Houve época em que o brasileiro se identificava tanto com alegria que esse sentimento se estendia para o futebol. Dentro e fora de campo, na mesma proporção, contavam o prazer e a emoção que vinham dos dribles, da malícia e dos gols. Os tempos mudaram, parece que ficamos menos expansivos, e os reflexos aí estão: nosso jogo de bola virou uma coisa chata e monótona, as arquibancadas foram tomadas por gente violenta.
Nós nos deixamos dominar por tristeza, além de incontornável sentimento de inferioridade no esporte em que somos (ainda) os únicos pentacampeões mundiais. Tanto que só conseguimos exaltar o que rola na Europa. E, pior do que isso, torcemos, fazemos força para que batam asas os poucos astros, os raros jogadores que servem de referência para atrair público.
Tenho acompanhado com atenção, e aflição, o noticiário em torno da iminente transferência de Neymar. A cada novo detalhe impecável que leio no Estado sobre os encontros entre dirigentes, empresários, agentes, marqueteiros e a tropa de choque do Barcelona, confesso que me dá um aperto danado. Pego o jornal na esperança de ler que tudo virou fumaça, que os espanhóis recolheram a papelada, fizeram as malas e foram cantar em outra freguesia. E, no entanto, me frustro com mais e mais pormenores, que levam a crer que o acordo se torne irreversível.
A satisfação do pessoal que vai lucrar com a transação não me surpreende. Eles enxergam cifrões e não uma bola. O desalento pega mesmo quando vejo que até o Santos – ou, agora, principalmente o Santos – está louquinho para se desfazer do rapaz. Não porque se decepcionou com ele. Longe disso. Mas porque precisa de dinheiro, o bendito combustível que move a vida.
Um ano e meio atrás, quando Luís Álvaro de Oliveira anunciou que Neymar não sairia antes de 2014, e olhe lá!, vislumbrei o início da grande revolução no futebol nacional. Ali estavam um cartola e um clube dispostos a remar contra a maré, a dar as costas para os euros e a apontar o caminho para os demais. Com ações de marketing bem-sucedidas, seria enfim possível segurar as pérolas por diversas temporadas e não entregá-las aos gringos na primeira oferta. Ilusão. O Santos também capitulou, ou está bem próximo de ceder.
Como desencanto pouco é bobagem, corro atrás de reações de fãs, crítica, boleirada e respectivos professores, pra constatar o óbvio: regozijo amplo, geral embora não irrestrito, pois a melhor novidade que pintou por aqui na década está com pé e meio fora do País. Com apenas 21 anos! Idade em que começaria a deslanchar, a crescer, a dar retorno maior, será repassado para os tubarões da bola, cuja voracidade não se satisfaz jamais, que vai em busca de presas onde quer que surjam, e não desistem enquanto não as capturarem.
Os bem-intencionados alegam que Neymar poderá crescer, evoluir, concorrer com os maiorais de sua categoria para um dia vir a ser o melhor do mundo. Alegam também que não lhe acrescentam nada torneios pobres como os que há por estas bandas. Ou ainda se argumenta que é importante o aprimoramento, já que em 2014 teremos o Mundial e ele é imprescindível para o sucesso da seleção. Como se pudesse vir a ser o salvador de um time sem carisma.
Nossa autoestima anda em baixa mesmo. Craque é pra segurar de todo jeito, para usufruir o máximo, para dar inveja aos outros. Astro tem de ser chamariz para publicidade, mídia e plateias, além de ponto de partida para formação de grandes times. Estrela divulga o clube, faz com que seja conhecido, admirado, respeitado. Bons jogadores são fundamentais para campeonatos de valor.
E o que fazemos? Empurramos, quase enxotamos Neymar – o “monstro”, o “cai-cai” -, para daqui a algum tempo babarmos com ele a correr por campos estrangeiros. Vamos aplaudir pela telinha da tevê, repetiremos à exaustão a cantilena de que o futebol aqui não tem jeito e não mudaremos nada, nunca!
O brasileiro curte tristeza na bola.
*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 22/5/2013.)
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Depois da derrota na semana passada, o torcedor do Santos tinha certeza de que a partida final do Campeonato Paulista teria desfecho feliz e significaria o tetra. Ficou só na vontade. O time foi um fiasco, não passou de empate por 1 a 1 e facilitou a missão do Corinthians, campeão estadual pela 27.ª vez. Um recorde local.
A maior parte do público alvinegro que foi à Vila Belmiro, na tarde deste domingo, saiu com a pulga atrás da orelha. Depois de ver o Santos ser presa fácil, ficou a cismar o que esperar no Brasileiro, principalmente se Neymar for embora. A equipe não é nem sombra daquela dos anos anteriores, mesmo que tenha chegado à final.
As trocas de passes rápidas, os dribles eficientes, as chances de gol andam em falta para o lado santista. E, para complicar mais, Neymar outra vez esteve aquém do que pode fazer. Sozinho, muitas vezes ele desequilibrou em favor do time. Mas, quando está mal, afunda com os demais. Como ocorreu no segundo duelo com o Corinthians.
Bem marcado, poucas vezes pegou na bola para construir lance de gol – e de gols o Santos precisava muito. Até ficou em vantagem, com a belíssima conclusão de Cícero. Porém, mal teve tempo para comemorar e sofreuo empate, com Danilo. E travou, engasgou, emperrou, afundou. Ainda no primeiro tempo, só não levou a virada porque duas bolas estouraram na trave.
No segundo, o panorama não mudou. O Santos teve uma oportunidade, com André, e nada mais. Nada mesmo que pudesse sequer arrancar aplausos da torcida. O Corinthians, com o ponto garantido, já faria a festa. Por isso, se permitiu esperar o adversário vir pra cima – o que não ocorreu. Embora, não precisasse foi quem esteve mais próximo do gol, e desperdiçou outras chances, com Romarinho e Pato.
O Santos precisa reciclar-se, e bem. Com esse grupo, e da forma com tem jogado, não permite prever sucesso na Série A. O Corinthians, sem ser brilhante, pelo menos deu um chega pra lá na frustração da eliminação na Libertadores e pode pensar em recompor-se para voltar à competição continental no ano que vem.
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O Santos pode agradecer ao céu, aos protetores e a todas as mamães. O sonho do tetra paulista esteve perto do fim, na tarde deste domingo, e ainda no primeiro tempo do duelo com o Corinthians. Neymar e companheiros não viram a cor da bola, flertaram com uma surra memorável e no final das contas devem se dar por satisfeitos com a derrota por apenas 2 a 1. Com isso, têm esperanças para o próximo domingo.
A primeira parte das quatro que compõem a decisão do estadual foi um passeio corintiano. Sem inventar, e com alguns deslocamentos de função, Tite conseguiu devolver ao time a consistência e a regularidade dos melhores momentos do ano passado. Ralf e Paulinho estiveram impecáveis na marcação, enquanto Romarinho, Danilo e Emerson fechavam espaços, ao mesmo em que encostavam em Guerrero.
O Santos ficou acuado e se ressentiu de desempenho apagado de Marcos Assunção e Miralles. Ambos pareciam nem ter entrado em campo. Como consequência, Neymar ficava isolado, escanteado na frente. Para sorte do Corinthians, que pressionou, teve muitos escanteios a favor, até chegar à vantagem, com Paulinho. Diferença que só não ficou maior antes do intervalo, porque Paulinho mandou uma bola no travessão.
A goleada se desenhou no primeiro tempo e fugiu no segundo. Muricy acordou, ao tirar os pesos mortos Assunção e Miralles, para colocar Felipe Anderson e André. A dupla tornou o time mais leve, o Santos reequilibrou o jogo e também deu trabalho para Cássio. Havia, enfim, uma partida e não só uma exibição unilateral.
O Corinthians ainda ampliou a vantagem, com Paulo André, se bem que tomava mais cuidado com a defesa. O Santos não perdeu o pé, diminuiu com Durval e recuperou a esperança de definir em casa. Mesmo com um Corinthians mais estável no momento, não se pode cravar que o troféu vá para o Parque São Jorge.
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Há no ar certa resistência ao futebol do Santos em 2013. O tricampeão paulista, de fato, não mostra o estilo leve, atrevido e criativo de outras temporadas. Já não se vê o brilho intenso de 2010, quando surgiu a Geração 3 dos Meninos da Vila. É uma equipe mais pesada, menos ágil e que às vezes demora para engrenar.
A turma de Muricy Ramalho pareceu travada na noite deste sábado. Poucos jogadores tiveram destaque e vários decepcionaram. Felipe Anderson, André, Montillo (que se machucou), Arouca, Cícero estiveram abaixo do esperado. Sobrou, novamente, para Neymar. O rapaz, mesmo sem dar espetáculo e um tanto abatido, fez a diferença. Apesar de tudo, dos pés dele é que saíram os toques e jogadas melhores.
Apesar do desempenho sem tempero, a eficiência santista sobressai, pelo menos no torneio doméstico. A vitória sobre o Mogi nos pênaltis (5 a 4), depois do empate por 1 a 1 no tempo normal, manteve a regularidade alvinegra. Pela quinta vez seguida chega à decisão – proeza a ser ressaltada, independentemente da qualidade da competição.
A gente alega que o Paulista decaiu, seguindo tendência dos demais estaduais. Fato. Mas não é fácil ter essa constância, sobretudo por aqui. Então, há méritos na campanha santista, que está a dois passos de alcançar inédito tetracampeonato desde que começou o profissionalismo. Para quem pensa apenas em Brasileiro, Libertadores e Mundial, isso pode parecer pouco – mas não é. Se a marca for alcançada, merece muita festa.
Mas foi duro para o Santos seguir na trilha do sucesso. A partida em Mogi Mirim se arrastou, teve poucos momentos emocionantes, ficou aquém do que se previa, para ambas as partes. Daniel e Rafael foram mais empenhados nos pênaltis do que nos 90 e tantos minutos. Os gols de Roni, no final do primeiro tempo, e Edu Dracena aos 31 minutos do segundo, quebraram o que tendia a ser uma semifinal monótona.
O Santos pode valer-se do desgaste do rival na final – seja São Paulo ou Corinthians. Porque os dois estão empenhados na Libertadores. O Tricolor define futuro no meio da semana, contra o Atlético-MG. Os campeões do mundo jogam só no dia 15 diante do Boca. Seja quem for, a decisão tende a ser equilibrada, sem favorito.
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A classificação do Santos para as semifinais do Campeonato Paulista foi lógica e sem discussão, mesmo ao vir nos pênaltis (4 a 2), já que o tempo normal terminou com empate de 1 a 1 com o Palmeiras. Com isso, a equipe continua no caminho do inédito tetra estadual. Mas Neymar e companheiros divertem menos do que um tempo atrás.
Acho que me acostumei mal com o Santos do início da Geração 3 dos Meninos da Vila. E não faz tanto assim que isso ocorreu ¬– começou em 2010 e prosseguiu em 2011. No ano passado, embora tenha chegado o tri, o time não empolgou. E era o Centenário.
Continua assim. O Santos joga certo, no limite, na “conta do chá” como se dizia na época da vovó. O futebol que não empolga e não decepciona prevaleceu no clássico deste sábado. O Palmeiras largou bem, teve chance com Leandro e numa defesa de Felipe. Parou ali e deu espaço para a turma de Muricy Ramalho reequilibrar.
O Santos teve mais troca de passes (e não posse de bola) no primeiro tempo, ficou em vantagem com o gol de Cícero, ao desviar para dentro chute de Neymar, e ainda obrigou Bruno a fazer duas defesas complicadas. O Palmeiras emperrou com o bando de volantes (Márcio Araújo, Léo Gago, Wesley, Charles) e sem ninguém para criar.
Gilson Kleina teve uma leve inspiração, no intervalo, e voltou com Kleber no lugar de Léo Gago. Foi o centroavante quem fez o gol de empate ¬– único e melhor momento alviverde na etapa final. O Santos, sem sair muito do ritmo, criou mais duas chances (que morreram nas defesas de Bruno) e não criou muito além disso.
Nos pênaltis, prevaleceram qualidade, tranquilidade e pontaria dos santistas. Além dos reflexos de Rafael, com duas defesas decisivas. O Santos segue, o Palmeiras cai.
Mogi. Empolgante, mesmo, foi o Mogi Mirim, que lascou 6 a 0 no Botafogo. Lembrou o Carrossel Caipira do começo dos anos 1990, que tinha Rivaldo como uma das referências. Vitória sem dar nenhum tipo de contestação para os rivais, que ainda tentaram provocar confusão após o apito final. O Mogi vai incomodar o Santos.
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Parem as máquinas! Preparem os calmantes! Façam estoques de refrigerantes e pipoca! Reserve uma grana extra para ir aos estádios! No próximo final de semana, começará o Campeonato Paulista. Já não era sem tempo. Epa, o calendário corre solto desde janeiro, houve uma infinidade de jogos e só agora vem essa novidade?! Sim, sim, sim.
Acabou a arrastada e quase inútil fase de classificação para apurar-se os quatro times que, junto com Palmeiras, Santos, Corinthians e São Paulo, vão disputar o título pra valer. Ou você tinha alguma dúvida que o quarteto, com 19 oportunidades, iria jogar uma vaga no lixo? Só se algum deles fosse tomado por incontornável incompetência.
A nota destoante será o clássico que Santos e Palmeiras farão na Vila. Imaginava-se que não haveria choque de grandes nas quartas de final, disputada em confronto único. (Mais uma contradição do regulamento.) E, por isso, também haverá um duelo entre times do interior, em Mogi x Botafogo. Completam o quadro São Paulo x Penapolense e Ponte Preta x Corinthians.
Desse bloco, vejo o São Paulo como favorito diante do time de Penápolis. É só o que falta, neste momento, a turma de Ney Franco negar fogo diante de rival mais fraco. Jogo pra liquidar no tempo normal, sem risco de pênaltis. E esperar o vencedor de Ponte x Corinthians. Este deve ser mais equilibrado, pois a Ponte só perdeu uma vez (contra o Palmeiras) e mostrou muita regularidade. Como elenco, o Corinthians é melhor.
Santos x Palmeiras é casca de banana. O Santos não fez uma campanha extraordinária e depende muito da inspiração de Neymar. O Palestra não é grande coisa, mas mostrou que em certas ocasiões pode superar-se e surpreender. Não tenho favorito. Assim como é arriscado cravar o Mogi diante do Botafogo. São concorrentes que se equivalem.
Uma coisa é certa: o Paulistão precisa ser repensado. Caso contrário, continuará a minguar, em qualidade técnica e em público. Mas, para tanto, é preciso que a FPF faça sua parte. Fará?
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No meio da semana, o Santos jogou pela Copa do Brasil, se classificou e Muricy Ramalho deu as explicações de praxe. A entrevista ia na base do papo vem, papo vai, até que o técnico deu a entender que iria aposentar-se no fim do ano, tão logo terminasse o contrato atual. A ideia passou a cutucar-lhe a cachola após o problema de saúde que o fez ficar de molho por alguns dias em hospital aqui de São Paulo. O susto o levou a considerar a hipótese de curtir mais a vida ao lado da família, depois de tanta estrada, e longe do stress provocado pela profissão. Epa, ali estava uma novidade e tanto!
Muricy pareceu bem sincero no depoimento, mas à medida que falava me batia a certeza: ele não vai parar. Pelo menos não tão já. Encerrar carreira é das decisões mais difíceis na vida de todo cidadão que curte a profissão, seja qual for. Ficar em atividade, enquanto houver saúde, disposição e mercado, gratifica, oxigena o cérebro, empolga.
Quando comecei a batucar em antiga Olivetti Lettera, neste mesmo Estadão, nos tenebrosos idos de 1974, com versos de Camões e receitas de bolo a denunciar espaços do jornal roubados pela censura, companheiros experientes advertiam que enveredava por um “vício” pior do que cachaça. Achei folclórica a predição, afinal verdadeira. Na marvada nunca me liguei, por opção e estômago indócil, mas do jornalismo não nunca cogitei abrir mão, ainda mais com internet, blog e outras bossas.
Pendurar a pena é complicado, ao se tomar gosto por escrever. Porém, pelo que presenciei em inúmeras ocasiões nestas quatro décadas, o sujeito afastar-se do banco de reservas e do joguinho de bola só com camisa de força, por absoluta falta de condições físicas ou por ausência cortante de convites. Uma vez dentro da ciranda, não há como sair. Ser treinador de futebol vicia. Não sou eu quem afirma, mas gente do meio.
Cria-se dependência voraz e não tem terapeuta que dê jeito. Reza a lenda que professores de ponta ganham os tubos – e muitos recheiam vários pés de meia. Taí um ótimo motivo para seguir em frente. No entanto, tem preço: constantes mudanças de casa, pois não se escolhe a cidade para treinar; pressão de dirigentes, torcedores e empresários; a necessidade de lidar com ego de atletas; acostumar-se a ouvir “burro e imbecil” como qualificações mais suaves. E as demissões de uma hora para outra, fora os calotes de clubes maus pagadores?
Treinadores desenvolvem formas de compensação, criam escudos invisíveis, na base de discursos prontos – para início de trabalho, momentos de alegria, fases críticas e debandada. Num instante falam em dar um tempo, reciclar-se, sair de circulação. Tão logo recebem proposta, largam o pijama, botam agasalho e vão à luta.
Lembro de Rubens Minelli, então no auge da fama, no fim dos anos 1970, anunciar que ia pra casa assim que comemorasse o cinquentenário em 78. Conversa. Vinte e tantos anos mais tarde continuava a dirigir grupos de atletas e hoje se diverte como comentarista. Jamais largou a bola. Telê Santana, Osvaldo Brandão, e mais recentemente Zagallo, só passaram a ver futebol no sofá, quando o corpo se recusou a mais aventuras.
Zico roda o mundo nas mais diversas andanças; Falcão largou empregão na Globo, depois de 15 anos, e voltou à rotina cigana e instável de treinador; Luxemburgo tomou cachações no Chile, e vê se pensa em parar! Não!
Moral da história. Muricy pesou o que disse e chegou à conclusão de que “ainda é cedo” para parar. Eu sabia! Pois essa cachaça é difícil de largar.
*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 21/4/2013.)
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Faz algum tempo remo contra a maré, ao defender a permanência de Neymar no Brasil por mais algumas temporadas. Posição que não tem respaldo de muita gente boa, que, sem qualquer ligação direta com o rapaz, insiste na saída imediata, para que possa ganhar experiência e tornar-se maior. Consideram que só na Europa poderá crescer, ganhar prêmios, ajudar a seleção brasileira, rivalizar com os craques internacionais, etc.
Neste sábado, Neymar reforçou a minha convicção de que o exílio será umapena, ao marcar os gols dos 4 a 0 do Santos sobre o União Barbarense, pelo Campeonato Paulista. Fez dois em cada tempo, teve outro anulado, mandou bola na trave, deu passes, dribles e saiu de campo como a estrela maior. Deixou o time na segunda colocação na classificação. E encheu os olhos de quem curte futebol e seus artistas.
Se tivéssemos maior autoestima, nos encheríamos de brios e brigaríamos para que não se deixasse seduzir agora pelos euros do Barcelona ou de quem quer que seja. Não ficaríamos a todo momento batendo na tecla de que não há mais espaço para ele por aqui. Ao contrário, exigiríamos a permanência, para alegria geral da nação. E obrigaríamos os cartolas a serem mais cuidadosos com a matéria-prima que temos.
Em vez disso, nos curvamos para os europeus, nos conformamos com o poder de compra de quem tem bilionários russos ou árabes no comando, consideramos natural e inevitável o êxodo, vemos o empobrecimento técnico como destino incontornável. Viramos sempre mais torcedores de televisão e não de estádios. Não temos ídolos, nossas crianças ficam sem referências locais para encantar-se. Uma tristeza.
No lugar de apontarmos o dedo para Neymar e acusá-lo de cai-cai, mascarado, marqueteiro e outras bobagens menores, deveríamos nos unir e carimbá-lo como patrimônio nacional. Quem sabe assim os outros clubes não se animassem a se mexer, a tornar-se profissionais e segurar o que têm bom e dar uma banana para os estrangeiros?
Sonho, loucura, besteira, divagação, quimera, utopia? Sei lá, pode usar o termo que quiser. Mas ainda imagino o dia em que curtiremos nossas joias por bastante tempo, antes que elas se decidam a mostrar suas qualidades para outras plateias. Enquanto isso, babamos para os Barças, Manchesters, Milans da vida. E eles nos olham como gentalha, que se sente honrada porque seus melhores jogadores atraem a atenção dos colonizadores.
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Neymar incomoda. Ou melhor, o sucesso de Neymar por estas bandas provoca desconforto, para usar termo educado e da moda, embora inveja, ciúme, cobiça e até ingenuidade se adequassem à perfeição. À medida que o rapaz se mostra à vontade em casa, atrai maior número de fãs e fecha contratos milionários, cresce a corrente dos que desejam vê-lo fora do Brasil a todo custo. A alegação rotineira se volta para o desenvolvimento técnico e tático que a experiência europeia lhe proporcionaria, além de benefícios inestimáveis para a seleção, “que não pode fazer feio” na Copa de 2014.
A onda, até um tempo atrás, era compará-lo a Messi. Pelo visto, tanto os que o idolatram quanto os que torcem o nariz até para as variações de cortes e tonalidades de cabelo dele, resolveram deixá-la para trás, por ser descabida. O argentino atingiu estágio superior por pertencer a uma categoria, especial e limitadíssima, de superastros. Que talvez Neymar não venha a integrar, sei lá. Sei que tem talento de sobra, e isso deveria nos orgulhar e não nos inquietar.
A tendência agora é cotejá-lo com Lucas. Ambos têm praticamente a mesma idade, surgiram como estrelas nas respectivas equipes – Santos e São Paulo – e viveram trajetória semelhante, pelo menos nas seleções de base. Na principal, Neymar há muito é titular. Por esbanjarem qualidade, chamaram a atenção de estrangeiros, que até o momento conseguiram carregar apenas Lucas. O Paris Saint-Germain despejou um caminhão de dinheiro no Morumbi, para tê-lo como integrante de elenco milionário. Por aqui, a torcida tricolor ainda aguarda, com ansiedade, que os euros sejam revertidos para reforçar o time.
Lucas cava espaço no PSG, participou da aventura da eliminação na Copa dos Campeões, e isso basta para ressurgir o coro dos que sonham ver Neymar distante, sem se darem conta de como a aridez local aumentará após a saída. O argumento corriqueiro indica que, em breve, Lucas será maior que Neymar.
Mesmo? Tenho dúvidas. Lucas ganhará visibilidade, certamente, porque a turma da Europa trabalha com profissionalismo para vender suas competições. Nem sempre o peixe é tão bom quanto se apregoa. Mas, como aparece limpinho, com frescor e a preço razoável, tem aceitação no mercado. E passa a impressão de que é de primeira. Isso pode acontecer com Lucas, que nem precisa de tanta publicidade, ao contrário de muito gringo que deita e rola por lá.
Mas Neymar é melhor – e nisso não vai demérito nenhum para o ex-são-paulino. O ídolo santista dribla, ousa, inventa, finaliza, tem visão de jogo extraordinária. É goleador, garçom, e desenvolve também senso tático que só os dotados de inteligência esportiva refinada apresentam. Evolui, mesmo com as repetidas disputas contra rivais de menor expressão, no Paulista e na Copa do Brasil. Não está cabisbaixo.
Cada um a sua maneira, e no ritmo próprio, terá sucesso. Antes de acatarmos como sensato o canto das sereias que o empurram para o exílio, por que não exigimos profissionalismo e transparência dos dirigentes, por que não forçamos para que elaborem planos de carreira honestos para as revelações, por que não lutamos por campeonatos decentes e competitivos? Assim, com o tempo, será possível manter Neymar e outros craques, além de trazer gente de fora. Mas é mais fácil assumir o conformismo e achar que aqui nunca mudará.
Acomodação que permite que um símbolo nacional – o complexo do Maracanã – seja desfigurado e entregue de bandeja. Como tantos outros.
*(Minha crônica publicada em parte da edição do Estado de hoje, sexta-feira, 12/4/2013. Depois, foi atualizada.)
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Mentira se alguém disser que não teve quase nada de aproveitável no 0 a 0 entre Palmeiras e Santos, na tarde deste domingo, no Pacaembu. Teve, sim. Um lance esteve à altura da tradição do duelo: aos 35 minutos do primeiro tempo, Giva deu uma cabeçada quase na pequena área, que não entrou porque Fernando Prass no chão fez defesa antológica. Parecia aquela de Banks, em lance do Pelé, na Copa de 1970!
Nossa, o que a gente não faz para enxergar algo de bacana numa partida que, fora algumas jogadas cá e lá, foi de uma mendicância técnica tremenda. Os dois times já não são grande coisa. Sem alguns titulares, como Neymar, Montillo, Marcos Assunção, Henrique, Valdivia, ficam ainda mais comuns. E limitados.
E isso ficou exposto no confronto acompanhado por público pequeno. O Santos escancara cada vez mais a dependência de Neymar, o que é bom e ruim. Bom, porque poucos têm o privilégio de contar com um jogador desse quilate. Ruim, por não haver no restante do elenco astros de primeira grandeza. O grupo de Muricy Ramalho também tem vários jovens (tirando os veteranos da defesa), mas nenhum talento superior.
O Palmeiras compensou suas debilidades com empenho, garra, luta e aquelas coisas todas que se espera de qualquer profissional decente, em qualquer profissão. Mas não se pode cobrar jogadas de efeito ou criativas de um meio-campo com Márcio Araújo, Charles, Leo Gago ou mesmo Wesley. Não mesmo. Nem grande coisa de atacantes como Caio e Vinicius, com potencial, mas verdes, com o perdão do trocadilho.
Acrescente-se a isso o fato de que os dois times certamente estarão na próxima fase do Paulistão e está montada a receita para mais um jogo modorrento do torneio estadual. E ainda faltam cinco rodadas para o encerramento desta fase. Mamma mia!
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