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Antonio Prata

31.dezembro.2010 11:46:09

Caros leitores: de hoje em diante este blog deixará de ser atualizado. Meu novo endereço é http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/
Espero vocês por lá.
Abs!

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17.dezembro.2010 04:21:39

Grande Marquinhos!

Publicado na revista Vip

No último mês, passei por uma experiência interessante: não bebi. Nada. Trinta dias, de cabo a rabo, em que as únicas drogas a correr por minhas veias foram a fenilalanina da Coca-light e o pozinho do Miojo. Ok, talvez, se eu tivesse consultado um endocrinologista, ele me dissesse que era mais saudável afastar-me da fenilalanina e do Miojo do que da cerveja, mas como não conheço nenhum endocrinologista e queria era descobrir como seriam quatro semanas preso a um cérebro 100% sóbrio, 100% do tempo, o projeto foi a abstinência alcoólica.

Não passava um período tão longo sem beber desde os quinze anos, quando, na festa de debutante da Lizandra, tomei meu primeiro chope. E logo o segundo, o terceiro, o quarto – no quinto tentei agarrar a Lizandra, no sétimo abracei a privada.

Não posso dizer que aquele tenha sido meu último excesso. Houve, dos quinze anos para cá, outras noites bambas, em que soube por minhas próprias pernas que a Terra não era plana e fiz algumas besteiras das quais me arrependo: tentei beijar mulheres que só haviam me perguntando as horas, acordei ex-namoradas com SMSs enviados de mesas de bar – tipo, quarta-feira, 02:46 AM – resolvi assar uma paleta de cordeiro ou criar uma receita de chilli con carne, pouco antes do sol nascer. Acontece.

Na maior parte do tempo, contudo, pude apreciar os efeitos do álcool sem grande prejuízo moral ou físico, e sou grato à natureza por ter nos dado esse brinquedo. Para começo de conversa, não fosse ele e eu provavelmente seria virgem até hoje. (Ou você acha que eu teria coragem de ficar pelado diante de uma garota, no auge da minha adolescência, completamente sóbrio? Na boa, só um psicopata é capaz de tamanha frieza.)

Agradeço à bebida, sobretudo, pela forma como ela facilita as relações sociais. Nesses trinta dias a seco, fui a um lançamento de livro e duas festas. Descobri como é difícil, sem o auxílio glorioso de duas doses, estabelecer uma conversa minimamente sustentável com gente com quem você não tem intimidade. Interagir socialmente sem álcool é como acender a churrasqueira sem álcool: o papo não pega, você tem que ficar assoprando e abanando a brasa, pra ver se a coisa esquenta. Não esquenta. E por que? Porque a lucidez é maligna. Sóbrio, você tem o tempo todo a consciência de que aquela conversa é só fachada, de que nem você nem a pessoa diante de si têm interesse em saber nada um do outro, de que só estão perguntando como está o trabalho e se têm visto a Juliana ou o Marquinhos (Marquinhos? Você não se lembra de nenhum Marquinhos…) porque estudaram juntos em 1993 ou calharam de estar na mesma praia, em Ubatuba, em algum réveillon do século XX. E o que o álcool faz, na conversa? O mesmo que no carvão: cria chama sem calor, produz interesse genuíno onde, em sua ausência, haveria descaso. O cara te explica que se formou em veterinária e trabalha com zebu, em Uberlândia, você diz, “Zebu, genial!”, e começa a fazer perguntas. Quando vê, estão conversando animadamente sobre a corcova do boi, e você fica felicíssimo ao descobrir que é dali que vem o cupim, e que a carne chama cupim porque o calombo parece um cupinzeiro. Dez minutos depois, está convencido de que o sujeito é uma pessoa maravilhosa, que vocês têm que se ver mais, talvez até re-alugar a casa de Ubatuba para o próximo réveillon. Vocês trocam telefones e e-mails, dizem que se verão novamente em breve, e farão um cupim com manteiga, no alumínio, ou uma paleta de cordeiro. Você fala pra ele chamar a Juliana, ele diz que levará também o Marquinhos, que ficará feliz em saber do encontro. (Quem diabos será o Marquinhos, meu Deus?!).
É claro que nada disso acontecerá. Toda aquela animação só existiu porque estavam meio bêbados, mas e daí? Pelo menos se divertiram, durante cinco ou dez minutos, batendo um papo numa varanda ou na fila do banheiro. No final, a vida é isso: talvez haja meia dúzia de momentos retumbantes, um podium, os braços de algumas mulheres, uns aplausos, mas 99% do tempo você estará numa varanda ou na fila do banheiro, conversando com alguém com quem não escolheu conversar. Se não soubermos extrair graça desses momentos, vamos do berço ao túmulo de saco-cheio.

Nesta altura do texto, ouço uma voz distante. Não sei se é minha mãe, minha mulher, meu psicanalista ou a Organização Mundial da Saúde: “mas precisa necessariamente de álcool, para se divertir?”. Coço a cabeça. Deve haver pessoas que se sentem absolutamente confortáveis em seus próprios corpos, todo o tempo, e são capazes de falar sobre zebus e se despir diante de desconhecidas sem nenhuma ajuda do etanol. Dalai Lama talvez consiga. Sr. Myiagi, quem sabe? Eu não. Eu preciso das duas doses dessa substância que algum ancestral iluminado inventou, num momento de lucidez – talvez seu último -, ao fermentar trigo, batata, uva, mandioca ou o que estivesse à mão e, num ato de indômita curiosidade, beber o líquido resultante.

Claro, é bom ter sempre em mente a lição adaptada da sacola da padaria: beber bem para beber sempre. (Por “bem”, entenda: com parcimônia). Por isso um mês à seco. Por isso algumas noites por semana, em casa, só na Coca-light, assistindo um seriado ou lendo um livro. Para que aos 78 eu ainda possa falar empolgado, numa varanda ou na fila do banheiro: “Zebu, genial!” e mande abraço pro Marquinhos – grande Marquinhos! -, quem quer que ele seja.

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13.dezembro.2010 15:23:05

Fruto proibido

No começo do mês, estive em Nova York. Durante as semanas que antecederam a viagem, fui anotando dicas de amigos em folhas de caderno, guardanapos, recibos de redeshop, o que tivesse à mão. Só de “o melhor hambúrguer do mundo”, consegui umas sete sugestões; “o cheesecake original”, quatro; e com os endereços para comer sanduíches de pastrami enchi frente e verso de um papel A4.

Como amizade e comida boa são duas coisas que respeito muito, em dez dias nos EUA eu gabaritei as anotações: voltei dois quilos mais gordo e, ainda no avião, fiz a promessa de, nos próximos seis meses, não chegar a menos de dez metros de uma batata frita.

O que de mais saboroso provei por lá, contudo, não foi fast-food nem era uma especialidade local. Trata-se, pasmem, de um vegetal. Ou, para ser mais exato, um fruto: uma dádiva dos deuses que, infelizmente, não existe por aqui. Chama-se tomate.

Assemelha-se bastante, por fora, àquele fruto ao qual, em nosso país, também damos o nome de tomate, mas uma vez que seus dentes penetram a carne macia, o suco abundante escorre pelo queixo e o doce natural mescla-se ao sal, em sua língua, você entende que está diante de um alimento completamente diferente.

Eu, um entusiasta do Brasil, tive dificuldade em admitir, mas não houve jeito: o nosso tomate está para o americano como a parte branca da melancia está para a vermelha, o kani para o caranguejo, a margarina para a manteiga. O estado lamentável deste venerável fruto por estas plagas não se deve ao nosso suposto atraso, como imaginaria o brasilofóbico de plantão – sempre pronto para ver, por todo lado, sinais do nosso subdesenvolvimento -, muito pelo contrário: resulta de anos e anos de bem sucedida engenharia genética.

Acontece que a qualidade do tomate está ligada, entre outros fatores, à quantidade de água nele contida. Quanto mais líquido, mais macio e saboroso. O problema é que a maior presença de suco aumenta o sabor na mesma medida em que reduz a durabilidade. Os agricultores, pensando mais na performance de seu produto dentro dos caminhões do que em cima dos pratos, passaram a priorizar os frutos mais “secos”, foram cruzando-os e manipulando suas características até o transformarem nesse tímido vegetal – parte branca da melancia — que agüenta todos os trancos da estrada, dura séculos na geladeira e quase chega a ser crocante, em nossos dentes.

Agora que descobri as virtudes que poderiam esconder-se sob a fina pele vermelha, observo tristemente as rodelas no meu prato de salada. Assemelham-se a um senhor que passou a vida toda sem comer, sem beber, sem fumar, sem expor-se ao sol nem à chuva, evitou as incertezas do amor e os arroubos do futebol: agora tá aí, 105 anos de idade e nenhuma história pra contar. Leito seco de rio. Piada sem graça. Tomate para todos: tomate para ninguém…

Sei que há questões mais urgentes a serem tratadas em nosso país. Há que levar água encanada para cinquenta milhões de pessoas, criar escolas que ensinem a ler e escrever de verdade, evitar que a gente morra de bala perdida ou picada de mosquito. Mas queria pedir às autoridades competentes, sejam elas públicas ou privadas, que depois de resolvidos os pepinos e descascados os abacaxis, ajudem a plantar tomates de verdade, no Brasil. A vida é curta, meus caros, e não podemos medir esforços para deixá-la mais doce, macia e suculenta.

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10.dezembro.2010 18:58:09

Socialmente

Publicado na revista Wish

Como todo mundo, eu comecei pelo e-mail. Algumas vezes por dia, no meio de um texto, minimizava o Word e abria o Outlook. Não é que eu estivesse à espera de alguma mensagem importantíssima – como percebi com o tempo, importa menos a mensagem do que a expectativa em relação a ela, o milionésimo de segundo em que vemos surgir aquela linha em negrito e pensamos: quem será? O que dirá? É como a bolinha girando na roleta, a carta deslizando sobre o feltro verde, em sua direção; o futuro numa compota; o porvir num grão de areia.

Percebi que a coisa estava fugindo ao meu controle quando me peguei, diante da caixa de entrada vazia, clicando ansiosamente no ícone “enviar e receber” — uma, duas, três vezes em seguida. Como todo viciado, inventava justificativas para não encarar a situação. Dizia a mim mesmo: se clico tanto é porque pode ter algum e-mail preso ali, nalgum gargalo eletrônico, precisando apenas de uma chacoalhada pra cair. Ou: vai que alguém me escreveu justamente um segundo depois da primeira clicada? É preciso tentar de novo, e de novo, e…

Enquanto fiquei apenas no e-mail, a vida seguiu sua marcha – um pouco mais lenta, claro, devido a tantas interrupções postais, mas seguiu. O e-mail, agora sei, é a maconha do mundo digital. Viciante, sim, mas não muito nocivo. A droga que iniciaria minha derrocada, a cocaína do mundo virtual, ainda estava para ser inventada: o Orkut.
Quando ele apareceu, em 2006, eu caí de nariz. Abandonava trabalho, família, interrompia sexo e refeições no meio só para percorrer, de um lado pro outro, eufórico, as catacumbas sem fim daquele inferno azul bebê. Brotava conhecido de tudo quanto era lado: primo que você não via desde 83, namoradinha da terceira série, a turma inteira do segundo B se comunicando: “não acredito, o Luba virou veterinário!”, “nossa, a Vanessinha ficou gostosa!”, “quem aí lembra da Mariana Leme, que espirrou na aula de ciências e voou meleca na professora?!”.

Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social.
Tentei me salvar. Saí do Orkut e disse a mim mesmo: vou me curar. Vou tirar os olhos da tela e recolocá-los no mundo. Veio o Myspace, eu ignorei. Vieram o Linkdim e o Flicker, não dei bola. Mesmo diante do Facebook, a rede de todas as redes, evitei a recaída. Até que surgiu o Twitter. “Que mal tem?”, me perguntaram os falsos amigos. “São só 140 caracteres! Experimenta, todo mundo usa: O Obama, o Tom Waits, a Xuxa! Vai!” Eu fui.

Se o e-mail era a maconha e o Orkut a cocaína, o Twitter é o crack. Nos dois meses seguintes, eu fingi que trabalhava, eu fingi que conversava, eu fingi que vivia, mas minha cabeça estava todo o tempo pensando em sacadinhas para tuitar. Ouço um trovão, penso: “chuva, raio, São Pedro… O que pode haver de engraçado e curto, aí?”. Panetones surgem no mercado, começo: “panetones, natal, mercado, vamos lá, Antonio, o que dá pra escrever em 140 toques sobre o assunto?” Nos últimos meses, vi jogos de futebol, debates e a reprise de Vale Tudo com o lap top no colo, tuitando, retuitando, checando retuites, até minha cabeça dar tilt.

Foi no salvamento dos mineiros chilenos que me dei conta da gravidade da situação. Ao vê-los ali, nas entranhas da Terra, e ter o sentimento de solidariedade solapado pelo desejo de tuitar piadinhas, percebi que era eu quem estava no fundo do poço. Como o drogado que rouba a mãe para alimentar o vício, eu estava prestes a abrir mão da dignidade em troca de 140 caracteres engraçadinhos.

Nas 24 horas seguintes, enquanto a Phenix trazia os mineiros da escuridão da caverna para as luzes dos flashes, eu viajava de avião, barco e canoa para um vilarejo isolado, às margens do rio Tapajós, onde agora me encontro. Aqui não há computador, luz, nem mesmo caneta esferográfica. Escrevo essa crônica com um toco de carvão, num pedaço de papel de embrulho. Seu Leôncio, um garimpeiro amigo meu, é quem a enviará à Wish, por telex, em São Nonato do Caribó, cidade mais próxima. Espero que o isolamento funcione, pois do twitter, assim como do crack, só existem duas saídas: a cura ou a morte. Seja o que Deus quiser.

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01.dezembro.2010 20:34:16

On the road

Publicado na revista Wish Report

Passei boa parte das férias da minha infância em Lins, cidade interiorana onde moravam meus avós paternos. Como Lins fica a quatrocentos e trinta quilômetros de São Paulo, não seria incorreto dizer que passei boa parte das férias da minha infância dentro do carro, indo ou voltando de Lins. Da cidade, guardo poucas lembranças: a terra vermelha do quintal, as ruas quentes e planas, uma sorveteria de esquina. Já da estrada, das infinitas horas que separavam a nossa casa da de nossos avós, lembro de muita coisa.

O começo da viagem era sempre animado. Eu e minha irmã, que não víamos o pai durante a semana, falávamos sem parar sobre os acontecimentos mais importantes dos últimos dias: “Eu tô com dois dentes moles!”, “A tia Silvia tá grávida!”, “O Duílio é muito burro, ele desenhou um homem com o bigode em cima do nariz!”. Quando sossegávamos um pouco, meu pai contava uma ou outra novidade. Dizia que havia falado com a nossa avó e que ela já estava fazendo a gelatina de canela que a gente gostava, que esse ano o presépio estava ainda mais caprichado, com uns boizinhos e vacas que o meu avô tinha mandado fazer em Bauru, e a gente ficava ali, olhando o mato passar borrado pela janela e imaginando o que faria primeiro quando chegasse , se corria para o presépio ou para as gelatinas.

Quatrocentos e trinta quilômetros, contudo, são quatrocentos e trinta quilômetros, de modo que mais cedo ou mais tarde o tédio se abatia sobre nós e surgia a pergunta incontornável: “Pai, falta muito?”. Sabíamos que a resposta era positiva, mas não nos importávamos. Queríamos era ouvi-lo dizer quanto, exatamente, pois meu pai tinha inventado uma unidade de medida para viagens muito mais interessante do que quilômetros, milhas ou nós: “Acho que faltam uns… Dezesseis banhos”. Fazíamos uma cara séria, como convém a viajantes escolados, e perguntávamos: “de chuveiro ou banheira?”. “Banheira”, dizia ele. “E caprichado, desses de lavar atrás da orelha e entre os dedos dos pés.” Então começávamos a simular os banhos, ao mesmo tempo em que os narrávamos, desde o momento de tirar a roupa até pentear os cabelos. Pelo retrovisor, ele conferia cada passo: “E as meias, tiraram as meias?”. “Tô entrando!”, dizia minha irmã. “Na banheira vazia?! Tem que encher!”. A alavanca do vidro direito era a água quente, a do vidro esquerdo, a fria. Enquanto o vento entrava no carro, botávamos os pés aos poucos no vão entre os bancos, testando a temperatura da água.

O banho só era considerado terminado quando estivéssemos limpos, vestidos e penteados. Alongar o processo era fácil, sempre tinha um “esfrega as costas”, um “creme rinse” ou um “embaixo das unhas” para nos manter ocupados por mais alguns quilômetros. O problema era quando ele errava na conta, já estávamos na entrada da cidade e ainda tínhamos que tomar três ou quatro banhos. Então fazíamos o que chamávamos de “lava a jato”, método ultra rápido de assepsia, pelo qual era permitido lavar o corpo com a espuma do xampu e recomeçar o processo sem ter que pentear os cabelos. Uma ou outra vez ele chegou a estacionar o carro na esquina da casa da nossa avó, depois de seis horas de viagem, para que tirássemos a espuma dos olhos ou terminássemos de secar os cabelos.

Então entrávamos correndo casa adentro, comíamos as gelatinas, víamos as melhorias do presépio, éramos mimados pelo avô e pela avó. Mais tarde, antes de dormir, tomávamos banho de chuveiro. Um banho chato, com água de verdade e sabonete, que parecia durar muito mais quilômetros do que os do banco de trás do nosso carro.

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Na maior parte das vezes é um trecho de música, mas pode ser também fala de filme, verso de poesia ou uma frase solta, sem qualquer sentido aparente – é o que, na falta de nome melhor, chamo de pensamento chicletoso. Ele chega sorrateiro, você nem percebe: quando se dá conta, já está lá, instalado no trapézio da consciência como um cunhado na poltrona da sua casa, numa tarde de domingo, grudado aos seus neurônios como chiclete na sola do sapato.

Anteontem, por exemplo, acordei de ressaca, entrei numa ducha fria e, assim que a água bateu na testa, revolvendo ideias há muito adormecidas nas catacumbas da memória, vi-me repetindo, inteirinha, a fala do vilão de um dos piores desenhos animados que já existiram, Thundercats: “Antigos espíritos do mal, transformem essa forma decadente em Mumm-Ra! [Pausa] O de vida eternaaaaa!”. Faz quase quarenta e oito horas que, a cada vinte minutos, mais ou menos, minha vida é interrompida pela evocação maligna de “Mumm-Ra [pausa] o de vida eternaaaa!”. É como um vício: cigarro mental ao qual volto inúmeras vezes, do momento em que abro os olhos até a hora de fechá-los novamente.

Há pensamentos chicletosos que somem depois de um tempo, mas outros ficam para sempre, agarrados aos rabinhos dos neurônios como os sacis à crina dos cavalos. É o caso, por exemplo, de um trecho da trilha sonora de Pulp Fiction, que contraí ao assistir o filme, numa remota noite do século passado e, desde então, vai e volta das trevas para a consciência, da consciência para as trevas, ao seu bel prazer: “Get Down, get down! Jungle booggie. Tananananã!”. (O tananananã é a parte instrumental). Faz mais de dez anos. Estou cansado. No meio de uma reunião de trabalho: “Get Down, get down!”; enquanto espero o troco no posto: “Jungle Booggie!”; com a cabeça no travesseiro: “tananananã”.

De todos os exus mnemônicos com quem convivo, contudo, os piores são as músicas infantis. Minha mulher não sabe, mas no almoço de ontem, enquanto discutíamos uns pormenores sobre o vazamento no box do chuveiro, meu ar de cansaço nada tinha a ver com a preguiça de resolver os perrengues domésticos: era o resultado de uma manhã inteira ouvindo, ininterruptamente, “serra, serra, serrador, serra o papo do vovô”, no maldito rádio instalado dentro do meu cérebro. “Atirei o pau no gato” eu canto tanto, mas tanto, que já não me basta o português. “Atiré el palo en el gato…” ou “I threw the stick on the cat” são a música de fundo de boa parte dos momentos que passo sobre a Terra.

Outro dia, tive a mórbida alegria de descobrir que meu ídolo, Julio Cortázar, também sofria de acessos semelhantes. Numa crônica do livro Um tal Lucas, o escritor argentino conta que, no meio de um banho, pegou-se dizendo, com “visível prazer vingativo: Now shut up your distasteful Adberkunkus!” (Agora cale-se, seu intragável Adberkunkus). Só no fim da chuveirada, depois de repetir a admoestação várias vezes, foi se perguntar quem, ou o que, seria um Adberkunkus, por que o estava mandando calar-se e, mais ainda, qual a razão de fazê-lo em inglês? Questões essas que o deixaram acordado a noite toda e permaneceram sem solução, enquanto, de tempos em tempos, continuava demandando ao Adberkunkus que calasse a boca – ou o bico, a tromba: vai saber por onde sai o som de tal ser.

A alegria por saber que minha loucura era compartilhada pelo ilustre escritor, contudo, durou pouco: mal fechei o livro e abri a geladeira para pegar uma coca, me vi gritando, mentalmente: “Agora cale-se, seu intragável Adberkunkus!” – em português, inglês e espanhol.

Já desisti de me curar. Encaro como uma doença crônica, que vem e vai. Podia ser asma, sinusite, malária, é o pensamento chicletoso: de tempos em tempos ele vem, me aporrinha, depois some, fazer o que? O negócio e tocar pra frente – “get down, get down!” -, aproveitar bem os intervalos – “serra o papo do vovô” – e tentar ser feliz assim mesmo – “jungle boogie”–, sabendo que certas coisas não se calam, por mais intragáveis que sejam, e por mais que imploremos em todas as línguas, conhecidas ou inventadas – “tananananã.”

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16.novembro.2010 19:14:51

Rodízio

Nem a Biblioteca de Alexandria nem o acelerador de Hádrons, as pontes estaiadas ou as viagens à lua, o transplante de coração ou a Nona Sinfonia de Beethoven: o ápice da civilização é uma churrascaria rodízio.

Das savanas africanas até a plaquetinha verde/vermelho, foi uma longa caminhada. Durante o trajeto, nós pastamos bastante e comemos o pão que o diabo amassou. Alguns companheiros foram atropelados por mamutes ou viraram comida de leão, bateram os queixos e as botas em invernos sem fim ou voltaram ao pó do qual vieram em desertos escaldantes. Tivemos que cruzar o Bojador, passar além da dor, atravessar o estreito de Bering e remar da polinésia ao Chile, em barcaças de palha; foi preciso inventar a matemática e a irrigação, entender o movimento dos astros e o comportamento da matéria, mas ora, vejam só – “o senhor aceita uma picanha argentina?” – vencemos! Dominamos a natureza – “sim, mal passada, por favor” – e a churrascaria rodízio nada mais é, meus amigos, que a festa de comemoração de nosso triunfo – “Mais uma fatia, por favor. Obrigado”.

Alguém já disse que os jardins eram a vingança do homem contra a selva. O canteiro seria a floresta subjugada. A planta no vaso, um souvenir do passado adverso, como um pedaço do muro de Berlim, um cartucho da Segunda Guerra. Ora, se o jardim é um índice de nossa vitória, o que falar dos bufês de salada das churrascarias? As folhas de alface, rúcula e agrião, o tomate, a cenoura e os rabanetes, todos ali, fresquinhos e com gotículas de água, a provocar nossas papilas gustativas e tripudiar do passado não muito distante em que éramos a presa assustada na garganta da floresta: chuuuuupa, natureza ingrata! Em breve a ti voltaremos, seremos os minerais absorvidos por suas raízes, mas nesse ínterim, aqui estamos, topo da pirâmide alimentar, bípedes mamíferos, córtex cerebral evoluído e polegar opositor, colorindo com seus despojos o branco de nossos pratos.

Nós nos esquecemos, porque a amnésia parece ser uma das características marcantes da nossa espécie, mas a maior parte do tempo que passamos sobre a Terra, o passamos batalhando miseravelmente por comida. Começamos como mendigos, colhendo apenas as esmolas dos galhos das árvores, esperando que um raio caísse dos céus na cabeça de um quadrúpede para que comêssemos carne assada. Deveríamos, toda vez que entramos numa churrascaria rodízio, fazer um minuto de silêncio em homenagem aos supracitados camaradas que ficaram pelo caminho diante de perrengues glaciais, animais, virais, etecétera e tais. Acho que tínhamos até que construir estátuas para o Coletor Desconhecido e o Caçador Anônimo que nos precederam – Remos e Rômulos de nosso império gastronômico.

Fomos moldados na escassez. A adversidade é a mãe da evolução – o gene mutante é o pai – mas agora, vejam só, “o senhor aceita uma linguicinha?”, “picanha nobre?”, “maminha na manteiga?”, “pintado na brasa?”, quebramos a banca, meu parceiro de espécie, e o bufê de massas, sem as carnes, sai por vinte e nove e noventa e nove. Amém!

Se um marciano pousasse por aqui e nos pedisse um resumo do que andamos fazendo nos últimos milhões de anos, não o levaria ao Louvre, mas a uma dessas churrascarias da Rebouças. Veja só, amigo alienígena: a ciência moveu montanhas para arrancar da terra os minerais de que são feitos nossos talheres, conhecimentos de três mil anos são aplicados na cerâmica dos pratos, o vidro, que os Fenícios inventaram e venderam por todo o Mediterrâneo, contem o sal, a pimenta, o azeite e o vinagre. Está vendo esse salmão, meu caro ET? Faz vinte anos, era artigo de luxo, prato principal em casamento chique: agora está aí, plebeu, sobre a cama de gelo picado, entre o salpicão e as ervilhas. Esse ao lado dele é o tomate seco. Também já teve seus dias de glória, desfilou por salões e bocas selecionadas. Agora aguarda, paciente, por um ou outro comensal saudoso, como uma rapariga decadente.

Há quem veja os rodízios com profundo horror. Vegetarianos, ecologistas, puristas em geral. Acusam-no se ser a ponta da cadeia corrosiva da pecuária, fonte de veneno para nossas veias, suruba estética onde tocam-se sushis e calabresas. Talvez tenham razão. Talvez as churrascarias sejam mesmo fruto do demônio – o que só reforça minha convicção: são elas, não Shakespeare ou a turbina de um Boeing, o ápice de nossa civilização. “Cupim? Fraldinha? Paleta de cordeiro uruguaio?”. Por favor, meu caro. E aquela banana a milanesa, sai ou não sai?

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Meio Intelectual, Meio de esquerda (MIME, para os íntimos) é uma seleção de crônicas minhas escritas nos últimos dez anos para o Estadão, revistas e sites. Apareça, quem puder.
Ps. clica na capa do livro que a imagem AUMENTA.

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01.novembro.2010 14:11:24

¡Portuñol!

Muy estimado lector: le pido permisión para escribir esa columna interamiente en portuñol. ¡Tranquilito! ¡No te assustes! No es la rebolución bolivariana de Chávez que se instala en Brasil, con la reciente victória de Dueña Dilma Jusef, ni tampoco la pribatización de nuestro país, vendido a una empresa española, después de Don Sierra ganar. (Escribo ese texto siexta, de muedo que estoy preso en el pasado y no tengo como saber el resultado de las elecciónes.)

Si me exprieso en ese gracioso idioma – hijo bastardo de Cervantes con Camones, nascido del encuentro de la fraternidad con la necesidad, en los arrabaldes verdejantes de la tríplice frontera – es porque al veinte y nueve de octubre se comemoró el dia mundial del portuñol y aprovecho la data para hacer um pedido al dirigiente máximo de nuestra nación, recién electo por el voto del pueblo. Que desde la hora inicial del primero de enero de dos mil y once implante, en todas las escuelas brasileñas, el ensino de ese Esperanto orgánico, latin vulgar de los siglos vindouros: el portuñol.

Tengo que admitir, con toda la humildad, que no soy uno de los pioneros del portuñol. Esa lengua ya es hablada hace siglos por indígenas y bandeirantes, gauchos y jugadores de fútbol, madres y padres brasileños en Disney y Bariloche, travestis y políticos de Latino América y Caribe en cumbres y fandángos mundo afuera. La lengua es tan difundida que ya fue incluso imortalizada en libro, por Douglas Diegues, en O Astronauta Paraguayo – huebra que está para el portuñol como La Divina Comédia para el italiano. Mi modesto texto no es ni mismo la primera vez que el portuñol desabrocha en las hojas del Estadón. En el diez de octubre del año de la grácia de 2008, el escriba Ronaldo Bressane elaboró un artículo para el Aliás, todo en este hermoso dialecto. Xico Sá, Jueca Terrón y otros tantos escritores también vienem haciendo un gran trabajo a níbel de divulgación.

Soy un diletante tardío, pero no por eso poco empeñado. Mi esfuerzo nasce de la certidumbre de que el dia en que los EUA si estrumbicaren en su papiel de poténcia mundial y Brasil tomar su sítio natural de luminar de los pueblos, no será el português la lengua oficial, pero el portuñol. Nosotros brasileños deglutiremos antropofagicamiente la ene com tio (Ñ) y la divulgaremos a los cuatro cantos, asi como a los romanos quedó espajar la cultura helénica desde las islas del mare nostrum hasta la imensidón del mare magnum.

Si, la geopolítica es importante, pero no son apenas los dictámes de la eficiéncia que me insuflan en direción a la portuñolidad. ¡No! Es que, además de ser útil, carísimo lector, el portuñol es lindo. Para nosotros, brasileños y latinoamericanos en general, él es menos una lengua que una actitud. Para hablarlo, como para bailar, no hace falta más que quererlo. Una vez que si pierde la verguenza, ya está, baila-se, charla-se, se hace la comuñón entre los pueblos y todo se queda dibino, marabilloso.

Bamos, intentalo. ¿No sabes? ¡Seguro que si! Basta pegar las palabras en portugués y poner ito en el fin. Copo es copito. Amor es amorzito. Garfo es garfito. ¡Listo, ya estás portuñolando cojonudamiente! Daí para empezar a poner unas palabritas en castellano en medio de la frasis es un salto. O mejor: un saltito.

Pueden decir que soy un soñador, apenas una gota en el oceáno, pero de que es hecho el océano, sino de gotas? Crea-me, amigo lector, hay cada vez más agua por ahí, formando la enorme hola de nuestra pan-latinidad, que en breve estallará en las playas del globo. En Estadón, estoy yo. En Abril, el supracitado Ronaldo Bressane. En La Hoja de San Pablo tuvimos una pérdida inestimable con la temprana ida de Glauco, uno de Los três amigos (primero HQ en español, en todo el mundo), pero aun tenemos Pablo Werneck, El Flaco, y MAG (Marcos Augusto Gonzalves), portuñol hablante y divulgador de los churros (la comida oficial de la comunidad portuñólica). En Argentina, la multiartista Ivana Vollaro hace años propaga nuestra pacífica y gregária causa. Hasta Arnaldo Antuñes, el músico, hay ya puesto su cucharita en esa sopa lúdico-latina.

Amigos, los días de la asepsia anglo-saxã están llegando al fin. Es la hora del sol, de la melanina, de los tambores y de la pimienta ganaren el globo. Ya se puede oir los rumores, por las calles del viejo y del nuevo mundo. ¿Es portugués? ¡No! ¿Es castellano? No, es el portuñol, la empanada multilatina que bino para agraciar las papilas escutativas del mundo con su riquísimo relleno ¡Bienvenido sea!

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18.outubro.2010 13:13:26

Primos

“A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna o testemunho de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época”. Assim Antonio Candido começa o belo prefácio, escrito em 1967, para Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
Entre aqueles que se julgavam tão “diferentes uns dos outros”, na década de 30, estavam não só os oriundos dos diversos matizes da esquerda, mas os integralistas. Levou trinta anos para que A.C. pudesse ver que os últimos não eram movidos apenas por uma “resistência reacionária”, mas por um “interesse fecundo pelas coisas brasileiras”, semelhante ao dos leitores de Sérgio Buarque, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior.

Acredito que estamos vivendo, ultimamente, um fenômeno curioso, inverso ao comentado por Antonio Candido. Muitos dos que entraram na vida adulta e na política juntos ou próximos, na década de 60, lutando contra a ditadura, defendendo ideias semelhantes e vislumbrando um futuro muito parecido para o país, ao olhar em volta, hoje, crêem-se tão diferentes entre si como socialistas e integralistas, na década de 30. Falo do PT e do PSDB. Serra e Dilma.

Por mais que tentem nos convencer que sim, PT e PSDB não representam visões de mundo opostas, como, por exemplo, os Democratas e os Republicanos, nos EUA. Os republicanos mais radicais são pelo corte de impostos, o desmantelo do Estado de bem-estar social, pregam a abstinência sexual como política estatal contra DSTs e, a bem da verdade, nunca engoliram esse negócio de os negros terem saído dos assentos reservados, nos ônibus e restaurantes. Obama, por outro lado, implementou a reforma no Health Care, orquestrou a ajuda estatal para salvar a economia da crise, fumou maconha (e tragou), na juventude. PSOE e PP, na Espanha, são filhos e netos dos franquistas e republicanos que estiveram, literalmente, em lados opostos das trincheiras. Assim é no Chile, em Portugal e em muitos outros países em que esquerda e direita são herdeiras das lutas sangrentas do século XX – os ódios, portanto, se alimentam das cicatrizes deixadas pela extrema violência do século passado.

Agora, PT e PSDB?! Podem não ser irmãos, mas são primos. As mães estudaram na mesma classe, na Maria Antonia. O pai de um fez uma pós na Sorbonne, o do outro foi metalúrgico em São Bernardo, mas ambos deram as mãos nas passeatas pelas Diretas e, se não me engano, tomaram uns tragos juntos, na casa de um amigo em comum, em setenta e nove. Se tocar Violeta Parra ou Alegria, Alegria, num diretório tucano ou petista, você vai ver muito marmanjo com os olhos mareados.

Esses dois partidos tão semelhantes, que agora se digladiam, tentando provar quem é mais horroroso, serão lembrados como a geração que começou a resolver os problemas abissais do Brasil. FHC estabilizou a economia. Começou o choque de capitalismo que Mario Covas dizia ser necessário. Criou alguns tímidos programas sociais. Lula, com um presidente do BC vindo do PSDB, lidou com a economia nos mesmos termos e conseguiu, centralizando e aprofundando radicalmente os programas sociais, tirar dezenas de milhões de pessoas da pobreza. Se o PSDB tivesse ganho em 2002, teria havido essa revolução? Provavelmente, não. Mas se o PSDB não tivesse governado entre 1994 e 2002, a revolução certamente não teria sido possível. O exitoso programa brasileiro de combate à AIDS, que dá remédio de graça aos soropositivos, começou na prefeitura do PT, em Santos, e foi catapultado para o país todo pelo PSDB. Foi sob o ministro Paulo Renato Souza que, pela primeira vez na história desse país, todas as crianças foram para a escola. A escola ainda é ruim, mas sob Fernando Haddad, as avaliações foram aprofundadas, agora sabe-se onde estão os problemas e – embora mais lentamente do que gostaríamos – medidas estão sendo tomadas para melhorar o ensino.

Arautos do apocalipse, que me enviam e-mails dizendo que a democracia e as instituições estão indo pro brejo, deveriam ler o caderno especial sobre os desafios do próximo presidente, publicado em 27/09, neste jornal. Mais especificamente, a entrevista com o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao ler o caderno, fica claro que não vivemos uma era de trevas, como o clima em torno da campanha presidencial muitas vezes nos leva a crer, mas um momento ensolarado do nosso país. Se não conseguimos ver o céu azul, é porque esses dois partidos, primos, dão as costas um para o outro e, para promover avanços, associam-se ao que há de pior na política brasileira, fazendo com que os empolgantes “nunca antes” andem lado a lado com os deprimentes “tudo igual, como sempre”.

Cabe a nós, brasileiros, a sabedoria e a serenidade para perceber que as trovoadas que estamos ouvindo são fruto de pancadas isoladas comuns nestes períodos de instabilidade eleitoral. Em primeiro de janeiro de 2011, aconteça o que acontecer, estará o verão, não o dilúvio.

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