Você aproveitou a tarde sossegada do feriado de 7 de Setembro, ligou a tevê e buscou diversão em mais uma apresentação da seleção. Agora, diga lá, sem vacilar: valeu a pena? Animou-se? Não teve nem um lampejo de raiva ou bocejos incontroláveis? Terminado o espetáculo, com vitória por 1 a 0 da turma do Mano, ficou com a certeza de que o time está no caminho certo e que brilhará no Mundial de 2014?
Sei, são muitas perguntas e poucas as certezas. Eu abaixei o som da tevê, agora, pra batucar este comentário, e admito que minha cabeça está povoada de pontos de interrogação. A seleção não me tira o sono (porque me ligo mais no futebol dos clubes), mas gostaria de vê-la com futebol à altura da história que carrega.
É embaraçoso ver jovens talentosos vaiados (até com razão) e perdidos, por falta de definição tática, de controle e de inspiração. Pois esses pontos negativos sobressaíram na apresentação contra a apenas esforçada África do Sul, num Morumbi com bom e impaciente público. O Brasil teve uma de suas atuações mais monótonas dos últimos tempos. Monótona e confusa.
A proposta de Mano, de reunir Oscar, Neymar, Lucas e Damião, é interessante. Sempre é elogiável, quando um treinador opta por jogadores leves e ofensivos em vez de brutamontes. Com Daniel Alves e Marcelo, laterais que em suas equipes (Barcelona e Real) costumam descer, aumentava a perspectiva de esquema atrevido, para atormentar os adversários.
Mas, na prática, não funcionou. Assim como em jogos anteriores, a seleção ficou entre a boa intenção e o fiasco. Só não foi retumbante a derrapada porque Hulk, o jogador de 60 milhões de euros, entrou para salvar a cara do pessoal, no meio do segundo tempo, e fez o gol decisivo.
Na maior parte do tempo, o que se viu foi o Brasil impotente para superar uma razoável (e nada além disso) marcação sul-africana e a perder-se no meio-campo e na defesa. Apesar da falta de apetite para agredir, os Bafana-Bafana tiveram algumas oportunidades que exigiram presença segura de Diego Alves.
A torcida vaiou de forma generalizada, com alguma preferência por Neymar, o que considero exagero e talvez opção clubística. Mas poderia escolher à vontade jogadores para pegar no pé, porque quase todos (com exceção do goleiro) estiveram aquém do esperado e desejável.
Mano, que passou a maior parte do tempo protegido no banco de reservas, deu contribuição para as “feras”, ao tirar o santista seis minutos antes do final. Precisava? Pra quê? Se era pra preservar o grupo, que o mantivesse até o encerramento.
Esqueça o resultado, que isso só servirá para os tarados por estatísticas. No futuro, constará que em 7 de setembro de 2012 o Brasil ganhou da África do Sul por 1 a 0. Mas não estará escrito que, naquela data, ainda não tinha encontrado padrão para a Copa de 2014 e que jogou mal, muito mal. E, hoje, isso é o que preocupa.
Tags: África do Sul, Copa 2014, Hulk, Mano Menezes, Morumbi, Neymar, Oscar, Seleção Brasileira
Estraga-prazeres é o sujeito que se satisfaz ao derrubar o ânimo do infeliz que dele acaso se aproxime. Nada o entusiasma, nenhuma coisa presta, empreitada alguma dará certo. Um chato por vocação, do qual sempre é bom manter distância.
Longe de mim a mais tênue intenção de azedar a alegria de qualquer cidadão. Ainda mais numa data tão bacana como o Dia da Independência. Desde garoto, sempre me encantaram os desfiles de 7 de Setembro – ficava fascinado com os tanques e os jipes militares. Mas quando saíam pelo Ipiranga ou pela avenida Tiradentes. Não entendo por que a parada foi confinada ao Sambódromo, já que o charme estava no contato com a rua.
Pois bem, conversa fiada à parte, sinto que não me tocará o coração o amistoso que logo mais a seleção fará com a África do Sul, na cidade onde Dom Pedro, nosso primeiro imperador de verdade, 190 anos atrás deu basta à dominação portuguesa. Nada contra a rapaziada de Mano Menezes, muito menos com os esforçados Bafa-bafana que aqui nos visitam. Também não desejo azedar a vibração de quem for ao Morumbi.
Mas, sem chover no molhado (uma aguinha cairia bem nesta empoeirada Pauliceia), que hora inapropriada para a exibição da turma da amarelinha! Se já faz tempo que, na visão do fanático, o scratch nacional virou estorvo, quanto mais agora, em que o Brasileiro pega fogo. Li nos fóruns de blogs, Twitter e outras bossas cibernéticas os mais irados comentários a respeito do jogo desta sexta-feira e o da segunda à noite, no Recife, diante da portentosa China.
Torcedores de Santos, São Paulo, Inter, Corinthians, Atlético, Vasco, Botafogo se irritaram com a convocação de seus astros, já que o campeonato não para. E com razão. Times brigam por título, alguns patinam ou despencam, e os poucos destaques são chamados para partidas meia-boca?! Ora essa.
“Tô nem aí com o Brasil. Tô com raiva é da Argentina”, rebate aqui ao lado o Nilson Pasquinelli, diagramador do Estadão, 100% de sangue verde nas veias. “Por quê?”, pergunto. “Porque chamou o Barcos!” Entendi… a bronca era pelo desfalque no Palmeiras. No fundo é a mesma coisa, mudou só a cor da camisa.
Tratei do tema em outras ocasiões. A seleção perdeu charme por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque raramente se apresenta em casa, uma vez que o mandachuva anterior da CBF a transformou em produto de exportação e os árabes a levaram. A imagem ficou muito atrelada à do ex-todo-poderoso (será?). Além disso, a maioria dos convocados atua fora do país; portanto, alheia à rotina e à adrenalina dos frequentadores de estádios brasileiros.
O grupo não encanta. Neymar, Oscar, Lucas, Thiago Silva, Damião têm potencial técnico. Nenhum deles, no entanto, ostenta larga folha de serviços prestados à pátria de chuteiras. Faltam-lhes títulos e rodagem – assim como ao próprio treinador. Daí os prognósticos moderados em torno do que os espera no Mundial de 2014. No momento, vejo futuro promissor para 2018, e não escrevo com ironia.
Mas justiça se faça: a bronca não deve concentrar-se em Mano e nos moços que têm à disposição; estão a cumprir o papel deles. O treinador exerce a função para a qual foi contratado e sabe que a fritura não cessou. Os boleiros vislumbram valorização profissional a cada nova convocação.
A culpa é da cartolagem egoísta e omissa. A CBF pouco se lixa para os torneios que organiza, ao não interrompê-los quando joga a seleção. Os clubes são cordeirinhos, que se calam diante do absurdo. E o torcedor sofre.
*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 7/9/2012.)
Tags: Coluna Antero Greco, Copa 2014, Leandro Damião, Lucas, Mano Menezes, Neymar, Oscar, Seleção Brasileira
Fora descer a lenha em bandeirinha que erra impedimentos por centímetros, tema que anda na moda por estas bandas é discutir se jogadores simulam faltas em excesso em qualquer dividida mais ríspida. Tite levantou a bandeira da moralidade, dias atrás, ao encasquetar com Neymar, em sua visão exímio acrobata nos choques com zagueiros. O treinador do Corinthians voltou à carga ontem, ao admitir que Paulo André deveria ter tomado cartão amarelo, no domingo, por rolar no chão com a mão no rosto, após encontrão normal com Luis Fabiano, no clássico com o São Paulo.
Ao criticar o zagueiro titular do time que comanda, Tite tratou de demonstrar em público que não age na base do dois pesos, duas medidas. Lembrou ainda que a regra é igual para todos. Com isso, eximiu-se da pecha de defender privilégios para seus rapazes. O próprio Paulo André, um dia antes, havia emitido nota em que reconhecia o exagero.
Atitudes bacanas de ambas as partes. Louvemos o fair-play, e que seja incentivado. Mas, vamos falar sério: era para tanto? Não. O teatrinho de Paulo André foi banal, inócuo e das coisas mais antigas do esporte bretão. (Sempre imaginei um dia usar essa expressão.) Até quando pelada de rua era sinônimo de bate-bola descontraído e não de protestos do grupo Femen, as manhas já faziam parte do jogo. “Foi falta! Não foi!”, “Foi mão na bola! Não, foi bola na mão!”, “Lateral nosso! Não foi!”, “Foi escanteio! Não, foi tiro de meta!”, “Pênalti em gol é gol!” Quantas vezes não ouvimos essas discussões? Atire a primeira pedra quem achar que é mentira.
A astúcia é uma das bases do futebol, a malícia jamais saiu de campo. São componentes lúdicos de uma atividade que nasceu como brincadeira de menino e que há séculos transforma homenzarrões em pirralhos, sejam profissionais ou amadores. Futebol sem picardia, sem discussão, sem lábia, sem polêmica, é qualquer coisa menos futebol.
Está na hora de frear a vigilância obsessiva em torno de atos banais que correm dentro de campo. Não dá para perder tempo com justiceiros, da mídia e das redes sociais, a clamar cartões, suspensões, quem sabe prisões, para boleiros que recorram a expedientes manjados e não ilícitos. Não se pode condenar ao fogo eterno quem comete pecados venais, se é que não esqueci das lições de catecismo do Liceu. A onda de cobranças beira a paranoia, sem contar a dose de hipocrisia mal disfarçada.
Não defendo salvo-conduto para o jogador que abusa dessa armadilhas. A repetição leva ao desgaste, à desmoralização no meio, com os árbitros, os treinadores, a crítica e a torcida. Deixa de ser prova de inteligência para virar demonstração de mau-caratismo. Gente assim se perde.
Bom combate, ao qual me alio, é contra o jogador violento e malvado, contra o técnico que manda bater nos rivais e que indica contratações por interesses escusos, contra o árbitro desonesto, contra o empresário sem escrúpulos, contra o cartola corrupto, que abusa da boa fé do torcedor para levar vantagem. Isso estraga o futebol, não o pecadilho eventual de um Paulo André, que só mostrou o quanto é humano e, portanto, falível.
*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 29/8/2012.)
Tags: Coluna Antero Greco, Neymar, Paulo André, Tite
Desde que Neymar voltou do longo período a serviço da seleção, o Santos jogou quatro vezes, ganhou três (todas no Brasileiro) e empatou com a Universidad de Chile pela Recopa Sul-Americana. Nessas partidas, houve um ponto em comum: Neymar esteve em campo. Coincidência o acúmulo de bons resultados? De jeito nenhum. O rapaz fez a diferença e tem gente que diz que ele não resolve…
O Santos se transforma com a presença de Neymar. E vice-versa. Com a camisa de casa ele fica à vontade, leve, se sente solto, atrevido e criativo. Foi assim diante do Figueirense (3 a 1), horas depois de chegar de Estocolmo. A mesma coisa no clássico com o Corinthians (3 a 2) no final de sema passado e o fenômeno se repetiu agora há pouco, nos 2 a 1 diante do Palmeiras.
Neymar comandou a virada sobre o rival, com os dois gols: o primeiro em magistral cobrança de falta aos 44 minutos, quatro depois de belo gol de Correa. O segundo veio aos 176 da etapa final, em chute rasteiro, maroto, de fora da área. A bola saiu fraca, mas bem no canto direito de Bruno, que caiu em câmera lenta. A danadinha ainda beijou a trave antes de entrar.
Dois momentos, dois lances, o suficiente para desatar um nó que parecia apertado. Na primeira parte do clássico disputado no Pacaembu, com bom público (mais de 21 mil pagantes), o Palmeiras foi melhor. Mesmo com um time inteiro de desfalques, a turma de Felipão encarou o Santos, pressionou, teve mais posse de bola, rondou muito a área.
O Santos teve dificuldade para armar-se, porque a marcação palmeirense no meio-campo era eficiente. E porque, mais uma vez, Ganso esteve aéreo, participou pouco; foram raros, os passes longos e precisos. Ainda assim, participou do lance do gol de empate, ao sofrer a falta.
O meia ainda ouviu, antes do jogo, protesto de parte da torcida. Ficou até o fim, embora de novo não tenha apresentado desempenho marcante. Ganso irreconhecível, mesmo com a conversa de que pretende continuar no Santos. O futebol que mostrou diz o contrário.
O Palmeiras sentiu o baque dos dois gols de Neymar. Ao levar a virada, deu sinais de cansaço, de tensão, de preocupação com o futuro no Brasileiro. Apesar disso, insistiu na pressão, foi à frente e Felipão chegou a deixar em campo Obina, Betinho (depois saiu para entrar Vinicius), Barco e Valdivia. Uma penca de jogadores de frente, que criaram pelo menos duas ocasiões para empatar – na melhor delas, quase no fim do jogo, Rafael fez defesa difícil.
A sequência de vitórias leva o Santos a 26 pontos e aumenta suas pretensões no Brasileiro. O Palmeiras, com 16 pontos e 11 derrotas em 19 jogos, terminará o turno na zona de rebaixamento. No domingo, será superado por Bahia (16) ou por Atlético-GO (15), que se enfrentam. Triste situação, no dia em que comemora 98 anos de existência.
Tags: Campeonato Brasileiro, Felipão, Ganso, Neymar, Palmeiras, Santos
Não é de anteontem que acompanho futebol, como torcedor e profissional. Já vi muita novela entre jogador e o respectivo clube, algumas até rocambolescas e com final espetacular. Mas essa de Santos x Ganso é das mais arrastadas, enfadonhas e desgastantes.
O roteiro em essência é o mesmo desde o início: o jogador aparentemente está insatisfeito, por se considerar pouco valorizado. Mas também não deixa claro como deseja ver recompensado seu talento. O clube insiste em dizer que o tem em alta conta e que tem pronto plano de carreira, se não igual pelo menos semelhante ao do Neymar. E, a correr por fora, está o “vilão”, na figura do investidor que a todo custo quer fazer dinheiro com o jogador.
Há quanto tempo você segue essa ladainha? Quantas vezes Ganso esteve com um pé fora da Vila? Ele já foi para Inter, Milan, Inter de Porto Alegre, Corinthians e, nos últimos dias, São Paulo. No meio do noticiário que o leva para cá e para lá, não faltam desmentidos e respostas iradas do Santos nem promessas do rapaz de que pretende cumprir contrato. A poeira assenta por um breve período até levantar de novo. E os capítulos se repetem…
A quem interessa isso? Ao Santos certamente não. Não compensa para um clube segurar um jogador importante, porém insatisfeito. A perda é grande, tanto do ponto de vista técnico como financeiro. O time se ressente com a queda de desempenho daquele que deveria ser o regente do meio-campo. O passe (ou direitos econômicos) cai.
Para o atleta esse tipo de situação é desgastante. Fica com imagem arranhada perante a torcida, que com o tempo o vê como mal-agradecido, mercenário e coisas do gênero. E, salvo engano, Ganso não é nada disso.
Mas a forma como as pendências são conduzidas por ele e por quem o assessora reforça esse estereótipo e não o valoriza. Até da seleção foi afastado, para que possa decidir o rumo que a carreira vai tomar. E faz algum tempo que o futebol dele não sobressai no Santos, que logo mais enfrenta o Palmeiras.
Quem pode levar vantagem, então? Aqueles que farão dinheiro com sua transferência e, claro, eventual interessado que conseguir dobrar o Santos. O São Paulo esteve perto disso; só não se deu bem, porque Luis Álvaro considerou muito baixa a oferta, ao perceber que era um comprador interessado em pagar barato por um produto em “crise”.
Esse tipo de conflito não é inédito no futebol, e cedo ou tarde será resolvido, porque envolve dinheiro e relacionamento profissional. Não me surpreenderei se o desfecho for a saída de Ganso, com a torcida a voltar-lhe as costas. Mas será preciso chegar a esse ponto?
O caradurismo não sai de moda, é das atitudes mais perenes do homem. No futebol, o cinismo surgiu com o craque, o drible, o gol, o cartola e os erros do juiz. Uma combinação que se torna deliciosa, se vier seguida de intermináveis discussões, das que não resolvem nada e nas quais ninguém abre mão de convicções. É o fascínio do joguinho de bola.
Tite e Neymar mantiveram fervilhantes o gosto pela polêmica estéril e o culto da cara de pau. O técnico desceu a lenha no astro, após o clássico, ao criticá-lo pelas quedas cinematográficas a cada esbarrão e pelos pontapés traiçoeiros que estaria a desferir nos marcadores.
Tite fez pausas longas entre as frases, abaixou a voz, fixou o olhar nos interlocutores, assumiu pose de orador pronto a emitir uma sentença que abalaria o mundo para decretar que o moço é dissimulado, exemplo nefasto, pois sua atitude manhosa induz árbitro e público ao erro. No dia seguinte, Neymar foi curto e grosso, ao responder que dorme tranquilo e sossegado. Um anjinho mimoso.
Ambos desempenharam o papel de finórios, se comportaram como fariseus, como definiria Toninho Cazzeguai, o maior filósofo de boteco nascido no Bom Retiro. E não há condenação moral, que não estou aqui pra desancar ninguém; já perdi a conta de quantas vezes vi esse bafafá no futebol. É até divertido.
Tite se aborreceu com a encenação de Neymar, e está correto. O rapaz leva muita piaba, em três anos de carreira já apanhou mais do que muito veterano canela de vidro que tem por aí. Mas há momentos em que dá piruetas com maestria maior do que o Diego Hypolito, faturaria fácil medalha de ouro em qualquer olimpíada de presepadas. Com o amadurecimento aprenderá a dosar o faz de conta e a recorrer a esses expedientes com parcimônia – todo craque vez ou outra apela para artimanhas.
Só pra refrescar a memória, você lembra da “mano de Diós” de Maradona, contra a Inglaterra, na Copa de 1986? E de Pelé a enganchar-se em um zagueiro, dentro da área, cair no chão e ganhar pênalti? Waldemar Carabina, vigoroso xerife palmeirense dos anos 1960, foi vítima do Rei em episódio de tal quilate. Os dois camisas 10 não agiram corretamente, concordo e assino embaixo. Nem por isso foram encarados como nefastos ou deixaram de ser cultuados como semideuses dos gramados.
Volto ao Tite e respectiva bronca. Correto lutar contra a falta de fair-play. Mas o que pensa de Jorge Henrique, um dos mais matreiros boleiros destas bandas? O Macunaíma do Parque São Jorge se esparrama pelo chão, rola dez metros, esperneia como cabrito estouvado a cada tranco. Em suma, é um canastrão e não vi repreensão pública do professor. A torcida ri e o aplaude. Emerson Sheik mordiscou a mão de um argentino, na final da Libertadores, e saiu de campo como herói.
Ou seja, pedem-se lisura e bom-mocismo quando o calo aperta. E se faz vista grossa, se nos beneficiamos. Ética não pode ter meio-termo, nem adaptação: é ou não é. E não há ética distinta para o esportista, o médico, o verdureiro. É una e sacrossanta.
Aplaudirei de pé o técnico que numa final tirar o jogador mais casca-grossa, por não concordar com as traquinagens dele, ou que contestar um juiz por marcar um pênalti inexistente a favor de seu time ou anular um gol legítimo do rival. Esse treinador corajoso estaria a empunhar, de fato, a bandeira da moralidade. Enquanto isso não acontecer, prefiro encarar o lamento de Tite como parte do jogo de cena que dá sabor ao futebol. E ouso parafraseá-lo: “Fala muuuuito!”
*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, dia 22/8/2012.)
Tags: Campeonato Brasileiro, Coluna Antero Greco, Copa de 86, Maradona, Neymar, Pelé, Tite
Havia preocupação a respeito do desempenho de Neymar, cansado com o longo tempo que ficou a serviço da seleção. No meio da semana, pouco mais de 24 horas depois do amistoso com a Suécia, ele foi decisivo para o Santos ganhar do Figueirense por 3 a 1. Neste domingo, voltou a desequilibrar, nos 3 a 2 movimentados do clássico com o Corinthians.
O jogo na Vila foi muito bom, sinal de que os times agora começam a se ligar de fato no Brasileiro (algo que Atlético-MG, Flu e Vasco fazem há mais tempo). Marcação no meio-campo, velocidade em contragolpes caracterizaram a postura dos alvinegros, que se reencontravam dois meses depois da semifinal da Taça Libertadores.
Um pouco melhor o Corinthians, que teve duas jogadas de perigo com Romarinho, até ficar em vantagem com gol de cabeça de Danilo, em cobrança de falta de Douglas. A resposta do Santos veio antes do intervalo, e com jogada construída por Neymar, que arrancou pela direita, abriu a defesa adversária e deixou para André apenas o trabalho de empurrar para o gol.
Neymar começou a jogada da virada, no início da etapa final, em cobrança de falta. Na sequência, houve três impedimentos, solenemente ignorados pela arbitragem, até André encostar na bola e fazer 2 a 1. O jogo pegou fogo com aquele lance – e André esteve perto de definir o placar, ao desviar de cabeça cruzamento da esquerda feito por Neymar.
O Corinthians incomodou menos Rafael, mas ainda assim chegou ao empate com o argentino Martinez, aos 35 minutos, numa boa conclusão do bico esquerdo da grande área. O que poderia representar o placar final caiu por terra aos 38: Neymar bateu escanteio e a bola foi parar na cabeça de Bruno Rodrigo, para fechar a conta.
Neymar desequilibrou, para sorte dos santistas e para quem gosta de bom futebol. Mas, claro, sempre haverá quem o considere apenas firulento. Azar, pois perde chance de curtir momentos interessantes e faz aumentar a dor de cotovelo.
Tags: André, Campeonato Brasileiro, Corinthians, Neymar, Santos
Há jogadores que são notícia em tudo que fazem – para o bem ou para o mal. Neymar encaixa-se nesse perfil. O jovem astro santista sobressai por qualquer motivo: contrato novo, uma exibição de gala, corte de cabelo diferente, uma atuação decepcionante, a compra de iate, publicidade no ar a cada semana, um drible a mais, um gol a menos, a discussão com um técnico, uma viagem de jatinho, a convocação para a seleção e assim por diante. Em geral, sem meios-termos: ou agrada ou é espinafrado.
A semana que passou referenda a tese. Na véspera do encerramento dos Jogos de Londres, levou bordoada a torto e a direito pela derrota para o México e consequente perda da medalha de ouro. O time de Mano Menezes – treinador aí incluído – decepcionou, jogou aquém do que o torcedor desejava e mais uma vez viu bater na trave a glória olímpica. Desatenção coletiva, com uma falha inicial de Rafael. Mas o alvo preferido para descer a lenha foi Neymar.
Naquela tarde em Wembley voltaram as críticas: é mimado, produto de mídia, amarelão, folgado, jamais será Messi, some quando topa com marcação cerrada, prende demais a bola, só serve para jogar o Paulistinha, enganador. Deixo à margem dessa lista as expressões mais depreciativas, que destoam da elegância do Estadão. Ou seja, nada que fuja demais de outros episódios de derrota, seja da seleção, seja do próprio Santos. Perdeu, o culpado é Neymar. Fica fácil.
No meio da semana, vestiu a amarelinha (no caso, uma azulzinha) no amistoso com a Suécia. Teve desempenho aceitável, em Estocolmo, e foi do vestiário direto para o aeroporto local. Num jatinho, voou 14 horas até Florianópolis, onde na quinta à noite a equipe dele enfrentou o Figueirense pelo Campeonato Brasileiro. Neymar jogou, perdeu gol, fez um bem bonito, cavou expulsão de um adversário e ainda deu um presentão para Ganso fechar a conta de 3 a 1.
Mereceu elogios, com senões e uma polêmica. A desenvoltura com que voltou a vestir a camisa alvinegra não se deu porque se sentia bem e feliz, mas por ter enfrentado um rival frágil, que está na zona de rebaixamento, que não faz mal a ninguém, galinha morta e etc etc. E desencadeou uma série de reprimendas ao Santos por tê-lo exposto a desgaste ao colocá-lo em campo menos de um dia depois de jogar na Europa.
Também acho que o sensato seria deixá-lo dormir sossegado na Suécia, voltar com os demais companheiros, relaxar e partir para a luta hoje, no clássico com o Corinthians. Expurgar o jet leg, desintoxicar pelo período longo fora de casa, rever amigos, jogar conversa fora. Porém, concordo com Muricy, que não via sentido ignorar o rapaz, após a peripécia para chegar em tempo. Aí seria rematada palhaçada.
Neymar é muito jovem, e em breve espaço de carreira acumulou o que a maioria dos mortais não consegue na vida toda. Por méritos. só que provoca inveja, nem sempre percebida, jamais admitida. Inveja é desagradável, mas sentimento muito humano. Sem contar que desfila visual fora dos padrões convencionais, não teve berço de ouro, apresenta reações típicas de sua faixa etária. Mas é celebridade, aparece na tevê, no rádio, frequenta rodas exclusivas – e muitas o recebem por ter fama e dinheiro.
No campo, virou prima-dona da noite pro dia. Sorte dele, por um lado; azar, de outro. Como não temos por aqui craques maduros em ponto de bala, Neymar queimou etapas e virou a salvação da lavoura nacional. Pode vir a ser, ainda não é. Aposto na ação do tempo e em cobranças adequadas.
*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 19/8/2012.)
Tags: Coluna Antero Greco, Neymar, Santos, Seleção Brasileira
Neymar deu meia volta ao mundo em um jatinho, após o amistoso da seleção com a Suécia. Chegou a Santa Catarina na manhã da quinta-feira, descansou, jogou, marcou, provocou expulsão, deu assistência e foi decisivo na vitória do Santos por 3 a 1 sobre o Figueirense, pela antepenúltima rodada do Brasileiro. Em resumo, desequilibrou, para alívio de sua equipe.
Neymar andava com saudade da camisa branca (ou azul?) do Santos. Nas 16 partidas anteriores pela Série A, havia participado de apenas 3. Não por coincidência, a ausência dele ocorreu numa fase desastrosa para o time, que se afundou na tabela e tenta sair da zona do rebaixamento e ser promovido para aquela do lusco-fusco.
Mas despontou todo serelepe para pegar o Figueirense. Aparentemente, sem sentir diferença de fuso horário, desgaste excessivo ou o jet lag. Foi o melhor em campo, a referência santista em campo, o articulador das principais jogadas. Até perdeu gol feito, no primeiro tempo, ao receber passe de Ganso na marca do pênalti. Chance que não costuma desperdiçar.
Compensou com deslocamentos, dribles, passes, o belo gol de empate na etapa final, a falta forte que levou de Túlio que resultou em vermelho e o presente para o compadre Ganso fechar o placar. Mostrou o quanto é importante para a equipe que paga os tubos para mantê-lo no Brasil. Foi um Neymar solto, que se viu em raros momentos nos Jogos Olímpicos.
Pior para o Figueirense, que se animou com a vantagem, no gol de Fernandes, no início do segundo tempo, e depois sucumbiu às travessuras do camisa 11 do Santos. Com 11 pontos, não consegue espantar o fantasma do descenso. Ainda se escora na arrancada do ano passado, quando esteve perto de disputar a Libertadores. Só que, na temporada atual, não demonstra equilíbrio suficiente nem para sair do sufoco.
Tags: Campeonato Brasileiro, Figueirense, Ganso, Neymar, Santos, Seleção Brasileira
Há quem se esforce muito para colocar panos quentes na seleção brasileira. Para essa parcela da crítica (e da torcida), as oscilações, as frustrações causadas pela equipe têm menos peso do que eventuais sucessos. Parece que o time nacional obrigatoriamente precisa ser elogiado; caso contrário, se trata de um gesto de antipatriotismo.
Mas me nego a remar nessa maré. Por isso, reafirmo que o Brasil não tem jogado bem, e não é de hoje. Desde os tempos de Dunga, para ficar na história mais recente, a maioria das apresentações da “amarelinha” tem sido aborrecida, chata, enfadonha. Com raros momentos de brilho. Foi assim com o treinador que saiu de cena após a derrota para a Holanda no Mundial de 2010, tem sido dessa maneira com Mano Menezes.
Outra prova de que a seleção não anima veio na tarde desta quarta-feira (horário de Brasília), no amistoso com a Suécia, em Estocolmo, no adeus ao Rasunda, estádio em que se iniciou, em 1958, a saga dos cinco títulos mundiais. Mano e seus rapazes voltam para casa com vitória por 3 a 0, e certos de que, com isso, diminuiu o peso da decepção provocada pela final olímpica.
Só que trazem na bagagem outro resultado ilusório. Não foi exibição exuberante, e até aí nada de diferente do que ocorreu em ocasiões anteriores. O máximo que se pode considerar é que baixa um tanto a poeira – e há dúvidas até a esse respeito. O Brasil ganhou de uma Suécia diferente daquela que disputou a Eurocopa e ainda desfalcada de Ibrahimovic, seu principal jogador. Bateu um adversário que mal deu um chute a gol.
É possível alegar que os jogadores estavam cansados, depois do período que passaram em Londres. Concordo e escrevi a respeito. Tratava-se mesmo de um jogo inoportuno. Com medalha de ouro ou sem ela, esse grupo deveria ter dispersado, para retomar fôlego. No entanto, foi a campo, com algumas novidades, e jogou para desemcumbir-se de uma tarefa. Nada além disso.
E assim foi a partida – com o Brasil a buscar oportunidades em ritmo cadenciado, nada empolgante. Elas surgiram no primeiro tempo – na melhor Leandro Damião fez 1 a 0 e o árbitro anulou um gol legítimo de Neymar. No final, vieram os outros dois, com Alexandre Pato, quase em cima da hora (o último, de pênalti duvidoso).
Houve pontos positivos? Sim. Neymar foi o destaque do jogo, e dessa vez movimentou-se por todos os lados do ataque. Ramirez e Paulinho deram mais estabilidade ao meio-campo, Daniel Alves foi melhor do que Rafael. E David Luiz entendeu-se melhor com Thiago Silva do que havia feito Juan durante os Jogos.
Tabelas, jogadas de efeito, dribles ousados? Esqueça. Foi um feijão com arroz para cumprir compromisso comercial. Quem comemorou foi Mano, na esperança de que amenize a pressão que carrega. E, claro, festejaram os “pachecos” de sempre.
Tags: Alexandre Pato, Leandro Damião, Mano Menezes, Neymar, Seleção Brasileira
2013
2012
2011
2010