Antero Greco - Estadao.com.br
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Há algum tempo escrevi que o Santos parecia sem rumo. A má impressão se reforçou com os acontecimentos recentes, da demissão de Muricy à transferência de Neymar para o Barcelona, passando pela acentuada queda de produção em campo. A equipe que duas temporadas atrás chamava a atenção por futebol bonito agora se desmancha.

O mais novo episódio a indicar que o clube saiu dos trilhos vem com a frustrada tentativa de contratar Marcelo Bielsa. O técnico argentino, com mais nome do que títulos, virou objeto de desejo santista como forma de iniciar a reconstrução e sobretudo como alternativa para acalmar os ânimos dos apreensivos torcedores.

Bielsa percebeu a tensão do Santos, pediu alto e teria exigido seis meses para assumir de fato o comando do time. Nesse período, atuaria mais como coordenador, manager ou algo similar e assim teria tempo de conhecer o grupo e o futebol brasileiro por dentro.

Do ponto de vista de Bielsa, estratégia adequada. Ele não entraria no barco sem saber como está o mar e com qual tripulação conta. Para o Santos, não serve, porque a necessidade é para agora. Não há essa folga para experiência nova, o que também não surpreende: nossos clubes raramente fazem planejamento de longo prazo.

O foco passaria a ser outro estrangeiro, o que pode resultar em mais um factoide ou negociação frustrada. Na verdade, o Santos precisa analisar por que se despedaçou em curto espaço de tempo. Foi atrevido ao segurar Neymar (que, agora se viu, estava no mínimo apalavrado com o Barça há quase dois anos), e isso merece elogio.

Mas, se o astro iria bater asas, como ocorreu, por que não tratou de cuidar bem da fase de transição? Por que esperou que a situação degringolasse? O Santos dormiu com o sonho de segurar por muito tempo ainda um craque e acordou com o pesadelo de estar sem padrão, sem qualidade, sem direção. E, pior, sem o astro.

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07.junho.2013 12:05:07

O projeto é uma ilusão*

As duas principais divisões do Campeonato Brasileiro ainda não engrenaram, como tradicionalmente ocorre até a virada de turno. Mas, nos bastidores – ou vestiários, como agora é moda falar -, já pegam fogo e repetem vícios comuns desde a época em que se amarrava cachorro com linguiça. O maior deles? Demissão de treinadores. Em quatro rodadas, a Série A custou o emprego de quatro, mesmo número dos dispensados na B. Isso porque os torneios estão mornos e haverá pausa de quase um mês na Copa das Confederações.

Trocar de técnico é fato rotineiro, e hoje em dia até os europeus aderiram à onda. Antes os professores criavam raízes nos times de lá; agora, caem com relativa regularidade. Nenhuma novidade, portanto. Mas, por aqui, continua vergonhosa a dança das cadeiras, pela velocidade e pela quantidade.

Bastam alguns solavancos e a cartolagem, ligeirinha, dá um pontapé nos fundilhos do chefe da tropa. E, com isso, chuta também o planejamento supostamente feito para a temporada. Aliás, não tem papo mais furado do que se referir a projeto. Para a maioria, a tal programação se limita a vitórias e ausência de conflito com torcida. Não aparecem? Então, até logo e passar bem ao treinador. Discurso vazio. Quando escuto dirigente usar essa palavrinha, na hora cai no meu conceito.

Nas dispensas na elite, a única compreensível, com ressalvas, é a de Muricy Ramalho. Ele ficou dois anos no Santos, ganhou uma Libertadores, dois Paulistas e a relação, com o tempo, desgastou-se. Desandou de vez com a final do Estadual de 2013 e com a largada ruim no Nacional. Os patrões entenderam que não era o sujeito adequado para comandar processo de renovação. Em todo caso, pode se dizer que cumpriu o ciclo. É, nestas bandas, um biênio equivale a período completo…

Os demais denotam amadorismo dos diabos. O primeiro a puxar a fila, dias atrás, foi Silas, dois meses incompletos no Náutico. Nem esquentou banco. Ontem, dois se viram obrigados a pegar o boné: Jorginho no Flamengo e Guto Ferreira na Ponte Preta. (Sem contar que Edson Pimenta parece ter subido no telhado na Lusa.)

O caso rubro-negro é um espanto: a nova diretoria mandou Dorival Júnior espairecer, sob a alegação de que custava muito. Chamou Jorginho, em março, com o argumento de que economizaria e teria um nome com forte ligação com o clube. Tiro n’água, pois o treinador não acertou o time; está verde, assim como os executivos que o convidaram. Agora, especula-se investida em Mano Menezes, que não pede pouco para voltar à ativa. Vai entender…

O tempo passa, torcida brasileira, e o profissionalismo vez ou outra dá as caras por aqui. Não é à toa que os talentos continuam a bater asas e migrar.

A grana do Neymar. Por falar em ir embora: legal essa história do Barcelona desmentir o próprio vice-presidente, que na segunda havia admitido o adiantamento de 10 milhões, em 2011, para garantir Neymar. O clube espanhol explicou que não é bem assim, o dinheiro está reservado, para depósito no momento adequado.

O que se reconhece é que o astro brasileiro estava cativado pela oferta, apenas dava prioridade ao Barça numa eventual negociação. Clube milionário é coisa fina: um alto mandatário pode fazer ligeira confusão com 10 milhõezinhos, como se fosse troco para um café.

Em Santos, tem gente que exige explicações da diretoria local. Por lei, não se pode acertar com um atleta com muito tempo de contrato a cumprir. Como era o caso do Neymar na época. Sabe no que vai dar?

Seleção muda. Leandro Damião se machucou e Felipão no ato convocou Jô para o amistoso com a França. Sinal de reconhecimento pela campanha do Atlético-MG em 2013. Por outro lado, fico a imaginar como anda a cabeça de Alexandre Pato. O moço voltou da Itália para ficar mais próximo da seleção e… e precisa botar o pé na fôrma logo.

*(Minha crônica no Estado de hoje,  sexta-feira, dia 7/6/2013.)

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Depois da derrota na semana passada, o torcedor do Santos tinha certeza de que a partida final do Campeonato Paulista teria desfecho feliz e significaria o tetra. Ficou só na vontade. O time foi um fiasco, não passou de empate por 1 a 1 e facilitou a missão do Corinthians, campeão estadual pela 27.ª vez. Um recorde local.

A maior parte do público alvinegro que foi à Vila Belmiro, na tarde deste domingo, saiu com a pulga atrás da orelha. Depois de ver o Santos ser presa fácil, ficou a cismar o que esperar no Brasileiro, principalmente se Neymar for embora. A equipe não é nem sombra daquela dos anos anteriores, mesmo que tenha chegado à final.

As trocas de passes rápidas, os dribles eficientes, as chances de gol andam em falta para o lado santista. E, para complicar mais, Neymar outra vez esteve aquém do que pode fazer. Sozinho, muitas vezes ele desequilibrou em favor do time. Mas, quando está mal, afunda com os demais. Como ocorreu no segundo duelo com o Corinthians.

Bem marcado, poucas vezes pegou na bola para construir lance de gol – e de gols o Santos precisava muito. Até ficou em vantagem, com a belíssima conclusão de Cícero. Porém, mal teve tempo para comemorar e sofreuo empate, com Danilo. E travou, engasgou, emperrou, afundou. Ainda no primeiro tempo, só não levou a virada porque duas bolas estouraram na trave.

No segundo, o panorama não mudou. O Santos teve uma oportunidade, com André, e nada mais. Nada mesmo que pudesse sequer arrancar aplausos da torcida. O Corinthians, com o ponto garantido, já faria a festa. Por isso, se permitiu esperar o adversário vir pra cima – o que não ocorreu. Embora, não precisasse foi quem esteve mais próximo do gol, e desperdiçou outras chances, com Romarinho e Pato.

O Santos precisa reciclar-se, e bem. Com esse grupo, e da forma com tem jogado, não permite prever sucesso na Série A. O Corinthians, sem ser brilhante, pelo menos deu um chega pra lá na frustração da eliminação na Libertadores e pode pensar em recompor-se para voltar à competição continental no ano que vem.

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O Santos pode agradecer ao céu, aos protetores e a todas as mamães. O sonho do tetra paulista esteve perto do fim, na tarde deste domingo, e ainda no primeiro tempo do duelo com o Corinthians. Neymar e companheiros não viram a cor da bola, flertaram com uma surra memorável e no final das contas devem se dar por satisfeitos com a derrota por apenas 2 a 1. Com isso, têm esperanças para o próximo domingo.

A primeira parte das quatro que compõem a decisão do estadual foi um passeio corintiano. Sem inventar, e com alguns deslocamentos de função, Tite conseguiu devolver ao time a consistência e a regularidade dos melhores momentos do ano passado. Ralf e Paulinho estiveram impecáveis na marcação, enquanto Romarinho, Danilo e Emerson fechavam espaços, ao mesmo em que encostavam em Guerrero.

O Santos ficou acuado e se ressentiu de desempenho apagado de Marcos Assunção e Miralles. Ambos pareciam nem ter entrado em campo. Como consequência, Neymar ficava isolado, escanteado na frente. Para sorte do Corinthians, que pressionou, teve muitos escanteios a favor, até chegar à vantagem, com Paulinho. Diferença que só não ficou maior antes do intervalo, porque Paulinho mandou uma bola no travessão.

A goleada se desenhou no primeiro tempo e fugiu no segundo. Muricy acordou, ao tirar os pesos mortos Assunção e Miralles, para colocar Felipe Anderson e André. A dupla tornou o time mais leve, o Santos reequilibrou o jogo e também deu trabalho para Cássio. Havia, enfim, uma partida e não só uma exibição unilateral.

O Corinthians ainda ampliou a vantagem, com Paulo André, se bem que tomava mais cuidado com a defesa. O Santos não perdeu o pé, diminuiu com Durval e recuperou a esperança de definir em casa. Mesmo com um Corinthians mais estável no momento, não se pode cravar que o troféu vá para o Parque São Jorge.

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Há no ar certa resistência ao futebol do Santos em 2013. O tricampeão paulista, de fato, não mostra o estilo leve, atrevido e criativo de outras temporadas. Já não se vê o brilho intenso de 2010, quando surgiu a Geração 3 dos Meninos da Vila. É uma equipe mais pesada, menos ágil e que às vezes demora para engrenar.

A turma de Muricy Ramalho pareceu travada na noite deste sábado. Poucos jogadores tiveram destaque e vários decepcionaram. Felipe Anderson, André, Montillo (que se machucou), Arouca, Cícero estiveram abaixo do esperado. Sobrou, novamente, para Neymar. O rapaz, mesmo sem dar espetáculo e um tanto abatido, fez a diferença. Apesar de tudo, dos pés dele é que saíram os toques e jogadas melhores.

Apesar do desempenho sem tempero, a eficiência santista sobressai, pelo menos no torneio doméstico. A vitória sobre o Mogi nos pênaltis (5 a 4), depois do empate por 1 a 1 no tempo normal, manteve a regularidade alvinegra. Pela quinta vez seguida chega à decisão – proeza a ser ressaltada, independentemente da qualidade da competição.

A gente alega que o Paulista decaiu, seguindo tendência dos demais estaduais. Fato. Mas não é fácil ter essa constância, sobretudo por aqui. Então, há méritos na campanha santista, que está a dois passos de alcançar inédito tetracampeonato desde que começou o profissionalismo. Para quem pensa apenas em Brasileiro, Libertadores e Mundial, isso pode parecer pouco – mas não é. Se a marca for alcançada, merece muita festa.

Mas foi duro para o Santos seguir na trilha do sucesso. A partida em Mogi Mirim se arrastou, teve poucos momentos emocionantes, ficou aquém do que se previa, para ambas as partes. Daniel e Rafael foram mais empenhados nos pênaltis do que nos 90 e tantos minutos. Os gols de Roni, no final do primeiro tempo, e Edu Dracena aos 31 minutos do segundo, quebraram o que tendia a ser uma semifinal monótona.

O Santos pode valer-se do desgaste do rival na final – seja São Paulo ou Corinthians. Porque os dois estão empenhados na Libertadores. O Tricolor define futuro no meio da semana, contra o Atlético-MG. Os campeões do mundo jogam só no dia 15 diante do Boca. Seja quem for, a decisão tende a ser equilibrada, sem favorito.

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A classificação do Santos para as semifinais do Campeonato Paulista foi lógica e sem discussão, mesmo ao vir nos pênaltis (4 a 2), já que o tempo normal terminou com empate de 1 a 1 com o Palmeiras. Com isso, a equipe continua no caminho do inédito tetra estadual. Mas Neymar e companheiros divertem menos do que um tempo atrás.

Acho que me acostumei mal com o Santos do início da Geração 3 dos Meninos da Vila. E não faz tanto assim que isso ocorreu ¬– começou em 2010 e prosseguiu em 2011. No ano passado, embora tenha chegado o tri, o time não empolgou. E era o Centenário.

Continua assim. O Santos joga certo, no limite, na “conta do chá” como se dizia na época da vovó. O futebol que não empolga e não decepciona prevaleceu no clássico deste sábado. O Palmeiras largou bem, teve chance com Leandro e numa defesa de Felipe. Parou ali e deu espaço para a turma de Muricy Ramalho reequilibrar.

O Santos teve mais troca de passes (e não posse de bola) no primeiro tempo, ficou em vantagem com o gol de Cícero, ao desviar para dentro chute de Neymar, e ainda obrigou Bruno a fazer duas defesas complicadas. O Palmeiras emperrou com o bando de volantes (Márcio Araújo, Léo Gago, Wesley, Charles) e sem ninguém para criar.

Gilson Kleina teve uma leve inspiração, no intervalo, e voltou com Kleber no lugar de Léo Gago. Foi o centroavante quem fez o gol de empate ¬– único e melhor momento alviverde na etapa final. O Santos, sem sair muito do ritmo, criou mais duas chances (que morreram nas defesas de Bruno) e não criou muito além disso.

Nos pênaltis, prevaleceram qualidade, tranquilidade e pontaria dos santistas. Além dos reflexos de Rafael, com duas defesas decisivas. O Santos segue, o Palmeiras cai.

Mogi. Empolgante, mesmo, foi o Mogi Mirim, que lascou 6 a 0 no Botafogo. Lembrou o Carrossel Caipira do começo dos anos 1990, que tinha Rivaldo como uma das referências. Vitória sem dar nenhum tipo de contestação para os rivais, que ainda tentaram provocar confusão após o apito final. O Mogi vai incomodar o Santos.

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21.abril.2013 12:39:35

Futebol é cachaça*

No meio da semana, o Santos jogou pela Copa do Brasil, se classificou e Muricy Ramalho deu as explicações de praxe. A entrevista ia na base do papo vem, papo vai, até que o técnico deu a entender que iria aposentar-se no fim do ano, tão logo terminasse o contrato atual. A ideia passou a cutucar-lhe a cachola após o problema de saúde que o fez ficar de molho por alguns dias em hospital aqui de São Paulo. O susto o levou a considerar a hipótese de curtir mais a vida ao lado da família, depois de tanta estrada, e longe do stress provocado pela profissão. Epa, ali estava uma novidade e tanto!

Muricy pareceu bem sincero no depoimento, mas à medida que falava me batia a certeza: ele não vai parar. Pelo menos não tão já. Encerrar carreira é das decisões mais difíceis na vida de todo cidadão que curte a profissão, seja qual for. Ficar em atividade, enquanto houver saúde, disposição e mercado, gratifica, oxigena o cérebro, empolga.

Quando comecei a batucar em antiga Olivetti Lettera, neste mesmo Estadão, nos tenebrosos idos de 1974, com versos de Camões e receitas de bolo a denunciar espaços do jornal roubados pela censura, companheiros experientes advertiam que enveredava por um “vício” pior do que cachaça. Achei folclórica a predição, afinal verdadeira. Na marvada nunca me liguei, por opção e estômago indócil, mas do jornalismo não nunca cogitei abrir mão, ainda mais com internet, blog e outras bossas.

Pendurar a pena é complicado, ao se tomar gosto por escrever. Porém, pelo que presenciei em inúmeras ocasiões nestas quatro décadas, o sujeito afastar-se do banco de reservas e do joguinho de bola só com camisa de força, por absoluta falta de condições físicas ou por ausência cortante de convites. Uma vez dentro da ciranda, não há como sair. Ser treinador de futebol vicia. Não sou eu quem afirma, mas gente do meio.

Cria-se dependência voraz e não tem terapeuta que dê jeito. Reza a lenda que professores de ponta ganham os tubos – e muitos recheiam vários pés de meia. Taí um ótimo motivo para seguir em frente. No entanto, tem preço: constantes mudanças de casa, pois não se escolhe a cidade para treinar; pressão de dirigentes, torcedores e empresários; a necessidade de lidar com ego de atletas; acostumar-se a ouvir “burro e imbecil” como qualificações mais suaves. E as demissões de uma hora para outra, fora os calotes de clubes maus pagadores?

Treinadores desenvolvem formas de compensação, criam escudos invisíveis, na base de discursos prontos – para início de trabalho, momentos de alegria, fases críticas e debandada. Num instante falam em dar um tempo, reciclar-se, sair de circulação. Tão logo recebem proposta, largam o pijama, botam agasalho e vão à luta.

Lembro de Rubens Minelli, então no auge da fama, no fim dos anos 1970, anunciar que ia pra casa assim que comemorasse o cinquentenário em 78. Conversa. Vinte e tantos anos mais tarde continuava a dirigir grupos de atletas e hoje se diverte como comentarista. Jamais largou a bola. Telê Santana, Osvaldo Brandão, e mais recentemente Zagallo, só passaram a ver futebol no sofá, quando o corpo se recusou a mais aventuras.

Zico roda o mundo nas mais diversas andanças; Falcão largou empregão na Globo, depois de 15 anos, e voltou à rotina cigana e instável de treinador; Luxemburgo tomou cachações no Chile, e vê se pensa em parar! Não!

Moral da história. Muricy pesou o que disse e chegou à conclusão de que “ainda é cedo” para parar. Eu sabia! Pois essa cachaça é difícil de largar.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 21/4/2013.)

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Mentira se alguém disser que não teve quase nada de aproveitável no 0 a 0 entre Palmeiras e Santos, na tarde deste domingo, no Pacaembu. Teve, sim. Um lance esteve à altura da tradição do duelo: aos 35 minutos do primeiro tempo, Giva deu uma cabeçada quase na pequena área, que não entrou porque Fernando Prass no chão fez defesa antológica. Parecia aquela de Banks, em lance do Pelé, na Copa de 1970!

Nossa, o que a gente não faz para enxergar algo de bacana numa partida que, fora algumas jogadas cá e lá, foi de uma mendicância técnica tremenda. Os dois times já não são grande coisa. Sem alguns titulares, como Neymar, Montillo, Marcos Assunção, Henrique, Valdivia, ficam ainda mais comuns. E limitados.

E isso ficou exposto no confronto acompanhado por público pequeno. O Santos escancara cada vez mais a dependência de Neymar, o que é bom e ruim. Bom, porque poucos têm o privilégio de contar com um jogador desse quilate. Ruim, por não haver no restante do elenco astros de primeira grandeza. O grupo de Muricy Ramalho também tem vários jovens (tirando os veteranos da defesa), mas nenhum talento superior.

O Palmeiras compensou suas debilidades com empenho, garra, luta e aquelas coisas todas que se espera de qualquer profissional decente, em qualquer profissão. Mas não se pode cobrar jogadas de efeito ou criativas de um meio-campo com Márcio Araújo, Charles, Leo Gago ou mesmo Wesley. Não mesmo. Nem grande coisa de atacantes como Caio e Vinicius, com potencial, mas verdes, com o perdão do trocadilho.

Acrescente-se a isso o fato de que os dois times certamente estarão na próxima fase do Paulistão e está montada a receita para mais um jogo modorrento do torneio estadual. E ainda faltam cinco rodadas para o encerramento desta fase. Mamma mia!

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O Santos já mostrou, em duas rodadas, que não deverá sofrer para superar a longa fase de classificação no Campeonato Paulista. Sem sofrimento, bateu o São Bernardo por3 a1, no fim de semana, e lascou mais 3 a0 no Botafogo, agora há pouco, na Vila Belmiro. O caminho para o tetracampeonato regional parece ter poucos sobressaltos, pelo menos por enquanto.

A superioridade santista é tão acentuada – e a tendência vai manter-se diante dos pequenos –, que Muricy Ramalho pode aproveitar a longa sequência de apresentações até a etapa seguinte para aprimorar o condicionamento físico, o entrosamento, a estratégia de jogo. Para que os resultados surjam, com força, no Brasileiro e na Copa do Brasil.

Porque, na competição doméstica, a eficiência já deu as caras. O Botafogo não fez cócegas no Santos, se mostrou presa fácil e batida já no primeiro tempo, com os gols marcados por Cícero e Neymar. Como os santistas tiraram um pouco o pé, na etapa final, a diferença só veio a aumentar pouco antes do apito final, com o gol de Miralles.

Alguns aspectos podem ser destacados. Neymar é o artilheiro da equipe, com três gols (nenhuma novidade), Miralles já fez dois (e pode desbancar André, que não largou bem), Cícero não tem dificuldade para encaixar-se (foi um dos melhores em campo, assim como Renê Júnior), Montillo carece de mais ritmo e fôlego.

A tarefa de Muricy é fazer com que os jogadores não baixem a guarda. O Santos mostra condições de sobressair no Paulistão – mesmo que, para alguns, isso não seja grande coisa. Mas para o tricampeão estadual esse é o desafio do momento, enquanto Corinthians, São Paulo e Palmeiras vão dar prioridade para a Libertadores.

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Havia uma personagem na televisão, bem lá atrás, interpretada pela atriz francesa Jaqueline Mirna, que costumava dizer: “Brasileiro é tão bonzinho”. E é mesmo. A gente costuma descer a lenha em um personagem público, fala as piores coisas dele. Mas, basta cair em desgraça, na sequência ficamos com dó, achamos que não era para se estrepar tanto assim.

Pois bem. Esse parece ser o caso de Mano Menezes. Durante dois anos e alguns meses, foi dos sujeitos mais xingados no país, por causa da seleção brasileira. Até com razão, porque raras vezes a seleção empolgou sob o comando dele. Não faltou para o treinador ouvir os mais variados impropérios creditados para o desempenho do time nacional. Mas, agora que foi demitido pela CBF, desponta solidariedade de todo canto. Contraditório…

A queda de Mano ocorreu nesta sexta-feira, mas vinha sendo preparada desde o começo do ano. Mais precisamente quando o ex-dono do poder na CBF se escafedeu para os Estados Unidos e deixou em seu lugar a dupla José Maria Marin/Marco Polo Del Nero. Ambos nunca esconderam a pouca simpatia com o técnico da “amarelinha” e o iniciaram processo de fritura.

Se você reparar bem, não foram muitas as ocasiões em que Marin rasgou elogios para Mano. Ao mesmo tempo, vira e mexe ele dava umas cutucadas, apelava para as frases manjadas (“Treinador vive de resultados”) e coisas assim. Parecia que preparava o bote. Mas, político como é, disfarçou. E, por sinal, muito bem, pois pegou quase todo mundo de surpresa.

Mano caiu porque os donos do poder não apreciavam os métodos dele. Mano caiu porque demorou para mostrar um time convincente – que, na verdade, não existe, embora tenha terminado o ano com uma espinha dorsal mais consistente. Mano caiu porque também há uma disputa pelo poder. Seu mentor, Andrés Sanchez, alimenta o sonho de assumir a CBF.

O sucessor não pegará uma bucha de canhão. Na prática, dará continuidade ao que Mano fez, provavelmente mudando algumas peças para marcar território. Nessa altura do campeonato, dá pra dizer que fez bem Muricy Ramalho, quando recusou convite do ex-todo-poderoso. Na época, ele achou que seria bucha de canhão e caiu fora. A bucha sobrou para Mano.

Que, no entanto, pode ficar tranquilo: trabalho não lhe faltará. Rapidinho estará empregado.

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