O São Paulo está sem rumo dentro de campo e com autocrítica destrambelhada nos bastidores. Jogadores e comissão técnica não dão conta do recado nas competições de que participam, como mostram as duas eliminações em quatro dias e o futebol oscilante da equipe. A cartolagem reforça a sensação de destempero com atitudes impregnadas de soberba e doses de galhofa fora de hora. Em resumo, está uma esculhambação.
A coisa não vai bem desde cima. Na tarde do segundo jogo com o Atlético, o presidente Juvenal Juvêncio deu longa entrevista ao repórter André Philal. No estilo pirotécnico e na linguagem rococó que o distinguem, destilou ironia pra todo lado. O objetivo, claro, era o de mostrar que o clube que comanda não compactua com acertos antidesportivos, é pautado por lisura e fair-play, e que paga preço salgado por essa postura. Enfim, pintou retrato de uma agremiação composta por cavalheiros. Aquela negócio do difereeeen-txe! de que se gaba. Pode ser, não discuto o caráter de ninguém.
Mas, de tanto deixar o falatório escoar pelo ladrão, o dirigente caiu em armadilha. Pra cutucar os colegas mineiros, referiu-se ao estádio Independência como uma arapuca, por ser acanhado e supostamente intimidar os adversários. Ficou no ar que a artimanha de não jogar no Mineirão seria forma de pensar pequeno. Pois se esqueceu de emendar, mais tarde, que a ratoeira foi tão bem montada que o time dele não viu a cor da bola, levou de 4 a 1, fora o baile, e saiu da Libertadores murchinho, calado e com o lombo dolorido. O Atlético-MG passeou diante de oponente tão estrelado na competição.
Em vez de vislumbrar inveja e supostas armações, o longevo dirigente poderia voltar-se para si próprio e para o tipo de administração que vinga atualmente no Morumbi. A começar por mudanças de estatuto que lhe permitiram estender o tempo de permanência no poder e sufocam a oposição. Antes, o rodízio frequente na presidência tinha o verniz de processo democrático e de renovação constante no clube.
Agora, não. Fica a impressão de que, assim como outras associações, o São Paulo também é uma espécie de capitania hereditária na qual a sucessão ocorre por direito divino ou régio. Erro que levou pesos pesados (Vasco e Palmeiras, por exemplo) a regredirem e perder espaço. Ambos não conseguem se recuperar de anos de absolutismo de personagens de triste memória. O tricolor armou arapuca semelhante e caiu nela.
As consequências se estendem para o gramado – e atingem o torcedor. O sujeito que está nas arquibancadas ou não liga para a política interna ou, o que é mais comum, não tem acesso às disputas de grupos e facções. (Falo dos fãs comuns, não daqueles que têm interesses.) Pois esse cara que veste a camisa, que se esgoela e se escabela, quer ver bons resultados, concentra a atenção na turma que faz a bola correr. E nisso tem acumulado decepções.
O São Paulo gastou uma dinheirama e não montou elenco competitivo e homogêneo. Escrevi algumas vezes que não o considerava frágil – mas, depois de seguidos sustos e fiascos, tendo a rever minha opinião. Difícil encontrar justificativa para seis derrotas, três vitórias e um empate na Libertadores (com os jogos da fase preliminar). Mal se formou, já terá de passar por reforma.
Para não ficar em análise imediatista, com base em episódios recentes e ainda quentes, um recuo na folhinha amplia a crise de identidade tricolor. Depois dos títulos nacionais de 2006/07/08, minguaram as conquistas. A única foi a Sul-Americana de 2012, com a final inacabada com o Tigre. Se quiser aliviar, se pode alegar que ciclos de glórias e apertos fazem parte da história dos grandes times. Meia-verdade.
O São Paulo ficou duas décadas (1989/2008)em evidência e se tornou dos mais premiados clubes brasileiros. Cultivou a imagem de eficiência e vanguarda. Mas estagnou e precisa de mudanças – do topo à base, se pretende de novo ser diferente, de fato e não só no papo.
*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 10/5/2013.)
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Escrevi em minha coluna no Estadão de quarta-feira que a cobra iria fumar no Independência. Bastava saber de qual lado. A resposta veio clara, sonora, inquestionável, nos 4 a 1 do Atlético sobre o São Paulo. “Fora o baile”, como se dizia no meu querido Bom Retiro, bairro paulistano onde nasci e me criei.
Ronaldinho Gaúcho e sua turma desmontaram um adversário que já havia sido chacoalhado com os 2 a 1 de virada na semana passada no Morumbi. Um São Paulo torto, remendado, a partir da escalação, na qual apareceu Douglas com função de meia, de volante, de atacante. Enfim, não se sabe direito com qual função.
O time de Cuca não deu em momento algum espaço para o São Paulo pensar, criar, ousar, muito menos sonhar com a reação. Se, em nome da tradição tricolor, se esperava pelo menos atrevimento, na prática não houve sequer cócegas no Galo. O que se viu, do começo ao fim, foi um passeio de uma equipe superior, autoconfiante e equilibrada.
O Atlético criou chances, ainda no primeiro tempo, de ter placar folgado. Mandou bola na trave, com Ronaldinho Gaúcho, e assustou com Bernard e Diego Tardelli. Ficou na vantagem do 1 a 0, gol de Jô – e praticamente liquidou a tarefa antes do intervalo. O São Paulo foi batido para os vestiários. Era visível a cara de desânimo dos jogadores.
Desânimo que virou pesadelo na etapa final, quando vieram mais dois gols de Jô (ou Jôvandowski, como falaram alguns torcedores gozadores) e outro de Tardelli. O São Paulo descontou com Luis Fabiano, só pra não ficar no zero.
O Atlético segue como um dos fortes candidatos ao título desta temporada – conquista inédita, esperada. O São Paulo precisa ser remontado para o Brasileiro. Mas, acima de tudo, é preciso que dirigentes saiam do pedestal. O presidente Juvenal Juvencio afirmou, antes do jogo, que o Independência era uma arapuca. Era, sim. Tão bem feita que o time dele não viu a cor da bola.
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O jogo com a Ponte Preta seria na base do vai ou racha para o São Paulo. E foi. O time de Ney Franco fez atuação decente, no embalo de sábado à noite, no Morumbi, venceu por 3 a 0, foi a 28 pontos e se mantém vivo no Campeonato Brasileiro. A diferença ainda é grande, para Atlético-MG e Flu, que estão na dianteira com 39, mas serviu para aliviar a tensão no tricolor. Afinal, com o resultado interrompeu sequência de três jogos com derrotas.
O São Paulo teve postura firme do começo ao fim. A Ponte resistiu quase 20 minutos, até o pênalti cometido por Roger que Rogério Ceni transformou no primeiro gol. Com a cobrança impecável, o goleiro deu um bico na trapalhada da partida anterior, quando fez um gol contra na derrota por 3 a 0 para o Náutico, fora de casa.
A vantagem abriu a guarda da Ponte e o segundo gol, aos 26, veio como consequência natural. E um belo gol marcado por Lucas, o destaque do jogo. O meia-atacante arrancou bem a seu estilo – e que não se viu na seleção brasileira – para aumentar a vantagem e mostrar que vale a pena correr o risco de escalá-lo até o fim da temporada, mesmo já negociado com o PSG.
A diferença deu estabilidade ao São Paulo, que ainda criou chance de ir para o intervalo com placar mais folgado. A Ponte assustou uma ou outra vez com Roger, no segundo tempo, mas nada que abalasse. Lucas saiu aos 15 minutos, foi substituído por Osvaldo, que fechou a conta aos 42, também numa bonita jogada individual. Um golaço, candidato por enquanto a ser dos mais bonitos da penúltima rodada.
A vitória faz o São Paulo respirar e teve um aspecto curioso. Ney Franco e jogadores admitiram que, horas antes do jogo, o presidente Juvenal Juvêncio foi convidado a dar uma palestra motivacional. As palavras do dirigente, segundo os subordinados, tiveram efeito positivo, encorajador. Ah, certo. Então, está descoberto o caminho para as vitórias: daqui em diante, basta “convidar” o cartola que as vitórias estarão garantida.
Tão simples e ninguém tinha se dado conta disso ainda? Cada explicação que arrumam…
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Os antigos imperadores romanos adoravam espalhar bustos de si próprios ou estátuas de corpo ineiro pela capital, Roma, e por todos os cantos do império. Era demonstração de poder, de fascínio e forma de eternizar a passagem deles pelo trono. Mesmo que, muitas vezes, os sucessores tratassem de escondê-las, para colocar as mais novas.
Por isso, até hoje a gente tropeça em imagens de César, Nero, Augusto, Calígula, Tibério e toda aquela turma do barulho. Há milhares em lugares de destaques e outras tantas tomando pó em museus da Itália e de outros países europeus e asiáticos. Muitas com nariz quebrado, ou sem braços, sem pernas. E, pra ser sincero, parecem iguais.
A moda atravessou séculos, milênios e não é que perdura até hoje? Os donos do poder têm prazer incomensurável de admirar-se em bronze, em mármore, em cimento ou até mesmoem gesso. Oque importa é fixar o olhar vencedor, altivo, para a posteridade. Ditador, então, não resiste à tentação de mostrar a gratidão de seu povo.
No futebol também tem disso. Como pega mal o cartola propor a auto-homenagem, a saída é fazer com que espontaneamente conselheiros, correligionários ou simples bajuladores apresentem moção nesse sentido. E que, em geral, os agraciados aceitam, com singela modéstia e tomados de emoção.
Por aqui temos dois exemplos recentíssimos: o Corinthians se dispõe a erguer um busto de Andrés Sanchez, no Parque São Jorge ou no futuro estádio, como prova de carinho, reconhecimento e admiração. Ele disse que não quer, mas… Agora, para não ficar atrás, a conselho do São Paulo anuncia que fará o mesmo para Juvenal Juvêncio, que tem seu mais recente mandato contestado na Justiça. Tá certo.
Daqui a pouco, alguém vai propor busto para aquele todo-poderoso que recentemente largou tudo e se mandou antes que a vaca fosse pro brejo. Você duvida?
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O São Paulo girou, girou e voltou a chover no molhado, ao decidir pela contratação de Emerson Leão. Ao optar por um treinador que estava de molho desde agosto do ano passado (o último clube que dirigiu foi o Goiás), a diretoria deu mais uma demonstração de que está perdida e preocupada com novos fracassos até o fim do ano. Foi uma escolha baseada em falta de opções e não como consequência de planejamento.
O curioso foi uma das explicações. Na avaliação de dirigentes, Leão tem o perfil que o São Paulo queria: vencedor, de temperamento forte e com identificação com o torcedor. Ué, se tem todas essas qualidades, por que não foi procurado dois anos atrás, quando Muricy pegou o boné e foi embora? Por que não foi chamado para o lugar de Sérgio Baresi, que ficou um tempo como interino? Por que não veio após Ricardo Gomes ter sido dispensado? Por que não foi lembrado assim que saiu Carpegiani?
Leão não era prioridade do São Paulo, não abria a lista de desejos do clube. O número 1, com todos os desmentidos de praxe, no momento é Luiz Felipe Scolari. Mas, como Felipão disse que não pretende sair do Palmeiras, deu uma esfriada na turma de Juvenal Juvêncio. O sempre citado Paulo Autuori é outro enroscado para voltar ao Morumbi.
A intenção era segurar a onda com Milton Cruz até o encerramento da temporada. Mas, com a vitória apertada sobre o Libertad (1 a0, na semana passada) e com o futebol insosso no empate com o Coritiba (0 a0, no domingo), a cartolagem são-paulina preferiu ver quem estava disponível. E o nome com apelo era Leão.
Como a esta altura não há muito mais o que perder, o São Paulo resolveu arriscar outra vez. Pra ver no que vai dar. Leão durante um tempo teve fama de consertar times tortos e conquistou títulos. Suas últimas experiências não foram expressivas. Vamos ver se os 14 meses de férias fizeram com que tenha recarreagado as baterias e se torne, de fato, treinador para desenvolver trabalho de longo prazo no Morumbi. E não apenas para exercer de novo o papel de bombeiro para apagar incêndio e depois ser liberado.
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O São Paulo joga com o Libertad nesta quarta-feira pela Sul-Americana ainda atordoado pela derrota de domingo para o Atlético-GO e pela demissão de Adilson Batista. Mas um jogador irá ao Morumbi encafifado com seu futuro. Rivaldo não sabe se sua aventura tricolor continuará em2012. Atendência é de que saia, mas o ponto de interrogação deve persistir até o final da temporada.
A dúvida foi lançada por Juvenal Juvêncio. O presidente do São Paulo constatou, em entrevista ao Estadão, que o astro já não é mais aquele de outros tempos. E deu a entender que sua presença constante, no breve período de comando de Adilson, teria contribuído para perda de prestígio do treinador recém-defenestrado.
O recado é claro: a partir de agora Rivaldo deve ser usado de forma espaçada, econômica, digamos assim. Porque já não tem o fôlego de outros tempos. E o interino Milton Cruz vai mostrar logo de cara se captou o que pretende o “amado mestre”, como diria Rolando Lero para o professor Raimundo na “Escolinha”.
Mas será que o dirigente são-paulino não sabia que Rivaldo estava na fase final de brilhante carreira? O talento contina indiscutível, trata-se de um dos grandes do futebol. Só que mesmo os craques sentem o peso da idade – e o camisa 10 completou 39 anosem abril. Nãoé o jovem que encantou nos tempos de Palmeiras e Barcelona. Nem aquele fundamental no vice do Brasil em 1998 e no penta em 2002.
Rivaldo se sente disposto, mas os reflexos não são os mesmos. Ainda assim, foi e pode ser útil ao São Paulo para encerrar o ano de forma digna. E qual seria essa maneira com algo de gratificante? O título da Sul-Americana, uma vez que o do Brasileiro ficou mais difícil. Não é delírio, basta colocar cabeça e pernas no lugar.
E Rivaldo estaria pavimentando uma saída honrosa do São Paulo. Para, quem sabe?, curtir o seu Mogi Mirim antes de pendurar as chuteiras de vez. Independentemente do caminho que o tricolor seguir daqui em diante, Rivaldo merece respeito e carinho, porque tem biografia de se tirar o chapéu.
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A fronteira entre a graça e a grosseria é tênue. Basta um tom acima, e uma observação que se pretendia espirituosa passa a soar como ofensa. Isso ocorre com frequência no futebol, campo fértil em provocações, gozações e cutucadas afins. Polêmicas e barracos entre jogadores, técnicos, torcedores e cartolas apimentam rivalidades, e na maioria das vezes caem no folclore. Mas há quem erre na dose e não perceba a hora de recuar.
O exemplo paroquial está em Andrés Sanchez e Juvenal Juvêncio, presidentes dos times mais populares do Estado. Os dois não se entendem nem se envergonham de escancarar as diferenças. Cada um a sua maneira – o corintiano mais direto e rude; o são-paulino com ar matreiro, superior e com linguagem que rescende a verniz de rebuscamento. Ao rodarem a baiana, já proporcionaram momentos picarescos e divertidos.
Agora, a desavença saiu do terreno da galhofa e enveredou para o do preconceito, com prejuízo para ambos. Juvêncio respondeu a mais um lote de críticas do rival com a afirmação de que se tratava de questão de “Mobral inconcluso”. Sanchez retrucou com referências pouco claras a respeito da trajetória profissional do colega, “que sempre ocupou cargos públicos”, enquanto ele ganha a vida na iniciativa privada.
Os dirigentes se expuseram inutilmente, num episódio em que não há nada de burlesco. Qual o problema de alguém construir carreira no serviço oficial? A maioria dos servidores faz parte da massa comum de trabalhadores, com mesmos desejos, direitos, responsabilidades e pressões. Muda, talvez, o vínculo empregatício. Há apadrinhados e oportunistas? Sem dúvida – e o Estado já nos anos 1970 apontava a casta dos marajás. Esses precisam sair do caminho, por profilaxia e felicidade geral da nação. O que não se pode é enraizar o estereótipo de que só existem privilégios para quem exerça cargo público.
A postura de Juvêncio não foi menos delicada. Como está acostumado a boutades que regozijam seus sequazes, dardejou o opositor com nova pilhéria. (Caprichei na frase, porque gente fina é outra coisa.) Provavelmente a intenção era dar uma enquadrada em Sanchez, que parece ter obsessão pelo São Paulo. Não passa dia em que o corintiano não se ocupe da rotina dos desafetos. A mais recente é falar a respeito do futuro de Dagoberto, que ele (Sanchez) anuncia como fora do Morumbi. E daí? Por acaso isso é problema do Corinthians?
Mas a blague de Juvêncio desta vez pisou na lama do mau gosto. Ao sugerir que falta instrução ao antagonista revelou uma visão de mundo ultrapassada, aquela que vê a massa inculta como estorvo. Sabe como é? A tal da gente diferenciada que até já pode andar de metrô, benefício que por boa vontade lhe concederemos. Desde que as estações fiquem longe do nosso bairro, ó que horror!
Analfabetismo é uma indecência, uma vergonha que temos a obrigação de aniquilar. O Mobral, bem ou mal, afastou milhões de pessoas da violência de não saber ler nem escrever. Quantos são-paulinos de todos os cantos do Brasil não se orgulham de sentir-se mais cidadãos por terem saído, daquela forma, das trevas da falta de instrução?
Não importa muito, também, se este ou aquele não usa todos os esses nos plurais ou se não conjuga verbos à perfeição. Sem embrenhar-me na gramática e na linguística, lembro que cacoetes da linguagem corriqueira, hoje vistos como erros, no futuro virarão norma culta. Os “dialetos populares” transformam os idiomas.
Juvêncio fala bem? Parabéns! Sanchez está mais pra “aqui é Curíntia, mano?” Se faz entender? Então, bola pra frente! Bobagem atacar alguém pela forma como se expressa. É modo pobre de atingir inimigos. Em vez de perder tempo com picuinhas, a dupla ajudaria o futebol se levantasse bandeiras da transparência e da ética. E sobretudo se empunhasse as bandeiras da tolerância e da paz.
Vespeiro verde. Paz é artigo em baixa no Palmeiras. A agressão a João Vitor e o desentendimento entre Kleber e Felipão são novos capítulos do momento vergonhoso de um clube heroico. Torcedores, atletas e técnico deveriam estar do mesmo lado e não chocar-se uns contra os outros. A desintegração do time, infelizmente, é reflexo de mal maior, que vem de bastidores apodrecidos e ausência de liderança. Sobram vaidade e sede de poder, falta espírito palestrino.
*(Texto da minha coluna publicada no Estado de hoje, dia 14/10/11.)
Juvenal Juvêncio costuma dizer que o São Paulo é um clube “diferennn-txe”, para destacar a maneira peculiar (e altiva) como se comporta, dentro e fora de campo. Nos bastidores, pode até continuar a fugir da média de seus pares, mas nas quatro linhas desanda como qualquer equipe mortal, como aconteceu recentemente na Libertadores com Fluminense, Cruzeiro, Grêmio e Inter, ou como Palmeiras, Botafogo, Flamengo na Copa do Brasil.
Nesta quinta-feira, o tricolor seis vezes campeão do Brasil, três da Libertadores e três do Mundial deu adeus à perseguição ao título inédito da Copa do Brasil, com a derrota por 3 a 1 para o Avaí. O que se viu em Florianópolis foi um show de aplicação, eficiência e dedicação dos donos da casa e um festival de desatenção e erros da equipe paulista.
O São Paulo não soube sequer segurar a vantagem ampliada que obteve, quando fez 1 a 0, com Casemiro, aos 15 minutos. Como havia vencido em casa por esse placar, só perderia a vaga para a semifinal se fosse derrotado por 3 a 1. Uma tarefa difícil, na teoria, porque o tempo corria contra o Avaí. Na prática, porém, não foi o que aconteceu.
O que se viu foi o Avaí não perder a esperança e crescer pra cima do São Paulo. A perseverança foi premiada no minuto seguinte, com o gol de William. O empate deu injeção de ânimo extraordinária ao time catarinense, que apertou e virou aos 30, com Bruno. Com menos de um minuto da etapa final, fez o terceiro, com Marquinhos Gabriel.
Daí para a frente, o São Paulo desabou, mostrou-se inseguro quanto Paulo Cesar Carpegiani e pouco teve forças para chegar ao segundo (e salvador) gol. Ao contrário, foi o Avaí quem se aproximou do quarto, enquanto seu adversário se perdia até em substituições: Carpegiani cologou Marlos no lugar de Fernandinho, mas não esperou até o fim para tirá-lo e colocar William José em seu lugar.
O São Paulo perdeu, perdeu-se e ainda tem um incêndio para apagar. Rivaldo ficou fulo da vida por não ter entrado e falou para quem quisesse ouvir que a derrota foi uma vergonha para o time e que se sentiu humilhado pelo treinador. Vamos ver o que fará, agora, Juvenal Juvêncio, o presidente “difereeeen-txe”.
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O poder seduz. Sentir-se adulado, servido, atendido, obedecido infla o ego. Ser chamado de ‘doutor’, ‘presidente’ funciona, para algumas pessoas, como potente afrodisíaco. Não é por acaso que tem gente que passa a vida atrás de cargos que lhes confiram autoridade. Mandar provoca sensação de superioridade, de imortalidade. O poder também ilude, distancia da realidade, principalmente quando é exercido por muito tempo. Não é por acaso que ditadores ficam chocados quando se dão conta de que o povo não mais os deseja. Caem das nuvens.
O futebol é uma das atividades em que a busca pelo poder se torna obsessão. Cada vez mais, na mesma proporção em que ganha relevância social, financeira, cultural até. São comuns os casos de longevidade de mandatários. Muitos dirigentes entram na política esportiva com bons propósitos, carregam a bandeira da modernidade, prometem ser breves e profundos nas mudanças, mas… apenas picados pela mosca branca da soberania fazem de tudo para perpetuar-se no cargo. Comem o filé e não largam nem o osso.
Com o terceiro mandato consecutivo no São Paulo, Juvenal Juvêncio entra para o clube dos que se consideram imprescindíveis na agremiação que representa. A ponto de não abrir espaço para sucessão e ignorar oposição. Sintetiza a figura do pai todo-poderoso, o senhor de corações e mentes da coletividade que administra. Depois dele, virão as trevas, o naufrágio. Ou o dilúvio, como disse Luís XV. Externou esse sentimento ao afirmar, na quarta-feira, que o São Paulo precisa dele. “Todos sabem disso”, ensinou.
O cartola das frases arrastadas, mordazes, mostrou que não é difereeeeen-tccchê como gosta de enfatizar. É igual a tantos que o precederam ou que o rodeiam. A vitória dele deu um bico na modernidade que o São Paulo apregoa com ar de nobreza, blasé, para distinguir-se da raia-miúda dos demais clubes. Ok, foi obtida nas urnas, mas após mudança de estatuto. Em que difere de Palmeiras, Santos, Vasco, Corinthians, Atlético Mineiro, Cruzeiro e inúmeros outros que viveram (ou vivem) sob a influência de dinastias?
O São Paulo até recentemente tinha o verniz de arejamento ao optar pelo rodízio de presidentes, ao contrário de vários ‘coirmãos’. Embora fosse o mesmo grupo, havia regularmente mudança de nome do poderoso de plantão, o que dava a sensação de renovação.
Parecia até carregar bandeira da contestação e remar contra a maré, como nessa história da briga pelos direitos de transmissão de tevê. O grande aliado do Clube dos 13 também muda a direção do leme e prepara a debandada, como os simples e fracos mortais…
Agora, rasgou-se a fantasia. O São Paulo entra na vala comum, como todos. O futebol brasileiro não mudará tão cedo.
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