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Antonio Prata

As grandes ideias da humanidade não foram criações individuais, estalos de sábios isolados em suas cavernas ou gabinetes. O zero, o monoteísmo, a escrita, são iluminações coletivas, chamas oriundas da fricção de pensamentos distintos, em áreas de intenso tráfego humano. E qual ocupação mais obriga o indivíduo a chocar-se, diuturnamente, com todas as esferas do pensamento? Taxista, evidentemente. Eis porque o Seu Araújo, motorista com ponto ali na esquina da Monte Alegre com a Wanderley, é a pessoa mais criativa que eu já trombei nesses trinta e dois anos sobre a Terra.

De manhã é uma freira pra Casa Verde, depois o delegado, pros lados do Tucuruvi, então os estudantes de agronomia, aparentemente amaconhados, indo pro Sumarezinho, onde entra o atacadista coreano, atrasado para o jantar de fim de ano com seu grupo de night bikers. De cada um, Araújo retém uma gota, que deságua no vasto oceano de seu pensamento. Seu táxi é uma Mesopotâmia sobre rodas, Alexandria com faróis de milha, oráculo de Delfos cheirando a sachê de pinho.

Ontem, Seu Araújo levou-me de Pinheiros a Perdizes. Estava desanimado com o movimento nesse fim de ano. “É a crise”, eu disse. “Tsc tsc”, ele fez e, olhando-me como se eu fosse um desinformado, soltou: “o natal tá acabando”. “Como?!”. “Acabando. Em cinco, dez anos, no máximo, não vai mais ter nada disso de árvore, Papai Noel, presente… Vai ser que nem esses feriados que ninguém sabe a razão.” Eu quis saber por que, mas ele já havia mudado de assunto – e de humores. Indignado com o escândalo dos panetones, Seu Araújo deu-me a solução para todos os males nacionais: “Tinha que fazer uma revolução francesa. Sabe como é? Pega todo mundo que tá no poder: corta a cabeça. Bota uma turma nova. Aí, no que eles acostumam, decepa outra vez. Traz um pessoal diferente, vai cortando e trocando, cortando e trocando, que é pra não acomodar. Cê não acha que resolvia?!”.

De violência o papo descambou pra terrorismo, e foi aí que meu amigo contou-me que os atentados de onze de setembro nunca aconteceram. “Você conhece alguém que morreu lá?”. “Não, mas foi nos EUA, então é normal que…”. “Não conhece, né?!”. “Não”. “Tá vendo? Faz oito anos que eu pergunto, ninguém conhece! É efeito especial. Imagina se prédio cai retinho, daquele jeito…” O Bin Laden foi criado num computador, assim como a Xuxa, ele jurou de pés juntos, já no fim da corrida. “Tenho um cunhado que dirige uma van no Projac. Sabe tudo. Pô, a mulher taí desde oitenta e pouco, com a mesma cara?! O mesmo corpo?! É coisa daquele Hans Doner, computador! Ou cê acha que não?!”.
Eu? Quem sou eu, Seu Araújo? Trabalho sozinho, fechado em meu escritório e não sei nada das coisas desse mundo.

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30.novembro.2009 19:57:36

O brasileiro

Deu em todos os jornais: o brasileiro está mais alto e mais gordo. E eu que, infelizmente, fiquei apenas mais gordo, estou sentindo-me diminuído. O compatriota tem 1,70, em média; tenho só 1,69 – todos os dias. Tudo bem, tudo bem, o brasileiro está feliz da vida e não serei eu, o baixinho-nervoso, a estragar sua alegria.

Por que a alegria? Ora, o brasileiro não está só crescendo e engordando, mas comprando carros e casando-se adoidado. Segundo as montadoras, de janeiro a outubro, foram mais de dois milhões e meio de automóveis vendidos. De acordo com o IBGE, no ano passado, houve 959.901 uniões registradas. Sem contar as não registradas, como a minha: posso ser baixinho, nervoso e barrigudo, mas consegui amasiar-me com uma brasileira muito jeitosa, na média da estatura nacional e um pouco abaixo do peso – embora reclame constantemente de umas gorduras localizadas não sei onde, pois nunca vi.

Com sobrepeso e o peito cheio de amores, era bom que o brasileiro cuidasse do coração – e ele cuida. Em 1989 (aquele ano em que o brasileiro cometeu um de seus maiores descalabros, elegendo o Collor), 31% do pessoal era fumante. Hoje, menos de 16% tem que se aglomerar nas calçadas, nos topos dos prédios e estacionamentos, em busca de um pedaço de céu para espraiar suas fumacinhas. Como consequência, o coração do brasileiro enfarta muito menos do que há vinte anos.

Cardiologistas comemoram, mas endocrinologistas desesperam-se: nunca o brasileiro sofreu tanto de problemas relacionados a diabetes. Essa quantidade de biscoito recheado, calabresa acebolada e Fanta Uva com Fandangos uma hora iria dar problema. Era o que dizia a mãe do brasileiro, mas o brasileiro ouve a mãe? Se ouvisse, a gente não tinha demorado tanto tempo para “decolar” – eis o termo do momento.

“Brasil decola”, estava escrito na capa da revista The Economist, com a imagem do Cristo Redentor subindo aos céus, não como da primeira vez, ressurrecto, mas tal qual um foguetão. (Eu, modestamente, sempre achei que aquele Cristo, de braços abertos, preparava era um mergulho na lagoa Rodrigo de Freitas, mas fiquei contente com sua versão supersônica). Com o Redentor nas alturas, nosso destino não será apenas abrasileirar o mundo, como alardeava Darcy Ribeiro, um de nossos mais entusiasmados brasilófilos , mas tropicalizar o Cosmos.

Antes de dominar a lua, contudo, o brasileiro precisa resolver algumas pendências urgentes. Segundo a OMS, dezoito milhões de pessoas ainda não têm esgoto, em nosso país. Enquanto uns decolam, outros têm que agachar-se no fundo do quintal, apoiar-se numa bananeira e fazer a mira num buraco. Complicado. Ainda mais agora, que estamos mais altos e gordos.

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16.novembro.2009 00:21:50

Ditadura Gay

“Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?” Desde que a enquete apareceu no site do senado, faz umas semanas, evangélicos de todo o país iniciaram uma cruzada via internet, pelo direito de ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo.

Uma senhora chamada Rosemeire, por exemplo, expondo num blog seu temor de que a lei seja aprovada, disse que vivíamos “O início da Ditadura Gay no mundo!”. Pelo que entendi, Rosemeire acredita que está em curso uma batalha global, travada entre héteros e homossexuais, pela hegemonia na Terra. Hoje, os héteros estão vencendo, mas é só porque têm amparo legal para chamar os gays de viadinhos, as lésbicas de sapatonas e rir das piadas do Juca Chaves. No momento em que passarem a punir quem ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo, elas perceberão que chegou a hora, sairão todas correndo da The Week e tomarão o poder.

Imagine só, Rosemeire? Criancinhas terão de cantar Village People, na escola, enquanto assistem ao hasteamento da bandeira do arco-íris. Aos domingos, em vez de futebol, as TVs transmitirão Holiday on Ice e, com dezoito anos, os jovens serão obrigados a alistar-se no exército, fazer flexões de braço, dormir e tomar banho, uns na frente dos outros. Que horror!

Se você acha que Rosemeire exagerou, é porque não leu o blog de Rozângela Justino, cristã, psicóloga e indignada: “Se este Projeto (…) for aprovado, estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe.”

Uau, Rozângela! O mundo, então, seria governado pela casta das Drag Queens? Um advogado gay, de terno e cabelo curto, seria de uma casta intermediária? E lutadores do Ultimate Fighting, viveriam de esmolas? Bem, talvez não…

Quanta imaginação têm as duas mulheres. Se seus piores pesadelos fossem filmados, seria preciso unir o talento de um Fellini com o de um Clóvis Bornay; juntar, no mesmo caldeirão, George Orwell e Andy Warhol; vislumbrar as ruas de Nova Déli sendo percorridas pela banda de Ipanema.

Se bem que… Sei lá. Pensando melhor, talvez o temor de Rosemeire e da Dra. Justino tenha algum fundamento. Veja o caso dos negros: há poucas décadas, todo mundo contava piada racista e eles eram cidadãos de segunda classe. Veio esse papo de igualdade, o que aconteceu? Um mulato chegou a presidente dos Estados Unidos!

A batalha racial já está perdida, mas a sexual ainda pode ser ganha! Basta ir ao http://www.senado.gov.br/agencia/default…, clicar em NÃO e mostrar a todos que ainda tem gente disposta a lutar por um mundo injusto, desigual e preconceituoso!

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11.novembro.2009 12:09:25

O caso UNIBAN

O leitor Eurípedes Paranhos, do Jardim Áustria, São Paulo, pede-me que publique sua carta. Como acredito que esse blog deve ser um espaço de pluralismo e tolerância, aqui vai ela. Cortei apenas palavras de baixo calão e os trechos que incitavam mais diretamente ao apedrejamento de adúlteras e a extirpação de clitóris. O resto, vai como recebi.
A carta chegou anteontem, antes que os jornais publicassem o recuo da UNIBAN da decisão de expulsar a aluna e antes que se soubesse que o Suplicy iria dar uma palestra na supracitada universidade. O leitor Eurípedes deve estar contrariado com os últimos ocorridos. Caso me escreva novamente, prometo publicar aqui suas opiniões.

“O senhor e a senhora, que pagam seus impostos e rezam suas Ave Marias, que estão em dia com o fisco, com Deus e com vossas consciências, devem ter ficado tão estarrecidos quanto eu, diante do caso ocorrido na UNIBAN. Por isso venho a público, prestar meu apoio àquela nobre instituição de ensino, vítima de um linchamento covarde, acuada numa sala de aula por mais de seiscentos jornais, revistas e canais de televisão que, brandindo gravadores, câmeras e celulares, ameaçam violentar o que ela tem de mais sagrado: sua reputação.

Eu já nutria simpatia pela UNIBAN mesmo antes do caso da garota Geisy, quando pouco sabia sobre a universidade. É que gosto de tudo o que acaba em BAN. O Taleban, por exemplo. Comete certos excessos? Sim, comete, mas não se pode negar que acabou com a pornografia, a televisão, o batom, o comunismo e o chiclete, lá no Paquistão. A OBAN: torturava? Torturava. Mas se não fossem eles, queria ver que que os baderneiros tinham feito desse país. Por último, o Bambam, aquele garotinho dos Flintstons, que se veste com pele de leopardo e anda com uma clava, treinando desde cedo para tratar as mulheres como merecem.

E como merece ser tratada a mocinha que vai à universidade com um vestido um palmo abaixo das nádegas?! Ora! Alguém que sobe as rampas mostrando as coxas aos alunos de engenharia quer o que? Quer dar! Quer dar! Onde já se viu, meu senhor, minha senhora?! Um mundo onde as mulheres saem por aí exibindo seus desejos não tardará em se transformar num mundo em que homossexuais do mesmo sexo poderão casar e adotar crianças! Em que a maconha será discriminada! Em que Deus, a Família e a Tradição evaporarão como água na panela.

Alguém tinha que tomar uma atitude, e a UNIBAN tomou, o que não deixa de ser um alívio, num momento crítico de nosso país, quando um nordestino analfabeto e cafona está na presidência da república e corremos o risco de ter uma bugra, ex-empregada doméstica, subindo a rampa do Alvorada – justo nesta hora em que todos os olhos do mundo estão sobre nós, por conta da Copa e das Olimpíadas!

Ainda bem que existem instituições sérias como a UNIBAN, que, como boa universidade, sabe que há o certo, o errado e que isso não se discute. Sabe que cada coisa tem que ser feita em seu devido lugar, e faculdade é lugar de ler, de escrever e, no máximo, acuar uma garota de vinte anos numa sala e ameaçar estuprá-la.

Não que eu concorde que essa tenha sido a melhor saída para ensinar a Geisy a respeitar os bons costumes, mas, veja bem, os jovens cometem seus excessos. Eu, por exemplo, quando tinha meus dezoito anos, ia na avenida do jóquei dar tiro de paintball e jogar ovo podre em travestis. Mas era na avenida do jóquei, não na faculdade, e eles eram travestis, não gente normal, de modo que nem sei porque estou contando isso.

Enfim, vai aqui minha solidariedade à UNIBAN. E saibam todos os que lerem esta carta que o dia em que não houver mais pessoas ou organizações idôneas lutando pela moral e os bons costumes, não hesitarei em tomar as ruas, brandindo minha clava, meu celular ou minha espingarda de paintball, que deve estar em algum lugar, no socavão, atrás das revistas pornográficas e das luzinhas de natal.

Grande abraço,
E. Paranhos”

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03.novembro.2009 13:27:56

Pré-sal

Dizem que otimista é o cara que vê o copo meio cheio, enquanto pessimista é quem o enxerga meio vazio. A imagem é batida, mas vem a calhar, pois não é outro o tema desta crônica senão a água. Muita água. Trilhões de litros de H2O, que serão acrescidos aos oceanos nas próximas décadas, quando as calotas polares derreterem.

Os pessimistas, claro, só conseguem ver o lado ruim da mudança climática: a morte de milhões de pingüins, focas, leões marinhos, ursos polares e a extinção de algumas espécies desconhecidas; o alagamento de certas cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Nova York, Xangai, Veneza, Barcelona e a perda de boa parte do patrimônio histórico e cultural da humanidade; o aumento de catástrofes naturais como tufões, furacões, dilúvios, enchentes e a desgraça humana decorrente desses aguaceiros. OK. O Rio é legal. As focas e a Piazza San Marco, também. Mas focar-se (sem trocadilho) apenas nos aspectos negativos da lambança climática impede-nos de perceber outros acontecimentos maravilhosos que se avizinham. Praia em São Paulo, por exemplo.

Claro que a tese ainda não é um consenso entre a comunidade científica. Alguns estudiosos, desses que só conseguem ver a parte vazia do copo, afirmam que, por mais que a gente queime todo o petróleo existente, o aumento do nível dos oceanos será apenas de alguns metros. Cientistas de ânimo mais solar, contudo, garantem que o que conhecemos como pólo norte é, literalmente, apenas a ponta do iceberg e, se tudo der certo, antes de 2020, vai ter prédio na Berrini com vista pro mar.

Quanta coisa boa há de acontecer! Já pensou que belo cartão postal, a ponte estaiada com praia ao fundo? E seus filhos colhendo mexilhões nos pés do Borba Gato? Consigo ver, facilmente, a 23 de Maio tomada por ambulantes, vendendo óleo bronzeador, canga, Shhhhkol e Biscoito Globo. O Morumbi, com as casonas nas colinas, debruçadas sobre o mar, será a Beverly Hills paulistana. E nossos restaurantes, já tão afamados, o que não farão com peixes fresquinhos e frutos do mar, trazidos diretamente pela comunidade caiçara de Santo Amaro? O lago do Ibirapuera não teve sempre a vocação para ser a nossa Rodrigo de Freitas? E qual o sonho da Vila Nova Conceição, senão tornar-se a Barra da Tijuca?

Cruzemos os dedos, meus queridos paulistanos, pois muito em breve, quando as margens plácidas do Ipiranga ouvirem um estrondo, não será o brado retumbante de um povo heróico, mas o som das ondas quebrando na Avenida do Estado. E, nesse instante, o sol da liberdade, com seus raios fúlgidos, dourará os corpos estirados à beira mar. E ainda tem gente preocupada com o futuro. Tsc tsc…

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19.outubro.2009 02:16:58

Móveis ao mar

Vi num programa de televisão que, entre as inúmeras melhorias necessárias para as Olimpíadas do Rio, está “a limpeza da Baía de Guanabara”. Dita a frase, a TV mostrou um sofá, encalhado num mangue: três lugares, revestimento acetinado, puxando pro lilás, com os assentos enlameados sendo disputados por dois urubus. Incrível.

Não pretendo, de forma alguma, desmerecer o Rio. Quando vi o presidente do COI tirando o cartão do envelope e dizendo Rrrio de Rrranêro, no início do mês, lágrimas cruzaram minhas bochechas, tão rápidas quanto, imagino, canoas e barcos à vela singrarão as águas da rediviva Cidade Maravilhosa, daqui seis anos e meio. A amplitude de meu desespero vai muito além das pequenas rixas regionais: como pode um ser humano, oh céus!, jogar um sofá no mar?

Todos nós já nos encontramos na rua, algum dia, com um papel de bala na mão, ou uma latinha de refrigerante, olhando em volta, em busca de uma lixeira. Muitos de nós, não encontrando nenhuma, já jogaram o papel no chão, colocaram a latinha num canto, ou ao lado de um saco de lixo – como se, durante a noite, por osmose, quem sabe, ela fosse parar do lado de dentro do plástico preto. Agora, até onde pude ver, nesses trinta e dois anos sobre a Terra, as pessoas não andam por aí com sofás velhos nos ombros. Sequer com poltronas. Nem mesmo uma almofada costuma-se levar à rua. Para se atirar um móvel ao mar, portanto, é preciso não apenas má fé, mas esforço, engenho, planejamento e trabalho em equipe.

Imagino o sujeito, lá pela quarta-feira, ligando pros amigos: “Ô Gouveia, tudo bom? É o Túlio. Seguinte, tô precisando de uma forcinha aí, no sábado, pra jogar um sofá da ponte…”; “Maravilha, Valdeci! Então sábado à tarde cê traz a Kombi do teu cunhado e a gente resolve o problema”; “Fica tranqüilo, Murilão, depois a gente volta aqui e faz um churrasquinho!”.

Sábado à tarde, os amigos se reúnem. O Valdeci com a Kombi do cunhado, o Murilão e o Gouveia cheios de entusiasmo, o Túlio pondo as Brahmas pra gelar, enquanto sua mulher orienta os homens na sala: “cuidado com o batente”, “olha o abajur, o abajur, Gouveia!”
Os amigos amarram o sofá na caçamba da Kombi – é uma dessas Kombis caminhonete – e dirigem meia hora até a ponte mais próxima. Talvez, no caminho, façam um bolão: sofá bóia ou afunda? O Murilão diz que o fogão da prima afundou, semana passada. O Valdeci comenta que a geladeira da tia boiou, já faz o que, dois anos?

Chegam à ponte. Param no acostamento. Tiram o sofá da caçamba, contam um, dois, e lá vão os… Pronto, atiraram o sofá no mar. O sofá bóia. Os três o contemplam, sendo levado pela correnteza, naquele silêncio que só as verdadeiras amizades permitem. Túlio brinca: “saravá, Iemanjá!”. Depois vão comer churrasco. Incrível.

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A loja de artigos esportivos tem as paredes forradas por fotos de jovens correndo, escalando montanhas, remando canoas. O supermercado exibe cartazes com casais brindando, crianças babando sorvete, velhinhos comendo mamão. A confecção da esquina expõe as roupas na vitrine, em manequins, como se fosse uma turma de amigos, a contemplar a paisagem. Todo o comércio se esmera em criar um climinha em torno do seu produto, em imitar os ambientes e situações em que ele será usado: só as lojas de colchão é que não. Nesses cubos brancos, banhados a luz fria, os colchões são expostos nus, sem direito sequer a lençol, sobre camas em que ninguém dormiu nem dormirá – e isso tudo me deixa triste como o diabo.

É o colchão, não o cachorro, o melhor amigo do homem. Do colchão viemos, ao colchão voltaremos, senão na última de nossas noites, aquela que não verá aurora, ao menos ao fim de cada dia, quando, esgotados pela vigília e purificados pelo banho, sonhamos com mulheres nuas e elefantes alados – ou elefantes nus e mulheres aladas: nunca se sabe o que pode acontecer num colchão, depois que apagam-se as luzes.

O colchão é o locus do sono, do sonho, do sexo, é um bom companheiro, ninguém pode negar: por que então, ó Deus, suas lojas mais parecem consultórios dentários, templos calvinistas? Não sei. Andei pensando umas coisas aí. Talvez a intimidade entre o colchão e seu dono seja tanta que impossibilite uma ambientação verossímil. Um decorador que tentasse criar um climinha acabaria transformando o estabelecimento num sex shop ou no quarto de um estranho – e nada nos é menos íntimo do que a intimidade alheia. Daí que as lojas ficam com essa pinta de tapperware gigante, onde os colchões, pavões sem plumas, aguardam seus futuros donos em silêncio, exalando antiácaro.

Os futuros donos andam por entre as camas, apertando timidamente a espuma. Um ou outro, mais ousado, senta na beiradinha. O vendedor incentiva: “vai em frente, deita, sente as molas! E o revestimento? 100% algodão egípcio!”. O cliente sorri amarelo, não quer deitar, não quer que saibam como, de noite, sonha com mulheres nuas, elefantes alados, ou vice-versa. Não vê a hora de adotar um colchão, leva-lo dali e lhe dar casa, cama, roupa lavada.

No mundo todo é assim. Já vi lojas de colchões em Girona, interior da Catalunha, na avenida Xietu, zona sul de Xangai, em Poughkeepsie, norte de Nova York: não muda. Câmaras criogênicas, como aquelas em que os astronautas aguardam, congelados, a longa viagem de volta para casa, nos filmes de ficção científica. É a vida, sem vida. Talvez só os bares de strip e as praças de alimentação sejam lugares mais tristes do que a loja de colchões. Mas só talvez.

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01.outubro.2009 19:37:00

Ops!

Comentário de Inês:

“Respeito seu ponto de vista. No entanto, antes de emiti-lo, convém assegurar-se do que escreve. Kindle não vem de “kind=simpático”. Kindle significa: acender, estimular, incitar, despertar. Literalmente, usa-se para indicar a ação de acender o fogo. Em sentido figurado, pode significar a estimulação do intelecto, do espírito, da curiosidade, da inteligência etc..
Se você usar aquele cursorzinho prateado meio dancing-days, aplicando-o na palavra Kindle, poderá certificar-se da informação.”

Pior é que a Inês tem toda razão. Sorry, pessoal.

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30.setembro.2009 20:03:18

Kindle

Quando saiu o primeiro modelo do Kindle, um tempo atrás, a Revista do Fantástico me convidou para testá-lo.

Para quem não sabe, o Kindle é um livro eletrônico, lançado pela Amazon. Um retângulo branco, com uma tela cinza, que serve para baixar e ler obras literárias, jornais, revistas. A Oprah adora. A New Yorker detesta. Eu achei médio…

Quase

Ao começar a mexer no Kindle, lembrei-me de uma viagem aos Estados Unidos em que fui apresentado ao hambúrguer de soja. “Não é igual?”, quis saber minha irmã, vegetariana, antes que eu engolisse a primeira mordida. Era quase: tinha cara de hambúrguer, cheiro de hambúrguer, gosto de hambúrguer mas… não era hambúrguer.

O Kindle é assim. Faz um esforço danado para ser um livro mas, embora esteja mais perto do original de papel do que o bolinho de soja está para a carne, não é. Pareceu-me um objeto útil e fácil de usar, mas esse desejo indisfarçável de ser uma outra coisa me deixou desconfiado. Com uma certa pena, até, como se ele fosse um patinho feio dos hardwares, um Pinóquio dos eletrônicos, cujo grande sonho fosse ser de celulose, como seus amiguinhos que moram todos juntos, nas prateleiras.

Fui lendo um livro de Stephen King, com facilidade, mas não conseguia parar de pensar em como o Kindle era um objeto complexado, escondendo sua verdadeira condição eletrônica sob uma capa de couro, seu disfarce de livro. Até seu nome, Kindle (de kind: simpático?) parece atestar sua baixa auto-estima e o desejo de ser aceito num mundo que não é o seu.

Conforme fui virando as páginas digitais na maquininha, meu preconceito foi diminuindo. Você pode, a qualquer momento, clicar numa frase e ver o significado das palavras no dicionário. Isso é ótimo. Um clique do lado direito, a página vira. Um toque na esquerda, ela volta. Há cinco tamanhos possíveis para as letras e é possível fazer anotações, caso você seja, como eu, um grifador compulsivo.

Claro, tudo isso e muito mais pode ser feito em qualquer computador com internet ou em telefones celulares, mas computadores são muito grandes, celulares são muito pequenos. Ou seja: o grande negócio do Kindle não é uma ferramenta ou um salto tecnológico. Ele é só, simplesmente, apenas e tão somente a máquina mais parecida fisicamente com um livro que já foi inventada.

Não acredito que vá mudar o mercado editorial como o MP3 está mudando a indústria musical. Não porque tenha essas veleidades de neo-velho, de sair defendendo o cheiro do livro, o farfalhar das folhas ao serem viradas, a textura do papel sob a pele do polegar. O Kindle também tem seus cheiros, seus barulhos e tato, de forma que se os livros acabassem e todos passassem a usá-lo, em pouco tempo já haveria todo o romantismo em cima de sua tela cinzenta, sua capinha de couro, seu cursor prateado meio dancing-days.

Não consigo é imaginar uma razão forte o suficiente para comprá-lo. Levar duzentos livros para o fim de semana? Para que? Se acordar no meio da noite em Botucatu, desesperado para saber em que peça de Shakespeare um personagem diz que “há algo de podre no reino da Dinamarca” – coisa, aliás, que nunca me aconteceu -, vou ao google. De forma que, concluo, o Kindle é muito útil e completamente dispensável. Além do que, se meu tubo de xampu abrir na mala, na volta de Botucatu, prefiro perder uma edição de bolso comprada por 9,99 no sebo da esquina do que a máquina de 327 dólares. Por mais simpática que ela seja.

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Hoje, por volta das oito e meia da noite, a vizinha do quarto andar foi vista batendo cinzas na janela. Minha mulher, a quem as bitucas incomodam sobremaneira, correu para a sala, pegou seu celular e documentou a cena.

O porteiro foi avisado, interfonou para o zelador, que ligou para o síndico, que foi imediatamente à casa da vizinha. Não revelaremos seu nome, apenas que tem vinte anos, mora sozinha e alegou inocência. Disse, em sua defesa – ou não exatamente – que muitas amigas frequentam o apartamento e que elas, talvez, joguem bitucas. Pediu desculpas e prometeu alertar as comparsas.

Desculpas aceitas. Aguardemos os próximos dias…

(E se o leitor desavisado não entendeu lhufas desse post, favor ler o texto abaixo)

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