Cresce, robusta e corada, campanha em favor de transformar o futebol em atividade enfadonha e modorrenta nesta terra outrora dada à galhofa e à irreverência. A marcha pela chatice conta com apoio entusiasmado de técnicos, dirigentes, jogadores, árbitros, imprensa, patrocinadores e torcedores. É, até o público, que deveria sempre exigir alegria e diversão de forma incondicional, aderiu ao movimento pela caretice ampla e irrestrita no joguinho de bola!
Episódios ocorridos no fim de semana ilustram a prosperidade da sisudez que corre solta nos gramados. Seriedade que tem pouco de beatice e muito de hipocrisia. Corinthians e Palmeiras fizeram um jogo empolgante no Pacaembu, com alternância no placar, como reza a boa tradição do dérbi. Até que Romarinho, que entrara pouco antes, marca belo gol, que garante os 2 a 2 definitivos. O rapaz se empolga e vai comemorar junto à torcida. Na volta, leva o cartão amarelo! O juiz exibiu a advertência todo garboso, como atestado de eficiência. Com a deferência de cronistas, analistas de arbitragem e parte da torcida, que prezam o cumprimento do regulamento. De norma equivocada e amargurada.
Semelhante zelo pela ordem sua senhoria não teve num carrinho medonho de Emerson sobre Wesley. A sapatada temerária foi contemplada igualmente com o amarelo. Euforia e violência avaliadas com o mesmo peso. E, também naquele lance, muitos especialistas e fãs consideraram adequada a conduta do juiz. Futebol, afinal, é jogo de contato, as divididas fazem parte, o risco da contusão está implícito no exercício da profissão. Conversa mole, argumentos de fariseu, como se dizia no Bom Retiro. No caso, a banalização do mal.
Pouco mais tarde, no Moisés Lucarelli, jogaram Ponte x Santos. Nos instantes derradeiros do primeiro tempo, uma confusão na área campineira desembocou em chutes no vácuo, tapinhas nos braços, beicinho, aperto na bochecha, entre Neymar e Artur. Coisa tola, pueril, só faltou um chamar o outro de bobo ou de feio ou de se provocarem com o “cospe aqui, se você for homem”.
O árbitro Luiz Oliveira não pensou duas vezes para tascar vermelho nos esquentados. E, depois, contou tudo na súmula, num primor de formalidade. (Os atletas são designados como “Sr.” seguido de nome completo.) Aplausos excitados da galera, júbilo para os justiceiros de plantão, os que saboreiam o chavão “o juiz precisa manter o controle do jogo”. Entrevero sonso, contornável com uma bronca, vá lá com um amarelo e com o encerramento da primeira fase e a recomendação de que ambos fossem esfriar a cabeça no vestiário.
Teria sido gesto simples e de fineza. Mas os apitadores preferem a demonstração ostensiva de autoridade, e a turma gosta. Os mesmos que enxergam como normal o carrinho que quebra o rival, ou o amarelo para a comemoração do gol, clamam pela repreensão severa para um quiproquó sem consequências. O rancor se intensifica se estiver envolvido Neymar, esse talento que consegue despertar admiração e tanta rejeição.
A verdade é que o futebol fica chato – e, pior, conta com o respaldo de um monte de santinhos do pau oco.
Libertadores. O Corinthians vai às alturas de Oruro para iniciar a campanha pelo bi da América. O rival no campo não é lá grande coisa. O desafio é o ar rarefeito dos 4 mil metros acima do nível do mar. Derrota não surpreende nem será desastre. Mas a moçada de Tite tem qualidade suficiente para voltar até com vitória.
*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 20/2/2013.)
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A zoeira na cabeça não passou. Ainda estou com os ouvidos zunindo por causa dos rojões, do buzinaço e dos “Vai, Corinthians!” que vararam a madrugada de ontem. Pra ser exato, escrevo esta crônica no fim da tarde… e não é que tem foguetório e fom-fom-fom por aí? Nem se trata de congestionamento; é de festa corintiana mesmo. Por sinal, muito justa.
Vi e revi os melhores momentos do jogo com o Boca, já sei de cor e salteado todos os movimentos dos dois gols do Emerson, li tudo quanto é coluna de jornal, blogs e comentários postados nas redes sociais. Estou por dentro dessa final especial da Taça Libertadores e imagino como objetos que fizeram parte do jogo épico vão se transformar em peças de história e museu. Muitos que estiveram no Pacaembu provavelmente guardarão algo como lembrança.
Sabe o que valeria a pena ter como símbolo dessa noite de quarta-feira dos milagres? O apito. Sim, senhor, a latinha assoprada por Wilmar Roldán talvez seja de origem ignorada, pode ter sido produzida no interior da China, de material vagabundo. Não importa. Ela fez ecoar o som mais lindo da vida de muito alvinegro. O colombiano não tem ideia do valor do gesto rotineiro de soltar o ar dentro daquela caixinha de repercussão, naquele momento, naquele lugar.
O prrrriiiiii! que se fez ouvir no Pacaembu, por volta das 23 e lá vai fumaça do 4 de julho de 2012 teve o impacto de uma sinfonia de Beethoven, uma cantata de Bach, uma sonata de Mozart. O som estridente valeu por uma orquestra de câmara. Não, não, é pouco. Foi o equivalente a uma filarmônica, daquelas grandiosas, de Berlim, Londres, Viena. E o regente foi o latino Roldán, elevado a um Von Karajan dos gramados.
Se pudesse, não pegaria a camisa de algum jogador, nem a bola do jogo, muito menos a rede do gol do tobogã. Entrava no campo, ajoelharia diante do árbitro e lhe imploraria ter o apito como souvenir. Pagaria o que pedisse. Se não fosse convincente, arrancava da mão dele, saía correndo, saltava o alambrado e saía assoprando noite adentro. Por questão de consciência, tentaria encontrar o endereço do juiz e mandaria uma cópia de prata, de ouro, de diamante!
Esse apito ficaria num pedestal, dentro de uma redoma e com sistema de alarme em volta. Proibida qualquer aproximação mais atrevida. Visitas seriam permitidas, só para dividir com amigos e parentes o orgulho de ter recordação mais preciosa do dia em que o Corinthians ganhou a América. Com uma ressalva: ninguém botaria a mão no apito. Só deveria ser cobiçado, a distância segura, e nada além disso.
Mas, em ocasiões especiais – quem sabe no fim do ano, após a vitória sobre o Chelsea, no Japão? -, sairia de lá para ser lustrado e, num gesto de carinho, levaria um soprinho de leve. Dengosamente, soaria o prriii bem suave, manhoso, que traria de volta a explosão de alegria ensurdecedora de uma linda noite de inverno.
Daí, assopraria um monte de vezes, sem parar, com as mãos regendo uma sinfônica imaginária. Os vizinhos, só os corintianos, entenderiam e aplaudiriam. Com lágrimas nos olhos. E com inveja do dono do apito.
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 6/7/2012.)
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Gosto de música brasileira e italiana, por razões culturais, familiares, afetivas. As duas escolas me encantam e inspiram. Pois acordei ontem com uma canção muito bonita de Lucio Dalla, carismático compositor bolonhês que morreu em março e que já citei em crônicas anteriores. Desde que botei os pés fora da cama, fiquei a cantarolar versos de La Sera dei Miracoli, sucesso dele nos primeiros anos 1980 que fala de uma noite especial, mágica, em que milhares de pessoas se agitam, correm de cá pra lá, à espera de fatos extraordinários.
Assim está São Paulo nos últimos dias. Paira no ar da cidade expectativa fora do comum pela partida final da Taça Libertadores, e a ansiedade se torna tão densa que parece palpável como a poluição. O torcedor do Corinthians mal dorme, à medida que se aproxima a possibilidade de ver realizado o sonho de conquista da América. Não é por acaso que oportunistas descaradamente oferecem ingressos (sabe-se lá se verdadeiros) a preços equivalentes ao de carro de luxo ou de pequeno apartamento.
O segundo duelo com o Boca Juniors é tema dominante em qualquer lugar. Vê lá se alguém perde tempo em discutir se a seleção da Espanha de hoje é melhor do que a do Brasil tricampeão do mundo em 1970. Isso é papo de gringos eufóricos e lambuzados com mel ao qual não estavam acostumados. Só terá sentido no dia em que ostentarem cinco títulos mundiais e um Pelé como astro.
O negócio que interessa por aqui é saber se Alex, Danilo, Emerson vão derrubar o multicampeão que vem da Argentina. As apostas giram em torno do placar e, mais do que isso, da possibilidade de Romarinho entrar de novo e decidir no Pacaembu, como aconteceu na semana passada em La Bombonera. Ou alguém duvida que aquele gol de empate teve significado equivalente ao de vitória?
Alvinegros se apegam ao novo talismã para reforçar a esperança; os anticorintianos se aferram aos estragos que, em edições passada, esses hermanos provocaram em Cruzeiro, Palmeiras, Santos e Grêmio, suas vítimas em decisões. E lembram que o Boca gosta de festejar nestas bandas. Vale qualquer coisa para secar e irritar a turma da Fiel.
O otimismo de uns e outros não é fora de propósito. O Corinthians tem a seu favor torcida, uma casa acolhedora, um sistema tático que funciona, jogadores maduros o suficiente para não perderem os nervos em situações extremas. Mostraram isso em todas as fases da Libertadores. (A exceção foi Emerson, expulso contra o Santos, na Vila.) O Boca conta com o pedigree vencedor, com a experiência de gente como Orion, Schiavi, Riquelme, apesar de ser sombra do timaço do início do século.
Se partirmos do pressuposto de que a decisão ocorrerá apenas dentro de campo – e assim espero que seja –, o Corinthians levanta o troféu se for fiel a sua estratégia de marcar forte na frente, de ser econômico porém letal nas oportunidades de gol que cria, se não ceder à sofreguidão de seus fãs. E se anular o maestro Riquelme, ainda fundamental para o Boca.
O momento exige a conciliação de duas posturas aparentemente conflitantes: a paixão (na entrega dos jogadores, na disputa por qualquer bola) e a razão (na paciência diante de um rival igualmente capaz). O Corinthians tem um aliado adicional, pelo menos em comparação ao jogo de uma semana atrás: a condição física melhor. O Boca travou nos últimos 15 minutos. Detalhe a ser considerado, sobretudo em eventual prorrogação.
Mas está com jeito de “noite dos milagres”, e só em 90 minutos. Amém.
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 4/7/2012.)
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Não sou supersticioso, não sei se você é. Mas a bola do Viatri que bateu no travessão, aos 45 minutos do segundo tempo, tem cheiro de lance de time campeão. Não, não o Boca Juniors desta vez. Mas o Corinthians! Sim, senhor, isso foi sorte de quem está com os astros a iluminar seu caminho.
Não ficou convencido com o primeiro parágrafo? Então, digo mais. O Romarinho entrou aos 37 minutos da etapa final e na primeira bola que pega dá uma cavadinha na frente do grandalhão Orion e empata o jogo num momento em que começava a bater angústia nos corintianos. Isso não é indício de que, agora, ninguém vai segurar a pressão no Pacaembu, na semana que vem? Olha que é…
Um grande jogo? Não. Seguiu o script que se imaginou desde que, dias atrás, os dois se classificaram. O Corinthians não se arriscou, o Boca se enroscou na boa marcação brasileira, criou poucas oportunidades e só despertou no segundo tempo, quando partiu pra cima, chutou mais e ficou em vantagem com o gol de Roncaglia, após desvio de Santiago Silva. No lance, Chicão ainda botou a mão na bola, que resultaria em pênalti e em expulsão. Para sorte do Corinthians, a bola entrou e o juiz desconsiderou a falta.
Parecia decidido o destino da primeira parte da decisão. Só parecia. Até que Tite resolveu tirar Danilo e colocar Romarinho, que jornais argentinos chegaram a chamar de filho do Romário. Pois o rapaz honrou o nome do craque e nem ligou para a mística de La Bombonera, fez o gol como se estivesse disputando uma partida no interior de São Paulo, de onde ele veio.
O gol balançou o Boca, se pôde ver pelo semblante surpreso dos jogadores. Os últimos minutos foram de tensão para ambos os lados. E o Boca saiu com gosto amargo ao ver a bola final tocar no travessão e, na volta, roçar na perna de Cvitanic e foi pra fora.
Era o ato derradeiro de uma final equilibrada, em que as duas equipes souberam anular as armas rivais. O Boca bloqueou o contragolpe rápido corintiano, tanto que foram poucos os lances para Emerson, Liedson, Paulinho concluírem. Da mesma forma, Riquelme apareceu menos do que de costume, Santiago Silva e Mouche foram sempre seguidos de perto, os laterais não desceram.
O panorama para o segundo jogo não mudará muito. O Corinthians manterá seu estilo, marcará mais à frente e tentará surpreender no contra-ataque. O repertório do campeão brasileiro não é tão vasto. O Boca apostará em sua história, nos títulos já conquistados, e na eficiência como visitante. Uma disputa aberta, em que não se pode falar antecipadamente de favoritismo.
Mas para os otimistas há um detalhe a ser considerado: o Corinthians tem uma carta na manga, o Romarinho, que não é filho de Romário, mas faz gols à la Romário.
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O Inter abriu caminho para a classificação dele e do Santos para a próxima fase da Libertadores da América. O gol de Gilberto quase em cima da hora garantiu o empate de 1 a1 com o The Strongest,em La Paz, e tornou a matemática do Grupo 1 menos complicada. Agora, os gaúchos e os bolivianos têm 7 pontos, contra 6 do Santos, que nesta quinta-feira recebe o Juan Aurich no Pacaembu.
Qual é a conta, então? O Inter terá ainda pela frente o Santos em casa e o Juan Aurich fora. Se ganhar os dois, vai a 13 pontos e de quebra confirma o primeiro lugar. Para os santistas, basta ganhar dos peruanos amanhã e do The Strongest também como mandante na última rodada. Daí chega a 12 pontos e vai adiante, independentemente do que acontecer no clássico com o Internacional.
A tarefa do Inter não foi fácil, porém conseguiu fazer o que Juan Aurich e Santos anteriormente tentaram sem sucesso, pois foram derrotados na altitude. A turma de Dorival Júnior penou, faltou ar para alguns jogadores, e no entanto sobrou disposição. No primeiro tempo, apesar da dificuldade, criou pelo menos duas chances de gol.
Na etapa final, levou um baque com o gol de Ramallo no início. A reviravolta começou com as substituições: Bolatti no lugar de Guiñazu, que não esteve bem, e de Gilberto na vaga de Dagoberto, que chegou a se sentir mal por sentir os danos provocados pelo ar rarefeito. E foi Gilberto quem aproveitou cruzamento da direita aos 43 e empatou.
O problema maior do Inter, agora, é resolver a vida de Oscar. O jovem meia foi tirado do time em cima da hora, por recomendação do Departamento Jurídico, já que o São Paulo recuperou os direitos sobre o rapaz. Esse caso ainda vai dar pano pra manga.
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O Corinthians por enquanto segue à risca o roteiro para classificar-se na primeira fase da Taça Libertadores da América. Conseguiu dois empates fora de casa – contra o Tachira (1 a1) e o Cruz Azul (0 a0, nesta quarta-feira) – e bateu o Nacional do Paraguai como mandante. Por isso, está na segunda colocação do Grupo 6, com 5 pontos, e na semana que vem define a liderança em novo duelo com o Cruz Azul, só que desta vez no Pacaembu. Caminha até agora sem sustos.
O jogo na Cidade do México mostrou um Corinthians seguro e mais eficiente no primeiro tempo, porém mais cansado e exposto nos minutos finais da segunda etapa. Gostei da forma como o campeão brasileiro se comportou na primeira metade, em que teve bom domínio de bola e criou chances que incomodaram o goleiro Corona. Os jogadores aproveitaram o fôlego e suportaram bem os 2400 e tantos metros de altitude.
Na segunda fase, os mexicanos trataram de acelerar, mas esbarram em limitação técnica. Mesmo assim, pressionaram já nos 20 minutos finais, testaram os nervos e a elasticidade de Júlio César e ficaram muito perto do gol da vitória aos 45, se Chicão não tivesse salvado em cima da linha. Na resposta, o Corinthians quase marcou, com chute de Paulinho que Corona desviou para escanteio.
A turma de Tite não deu vexame, houve novamente regularidade no desempenho de todos os setores. Danilo ficou aquém e foi substituído por Elton, numa tentativa do técnico de tornar o time mais rápido. Liedson mais uma vez teve participação discreta e cedeu lugar para Emerson, o que não fez muita diferença.
O Corinthians caminha para a classificação para a etapa de eliminação direta. Só então terá desafios mais duros – e ainda assim dependendo da pontuação que fizer nesta fase. Por ora, não há o que temer.
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