Caros leitores: de hoje em diante este blog deixará de ser atualizado. Meu novo endereço é http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/
Espero vocês por lá.
Abs!
Publicado na revista Vip
No último mês, passei por uma experiência interessante: não bebi. Nada. Trinta dias, de cabo a rabo, em que as únicas drogas a correr por minhas veias foram a fenilalanina da Coca-light e o pozinho do Miojo. Ok, talvez, se eu tivesse consultado um endocrinologista, ele me dissesse que era mais saudável afastar-me da fenilalanina e do Miojo do que da cerveja, mas como não conheço nenhum endocrinologista e queria era descobrir como seriam quatro semanas preso a um cérebro 100% sóbrio, 100% do tempo, o projeto foi a abstinência alcoólica.
Não passava um período tão longo sem beber desde os quinze anos, quando, na festa de debutante da Lizandra, tomei meu primeiro chope. E logo o segundo, o terceiro, o quarto – no quinto tentei agarrar a Lizandra, no sétimo abracei a privada.
Não posso dizer que aquele tenha sido meu último excesso. Houve, dos quinze anos para cá, outras noites bambas, em que soube por minhas próprias pernas que a Terra não era plana e fiz algumas besteiras das quais me arrependo: tentei beijar mulheres que só haviam me perguntando as horas, acordei ex-namoradas com SMSs enviados de mesas de bar – tipo, quarta-feira, 02:46 AM – resolvi assar uma paleta de cordeiro ou criar uma receita de chilli con carne, pouco antes do sol nascer. Acontece.
Na maior parte do tempo, contudo, pude apreciar os efeitos do álcool sem grande prejuízo moral ou físico, e sou grato à natureza por ter nos dado esse brinquedo. Para começo de conversa, não fosse ele e eu provavelmente seria virgem até hoje. (Ou você acha que eu teria coragem de ficar pelado diante de uma garota, no auge da minha adolescência, completamente sóbrio? Na boa, só um psicopata é capaz de tamanha frieza.)
Agradeço à bebida, sobretudo, pela forma como ela facilita as relações sociais. Nesses trinta dias a seco, fui a um lançamento de livro e duas festas. Descobri como é difícil, sem o auxílio glorioso de duas doses, estabelecer uma conversa minimamente sustentável com gente com quem você não tem intimidade. Interagir socialmente sem álcool é como acender a churrasqueira sem álcool: o papo não pega, você tem que ficar assoprando e abanando a brasa, pra ver se a coisa esquenta. Não esquenta. E por que? Porque a lucidez é maligna. Sóbrio, você tem o tempo todo a consciência de que aquela conversa é só fachada, de que nem você nem a pessoa diante de si têm interesse em saber nada um do outro, de que só estão perguntando como está o trabalho e se têm visto a Juliana ou o Marquinhos (Marquinhos? Você não se lembra de nenhum Marquinhos…) porque estudaram juntos em 1993 ou calharam de estar na mesma praia, em Ubatuba, em algum réveillon do século XX. E o que o álcool faz, na conversa? O mesmo que no carvão: cria chama sem calor, produz interesse genuíno onde, em sua ausência, haveria descaso. O cara te explica que se formou em veterinária e trabalha com zebu, em Uberlândia, você diz, “Zebu, genial!”, e começa a fazer perguntas. Quando vê, estão conversando animadamente sobre a corcova do boi, e você fica felicíssimo ao descobrir que é dali que vem o cupim, e que a carne chama cupim porque o calombo parece um cupinzeiro. Dez minutos depois, está convencido de que o sujeito é uma pessoa maravilhosa, que vocês têm que se ver mais, talvez até re-alugar a casa de Ubatuba para o próximo réveillon. Vocês trocam telefones e e-mails, dizem que se verão novamente em breve, e farão um cupim com manteiga, no alumínio, ou uma paleta de cordeiro. Você fala pra ele chamar a Juliana, ele diz que levará também o Marquinhos, que ficará feliz em saber do encontro. (Quem diabos será o Marquinhos, meu Deus?!).
É claro que nada disso acontecerá. Toda aquela animação só existiu porque estavam meio bêbados, mas e daí? Pelo menos se divertiram, durante cinco ou dez minutos, batendo um papo numa varanda ou na fila do banheiro. No final, a vida é isso: talvez haja meia dúzia de momentos retumbantes, um podium, os braços de algumas mulheres, uns aplausos, mas 99% do tempo você estará numa varanda ou na fila do banheiro, conversando com alguém com quem não escolheu conversar. Se não soubermos extrair graça desses momentos, vamos do berço ao túmulo de saco-cheio.
Nesta altura do texto, ouço uma voz distante. Não sei se é minha mãe, minha mulher, meu psicanalista ou a Organização Mundial da Saúde: “mas precisa necessariamente de álcool, para se divertir?”. Coço a cabeça. Deve haver pessoas que se sentem absolutamente confortáveis em seus próprios corpos, todo o tempo, e são capazes de falar sobre zebus e se despir diante de desconhecidas sem nenhuma ajuda do etanol. Dalai Lama talvez consiga. Sr. Myiagi, quem sabe? Eu não. Eu preciso das duas doses dessa substância que algum ancestral iluminado inventou, num momento de lucidez – talvez seu último -, ao fermentar trigo, batata, uva, mandioca ou o que estivesse à mão e, num ato de indômita curiosidade, beber o líquido resultante.
Claro, é bom ter sempre em mente a lição adaptada da sacola da padaria: beber bem para beber sempre. (Por “bem”, entenda: com parcimônia). Por isso um mês à seco. Por isso algumas noites por semana, em casa, só na Coca-light, assistindo um seriado ou lendo um livro. Para que aos 78 eu ainda possa falar empolgado, numa varanda ou na fila do banheiro: “Zebu, genial!” e mande abraço pro Marquinhos – grande Marquinhos! -, quem quer que ele seja.
No começo do mês, estive em Nova York. Durante as semanas que antecederam a viagem, fui anotando dicas de amigos em folhas de caderno, guardanapos, recibos de redeshop, o que tivesse à mão. Só de “o melhor hambúrguer do mundo”, consegui umas sete sugestões; “o cheesecake original”, quatro; e com os endereços para comer sanduíches de pastrami enchi frente e verso de um papel A4.
Como amizade e comida boa são duas coisas que respeito muito, em dez dias nos EUA eu gabaritei as anotações: voltei dois quilos mais gordo e, ainda no avião, fiz a promessa de, nos próximos seis meses, não chegar a menos de dez metros de uma batata frita.
O que de mais saboroso provei por lá, contudo, não foi fast-food nem era uma especialidade local. Trata-se, pasmem, de um vegetal. Ou, para ser mais exato, um fruto: uma dádiva dos deuses que, infelizmente, não existe por aqui. Chama-se tomate.
Assemelha-se bastante, por fora, àquele fruto ao qual, em nosso país, também damos o nome de tomate, mas uma vez que seus dentes penetram a carne macia, o suco abundante escorre pelo queixo e o doce natural mescla-se ao sal, em sua língua, você entende que está diante de um alimento completamente diferente.
Eu, um entusiasta do Brasil, tive dificuldade em admitir, mas não houve jeito: o nosso tomate está para o americano como a parte branca da melancia está para a vermelha, o kani para o caranguejo, a margarina para a manteiga. O estado lamentável deste venerável fruto por estas plagas não se deve ao nosso suposto atraso, como imaginaria o brasilofóbico de plantão – sempre pronto para ver, por todo lado, sinais do nosso subdesenvolvimento -, muito pelo contrário: resulta de anos e anos de bem sucedida engenharia genética.
Acontece que a qualidade do tomate está ligada, entre outros fatores, à quantidade de água nele contida. Quanto mais líquido, mais macio e saboroso. O problema é que a maior presença de suco aumenta o sabor na mesma medida em que reduz a durabilidade. Os agricultores, pensando mais na performance de seu produto dentro dos caminhões do que em cima dos pratos, passaram a priorizar os frutos mais “secos”, foram cruzando-os e manipulando suas características até o transformarem nesse tímido vegetal – parte branca da melancia — que agüenta todos os trancos da estrada, dura séculos na geladeira e quase chega a ser crocante, em nossos dentes.
Agora que descobri as virtudes que poderiam esconder-se sob a fina pele vermelha, observo tristemente as rodelas no meu prato de salada. Assemelham-se a um senhor que passou a vida toda sem comer, sem beber, sem fumar, sem expor-se ao sol nem à chuva, evitou as incertezas do amor e os arroubos do futebol: agora tá aí, 105 anos de idade e nenhuma história pra contar. Leito seco de rio. Piada sem graça. Tomate para todos: tomate para ninguém…
Sei que há questões mais urgentes a serem tratadas em nosso país. Há que levar água encanada para cinquenta milhões de pessoas, criar escolas que ensinem a ler e escrever de verdade, evitar que a gente morra de bala perdida ou picada de mosquito. Mas queria pedir às autoridades competentes, sejam elas públicas ou privadas, que depois de resolvidos os pepinos e descascados os abacaxis, ajudem a plantar tomates de verdade, no Brasil. A vida é curta, meus caros, e não podemos medir esforços para deixá-la mais doce, macia e suculenta.
Publicado na revista Wish
Como todo mundo, eu comecei pelo e-mail. Algumas vezes por dia, no meio de um texto, minimizava o Word e abria o Outlook. Não é que eu estivesse à espera de alguma mensagem importantíssima – como percebi com o tempo, importa menos a mensagem do que a expectativa em relação a ela, o milionésimo de segundo em que vemos surgir aquela linha em negrito e pensamos: quem será? O que dirá? É como a bolinha girando na roleta, a carta deslizando sobre o feltro verde, em sua direção; o futuro numa compota; o porvir num grão de areia.
Percebi que a coisa estava fugindo ao meu controle quando me peguei, diante da caixa de entrada vazia, clicando ansiosamente no ícone “enviar e receber” — uma, duas, três vezes em seguida. Como todo viciado, inventava justificativas para não encarar a situação. Dizia a mim mesmo: se clico tanto é porque pode ter algum e-mail preso ali, nalgum gargalo eletrônico, precisando apenas de uma chacoalhada pra cair. Ou: vai que alguém me escreveu justamente um segundo depois da primeira clicada? É preciso tentar de novo, e de novo, e…
Enquanto fiquei apenas no e-mail, a vida seguiu sua marcha – um pouco mais lenta, claro, devido a tantas interrupções postais, mas seguiu. O e-mail, agora sei, é a maconha do mundo digital. Viciante, sim, mas não muito nocivo. A droga que iniciaria minha derrocada, a cocaína do mundo virtual, ainda estava para ser inventada: o Orkut.
Quando ele apareceu, em 2006, eu caí de nariz. Abandonava trabalho, família, interrompia sexo e refeições no meio só para percorrer, de um lado pro outro, eufórico, as catacumbas sem fim daquele inferno azul bebê. Brotava conhecido de tudo quanto era lado: primo que você não via desde 83, namoradinha da terceira série, a turma inteira do segundo B se comunicando: “não acredito, o Luba virou veterinário!”, “nossa, a Vanessinha ficou gostosa!”, “quem aí lembra da Mariana Leme, que espirrou na aula de ciências e voou meleca na professora?!”.
Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social.
Tentei me salvar. Saí do Orkut e disse a mim mesmo: vou me curar. Vou tirar os olhos da tela e recolocá-los no mundo. Veio o Myspace, eu ignorei. Vieram o Linkdim e o Flicker, não dei bola. Mesmo diante do Facebook, a rede de todas as redes, evitei a recaída. Até que surgiu o Twitter. “Que mal tem?”, me perguntaram os falsos amigos. “São só 140 caracteres! Experimenta, todo mundo usa: O Obama, o Tom Waits, a Xuxa! Vai!” Eu fui.
Se o e-mail era a maconha e o Orkut a cocaína, o Twitter é o crack. Nos dois meses seguintes, eu fingi que trabalhava, eu fingi que conversava, eu fingi que vivia, mas minha cabeça estava todo o tempo pensando em sacadinhas para tuitar. Ouço um trovão, penso: “chuva, raio, São Pedro… O que pode haver de engraçado e curto, aí?”. Panetones surgem no mercado, começo: “panetones, natal, mercado, vamos lá, Antonio, o que dá pra escrever em 140 toques sobre o assunto?” Nos últimos meses, vi jogos de futebol, debates e a reprise de Vale Tudo com o lap top no colo, tuitando, retuitando, checando retuites, até minha cabeça dar tilt.
Foi no salvamento dos mineiros chilenos que me dei conta da gravidade da situação. Ao vê-los ali, nas entranhas da Terra, e ter o sentimento de solidariedade solapado pelo desejo de tuitar piadinhas, percebi que era eu quem estava no fundo do poço. Como o drogado que rouba a mãe para alimentar o vício, eu estava prestes a abrir mão da dignidade em troca de 140 caracteres engraçadinhos.
Nas 24 horas seguintes, enquanto a Phenix trazia os mineiros da escuridão da caverna para as luzes dos flashes, eu viajava de avião, barco e canoa para um vilarejo isolado, às margens do rio Tapajós, onde agora me encontro. Aqui não há computador, luz, nem mesmo caneta esferográfica. Escrevo essa crônica com um toco de carvão, num pedaço de papel de embrulho. Seu Leôncio, um garimpeiro amigo meu, é quem a enviará à Wish, por telex, em São Nonato do Caribó, cidade mais próxima. Espero que o isolamento funcione, pois do twitter, assim como do crack, só existem duas saídas: a cura ou a morte. Seja o que Deus quiser.
Publicado na revista Wish Report
Passei boa parte das férias da minha infância em Lins, cidade interiorana onde moravam meus avós paternos. Como Lins fica a quatrocentos e trinta quilômetros de São Paulo, não seria incorreto dizer que passei boa parte das férias da minha infância dentro do carro, indo ou voltando de Lins. Da cidade, guardo poucas lembranças: a terra vermelha do quintal, as ruas quentes e planas, uma sorveteria de esquina. Já da estrada, das infinitas horas que separavam a nossa casa da de nossos avós, lembro de muita coisa.
O começo da viagem era sempre animado. Eu e minha irmã, que não víamos o pai durante a semana, falávamos sem parar sobre os acontecimentos mais importantes dos últimos dias: “Eu tô com dois dentes moles!”, “A tia Silvia tá grávida!”, “O Duílio é muito burro, ele desenhou um homem com o bigode em cima do nariz!”. Quando sossegávamos um pouco, meu pai contava uma ou outra novidade. Dizia que havia falado com a nossa avó e que ela já estava fazendo a gelatina de canela que a gente gostava, que esse ano o presépio estava ainda mais caprichado, com uns boizinhos e vacas que o meu avô tinha mandado fazer em Bauru, e a gente ficava ali, olhando o mato passar borrado pela janela e imaginando o que faria primeiro quando chegasse , se corria para o presépio ou para as gelatinas.
Quatrocentos e trinta quilômetros, contudo, são quatrocentos e trinta quilômetros, de modo que mais cedo ou mais tarde o tédio se abatia sobre nós e surgia a pergunta incontornável: “Pai, falta muito?”. Sabíamos que a resposta era positiva, mas não nos importávamos. Queríamos era ouvi-lo dizer quanto, exatamente, pois meu pai tinha inventado uma unidade de medida para viagens muito mais interessante do que quilômetros, milhas ou nós: “Acho que faltam uns… Dezesseis banhos”. Fazíamos uma cara séria, como convém a viajantes escolados, e perguntávamos: “de chuveiro ou banheira?”. “Banheira”, dizia ele. “E caprichado, desses de lavar atrás da orelha e entre os dedos dos pés.” Então começávamos a simular os banhos, ao mesmo tempo em que os narrávamos, desde o momento de tirar a roupa até pentear os cabelos. Pelo retrovisor, ele conferia cada passo: “E as meias, tiraram as meias?”. “Tô entrando!”, dizia minha irmã. “Na banheira vazia?! Tem que encher!”. A alavanca do vidro direito era a água quente, a do vidro esquerdo, a fria. Enquanto o vento entrava no carro, botávamos os pés aos poucos no vão entre os bancos, testando a temperatura da água.
O banho só era considerado terminado quando estivéssemos limpos, vestidos e penteados. Alongar o processo era fácil, sempre tinha um “esfrega as costas”, um “creme rinse” ou um “embaixo das unhas” para nos manter ocupados por mais alguns quilômetros. O problema era quando ele errava na conta, já estávamos na entrada da cidade e ainda tínhamos que tomar três ou quatro banhos. Então fazíamos o que chamávamos de “lava a jato”, método ultra rápido de assepsia, pelo qual era permitido lavar o corpo com a espuma do xampu e recomeçar o processo sem ter que pentear os cabelos. Uma ou outra vez ele chegou a estacionar o carro na esquina da casa da nossa avó, depois de seis horas de viagem, para que tirássemos a espuma dos olhos ou terminássemos de secar os cabelos.
Então entrávamos correndo casa adentro, comíamos as gelatinas, víamos as melhorias do presépio, éramos mimados pelo avô e pela avó. Mais tarde, antes de dormir, tomávamos banho de chuveiro. Um banho chato, com água de verdade e sabonete, que parecia durar muito mais quilômetros do que os do banco de trás do nosso carro.
2010
2009
2008