ir para o conteúdo
 • 

Patrocinado por

23.maio.2012 11:55:44

Frio na barriga*

A maioria das pessoas que assistiram por aqui à final da Copa dos Campeões provavelmente não tinha a mínima afinidade com Chelsea e Bayern de Munique. Mas garanto que bateu frio na barriga de muitas na hora dos pênaltis que serviram para apontar o novo dono da Europa. Não tem como fugir, até quem não gosta de futebol tende a roer unhas, ao ver um título sendo definido assim. Dá angústia danada, e difícil optar entre ficar a favor do cobrador ou do goleiro. Por solidariedade, e um tanto por espírito de porco, costumo torcer para o goleiro se sair bem.

Se houve adrenalina por causa dos gringos, imagino como será esta quarta-feira para fãs de Corinthians, Vasco, Fluminense, convocados para traçar os respectivos destinos na Taça Libertadores. Pelo menos um dos três vai para a semifinal, e não se trata de hipótese fora de propósito que o avanço ocorra por meio das benditas penalidades máximas, como diziam os narradores de rádio de outros tempos. Para que a angústia se torne real, o Flu tem de ganhar do Boca por 1 a 0, no Engenhão, enquanto Corinthians e Vasco não podem sair do 0 a 0 no Pacaembu. Daí, é rezar, fazer mandinga, promessa, fechar os olhos…

Os dois resultados são plausíveis, pelas características das equipes envolvidas nas disputas. E pelo equilíbrio mostrado na semana passada. Se bem que não cravo com convicção, pois há tendência de atrevimento maior, por ser o lance derradeiro para todos, nesta fase, e isso desemboca em maior probabilidade de que saiam gols, vários até.

Começo pelo clássico brasileiro em São Paulo. A lógica indica o Corinthians a pressionar, por obrigação, por impulso da torcida, para não ver o sonho da América mais uma vez morrer no meio do caminho. A responsabilidade maior fica para Tite e sua rapaziada. O Vasco se considera franco-atirador, e lhe basta um gol, por exemplo (1 a 1), para voltar para casa com a vaga no bolso.

O técnico corintiano sabe disso e resolveu não alterar o time em relação àquele que esteve em São Januário. A aposta recairá de novo na harmonia entre os setores. O sistema defensivo se mantém como ponto forte, com a devida proteção de Ralf e Paulinho. A criação e a conclusão estarão a cargo do quarteto de trintões formado por Alex, Danilo, Jorge Henrique e Emerson.

Tite confia neles, na mesma medida em que não sente segurança em Willian e sobretudo Liedson, antes o dono do ataque e agora afundado em névoa intensa. Não é imprescindível ter um “camisa 9″, mas quem saiba finalizar. Liedson, por coincidência, era o 9 e o goleador. De um momento para outro, definhou. E não há quem preencha esse espaço.

Significa que o Corinthians passará em branco de novo? Não necessariamente, pois pode se valer de chutes colocados de Alex, de cabeceio de Danilo, das traquinagens de Jorge e Emerson. Ou, principalmente, das aparições surpreendentes de Paulinho na área, desde que se livre da marcação, o que não aconteceu no Rio. E o Vasco de olho nos contragolpes. Mesmo assim, não vejo pênaltis como desfecho improvável para o duelo.

Paciência e obstinação – além de pontaria certeira – são imprescindíveis para o Flu. O Boca tomou gosto pela Libertadores, ganhou em casa, adora ser carrasco de brasileiros. Quadro perfeito para começo de noite de sofrimento para Almir, Marcelo, Nando e tantos tricolores que conheço.

E na Copa do Brasil? Ares de pênaltis em Coritiba x Vitória (0 a 0), maré mais mansa para São Paulo em Goiás (2 a 0 na ida) e tensão em Barueri, para Palmeiras x Atlético-PR (2 a 2).

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 23/5/2012.)

Tags: , , , , , ,

Comentários (2) | comente

O empate de 0 a 0 no primeiro duelo brasileiro nas quartas de final desta edição da Taça Libertadores não surpreendeu. Vasco e Corinthians de certa forma seguiram o roteiro que se imaginava para confrontos em que o equilíbrio seria a marca registrada. Pra piorar, a chuva castigou o gramado de São Januário e tornou qualquer vacilo mais perigoso. Então, como ninguém se arriscou além da conta, as emoções decisivas ficaram para quarta-feira que vem, no clássico marcado para o Pacaembu.

O Corinthians não inovou em sua maneira de jogar. Ou melhor, mudou um pouco, já que Alex no primeiro tempo ficou um pouco mais no meio, como referência no ataque. Já Danilo e Emerson, assim como Jorge Henrique, se ocuparam em ajudar Ralf e Paulinho na marcação. Em resumo, Tite não escondeu que preferia sua equipe fechadinha, forte na defesa e eficiente nos contragolpes. Que no primeiro tempo praticamente não surgiram. Fernando Prass assistiu ao jogo.

O Vasco não foi muito mais atrevido. Juninho e Rômulo tiveram função tática importante, ao segurar Ralf e Paulinho, e largaram para Diego Souza, Éder Luís e Alecsandro a responsabilidade de incomodar Cássio. O trio também pouco apareceu na primeira parte do duelo. Ou seja, também foram barrados pelos fieis marcadores alvinegros. Resultado disso tudo? Um primeiro tempo insosso, para quem esperava jogadas especiais, pela qualidade e experiência de muitos que estavam em campo.

Ficou evidente que prevaleceu o medo recíproco de tomar gol. Temor em parte afastado na etapa final, melhor, mais movimentada e com chances para ambos os lados. A melhor para o Vasco foi aos 9, com lançamento de Diego Souza que pegou Éder Luís livre; o atacante entrou na área e chutou fraquinho. A mais perigoso para o Corinthians surgiu aos 14, em cabeçada de Jorge Henrique que Prass defendeu com os pés.

Aos 25 minutos, o lance com mais adrenalina: Alecsandro cabeceou para o gol, mas não valeu, por impedimento. Lanche muito difícil, que provocou constatações diferentes dos tira-teimas de emissoras que transmitem a competição continental. Para um, foi legal; para o outro, impedimento. Se até a tecnologia não chega a uma conclusão precisa, não há como condenar o olhar humano do bandeirinha.

A cautela prevaleceu nos minutos finais – e os jogadores se convenceram que, assim como no início, não valia a pena ir à frente com tudo. Todos confiam na habilidade, na tática e na sorte para a volta. Por isso, clássico no máximo nota 6.

Tags: , ,

Comentários (64) | comente

As quartas de final da Taça Libertadores vão pegar fogo. Há pelo menos três confrontos quentes: Vasco x Corinthians, Santos x Velez Sarsfield e Fluminense x Boca. O outro, Universidad de Chile x Libertad, é menos charmoso. Dos quatro, porém, o que me chama mais a atenção é o clássico brasileiro. Justamente por ser entre times daqui.

Vasco e Corinthians farão tira-teima e tanto. No ano passado, ambos chegaram à última rodada do Brasileiro como os únicos em condições de fazer a festa do título. O Corinthians se deu melhor, você lembra. Mas o Vasco fechou a temporada com saldo positivo, pois tinha levantado a Copa do Brasil e fez bonito também na Sul-Americana.

Vejo muita semelhança nos dois. Principalmente no que se refere a jogadores experientes. Um e outro têm gente capaz de decidir. Não dá pra desprezar a criatividade de Felipe, Juninho Pernambucano e Diego Souza. Nem a mobilidade de Danilo, Alex, Emerson. Fora outros coadjuvantes de peso.

Arriscar palpite é uma casca de banana daquelas, quando jogam equipes do mesmo país e com história rica com a dos dois. O que pode pesar em favor do Corinthians é a eficiência do sistema defensivo. Já faz tempo que essa é característica marcante da equipe. Repare que nem sempre tem espetáculo, é comum o placar de 1 a 0. O Corinthians é avarento no quesito “gol”. Mas também é complicado ser vazado.

O jogo de amanhã vai ser ótimo sinalizador do caminho para essa disputa que vai colocar um brasileiro na semifinal. O Vasco sabe que precisa de um placar que lhe permita folga na volta em São Paulo. E, se não tem a defesa estável como a corintiana (e Dedé continua a fazer falta), tem mais “fantasia” no ataque.

Besteira, mesmo, é essa história de guerra entre torcidas. Não faz sentido isso de matar e morrer por causa de futebol. Quantos ainda vão perder a vida até entenderem a inutilidade dessa guerrilha?

Tags: , , , ,

Comentários (39) | comente

11.maio.2012 12:27:48

A grande família*

No começo da madrugada de ontem, ocorreu episódio curioso. O Palmeiras havia acabado de golear o Paraná por 4 a 0, pela Copa do Brasil, e garantira classificação para as quartas de final. Daí vem o Felipão para a entrevista, no estádio de Barueri, e, em vez de exaltar a proeza da equipe, desce a lenha na diretoria do clube, por não contratar reforços de peso nem admitir em público que falta dinheiro. Não deu outra, na hora comecei a cantarolar o tema de A grande família: “Esta família é muito unida e também muito ouriçada. Brigam por qualquer razão e acabam pedindo perdão…”

É isso. O Palestra parece o seriado de sucesso da Globo – ou, para os mais antigos, é uma Família Trapo permanente, em que não faltam Zelonis e Golias a se enroscarem em discussões e trapalhadas. Pois, se pode imaginar outro lugar que não seja o Palmeiras, em que se comemora uma vitória importante com lavagem de roupa suja? Não conheço.

Felipão anda bravo, porque despencou sobre os ombros dele a bronca pelo fiasco de Fernandão, Ricardo Bueno, Tinga, Gerlei e outros menos votados que vieram e saíram do Parque Antártica sem deixar saudades. Sob a alegação de que os indicou ou todos contaram com seu aval. O que não deixa de ser verdade, pois o treinador participa do planejamento e da montagem do elenco.

Como também fazem parte desse processo o presidente, o diretor, o gerente de futebol e assessores afins. Quer dizer, não prevalece a vontade de um, seja técnico, seja cartola ou aspone. A chiadeira, no momento de alegria, foi a forma que Scolari encontrou para passar o recado claro de que não segura sozinho essa bucha. Ele entendeu que era melhor soltar o verbo em alta do que após derrota. Na segunda hipótese, a reação soaria como justificativa oportunista.

Felipão alegou também que tem mais identificação com o clube do que vários diretores. Só não deu nome aos bois. Quer saber? Não exagera. Desde que retornou, há quase dois anos, se meteu em muita confusão por não concordar com a inércia oficial. Partiu para a ação, porque outros ciscaram e fingiram que não era com eles. Cometeu bobagens, não duvido disso. Mas bobagens que sobraram pra ele porque quem deveria resolver tirou o corpo fora na hora H.

O desdobramento é óbvio: Felipão gasta energia em atividades extracurriculares, ao invés de concentrar-se na escolha da melhor estratégia para a equipe. E, por mais prestígio e carisma que tenha, o desgaste se torna inevitável.

A saída, então, é dar um pontapé nos fundilhos dele – epa, pareço o Valcke! – e chamar outro treinador? Não creio. Essa é solução simplista. O Palmeiras teve uma resma de ‘professores’ nos últimos anos – de promessas a monstros sagrados – e só acumulou frustrações, exceto o Paulista de 2008.

O problema é fora, nos bastidores. Trata-se de mudar mentalidade. A musiquinha do seriado diz “pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filha…” Isso é engraçado na ficção, e com os atores de primeira linha da Globo. Num clube com história rica, e hoje carente, representa atraso de vida. Os cartolas, não sei; mas a torcida sofre.

Briga boa. Corinthians x Vasco será duelo empolgante nas quartas de final da Libertadores. Em 2011, chegaram à última rodada do Brasileiro em condições de ficar com o título; agora, é o tira-teima. O fato de se conhecerem ajuda e atrapalha a estratégia de cada um, pois não há segredos. Além disso, têm jogadores decisivos. Prognóstico difícil, se bem que o Corinthians mostra mais estabilidade.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 11/5/2012.)

Tags: , , , , ,

Comentários (14) | comente

O Corinthians vociferou na semana passada, após o empate de 0 a 0 com o Emelec, por se sentir prejudicado pela arbitragem. Voltou do Equador com a sensação de que a classificação corria risco, senão pelo valor do adversário, mas pela qualidade dos apitadores. Os fantasmas foram espantados na noite desta quarta-feira, com a vitória por 3 a 0, sem  sufoco e sem nenhuma decisão polêmica de arbitragem. O desafio agora é o Vasco, que se garantiu nos pênaltis na Argentina.

Eu tinha afirmado, aqui e na minha coluna no Estado, que bastava o campeão brasileiro preocupar-se com a bola, com a essência do futebol, que a classificação para as quartas de final viria com naturalidade. E foi o que aconteceu. Sem apelar para a bobagem de recorrer para imagens desgastadas (“Libertadores é guerra”, “os gringos catimbam”, “os juízes prejudicam”), o Corinthians jogou melhor,se impôs e mostrou superioridade do início ao fim.

A tática do sufoco deu certo rapidinho: com 7 minutos, Alex lançou Danilo, que cruzou para a área. A defesa equatoriana fez lambança, não conseguiu afastar o perigo e Fábio Santos marcou. O alvinegro respirou aliviado – tanto que recuou e deu espaço para o Emelec. Sofreu pressão, é verdade, mas inócua, frágil. Como diria um ex-presidente, foi “uma marolinha”, que nem de longe assustou Cássio e seus escudeiros a defender a retaguarda.

O Corinthians teve duas chances para liquidar a conversa ainda na primeira etapa – e ambas com Paulinho. Uma delas bateu na trave. Mas foi Paulinho quem resolveu a questão, ao marcar de cabeça aos 19 da etapa final, quando o Emelec novamente ensaiava empurrar o time da casa para seu próprio campo. Gol que desestruturou os equatorianos, que passaram o resto do tempo à procura de um golzinho que fosse. As poucas chances que surgiram morreram nas mãos de Cássio, que desbancou Júlio César de vez. Alex fechou a conta com o terceiro gol.

Mais um peso saiu das costas do Corinthians, o que é excepcional para quem busca obsessivamente o título continental. O time não se desgastou, deu algum espaço ao adversário e parecia que não fecharia o jogo em sua melhor apresentação  na edição deste ano da Libertadores. Engano. De repente, a turma de Tite voltou a engatar, controlou as ações e provou que continua a ter forte sentido de marcação e de colocação; o sistema defensivo é o ponto alto, mas agora também o ataque desperta.

Destaque para Alex, com passes precisos, sobretudo no primeiro tempo, e para o gol que marcou. Bem também Danilo, com deslocações desconcertans, para os indefectíveis Ralf e Paulinho como muralhas do meio-campo, para o goleiro Cássio. Na primeira etapa, Emerson foi bem, depois cansou. Willian foi discreto e na metade do segundo tempo deu lugar para Liedson, que não fez grande coisa.

O importante que outro obstáculo foi superado, com um Corinthians de espírito competitivo. E, pelo menos na teoria, agora é melhor que pegue o Vasco, pois se trata de duelo doméstico. Ou seja, o nó será desfeito por aqui, sem o risco de ter argentinos pela frente.

 

Tags: , , , , ,

Comentários (9) | comente

23.fevereiro.2012 16:14:23

Deivid: um lance que deu dó

Você vai dizer que o Deivid é craque? Não, né? Ele está na média dos jogadores que andam por aí. Como centroavante, já fez muitos gols e errou também. Só que nunca deve ter imaginado que um golzinho perdido pudesse lhe provocar tanta dor de cabeça. Pois foi o que aconteceu por causa da falha antológica na derrota do Flamengo para o Vasco, na noite de quarta-feira.

O lance já rodou o mundo, está na boca do povo e pode ser acessado na internet, no celular, no Youtube; enfim, em toda a parafernália eletrônica que expõe nossa vida para qualquer um. A bola veio mansa pra ele mandar para o gol do Fernando Prass, ali, a meio metro da linha fatal. Era só encostar o pé e mais nada. Foi o que fez. E a danada bateu na trave.

O Deivid, os torcedores do Flamengo, do Vasco, você, eu. Está todo mundo até agora tentando avaliar o que aconteceu. Fiquei com a imressão de que teve até jogador adversário com vontade de dar um abraço de solidariedade no Deivid. Foi chato pra chuchu! Juro que deu dó dele.  Não desejo isso pro pior inimigo.

 O mais bacana é que ele não ficou posudo na hora em que lhe foram perguntar o que tinha acontecido. Todo sem jeito, admitiu o erro.  Fazer o quê? O gol fez falta. Nem por isso, ele deve ser visto como o vilão da história, o Judas ou coisa do gênero. Perdeu, pronto!

Agora, mais do que nunca, precisa recorrer ao lugar-comum: erguer a cabeça e bola pra frente. Dar um bico no constrangimento e, se puder, rir de si próprio. É a melhor forma de esvaziar o prazer dos cínicos de plantão.

Tags: , ,

Comentários (31) | comente

08.fevereiro.2012 12:54:00

Fazer a América*

Desde ontem está no ar a edição 2012 da Taça Libertadores, torneio que existe há meio século e que há duas décadas virou fixação dos brasileiros. Obsessão tão forte que muita gente entra na Copa do Brasil e na Série A não pela honra de brigar pelo título, mas para ter uma vaga na competição continental. O que considero um equívoco e uma chatice. O caminho para ganhar fama universal começa com conquistas domésticas.

 O pontapé inicial da turma de cá ficou para o Fluminense, com o 1 a 0 no Arsenal – o argentino, que tem uma Sul-Americana, não o original londrino. O Vasco estreia hoje em casa; o Inter, amanhã, em Porto Alegre. Santos, Corinthians e Flamengo esquentam motores para a semana que vem. Sexteto de respeito, acostumado com o torneio e responsável por sete títulos. Retrospecto nada desprezível e que permite sonhar.

Sem patriotada, se não der zebra um deles pelo menos estará na final. São elencos de qualidade, com nada a dever aos adversários, que não têm padrão mais refinado do que os brazucas. A nossa América não ostenta esquadrões, morre de inveja (e de medo) de um Barcelona, mas sempre guarda surpresas.

E, se um daqui chegar à final, contra quem será? Talvez enfrente o Boca, maledetto devastador de representantes verde-amarelos que está de volta, depois de duas temporadas. Ou pode pegar a Universidad de Chile, que tem jogado futebol redondinho e faturou a Sul-Americana de 2011. Chivas, Cruz Azul, Peñarol, Velez não podem ser esquecidos, e correm por fora. Apostas e portas abertas.

A Libertadores é bacana, campeonato tinhoso, recheado de artimanhas. Reúne o que há de melhor e de pior no folclore da bola. Há duelos inesquecíveis, em função do empenho e da habilidade dos rivais. Não faltam jogos históricos, por causa de viradas que pareciam impossíveis. Assim como há tira-teimas fenomenais levados para os pênaltis. A Libertadores já crucificou craques e consagrou pernas de pau, numa confirmação de que é contraditória e atraente.

Não são poucos os registros de arranca-rabos que beiram a guerra entre nações. Por obra e graça da globalização, estão em declínio as picuinhas entre vizinhos. Mesmo assim, não passa ano sem no mínimo uma confusão das bravas, das que fazem os europeus nos olharem com superioridade colonialista e lamentar o espírito belicoso dos cucarachas.

Alguém se envergonha disso? Eu não. Está certo que a Copa dos Campeões, também conhecida pelo nome pomposo de Uefa Champions League, é coisa fina. Já cobri vários jogos ao vivo e, de fato, a organização é impecável. Se bem que, em termos técnicos, há disparidades, pois gigantes convivem com nanicos. Também por lá é fácil encontrar partidas mequetrefes. Faz parte. Não existe campeonato só com baile de gala; há os arrasta-pés.

A Libertadores é um grande barato – ou assim deveria ser encarada pelos brasileiros. Não se trata de questão de vida ou morte. A ansiedade já estragou planos ambiciosos – e o Corinthians talvez seja um dos exemplos mais bem acabados de como entrar em parafuso em consequência de derrapadas sul-americanas. Coloca-se tamanha pressão que leva a quedas memoráveis como a do ano passado.

Não deveria ser assim. O prestígio e a força de um clube não se medem só pela Libertadores. Claro que faz bem ao ego, ao currículo e ao bolso atingir o topo da América. Mas não é tudo. A combinação entre descontração e eficiência funciona mais do que ter a faca entre os dentes. O Santos usou essa receita na campanha do tri.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 8/2/2012.)

Tags: , , , , , , ,

Comentários (4) | comente

O mundo está de cabeça para baixo. Pelo menos é o que dão a entender protestos de jogadores do Vasco e do Cruzeiro. Elencos dois times tradicionalíssimos andam irritados com atrasos nos salários e resolveram botar a boca no trombone. Os cariocas recusaram concentração para o jogo com o Bangu e os mineiros divulgaram carta em que lamentam declarações pouco sutis do presidente do clube ao falar de pagamentos.

O Cruzeiro está com rombo no caixa e não depositou o dinheiro da turma no dia combinado. Os atletas não interromperam a programação de treinos, mas um empresário fez a informação tornar-se pública. Daí aparece o presidente Gilvan de Pinho Tavares para explicar a situação. Para mostrar que o fato não seria tão grave ou preocupante, o cartola optou pela galhofa, em entrevista coletiva. Para tanto, observou que esses empregados estão preocupados porque “ganham uma miséria, que vai fazer falta”.

Salário é sagrado para quem trabalha. Não importa se as cifras são altas ou baixas. Sejam 100 reais, sejam 1 milhao, o que está acertado, o que consta em contrato, precisa ser honrado. O Cruzeiro tem o direito de não aceitar pretensões salarias, na hora de fazer o convite para um jogador integrar seu elenco. Mas, uma vez fechada a negociação, não pode descumprir sua parte. Muito menos pode fazer ironia a respeito do tema.

Ao agir dessa maneira, o dirigente dá a entender que o clube faz um favor ao pagar salários. Parece que administrar uma agremiação seria um passatempo e que todos os envolvidos estão a divertir-se. Uma grande brincadeira, em que o dinheiro é de mentirinha. Os jogadores reagiram e criticaram a postura. E reagiram com elegância.

O pessoal do Vasco foi um pouco mais duro, porque reclama vencimentos de dezembro, 13.º e parte dos direitos de imagem. Houve promessas de quitação, não cumpridas. Por isso, a decisão de se apresentarem apenas na manhã desta quarta-feira, para o jogo da noite com o Bangu pela primeira fase do Estadual do Rio.

A tomada de consciência dos jogadores é definitiva? Tomara. A época das senzalas acabou em 13 de maio de 1888. Ou pelo menos assim é o que diz a história do Brasil.

 

 

 

Tags: , , ,

Comentários (24) | comente

22.janeiro.2012 11:01:55

Futebol e identidade*

Um dos passatempos preferidos, nos últimos tempos, é malhar com gosto os campeonatos estaduais. Virou lugar-comum escrever ou falar que as competições paroquiais, essas disputadas entre velhos conhecidos, definham, contam pouco, não servem para nada. Ou melhor, servem para empresários da bola exporem sua mercadoria e para cartolas de clubes e de federações manterem seus pequenos terreiros de poder.

Está bom – não deixa de ser verdade. Os torneios domésticos não têm a força de uma vez. Alguns nunca foram nenhuma maravilha. Outros, como o de São Paulo, eram animados e aguerridos, mas passaram para segundo plano desde que se resolveu dar importância maior para os eventos nacionais, com mais apelo comercial, sobretudo para a televisão. É constatação. Porém, ricos ou pobres, todos tinham profundo significado esportivo, econômico até e sentimental para suas respectivas comunidades. Esbanjavam charme.

Não quero derrapar no terreno do saudosismo, embora saiba que o risco seja grande. Mas assassinar os estaduais é dar um pontapé na identidade local, é pasteurizar tudo, é afogar peculiaridades geográficas, culturais e históricas. Pode-se alegar que somos um só país e que, portanto, necessitamos de integração. Ok, bacana, apesar de comportar ranço da época do Brasil Grande. Com exceção de uns cabeças de vento, por aqui não há movimentos separatistas. Pelo menos que se deva levar a sério.

Mesmo que tenhamos o sentimento comum de nação, acho um tremendo desatino abrirmos mão de características nativas. Alguém com o mínimo de sensatez diria tratar-se de besteira acabar com lendas amazônicas como a do boto cor de rosa? Você defende o fim do frevo pernambucano? Ou a morte do boi-bumbá no Maranhão? Por que não extinguirmos as baianas do acarajé em Salvador? Que tal banir o tacacá das ruas de Belém? Ou refazermos a receita do tutu à mineira? Que se decrete que o chimarrão deva cair em desuso no Sul. Tudo em nome da uniformidade da pátria.

Erro grotesco imaginar algo desse tipo. Assim como não faz sentido teimar que tenhamos uma só maneira de falar, ou que esta ou aquela pronúncia seja a correta. Vão respeitados sotaques e dialetos. Se no Norte se fala Dário e no Sul se diz Darío (0 acento é proposital), ambos estão corretos. Pode ser Jáime em São Paulo ou Jâime no Rio que não há problema algum. Nem catorze ou qüatorze. Roráima ou Rorâima. Ou bombeiro/encanador, trocador/cobrador.

Da mesma forma deveriam ser honrados os estaduais e o que têm de original, característico. A força do dinheiro, em primeiro lugar, e a incompetência de dirigentes a reboque conspiram para a debilidade da fonte de origem e fama de nossas equipes.

À custa de repetição, os meios de comunicação nos impingem a noção de que Corinthians x Flamengo diz mais ao coração do torcedor do que Corinthians x Palmeiras ou Fla x Vasco. Nem aqui nem na China! Porque nesse caso o bairrismo, praticamente em sentido literal, prevalece e é salutar; evoca rivalidade que surgiu no quintal de casa e não morrerá.

Não tenho dúvida de que seguirei com aperto as dificuldades de Comercial, Guarani, Botafogo, Ponte, XV de Piracicaba no campeonato que começou ontem. Assim como tenho certeza de que me emocionarão muito os jogos que farão contra Lusa, Santos, São Paulo, Palmeiras e Corinthians do que batalhas do Campeonato Brasileiro. Exceto aquelas entre paulistas ou as estritamente decisivas.

*(Minha coluna no Estado de hoje, dia 22/1/2012.)

Tags: , , , , , ,

Comentários (19) | comente

Durante a semana, aqui em São Paulo, o torcedor do Corinthians mostrou otimismo moderado. Claro que havia confiança no título – os números indicavam um monte de combinações que levavam para o sucesso. Mas o danado do futebol, imprevisível como é, adora mandar estatísticas para escanteio. Sem contar que o desafio derradeiro era o Palmeiras. E só quem é corintiano ou palmeirense sabe o que significa o dérbi.

Não deu outra. O temor alvinegro se revelou real desde o primeiro minuto do jogo no Pacaembu e só foi espantado quando veio o apito final no Engenhão, uns dois minutos antes da assoprada de Wilson Seneme. Corinthians e Palmeiras fizeram um duelo equilibrado, tenso, catimbado, amarrado, como acontece em decisões. O 0 a 0 foi, por um bom tempo, um nó na garganta e também ajudou a liberar com mais intensidade o grito de campeão!

O Corinthians optou por estratégia cautelosa, conservadora. Tite preferiu reforçar a marcação e não escondeu isso ao colocar Wallace, para compensar a ausência de Ralf. Felipão sabia que o rival jogaria pelo empate ou para explorar o contragolpe. Por isso, mandou seu time à frente – com as limitações que tem, mas à frente. Além disso, o meio-campo alviverde ganhou quase todas na etapa inicial. E isso fez com que apresentasse um índice altíssimo de posse de bola.

O controle do jogo, no entanto, não levou a muitos momentos de perigo. Júlio César foi incomodado algumas vezes. Deola só assistiu ao jogo. Nas arquibancadas, a apreensão cresceu com o gol de Diego Souza aos 29 minutos do confronto entre Vasco e Flamengo. Pairava no ar o medo de que o Palmeiras aprontasse. Seria uma tragédia.

A história mudou no segundo tempo, com o Corinthians a abandonar a postura defensiva e a encarar o Palmeiras com a autoridade de líder. O nervosismo aumentou e desembocou no primeiro bafafá, com a expulsão de Valdivia depois de entrada em Jorge Henrique. O chileno foi estabanado e o baixinho, malandro que só, valorizou. Jorge Henrique ainda provocaria a expulsão de João Vítor. Todo mundo sabe que ele é tinhoso, manhoso. Mas está na dele. Tonto de quem cai nas suas armadilhas.

O Palmeiras, mesmo com um a menos, não se deixou dominar e o Corinthians teve dificuldade extrema para dar chutes a gol. Deola não fez uma defesa sequer. Para Tite e sua rapaziada, importava mais segurar o empate, garantia de título, independentemente do que viesse a acontecer no Engenhão. Estratégia reforçada com o gol de empate do Flamengo. E deu certo.

O Corinthians não foi o mais brilhante dos campeões brasileiros. E isso pouco importa. Não seriam, da mesma forma, Vasco, Flamengo, Botafogo ou São Paulo. Há quem diga que o torneio não teve alto índice técnico. Não teve mesmo, o que não invalida a emoção que proporcionou. Muito menos a alegria dos pentacampeões.

Tags: , , , , ,

Comentários (98) | comente

Comentários recentes

  • Thiago: Era só o que faltava o Santos se preocupar com a seleção, o Santos que paga os salários, bichos e...
  • Neco: Anero, concordo totalmente com sua opinião pois para o torcedor brasileiro seu time sempre é prioridade,...
  • Malta: SELEÇÃO BRASILEIRA NÃO PASSA DA 2ª FASE DA COPA DE 2014, COM ESSES M…….. MASCARADOS QUE ESTAR...
  • Gustavo: Acho que só faltou salientar que o Santos ainda está emprestando dois de seus jogadores mais importantes...
  • reginaldo vinhedo: ta certo o santos mesmo..pois,quem poem dinheiro no clube sao os jogadores…e outra esses...

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão