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Antonio Prata

23.dezembro.2008 02:19:11

Seleta coletiva

Eu nunca vi a vizinha. Desde que ela se mudou para o apartamento ao lado, faz alguns meses, minha imaginação alimenta-se apenas do que deposita ao pé do lixo comum, na curva da escada.

Na noite em que se mudou, houve uma festa. Ou open house, como dizem agora. Não de arromba, com YMCA acordando os palmeirenses e professores universitários de Perdizes, no meio da madrugada. Somente música suave, risos e vozes cruzavam a parede da sala — altas o suficiente para aguçar a minha curiosidade, baixas demais para satisfazê-la.

No dia seguinte, topei com dez garrafas de Veuve Clicquot, ao lado do lixo. Minha vizinha é fina, pensei, sem evitar que uma medíocre ponta de orgulho cutucasse minha alma barnabé: o condomínio está progredindo.

Algumas semanas depois, uma sexta-feira, cheguei tarde em casa: ouvi o burburinho. Confesso, envergonhado: mal fechei a porta, colei a bochecha na parede, na esperança de captar alguma pista sobre a moradora ao lado. Prédio antigo, paredes grossas — dessas que não fazem a alegria de empreiteiras mesquinhas ou viúvas alcoviteiras — ouvi apenas ruído. Tudo bem, pensei: no dia seguinte, na curva da escada… Quatro garrafas de bom vinho argentino, dentro de uma sacola da importadora Mistral, três caixas de pizza, um saquinho com cascas de lichia.

Aí a coisa azedou. Enquanto, do lado de cá da parede, malbecs e lichias eram o teto da sofisticação, coisa para jantar romântico em começo de namoro, trinta centímetros de tinta, massa corrida e tijolos para lá não passavam de acompanhamento para a pizza de sexta. O ressentimento cravou sua tachinha na bunda de minha condição AB. Vieram-me à cabeça – talvez para dar à inveja o verniz que faltava a meus hábitos de consumo – uns versos de Drummond: “não sei se estou sofrendo/ ou é alguém que se diverte (…)” – mais do que eu, pelo menos – “na noite escassa”.

Nunca vi a vizinha. Ignoro se é alta, ruiva, presidenta do Lions Club ou aborígene australiana, mas ultimamente percorro apressado os três metros que me separam do lixo bege. Não quero que ela, vendo através da sacola verde do Pastorinho umas latas de Skol amassadas, cascas de mexerica e potes de Yakult, pense que não sou digno de sua vizinhança. Ou, mais grave: se ache melhor do que eu. Afinal, nada, vindo de um vizinho, pode ser pior do que isso — nem mesmo YMCA, no meio da madrugada.

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23.dezembro.2008 02:17:46

Apocalipse 2.0

Como bem sabem os tementes a Deus, mais dia, menos dia, Jesus voltará. Abrirá os sete selos, sete anjos surgirão no céu, tocarão sete trombetas e aí, meu amigo, a coisa vai ficar realmente cabulosa para quem não fez a lição de casa.

A linguagem bíblica, no entanto, é muito cifrada: anjo não é bem anjo, selo não é selo e trombeta não é trombeta. Eu, como bom paranóico, estou sempre atento aos sinais. Foi assim que me dei conta, hoje cedo, de que o apocalipse já havia chegado. Pelo menos no meu escritório.

Às sete trombetas dão-se os nomes de E-mail, MSN, celular, telefone, Orkut, Google Talk e SMS. Cada um tem um barulinho diferente, todos o mesmo intuito: interromper o fluxo do meu pensamento, inviabilizar o trabalho, sabotar o amor, picar a outrora lenta e introspectiva narrativa das minhas tardes como cebola para um refogado.

Não consigo fazer mais nada. Passo os dias aflito, respondendo um “olá” de Natal, um “tá aí?” de Pinheiros, um “quanto tempo” do pré-primário e outros amistosos cutucões proporcionados por Bill Gates, Graham Bell e pela insaciável sociabilidade de nossa gente . É o fim dos tempos.

Outra noite tive um pesadelo que ilustrava bem o meu atoleiro eletrônico-social. Eu tentava escrever um texto, enquanto empurrava com um rodo um espesso mingau que entrava por debaixo da porta, pelas frestas das janelas, pelos furos das tomadas. Debalde: a gosma invasiva voltava, sempre, como a pedra de Sísifo.

Sísifo, no entanto, foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente aquela rocha morro acima. Já o bocó aqui aderiu de livre e espontânea vontade a todas as formas de bips, plins, trrrrlins e tum tuns disponíveis no mercado. Por que? Não sei.

Agora mesmo, entre o fim do último parágrafo e o começo deste, fiz pela décima vez no dia o triste triatlon da carência virtual: e-mail-orkut-anti-spam. Que scrap é esse que espero encontrar no Orkut? Que pessoa misteriosa aguardo no MSN? Que mensagem redentora buscamos, eu e a boa parcela da humanidade, conectados às trombetas eletrônicas?

Só pode ser Jesus, minha gente. Qualquer dia desses, receberemos um scrap do Cordeiro, ou quem sabe uma mensagem via SMS, MSN, Google Talk, telemarketing e e-mail, anunciando a Sua volta. O juízo final chegará com winks e emoticons. E ai de quem não tiver feito lição de casa, estiver off-line, sem sinal ou deixar de conferir o anti-spam…

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23.dezembro.2008 02:15:29

Mulher pelada

(crônica para a Capricho)

Toda sexta-feira ele chegava, num FIAT bege, para buscar a mim e a minha irmã. Pequenininhos, nos encaixávamos nos programas do pai separado e boêmio. Adorávamos: nos bares em que nos levava, éramos paparicados por mulheres bonitas e cheirosas, que riam alto e usavam roupas engraçadas. (Só muito mais tarde fui descobrir que a esse tipo de mulheres dá-se o nome de “atrizes”). Pedíamos coca, fanta e sprite e misturávamos tudo. Meu pai nos deixava comer pastéis, batatas-fritas, frango à passarinho e todo tipo de besteira, mandando por água abaixo, em minutos, toda a educação nutricional que minha mãe havia imposto durante a semana, com muito esforço, brócolis, sorrisos e papaias.

Nos períodos em que meu pai tinha alguma peça em cartaz, íamos ao teatro todo fim de semana. Lá pelos meus cinco anos, estreou a peça Besame Mucho. Era encenada no teatro Cultura Artística. Fica ali perto da Augusta, em meio a várias casas de strip e outros estabelecimentos cheios de neons e mistério, que eu olhava fascinado. Chegava a sentir uma certa pena do meu pai: o teatro dele me parecia o ponto mais desanimado de toda a rua, ofuscado por fachadas de castelos medievais, onde portas espelhadas davam para corredores esfumaçados e coloridos.

Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por que?! Do alto de minha meia década de existência, “mulher pelada” evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar muito bem que razão levaria mulheres nuas a comer pastéis. Meu pai seguiu a explicação, deixando-me ainda mais confuso: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um daqueles bares. Meu pai explicou que era proibido para crianças. Pela primeira vez, alguma coisa pareceu-me lógica. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes e sozinhos, perdidos entre neons e tocas de banho.

Só vinte anos depois atravessei um daqueles corredores. As mulheres eram bem diferentes do que havia imaginado no meio de minha infância, mas os homens estavam lá, exatamente como eu os havia pintado.

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Segundo a pesquisa que li outro dia, os homens preferem loiras falsas às verdadeiras. A matéria tratava o resultado com assombro. Confesso que achei muito natural: afinal, loira falsa tem algo que a verdadeira, ao menos à primeira vista, não tem: vulgaridade. Nós, homens, apreciamos essa virtude.

Posso ouvir, daqui, o grito de horror de uma leitora. Compreendo. No dicionário hierárquico feminino, vulgaridade é uma das últimas palavras, embolada, na zona de rabaixamento, com “celulites”, “pochete” e “torresminho”.

Por que é que as moças odeiam tanto essa, digamos, postura diante da vida? Por que, meus caros, minhas caras, ela é o ponto central de uma contradição feminina. Para quem se emperiquitam as mulheres? Quem querem impressionar indo à academia, ao cabeleireiro, fazendo os pés e as mãos, usando vestidos, brincos, batons, ziriguiduns e balangandãs? Nós, homens, e as outras mulheres. Não necessariamente nessa ordem. E aí é que elas se estrepam, pois é impossível servir a dois deuses tão distintos.

Homem gosta de barriga de fora, de calça apertada na bunda, de decotão. De fritura, açúcar, carne, cachaça. Somos explícitos. Essa pashmina é mesmo linda, meu bem, mas deixa ela de lado e se espraia aqui, toda center folder, no meu sofá. Esse negócio de ficar fantasiando, imaginando, isso é feminino. Não é à toa que, numa mentalidade masculina média, de arquibancada, esse papo de arte é coisa de veado. (E todo homem, não importa quantas vezes ler Drummond ou assistir Antonioni, sempre terá uma mentalidade masculina média, de arquibancada, dentro de si).

Se as mulheres quisessem apenas nos impressionar, sem se importar com as outras, o mundo seria um baile funk. Só ia dar calça da Gang e top pelas calçadas. Acontece que elas também competem entre si. E, na competição feminina, ganha quem consegue seu homem dentro do regulamento: ou seja, sem a tal da vulgaridade. Pois mulher valoriza elegância. Discrição. Sutileza. Existe um acordo tácito: ok, meninas, nós queremos esses homens, mas não vamos baixar o nível. Não vamos trair nossos valores. Vamos trazê-los até nós pelo que nós acreditamos ter de bom, não pelo que eles acham. É quase uma atitude política. Pedagógica, sem dúvida. E o que faz a mulher vulgar, que deixa as outras tremendo igual panela de pressão, chamando-a pelos mais baixos nomes de que dispõe a última flor do Lácio? Ela simplesmente ignora a batalha intra-gênero e parte para o ataque colocando na bandeja o que Deus lhe deu — ou conseguindo na chapinha, no blondor, no bisturi ou na maquiagem o que Deus não deu. Ela trai a classe, vem jogar no nosso campo, segundo as nossas regras. Vulgaridade é o carrinho por trás do futebol feminino. É gol de mão.

É roubo, mas não é blefe. E nesse ponto entra a loira falsa. A cor do cabelo não é verdadeira, mas ao imaginário masculino ela oferece algo extremamente genuíno e valioso: a expressa vontade de dar – that’s what vulgaridade is all about.
Afinal, se os homens preferem as loiras e uma morena tornou-se uma delas, foi para agradar o gosto masculino. E assim que a tintura toca suas melenas, a moça imediatamente sai do time da pashmina e começa a rebolar “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”, no meio do salão.

Evidente que não existe nenhuma ligação empírica entre tinturas capilares e desejo sexual. Mas nós, homens, somos toscos. Não pescamos sutilezas, detalhes, entrelinhas. Precisamos de sinais claros e nesse caso, assim como no trânsito, o amarelo significa: preste atenção. Imagem essa, aliás, de péssimo gosto. Bem masculina. Média. De arquibancada. Vulgar, sem nenhuma virtude. Perfeita para terminar o texto.

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23.dezembro.2008 02:11:32

Dois e dois

Ficar maduro talvez signifique deixar de lado as coisas para as quais a gente não leva jeito e dedicar-se àquelas em que há realmente alguma possibilidade de sucesso. Foi seguindo essa toada que desisti de ser astronauta aos oito, percebi que o futuro não estava no futebol lá pelos doze e perdi as baquetas e a ambição de ser baterista em alguma festa lá pelo terceiro colegial.

Ficar mais maduro talvez signifique retomar essas atividades quando chegamos perto dos trinta — e nos damos conta de que há muito mais coisas entre o céu e a Terra do que “possibilidade de sucesso”. Foi seguindo essa toada que, na última quarta, com as pernas bambas de alegria e um sorriso juvenil no rosto, contei um, dois, três, quatro e, cercado de outros seis ex-futuros músicos, deixei todas as frustrações explodirem nos pratos, nos três primeiros acordes de Don’t let me down, dos Beatles.

A banda havia surgido uma semana antes, numa mesa de bar: uma dessas idéias que nos ocorrem depois da uma da manhã, quando o superego já está cantando a Jardineira, vestido de Pierrô, lá pros lados do Mandaqui e o saci começa a nos assoprar no ouvido desejos imprudentemente ambiciosos, como a morena da mesa ao lado ou a profissão de Ringo Starr. Como ficar mais maduro também significa perceber que a vida é curta e começar a levar a sério a imprudência, alugamos um estúdio, juntamos o punhado de alegres diletantes que há anos trocaram a alegria das cifras pela busca dos cifrões e, por algumas horas, fomos feliz para sempre.

Quinta-feira próxima virá o segundo ensaio. Nesse exato momento, enquanto ouve a entrevista de um deputado, um repórter de política repassa mentalmente os acordes de Like a rolling stone. Um editor deixa de lado um autor russo do século XIX e assovia Amada Amante. Um poeta abandona a busca pelo oxímoro perfeito que defina o Brasil para decorar a letra de Último Romântico. Uma jornalista de economia interrompe a nota sobre a fusão de dois gigantes do etanol e imagina os movimentos de seu violino em Eleonor Rigby. Uma produtora fecha o Excel e ouve, pela sexta vez no dia, Não vou ficar, em seu I-pod. Um escritor em Santa Cecília confunde as teclas do teclado com as do piano e outro, aqui em Perdizes, julga ouvir um prato toda vez que aperta o enter.

Ficar maduro talvez signifique, entre outras coisas, cantar a sério o que anos atrás só encararíamos sob as grosas malhas da ironia. Tocamos mal, mas somos felizes. Tudo certo – como dois e dois são cinco.

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23.dezembro.2008 02:09:35

O salto

(crônica para a revista Capricho)

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato — pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente — você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.

Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas — mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.

Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?

Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte — quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo — o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

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23.dezembro.2008 02:08:07

Toli Tolá

Eu gostava de vê-lo abordar uma mesa. Num primeiro momento, as pessoas o recebiam com aquela armadura de cinismo que todo paulista veste ao sair de casa, para impedir que os exércitos de flanelinhas e pedintes arranquem duas ou três moedas do fundo de nossa culpa. Ele não parecia se importar. Com uma alegria infantil, o Carlitos barbudo ia tirando os bonequinhos da bolsa e anunciando-os um a um: Marciano Erótico! Zé Celso! O Pássaro do Milênio! Toli toli Tolá! Inconsciente coletivo! Delirum Tremens!

Em poucos segundos os escudos e capacetes iam sendo postos de lado, junto às bolsas e casacos. O pessoal começava a sorrir. Percebia que Armando era um artesão de títeres, cuja existência não tinha nada a ver com a desgraça brasileira — de onde brotam crianças vendendo balas às três da manhã e adultos oferecendo incensos e “cigarrinhos naturais” por trás de suas olheiras. Tratava-se, sim, de um Calder com seu circo particular, mais filho da graça do que da necessidade.

Tenho um Zé Celso e um Marciano Erótico, que vivem há alguns anos em harmonioso enlace, na estante de livros do escritório. Meu inconsciente coletivo perdeu-se em alguma mudança, ou talvez esteja escondido no fundo de uma gaveta – morada perfeita, aliás, para um boneco com tal nome.

Apesar de nos cruzarmos pelo menos uma vez por mês, há mais de dez anos, Armando não tinha a mais vaga idéia de quem eu fosse e tampouco via muita graça em minhas sugestões: por que não fazer um Gerald Thomas para acompanhar o Zé Celso? (Podia vir com calça retrátil, dando as opções bunda pra dentro, bunda pra fora). Um Malufinho para a gente fazer vodu? Um Renan com seu boizinho dos ovos de ouro? Ele apenas sorria, dizia que ia sugerir à mulher e saía com sua bicicleta, monsieur Hulot da Vila Maria, em direção a outros bares, repetindo suas apresentações, que acabavam invariavelmente com o bordão: compra um?!

Eu o conhecia como “o Toli Tolá”, devido a música que cantava ao apresentar a cobrinha. Só soube seu nome verdadeiro ao receber de uma amiga, por SMS, a notícia de sua morte – prematura, eu diria, se não o fossem todas. Sugiro que o dono de algum bar dê a ele a maior glória que um ser humano pode almejar: atingir a imortalidade virando sanduíche. Seu Armando ou Toli Tolá, se aqui estivesse, gostaria da homenagem e diria, abrindo os braços e sorrindo: come um?!

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23.dezembro.2008 02:05:19

Vovó já sentiu volúpia

Não acredito em Deus, destino, karma ou qualquer outro nome a conduzir “a carroça de tudo pela estrada de nada”, como disse Fernando Pessoa. Penso que o córtex frontal, o placar do futebol e a floração das cerejeiras são resultado de algumas regras básicas da natureza e do bom, velho e desinteressado acaso.

Tal postura não faz de mim um pessimista resmungão, muito pelo contrário: não crer que haja qualquer roteiro por trás dos eventos deixa-me constantemente assombrado diante dos fatos inexplicáveis da vida. Por exemplo: há na rua Padre João Manuel, num muro do Conjunto Nacional, a seguinte pixação: “Vovó já sentiu volúpia”. A primeira vez que a vi, devia ter uns oito anos de idade. De lá pra cá, avenidas foram construídas, o Carandiru foi demolido, bairros inteiros surgiram do nada, a minha casa recebeu umas dez demãos de tinta, a livraria Cultura mudou-se, o Cinearte virou Bombril, mas a frase permanece, misteriosamente intocada.

Há uns vinte anos, reflito: qual o seu significado? Será uma pixação avulsa? Ou parte de uma série de outras questões sobre o sexo e o tempo espalhadas pela cidade, tipo “A menopausa espera pelo bebê”, “Amanhã ainda será ontem” ou “espermatozóides já são calvos”? Mais ainda: como, em São Paulo, num muro tão nobre e a despeito de chuvas ácidas, empreiteiros gananciosos e Vaporetos exterminadores, a vovó pode seguir exibindo sua ex-volúpia, sem ser incomodada?

Outro dia, passando pela Al. Santos, vi que haviam construído no muro uma porta de metal. Corri até lá e me dei conta – consternado como um arqueólogo diante das estátuas destruídas no Afeganistão – de que haviam mutilado um pedaço da volúpia.

No pasarán!, sussurrei para minha esfinge sem nariz, já ciente do iria fazer: entrar com um pedido de tombamento no IPHAN. Afinal, uma pixação de vinte anos está para a história da cidade como um prédio de duzentos. Acho importante a sua manutenção, não só arquitetonicamente, mas por seu conteúdo, digamos assim — hum, hum –, simbólico. São Paulo é um caos, os sobrados morrem pisoteados pelos horrores neoclássicos, as margens das represas são invadidas, os rios são esgotos, mas a volúpia da vovó permanece, inscrita em vermelho, em área nobre, since (mais ou menos)1987. Não é um consolo?

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23.dezembro.2008 01:59:26

Promessa

(publicado na revista Claudia)

“Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus – enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor.”

Quando cheguei ao bar e a vi, rodeada de rostos conhecidos; quando sentei, sorrindo, depois de dar oi a todos e falando alguma dessas bobagens que a gente fala ao chegar, e os outros riem, e nos sentimos acolhidos na turma de cinco amigos em meio a dezoito milhões de desconhecidos; não percebi o que estava para acontecer. Achei-a bonita, ponto. E pensei – no momento em que puxava a cadeira para sentar-me – quem é essa moça bonita que eu não conheço, em meio aos outros que conheço tanto?

A primeira impressão é a que fica – para trás. Pelo menos no meu caso. A imagem inicial que tenho de pessoas e lugares não tem nada a ver com a que se constrói depois de um tempo. Se naquele momento me perguntassem, portanto, o que eu achava da menina bonita, não iria me derreter em superlativos. Mas quando ela sorriu pela primeira vez, e a curva do sorriso foi abrindo caminho pelas bochechas e apontando para cima, em direção a dois olhões pretos e inteligentes, pensei assim: eu poderia amar essa mulher.

Não, não foi amor à primeira vista. Eu não estava loucamente atraído por ela, nem apaixonado. Não senti vontade de pular em cima e beijá-la imediatamente, nem aquela afobação que a gente já não sabe se é desejo ou consumismo, tipo: preciso dela imediatamente. Eu estava calmo. O amor é calmo.

Eu seria uma besta se dissesse que vi nos olhos dela a mesma perspectiva. Não vi. Aliás, mulher não é assim tão boba de dar bola em cinco minutos de conversa. O que reparei foi que ela me olhava curiosa: quem é esse cara que chegou? O que ele faz? O que ele pensa das coisas? E não houve uma frase que eu tenha dito aquela noite, um gesto que eu tenha feito, que não tenha sido, mesmo que indiretamente, para ela. Tomei cuidado para não deixar transparecer. (Nada menos atrativo, ao errarmos na dose, que o desejo). Mas ela soube – e vi que gostou daquela atenção, tão exagerada quanto disfarçada.

Desculpe dizer, impaciente leitora, que não aconteceu nada de concreto. Nem beijos, nem champanhe, arranhões ou lençóis. Alguns chopes, algumas risadas arrancadas à fórceps com minhas piadas (e comemoradas como gols do Brasil, internamente) e, tenho certeza – no final eu tive certeza – uma mútua promessa de amor.

Eu poderia contar outras histórias, mais felizes e intensas, mas não valeriam à pena. Nós inflacionamos a felicidade. Ela está por aí, gasta, em propagandas de Campari, em outdoors de pasta de dentes, em livros, filmes, melodias e novelas das seis. Nenhuma felicidade real chega aos pés dessa que criamos. A única felicidade possível, acredito, é a promessa de felicidade. Já não há mais espaço para happy ends. Só para happy beginings. Esse é o meu. Foi ontem que conheci essa mulher. Não tenho a menor idéia do que pode acontecer, mas agradeço à vida por ter me enviado esse “presente ambíguo: uma possibilidade de amor” (…) “Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.”

Ps. A citação lá no começo e as aspas do final são da crônica Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu, que está no livro de mesmo nome, Ed. Agir.

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23.dezembro.2008 01:55:30

Firma reconhecida

Uma das páginas mais belas que já li é aquela na qual Winston Smith, protagonista de 1984, vê uma lavadeira pendurando roupas e cantando no quintal. Winston sabe que a música foi feita por máquinas a serviço do Grande Irmão, que tem tanta poesia quanto um chiclete Ploc tem nutrientes, mas a mulher a interpreta com tamanho sentimento que transforma o pop cibernético em uma obra de arte.

Apesar dos pesares, acho 1984 um livro otimista. Me diz que, mesmo sob a mais atroz das ditaduras, ainda são possíveis histórias de amor. E que, até embaixo da mais gomarábica das canções, é possível achar uma centelha poética.

Outro dia, num cartório, presenciei o surgimento de uma dessas centelhas. Até então, eu achava que o contrário da poesia era um cartório. Inferno do Grande Irmão, reino de carimbos, senhas, crachás, grampeadores e outras miudezas sobre as quais jamais se es-creverá um soneto, uma peça para violoncelo e oboé, um episódio de Friends. Prisão onde as letras, que nasceram todas iguais perante Deus e poderiam ter virado romance, carta de amor ou receita de bolo, acabam emboloradas em gavetas escuras, delimitando áreas de terrenos e cláusulas de divórcios. Acreditava, acima de tudo, que de onde saem milhares de procurações, jamais brotaria uma gota de poesia.

Então o funcionário, que trouxe meu documento, foi colocar nele sua assinatura. Assim que encostou a ponta da esferográfica no papel e, com um movimento de todo o corpo, fez um círculo, eu percebi que estava diante da lavadeira de 1984. Depois desse movimento – amplo, gracioso, como toureiro que, com sua capa, driblasse a bovina burocracia -, ele cravou a BIC no início do círculo e, de uma maneira frenética e calculada, fez uma espécie de rabisco, como aqueles desenhos de sismógrafos, até o final do laço inicial. (Agora não mais toureiro, mas maestro descabelado regendo o fim de uma sinfonia). Quando terminou e ergueu-se, arfante, julguei ouvir bumbo e pratos e um ou outro grito de bravo! do pessoal do almoxarifado.

Meus caros, eu estava diante de um escrivão apaixonado. De um homem que, em meio àquele mingau cinzento de impessoalidade, lutava quixotescamente, com sua BIC, para deixar sua assinatura no mundo. Era Winston Smith e a lavadeira. Tinha apenas um pequeno retângulo de papel para gritar ao universo sua revolta e sua felicidade por estar vivo e vingar-se, bela e inutilmente, da morte. E o fazia.

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