O Corinthians esbanja lucro com a torcida e com a crítica, pelos títulos da Libertadores e do Mundial. E continua firme no caminho do bi das Américas. Mas por aqui tem dado demonstrações de desconcentração e relaxamento. O mais recente veio na tarde deste domingo, com a derrota por 2 a 1, de virada, para o Linense, no Campeonato Paulista.
O resultado não é o fim da picada – no sábado mesmo o São Paulo perdeu para o XV de Piracicaba, no Morumbi, por 1 a 0, e a Lusa levou surra de 7 a 0 do Comercial na Série A-2. No entanto, por se tratar de equipe em alta, e que contou com força máxima, é bom que não baixe a guarda. Vai que ela contamine desempenho em outras frentes…
Os jogadores alvinegros reconheceram o fiasco, sobretudo pelo desempenho no segundo tempo. Sinal de que não deram um bico na autocrítica. Já serve como caminho para a retomada do empenho. São três meses de temporada e o time não mantém a regularidade de 2012, mesmo com classificação tranquila no torneio su-americano.
No jogo em Lins, o técnico Tite botou a turma toda pra correr e o Corinthians funcionou razoavelmente na primeira parte, com algumas jogadas interessantes e controle do jogo. Tanto que ficou em vantaem com 2 minutos, com o gol de Guerrero, e deu a impressão de que a goleada viria com naturalidade. E esse foi o erro, a avaliação que acomodou.
O Linense percebeu, com o tempo, que o rival estava distraído, com excesso de confiança, e pagou para ver o que iria acontecer. E ocorreu a reviravolta, com os gols de João Salles e Leandro Brasília na segunda etapa. O Linense ainda teve um expulso (Marcelo) e pode agradecer o juiz por não ter dado um pênalti sobre Pato.
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A briga para fugir do rebaixamento está com jeito de que será mais emocionante até do que a corrida pelo título. Calma aí, não falo em inversão de valores. Claro que ser campeão é o máximo – e Fluminense, Atlético, Grêmio, Vasco se esforçam para terminar no topo. Mas é que o bloco dos ameaçados é tão grande (a metade dos 20 concorrentes) que, daqui em diante, não faltarão duelos que envolvam esses concorrentes da parte de baixo.
Como aconteceu nesta quinta-feira, nos três jogos que abriram a 28ª rodada do Brasileiro. Só entrou em campo time que lida com a incômoda perspectiva de debandar para a Série B em 2013. Dois se deram bem (Lusa e Coritiba), os demais (Sport, Ponte, Fla, Bahia) patinaram. O restante do chumbo grosso está marcado para o sábado.
A Lusa é quem respira mais aliviada. Mais uma vez, mostrou que em casa atropela adversários. A vítima da vez foi o Sport, que ainda saiu na frente com gol de Hugo. Só que, na sequência, levou uma surra e tanto. O protagonista foi Bruno Mineiro, que já passou pelo clube pernambucano, fez três gols, se isolou na artilharia (são 14 contra 13 de Fred) e ajudou a Lusa a subir para 36 pontos. Moisé e Rodriguinho completaram. O Sport permanece com 27.
O Coritiba também cumpriu a parte dele, com o 1 a 0 sobre a Ponte Preta, que no sábado havia perdido para o Palmeiras. O gol do Coxa foi marcado por Deivid, que andava em jejum. Com isso, a equipe paranaense vai a 32 pontos e se mantém com 5 à frente do Sport, o primeiro a abrir o grupo dos quatro que descerão um degrau ao fim da temporada. A Ponte ficou nos 34, mas preocupa a queda no desempenho desde a saída de Gilson Kleina.
Flamengo e Bahia fizeram um jogo muito bom, no Engenhão. Os criaram inúmeras oportunidades de gol. Brilharam os goleiros Marcelo Lomba e Felipe, mas a trave também foi vilã, pelo menos num chute de Cleber Santana. Os dois somaram um ponto e têm 35 no total. Uma folga de 8 em relação aos mais apertados, mas ainda insuficiente para baixar a guarda.
A tendência é a de que se brigue para fugir de duas vagas na degola. Atlético-GO com 20 e Figueirense com 22 parecem condenados. Palmeiras (26) e Sport (27) ainda são os que devem temer mais. O Palmeiras, mesmo que bata o São Paulo, permanece na zona do descenso, embora possa ultrapassar o Sport. Na semana que vem, pega o Coritiba.
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Os torcedores do São Paulo andam aborrecidos, o que é compreensível, pois o time neste ano já frustrou expectativas no Estadual e na Copa do Brasil. Dá para entender que estejam na bronca e vaiem seus representantes. Como ocorreu na noite deste sábado, na derrota por 1 a 0 para a Portuguesa, no clássico disputado no Canindé.
O que me chamou a atenção, no protesto que se ouviu do começo ao fim, foi o fato de não ter sido generalizado. Os alvos de descontentamento foram jogadores (quase todos) e o técnico Emerson Leão, um dos vilões da hora, no Morumbi, ao lado de Luís Fabiano.
Os dirigentes, no entanto, passaram ilesos. Não se ouviu a voz das arquibancadas vociferar contra o presidente nem contra seus auxiliares diretos. A cartolagem foi poupada da ira dos fãs. O que é incomum em momentos de crise. Nessas horas, quem comanda clubes entra no rolo, é cobrado e passa apuros. Não é o caso, pelo jeito, dos mandatários tricolores.
Bom ficar claro que acho indelicado – e, em geral, injusto – esse tipo de comportamento. Vaias são um recurso válido, para quem não se sente recompensado pelo espetáculo. Mas ofensas doem e ninguém tem o direito de ser grosseiro com profissionais.
A maioria dos jogadores do São Paulo (e de qualquer time) faz o que pode. Não se percebe ninguém a levar os jogos na base do corpo mole. Há muita intranquilidade no ar, e ela tende a crescer, se a hostilidade se mantiver. A instabilidade ficou evidente diante da Lusa – e a equipe de Leão sucumbiu na etapa final, sobretudo depois de levar o gol de Ivan aos 11 minutos.
Claro que faz parte da rotina insana pressão sobre atletas e treinadores. Para mim, está evidente que a batata do treinador já começou a assar. Leão não é nenhum novato e já percebeu isso. Da mesma forma, alguns boleiros também sentem que a perseguição crescerá, se os resultados não vierem. Ou se não houver trégua com a torcida.
Trégua que, por milagre, parece ter sido concedida apenas para os cartolas. Que coisa…
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Difícil ficar indiferente a choro, sobretudo quando há sinceridade e vem de sujeito barbado. Choro de homem tem contornos dramáticos, ainda mais no futebol, esporte machista por definição. Choro de goleiro, então, é de partir o coração, por se tratar de posição maldita. A falha do número 1 sempre ganha dimensão maior do que a dos demais, é fatal, termina em gol, provoca decepção e ira. O goleiro costuma ser pego pra Cristo em momento de baixa da equipe. Depois dele, o alvo é o treinador.
O crucificado da noite de ontem, no Canindé, foi Rodrigo Calaça. O goleiro da Lusa por pouco não saiu de campo como herói de uma vitória suada e sofrida, que deixaria o time respirar aliviado e ver à distância o fantasma de retroceder para a Série B paulista. Seria o nome do jogo, se poucos minutos antes do encerramento uma vacilada dele não resultasse no gol de empate do Linense. Os 2 a 2 finais empurram para a última rodada a angústia de jogadores e torcedores do campeão da Série B nacional de 2011.
Depois do gol de Fausto, aos 41 minutos do segundo tempo, quem estava no estádio talvez não tenha percebido bem, mas os que acompanharam pela televisão puderam notar claramente Rodrigo Calaça inconformado, lágrimas nos olhos, a raiva querendo explodir por causa do erro que mandou para o espaço a vitória quase certa. Que esteve muito mais próxima, quando a Lusa abriu vantagem de 2 a 0 no primeiro tempo, num sábado que prometia ser de Aleluia, sem Judas pra malhar.
Pra aumentar o tormento, o moço ouvia o coro de “frangueiro” a vir de sua própria torcida. Isso dói pra burro, magoa, castiga. Ofensas que partem dos adversários até estimulam, precisam ser levadas na maciota, com altivez e indiferença. Mas xingamentos daqueles que têm as mesmas cores, que supostamente deveriam estar do lado dele, funcionam como chicotada. E Rodrigo sentiu. Ficou no ar a sensação injusta de que foi o responsável por mais um tropeção de um grupo que desaponta no Estadual.
Errar é do jogo – um dos princípios de ouro de qualquer competição. Os vencedores têm méritos, mas contam com tropeços dos rivais para obter sucesso. Lei da vida, inalterada, que não tira brilho dos que alcançam a glória e não deveria sacrificar os que erraram.
Rodrigo não foi leviano no lance, deu azar como todo goleiro, bom, médio, extraordinário que se preze já conheceu em algum momento da carreira. Tem horas em que a defesa parece coisa de rotina, fácil, brincadeira de criança. Mas, assim que a bola se aproxima, ocorre uma pane, apaga tudo, e por aquele instante de titubeio, a danadinha se ajeita na rede. E sobra para o goleiro.
Rodrigo Calaça foi pra casa com a cabeça quente e deve ter tido pesadelos. Essas coisas acontecem, a gente sabe. O problema está na fase da Lusa – opaca, ao contrário da linda Lua cheia que iluminava o Canindé poucas horas antes da alvorada de Páscoa.
Tricolor impossível. Não canso de ouvir que o São Paulo não encanta, não engrena. Ainda assim, ontem obteve a décima vitória enfileirada, entre Paulista e Copa do Brasil. Sem forçar o ritmo, bateu o bom Mogi Mirim por 2 a 0 e aumenta a possibilidade de terminar a fase na primeira colocação. Mas, a alimentar dúvidas a respeito da força dos oponentes nesta etapa, foi Luís Fabiano. O centroavante saiu de campo com uma pulga atrás da orelha. “A gente só vai saber se de fato estamos bem na hora dos jogos eliminatórios.” Pois é, quando começa o campeonato. Não disse bobagem.
*(Texto de minha crônica que saiu na maior parte da edição do Estado de hoje, dia 8/4/2012.)
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Jogos de início de ano não devem ser levados ao pé da letra. O torcedor não precisa se desesperar, se os resultados não agradam, porque a moçada ainda está fora de ritmo e uns voltam mais fofos do que outros. Assim como não pode ficar todo prosa e abusado, se o time atropela sparrings em duelos para desenferrujar. Algumas rodadas de torneios oficiais são necessárias para fortalecer esperanças ou arrasar nervos. Convém, portanto, esperar.
Mas não resisto à tentação de animar-me com a Portuguesa. Pode ser apenas reação de simpatia por uma equipe querida pela origem, pela história, pelo perfil de seus fãs. Pode ser o desejo de ver um clube tradicional recuperar momentos de glória que ficaram no passado. Pode ser precipitação das grossas, uma tentação que derruba cronistas.
O certo é que a Barcelusa merece ser olhada com mais atenção na temporada que tem pontapé inicial amanhã, com a largada de mais um Paulistão. O apelido com o qual seus seguidores se divertem em chamá-la por causa da avassaladora campanha na Série B de 2011 faz sentido. Descontado o exagero (se bem que futebol se faz com hipérboles), a turma de Jorginho tratou os adversários na divisão de acesso nacional com a mesma impiedade do original catalão. O Pep Guardiola do Canindé montou um grupo eficiente, seguro, que carimbou o retorno à elite com folga e autoridade. Trajetória de arrepiar e emocionar.
A expectativa de seus admiradores não é consequência de vaidade tosca ou de cegueira própria dos apaixonados. Há motivos para ancorar o otimismo. Pra começo de conversa, a diretoria manteve a base, nada de extraordinária, mas que conta muito. A Lusa não possui craques de fazerem o queixo cair, tem tempo que não revela um Ivair, um Leivinha, um Enéas, um Dener. Nem mesmo um Edu Bala ou um Rodrigo Fabri. (Por falar nisso, por onde ele anda?)
O elenco foi composto de acordo com a fórmula tradicional – deu espaço para pratas da casa e acolheu rapazes já rodados, vários oriundos de experiências malsucedidas. No purgatório da Segundona, longe do foco da mídia, que se concentra em Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras, o técnico pôde erguer uma Lusa pragmática e simples, sem abrir mão do estilo leve.
Jorginho não é um gênio da estratégia – ainda bem. Mas fala a língua dos boleiros, passa o recado, colhe resultados e pode firmar-se como nome de peso. A Lusa lhe oferece a confiança negada no Palestra, em 2009. Na época, pegou o rojão, após demissão de Luxemburgo, enfileirou uma série de vitórias, mas cedeu o lugar para Muricy. Os dirigentes o consideravam verde para o cargo, com o perdão do trocadilho.
O grande público vai rever ou conhecer melhor, a partir do jogo com o Paulista (17 horas, no Canindé), nomes como os de Weverton, Luís Ricardo, Gustavo, Henrique, Leo Silva, Vandinho, Edno, Guilherme. Essa rapaziada tem a missão de mostrar que a experiência do ano passado valerá muito agora. Corinthians, Palmeiras, Grêmio, Botafogo, Vasco, Coritiba são exemplos de clubes que voltaram mais fortes, depois de períodos sabáticos na divisão de acesso.
A hora é da Lusa e a chance está no Estadual. Ela não fica abaixo dos outros e rivais como Santos e Corinthians vão concentrar-se na Libertadores. A torcida lusa deve ser mais barulhenta do que nunca – e acreditar. Porém, se o título não vier, nenhum drama; o mundo não vai acabar, apesar do que previram os Aztecas. Ou seriam os Incas? Os Maias? Sei lá, isso é para videntes e sabichões.
*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, dia 20/1/2012.)
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Foi bonita, singela e emocionante a festa de Portuguesa e torcida pela conquista da Série B do Campeonato Brasileiro. O Canindé viveu talvez a noite mais feliz de sua história, pois pela primeira vez viu a equipe da casa comemorar uma taça. Os 2 a 2 com o Sport consolidaram uma campanha memorável, com 20 vitórias, 12 empates e 3 derrotas. Ainda faltam três rodadas para aumentar a proeza de Jorginho e sua rapaziada.
O troféu talvez não seja valioso para Corinthians, Grêmio, Vasco, Palmeiras, clubes com currículo mais rico e para os quais a Segunda Divisão foi uma mancha, um pesadelo a ser esquecido. Para a Lusa, é prêmio para ficar em evidência, para ser valorizado, admirado. Uma prova de crescimento e um motivo para reforçar a autoestima e fazer com que seja protagonista na elite no ano que vem.
A Portuguesa volta à Série A, depois de mais quatro anos de ausência. E certamente será regresso de um grupo amadurecido e confiante. De preferência com Jorginho à frente. O ex-ponta, o Cantinflas, 46 anos e pouco tempo na estrada como treinador, é um dos segredos do ressurgimento luso. Sem mistérios, sem inventar, sem complicar, moldou o grupo à necessidade da competição. E sem sobressaltos o levou ao topo.
As imagens da televisão mostraram vovós, pais e filhos, crianças a comemorar o título. Moços, homens maduros a chorar porque finalmente soltaram o grito de “É campeão!” para o time do coração. Pode parecer tolice para gente esnobe, mas não para o torcedor da Lusa. Para eles, a terça-feira 8 de novembro de 2011 será pra sempre um dia especial. E que seja só o começo de tempos de glórias. Por que não?
Foi bonita a festa, ó pá, como cantou um dia Chico Buarque.
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