranhas eram as minhas e as suas, caro leitor, pois somos os outros da vida dele.

O farol abriu, o pedestre ficou para trás, mas eu não conseguia parar de pensar que ele agora estava no quarteirão de cima, aprisionado em seus pensamentos, embalado por sua pele, tão centro do Cosmos e da Criação quanto eu, você e sua tia avó.

Sei que o que estou dizendo é de uma obviedade tacanha, mas não são essas verdades as mais difíceis de enxergar? A morte, por exemplo. Você sabe, racionalmente, que um dia vai morrer. Mas, cá entre nós: você acredita mesmo que isso seja possível? Claro que não! Afinal, você é você! Se você acabar, acaba tudo e, convenhamos, isso não faz o menor sentido.

As formigas não são assim. Elas não sabem que existem. E, se alguma consciência elas têm, é de que não são o centro nem do próprio formigueiro. Vi um documentário, ontem de noite. Diante de um riacho, as saúvas africanas se metiam na água e formavam uma ponte, com seus próprios corpos, para que as outras passassem. Morriam afogadas, para que o formigueiro sobrevivesse.

Não, nenhuma compaixão cristã brotou em mim naquele momento, nenhuma solidariedade pela formiga desconhecida. (Deus me livre, ser saúva africana!). O que senti foi uma imensa curiosidade de saber o que o pedestre estaria fazendo, naquele momento. Estaria vendo o mesmo documentário? Dormindo? Desejando a mulher do próximo? Afinal, ele estava existindo, e continua existindo agora, assim como eu, você, o Bill Clinton, o Moraes Moreira.

São sete bilhões de narradores em primeira pessoa, soltos por aí, crentes que, se Deus existe, é conosco que virá puxar papo, qualquer dia desses. Sete bilhões de mundinhos. Sete bilhões de chulés. Sete bilhões de irritações, sistemas digestivos, músicas chicletentas que não desgrudam da cabeça e a esperança quase tangível de que, mês que vem, ga-nharemos na loteria. Até a rainha da Inglaterra, agorinha mesmo, tá lá, minhocando as coisas dela, em inglês, por debaixo da coroa. Não é estranhíssimo?

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04.janeiro.2010 17:30:54

Pelo telefone

No último domingo, meu pai me telefonou. Fiquei contente, não só porque ele mora em Floripa e sinto saudades, mas por saber que uma ligação sua nunca é para tratar de assuntos sérios. Meu pai desistiu de falar sério lá por 1991. No começo, eu briguei com ele, achava que era preciso falar sério de vez em quando. Hoje, já não tenho tanta certeza e quando vejo o prefixo 48 no meu celular, abro um sorriso, esperando ouvir sobre uma partida incrível do Figueirense, no estádio da Ressacada, uma versão engraçada do jogo Tetris, que ele encontrou na internet, ou uma nova teoria que ele vem desenvolvendo, lá na varanda dele, de frente para o mar. No último domingo, era teoria.

Começou, como de costume, com uma frase pouco razoável, dita com a maior naturalidade: “Telefone é uma invenção que não deu certo”. Conhecendo bem meu pai, sabia que meu papel era demonstrar assombro, talvez até uma ponta de indignação, para que ele desse seqüência ao raciocínio: “Como assim, não deu certo, pai?!”. Calmo e seguro, ele continuou. “Telefone fixo, desses presos na parede? Não deu certo! Em primeiro lugar, a chamada nunca era pra quem atendia. Ficava aquela gritaria: “cadê fulano? Alguém viu fulano?”. Ou fulano tinha saído, ou tava “ocupado” – era o que a gente dizia quando alguém estava no banheiro. Aí, tinha que anotar o recado, a BIC não funcionava, o bloquinho havia sumido… Esquecia-se de dar o recado. Cada briga que dava por conta de recados não dados! Divórcios, até. Sem falar naquele fio enroladinho, cruzando a sala, só pra gente tropeçar. Mas pior que tudo, meu filho, era telefone com mau hálito. Lembra? O bafo que saía por aqueles furinhos! Um bafo de avô, não, de tio avô! Tio avô dos outros! Ainda bem que em dois, três anos, ninguém mais vai ter telefone fixo!”.

Quando meu pai terminou, sugeri que escrevesse essa crônica. “Não, filho. Escreve você. Presente de natal”. Aceitando-a, perguntei se havia outros objetos cuja obsolescência ele percebera, lá de sua varanda. “Não é bem objeto, mas tem o hino nacional. Só serve pra duas coisas: humilhar jogador de futebol e ferrar vestibulando. Tinha que trocar por Aquarela do Brasil. Imagina só, que beleza? Outra bobagem que precisa acabar é minuto de silêncio. Banalizou. Hoje em dia, morre o avô do ex-conselheiro da portuguesa, o primo do gandula, todo mundo tem que ficar quieto? Um absurdo!”. Agradeci. Desejamos feliz natal e desligamos, contentes com a conversa.

No dia seguinte, havia um recado no meu celular, bem ao estilo do meu pai, sem oi ou qualquer apresentação: “E aquelas três ligações pra Cachoeiro do Itapemirim, de R$ 16,58 cada, que a Dona Lurdes jura não ter ideia de quem fez?! Ainda dá tempo de botar na crônica?”.

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