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Antonio Prata

01.dezembro.2010 20:34:16

On the road

Publicado na revista Wish Report

Passei boa parte das férias da minha infância em Lins, cidade interiorana onde moravam meus avós paternos. Como Lins fica a quatrocentos e trinta quilômetros de São Paulo, não seria incorreto dizer que passei boa parte das férias da minha infância dentro do carro, indo ou voltando de Lins. Da cidade, guardo poucas lembranças: a terra vermelha do quintal, as ruas quentes e planas, uma sorveteria de esquina. Já da estrada, das infinitas horas que separavam a nossa casa da de nossos avós, lembro de muita coisa.

O começo da viagem era sempre animado. Eu e minha irmã, que não víamos o pai durante a semana, falávamos sem parar sobre os acontecimentos mais importantes dos últimos dias: “Eu tô com dois dentes moles!”, “A tia Silvia tá grávida!”, “O Duílio é muito burro, ele desenhou um homem com o bigode em cima do nariz!”. Quando sossegávamos um pouco, meu pai contava uma ou outra novidade. Dizia que havia falado com a nossa avó e que ela já estava fazendo a gelatina de canela que a gente gostava, que esse ano o presépio estava ainda mais caprichado, com uns boizinhos e vacas que o meu avô tinha mandado fazer em Bauru, e a gente ficava ali, olhando o mato passar borrado pela janela e imaginando o que faria primeiro quando chegasse , se corria para o presépio ou para as gelatinas.

Quatrocentos e trinta quilômetros, contudo, são quatrocentos e trinta quilômetros, de modo que mais cedo ou mais tarde o tédio se abatia sobre nós e surgia a pergunta incontornável: “Pai, falta muito?”. Sabíamos que a resposta era positiva, mas não nos importávamos. Queríamos era ouvi-lo dizer quanto, exatamente, pois meu pai tinha inventado uma unidade de medida para viagens muito mais interessante do que quilômetros, milhas ou nós: “Acho que faltam uns… Dezesseis banhos”. Fazíamos uma cara séria, como convém a viajantes escolados, e perguntávamos: “de chuveiro ou banheira?”. “Banheira”, dizia ele. “E caprichado, desses de lavar atrás da orelha e entre os dedos dos pés.” Então começávamos a simular os banhos, ao mesmo tempo em que os narrávamos, desde o momento de tirar a roupa até pentear os cabelos. Pelo retrovisor, ele conferia cada passo: “E as meias, tiraram as meias?”. “Tô entrando!”, dizia minha irmã. “Na banheira vazia?! Tem que encher!”. A alavanca do vidro direito era a água quente, a do vidro esquerdo, a fria. Enquanto o vento entrava no carro, botávamos os pés aos poucos no vão entre os bancos, testando a temperatura da água.

O banho só era considerado terminado quando estivéssemos limpos, vestidos e penteados. Alongar o processo era fácil, sempre tinha um “esfrega as costas”, um “creme rinse” ou um “embaixo das unhas” para nos manter ocupados por mais alguns quilômetros. O problema era quando ele errava na conta, já estávamos na entrada da cidade e ainda tínhamos que tomar três ou quatro banhos. Então fazíamos o que chamávamos de “lava a jato”, método ultra rápido de assepsia, pelo qual era permitido lavar o corpo com a espuma do xampu e recomeçar o processo sem ter que pentear os cabelos. Uma ou outra vez ele chegou a estacionar o carro na esquina da casa da nossa avó, depois de seis horas de viagem, para que tirássemos a espuma dos olhos ou terminássemos de secar os cabelos.

Então entrávamos correndo casa adentro, comíamos as gelatinas, víamos as melhorias do presépio, éramos mimados pelo avô e pela avó. Mais tarde, antes de dormir, tomávamos banho de chuveiro. Um banho chato, com água de verdade e sabonete, que parecia durar muito mais quilômetros do que os do banco de trás do nosso carro.

comentários (23) | comente

23 Comentários Comente também
  • 01/12/2010 - 21:29
    Enviado por: Tweets that mention On the road « Antonio Prata -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by viviscarvalho and Douglas Picchetti, Rebeca . Rebeca said: RT @estadao On the road « Antonio Prata http://bit.ly/ekoMI6 [...]

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  • 01/12/2010 - 21:34
    Enviado por: Henrique

    E a bribcadeira de procurar uma operação matemática nas placas, ou uma frase com as iniciais…. quando as placas mudaram para três letras, foi uma revolução!

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  • 01/12/2010 - 21:45
    Enviado por: Kiko

    Bonito! Gosto do seu sarcasmo habitual, mas gostei do momento poético.

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  • 01/12/2010 - 21:59
    Enviado por: Nadja G.

    Que bonitinho!

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  • 02/12/2010 - 01:48
    Enviado por: Celina

    Nossas viagens não demoravam tanto porque o verdadeiro objetivo era encontrar um canto de estrada, parar, abrir o porta-malas e fazer piquenique ali mesmo: bolinhos de arroz branco japonês (oniguiri) com bife a milanesa, regados a guaraná Antártica.

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  • 02/12/2010 - 06:32
    Enviado por: antonio euclides

    L.I.N.S.? aqui na minha cidade todos os maridos fujões vão pra lá. L ugar I ncerto e
    N ão S abido. he he. Pros meus filhos, nas viagens feitas ao entardecer, eu inventava que as nuvens estavam indo pro encontro da Graaande Nuuuvem. Um espetáculo lindo no céu que acontecia porque todas as nuvens se encontravam pra contar as novidades do que viram sobre a Terra. Olha lá, aquela tá meio atrasada! acho que nao vai chegar a tempo. E aquelas ali bem pequenininhas junto da mãe! boas lembranças. O seu texto tá ótimo.

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  • 02/12/2010 - 12:41
    Enviado por: Rodrigo Casarin

    Das minhas viagens para Lins, o que mais me recordo são dos lanches no Rodoserv e dos intermináveis sobe-desce da estrada!

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  • 02/12/2010 - 14:05
    Enviado por: Cláudia

    Que cronista você é…caramba!

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  • 02/12/2010 - 15:58
    Enviado por: kukubahhhh

    Infância.

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  • 02/12/2010 - 16:33
    Enviado por: Glúon

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    _______________
    .
    Atualizando 2010
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    .
    - Pai, falta muito?
    - Acho que faltam uns… Dezesseis video games…
    - Mas já jogamos todos!
    - E as fofocas do WikiLeaks?
    .
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  • 03/12/2010 - 10:26
    Enviado por: Ca

    Nunca contei a nenhum amigo o que vou relatar agora, talvés porque faça parte das lembranças secretas -agora nem tanto- da infância, que ganham um toque especial só por serem mantidas em sigilo, ou porque nunca tenha havido oportunidade de contar… Enfim, quando eu era pequena, meus avós moravam na casa ao lado, e todo dia minha vó vinha e me sentava nos três degraus que levavam da garagem ao referido quintal. Ela descascava laranjas e imediatamente aquele espaço usado anteriormente para estender roupa, virava a beira do rio, e comíamos as frutas, e eu conseguia até sentir a água batendo na canela. Recentemente tentei fazer o mesmo, pois continuo morando na mesma casa, mas agora sozinha. E o sentido perdeu-se completamente, Ficamos mais chatos depois de velhos….

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  • 03/12/2010 - 12:04
    Enviado por: Paula Homor

    Genial! Amei!!!

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  • 05/12/2010 - 17:28
    Enviado por: Nina Vieira

    Lembro-me de uma crônica escrita pelo teu pai sobre você no banco de trás do carro (na frente iam o Mário a dirigir e a tua mãe no banco do carona). Você então fez uma poesia com as árvores que via pelo caminho – o que fez com que os seus pais se entreolhassem e descobrissem que ali havia um escritor.

    Os anos passaram e eles não estavam errados. E gosto muito dessas memórias que você narra, do tempo que era menino. Algo um tanto mineiro de se expressar – e é bom que você tenha no sangue um dos melhores escritores que temos no Brasil.

    Abraços.

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  • 05/12/2010 - 20:46
    Enviado por: Tatiana

    Cara,
    você é genial!
    Abraços,
    Tatiana.

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  • 06/12/2010 - 22:01
    Enviado por: Camila Tarifa

    muito bom!

    vou dormir feliz!

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  • 07/12/2010 - 10:06
    Enviado por: Hugo Calixto

    Muito legal
    Parabéns!

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  • 07/12/2010 - 10:53
    Enviado por: Lucinda

    Prata.

    Cada vez melhor isso posso te dizer cada vez melhor… não tem como não ler… gente tenho que assumir em público ou viciada em vc hahah…. lembro das minhas viagens para praia com meus pais não eram 400 km porem meu pai tinha uma belina e nós faziamos mega brincadeiras lá trás… muito divertido mesmo,,,, bom que não foi só comigo… tenho q agradecer aqui aos pais e aos irmãos q tenho né… coisas como essas determinaram muito do que sou hj.

    bjoss..

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  • 07/12/2010 - 15:34
    Enviado por: Fessoura

    Pratinha,

    Voce me ajuda a provar aos meus alunos que a leitura faz bem e pode dar voz às eXperiências mais simples e fazer delas uma ” história mais bonita que a de Robinson Cruzoé”. Sua sensibilidade e inteligência surpreendem, provavelmente, até mesmo ao humor “desajuizado” do Pratão. Fico cá imaginando como ele deve se orgulhar de você.

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  • 07/12/2010 - 16:35
    Enviado por: Thais

    Libera pra gente a receita da gelatina de canela da vovó Prata, por favor!!!!Bjus!!!!!!!!!!!!!

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  • 08/12/2010 - 02:56
    Enviado por: Mariana

    Meu pai tinha uma brincadeira- para momentos oportunos, como os de uma longa viagem- em que ele possuia uma arma paralizadora. Claro que ele sempre me acertava mais do que eu acertava ele… Entao quando paralizada perguntas como : ta chegando? simplesmente nao aconteciam e a ansiedade por chegar tambem nao… Pode parecer meio cruel, simplesmente paralizar a filha, uma inocente crianca… Mas eu me divertia, pois quando me cansava de estar paralizada, comecava outra vez o divertidissimo tiroteio imaginario de armas paralizadoras!

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  • 15/12/2010 - 16:00
    Enviado por: Ed Woiski

    Parabéns Prata, emocionante.

    Esse texto é uma máquina do tempo.

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