Teve gente que ficou com o pé atrás quando Felipão e Parreira foram reconduzidos ao comando da seleção. Imaginou-se retrocesso, volta ao passado e interrupção do trabalho de reformulação que Mano Menezes ensaiava. Sem contar o aspecto político que envolveu a decisão, com a consequente fritura de Andres Sanchez no cargo de diretor.
Pois a dupla de campeões do mundo deixou boa impressão na primeira convocação. A lista de 20 jogadores para o amistoso com a Inglaterra tem algumas surpresas, mas nenhuma aberração. Embora, claro, sempre exista espaço para discussões.
Interessante notar que não há brucutus no meio-campo, ao contrário do que se supunha. Arouca, Paulinho e Ramires são bons marcadores, mas sabem aparecer no ataque, concluem bem e com força. Se comportam como armadores, se for necessário.
A tendência de ter um time mais criativo se consolida com Oscar e Lucas, além de Ronaldinho. O gaúcho teve desempenho elogiável no Brasileiro e é a aposta de Felipão como o astro que pode orientar a rapaziada. Mas depende de como se comportar. Hernanes também é retorno bem-vindo. Kaká virou incógnita…
Fred e Luis Fabiano são a confirmação de que o treinador gosta de homens de área, embora apenas um dos dois deva jogar. Felipão deixou isso claro na entrevista. Um deles atuará ao lado de Neymar, titular incontestável da equipe.
Na defesa, também não houve grandes mexidas – a não ser a ausência de Thiago Silva, contundido. Dante tem jogado muito bem no Bayern, tem chamado a atenção de quem acompanha o campeonato da Alemanha.
O gol é que me deixa encafifado. Não que Julio Cesar seja perna de pau. Mas faz algum tempo que a carreira tem altos e baixos. No momento, defende o Queens Park Rangers, lanterna na Inglaterra. Não seria boa indicação, menos para Felipão. O treinador, pelo jeito, apostou no currículo de Julio Cesar. Ou, pior, constatou que não há goleiro totalmente confiável no momento.
Para não parecer o chato de plantão, prefiro olhar a turma com serenidade, sem preconceito. Esperar pelo menos até a Copa das Confederações.
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Releve o ufanismo obsoleto de José Maria Marin, na apresentação da dupla Felipão-Parreira que terá a partir de agora a missão de preparar a seleção para a Copa de 2014. Ao se referir a “patriotas” e ao exortar o povo a ter sentimentos nacionalistas, sem se dar conta o presidente da CBF apenas fez uso dos recursos retóricos que marcaram a carreira política dele décadas atrás. Para quem já dobrou a esquina dos 50 anos de idade, é inevitável (embora não necessariamente correto) associar esse discurso ao período do “Brasil, ame-o ou deixe-o” do início da década de 1970. Isso dá até arrepios.
Ao mesmo tempo tome a fala como parâmetro do modo dele pensar e ficará fácil entender por que recorreu a dois experientes treinadores numa situação de emergência. Marin não quis arriscar nem se propôs a fazer voo cego. Nem de longe lhe passou pela cabeça um mergulho no desconhecido. Para tanto, lhe pareceu lógico e seguro apostar em gente com currículo importante na “amarelinha” para uma missão que tem de se mostrar vitoriosa em curto prazo.
A postura conservadora na escolha se revelou na abertura da cerimônia de ontem, no Rio, ao listar os motivos, frágeis, que o levaram a desconsiderar Tite, Abel, Muricy e Luxemburgo na corrida sucessória de cargo tão relevante. Ficou implícito que, na avaliação dele, o quarteto tinha qualidades como as de Mano e provavelmente os mesmos defeitos. O maior de todos: a falta de lastro na competição. E isso pesou demais em favor de Felipão e Parreira. Na cabeça do cartola, problema resolvido. Fim de papo.
Marin, portanto, não espera uma revolução na seleção. Revolução que, convenhamos, não estava em andamento na gestão Mano Menezes. O treinador anterior aplicava ao time conceitos que considera eficientes, sem nada de extraordinários. Desenvolvia um projeto comum, que poderia se mostrar correto e vencedor adiante. Não conseguiu completar o ciclo, ao contrário de Dunga ou da dobradinha que volta ao comando. Resta-lhe o consolo dessa dúvida.
Também não espero uma reviravolta na equipe, nem para a Copa das Confederações nem para o Mundial. Não vislumbro transformação profunda, pois botar tudo de ponta-cabeça contraria a índole de Felipão e Parreira, notoriamente dois treinadores pés no chão. Evidentemente ambos farão mudanças; caso contrário, seria tolice tê-los chamado. Mas elas virão sem atropelos.
A confirmação do retorno de Felipão, antecipada pelo companheiro Luiz Antônio Prósperi, provocou reações extremadas. Houve quem festejasse como a salvação da lavoura e a cura de todos os males, ou como conquista do hexa já garantida. Da mesma forma, não faltaram manifestações de desconfiança a respeito da capacidade dos novos parceiros na empreitada.
Não me agradam nem euforia nem preconceito. Felipão e Parreira não são paraquedistas na profissão, não surgiram do nada, não foram campeões por acaso. Têm estofo e rodagem. Da mesma forma que não são magos com fórmulas milagrosas. Registre-se, ainda, o fato de que Felipão vem de fase dúbia no Palmeiras (com elenco medíocre, ganhou a Copa do Brasil e afundou no Brasileiro) e Parreira não dirige times há tempos.
Como não são novatos, Felipão e Parreira jogarão com bom senso e inteligência. Por justiça, lhes deve ser concedido crédito. Daí, como se dizia no meu Bom Retiro velho de guerra, “é bola pra frente e seja o que Deus quiser”. Mas, por amor a Ele, sem volta aos tempos do “Brasil grande”.
*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 30/11/2012.)
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Abstraia o componente político da queda de Mano Menezes e se concentre apenas nos aspectos técnico e emocional. O ex-treinador da seleção caiu porque não passou confiança, aos dirigentes da CBF, de que poderia suportar a pressão popular, na Copa das Confederações e principalmente no Mundial. Os cartolas o consideravam inadequado para essa provação, independentemente da experiência profissional.
Raciocínio idêntico poderia ser aplicado para Tite, Abel Braga, Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, a quadra de ‘professores’ de ponta que trabalham aqui e que naturalmente foram lembrados para ocupar o cargo. (Carlos Alberto Parreira não entra na lista, por estar afastado do dia-a-dia de treinos e jogos.) Todos são vencedores, têm prestígio e currículo de respeito.
Mas, assim como Mano, na visão da cartolagem lhes falta pitada adicional de carisma e amplo respaldo popular, qualidades que se encontram em Felipão. Por isso, recaiu sobre ele a preferência de José Maria Marin. O título Mundial de 2002 ainda pesa muito, da mesma forma que a imagem agregadora construída ao longo da carreira.
Como não tem tendência para grandes inovações, o mandachuva da CBF optou pelo conhecido, e o conhecido e seguro, e mais à mão, no caso era Felipão. Razão suficiente para transformar em sonho de noite de verão convite para Pep Guardiola assumir a seleção.
Felipão viveu fase tumultuada no Palmeiras, e isso não lhe fez bem, ao menos para o público alviverde. Ter contribuído para deixar o time à beira do rebaixamento (que, de fato, veio) não valoriza nenhum histórico, mesmo que seja histórico com amplo saldo positivo, como é o caso dele. A falha num clube importante mexe com o torcedor.
O desafio de Felipão agora será o de mostrar que a tragédia alviverde foi consequência de conjunto de erros, do qual ele fez parte, mas não o foi o único. A melhor maneira de afastar resquícios de dúvidas será com a montagem de uma seleção forte e eficiente, e em pouco tempo, brevíssimo tempo.
Carisma é bom, ajuda, dá moral ao treinador, mas não será suficiente: Felipão precisará de todo o conhecimento que acumulou para arrancar dos futuros convocados o que podem e o que não podem. O relógio joga contra, como jogava quando assumiu em 2001. Com a diferença de que, naquela época, havia a perspectiva de apelar para Rivaldo, Ronaldo e o jovem Ronaldinho Gaúcho. Do trio, resta só o último…
Montar um Brasil em condições de ganhar o hexa talvez seja das tarefas mais instigantes da carreira de Felipão. Vai construir o time em torno de Oscar, Neymar, Ganso, Kaká? E, quem sabe?, até de um hoje veterano Ronaldinho? Vamos ver, e que seja com toque de bola, arte e inteligência. E, de preferência, sem sufoco.
Por ora, desejo boa sorte ao Felipão. E que possa formar uma nova ‘família’ vencedora.
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A temporada de especulação em torno do sucessor de Mano Menezes está aberta, pelo menos por mais alguns dias. A lista de candidatos domésticos é vasta – os nomes o torcedor conhece de cor e salteado e vão de Tite a Abel, de Muricy a Felipão. Até Luxemburgo retornou à berlinda. Opções boas, de gente conhecida, pratas da casa. Todos com conquistas relevantes nas respectivas carreiras.
No meio dos torpedos e da cravação de eleitos ao cargo, ressurgiu a sugestão de convidar um estrangeiro, mais precisamente o espanhol (ou catalão, à escolha do freguês) Pep Guardiola para a missão de levar o Brasil ao hexa em 2014. Ilustre representante da novíssima geração de treinadores, fez fama e fortuna na construção da exuberante armada do Barcelona. Sob o comando dele, Messi e fiéis escudeiros conquistaram nos últimos anos tudo o que se possa imaginar, de Campeonato Espanhol ao Mundial de Clubes. Com futebol requintado, de alta qualidade, irretocável.
Guardiola não se faz de rogado e avisou, de acordo com o Lance! deste sábado, que não pensaria duas vezes para aceitar eventual convite. O desafio de guiar a turma da amarelinha seria motivo suficiente para tirá-lo das férias que se autoconcedeu desde que largou o Barça, no meio do ano. Com atrevimento, teria acrescentado que ganharia a Copa.
Não duvido. Guardiola esbanjou competência na terra dele, com o mérito de harmonizar talentos no Barcelona e obter o melhor do grupo sob sua guarda. O mais interessante, com um estilo à brasileira, como ele mesmo sublinhou, um ano atrás, após a surra aplicada sobre o Santos, na final do torneio de clubes no Japão. Na época, candidamente admitiu que ainda garoto aprendera a amar o estilo canarinho. Ou seja, apenas copiou um método de atuar que nos era tão característico e que, no entanto, abandonamos. Viramos europeus, até que um europeu revelou que virara… brasileiro.
Um tempo atrás, a hipótese de um gringo orientar a seleção pentacampeã do mundo me faria corar de raiva. Reconheço que era atitude de nacionalismo extremado, autossuficiência provocada por história rica de craques e taças. Reação que não teria hoje. As fronteiras andam tão escancaradas no mundo da bola que nada mais surpreende. Alguém que esteja na Ucrânia pode sentir-se íntimo do Brasil, diante das facilidades tecnológicas para acompanhar o que rola por aqui. E vice-versa. Sem contar a peregrinação de jogadores para todo canto.
Guardiola não cairia de paraquedas, assim como Felipão não era nenhum ET quando aceitou a proposta para treinar Portugal. Lembra? Encontrou resistência entre colegas e jornalistas lusos. Com o tempo, e com os resultados, vingou na terrinha e por lá permaneceu por uma Eurocopa e um Mundial. Com bom retrospecto.
Por que não arriscar?
*(Minha coluna no Estadão de hoje, domingo, dia 25/11/2012.)
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Havia uma personagem na televisão, bem lá atrás, interpretada pela atriz francesa Jaqueline Mirna, que costumava dizer: “Brasileiro é tão bonzinho”. E é mesmo. A gente costuma descer a lenha em um personagem público, fala as piores coisas dele. Mas, basta cair em desgraça, na sequência ficamos com dó, achamos que não era para se estrepar tanto assim.
Pois bem. Esse parece ser o caso de Mano Menezes. Durante dois anos e alguns meses, foi dos sujeitos mais xingados no país, por causa da seleção brasileira. Até com razão, porque raras vezes a seleção empolgou sob o comando dele. Não faltou para o treinador ouvir os mais variados impropérios creditados para o desempenho do time nacional. Mas, agora que foi demitido pela CBF, desponta solidariedade de todo canto. Contraditório…
A queda de Mano ocorreu nesta sexta-feira, mas vinha sendo preparada desde o começo do ano. Mais precisamente quando o ex-dono do poder na CBF se escafedeu para os Estados Unidos e deixou em seu lugar a dupla José Maria Marin/Marco Polo Del Nero. Ambos nunca esconderam a pouca simpatia com o técnico da “amarelinha” e o iniciaram processo de fritura.
Se você reparar bem, não foram muitas as ocasiões em que Marin rasgou elogios para Mano. Ao mesmo tempo, vira e mexe ele dava umas cutucadas, apelava para as frases manjadas (“Treinador vive de resultados”) e coisas assim. Parecia que preparava o bote. Mas, político como é, disfarçou. E, por sinal, muito bem, pois pegou quase todo mundo de surpresa.
Mano caiu porque os donos do poder não apreciavam os métodos dele. Mano caiu porque demorou para mostrar um time convincente – que, na verdade, não existe, embora tenha terminado o ano com uma espinha dorsal mais consistente. Mano caiu porque também há uma disputa pelo poder. Seu mentor, Andrés Sanchez, alimenta o sonho de assumir a CBF.
O sucessor não pegará uma bucha de canhão. Na prática, dará continuidade ao que Mano fez, provavelmente mudando algumas peças para marcar território. Nessa altura do campeonato, dá pra dizer que fez bem Muricy Ramalho, quando recusou convite do ex-todo-poderoso. Na época, ele achou que seria bucha de canhão e caiu fora. A bucha sobrou para Mano.
Que, no entanto, pode ficar tranquilo: trabalho não lhe faltará. Rapidinho estará empregado.
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Era o jogo número 1000 da seleção brasileira, nas contas da CBF. Mas o time de Mano Menezes não esteve a mil, no empate por 1 a 1 com a Colômbia, na noite desta quarta-feira, em New Jersey. A apresentação nos Estados Unidos foi a penúltima do ano. Ainda falta um dos famigerados Superclássicos das Américas, contra a Argentina, na semana que vem.
Não foi um espetáculo o jogo com número tão especial. Mas também não foi um fiasco. Já vi partidas sonolentas e arrastadas da turma que veste a amarelinha. Até que desta vez não foi bem assim. O Brasil teve criou mais do que os colombianos, teve até bola na trave (Kaká, no primeiro tempo) e perdeu pênalti (Neymar mandou a bola pra fora do estádio). A vitória não teria sido resultado fora de propósito.
A iniciativa esteve, na maior parte das vezes, com a seleção. A Colômbia teve o mérito de segurar o ritmo, não se expôs em demasia, e ainda contou com algumas boas defesas de Ospina, em chutes de Kaká e Neymar. O astro santista fez o gol de empate, depois de Cuadrado ter deixado os colombianos na frente, e foi um dos destaques. Apesar de ter ficado aquém do que já mostrou sob o comando de Mano.
Não gostei de algumas escolhas do treinador. Castán improvisado na esquerda teve dificulades na marcação – e não alcançou Cuadrado no lance do gol. Thiago Neves, mais pelo lado esquerdo também, nem de longe foi o jogador dos melhores momentos do Flu. Talvez tenha sido o mais apagado em campo. Oscar também não foi exuberante.
Melhor enfrentar a Colômbia, um teste mais difícil, do que a sequência de babas que cruzaram o caminho da seleção, recentemente, como Iraque, China, ou adversários de segunda linha, como África do Sul e Japão. Pena que a efeméride (sempre pelas contas pouco elucidativas da CBF) tenha sido celebrada longe de casa. Casa?! Faz tempo que o Brasil deixou de ser a casa da seleção, que foi morar fora e só vem aqui esporadicamente para matar saudades.
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Está cheio de torcedor miolo mole à solta pelo mundo. Em nome da paixão pelo futebol, esse tipo acha que vale qualquer atitude exagerada. Por isso, a cada semana elege vilões ou heróis para sua equipe. E inverte os papéis dos personagens de uma rodada para outra, ao sabor do vento, ou das vitórias e derrotas. Na maioria das vezes, não passa de folclore. Há situações, porém, em que o amor cego a leva a ameaças, tragédias. Mortes.
Muita gente no Palmeiras anda com medo. A vida de pessoas comuns, mas ligadas ao clube, mudou por causa de intimidações, na maior parte anônimas, que recebem nestes dias duros que antecedem o quase inevitável rebaixamento. Há quem tenha jurado infernizar a rotina de cartolas, e têm o presidente Arnaldo Tirone como alvo principal. Os avisos de guerra estariam nas pichações e no ataque à loja oficial na sede social.
O cartola se sente acuado – e não é para menos. A administração que encabeça tem responsabilidade pelos tropeços da equipe, como teve méritos na conquista da Copa do Brasil. Se foi exaltada naquele episódio feliz, não surpreende enfrentar cobranças nesta hora angustiosa. Mas, assim como Tirone e turma não eram deuses meses atrás, não se justifica a demonização de agora. São executivos, que tinham objetivos a alcançar. Falharam? Então, assumam e sumam. Sair de cena será atitude generosa, para que reflitam e se reciclem.
Inadmissível é considerar a pressão violenta como mera bravata de desocupados. Nunca se sabe do que é capaz alguém que aposta na impunidade para extravasar frustração. Há os que entendam só a linguagem da violência; para esses, não resta forma de cobrar a não ser com brutalidade. Começam com palavrões, provocações, emboscadas, invasões e não se sabe onde vão terminar.
Vi uma entrevista, após a derrota para o Fluminense, em que Tirone trata de mostrar naturalidade diante da intimação bandida. O presidente se saiu com a constatação de que morrer “é destino inevitável de todo mundo” e se disse disposto a virar mártir palmeirense.
Epa, que conversa é essa?! A Humanidade tem mártires de sobra, homens que deram a vida por causas religiosas, políticas, filosóficas, e assim alteraram a história. Os gestos de coragem e caráter deles se eternizaram, são exaltados até hoje. Embora em muitos casos tenham virado só motivo para feriado…
O futebol não precisa de mártires, está recheado de figuras clássicas e perenes, como os craques, os carrascos, os pernas de pau, os juízes “ladrões”, os técnicos “burros”, os cartolas. Apesar de alguns serem polêmicos, sempre remetem a vida e sentimento. Nada de morte, sobretudo como consequência de postura de torcedor covarde. Não se admite isso, nem em sonho.
Há decepção com o descaminho palestrino – justa e compreensível. A torcida tem direito de demonstrar descontentamento, com protesto, com vaia, até com o abandono do time. Pode pedir, à maneira de Raul Gil, para o dirigente pegar o banquinho e sair de fininho. Jamais agir com violência.
Fred na amarelinha. Treinador tem cismas – e com Mano Menezes não é diferente. O regente da seleção deixou Fred na geladeira por um ano. Mas enfim reconheceu a fase excepcional do artilheiro do Brasileiro. Por isso, o incluiu na lista de convocados para o jogo com a Argentina, na semana que vem, em Buenos Aires. Gesto sensato do técnico, ao olhar para quem decide. Tomara que Fred tenha voltado para ficar de vez, assim como Kaká, que hoje enfrenta a Colômbia.
*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 14/11/12.)
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O jogo com o Japão fechou a série de molezas com as quais o Brasil se deparou nos últimos tempos. Começou com África do Sul, seguiu com China e Iraque até o amistoso desta terça-feira na Polônia, num estádio semideserto. O placar, folgados 4 a 0, mostra a diferença entre as duas equipes. Voltam todos contentes para seus respectivos clubes.
Ufanismo à parte que essas vitórias provocam – e tem gente achando que a seleção está pronta –, o pacote de bondades pode ser útil, desde que Mano Menezes tire conclusões sensatas. Que ele esqueça os resultados e se concentre nas observações
Uma delas é a de que Ramires e Paulinho podem formar uma boa dupla de volantes que marcam e sabem sair para apresentar-se na frente. (Ambos fizeram gols, só que o de Ramires, numa jogada de Neymar, foi mal anulado.) A defesa ainda carece de ajustes – e sequer foi testada contra rivais de segunda (ou terceira) linha.
Kaká voltou bem, fez gols, encorpou bem o meio-campo e o ataque. Interessante será vê-lo contra adversários mais fortes, no ano que vem. Oscar e Neymar são nomes garantidos. Hulk também se firma. Ainda assim, há brecha para mais experiências no setor.
Contra o Japão funcionou bem a distribuição prevista pelo treinador. Os gols surgiram com naturalidade (Paulinho, Neymar 2 e Kaká), houve duas bolas na trave, poucos sustos para Diego Alves. Enfim, o quadro ideal para deixar Mano em paz.
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O jogo com o Iraque valeu para os árabes que compraram o direito de levar a seleção pra onde quiserem. Valeu também para enriquecer a estatística recente (16 gols nos últimos três jogos) do time e o saldo de Mano Menezes. Foi bom, ainda, para muitos brasileiros e iraquianos desterrados na Suécia matarem saudades de casa. Fora isso, os 6 a 0 desta quinta-feira, em Malmoe, só compensaram para ver Kaká de volta ao time nacional, após dois anos e três meses de ausência. E só.
O meia-atacante do Real Madrid teve movimentação boa, no primeiro tempo. Logo no início, surgiu chance de cabecear para o gol, e o goleiro defendeu. Depois, participou do lance do segundo gol de Oscar. Além disso, deixou a marca dele, ao fazer o terceiro, na segunda etapa.
Kaká tratou de deslocar-se pelo lado esquerdo, como havia pedido o treinador, e procurou sempre que possível triangulações com Neymar e com Oscar. Daí pode dar samba, com Hulk a completar o quarteto. Como teste de reinício para Kaká foi ok – e nada melhor do que um adversário fraquinho pra ganhar confiança. Kaká saiu aos 25 minutos com a certeza de que entrará contra o Japão e terá novas oportunidades. Parece resgatado.
No mais, foi um treino oficial, dessas perdas de tempo que banalizam a seleção e com as quais nos acostumamos à força. A tarefa se mostrou tão fácil, o rival tão dócil que os brasileiros se desinteressaram, a ponto de Mano promover festival de alterações. Os gols de Hulk, Neymar e Lucas antigamente entrariam no noticiário como “gols sem preocupação de contagem”.
Seguinte: vamos aguardar os jogos que faltam da 29.ª rodada do Brasileiro que são mais importantes. Haverá mais adrenalina, tensão, drama e superação em Palmeiras x Coritiba e Sport x Grêmio. Seleção pra valer, pelo jeito, só na Copa das Confederações e no Mundial.
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Há ocasiões em que a gente come algum alimento que não cai bem. Você sabe como é, aquela coisa que pesa no estômago, incomoda, tira o bom humor e exige um sal de frutas. O mesmo ocorre em determinadas situações ou com certos acontecimentos. A mais recente convocação da seleção, por exemplo, continua difícil de digerir, mesmo três dias após a divulgação oficial. Está entalada.
Prova de desconforto foi dada por Muricy Ramalho. O técnico do Santos lamentou a enésima chamada de Neymar, na atual temporada, para juntar-se à tropa da amarelinha de Mano Menezes. Interpretou com ironia a explicação do colega – e que herdou o cargo para o qual havia sido convidado primeiro –, segundo a qual houve preocupação de tirar só um jogador de cada clube que cedeu talentos para os amistosos com Iraque e Japão em outubro. “No nosso caso, é desfalque de 50%”, disse Muricy.
Coberto de razão. Neymar hoje é meio time do Santos, senão mais. Não sou fanático por números e estatísticas, porém em alguns casos eles explicam melhor do que dezenas de frases e arrazoados. Com o “11” em campo, o aproveitamento da equipe passa dos 70%. Ou seja, índice de campeão ou de quem briga por fazer papel bonito nas competições de que participa. Sem o ídolo, cai para 25%, referência pífia, desempenho de timeco que luta para não cair.
Não vale dizer que o abismo se deve à enorme dependência do Santos em relação à estrela maior. Trata-se de meia-verdade. Mesmo que fosse verdade inteira, é assunto particular, de interesse apenas da turma da Vila. Cada um usufrui de seus recursos da maneira que lhe aprouver, sobretudo no nosso futebol, em que não são muitos os foras de série por elenco. Ao contrário, são raros e caros. Então, sorte do Santos por ter sob contrato um jovem com a capacidade de Neymar. Por isso, tem direito total de contar com ele sempre que necessário.
É inversão de valores, distorção argumentar que a prioridade está na seleção, por causa de Olimpíada, Copa das Confederações, Mundial e o blablabá de costume. Conversa fiada, pra boi dormir. Sempre haverá uma justificativa para tirar atletas das equipes – e, em geral, sem ligar a mínima para protestos dos treinadores, vozes isoladas nesse meio. Ou quase. Agora, o Santos ensaia espernear e ousa pedir adiamento de jogos contra Vasco e Atlético-MG, sob a alegação de que se enfraquece sem Neymar.
Para ficar claro: tomo o Santos como parâmetro, por ter sido o único a manifestar-se neste momento. O direito à reclamação cabe a São Paulo, Atlético-MG, Vasco, Flu – a todos os que deverão disputar mancos duas rodadas da fase mais quente do Brasileiro.
O que mais embrulha a digestão moral é o fato de se cometer violência contra os times por motivo fútil. Os jogos contra iraquianos e japoneses não valem nada em termos de preparação para 2014. Não passam de compromissos previstos no acordo assinado com a empresa que comprou os direitos de negociar apresentações da seleção pelo mundo.
Mano sabe disso, mas desconversa, fala em observações. Normal a retração, pois ele é parte da engrenagem. Se fosse para testar a escalação que vislumbra como ideal, bateria o pé, convenceria os colegas, chamaria os que considera imprescindíveis, mesmo que fossem seis de um time só! Daí, a gente entenderia, porque de fato prevaleceria o desafio principal, o de entrosar o grupo para o Mundial.
Como foi feito, soa como paliativo. Ganham-se cobres e se perdem chances de formatar a seleção real. Pena.
*(Minha crônica publicada em parte da edição do Estado de hoje, domingo, 30/9/2012.)
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