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Malhação de Judas

05 abril 2010 | 04:02

Você conhece a situação. Um cruzamento: na mesma rua, duas pistas seguem em frente, uma vira para a direita. Há dois faróis: um para quem seguirá reto e um para quem pretende entrar na transversal – uma flechinha luminosa, que aponta naquela direção. Num determinado momento, estão todos fechados. Aí o desavisado, cujo intuito é seguir em frente, para na pista que dá acesso à direita, feliz e contente. Até que o farol de flechinha abre, o outro não e o incauto motorista passa a empacar a fila inteira, atrás dele.

Não dá pra contar até três e já começa o buzinaço. E não é qualquer buzinaço. A buzina, assim como o aparato vocal humano, é um instrumento complexo. Vai do mais delicado fom fom de agradecimento ao urro viking cuja tradução, em português, seria “saia da minha frente seu artrópode imundo antes que eu arranque seus olhos com a chave de boca e os dê como alimento para minha criação de iguanas!”.

O ódio dos motoristas é tanto e a adesão ao buzinaço tão efetiva que, acredito, o desatento que fecha a pista está fazendo um bem aos seus concidadãos. Onde a gente vê, numa cidade grande e a agitada como São Paulo, tamanha comunhão entre desconhecidos? Talvez, só num linchamento ou num saque a uma carreta virada. Os gregos tinham as tragédias, os romanos tinham o Coliseum e nós temos o trânsito. Que momentos de catarse coletiva! Que segundos preciosos de relaxamento e descontração!

Imagino que certas pessoas esperem o dia inteiro pela hora de chegar a um farol como esse. Vários quarteirões antes, já começam a torcer: tomara que alguém pare! Tomara que alguém pare! Tomara que alguém pare! Então ele chega lá, o farol abre e… A fila não anda. Ah, que felicidade é meter a mão na buzina e deixar tudo ali: o Almeidinha que foi promovido em seis meses e eu lá ralando há anos; a Maria Alice que levou o irmão pro nosso feriado de Páscoa e o folgado ainda assumiu a churrasqueira; o moleque que tirou três em química; a filha que esqueceu de novo o aparelho móvel na bandeja do McDonald’s; sem falar da careca, da barriga e dos adolescentes do andar de cima, que deram pra tocar bongô às duas da manhã.

Em meio ao buzinaço, no entanto, tudo fica menor. Aquilo, pelo menos, ele não faz. Ele sabe que a pista da direita é exclusiva para conversão. Ele sabe que quem pretende seguir reto tem que parar à esquerda. O que é mais importante: diante da sinfonia, o motorista percebe que não está sozinho. Uma dúzia de carros urram, alinhados: somos infelizes, somos ansiosos, somos neuróticos, mas sabemos que a pista da direita é exclusiva para conversão! Nesse instante a vida tem algum sentido – e não fosse o imbecil parado à frente, ele iria convicto naquela direção.