Antero Greco – estadão.com.br - Estadao.com.br
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Hoje é dia da primeira decisão para Corinthians e São Paulo no Paulista. O destino de ambos será decidido em jogo único, na base do vapt-vupt, depois de 19 arrastadas jornadas na fase de classificação. Um vacilo diante de Ponte Preta e Penapolense, respectivamente, e adeus sonho do título estadual. Uma das contradições do torneio administrado pela FPF.

Taça é taça, e cobrança sempre haverá para equipes acostumadas a conquistas. Mas fica no ar a ligeira impressão de que eventual eliminação não provocará, por ora, maiores sobressaltos no Parque São Jorge, nem no Morumbi. Porque, apesar dos desmentidos categóricos e de praxe, a prioridade está na Libertadores. Faturar a América se mostra mais fascinante do que recuperar a hegemonia regional. Uma pena que assim seja. As duas competições poderiam igualmente atrair atenção dos gigantes.

Não dá para criticar a preferência de corintianos e são-paulinos. O título continental virou obsessão por estas bandas, desde que os anos 1990 colocaram a carinha pra fora e assustaram os brasileiros, pois vieram à luz na época em que Fernando Collor e Zélia Cardoso confinaram a poupança da nação. Em duas décadas, dali em diante, as equipes de cá se fartaram de chegar à final e de atingir o cume. Tricolores experimentaram o gosto da vitória em três ocasiões, enquanto alvinegros ainda estão a saboreá-la como campeões.

Para manter-se ou na trilha do tetra ou do bi, a semana lhes reserva duas provas de fogo. O São Paulo topa novamente com o Atlético-MG, em casa, num dos duelos das oitavas de final. O Corinthians viaja para Buenos Aires, onde reencontra o Boca Juniors, rival na decisão de 2012. Mineiros (pelo excelente futebol do momento) e argentinos (pela tradição) preocupam – daí o dilema de Ney Franco e Tite para encontrar a fórmula exata e dosar as forças entre as duas frentes. Os treinadores vivem a situação clássica do ficar com um olho no gato (Campeonato Paulista), outro no peixe (Libertadores). Sem ter muito por onde fugir.

O gato para o Corinthians, em teoria, é mais ardiloso do que aquele sob a vigilância do São Paulo. A Ponte fez campanha muito boa, sofreu só uma derrota (no jogo contra o Palmeiras) e fechou a etapa anterior com 38 pontos, três a mais do que o adversário deste domingo. Joga em Campinas e pode repetir a proeza de 2012, quando se livrou de Ralf, Paulinho & Cia. na mesma fase de agora.

O Penapolense agarrou a última vaga e entra na base do tudo o que vier é lucro, longe de aparecer como favorito. Se sair da luta, não haverá lamentações, pois cumpriu papel digno e honroso.

Ney resolveu a dúvida na base do vai ou racha. Em miúdos, significa que não dará folga pra ninguém, seja no Paulista, seja na Libertadores. Veem os jogos das arquibancadas os que não tiverem condições médicas ou legais para entrar em campo. No mais, manda carga máxima, com os riscos que isso comporta. Opção compreensível para quem passou apuros tempos atrás e por pouco não foi apeado do cargo.

Além disso, avalia Ney, melhor garantir-se no mínimo em um dos torneios, em vez de ficar sem nada prematuramente. Nessa linha de raciocínio, o Estadual desponta como objetivo mais palpável. De lambuja, sucesso hoje serve como vitamina para encarar Ronaldinho Gaúcho e discípulos no meio da semana.

Tite reza em cartilha semelhante à do colega. Mesmo com acúmulo de desafios, ponderou prós e contras para chegar à conclusão de que vale a pena flertar com o título regional que lhe falta. A equipe mantém a estrutura habitual, desta vez com Romarinho no meio, com Emerson e Guerrero à frente. Pato permanece como alternativa, para a eventualidade até de apelar para mais atacantes.

A escolha permite duas interpretações. A tática, ao sinalizar que não vai se expor diante de uma Ponte que sabe ser agressiva; portanto, reforça o meio. A física, ao preservar Pato, astro tratado com o cuidado que se tem com cristais finos e frágeis.

 

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Tem horas em que a gente fica com certo “bode” de futebol, por causa de tanta falcatrua e picaretagem. Ainda bem que restam jogos memoráveis pra dar um bico no baixo-astral. Como aconteceu no começo da noite desta quinta-feira, com o espetáculo que torcida e time do Palmeiras proporcionaram no Pacaembu. De arrepiar, pelo resultado (vitória por 1 a 0 e classificação) e mais pela sintonia e emoção das duas partes.

O Palmeiras não ganhou do Libertad na técnica e na criatividade. Ao contrário, teve muitos chutões, encontrões, divididas, bolas espirradas. E, por incrível que pareça, o mérito da turma de Gilson Kleina residiu justamente nesse comportamento. Que não foi sinal de covardia, de antijogo, mas de dedicação e reconhecimento dos próprios limites.

Mas essa postura não signficou também retranca. O Palmeiras foi à frente, como pôde, como conseguia, na base do entusiasmo, da correria, da busca por resgatar a autoestima. Esse grupo tem deficiências, não se pode negar – e sou dos mais críticos a apontá-las. Só que nessa partida as falhas são relevadas, por respeito à seriedade do grupo.

Não dá pra destacar quem foi o melhor – a entrega foi generalizada. O esforço de Marcelo Oliveira contagiou Maurício Ramos, que animou Henrique, que encorajou Juninho, que se estendeu para Charles (o autor do gol decisivo), que tranquilizou Fernando Prass (uma defesa extraordinária com os pés). Todo mundo correu. Até a expulsão correta de Wesley contribuiu para aumentar a dramaticidade do resultado.

O Palmeiras é o azarão dos brasileiros na Libertadores. E continua a sê-lo. Mas o entusiasmo dele bem podem servir de exemplo para Fluminense e Grêmio, que decidem vaga na última rodada. E principalmente o São Paulo, que tem desafio gigantesco contra o Atlético-MG. O Palmeiras mostrou que é possível.

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22.fevereiro.2013 16:04:34

Chega de barbárie!*

Mortes provocam dor, luto e, muitas vezes, indignação. Como foi o caso do adolescente boliviano atingido por um sinalizador, enquanto assistia ao jogo entre San Jose e Corinthians, na noite de anteontem. Qualquer pessoa com o mais leve resquício de bom senso e de respeito pela vida ficou impressionada com a estupidez da tragédia. Um desastre que dá o que pensar e que exige uma guinada drástica na maneira como se encaram delitos cometidos em estádios de futebol pela América do Sul.

O choque desencadeia reações positivas, que sacodem o marasmo e ameaçam privilégios e condutas brutais consagradas como rotineiras. Estas devem ser levadas adiante. A comoção ao mesmo tempo estimula uma onda de intolerância e desemboca no raciocínio simplista de que tudo deva ser proibido nos campos de futebol. Postura tão nefasta quanto a dos bandos organizados.

A alegria e a espontaneidade não podem desaparecer das arenas esportivas. Isso seria negação da vida e também uma forma de violência. Não se deve recorrer a medidas autoritárias, em geral oportunistas e vazias. Não cabe exigir uma infinidade de vetos de ocasião – aos bumbos, às bandeiras, às coreografias nas arquibancadas, aos corinhos contra árbitros, às vaias aos jogadores. Estádios devem ser espaços democráticos.

É preciso doutrinar fãs, mostrar-lhes limites, regulados por simples regras de boa convivência, e também escancarar as penas a que se expõem com atitudes estúpidas. A impunidade virou aliada de quem vai a campo para brigar, ferir, matar – e deve ser extirpada. A parcela de vândalos é pequena – portanto, lei e educação neles. A maioria não pode pagar por boçais. Não à barbárie nem à cultura do medo e da repressão generalizada!

Os irresponsáveis que acionaram os sinalizadores cometeram delito grave. Podem alegar que nem de longe lhes passou pela cabeça causar danos e que também correram riscos. Argumento tosco, frágil, cara de pau. Ninguém com lucidez tenta entrar no estádio com artefatos dessa natureza. Não se trata de singelas “chuvas de prata”, inofensivas e festivas, que toda criança pode manejar. Mas de objetos para uso específico e que se transformam em armas. Não há inocência em quem burla a vigilância (ou tem a cumplicidade dela) para carregar tal tipo de tranqueiras para o meio do povo.

Quem age assim se escora na tradição permissiva dos torneios desta banda do Atlântico. Quantos arruaceiros e criminosos fantasiados de torcedores foram presos por atirar pedras, rojões, latas, copos de água, pilhas em adversários, dentro e fora do gramado? Quantos estádios a Conmebol interditou por não darem segurança para visitantes ou por desrespeitarem direitos do consumidor? Quantos times foram excluídos por mau comportamento de seus seguidores? Quantos cartolas foram afastados por conivência ou por ligações com gangues uniformizadas?

Dirigentes mumificados se preocupam com acertos de patrocínio, reeleições eternas, rapapés recíprocos e viagens. E se lixam com padrões de excelência para os campeonatos. Atos de terror são praxe na Libertadores, na Sul-Americana, e não dão em nada! Suspendam clube grande, controlem e punam desordeiros, apliquem suspensões em jogadores desleais pra ver se não ocorrerão mudanças.

A evolução passa pelo comando do futebol, por educação e por ações firmes da Justiça. À espera delas, hordas continuarão a deslocar-se com apoio sabe-se lá de quem, times apelarão para todo tipo de artifício para vencer. E mais jovens morrerão.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 22/2/2013.)

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Dois dos três brasileiros que já estrearam na Libertadores deste ano fizeram a parte que se esperava deles, ou seja, deram a largada com vitória. O Atlético-MG ganhou do São Paulo por 2 a 1, em Belo Horizonte, e o Flu foi além, com 1 a 0 sobre o Caracas, na Venezuela, na noite da quarta-feira.  Resultados de certa forma normais e dentro das previsões dos times.

A vitória mineira no clássico nacional foi consequência de um jogo intenso, vibrante, que valeu a pena acompanhar do começo ao fim. E com resultado indefinido até o último lance, aquele em que Ganso bateu de esquerda, a bola passou rente à trave e por pouco não garantia o empate. Empate que teria um sabor de decepção para o Galo, depois de ter aberto 2 a 0 de vantagem.

O primeiro tempo foi impecável para o Atlético. Compacto na marcação, forçou os erros do São Paulo, saiu bem nos contra-ataques e ainda abriu o placar por uma combinação de acaso e esperteza (e desatenção do rival), no lance em que Ronaldinho recebeu lateral e serviu Jô. A equipe de Cuca jogou como se esperava de quem atuava como mandante.

O São Paulo melhorou no segundo tempo, porque Osvaldo apareceu mais para o jogo, assim como Luis Fabiano, e o Atlético afrouxou um pouco a vigilância, o que era lógico, porque não se suporta ritmo frenético do começo ao fim. Mas ainda aumentou a diferença, com Rever. E só levou um susto quando Aloisio (que tinha entrado no lugar de Paulo Miranda) diminuiu.

A derrota coloca pressão sobre o São Paulo, mas não é um desastre, desde que compense no duelo de volta. A conta é simples e rasteira: para classificar-se sem sustos, importa ganhar as três em casa e fazer de 3 a 4 pontos como visitante. É retrospecto que tanto tricolores como mineiros podem cumprir.

Por isso, considero que o Flu foi além, já na primeira partida. Com o 1 a 0 em Caracas (gol de Fred, no primeiro tempo), já tem um saldo significativo nessa estratégia de pontos. Só não vale vacilar quando receber os adversários no Engenhão. Mas, pelo maturidade demonstrada na estreia, é possível prever caminhada bem interessante para o campeão brasileiro.

 

 

 

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29.junho.2012 09:31:07

Heróis acidentais*

Treinador em geral exalta o espírito coletivo, pois futebol é conjunto, solidariedade, reciprocidade, camaradagem, etc e tal. Mas, no fundo, torce para que o talento individual resolva, sobretudo se a parada estiver dura. Por isso, com frequência faz apostas arriscadas, em substituições ou em convocações, na esperança de desatar nós. E se sente abençoado, quando a escolha dá certo.

Tite e Cesare Prandelli provaram nestes dias o gostinho da descoberta da pólvora. O brasileiro resolveu, em cima da hora, levar para Buenos Aires o novato Romarinho, autor dos gols da vitória do Corinthians no clássico de domingo com o Palmeiras. O moço ficou no banco, anteontem, em La Bombonera, à espera de oportunidade para enfrentar o temível Boca, o bicho-papão. Entrou minutos antes do encerramento, ignorou a mística do estádio, a pressão da torcida local e, na primeira bola que pegou, deu uma cavadinha e marcou o gol de empate. Gol que mantém a equipe na rota do título e iluminou Tite.

O técnico italiano foi tão peitudo quando o colega de cá, senão mais: tempos atrás, avisou que Cassano e Balotelli, dois doidos de pedra, imprevisíveis, temperamentais e encrenqueiros, teriam oportunidade de defender a Squadra Azzurra na Eurocopa. A escolha deixou torcedores e críticos com cabelos em pé. Ter um matusquela no elenco passa. Mas dois?! Era para internação.

Pois ambos estão na turma dos responsáveis, junto com Buffon e Pirlo, por levar a Itália à final da Eurocopa de 2012. Cassano se comportou taticamente muito bem, enquanto Balotelli tem feito os gols decisivos, como os dois de ontem diante da Alemanha. Há sempre o temor de que uma hora vão aprontar – até o momento têm alarmado os adversários com ousadia e autoconfiança.

O futebol vive desses heróis, das estrelas solitárias, por mais que se ressalte o caráter comunitário. A perfeição está na combinação do equilíbrio entre os setores que compõem um time e o talento. O sujeito que torna tudo diferente é imprescindível, mesmo em tempos de politicamente correto. O Santos dos anos 60 era gigante, mas se tornava monstruoso porque tinha Pelé. O mesmo ocorria com o Cruzeiro da época de Tostão, o Palmeiras de Ademir, o Flamengo de Zico e assim sucessivamente até o Barcelona atual, que tem Messi como a síntese da qualidade. O toque do gênio, mesmo que seja fugaz, fascina.

Não é por acaso que Romarinho tenha sido o jogador mais citado do Corinthians – como você pode comprovar abaixo, nesta página mesmo. Não será injusto que Balotelli esteja nas manchetes dos jornais italianos de hoje. O futebol cultua os protagonistas da hora, tão necessários quanto os atores principais no teatro ou no cinema, as primas donas na ópera, os solistas nas orquestras e nas bandas.

Tanto melhor se tiverem o respaldo dos colegas e de um sistema sólido, que lhes deem sustentação. Algo que Corinthians e Itália mostraram nos campeonatos de que são finalistas. O campeão brasileiro voltou da Argentina com a justificada esperança de proeza inédita. Ok, o ideal teria sido vencer, mas o 1 a 1 caiu bem. Só que terá de jogar mais, diante de seu público e não pode perder de vista a tradição e o currículo do adversário. A disputa permanece aberta.

Raciocínio semelhante se aplica à surpreendente Itália, que abandonou a retranca nos campos da Polônia e da Ucrânia, e com autoridade almeja o troféu. Trata-se de desafio e tanto furar o iceberg defensivo espanhol.

Ora, Romarinho e Balotelli neles!

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 29/6/2012.)

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O Corinthians não engata no Campeonato Brasileiro. O campeão de 2011 parece continuar com a cabeça voltada para os duelos com o Santos, na semifinal da Libertadores da América, e relaxa na tarefa doméstica. Foi assim, nas derrotas nas duas rodadas iniciais, e voltou a ser dessa maneira na noite desta quinta-feira. Resultado da displicência: empate por 1 a 1 com o Figueirense e lugar na parte baixa da classificação.

Tite até que colocou em campo a formação principal, descansada pelos dez dias de folga na tabela. Ele não queria aumentar o período de inatividade dos titulares, embora tenha prometido resguardar alguns na rodada de fim de semana. Na prática, porém, o time não entusiasmou, embora tenha feito primeiro tempo melhor do que os catarinenses.

A toada foi a de sempre: marcação forte, meio-campo tocando a bola e alguns arremates a gol. O trivial variado que tem dado certo e com o qual a torcida aparentemente se acostumou. E ainda com a falta de um centroavante, já que a estrela de Liedson parece ter-se apagado. O público que tomou chuvinha fina no Pacaembu de noite fria só despertou minutos antes do intervalo, com o gol de cabeça de Danilo, em cruzamento impecável de Alessandro.

O que poderia ser prenúncio de segundo tempo mais empolgante dos donos da casa não passou de alarme falso. O Corinthians não abriu mão de seu ritmo e ainda ficou com um a mais, após a expulsão de Anderson Conceição aos 17 minutos. Aproveitou-se disso? De jeito nenhum e ainda viu o Figueirense crescer e chegar ao empate aos 33, numa bola cruzada da esquerda que a defesa não cortou e Caio completou.

O Corinthians conta com enorme boa vontade, em nome do objetivo mais ousado, que é o título inédito da Libertadores. Mas não pode demorar a ligar-se no Brasileiro. Os pontos de agora, em torneio que tende de novo a ser equilibrado, farão falta. E como!

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11.maio.2012 12:27:48

A grande família*

No começo da madrugada de ontem, ocorreu episódio curioso. O Palmeiras havia acabado de golear o Paraná por 4 a 0, pela Copa do Brasil, e garantira classificação para as quartas de final. Daí vem o Felipão para a entrevista, no estádio de Barueri, e, em vez de exaltar a proeza da equipe, desce a lenha na diretoria do clube, por não contratar reforços de peso nem admitir em público que falta dinheiro. Não deu outra, na hora comecei a cantarolar o tema de A grande família: “Esta família é muito unida e também muito ouriçada. Brigam por qualquer razão e acabam pedindo perdão…”

É isso. O Palestra parece o seriado de sucesso da Globo – ou, para os mais antigos, é uma Família Trapo permanente, em que não faltam Zelonis e Golias a se enroscarem em discussões e trapalhadas. Pois, se pode imaginar outro lugar que não seja o Palmeiras, em que se comemora uma vitória importante com lavagem de roupa suja? Não conheço.

Felipão anda bravo, porque despencou sobre os ombros dele a bronca pelo fiasco de Fernandão, Ricardo Bueno, Tinga, Gerlei e outros menos votados que vieram e saíram do Parque Antártica sem deixar saudades. Sob a alegação de que os indicou ou todos contaram com seu aval. O que não deixa de ser verdade, pois o treinador participa do planejamento e da montagem do elenco.

Como também fazem parte desse processo o presidente, o diretor, o gerente de futebol e assessores afins. Quer dizer, não prevalece a vontade de um, seja técnico, seja cartola ou aspone. A chiadeira, no momento de alegria, foi a forma que Scolari encontrou para passar o recado claro de que não segura sozinho essa bucha. Ele entendeu que era melhor soltar o verbo em alta do que após derrota. Na segunda hipótese, a reação soaria como justificativa oportunista.

Felipão alegou também que tem mais identificação com o clube do que vários diretores. Só não deu nome aos bois. Quer saber? Não exagera. Desde que retornou, há quase dois anos, se meteu em muita confusão por não concordar com a inércia oficial. Partiu para a ação, porque outros ciscaram e fingiram que não era com eles. Cometeu bobagens, não duvido disso. Mas bobagens que sobraram pra ele porque quem deveria resolver tirou o corpo fora na hora H.

O desdobramento é óbvio: Felipão gasta energia em atividades extracurriculares, ao invés de concentrar-se na escolha da melhor estratégia para a equipe. E, por mais prestígio e carisma que tenha, o desgaste se torna inevitável.

A saída, então, é dar um pontapé nos fundilhos dele – epa, pareço o Valcke! – e chamar outro treinador? Não creio. Essa é solução simplista. O Palmeiras teve uma resma de ‘professores’ nos últimos anos – de promessas a monstros sagrados – e só acumulou frustrações, exceto o Paulista de 2008.

O problema é fora, nos bastidores. Trata-se de mudar mentalidade. A musiquinha do seriado diz “pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filha…” Isso é engraçado na ficção, e com os atores de primeira linha da Globo. Num clube com história rica, e hoje carente, representa atraso de vida. Os cartolas, não sei; mas a torcida sofre.

Briga boa. Corinthians x Vasco será duelo empolgante nas quartas de final da Libertadores. Em 2011, chegaram à última rodada do Brasileiro em condições de ficar com o título; agora, é o tira-teima. O fato de se conhecerem ajuda e atrapalha a estratégia de cada um, pois não há segredos. Além disso, têm jogadores decisivos. Prognóstico difícil, se bem que o Corinthians mostra mais estabilidade.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 11/5/2012.)

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09.maio.2012 11:56:48

A força da bola*

Há mitos no futebol que se eternizam, reforçam preconceitos e escondem erros. Um deles é o de que brasileiros jogam limpo na Libertadores, enquanto os rivais, para obter sucesso, historicamente apelam para catimba e expedientes menos lícitos. Em geral, partimos do princípio de que os gringos são especialistas em nos tirar do sério com pontapés, cotoveladas, cabeçadas, cusparadas, dedos nos olhos, xingamentos e uma infinidade de malvadezas. Como complemento, contam com o mau comportamento do público e o beneplácito dos árbitros, malfeitores que se aliam aos agressores por falar espanhol.

A conversa fiada esteve na base de muitas frustrações verde-amarelas e escamoteou deficiências de nossos representantes. Cansei de ver time daqui ficar estressado antes do tempo, por causa do tal “espírito de Libertadores”, que pressupõe batalhas medievais, em vez de confronto esportivo. A adrenalina em excesso desembocou em nervosismo, bobagens e derrotas. Com a desculpa preparada de que os inimigos apelaram pra ignorância. Difícil, mesmo, é reconhecer que os outros também jogam bola.

O painel batido e catastrófico me veio em mente pelo clima ruim que se esboçou para Corinthians x Emelec de hoje, no Pacaembu. De uma hora para outra despontou tensão desmesurada, alimentada pela turma alvinegra. Acenderam a chama da guerra ainda no gramado do estádio de Guayaquil, assim que o juiz apitou o final do empate por 0 a 0.

Tite disparou contra o árbitro colombiano José Buitrago, que teria cometido barbaridades jamais vistas nestas bandas. Um descalabro, um acinte, uma sem-vergonhice só. Faltou dizer “nunca antes neste país”… O presidente Mario Gobbi não deixou por menos e desceu a lenha na competição. Por pouco não anunciou que tiraria o time da disputa. (Se bem que comentou, dia desses, que era mais importante o título paulista.)

O assoprador não mostrou simpatia nenhuma pela tradição corintiana. Teve desempenho caseiro, como havia acusado Jorge Henrique, no intervalo, e antes de ser expulso com acerto. Nada muito diferente do que já aconteceu milhares de vezes, contra e a nosso favor. A rigor, não perpetrou roubo escandaloso, pois não anulou gol brasileiro, não deu impedimento inexistente, nem marcou pênalti para os equatorianos. Esteve, infelizmente, no limite da mediocridade costumeira. Daí a fazer escarcéu…

A gritaria desmedida pode ser interpretada de duas maneiras: estratégia e nervosismo. No primeiro caso, trata-se de meio de pressionar o juiz desta noite. Uma artimanha manjada, mas nada escandalosa; passável. No segundo, é perigo, pois dispara o alarme e pode virar armadilha na qual o Corinthians já caiu. Para ficar na história recente, foram duas vezes contra o River Plate, em que se preparou para batalha sangrenta e levou um baile.

A maior arma é a inteligência, que se traduz em equilíbrio, atrevimento, esquema de jogo eficiente, dribles e gols. Ou seja, não há segredo nenhum. O Corinthians tem mais time – e aí não vai depreciação ao Emelec. Mas, para impor-se, precisa mostrar o que negou ao público na ida. Como visitante, tratou de não perder. Conseguiu, e para tanto abdicou do ataque.

Agora se vê na obrigação de ir pra cima, sufocar, intimidar com categoria. Por isso, serão fundamentais a proteção de Ralf e Paulinho no meio, os chutes de Danilo e Alex, os deslocamentos de Emerson, a boa postura da defesa. Em resumo: tem de prevalecer a força da bola. E, nesse quesito, o Corinthians está bem servido.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 9/5/2012.)

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O Corinthians joga logo mais contra o Emelec, no Equador, atento aos riscos do mata-mata na Libertadores e de olho no ataque. Tite optou por Emerson e Willian na frente, com a missão de fazer gols que facilitem a vida do time no confronto de volta, na semana que vem, no Pacaembu. Liedson nem viajou; ficou por aqui para “aprimorar a forma” e ser utilizado mais adiante.

O miolo do ataque virou um problema para o campeão brasileiro. E não é de agora. Começou quando Ronaldo virou apenas lenda, antes mesmo de parar, e se acentuou com o declínio de Liedson. O Levezinho desembarcou muito bem no Parque São Jorge, fez gols que compensaram o ocaso do Fenômeno e foi importante na campanha vitoriosa da Série A de 2011.

Na atual temporada, porém, os gols rareiam – foram três até agora em jogos oficiais. Uma secura que ficou em segundo plano pela liderança na fase de classificação do Campeonato Paulista. Mas que se mostrou preocupante com a eliminação diante da Ponte Preta, nas quartas de final. Aquele tropeço determinou primeiro o afastamento de Júlio César, pelos gols que tomou. Depois, o de Liedson, pelos gols que não marcou.

A opção seria Adriano. Na verdade, ele havia sido contratado, um ano atrás, para compensar a aposentadoria de Ronaldo e para revezar com Liedson, 34 anos. Contusão, demora na recuperação e por fim a ruptura (com direito a dispensa por justa causa) atropelaram os planos de Tite. Restou mesmo Liedson, em má fase.

O treinador garante que o afastamento é temporário, que Liedson continua nos planos e que será útil ainda nesta etapa da Libertadores. Pode ser. Apesar disso, há no clube interrogação a respeito da continuidade da colaboração com o atacante, cujo contrato terminaem julho. Aintenção é renovar até o fim do ano, com o que aparentemente não concorda o jogador. O rumo do Corinthians na competição vai determinar também o caminho a seguir na conversa.

Por enquanto, a aposta é Willian. Que já se mostrou boa alternativa, mas não a ideal. Como também não é Emerson. O Sheik completa o trabalho na frente, sem ser goleador. O Corinthians tem vaga para centroavante. Interessados, favor procurar a gerência.

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O Santos não jogou bem em La Paz e não tem muito o que contestar na derrota por 2 a 1 para o Bolívar. Mas quem esteve pior foi a torcida local, com atitudes repetitivas, antigas e superadas de atirar objetos dentro de campo, na tentativa de atingir jogadores rivais. Neymar foi um dos alvos, reclamou e o juiz nada fez a não ser fechar os olhos e tocar o jogo.

Esse comportamento dos anos 1950 pra baixo ainda persiste pela região sul da América porque a Conmebol não tem coragem nem vontade de punir pra valer os clubes mandantes. A turma que há décadas está no poder ao lado de Nicolas Leoz prefere fingir que tudo vai bem, brinca de dar bronca e ainda se mete a achar que a Libertadores é uma das maravilhas do mundo, talvez maior do que a Copa dos Campeões da Europa.

Em campo, o Santos enfrentou o velho fantasma da altitude – inimigo comprovadamente mais letal do que os times bolivianos. Embora em alguns momentos tenha acelerado o ritmo, na maior parte do duelo com o Bolívar atuou com a clara intenção de voltar para casa com empate ou derrota por diferença ínfima. A aposta é impor-se na Vila Belmiro.

A estratégia levou abalo logo no segundo lance de perigo, em cobrança de falta de Campos que bateu na trave, depois nas costas de Rafael e entrou. O Santos ainda empatou, com Maranhão, depois de jogada de Neymar, e levou o segundo, na etapa final, novamente em cobrança de falta de Campos, que entrou no canto esquerdo do gol.

A conta não é complicada; basta 1 a 0 e o atual campeão segue em frente. O Bolívar mostrou-se ajustado e eficiente, sem ser brilhante. Mas não é um fantasma. Se bem que, com os favoritos que andam derrapando ultimamente no futebol, não dá para cravar barbada no confronto de volta. Mas, com jeito, vai.

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