A caretice domina o futebol. Não demora, e tudo será proibido, porque sempre tem alguma coisa politicamente incorreta dentro ou fora de campo. É faixa de protesto de torcedor que não pode ser exibida na arquibancada, pois o juiz se sente ofendido. É jogador que não deve dar declaração polêmica, porque assim desrespeita o rival. Divididas são reprimidas com cartão, de preferência o vermelho, como aconteceu com Neymar, em Porto Alegre. E, absurdo maior, é autor de gol que não pode comemorar com a torcida, por infringir o regulamento.
Este último pecado é dos mais frequentes e se repetiu no Pacaembu, ontem à tarde, nos 3 a 0 do Corinthians sobre o Sport. Paulinho fez o primeiro gol, no começo da etapa final, e na sequência se dependurou no alambrado para festejar. Subiu, dedicou o lance para alguém, desceu, foi abraçado pelos companheiros e voltou para o gramado.
Como reagiu sua senhoria Jean Pierre Gonçalves Lima? Mostrou o amarelo, pois o rapaz descumprira a regra. Está escrito que não se pode chegar perto do público para vibrar, assim como não é permitido levantar ou tirar a camisa. Só se pode no máximo fazer alguma dancinha, uma coreografia qualquer, mesmo ridícula, e receber os cumprimentos dos colegas, dentro dos limites do área de jogo. Ou, concessão suprema, abraçar a turma do banco de reservas. Comportem-se, diz o conselho de sábios da International Board que elabora as regras do jogo. Sejam comedidos, rapazes!
O furor justicialista prevaleceu no momento sublime do futebol e num gesto singelo, quando Paulinho homenageava amigo, parente, a mãe, a namorada, sei lá. Sei que foi bonito, nada espalhafatoso, nem desrespeitoso. Paulinho é dos jogadores mais discretos que há por aí.
A comemoração não demorou, sequer emperrou o jogo. Paulinho, na explosão de contentamento, recebeu punição semelhante a uma botinada dele que resultasse em fratura na perna de um adversário. Não há meio-termo ou bom senso. O árbitro, frio, não interpreta, não pondera; só aplica a regra.
É preciso acabar com essa distorção. Não se pode punir jogador que apenas tentou compartilhar gol com os fãs. Não houve humilhação, muito menos provocação, nem de longe aquilo soou como cera. Só sincera felicidade. Os mais velhos curtiram estripulias de César Maluco nos anos 1970, que chacoalhava os gradis e se jogava nos braços do povo. Quantas vezes Viola não fez algo parecido? Ronaldo, ao marcar o primeiro gol pelo Corinthians, derrubou alambrado em Presidente Prudente e ganhou placa.
Neymar expulso. Outra cruzada estapafúrdia se revela na distribuição de cartões, sob a alegação de que se pretende coibir a violência. Ótimo, jogo desleal deve cair fora. Mas há exagero: muitos esbarrões ou empurrões seculares no futebol ganham peso de crimes hediondos. Às vezes, o sangue ferve, como na troca de pontapés e no pisão de Neymar em Pará. O mediador, no lugar de chamar os jogadores e conversar, já distribui vermelho. Como se dessa forma mostrasse pulso e autoridade. Faria melhor se captasse a adrenalina da jogada. Perceberia, então, que o lance morreu no ato, pois ambos, amigos antigos, se deram as mãos.
Em Curitiba. Mas essas trapalhadas viram café pequeno diante do comportamento estarrecedor de um grupo de torcedores do Coritiba. Um bando de covardes pressionou e ameaçou agredir um homem e a filha, no Couto Pereira, porque a garota cometeu o erro de ganhar uma camisa de Lucas, após o jogo com o São Paulo. Detalhe: a mocinha tem 12 anos de idade. É o fim.
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Há ocasiões em que a gente come algum alimento que não cai bem. Você sabe como é, aquela coisa que pesa no estômago, incomoda, tira o bom humor e exige um sal de frutas. O mesmo ocorre em determinadas situações ou com certos acontecimentos. A mais recente convocação da seleção, por exemplo, continua difícil de digerir, mesmo três dias após a divulgação oficial. Está entalada.
Prova de desconforto foi dada por Muricy Ramalho. O técnico do Santos lamentou a enésima chamada de Neymar, na atual temporada, para juntar-se à tropa da amarelinha de Mano Menezes. Interpretou com ironia a explicação do colega – e que herdou o cargo para o qual havia sido convidado primeiro –, segundo a qual houve preocupação de tirar só um jogador de cada clube que cedeu talentos para os amistosos com Iraque e Japão em outubro. “No nosso caso, é desfalque de 50%”, disse Muricy.
Coberto de razão. Neymar hoje é meio time do Santos, senão mais. Não sou fanático por números e estatísticas, porém em alguns casos eles explicam melhor do que dezenas de frases e arrazoados. Com o “11” em campo, o aproveitamento da equipe passa dos 70%. Ou seja, índice de campeão ou de quem briga por fazer papel bonito nas competições de que participa. Sem o ídolo, cai para 25%, referência pífia, desempenho de timeco que luta para não cair.
Não vale dizer que o abismo se deve à enorme dependência do Santos em relação à estrela maior. Trata-se de meia-verdade. Mesmo que fosse verdade inteira, é assunto particular, de interesse apenas da turma da Vila. Cada um usufrui de seus recursos da maneira que lhe aprouver, sobretudo no nosso futebol, em que não são muitos os foras de série por elenco. Ao contrário, são raros e caros. Então, sorte do Santos por ter sob contrato um jovem com a capacidade de Neymar. Por isso, tem direito total de contar com ele sempre que necessário.
É inversão de valores, distorção argumentar que a prioridade está na seleção, por causa de Olimpíada, Copa das Confederações, Mundial e o blablabá de costume. Conversa fiada, pra boi dormir. Sempre haverá uma justificativa para tirar atletas das equipes – e, em geral, sem ligar a mínima para protestos dos treinadores, vozes isoladas nesse meio. Ou quase. Agora, o Santos ensaia espernear e ousa pedir adiamento de jogos contra Vasco e Atlético-MG, sob a alegação de que se enfraquece sem Neymar.
Para ficar claro: tomo o Santos como parâmetro, por ter sido o único a manifestar-se neste momento. O direito à reclamação cabe a São Paulo, Atlético-MG, Vasco, Flu – a todos os que deverão disputar mancos duas rodadas da fase mais quente do Brasileiro.
O que mais embrulha a digestão moral é o fato de se cometer violência contra os times por motivo fútil. Os jogos contra iraquianos e japoneses não valem nada em termos de preparação para 2014. Não passam de compromissos previstos no acordo assinado com a empresa que comprou os direitos de negociar apresentações da seleção pelo mundo.
Mano sabe disso, mas desconversa, fala em observações. Normal a retração, pois ele é parte da engrenagem. Se fosse para testar a escalação que vislumbra como ideal, bateria o pé, convenceria os colegas, chamaria os que considera imprescindíveis, mesmo que fossem seis de um time só! Daí, a gente entenderia, porque de fato prevaleceria o desafio principal, o de entrosar o grupo para o Mundial.
Como foi feito, soa como paliativo. Ganham-se cobres e se perdem chances de formatar a seleção real. Pena.
*(Minha crônica publicada em parte da edição do Estado de hoje, domingo, 30/9/2012.)
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Caro leitor, bom dia. Você é viciado em notícia. Não há como negar, as evidências são indesmentíveis. Caso contrário, não estaria a navegar a esta hora, no ócio do fim de semana. Não se preocupe, pois esse é costume saudável e imprescindível. Também o cultivo há décadas, com a agravante de que vivo disso desde os 19 anos, quando era cabeludo, barbudo e magricela.
Consumir notícias de esporte, então, é hábito que nos fisga antes mesmo de aprendermos o bê-á-bá. Mas, não sei se já se deu conta, há informações que se repetem tanto, e com tal regularidade, que temos a impressão de que são as mesmas. Parecem erros de impressão ou preguiça do jornalista. Não são.
Veja esta. Luis Rosan, competente fisioterapeuta, agora cuida de Ganso, a mais recente contratação do São Paulo. E que não custou baratinho. Pois bem. Depois de avaliar o jovem talento, constatou que a contusão sofrida na coxa esquerda, em 29 de agosto, ainda no Santos, tem extensão maior do que se imaginava. A recuperação, em princípio prevista para quatro semanas, não tem data certa para concretizar-se. Conclusão: a estreia pode ocorrer só em 2013. Ganso fora de combate lhe soa novidade?
Adriano continua a treinar com afinco, no Flamengo, casa para a qual retornou, após o fiasco no Corinthians. Ao assinar contrato, um mês atrás, se previa a reaparição para os primeiros dias de outubro. O prazo foi esticado pelos especialistas que o seguem de perto, por precaução e para que esteja no auge da forma. Pediram mais um mês. Já leu algo semelhante em outra ocasião?
Quase esquecia de outra do São Paulo. Luis Fabiano desfalca a equipe neste final de semana e salta o jogo da quarta-feira contra a Argentina. O motivo? Não está curado de estiramento na coxa esquerda, afetada na primeira parte do tal de superduelo com os hermanos no dia 19, em Goiânia. O que lhe parece?
Uma semana atrás, PMs resolveram parar um ônibus da Gaviões da Fiel, em Barra do Piraí, e dar uma conferida no que transportava. Além do grupo de 45 empolgados rapazes que iam para o Rio ver o Corinthians jogar com o Botafogo, acharam barras de ferro, pedras, pedaços de pau.
Material inapropriado para apoiar a equipe, claro. Razão pela qual os moços foram para a delegacia. O Ministério Público os proibiu de pisar em terras fluminenses paramentados com os símbolos da agremiação. Passou-lhe pela cabeça de ter lido por aí algo do gênero?
Mano Menezes chamou um punhado de jogadores para portentosas pelejas contra Iraque e Japão, dentro de alguns dias, em campos europeus. Neymar faz parte do elenco – e neste ano desfalcou o Santos até mais do que Valdivia ficou fora do Palmeiras! Alguma surpresa na convocação do astro e na qualidade dos adversários?
A Mercedes anunciou Lewis Hamilton como piloto para 2013, o que significa portas abertas para a saída de Michael Schumacher. O alemão heptacampeão do mundo diz que pensa em aposentar-se de fato. De novo?!
Por falar em repetição: Carlos Nuzman é candidato a outra reeleição no Comitê Olímpico Brasileiro. É a quarta ou quinta, sei lá. Se se mantiver no cargo até 2016, serão 21 anos de poder! Isso é que é democracia.
Não que sirva de consolo, mas você não fica com impressão de repeteco ao deparar-se com notícias sobre escândalos políticos, corrupção, crises internacionais, futilidades com celebridades? Eu também. Mesmo assim, ler notícias é bom demais.
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Jogo que vale taça sempre merece comemoração. Para não quebrar a tradição, que vale de simples torneios colegiais até Copa do Mundo, os jogadores e a torcida do Santos festejaram, na noite desta quarta-feira, a conquista da Recopa Sul-Americana. O troféu vai para a Vila Belmiro, após a vitória por 2 a 0 sobre a Universidad de Chile, gols de Neymar e Bruno Rodrigo.
O horário do jogo foi um tanto insólito – começou às sete da noite, bem no meio do rush paulistano e num dia frio demais. Uma dessas medidas para satisfazer grades de programação. Mesmo assim, foi bom o público que esteve no Pacaembu e que viu Neymar e sua turma passaram pelos chilenos sem muita dificuldade, depois do 0 a 0 na ida, em Santiago.
Muricy Ramalho colocou o melhor que tinha à disposição e deu atenção especial à marcação. O Santos precisava de vitória simples e o ideal era não cometer erros. O desempenho ficou dentro do previsto, com o time chileno bem vigiado e sem provocar maiores sustos.
A tranquilidade brasileira aumentou com o gol de Neymar aos 27 do primeiro tempo, numa jogada que contou ainda com a participação de Felipe Anderson e André. A folga poderia ser ainda maior, se Neymar não batesse mal pênalti que sofreu (aos 45 minutos), para defesa do goleiro Johnny Herrera. Mas La U foi assustada para o intervalo.
O golpe de misericórdia veio aos 15 da etapa final, com o gol de Bruno Rodrigo. A equipe chilena jogou a toalha e percebeu que não conseguiria diminuir, quanto menos chegar ao empate. Jogadores correram, tomaram alguns amarelos e ficou por isso mesmo.
O Santos tem sua segunda recordação vitoriosa no ano do centenário. A primeira foi o tricampeonato paulista. Esperava voos mais altos, mas teve seus motivos para festa. Agora, lhe resta terminar de forma digna o Campeonato Brasileiro.
E resta agradecer a Neymar, mais uma vez decisivo. O rapaz tomou mesmo o controle do time, tanto que, após o jogo, ainda deu volta olímpica solitária, com o troféu e a curtir a alegria com os torcedores. É o símbolo maior do time, após a saída de Ganso.
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Falar que o Santos foi sem graça no jogo, na noite deste sábado, soa até como elogio. O tricampeão paulista, sem Ganso (já bateu asas) e sem Neymar (de repouso), foi insosso, ineficiente e presa relativamente fácil para a Lusa. Resultado do desequilíbrio? Derrota por 3 a 1. O nono tropeço da equipe de Muricy Ramalho, uma campanha sem nenhum brilho. A Lusa tem 32 e vê a sombra do rebaixamento a uma distância que lhe permite respirar. Acumula a saudável gordura que lhe permite ver a permanência na Série A como realidade.
O Santos teve 15 minutos razoáveis, suficientes para dois ataques mais perigoso. Depois, murchou, ressentiu-se das mudanças por que tem passado nos últimos tempos. E, pra chover no molhado, acusou o golpe da ausência de Neymar. A dependência do jovem astro é acentuada, no que tem de bom (ele joga muito) e no que tem de ruim (os outros são médios).
A Lusa percebeu o momento desnorteado do rival, aos poucos cresceu, teve um gol anulado, mas começou a desfazer o nó aos 37 minutos, com gol de Bruno Mineiro, artilheiro no torneio, e aumentou a diferença aos 43, com Leo Silva. A superioridade se consolidou com Bruno Mineiro, aos 17 da etapa final. O gol de André serviu para amenizar o constrangimento.
O humor de Muricy tende a piorar, na mesma proporção do futebol instável do time. O Santos do ano do centenário terá de contentar-se com a festa no estadual e nada além disso. Mesmo a briga por vaga na Libertadores se torna cada vez mais improvável. Uma pena, pois a perspectiva era de um ano de festas e conquistas. Ficou apenas na efeméride centenária.
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Quem acompanha meu trabalho aqui no blog, no Estadão e na ESPN sabe das restrições que faço a determinados jogos da seleção brasileira. Considero o time nacional um dos maiores ícones do esporte mundial (por sua história e pelas conquistas) e me aborreço quando o vejo vulgarizado. Como no amistoso da semana passada contra a China. E, de certa forma, também neste Superclássico das Américas, em jogos contra a Argentina.
Não porque considero menor o confronto com os vizinhos. Ao contrário, em inúmeras ocasiões afirmei que Brasil x Argentina é o maior clássico entre seleções, porque são as escolas que mais astros revelaram na história do jogo de bola. Por isso, tem de ser respeitado. E essas partidas estão longe de representar a tradição de qualidade e rivalidade das duas equipes.
Os times que entraram em campo, na noite desta quarta-feira, em Goiânia, não são os titulares, seja do Brasil, seja da Argentina. São formações experimentais, quebra-galhos, com jogadores chamados apenas para cumprir compromissos comerciais das duas Confederações. Muitos dos que Mano Menezes e Alejandro Sabella chamaram não estarão em jogos de Eliminatórias, na Copa das Confederações, no Mundial. Sequer em outros amistosos.
Então, por que engabelar o torcedor? Por que fazê-lo acreditar que se trata de jogo pra valer? Respeito os rapazes que jogaram; fizeram a parte deles com dignidade. Mas não compro a ideia de que estavam no Serra Dourada as equipes principais. Ora, Argentina sem Messi não passa de time genérico. Sem o maior do mundo escalado, fora os outros súditos, não é pra ser levada a sério. O Brasil estava praticamente sem a defesa titular.
O que se viu foi um treino – não houve nem conjunto, pois foram formações inéditas. O público que foi ao estádio comprou bilhetes caros e a certeza de que veria de fato um Superclássico. Não foi, a ponto de serem sido poucos os momentos de emoção nos 2 a 1 para o Brasil, que vieram com um gol de Paulinho em impedimento, no primeiro tempo (depois de os argentinos abrirem o placar com Martinez) e com um de Neymar de pênalti em cima da hora.
As vaias não foram por acaso. Ou vão dizer que havia só emergentes e gente que não entende nada de bola no tradicional campo goiano?
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Há certas declarações que, ao ouvi-las, devemos interpretar em tom ameno, como gozações. Caso contrário, ou seja, se as levarmos a sério, ou ficamos com raiva ou nos sentiremos otários. Ou os dois sentimentos negativos juntos, o que é mais comum.
É o caso de afirmação feita por Mano Menezes, nesta terça-feira, a respeito de Neymar. Alguém perguntou ao treinador se o astro santista não se desgastava com tantos compromissos com a seleção que o tiram do clube. No tom monocórdio em que se especializou, o professor disse que Neymar descansa na seleção.
E explicou: o jovem talento, nos momentos em que está a serviço da pátria de chuteiras, não se preocupa com atividades paralelas. Não tem a atenção desviada para nada além de treinos, concentração e jogos. Portanto, repousa, ao contrário do que se alardeia. E acrescentou que não abre mão do craque, por ser imprescindível em seu esquema.
Ora, a primeira parte da explicação parece verdade, mas não é. Trata-se apenas de um jogo de palavras, um sofisma – e cai nele quem quiser, por ingenuidade ou por interesse.
Mano dá um nó na lógica, na tentativa de convencer que seleção é mais importante do que clube. Nunca foi, não é agora, e cada vez o será menos. No máximo, é em alguns períodos bem específicos – me arriscaria a afirmar que, atualmente, só durante a Copa. Em amistosos e em tantas competições caça-níquel, se transformou em estorvo.
A base do futebol são os times. Eles atraem público fiel, eles mexem com a paixão, eles movimentam dinheiro, eles revelam e projetam jogadores a serem fisgados pelas seleções. Seleção não sobrevive sem a matéria-prima fornecida pelos times. Os times podem sobreviver, e muito bem, sem seleções.
É um despropósito o Santos recorrer a manhas, artimanhas e carambolas para segurar o jovem e vê-lo, na atual temporada, mais com a camisa da seleção do que “de casa”. Neymar disputou mais jogos pela seleção, recentemente, do que pelo Santos. Isso está errado. Ou estou vendo coisas?
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O Flamengo vive um ano repleto de equívocos – que teve alguns pontos de pico com a demissão dos técnicos Vanderlei Luxemburgo e Joel Santana, além do rompimento com Ronaldinho Gaúcho. Divergências políticas enfraquecem a diretoria e os reflexos aparecem dentro de campo. Como? Com o time a lidar com o fantasma do rebaixamento. Uma possibilidade não tão remota quanto se imaginava até rodadas atrás.
O Fla tem 27 pontos e, nas últimas seis apresentações, conquistou dois, com empates diante de Botafogo e Sport. Na sequência, só apanhou: para o Inter (4 a 1), para a Ponte (1 a 0), para o Coritiba (3 a 0) e agora para o Santos (2 a 0, na noite desta quarta-feira, na Vila Belmiro). No momento, ocupa a constrangedora 16.ª colocação, quatro a mais do que o Sport. Péssimo.
O time nem é tão ruim como os resultados levam a parecer. Ou pelo menos não é pior do que alguns concorrentes que estão à frente dele. Mas começam a aparecer sintomas de desespero – alguns semelhantes aos do Palmeiras, o penúltimo colocado. As jogadas de gol surgem, mas morrem em finalizações erradas, em bolas na trave, em defesas dos goleiros adversários. Daí, num momento ou dois de vacilos, vêm os gols que consolidam derrotas e a fase ruim.
Todos esses males estiveram presentes no clássico com o Santos. No primeiro tempo, o Flamengo teve oportunidades, com Vagner Love e Ibson, principalmente, e não as aproveitou. O mesmo ocorreu no segundo, com direito a bola na trave em chute de Love. O técnico Dorival Júnior mexeu, tratou de reforçar o meio-campo, e só viu a desorganização aumentar.
O auge veio poucos minutos antes do apito final. Victor Andrade, que entrara na etapa final, aos 40 minutos abriu o placar, numa bela conclusão. O lance desmontou o frágil estado de espírito rubro-negro. Victor ficou tão feliz que festejou tirando a camisa e levou amarelo. Sei, algo que está na regra, mas que é revoltante e uma punição com a qual jamais concordarei.
Na sequência, Neymar decretou o nocaute. Em dois minutos, ruiu mais uma vez uma equipe que tem mostrado futebol de segunda classe, de Segunda Divisão.
Fica à espera do messias conhecido como Adriano. O que mostra o tanto que está sem rumo.
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Não morro de amores por seleções faz muito tempo – nem por isso, me considero antipatriota. Minha nação futebolística será sempre o clube de berço, que a gente aprende a amar antes mesmo de falar ou de andar, e do qual não se separa jamais nesta visita pela terra. Ainda assim, gosto quando o Brasil joga bem, vence, conquista títulos. Não fico indiferente às vitórias nacionais e sinto orgulho dos cinco mundiais no currículo. A amarelinha viveu epopeias memoráveis.
Mas tem sido difícil apreciar a trajetória recente dela. Mano Menezes e sua turma conseguem empolgar apenas pachecos eternos, fãs eventuais (aqueles das grandes competições e que não acompanham o dia a dia dos times) ou interesseiros (pessoas que, de alguma forma, lucram com isso). O torcedor de fato, que almoça e janta o joguinho de bola, que devora as páginas de esporte e não perde uma mesa-redonda, está com os pés atrás. Esse anda irritado com a seleção e teme fiasco na Copa de 2014.
Com razão. Faz dois anos que se espera a reviravolta, após a decepção com a tropa de Dunga, e ela não dá o ar da graça. Ao contrário, à medida que avança o tempo, aumentam as dúvidas em torno do que nos espera como anfitriões da festa. É muito ponto de interrogação para pouco de exclamação, quando se vê essa rapaziada em ação e se ouvem as explicações monocórdias de Mano.
Até agora lamento as duas horas que perdi no meio do feriado para assistir a mais uma exibição medíocre. O amistoso com a África do Sul foi um engodo, uma enrolação. Em suma: uma tapeação, pra ficar na linguagem das antigas comadres do Bom Retiro. Pior pra quem botou a mão no bolso e pagou no mínimo 80 reais por cabeça pra ir ao Morumbi, fora gastos adicionais. O sujeito foi buscar divertimento e ficou fulo da vida.
Ainda por cima, Mano e os rapazes ficaram emburrados por causa das vaias. Ah, tenham dó! Diante de um time meia-boca, o Brasil jogou mal, de cabo a rabo, teve momentos de sufoco (o goleiro Diego Alves trabalhou bem), achou gol salvador com Hulk e os bonitões queriam sair sob chuva de pétalas de rosa? Descontados os espíritos de porco que assobiaram com dez minutos de jogo e foram só zoar, o resto exerceu o direito de manifestar desaprovação com o espetáculo. E o técnico, que mal saiu do banco, se quisesse ter preservado o grupo, não tirava Neymar seis minutos antes do final. Daquela forma, o empurrou para a fúria popular.
Esse negócio de “pra frente, Brasil” serve pra quem pretende engabelar o público e fingir que vai tudo bem no melhor dos mundos possíveis. Isso funcionará no Mundial; na época, o estímulo para a patriotada será insuportável, tempos de Brasil ame-o ou deixe-o. Credo! Por ora, há espaço para manifestações críticas – e foi o que fez o povo, apesar de certo exagero.
Mano precisa definir um sistema, apostar nele, nos homens que julga adequados para exercê-lo e tocar adiante, com convicção, mas sem obsessão. Não pode vacilar, como tem ocorrido desde muito antes da Olimpíada. Assim, só se desgasta, desperta raiva na torcida e dá argumentos para os que querem puxar-lhe o tapete.
E amanhã tem duelo contra a China que, alerta o professor, joga “bem mais fechada” do que a África do Sul. Tradução: tenham a santa paciência, pois deve ser outro jogo feio.
Alerta na Vila. O Santos pega o São Paulo com temor no ar: se perder de novo, o tricampeão paulista começa a temer a aproximação da turma de baixo na tabela do Brasileiro. Perigo!
*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 9/7/2012.)
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Você aproveitou a tarde sossegada do feriado de 7 de Setembro, ligou a tevê e buscou diversão em mais uma apresentação da seleção. Agora, diga lá, sem vacilar: valeu a pena? Animou-se? Não teve nem um lampejo de raiva ou bocejos incontroláveis? Terminado o espetáculo, com vitória por 1 a 0 da turma do Mano, ficou com a certeza de que o time está no caminho certo e que brilhará no Mundial de 2014?
Sei, são muitas perguntas e poucas as certezas. Eu abaixei o som da tevê, agora, pra batucar este comentário, e admito que minha cabeça está povoada de pontos de interrogação. A seleção não me tira o sono (porque me ligo mais no futebol dos clubes), mas gostaria de vê-la com futebol à altura da história que carrega.
É embaraçoso ver jovens talentosos vaiados (até com razão) e perdidos, por falta de definição tática, de controle e de inspiração. Pois esses pontos negativos sobressaíram na apresentação contra a apenas esforçada África do Sul, num Morumbi com bom e impaciente público. O Brasil teve uma de suas atuações mais monótonas dos últimos tempos. Monótona e confusa.
A proposta de Mano, de reunir Oscar, Neymar, Lucas e Damião, é interessante. Sempre é elogiável, quando um treinador opta por jogadores leves e ofensivos em vez de brutamontes. Com Daniel Alves e Marcelo, laterais que em suas equipes (Barcelona e Real) costumam descer, aumentava a perspectiva de esquema atrevido, para atormentar os adversários.
Mas, na prática, não funcionou. Assim como em jogos anteriores, a seleção ficou entre a boa intenção e o fiasco. Só não foi retumbante a derrapada porque Hulk, o jogador de 60 milhões de euros, entrou para salvar a cara do pessoal, no meio do segundo tempo, e fez o gol decisivo.
Na maior parte do tempo, o que se viu foi o Brasil impotente para superar uma razoável (e nada além disso) marcação sul-africana e a perder-se no meio-campo e na defesa. Apesar da falta de apetite para agredir, os Bafana-Bafana tiveram algumas oportunidades que exigiram presença segura de Diego Alves.
A torcida vaiou de forma generalizada, com alguma preferência por Neymar, o que considero exagero e talvez opção clubística. Mas poderia escolher à vontade jogadores para pegar no pé, porque quase todos (com exceção do goleiro) estiveram aquém do esperado e desejável.
Mano, que passou a maior parte do tempo protegido no banco de reservas, deu contribuição para as “feras”, ao tirar o santista seis minutos antes do final. Precisava? Pra quê? Se era pra preservar o grupo, que o mantivesse até o encerramento.
Esqueça o resultado, que isso só servirá para os tarados por estatísticas. No futuro, constará que em 7 de setembro de 2012 o Brasil ganhou da África do Sul por 1 a 0. Mas não estará escrito que, naquela data, ainda não tinha encontrado padrão para a Copa de 2014 e que jogou mal, muito mal. E, hoje, isso é o que preocupa.
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