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Antonio Prata

31.dezembro.2010 11:46:09

Caros leitores: de hoje em diante este blog deixará de ser atualizado. Meu novo endereço é http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/
Espero vocês por lá.
Abs!

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10.dezembro.2010 18:58:09

Socialmente

Publicado na revista Wish

Como todo mundo, eu comecei pelo e-mail. Algumas vezes por dia, no meio de um texto, minimizava o Word e abria o Outlook. Não é que eu estivesse à espera de alguma mensagem importantíssima – como percebi com o tempo, importa menos a mensagem do que a expectativa em relação a ela, o milionésimo de segundo em que vemos surgir aquela linha em negrito e pensamos: quem será? O que dirá? É como a bolinha girando na roleta, a carta deslizando sobre o feltro verde, em sua direção; o futuro numa compota; o porvir num grão de areia.

Percebi que a coisa estava fugindo ao meu controle quando me peguei, diante da caixa de entrada vazia, clicando ansiosamente no ícone “enviar e receber” — uma, duas, três vezes em seguida. Como todo viciado, inventava justificativas para não encarar a situação. Dizia a mim mesmo: se clico tanto é porque pode ter algum e-mail preso ali, nalgum gargalo eletrônico, precisando apenas de uma chacoalhada pra cair. Ou: vai que alguém me escreveu justamente um segundo depois da primeira clicada? É preciso tentar de novo, e de novo, e…

Enquanto fiquei apenas no e-mail, a vida seguiu sua marcha – um pouco mais lenta, claro, devido a tantas interrupções postais, mas seguiu. O e-mail, agora sei, é a maconha do mundo digital. Viciante, sim, mas não muito nocivo. A droga que iniciaria minha derrocada, a cocaína do mundo virtual, ainda estava para ser inventada: o Orkut.
Quando ele apareceu, em 2006, eu caí de nariz. Abandonava trabalho, família, interrompia sexo e refeições no meio só para percorrer, de um lado pro outro, eufórico, as catacumbas sem fim daquele inferno azul bebê. Brotava conhecido de tudo quanto era lado: primo que você não via desde 83, namoradinha da terceira série, a turma inteira do segundo B se comunicando: “não acredito, o Luba virou veterinário!”, “nossa, a Vanessinha ficou gostosa!”, “quem aí lembra da Mariana Leme, que espirrou na aula de ciências e voou meleca na professora?!”.

Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social.
Tentei me salvar. Saí do Orkut e disse a mim mesmo: vou me curar. Vou tirar os olhos da tela e recolocá-los no mundo. Veio o Myspace, eu ignorei. Vieram o Linkdim e o Flicker, não dei bola. Mesmo diante do Facebook, a rede de todas as redes, evitei a recaída. Até que surgiu o Twitter. “Que mal tem?”, me perguntaram os falsos amigos. “São só 140 caracteres! Experimenta, todo mundo usa: O Obama, o Tom Waits, a Xuxa! Vai!” Eu fui.

Se o e-mail era a maconha e o Orkut a cocaína, o Twitter é o crack. Nos dois meses seguintes, eu fingi que trabalhava, eu fingi que conversava, eu fingi que vivia, mas minha cabeça estava todo o tempo pensando em sacadinhas para tuitar. Ouço um trovão, penso: “chuva, raio, São Pedro… O que pode haver de engraçado e curto, aí?”. Panetones surgem no mercado, começo: “panetones, natal, mercado, vamos lá, Antonio, o que dá pra escrever em 140 toques sobre o assunto?” Nos últimos meses, vi jogos de futebol, debates e a reprise de Vale Tudo com o lap top no colo, tuitando, retuitando, checando retuites, até minha cabeça dar tilt.

Foi no salvamento dos mineiros chilenos que me dei conta da gravidade da situação. Ao vê-los ali, nas entranhas da Terra, e ter o sentimento de solidariedade solapado pelo desejo de tuitar piadinhas, percebi que era eu quem estava no fundo do poço. Como o drogado que rouba a mãe para alimentar o vício, eu estava prestes a abrir mão da dignidade em troca de 140 caracteres engraçadinhos.

Nas 24 horas seguintes, enquanto a Phenix trazia os mineiros da escuridão da caverna para as luzes dos flashes, eu viajava de avião, barco e canoa para um vilarejo isolado, às margens do rio Tapajós, onde agora me encontro. Aqui não há computador, luz, nem mesmo caneta esferográfica. Escrevo essa crônica com um toco de carvão, num pedaço de papel de embrulho. Seu Leôncio, um garimpeiro amigo meu, é quem a enviará à Wish, por telex, em São Nonato do Caribó, cidade mais próxima. Espero que o isolamento funcione, pois do twitter, assim como do crack, só existem duas saídas: a cura ou a morte. Seja o que Deus quiser.

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Meio Intelectual, Meio de esquerda (MIME, para os íntimos) é uma seleção de crônicas minhas escritas nos últimos dez anos para o Estadão, revistas e sites. Apareça, quem puder.
Ps. clica na capa do livro que a imagem AUMENTA.

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18.outubro.2010 13:13:26

Primos

“A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna o testemunho de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época”. Assim Antonio Candido começa o belo prefácio, escrito em 1967, para Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
Entre aqueles que se julgavam tão “diferentes uns dos outros”, na década de 30, estavam não só os oriundos dos diversos matizes da esquerda, mas os integralistas. Levou trinta anos para que A.C. pudesse ver que os últimos não eram movidos apenas por uma “resistência reacionária”, mas por um “interesse fecundo pelas coisas brasileiras”, semelhante ao dos leitores de Sérgio Buarque, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior.

Acredito que estamos vivendo, ultimamente, um fenômeno curioso, inverso ao comentado por Antonio Candido. Muitos dos que entraram na vida adulta e na política juntos ou próximos, na década de 60, lutando contra a ditadura, defendendo ideias semelhantes e vislumbrando um futuro muito parecido para o país, ao olhar em volta, hoje, crêem-se tão diferentes entre si como socialistas e integralistas, na década de 30. Falo do PT e do PSDB. Serra e Dilma.

Por mais que tentem nos convencer que sim, PT e PSDB não representam visões de mundo opostas, como, por exemplo, os Democratas e os Republicanos, nos EUA. Os republicanos mais radicais são pelo corte de impostos, o desmantelo do Estado de bem-estar social, pregam a abstinência sexual como política estatal contra DSTs e, a bem da verdade, nunca engoliram esse negócio de os negros terem saído dos assentos reservados, nos ônibus e restaurantes. Obama, por outro lado, implementou a reforma no Health Care, orquestrou a ajuda estatal para salvar a economia da crise, fumou maconha (e tragou), na juventude. PSOE e PP, na Espanha, são filhos e netos dos franquistas e republicanos que estiveram, literalmente, em lados opostos das trincheiras. Assim é no Chile, em Portugal e em muitos outros países em que esquerda e direita são herdeiras das lutas sangrentas do século XX – os ódios, portanto, se alimentam das cicatrizes deixadas pela extrema violência do século passado.

Agora, PT e PSDB?! Podem não ser irmãos, mas são primos. As mães estudaram na mesma classe, na Maria Antonia. O pai de um fez uma pós na Sorbonne, o do outro foi metalúrgico em São Bernardo, mas ambos deram as mãos nas passeatas pelas Diretas e, se não me engano, tomaram uns tragos juntos, na casa de um amigo em comum, em setenta e nove. Se tocar Violeta Parra ou Alegria, Alegria, num diretório tucano ou petista, você vai ver muito marmanjo com os olhos mareados.

Esses dois partidos tão semelhantes, que agora se digladiam, tentando provar quem é mais horroroso, serão lembrados como a geração que começou a resolver os problemas abissais do Brasil. FHC estabilizou a economia. Começou o choque de capitalismo que Mario Covas dizia ser necessário. Criou alguns tímidos programas sociais. Lula, com um presidente do BC vindo do PSDB, lidou com a economia nos mesmos termos e conseguiu, centralizando e aprofundando radicalmente os programas sociais, tirar dezenas de milhões de pessoas da pobreza. Se o PSDB tivesse ganho em 2002, teria havido essa revolução? Provavelmente, não. Mas se o PSDB não tivesse governado entre 1994 e 2002, a revolução certamente não teria sido possível. O exitoso programa brasileiro de combate à AIDS, que dá remédio de graça aos soropositivos, começou na prefeitura do PT, em Santos, e foi catapultado para o país todo pelo PSDB. Foi sob o ministro Paulo Renato Souza que, pela primeira vez na história desse país, todas as crianças foram para a escola. A escola ainda é ruim, mas sob Fernando Haddad, as avaliações foram aprofundadas, agora sabe-se onde estão os problemas e – embora mais lentamente do que gostaríamos – medidas estão sendo tomadas para melhorar o ensino.

Arautos do apocalipse, que me enviam e-mails dizendo que a democracia e as instituições estão indo pro brejo, deveriam ler o caderno especial sobre os desafios do próximo presidente, publicado em 27/09, neste jornal. Mais especificamente, a entrevista com o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao ler o caderno, fica claro que não vivemos uma era de trevas, como o clima em torno da campanha presidencial muitas vezes nos leva a crer, mas um momento ensolarado do nosso país. Se não conseguimos ver o céu azul, é porque esses dois partidos, primos, dão as costas um para o outro e, para promover avanços, associam-se ao que há de pior na política brasileira, fazendo com que os empolgantes “nunca antes” andem lado a lado com os deprimentes “tudo igual, como sempre”.

Cabe a nós, brasileiros, a sabedoria e a serenidade para perceber que as trovoadas que estamos ouvindo são fruto de pancadas isoladas comuns nestes períodos de instabilidade eleitoral. Em primeiro de janeiro de 2011, aconteça o que acontecer, estará o verão, não o dilúvio.

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Se fizessem uma pesquisa entre mulheres e perguntassem qual o maior defeito masculino, aposto que a imaturidade apareceria em primeiríssimo lugar. (Insegurança, barriga e palitar os dentes viriam em segundo, terceiro e quarto, respectivamente). Se, na mesma pesquisa, quisessem saber qual a atitude masculina mais exemplar dessa imaturidade, acredito que a esmagadora maioria apontaria a nossa recusa em parar o carro e pedir informação a um pedestre, quando estamos perdidos. (Em segundo, terceiro e quarto, viriam: fugir de discussões de relacionamento, querer alugar sempre filmes em que coisas explodem e, em dias de jogo, meter a cara na janela e fazer sugestões pouco elegantes aos entusiastas das outras agremiações).

Que somos imaturos, não há como negar. Trata-se, provavelmente, de um comportamento com raízes fisiológicas: por não termos que gestar ou amamentar as crias, por trazermos em nossos corpos milhões de células reprodutivas, prontas para entrar em ação, do surgimento dos primeiros pêlos ao ressoar do último suspiro, encaramos o imperativo bíblico e biológico de crescermos e nos multiplicarmos dando mais atenção ao segundo termo do que ao primeiro. Daí certo pendor para a fanfarronice, a imaturidade e suas conseqüências: preferimos a trilogia intergaláctica de Luke Skywalker à Trilogia das cores, de Kieslowski, evitamos ao máximo discutir o relacionamento e, no meio de um domingo, assistindo a um jogo de futebol, perdemos subitamente o controle e gritamos “chuuuupa porco!” pela janela.

A lista de nossas infantilidades é longa, mas não acredito que a recusa em perguntar o caminho nela se inclua. Negar-se a pedir informação – mesmo depois de horas errando por arrabaldes desconhecidos, depois de nossa mulher já ter se desesperado, de já termos perdido a reserva no restaurante, de já estarmos ficando desidratados e o carro, sem gasolina – é uma decisão adulta e deliberada, cujo intuito é preservar a nossa honra.

Ora, o que é a humanidade senão a eterna e incessante guerra de todos contra todos? Num passado não muito distante — ou ainda hoje, em muitos lugares – a batalha era literal: vencia-se o inimigo, punham-se suas baixelas, candelabros e mulheres no lombo do nosso cavalo, incendiava-se a aldeia e ia-se embora, beber aguardente e comer javali. Hoje, a guerra é mais sutil. Veja os homens na estrada, mudando de pista desesperadamente ao aproximarem-se do pedágio, em busca da cabine com menos fila. Veja as mulheres malhando na academia. Veja ambos os sexos fazendo pós-graduações, clareamento dentário, regime, comendo o pão que o diabo amassou, para que? Para triunfar sobre o próximo. Para poder dizer, como os maços de Marlboro: veni, vidi, vici.

Numa sociedade individualista, na era da informação, o que significa perguntar o caminho? Render-se. Largar a espada, prostrar-se diante de um inimigo e dizer: “sou fraco e tolo, oh pedestre. Tu és forte e sábio. Por favor, poderias informar-me onde é a Rua Coronel Faustiniano, esquina com a Don Francisco Lapertino, próximo à Praça da Misericórdia?”

Como reage o pedestre? Ora, com a crueldade de um guerreiro que tem o oponente abatido diante de si. Te maltrata. Começa fingindo um sustinho irritante, “A Coronel Faustiniano?!”, insinuando que você está muito, mas muito perdido. Se tem um amigo ao lado, o olha com um sorriso no canto da boca. Talvez até solte um “nossa, tá longe…” ou “xiii, amigão…”. Esse escárnio é o butim que o pedestre leva com a vitória sobre o motorista; esse sorriso no canto da boca é o resquício do que um dia foi pilhagem, empalações, incêndio.

Você tem pressa. Sua mulher, no banco de passageiro, mais ainda, mas o pedestre saboreia a vitória, fazendo perguntas retóricas: “cê conhece a Adolfo Arrais?”. Claro que você não conhece. É óbvio que não é dali. Você abaixa a cabeça: “Não”. Ele arqueia as sobrancelhas, de leve, como quem diz, “se não conhece a Afonso Arrais, fica difícil”. Suspira. “A Marechal Duílio, sabe onde fica?” De novo, você tem que admitir, “não”. “Bom, o Bradesco?”, “O Pastorinho ali da Cunegundo Freitas?”, “O trailer do gordo?”. “Não, não, não”, você diz, e agüenta firme, porque assistiu Roma e Sopranos e sabe que é assim que se age ao cair nas mãos do inimigo.

O suplício só termina quando o pedestre tiver arrancado sua última gota de dignidade, quando tiver feito você declarar, em alto e bom som, que está totalmente perdido, que não conhece nada por ali, que está sob seu jugo e fará exatamente o que ele mandar. Só então, com uma cara de quem passa instruções da mais alta complexidade, dirá: “Primeira esquerda, segunda direita, já é a Faustiniano.”

Chegamos ao restaurante, mas eu já não tinha fome alguma. Sabia que não havia sido levado até ali por minha astúcia e valentia, sim pelas armas de um inimigo, ao qual tive que me sujeitar.

Da próxima vez, portanto, que seu marido recusar-se a pedir informação, cara leitora, não se irrite com ele. Não é a imaturidade que o impede, mas os mais antigos códigos de cavalaria. Pense nisso.

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01.outubro.2010 20:38:49

Terra deu, terra come

Estréia hoje, sexta, 1º de outubro, o documentário “Terra deu, terra come“, do meu amigo Rodrigo Siqueira, ganhador do É tudo verdade 2010. (Digo que ele é meu amigo não pra me exibir, mas porque acho que é obrigação, sempre que a gente indica trabalho de amigo, avisar da relação afetiva, para não propagar nenhum tipo de fisiologismo).

“Terra deu, terra come” é um filme muito difícil de explicar, mas muito fácil de assistir. Difícil porque foge dos formatos a que a gente tá acostumado. Fácil porque é bom, interessante, você fica ali, querendo saber mais, entender melhor. E depois, passa dias com vozes e imagens na cabeça, pensando no assunto, vendo o mundo com outros olhos.

Trata-se, em linhas gerais – não vou falar muito, pra não estragar a surpresa do final – de um velório, na casa de um sujeito chamado Pedro de Almeida, de 81 anos, num fim de mundo em Minas Gerais. Enquanto prepara o rito funerário, Seu Pedro vai falando da vida e da morte. Aos poucos, vamos entendendo sua história e as complexas relações sociais que a teceram, tanto com o mundo dos vivos quanto com o dos mortos. É o encontro de Jean Rouch com Guimarães Rosa. Belo encontro. Vale a pena assistir.

São Paulo
Espaço Unibanco de Cinema
Rua Augusta, 1.475
18h – Sala 1

Cine Livraria Cultura – Folha Documenta
Avenida Paulista, 2073 – Conjunto Nacional
18h e 19h50 – Sala 2

Santos
Espaço Unibanco Miramar
Av. Marechal Floriano Peixoto, 44 – Miramar Shopping Center
18h – sala 3

“Terra Deu, Terra Come é extraordinário” Eduardo Coutinho

“Terra Deu, Terra Come é uma trapaça maravilhosa” João Moreira Salles

“Terra Deu, Terra Come elabora linguagem sofisticada, estabelecendo um novo patamar para o cinema que procura desvendar os mistérios do mundo” Eduardo Escorel

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20.setembro.2010 20:07:16

Tapuiassauro

Enquanto a gente tá por aí, enrolado com planilhas Excel e contas a pagar, pensando na morte da bezerra ou se hoje à noite, quem sabe, enquanto assiste à novela, vai cortar as unhas dos pés, coisas incríveis acontecem pelo mundo. Numa cidadezinha chamada Coração de Jesus, por exemplo, no norte de Minas Gerais, tem um pessoal desenterrando dinossauros.

A história saiu no caderno especial Dinossauros do Brasil, aqui no Estadão, semana passada, e foi contada magistralmente por Herton Escobar. Começou em 2005, lá em Coração, quando um sujeito chamado Zezinho topou com um pedaço de osso, saindo do chão. Curioso, levou-o para casa. Dias depois, um oficial de justiça bateu à sua porta, para entregar um documento. Em qualquer parte do planeta, quando um oficial de justiça aparece, o dono da casa se mete embaixo da cama, apaga a luz do quarto, manda a esposa dizer que ele foi pra Papua-Nova Guiné e só volta em maio, se voltar. Mas Coração de Jesus é norte de Minas, quase Bahia, de forma que Zezinho fez o sujeito entrar, deve ter oferecido um café, um pão de queijo, uma cachaça, quem sabe e, papo vai, papo vem, os dois terminaram debruçados sobre o osso. O oficial, tão interessado quanto seu conterrâneo, resolveu ir além de suas obrigações para com o judiciário e dar uma mão à paleontologia nacional. Foi à casa de um ilustre jesuíno, Ubirajara Alves Macedo: “a enciclopédia viva da cidade. Se alguém pudesse descobrir de onde vinha aquele osso, era ele”. Bira não sabia nada sobre o assunto, mas como uma das principais virtudes do sábio é reconhecer sua ignorância, resolveu pedir ajuda aos universitários: ligou para todas as instituições de ensino superior que conhecia. Os doutores, provavelmente enrolados com planilhas Excel e contas a pagar, pensando na morte da bezerra ou se aquela noite, quem sabe, enquanto lessem os clássicos, cortariam as unhas dos pés, ignoraram as chamadas.

Não desacreditemos toda a academia, no entanto, por conta de tamanho desinteresse. Foi um biólogo, Márcio Nobre, filho de um amigo do Bira, quem trouxe a solução. A solução atendia pela alcunha de Wolverine, um geólogo de chapéu a la Indiana Jones, duas costeletas largas e membro da comunidade “Eu tenho uma Rural Willys”, no Orkut, da qual Nobre também faz parte. “Atenção Galera das Trilhas” – diz o texto na página da comunidade – “se vc tem um jipe original, transformado, equipado para fazer tudo, esse é o seu lugar. E não se esqueça, se vc conhece novas trilhas, deixe seu recado. Um Abraço Trilheiros do Cerrado!!!!!!” Nobre, o biólogo de Coração de Jesus, tinha mais do que uma trilha para informar. Contatou Wolverine e falou do osso. Wolverine, cujo nome civil é Ricardo Domingues e trabalha com paleontologia no museu de zoologia da USP, contou a história a Hussam Zahler, curador de herpetologia (estudo dos répteis) do museu, e eles foram pro norte de Minas, ver o que é que estava acontecendo. Dois anos depois desenterrariam, ali, o crânio de titanossauro mais bem conservado que já foi encontrado sobre (ou melhor, sob) a face da Terra: a cachola de um bicho que, há cento e vinte milhões de anos, media quatro metros de altura e treze de comprimento.

Neste ponto do texto, o leitor desavisado deve pensar, assim como eu, até semana passada: finalmente encontraram um dinossauro no Brasil! A pobreza diminuiu, a classe C cresceu, tem TV de LCD até no quebra sol dos táxis, já era hora de termos dinossauros, como os países de primeiro mundo! Mas o que o caderno especial do Estadão mostrou é que o Tapuiassauro (apelido dado ao titanossauro mineiro, enquanto aguarda seu batismo científico) não é a primeira nem a segunda espécie encontrada no país, é a décima sétima. Temos o Santanaraptor placidus e o Angaturama limai, do Ceará, o Uberabatitan ribeiroi e o Adamantisaurus mezzalirai, mineiros, o Saturnalia tupiniquim, gaúcho, o Antarctosaurus bresiliensis, paulista, entre outros, de nomes tão exóticos quanto suas figuras. Não só temos muitos fósseis, mas em alguns casos, possuímos os melhores: da Chapada do Araripe, fronteira do Ceará, Piauí e Pernambuco, saíram os mais bem preservados pterossauros do mundo – aqueles répteis voadores, inspiração para as montarias aladas dos Naavi, em Avatar.

O grande problema é que existem pouquíssimos profissionais para estudar o assunto. Em todo Brasil, há cerca de quarenta paleontólogos. É dezessete vezes menos gente que os membros da comunidade “Eu tenho uma Rural Willys”, do Orkut: seiscentos e noventa e cinco. Por enquanto, ainda dependemos do empenho de pessoas como o Zezinho e o Bira, o Oficial de Justiça e Wolverine, o Professor Hussam e outros gatos pingados que, com seu esforço e curiosidade, ajudam a reconstruir o mundo tal qual era há cem milhões de anos, quando não havia planilhas Excel nem contas a pagar, novelas a seguir ou unhas a cortar, mas répteis do tamanho de ônibus ou helicópteros, andando, voando, nascendo e morrendo por aí.

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08.setembro.2010 01:43:57

A odisséia de Homer

Semana passada, tomei um susto. Sentado em minha poltrona, com uma caneca de cerveja numa mão e o controle remoto na outra, descobri que havia me transformado num marido. Nunca pensei que isso fosse me acontecer.

Antes de mais nada, é preciso que o leitor entenda – e a leitora, mais ainda – que o fato de um homem se casar não o torna imediatamente um marido, assim como o fato de uma pessoa ouvir hip hop não faz dela um rapper. Para ser marido, como para ser rapper, é preciso ter certa atitude e certa indumentária. A condição marital requer, entre outras coisas, a existência de uma poltrona, de uma caneca, de um controle remoto e de uma relação afetiva levemente neurótica com tais objetos. Eu tenho. Ainda bem que descobri a tempo. Antes, pelo menos, de deixar crescer o bigode e começar a ir ao supermercado de moletom e tênis de corrida.

Eu deveria ter desconfiado que havia alguma coisa errada meses atrás, durante a cerimônia de casamento, quando o juiz se referiu a mim como “o contraente”. Afinal, o que eu estava contraindo? Agora sei: o vírus que se desenvolve lentamente nos folículos capilares e na região do abdome e que, pernicioso, é capaz de transformar um Bart num Homer Simpson.

Calma, meu amor, não se assuste. Não chegarei a tanto. Ser marido é como ter uma doença crônica, mas perfeitamente administrável, uma vez que você esteja ciente de sua condição. É mais ou menos como diabetes. Comendo direito, praticando exercícios físicos e tomando alguns outros cuidados para amenizar os sintomas, ninguém poderá apontá-lo no meio da multidão e dizer: lá vai um marido. (Prometo, minha pequena: nem bigode, nem moletom, nem tênis para corrida em logradouros públicos.)

Nesta altura do texto, o leitor pode estar confuso: sou um marido? Não sou? A pergunta parece óbvia, mas não é: mais de 70% dos homens são maridos e não sabem. (Os 30% restantes sabem e não se importam.) Para um diagnóstico precoce, o auto-exame é fundamental. Mais ainda: descobrir a doença logo no início é a única forma de evitar a piora do quadro, que pode levar à obesidade, uso de chinelos com meia, surdez eletiva, obsessão por piadas infames, trocadilhos pífios, catatonia e, em alguns casos, ao divórcio. (Trata-se de uma moléstia paradoxal, quanto mais marido você se torna, maior o risco de deixar de sê-lo).

Com o intuito de ajudar os que por ventura se encontrem na mesma situação que eu, mas não o sabem, preparei um check list de dez perguntas, ao fim das quais o leitor descobrirá se é ou não é um marido. Vamos lá:

1) Você tem uma poltrona?
2) Você tem uma caneca?
3) Você tem uma caneca com o seu nome escrito?

(Caso tenha respondido afirmativamente a questão 3, não é necessário continuar o teste, você é um marido em estágio avançado. Salte para o próximo parágrafo).

4) Sexta de noite: você prefere ir jantar num restaurante novo que saiu no Paladar ou assistir a reprise de Karatê Kid, na TV a cabo?
5) Férias: um destino que envolva “trilhas na Mata Atlântica” te deixa empolgado ou com calafrios?
6) Há pequenas funções domésticas a serem executadas: pendurar quadros, trocar o courinho da torneira da cozinha, apertar um parafuso da maçaneta. Você não deixa sua mulher chamar o zelador, mas demora semanas para resolver a situação?
7) Fica mal-humorado ou aflito se o controle remoto está na mão de outra pessoa?
8 ) Usa chinelo com meia?
9) Chama sua mulher de apelidos carinhosos em público, tais como benhê, morzinho ou minha pequena?
10) Se você está ocupado assistindo a um documentário sobre leões marinhos e a sua mulher te chama de outro cômodo, você finge que não escutou?

Caso tenha respondido afirmativamente a três ou mais perguntas, é preciso assumir: você é um marido. É grave? Sim. Tem cura? Não, mas pode ser controlado. Demanda disciplina e força de vontade, mas é o mínimo que você pode fazer por sua mulher. Pobre mulher, que se apaixonou por um homem e, certa manhã, acordou de sonhos intranqüilos e encontrou-o em sua cama, metamorfoseado num marido. O mais grave, porém, o que deve servir de motivação, caso todos os exemplos anteriores não tenham sido suficientes, é pensar que se como marido você já está assim, imagina o que acontecerá quando virar pai? Pegar a filha adolescente na festa vestindo pijamas e chamar a mulher de mãe, na frente dos outros, são só alguns dos sintomas conhecidos.

Vamos lá. Comecemos pelo controle remoto. Conte até dez, depois largue-o e vá pegar o Guia. Um, respire fundo, dois, primeiro o indicador, três, agora o polegar, quatro, muita calma nessa hora…

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01.setembro.2010 17:53:27

Lançamento

Unico final feliz SP
Pessoal, amanhã, quinta-feira, lançamento do livro do meu querido amigo, João Paulo Cuenca. Livraria Cultura, Conjunto Nacional, sete horas.

Ele foi pra Tóquio no projeto Amores Expressos, o mesmo que me mandou para Xangai. Ficamos um mês fora e voltamos com a tarefa de escrever um romance situado na cidade. Ele já terminou a lição de casa. Eu não. Invejo-o imensamente…
Apareçam.

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22.agosto.2010 23:48:10

Diga: trinta e três

Trinta e três. Quem diria. A adolescência foi na última quinta, ainda há resquícios dela na estante de CDs, no seu vocabulário, num canto do armário – uma camisa xadrez que não vê a luz do sol desde um show do Faith no More, em 1997 -, mas são resquícios. Vez ou outra você está no supermercado, comprando saco de lixo, queijo minas light e amaciante e vê uma turma de garotos e garotas carregando garrafas de Smirnoff Ice e sacolas de Doritos. Você olha para as franjas lambidas dos meninos, para os piercings das meninas e percebe, meio assustado, que aquele é um mundo distante. Sente alguma vergonha do seu carrinho.

Diga, trinta e três: trinta e três. Diga: o que você fez? A essa altura da estrada, uma parada é inevitável. Você desce do carro, contempla a vista do mirante. Não é um olhar para trás, como devem fazer os velhos, ao fim da vida – ou devem evitar fazê-lo, dependendo -, mas um olhar em volta: isso aqui sou eu. Daqui pra frente, não vai mudar muito, vai? Já deu tempo de descobrir que você não é um gênio da matemática, nem um fenômeno da ginástica olímpica.

Trinta e três anos. A idade de Cristo, alguém diz, e você logo pensa, repetindo um dos cacoetes de sua faixa etária: o que ele já tinha alcançado, com a minha idade? Bom, tinha transformado água em vinho, multiplicado peixes e pães, andado sobre as águas, levantado defuntos e conquistado uma multidão de fiéis em toda Judéia, Galiléia, Samaria, Efraim e arredores. E você, que não tem nem casa própria? Bom, também, naquele tempo era mais fácil – você tenta se consolar -, não tinha tanta concorrência e, oras, o cara era filho de Deus, o que não só abre portas, abre até o mar vermelho! Mas você se compara, mesmo assim: Jesus deve ter andado sobre as águas com o que? Dezessete? Orson Welles fez Cidadão Kane com vinte e cinco. Rimbaud escreveu toda a obra até os dezenove! E você tão feliz por ter conseguido mais quinze seguidores no Twitter.

(O lance do Mar Vermelho… Foi com Jesus ou com Moisés? Céus, trinta e três anos e você não sabe uma coisa dessas? Será que um dia vai saber? Quando tem treze, ou vinte e três, acha que uma hora vai aprender tudo o que não sabe, basta ficar parado que as coisas naturalmente virão e entrarão na sua cabeça. Agora você percebe que talvez passe a vida ignorando certos assuntos. Mar Vermelho. As regras do gamão. Francês.)

Pense: um homem. Pense: uma mulher. Adultos, no sentido mais abstrato, como um casal num livro de inglês ou num vídeo de normas de segurança do DETRAN. Espécimes maduros do homo sapiens sapiens: eles devem ter a sua idade. Talvez tenham filhos. Você tem filhos, ou ainda não? Repare no “ainda não”, pois de todas as coisas que você não conquistou até agora, há que saber discernir entre as que podem vir acompanhadas por um “ainda não” e aquelas das quais é melhor desistir. Andar sobre as águas, gênio da matemática, fenômeno da ginástica olímpica: não é pra todo mundo. E aos trinta e três anos, meu chapa, é a hora de admitir: você é todo mundo. Sei que é difícil. Viu filmes da Sessão da Tarde demais, propagandas da Nike demais, foi mimado demais para admitir que Deus não passou mais tempo moldando a sua fôrma do que a do vizinho do 71. É a não compreensão desse banal infortúnio que faz com que haja em tantos rostos de sua idade um brilho opaco, um fungo que brota onde o sol não bate forte o suficiente: o ressentimento.

Acredite em mim: aos trinta e três anos, de Jesus pra baixo, todo mundo é ressentido. Não é que as pessoas vivam vidas ruins, as aspirações é que são muito altas. A Sessão da Tarde, as propagandas da Nike… Seu emprego é bom, mas o salário é ruim. O salário é bom, mas o chefe é mala. O chefe é você, mas os prazos não te dão sossego. Sempre tem um cunhado que ganha mais, um vizinho cuja grama é mais verde, o próximo cuja mulher é mais fornida; Jesus, aos trinta e três, o Orson Welles, aos vinte e cinco – e o mau exemplo do Rimbaud eu nem comento.

Trinta e três anos. Você para. Desce do carro. Olha em volta. Você é o que queria ser quando crescesse? Não exatamente? Por que não? Será que dá pra mudar? Quanto dá pra mudar?

É preciso achar lugar no peito para as frustrações. É preciso lidar com o ressentimento e não deixar, em hipótese alguma, que ele se transforme em cinismo – se ressentimento é fungo, cinismo é ferrugem. Agora volte para o carro e siga em frente. Se tudo der certo, você não está nem na metade do caminho.

Diga, trinta e três: trinta e três. Quem diria.

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