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Antonio Prata

06.fevereiro.2009 15:27:36

Alguma coisa melhor para fazer

Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não ia sair de casa porque tinha que escrever o romance.

Então, da Mercearia nós fomos – seis homens num Ford Ka – para uma festa no Berlim. Seis homens num Ford Ka é das ocorrências mais ridículas sobre a face da Terra. Durante o trajeto falou-se de dois assuntos: o aperto ali dentro e operações de troca de sexo – talvez pelo receio dos condenados ao banco de trás de que algo do gênero pudesse acontecer, como conseqüência da gangrena.

Quando chegamos ao Berlim, o papo tinha mudado um pouquinho e Fialho afirmava que tá cheio de mulher que tira uma costela para ficar com a cintura mais fina. Eu jurava que isso era impossível e os outros quatro apenas ouviam e evitavam tomar posição, mesmo porque, naquele sufoco, a única posição possível era aquela em que eles já estavam.

Chegamos. A multidãozinha saiu do carro. O flanelinha nos olhou com um misto de pena e ironia. O segurança foi babaca, como se nós fôssemos esse tipo de gente — que nós, de fato, éramos –, que se mete, seis, num Ford Ka, e se joga na balada atrás das mina. Uhu.

Primeira verdade absoluta inferida na noite de ontem: estou muito velho para frequentar baladas onde demora mais para comprar uma cerveja do que para bebê-la. Aliás, acho que estou muito velho para chamar programas noturnos de balada. Decididamente, estou muito velho para andar, com cinco homens, num Ford Ka.

Ficamos uns quarenta minutos ali, zanzando, em meio a umas duzentas pessoas que também zanzavam. Tive uma conversa rápida com uma ex-namorada que eu não via faz tempo e gosto muito. Ela disse que capotou o carro. Disse que a vida tinha literalmente dado uma virada e agora ela queria ter filhos. Perguntou se eu acreditava nessas coisas e eu disse que sim, sem nenhuma ironia. E não sei por que cargas d´água resolvi, já que a gente estava falando coisas profundas, dizer que ela tinha se comportado muito mal há uns anos, quando tivemos um revival e ela sumiu sem mandar nem um e-mail. Não era pra ofender, nem pra começar uma discussão, era só uma coisa que eu queria falar. Ela disse que tinha mandado um e-mail, sim. Eu disse que ela não tinha mandado e-mail, não. Então nenhum dos dois soube mais o que dizer, era absolutamente inoportuno puxar um papo sobre troca de sexo ou extração de costelas, ela disse “é, eu sou uma escrotona”, coisa que nós dois sabemos que não é ver-dade, virou as costas e sumiu.

Tive uma rápida e interessante conversa sobre design com o Barão, que me explicou coisas muito curiosas sobre a cama, os co-pos e a função das meias, então decidimos, os seis homens, voltar para o Ford Ka e ver o que estava acontecendo do CB, ali do lado. No meio do caminho nos demos conta de que faltavam dois. Caralho, tínhamos esquecido o Zé e o Barão. Peguei uma direita, depois uma esquerda e, quando vi, estava na Avenida Paulista. Liguei para o Zé, expliquei a situação e eles foram andando. Chegamos ao CB na mesma hora.

Custava quinze reais para entrar, a pequena autoridade da porta, ou a porta da pequena autoridade, disse que não importava que fosse três e meia da manhã. Daniel citou a máxima de algum pré-socrático, “vocês têm alguma coisa melhor para fazer?”, e entramos. Dentro do CB era idêntico a dentro do Berlim e nós, os quatro homens do Ford e os dois a pé, ficamos zanzando, tendo conversas pi-cadas com conhecidos e dançando ao lado de desconhecidas. Algumas vezes, os seis em torno da mesma desconhecida que, mui prontamente, saía de fininho. Tomamos Guiness, dançamos, Paulo chegou com sua jaqueta de couro, camiseta do Luis Miguel e lábia maldita e me convenceu, às cinco da manhã, a ir a uma festa. Eu disse que era impossível haver uma festa com gente dentro, quarta, às cinco da manhã. Ele disse que não era. E como, mais uma vez, não tí-nhamos nada melhor a fazer, fomos.

Foi ali no caminho, quando éramos dois num ford ka, que tive o primeiro lampejo existencial e me dei conta de que estava atravessando uma noite absolutamente vazia e sem sentido ao fim da qual minha vida não haveria mudado nem um milímetro, apenas minhas roupas teriam um terrível cheiro de cigarro. Será que eu estaria atravessando uma vida absolutamente vazia e sem sentido?

A festa de fato existia e havia umas dez pessoas — que há uns dez anos atrás eu chamaria de “uns dez adultos” — conversando. A dona era simpaticíssima e quando vi estava na cozinha diante de um prato de peru, arroz amarelo e umas panquequinhas que não consegui descobrir do que eram, mas comi umas quinze.

Quando você se vê numa cozinha desconhecida comendo panquequinhas e peru às cinco e meia, acha que a vida às vezes pode ficar bem estranha. Talvez por isso não se importe em participar, com sete desconhecidos (um deles, um garoto de uns nove anos), da dança das cadeiras, ao som de Rita Lee. O dia amanheceu, o moleque ganhou, eu fui para casa e pensei: afinal, o que eu quero com isso tudo? São sete da noite e, sinceramente, ainda não sei.

Agora com licença que, como eu ia dizendo, tenho que escrever o romance.

comentários (15) | comente

15 Comentários Comente também
  • 06/02/2009 - 21:00
    Enviado por: Laís

    haha…
    Adorei…
    e então, Antonio, quando sai o romance?

    Beijos

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  • 06/02/2009 - 22:19
    Enviado por:

    Como diz minha avó: a não ser hoje, qualquer dia desses… O mais provável é que esse dia esteja em algum lugar do segundo semestre. Se tudo der certo…

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  • 07/02/2009 - 09:42
    Enviado por: Fabrício

    Irada essa sua noite, hein Antônio!! Com um final simplesmente insólito.
    Você diz que nada em sua vida mudou…mas são as pequenas coisas que nos dão algum sentido (como dar a vez a um pedestre na faixa. Me sinto tão bem quando faço isso!). São elas as responsáveis pelo construção da nossa existência.
    Um abraço (por trás) rsrs.
    ps: na verdade envio meu comentário pra não te deixar desanimado, cabisbaixo… pô´, só 2 comentários registrados!!! rsrs

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  • 07/02/2009 - 12:24
    Enviado por: Ana

    Ainda estou rindo…
    5 marmanjos num FK, coragem…

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  • 07/02/2009 - 13:00
    Enviado por: Chica Portugal

    o romance por vezes começa neste vazio todo… acho que você viveu, digamos, o prelúdio… rs

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  • 07/02/2009 - 22:34
    Enviado por: thaís

    poo Antonio, quando li seu primeiro post fiquei tão animada, mas não vale postar cronicas antigas só pra enxer linguiça né! haha :)
    beijos

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  • 08/02/2009 - 09:06
    Enviado por: Chialin

    A realidade da noite…. nesses ultimos tempos…..
    muito bom, traduziu o que muitos fazem… inclusive eu!!!rsrs

    bjobjo

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  • 08/02/2009 - 11:19
    Enviado por: Alessandra

    Olá Antônio!
    Acompanho sempre o seu site, mas você demora muito pra postar!Acho que estamos (os admiradores) sendo desfalcados pelo romance, mas como sei que valerá a pena não reclamo.
    Depois do primeiro post, como o segundo tardou mto, resolvi só checar após uma semana, o que culminava em hj. E justo vejo que você fez 2 posts nesse tempo. Talvez eu esteja sendo boicotada pela sorte, mas valeu a pena, fiquei feliz de poder ter lido suas aventuras.
    Bom, creio que sua noitada, apesar do aperto, da falta de costelas, das reviravoltas, do vazio e do cheiro de cigarro incrustrado na roupa, valeu a pena.
    Afinal você terminou numa casa estranha, mas na cozinha de alguém, pode ouvir rita lee e brincar como uma criança. Quase uma balada perfeita. (sem ironia)
    E é muito bom poder ler em seus textos esses grandes mistériosinhos da vida que são os que fazem tudo valer a pena.

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  • 08/02/2009 - 12:33
    Enviado por: Demaisão

    fantástico. estou me contorceendo de rir da sua desgraça-notívaga-existencial. pior é que me identifiquei.

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  • 08/02/2009 - 17:15
    Enviado por: Antonio Martins

    Chará , essas noites melancólicas confrontam nossa existencia com as nossa essencia.. quantas vezes terminamos num boteco sujinho do centro filosofando com linguiças , caracus e amendoins…

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  • 09/02/2009 - 08:55
    Enviado por: Flávio

    Parafraseando Drexler, não interessa a vida passar, mas que nós passemos por ela. Seja em baladas, seja em monastérios, vamos em frente – mas em dois carros é melhor. Abraços.

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  • 09/02/2009 - 09:12
    Enviado por: Ana Paula

    Antonio,

    Fiquei com vontade de comer a panquequinha, juro!
    Essas baladas sempre se tornam boas histórias e você sabe contá-las como ninguém!
    Boa sorte com o livro, quero ler!
    Abraços,

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  • 09/02/2009 - 13:00
    Enviado por: Aline

    É verdade, essas coisas não mudam em nada nossas vidas. O que isso te acrescenta?

    Antônio, a vida sem Jesus não faz sentido nenhum.
    E Ele tem propósitos pra sua vida muito melhores que ficar zanzando madrugada afora com seis homens num ford ka =]

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  • 10/02/2009 - 12:39
    Enviado por: Delegado

    Cara, você é hilário! Gostei.

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  • 29/03/2010 - 19:57
    Enviado por: Design, inovação e outras coisinhas a mais. » Este homenzinho simpático

    [...] um homem elástico em seu banheiro. Eu sou fã declarado do Antonio. Uma vez já fui um pequeno personagem de um texto seu. Quando recebi este seu scrap no orkut (uma coisa bem 2007) fiquei rindo [...]

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