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Antonio Prata

05.abril.2010 04:02:44

Malhação de Judas

Você conhece a situação. Um cruzamento: na mesma rua, duas pistas seguem em frente, uma vira para a direita. Há dois faróis: um para quem seguirá reto e um para quem pretende entrar na transversal – uma flechinha luminosa, que aponta naquela direção. Num determinado momento, estão todos fechados. Aí o desavisado, cujo intuito é seguir em frente, para na pista que dá acesso à direita, feliz e contente. Até que o farol de flechinha abre, o outro não e o incauto motorista passa a empacar a fila inteira, atrás dele.

Não dá pra contar até três e já começa o buzinaço. E não é qualquer buzinaço. A buzina, assim como o aparato vocal humano, é um instrumento complexo. Vai do mais delicado fom fom de agradecimento ao urro viking cuja tradução, em português, seria “saia da minha frente seu artrópode imundo antes que eu arranque seus olhos com a chave de boca e os dê como alimento para minha criação de iguanas!”.

O ódio dos motoristas é tanto e a adesão ao buzinaço tão efetiva que, acredito, o desatento que fecha a pista está fazendo um bem aos seus concidadãos. Onde a gente vê, numa cidade grande e a agitada como São Paulo, tamanha comunhão entre desconhecidos? Talvez, só num linchamento ou num saque a uma carreta virada. Os gregos tinham as tragédias, os romanos tinham o Coliseum e nós temos o trânsito. Que momentos de catarse coletiva! Que segundos preciosos de relaxamento e descontração!

Imagino que certas pessoas esperem o dia inteiro pela hora de chegar a um farol como esse. Vários quarteirões antes, já começam a torcer: tomara que alguém pare! Tomara que alguém pare! Tomara que alguém pare! Então ele chega lá, o farol abre e… A fila não anda. Ah, que felicidade é meter a mão na buzina e deixar tudo ali: o Almeidinha que foi promovido em seis meses e eu lá ralando há anos; a Maria Alice que levou o irmão pro nosso feriado de Páscoa e o folgado ainda assumiu a churrasqueira; o moleque que tirou três em química; a filha que esqueceu de novo o aparelho móvel na bandeja do McDonald’s; sem falar da careca, da barriga e dos adolescentes do andar de cima, que deram pra tocar bongô às duas da manhã.

Em meio ao buzinaço, no entanto, tudo fica menor. Aquilo, pelo menos, ele não faz. Ele sabe que a pista da direita é exclusiva para conversão. Ele sabe que quem pretende seguir reto tem que parar à esquerda. O que é mais importante: diante da sinfonia, o motorista percebe que não está sozinho. Uma dúzia de carros urram, alinhados: somos infelizes, somos ansiosos, somos neuróticos, mas sabemos que a pista da direita é exclusiva para conversão! Nesse instante a vida tem algum sentido – e não fosse o imbecil parado à frente, ele iria convicto naquela direção.

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29 Comentários Comente também
  • 05/04/2010 - 09:27
    Enviado por: Livia Cielu

    Não podia ter achado melhor título! hahahah
    Outro momento de puro extase, diria que quase o high light da viagem de feriadão, é buzinar nos túneis…. ah mas que momento glorioso… as vozes dos carros anunciando a ida e/ou a volta do feriadão. Fale ai Prata, tem coisa melhor para o paulista: congestionamento, filas, e o puro prazer de enfiar a mão na buzina e graciosamente cumprimentar a mãe do motorista a frente…

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  • 05/04/2010 - 10:04
    Enviado por: Scubi

    É provável que o autor tenha se inspirado na descida da Cardoso, vindo da Dr. Arnaldo, que cruza a rua que leva ao Pacaembu. Ou então na esquina da Henrique Schaummann com a Luis Murat, que dá acesso à Vila Madalena.
    Eu, sabedor dessa regra de sobrevivência em São Paulo, fico muito orgulhoso de NUNCA ter empatado o trânsito nessas duas esquinas e, ainda por cima, ter podido descarregar minha raiva inúmeras vezes com o buzinaço.
    No entanto, num passado recente, cometi um grave erro. Ao chegar nessa tal Luis Murat, já tinha visto o imbecil para ali e não hesitei a descer a mão na buzina. No entanto, pasme, caro autor, essa terapia de contra-indicações. Tal cruzamento pensou em pedestres e, efetivamente, o tal “livre à direita” fica vermelho por uns 15 segundos a cada 5 minutos!!!
    Onde já se viu? Eu com a mão na buzina e o imbecil da frente me mostrando que pra passar ele teria que atropelar uns manés.
    Desde quando pedestre é mais importante que minha terapia anti-stress? Quero meu direito ininterrrupto ao buzinaço de volta.

    O Sr. pode fazer alguma coisa quanto a isso?

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  • 05/04/2010 - 10:27
    Enviado por: Juliana

    Engraçado, Antônio, que enquanto voce viu a união dos que buzinam, quando eu olho, só vejo o individualismo de quem acha que pode parar onde convier (muito a frente na pista de virar é preferivel do que muito atrás na pista em linha reta) e espera que os outros aguardem enquanto sua chance de fazer o que é melhor para si não vem. Acho sinônimo perfeito dos nossos tempos! Aliás, muito exemplos relacionados ao trânsito o são. Mas adorei ler a crônica e ter outra perspectiva – enquanto, claro, seguirei morrendo de raiva do infeliz que só pensar em si e não seguir as “leis” do semáforo.

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    • 07/04/2010 - 14:39
      Enviado por: Ademar Lopes

      Juliana, faço coro (em parte) com você. O egoísmo dos “mautoristas” brasileiros é praticamente uma instituição do nosso país. Ele prefere levar umas buzinadas, a ter que esperar na fila reta, e correr o risco de não conseguir passar no semáforo, continuando na fila até “verdear” novamente. É o autentico praticante da Lei de Gérson.
      Mas como não se pode controlar a atitude dos outros, a melhor maneira de lhe dar em situações assim, é fazer sua parte: não aja como ele. E quando estiver atrás do espertalhão, aumente o som do seu carro pra não deixar que o buzinaço estrague o seu dia.
      Isso é como ficar bravo com gente que joga papel no chão. É cultural, está (infelizmente) agregado a nosso país. Não há muito o que fazer. Apenas a sua parte.
      E quem sabe um dia teremos carros que não precisarão de buzinas.

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  • 05/04/2010 - 11:28
    Enviado por: Milene Creti Bruzadelli

    Antônio,
    Pode até parecer que sou sua tiete (e, apesar de cafona, talvez eu até seja mesmo! rs).
    Mas, eu adoro os seus textos! Você tem a capacidade de tratar de problemas cotidianos e sérios com uma ironia tão elegante que eu fico babando! rs
    Obrigada por fazer a minha segunda-feira mais alegre!
    Abraços

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  • 05/04/2010 - 11:31
    Enviado por: Frederico

    Os gauchos estão só observando as malhações de Judas para ver quem é o próprio. No Rio o alvo foi o Ibsen do Congresso Nacional por conta da distribuição de royalties que alguns achavam que TODOS os Estados não teriam como reinvindicar, alguns até reverberaram que deveria incidir na recíproca dos produtos de origem noutros Estados o que vem ocorrendo há muitos anos e esta redisbrituição é justa e agora é a vez de todo o conjunto de Estados serem compensados pela riqueza nacional. Mas a malhação foi injusta e com reflexos que ainda não se pode avaliar. Lembram do Renato Gaucho que falou asneiras do Povo baiano, cobraram dele 10 anos depois e a saia justa serviu bem para ilustrar o que os Cariocas – falo de todos – que se acham mais do que qualquer brasileiro, seja de onde for. O Maia com lágrimas de crocodilo (barriga cheia) quer posar de coitado. Não é Carioca quem vai atropelar gaucho e nem outro qualquer. Raciocinar é a melhor prática mas se há mais armas na rua que na segurança acham que amedrontam quem ?

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  • 05/04/2010 - 11:50
    Enviado por: Julia

    Na minha cidade a tradição é outra mesmo. Ainda malhamos o Judas, literalmente!

    Penso até que os carros não tem buzina. Hummm deve ser opcional nos carros!! hehehe

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  • 05/04/2010 - 12:51
    Enviado por: ana claudia faccin

    Ao invés d`eu me orgulhar em nunca “empatar” o trânsito, me orgulho em nunca ter “enfiado a mão na buzina”… Em nossa grande metrópole vale a dica que uma certa pessoa, nem me lembro quem, disse certa vez: ´”precisamos compreender a incompreensão das pessoas”. É filosófico, mas funciona!

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  • 05/04/2010 - 14:55
    Enviado por: Guilherme

    Quem não pertence ao grupo seleto de pessoas que sabem quais semaforos tem a direita livre deveriam receber o buzinaço sempre, mas eles deveriam se aborrecer com isso, coisa que muitas vezes eles nem precebem, ligando o rádio ou procurando algo na agenda, ou até mesmo passando o batom e dando um sorriso pelo espelho para você.
    Incluindo nessa historia podemos dar muitos outros exemplos como:
    Andar a 100 km/h na faixa da esquerda da Rodovia dos Bandeirantes (será que não viu que o máximo era a 120 Km/h mais uns 10% do radar), ou andar em velocidade menor que a máxima do local, ficar tentando estacionar em uma vaga na rua movimentada, não dar passagem para as motos na exclusiva faixa virtual.
    Pensando bem privilégio mesmo tem os queridos amigos moto-boys pois podem buzinar a hora que quiserem.

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  • 05/04/2010 - 15:32
    Enviado por: Rafael Salerno Tenorio

    Mal esperava pelo momento em que você retomasse a publicação de suas crônicas muito bem elaboradas. Sucesso!

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  • 07/04/2010 - 12:45
    Enviado por: Viviane Breda

    A.M.E.I !

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  • 07/04/2010 - 16:41
    Enviado por: TG

    Eu sou uma seguidora da doutrina de disciplinação dos motoristas donos da rua.
    E esse tipo que acha que pode parar o transito de são paulo só porque não se manteve na faixa correto é que forma centenas de quilômetros de trânsito diariamente na cidade. Meia dúzia deles soltos e é recorde do ano em congestionamento. meto a mão na buzina mesmo, pra constranger, pra disciplinar, quem sabe da próxima vez ele cria vergonha e fica na faixa correta e deixa o trânsito tentar fluir.

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    • 10/04/2010 - 21:12
      Enviado por: TA

      Até parece que todas as pessoas tiveram de ter nascido onde você mora, para saberem de cor onde é que vai surgir um semáforo (farol é aquela luz que fica na dianteira do carro, ou que serve para guiar os navios), com sinalização diferenciada à direita, para posicionar-se em outra faixa.
      Paulistano é mesmo um bando de idiotas.
      Merecem conviver nesta cidade.

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    • 12/04/2010 - 09:42
      Enviado por: TA

      Prata, vai dar uma de censor, como os fascistinhas do Estadão? Quer dizer que buzinaço é medida disciplinadora? Todo mundo é obrigado a saber os caminhos da TA, para saber de antemão que no caminho dela vai haver um semáforo com seta indicativa de conversão à direita? A obrigação é dos órgãos da prefeitura de sinalizar com antecedência sobre essa faixa diferenciada, não do motorista que veio de caixa-pregos descobrir que dona TA passa por ali todos os dias e fica nervosinha. Quem tem pressa sai mais cedo, esta é a melhor medida disciplinadora. Em tempo: farol é a luz que existe na parte dianteira dos veículos, ou então aquela que orienta os navios. O conjunto de luzes que orienta o trânsito chama-se semáforo. Esses paulistanos que só olham o próprio umbigo…

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  • 07/04/2010 - 18:31
    Enviado por: Glúon

    .
    _____________
    .
    Papo de leitores
    .
    ______________
    .

    - Por que você não fez logo o seu comentário assim que saiu este post?
    - Porque quis esperar que ficassem mais de 13 comentários na minha frente.
    - Mas por qual motivo?
    - Ah, que felicidade é meter a mão na buzina, né?
    .
    ____________________________________
    .

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  • 07/04/2010 - 20:39
    Enviado por: Juliana

    Voce acha que Sao Paulo eh ruim? Eh que voce ainda nao conheceu a capital dos “assholes” assim os chamamos, eu e meu namorado. O lugar eh Glen Cove, em Long Island, NY. O sinal abre, nao da nem tempo para o cerebro mandar a mensagem para o pe se mover e o povo, com suas Mercedes, BMWs, Volvos, Corvettes, Porches e Ferraris metem a mao na buzina sem nem pensar. Eh tanta pressa para ir ao Mall que nao podem esperar que o cerebro faca o seu trabalho.

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  • 08/04/2010 - 22:26
    Enviado por: Jacqueline

    Tem um cruzamento desses na minha rua, e preciso passar por lá todos os dias. E preciso confessar, todas as vezes, quando fecho o portão, fico torcendo para alguém parar, só para eu buzinar….

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  • 08/04/2010 - 22:27
    Enviado por: ursula

    confesso que sempre fui a estressadinha do trânsito. não de ficar buzinando, xingando ou qualquer coisa semelhante. mas ficava me mordendo com os “mautoristas” como disse o colega ademar. aí passei uma temporada dirigindo pela itália. olha, honestamente, nosso trânsito pode até ser pior, mas a falta de educação e bom senso dos carcamanos, socorro, um horror total! então toda vez que estou para ficar p_ta da minha vida, eu lembro da experiência italiana, aumento o som e desencano.

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  • 09/04/2010 - 13:05
    Enviado por: Mariana Pedrosa

    Hahaha! Genial!

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  • 12/04/2010 - 23:21
    Enviado por: Thaiza

    Rá, aposto que nosso caro Prata já foi um dos que empacaram o trânsito e recebeu um buzinaço antes de aprender que no semáforo a pista da direita é exclusiva para conversão. Né não?

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  • 14/04/2010 - 19:25
    Enviado por: Gabriela

    Das poucas vezes que calhei de ficar meio que sem querer na faixa da direita, mesmo sem ser meu caminho, eu virei, só pra não ficar empatando a vida dos outros, hehe. DETESTO que buzinem pra mim!!!

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  • 15/04/2010 - 16:11
    Enviado por: Fernanda

    Escreve um texto por dia, vai? Não, pode ser uma frase, vou me contentar.

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  • 21/04/2010 - 02:43
    Enviado por: Bento Moura

    Aprendi que educação é de berço. Ou se tem ou não se tem.

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  • 21/04/2010 - 12:40
    Enviado por: Sr. Chateado!

    Lançar coluna é luxo!

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  • 30/04/2010 - 10:01
    Enviado por: Cati

    É insuportável ouvir a sinfonia das buzinas! Nem o som alto abafa esse som destruidor de tímpanos! Queria ter num momento desses um balde cheio de papel higiênico molhado… bem molengo e lancar em todos esses babacas paulistanos, como eu! Ôôô povinho chato! Pra que buzinar? Vai ajudar em que? Não vai fazer com que o cidadão que realizou a manobra “sem noção” se mova até que o farol abra novamente, mas contrariamente, perturbará a paz de TODOS os cidadãos: pedestres, motoristas, passageiros de transporte público, garis, comércios locais e hospitais.
    Sabe qual é o problema de nós, paulistanos? Achamos que quem tem direitos, fome, desejos e necesidades somos apenas nós… ninguém mais! Qula é mesmo a definição de povos primitivos?

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  • 20/08/2010 - 00:42
    Enviado por: ceci

    Antonio,
    na China acho que é o único lugar em que a buzina tem outros valores. Aqui a buzina diz: “tô passando!”. Sem ofensa…(não por isso menos irritante!). Fora isso, alguém teve uma idéia genial que estipulou como regra número um do trânsito que virar a direita é SEMPRE permitido, não importa a cor do farol! Ou seja, o pedestre é o peido do cocô do cavalo! Por essas e por outras, aqui ninguém buzina na descida da Cardoso de Almeida…
    Beijos,
    Cecu

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  • 26/10/2010 - 21:25
    Enviado por: Guilherme Scarpari

    Em Junho deste ano, no aeroporto internacional de Guarulho, quase já madrugada, embarcava pro Mexico com meu irmão mais velho para uma viagem de um mês, quando ele pergunta: Onde estava o seu aparelho móvel?
    Semelhanças com sua filha…

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