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Antonio Prata

13.dezembro.2010 15:23:05

Fruto proibido

No começo do mês, estive em Nova York. Durante as semanas que antecederam a viagem, fui anotando dicas de amigos em folhas de caderno, guardanapos, recibos de redeshop, o que tivesse à mão. Só de “o melhor hambúrguer do mundo”, consegui umas sete sugestões; “o cheesecake original”, quatro; e com os endereços para comer sanduíches de pastrami enchi frente e verso de um papel A4.

Como amizade e comida boa são duas coisas que respeito muito, em dez dias nos EUA eu gabaritei as anotações: voltei dois quilos mais gordo e, ainda no avião, fiz a promessa de, nos próximos seis meses, não chegar a menos de dez metros de uma batata frita.

O que de mais saboroso provei por lá, contudo, não foi fast-food nem era uma especialidade local. Trata-se, pasmem, de um vegetal. Ou, para ser mais exato, um fruto: uma dádiva dos deuses que, infelizmente, não existe por aqui. Chama-se tomate.

Assemelha-se bastante, por fora, àquele fruto ao qual, em nosso país, também damos o nome de tomate, mas uma vez que seus dentes penetram a carne macia, o suco abundante escorre pelo queixo e o doce natural mescla-se ao sal, em sua língua, você entende que está diante de um alimento completamente diferente.

Eu, um entusiasta do Brasil, tive dificuldade em admitir, mas não houve jeito: o nosso tomate está para o americano como a parte branca da melancia está para a vermelha, o kani para o caranguejo, a margarina para a manteiga. O estado lamentável deste venerável fruto por estas plagas não se deve ao nosso suposto atraso, como imaginaria o brasilofóbico de plantão – sempre pronto para ver, por todo lado, sinais do nosso subdesenvolvimento -, muito pelo contrário: resulta de anos e anos de bem sucedida engenharia genética.

Acontece que a qualidade do tomate está ligada, entre outros fatores, à quantidade de água nele contida. Quanto mais líquido, mais macio e saboroso. O problema é que a maior presença de suco aumenta o sabor na mesma medida em que reduz a durabilidade. Os agricultores, pensando mais na performance de seu produto dentro dos caminhões do que em cima dos pratos, passaram a priorizar os frutos mais “secos”, foram cruzando-os e manipulando suas características até o transformarem nesse tímido vegetal – parte branca da melancia — que agüenta todos os trancos da estrada, dura séculos na geladeira e quase chega a ser crocante, em nossos dentes.

Agora que descobri as virtudes que poderiam esconder-se sob a fina pele vermelha, observo tristemente as rodelas no meu prato de salada. Assemelham-se a um senhor que passou a vida toda sem comer, sem beber, sem fumar, sem expor-se ao sol nem à chuva, evitou as incertezas do amor e os arroubos do futebol: agora tá aí, 105 anos de idade e nenhuma história pra contar. Leito seco de rio. Piada sem graça. Tomate para todos: tomate para ninguém…

Sei que há questões mais urgentes a serem tratadas em nosso país. Há que levar água encanada para cinquenta milhões de pessoas, criar escolas que ensinem a ler e escrever de verdade, evitar que a gente morra de bala perdida ou picada de mosquito. Mas queria pedir às autoridades competentes, sejam elas públicas ou privadas, que depois de resolvidos os pepinos e descascados os abacaxis, ajudem a plantar tomates de verdade, no Brasil. A vida é curta, meus caros, e não podemos medir esforços para deixá-la mais doce, macia e suculenta.

comentários (21) | comente

21 Comentários Comente também
  • 13/12/2010 - 16:02
    Enviado por: kukubahhhh

    “……..agora tá aí, 105 anos de idade e nenhuma história pra contar”

    Cheguei até esse trecho e entrei em outro mundo, me preocupei… sou jovem e com poucas histórias ainda… medo do futuro!

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  • 13/12/2010 - 16:20
    Enviado por: TG

    Tenta a sessão de “orgânicos” do seu supermercado habitual.
    Não só o tomate, mas o morango, o rabanete. e até mesmo um pé de alface voltam a ter sabor.

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  • 13/12/2010 - 16:59
    Enviado por: Tatiana

    Pois é, estamos todos sendo intoxicados aos poucos.
    E o que dizer dos ingleses, que no ano passado lançaram uma variedade de tomate chamada “Intense”? A fim de evitar que o suco liberado pela fruta deixe o sanduíche com gosto e aparência de papelão molhado, a Tesco lançou o tomate que libera apenas 3% de água. É mole?
    Abs,
    Tati

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  • 13/12/2010 - 21:46
    Enviado por: Glúon

    .
    ____________
    .
    Papo na feira
    .
    ____________
    .
    - O que são legumes?
    - Feijão, ervilha, vagem, fava e lentilhas…
    - E as verduras?
    - São as folhosas que ingerimos nas saladas, como couve, coentro, salsa, alface e repolho…
    - E o tomate, o chuchu, o pimentão e o pepino?
    - Em termos botânicos não são legumes nem verduras, são frutas.
    - Então não é melhor saborear tomates até os 105 anos?
    - Bem, do que adianta comer fruta se não pode verdura, né?
    .
    _____________________________
    .

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  • 13/12/2010 - 21:53
    Enviado por: Nina Vieira

    Adoro tomate. Não falta no meu prato. tomate e coentro.

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  • 13/12/2010 - 22:47
    Enviado por: Ana Luíza

    Antonio, tem um tempo que não venho no seu blog, mas sempre que venho me dá a maior vontade de escrever também! É incrível como você transforma situações comuns (ou melhor, incomuns, porque é realmente incomun achar um tomate que não seja sem graça por aí!!) do dia-a-dia em um texto interessante e gostoso de ler! Adoro o seu blog! Um beijo!

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  • 13/12/2010 - 23:04
    Enviado por: Regina

    Antonio, vc conseguiu sentir o cheiro da folha também ? Infelizmente, todos os legumes estão lindos por fora, insossos por dentro, parece que a cultura de valorizar apenas a aparência atingiu também os tomates, pena …. Obrigada por levantar a questão. abraços,

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  • 14/12/2010 - 03:08
    Enviado por: Riccardo(California,USA)

    Ja tive esta discussao varias vezes na minha familia,minha irma sempre quando vem aqui pros EUA soh critica a comida.

    Tudo bem, gosto eh gosto, mais eu falo pra ela nao me falas mau do tomate,o tomate daqui eh uma delicia…

    Vou mandar este post para ela.

    Obrigado

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  • 14/12/2010 - 12:03
    Enviado por: Guilherme

    Taí uma boa sugestão para presente de amigo secreto!!!!

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  • 14/12/2010 - 16:57
    Enviado por: Francisco

    Antonio,
    Esse tomate existe no Brasil. Só que estão nos quintais das casas interioranas.
    Já comi tomate igual a esse, no interior de Goiás e no Nordeste. Nos supermercados das grandes cidades brasileiras nunca vamos encontrá-los. Pois eles priorizam o lucro e só plantam tomates secos para durarem muito e darem lucro.
    Nas viagens que fizer pelo interior brasileiro procure “o tomate” que você achará.

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  • 14/12/2010 - 19:49
    Enviado por: Ana Mesquita

    É sim, nos quintais das casas interioranas existe, inclusive no da minha mãe. E quando ela acaba de tirar um pão caseiro do forno, a gente corta uns tomates, coloca azeite e sal e espalha no pão, sem esquecer do caldo. De pensar me dá água na boca!

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  • 15/12/2010 - 14:48
    Enviado por: Laura

    Concordo totalmente. Quando eu morava na Alemanha, verificava a mesma coisa não somente com relação aos tomates, mas também às uvas…

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  • 16/12/2010 - 11:47
    Enviado por: Fabio Ludwig

    Há mais de década, morei um ano no interior dos EUA e tive uma experiência gatronômica parecida. O que mais me recordo é o sabor do milho – mais doce que salgado – e das batatas – bem maiores, com a casca dura, mais brancas e macias por dentro. Há dois meses, voltei lá para visitar. Passei longe do “melhor hambúrguer”. Fiquei com os sabores bem mais comuns – e bem mais surpreendentes – que conheci por lá.

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  • 16/12/2010 - 17:19
    Enviado por: Gabriella

    Viva o tomate seco!

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  • 16/12/2010 - 18:11
    Enviado por: Jefferson Sato

    Me deu vontade de experimentar.
    Aliás, deu tanta vontade que eu SONHEI com seu texto. Sonhei que fui num restaurante e me deram um desses supertomates e aí lembrei que o Antonio Prata tinha comido um desses e achado o máximo!

    Mas aqui vale explicar o contexto: eu não costumo sonhar (tá, eu sei que todo mundo sonha todas as noites, mas quando digo que não sonho é só um modo de dizer que eu nunca me lembro do que sonhei). O último sonho que lembro foi em março!

    Crônica poderosa, sem dúvidas.

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  • 16/12/2010 - 21:38
    Enviado por: Ana Karolina Grimmes

    Meu pai, meu lindo pai chama-se Antonio. Quando eu tinha seis anos de idade, meu irmãozinho nasceu e eu tive a responsabilidade de escolher um nome pra ele. Antonio.
    Depois de grandinha briguei com meus pais porque meu nome não era Antonia.
    Não é à toa, mas também não só pelo nome, que eu adoro tudo o que você escreve!!!

    Abração,

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  • 22/12/2010 - 00:22
    Enviado por: alexandre

    Verdade

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  • 28/12/2010 - 19:56
    Enviado por: Mari

    Oi Antonio, voce já provou o tomate perinha? Nao existia na nossa infancia, mas hoje nao falta na feira ou no super. Tem muito sabor é docinho e vermelho. Muito melhor que o cereja. (Meus pequenos comem como se fosse batata-frita.) Tem outro tipo, o momotaro, que é muito bom também. Bem diferente dos carmens e deboras da vida…

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  • 02/01/2011 - 23:47
    Enviado por: Becka

    Se não bastasse sua capacidade de escrever sobre as coisas simples como se fossem as mais importantes, resolveu falar do melhor vegetal que já experimentei. O que acreditava ter experimentado.
    Agora já sei uma das primeiras coisas que farei em New York, comer, pelo menos um, tomate!

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  • 03/01/2011 - 22:04
    Enviado por: Julia

    Você já experimentou tomate na Italia? Na minha modesta opinião é o melhor tomate do mundo.
    Parabéns pelos deliciosos textos.

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