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Dia desses, no SportSCenter, na ESPN Brasil, eu disse que não estranharia se logo alguém no Flamengo fosse reclamar ou da falta de ritmo de jogo ou da maratona, Ficaria por conta do gosto do freguês. Evidentemente, disse aquilo em tom de brincadeira, mas juro que com temor de que tivesse fundo de verdade. Sabia que cedo ou tarde viria à tona. Pois não é que a primeira desculpa já foi usada?! E por quem? Por Ronaldinho Gaúcho.

O astro do Flamengo, que foi poupado de treino durante a semana por problemas musculares, recorreu à explicação clássica para justificar, em parte, o 1 a 1 com o Sport, na noite deste sábado, no Recife, na abertura do Brasileiro. Ronaldinho considerou bom o empate, porque a equipe dele se ressentiu do longo tempo de inatividade, enquanto o rival esteve sempre em ação.

O Flamengo passou quase um mês sem partidas oficiais. Parada que lhe rendeu prejuízo financeiro e tanto. Em contrapartida, teve tempo de sobra para preparar-se para a Série A e largar com tudo, com o grupo zerado, com o fôlego em dia, com jogadas ensaiadas, com a cuca fresca. Atletas e treinadores não reclamam do calendário apertado? O Fla teve folga e tanto.

Daí, na estreia, joga futebol burocrático, sem criatividade, dispersivo, lento em muitos momentos. Enfim, uma bolinha pequena, muito aquém de sua capacidade. E vem Ronaldinho dizer candidamente que faltou ritmo! O que ele e companheiros fizeram essas semanas todas?! O tempo passa, mas tem lenga-lenga que não muda. Pior, tem quem acredite.

 

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Inacreditável o que acontece com o Flamengo. O clube com maior torcida do Brasil, com irrefutável apelo popular, superexposto na mídia e com história de sucesso, estreia logo mais no Brasileiro e não consegue fechar patrocínio à sua altura. Em vez de ter uma logomarca forte estampada em sua camisa, parte para o loteamento do uniforme, essa praga recente do futebol brasileiro, e arrecada uns trocados no varejo. Como é possível isso?!

É constrangedora a dificuldade rubro-negra para encontrar uma empresa disposta a fazer parceria publicitária. O bom senso e a lógica indicam que um dos mantos sagrados mais importantes do futebol mundial teria apelo suficiente para fazer investidores se estapearem para o privilégio de aparecerem nele. No entanto, o que se vê é uma penúria danada para arranjar pequenos anúncios, quase como classificados de jornal, para preencher espaços.

Alega-se que os valores propostos não satisfazem as exigências do clube, ou que há percentuais altos a serem pagos para intermediários. As duas explicações são preocupantes. Mesmo em época de crise econômica – o que não é o caso aqui no Brasil –, os grandes anunciantes não se recusam a colocar dinheiro em negócios rentáveis. E o Flamengo, até prova em contrário, significa retorno garantido.

Segundo aspecto: como imaginar que uma empresa como essa tenha a necessidade de recorrer ao auxílio de mediadores para obter seu patrocínio? Flamenguistas de peso não faltam no mercado para emprestar seu talento nessa tarefa. Onde se escondem? Ou não têm espaço para colaborar no clube? A palavra é dos dirigentes.

Enquanto isso, a saída é tornar a camisa poluída, para amealhar um dinheiro aqui, outro ali, para despesas mais imediatas. Grana insuficiente, por exemplo, para quitar a dívida com Ronaldinho, seu nome mais caro. E dá-lhe, também, dependência da verba da televisão.

E pensar que se trata de Flamengo e não de um desconhecido e amador time de fundo de quintal…

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18.maio.2012 10:58:38

Encanto universal*

O estádio de Munique amanhã será centro de atenção internacional, ao hospedar o duelo entre Bayern e Chelsea, na final da Copa dos Campeões da Uefa, o mais badalado torneio de futebol que existe por aí, fora o próprio Mundial. Não há a menor dúvida de que será espetáculo bonito, bem organizado. Um programão, que vou ver pela tevê e aplaudir.

Mas reservarei adrenalina e emoção em porções generosas para a largada do Campeonato Brasileiro, hoje com o pontapé inicial na tensa Série B e neste sábado com três jogos da Série A. Essas partidas fazem minha cabeça, mexem comigo. E assim se repetirá até dezembro, como ocorre pontualmente desde que fui fisgado por esporte tão fascinante em algum momento perdido no tempo.

Como é que é?! Acha que estou maluco por admitir que a bolinha daqui desperta paixão maior do que a bolona dos gringos? Pois digo que é isso mesmo. Pelo menos pra mim. Admiro a estrutura dos europeus, reconheço que têm clubes poderosos e que se valem inteligentemente da qualidade de artistas importados da América Latina. Já nos últimos suspiros dos anos 1970, defendia aqui no Estado a necessidade de a seção de Esportes (então, ainda não tínhamos um caderno) dar espaço maior para o futebol internacional. Sobretudo da Itália, que na época era a meca dos boleiros em busca de fama e grana. Portanto, não sou xenófobo nem tenho nada contra a globalização do joguinho de bola.

Mas meu coração continua fiel às equipes de cá. Nem ligo se alguém considerar nacionalista esta postura – acharia mais simpático classificá-la de bairrista. Tenho a respaldá-la um gênio que sabia das coisas. Leon Tolstoi era russo, viveu em grande parte do século 19, tinha ligação profunda com o país dele e se tornou um dos maiores nomes da literatura ao abordar temas domésticos. O autor do monumental Guerra e Paz legou frases de primeira – uma que corre mundo até hoje dizia: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Com interpretação livre do que afirmou o pai de Anna Karenina, a gente tende a crescer o olho para o que tem no vizinho e esquece de belezas que estão ao nosso alcance. Assim é no futebol. Consideramos os campeonatos estrangeiros, quaisquer sejam eles, a oitava maravilha da natureza. São sempre melhores, mesmo que não sejam… Já me conformei com a existência por estas bandas de brazucas a torcer por Milan, Manchester, Real, Barcelona. São multinacionais. Mas, se bobear, temos fãs-clubes dos Fulham, Lecce, Sochaux, Villarreal, Shakhtar da vida. Dose pra mamute.

Pois a minha aldeia é formada pelo São Paulo e sua obsessão de chegar ao hepta, pelo Corinthians e o desejo de igualar os seis títulos tricolores, pelo Santos e sua moçada de ouro, pelo Palmeiras e o sonho de retornar aos dias de glória, pelo Bahia e sua torcida eternamente otimista, pelo Internacional e o tetra que persegue desde a campanha invicta de 1979. Estou ansioso para ver o que Lusa, Ponte Preta, Atlético-GO, Sport, Figueirense, Coritiba poderão aprontar, ou como alguns tentarão salvar-se. O Flu é forte e o Fla, imprevisível, assim como o Botafogo. E assim por diante.

Não espero o maior espetáculo da Terra, nem sou tonto de achar que nosso futebol retomou patamar técnico de décadas atrás. Mas há mudanças em curso, dinheiro tem entrado (no caso da tevê de forma perigosamente desproporcional) e clubes ousados retêm as estrelas. Mesmo que houvesse pindaíba total, nada se iguala ao prazer de ver meu time em campo. É time brasileiro. E o seu?

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 18/5/2012.)

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Passei um tempo do sábado a ler material a respeito da nova aventura de Zinho. O ex-jogador e até dia destes comentarista de tevê aceitou o desafio de dirigir o futebol do Flamengo, a convite da presidente Patrícia Amorim. É mais um ídolo para o qual o rubro-negro apela, na tentativa de ajustar-se. Vai dar certo? Não sei – e sou um tanto cético.

Zinho é bacana, respeitado e admirado no meio. Como atleta tem currículo impecável e vencedor – no Flamengo, no Palmeiras, no Grêmio, na seleção, no exterior. A carreira foi longa, daquelas que chegam até o sujeito dobrar os 40 anos. Conseguiu isso por se cuidar – atleta responsável. Enfim, exemplo e tem o que contar e mostrar aos jovens profissionais.

Essas qualidades o qualificam para a função? Sim, claro. Mas não garantem de antemão sucesso. Se fosse apenas para lidar com egos, com as manhas e com as espertezas e fraquezas de boleiros, tenho certeza de que Zinho conseguiria tirar de letra. O trabalho, porém, não se limita a colocar em prática o que aprendeu em anos e anos de gramados e concentrações.

Zinho terá de lidar com pressões, jogos de interesses, choques de personalidades. O Flamengo é enorme, uma nação – e com isso os conflitos são permanentes e devastadores. Júnior, alguns anos atrás, e Zico mais recentemente são dois exemplos de ícones flamenguistas engolidos por atitudes nem um pouco enobrecedoras. Resistiram por pouco tempo, antes de jogar a toalha.

Tomara Zinho tenha mais sorte e jogo de cintura, para dobrar desconfianças e interferências. É bem diferente de enfrentar botinadas de zagueiros, xingamentos de torcedores. Se passar por essa prova, abrirá caminho para tornar-se referência na profissão. Caso contrário, não demora muito e a televisão resgatará um aprendiz de comentarista. (Vinha bem, no canal pago. Ainda um tanto tímido, mas com potencial para deslanchar.)

 

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O Flamengo rebolou um bocado pra contratar Ronaldinho Gaúcho, no início do ano passado. Apostou pesado, em leilão do qual participou também o Grêmio, e cedeu aos desejos dos representantes do jogador. Quando ganhou a corrida, imaginou que lucraria com o craque – com títulos em campo e com dinheiro de publicidade.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. O Flamengo com Ronaldinho não deu salto de qualidade – ou não foi melhor do que nos últimos anos. E, tão grave quanto a secura de taças, tem sido a escassez de dinheiro. A imagem do astro hoje não “vende”, como um tempo atrás.

O mercado publicitário deve ter lá suas razões para acreditar que não se trata de garoto propaganda eficiente. Por isso, não houve campanhas em mídia nem patrocínio na camisa.  A direção rubro-negra imaginou que o Gaúcho representasse um ganho como Ronaldo no Corinthians. Um tiro n’água daqueles…

Para complicar, falta dinheiro para pagar o que foi estipulado. O acordo com a Traffic, que bancaria parte dos salários, foi pro espaço, e o Flamengo tem de arcar com tudo. Resultado disso: deve ao jogador, segundo o empresário Roberto Assis, quatro meses de vencimentos. Se os cálculos que há em sites for correto, são 4,8 milhões de reais em atraso. Dinheiro pra burro.

Não sei se a soma é essa, se é mais ou se é menos. Sei que o concordado e assinado tem de ser respeitado. Podem ser 100 reais ou 10 milhões. Pagar salários é sagrado, é fundamental na relação entre empregador e empregado. Ah, mas alguém pode alegar que Ronaldinho não dá retorno. É outro papo, que não justifica atraso nos salários. Nunca.

Ah, mas é exagero pagar tudo isso. Também é questão a ser estudada. Os cartolas prometem os tubos para qualquer jogador e exageram quando se trata de estrelas consagradas. Depois, no fim do mês, começa a bater desespero. Então, que façam planejamento sensato, que sejam fiscalizados pelos Conselhos – e que cumpram o combinado e aprendam a lição.

Se o clube não estiver satisfeito com o desempenho do jogador (e, particularmente, acho frustrante a passagem dele na Gávea), tem um caminho a seguir: chamá-lo, cobrá-lo e, se for o caso, romper o contrato e arcar com as cláusulas rescisórias. Só não vale dar cano no pagamento.

Até quando vai a parceria? Não sei. Mas, infelizmente, não é vitoriosa. Por culpa de ambas as partes.

 

 

 

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A fé ensina que milagres acontecem, que Deus ajuda quem cedo madruga e por aí vai. Mas é preciso merecer a graça, dar uma forcinha e não apenas transferir a responsabilidade para a ação celestial. O Flamengo esteve perto de conseguir um bênção divina, ao bater o Lanús por 3 a 0 na noite desta quinta-feira, no Engenhão.

E, por questão de minutos, não garantiu a classificação para a próxima fase da Libertadores, já que Olimpia e Emelec empatavam por 2 a 2 em Assunção até os 46 minutos da etapa final. Aquela era a única combinação possível. Em cima da hora, porém, o castigo para os rubro-negros veio com o terceiro e definitivo gol equatoriano: 3 a 2 e o Emelec avança, com o já classificado Lanús.

Foi triste, tenso e emocionante para os flamenguistas o que aconteceu no Paraguai? Claro que foi – e muito. Mas não se pode dizer que houve injustiça, azar ou coisa parecida. Antes de implorar por milagre, o time brasileiro deveria ter feito a parte que lhe cabia, ou seja, ganhar os pontos suficientes para não depender de nenhuma entidade superior, muito menos de gols paraguaios ou equatorianos.

O Fla foi desclassificado por seus erros e não por falta de fé. Faltaram eficiência e regularidade ao time de Joel Santana em pelo menos duas ocasiões cruciais: primeiro, quando vencia o Olimpia por 3 a0, em casa, e permitiu o empate. Depois, ao ser incompetente para garantir a vitória ou o empate diante do Emelec, como visitante. Vencia até a metade do segundo tempo, levou o segundo gol e outra vez há poucos minutos do apito final tomou o terceiro.

 Esses cinco pontos jogados no lixo pesaram. O desempenho atento desta rodada final só tornou mais evidente o desleixo anterior do Flamengo. Nesta quinta, desde o começo partiu pra cima, criou chances, fez os gols. Como se espera de um time forte. E Ronaldinho Gaúcho jogou também à altura de seu nome.

 Bonito, mas veio tarde essa demonstração de entrega. Pois o anjos e santos sorriram para o Emelec e preferiram agraciá-lo com os 3 a 2 de virada. (Ora, eles também são filhos de Deus…) O Rubro-negro agora precisa fazer um exame de consciência, ver onde errou, entender que não basta ter camisa e torcida como garantia de sucesso. E lutar para voltar à Libertadores em 2013.

 Se tiver mesmo fé, a moçada na Gávea tem de acender uma velinha. Pois a crença em algo superior não pode estar vinculada ao recebimento de “favores” divinos. Ela é incondicional e irrestrita.

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O Flamengo dispensou Vanderlei Luxemburgo, pouco tempo atrás, por considerar que o ciclo dele estava encerrado e que eventual permanência prejudicaria projeto mais ambicioso, o de conquistar a Taça Libertadores. Livrou-se de um funcionário indesejado e se voltou para a solução mais à mão, que era Joel Santana.  O ‘papai’ chegou com o costumeiro discurso descontraído, mexeu pouco na estrutura da equipe, os resultados não apareceram e agora se vê a um passo da eliminação do torneio continental.

O mais novo golpe veio na noite desta quarta-feira, na derrota para o Emelec, fora de casa, 3 a 2, com virada quase em cima da hora. Com o resultado, o Fla segura a lanterna no Grupo 2, com 5 pontos, e depende de milagre para seguir adiante. O Emelec está com 6, o Olimpia acumula 7 e o Lanús lidera com 10. Na próxima rodada, dia 12, o Flamengo recebe o Lanús e o Olimpia joga em casa com o Emelec. O Fla tem de ganhar e torce por empate no Paraguai, única combinação que lhe serve. Difícil, bem difícil…

Ficou complicado por causa do futebol instável, pouco consistente e por vezes dispersivo que o Flamengo tem mostrado, e não foi apenas nesta quarta-feira. Já havia ocorrido o mesmo contra o Olimpia, no Engenhão, quando o Rubro-negro abriu vantagem de 3 a 0 e permitiu o empate. Depois, veio o sufoco em Assunção e a derrota por 3 a 2. Para completar a sequência ruim, novo tropeço.

No jogo com o Emelec, os erros do Fla superaram, ainda uma vez, os acertos. Leo Moura fez 1 a 0, mas o time não conseguiu sustentar a vantagem e cedeu empate aos 33, com Figueroa. Antes do intervalo, ficou na frente outra vez, com Deivid aos 42. No segundo tempo, Joel  fez mudanças, tentou reforçar o setor defensivo e o resultado foi… a virada dos equatorianos, com Figueroa aos 37 e Gaybor, de pênalti, aos 45.

E o sonho da Libertadores está a ponto de se desfazer… O mal do Fla, pelo visto, não era Luxa.

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23.fevereiro.2012 16:14:23

Deivid: um lance que deu dó

Você vai dizer que o Deivid é craque? Não, né? Ele está na média dos jogadores que andam por aí. Como centroavante, já fez muitos gols e errou também. Só que nunca deve ter imaginado que um golzinho perdido pudesse lhe provocar tanta dor de cabeça. Pois foi o que aconteceu por causa da falha antológica na derrota do Flamengo para o Vasco, na noite de quarta-feira.

O lance já rodou o mundo, está na boca do povo e pode ser acessado na internet, no celular, no Youtube; enfim, em toda a parafernália eletrônica que expõe nossa vida para qualquer um. A bola veio mansa pra ele mandar para o gol do Fernando Prass, ali, a meio metro da linha fatal. Era só encostar o pé e mais nada. Foi o que fez. E a danada bateu na trave.

O Deivid, os torcedores do Flamengo, do Vasco, você, eu. Está todo mundo até agora tentando avaliar o que aconteceu. Fiquei com a imressão de que teve até jogador adversário com vontade de dar um abraço de solidariedade no Deivid. Foi chato pra chuchu! Juro que deu dó dele.  Não desejo isso pro pior inimigo.

 O mais bacana é que ele não ficou posudo na hora em que lhe foram perguntar o que tinha acontecido. Todo sem jeito, admitiu o erro.  Fazer o quê? O gol fez falta. Nem por isso, ele deve ser visto como o vilão da história, o Judas ou coisa do gênero. Perdeu, pronto!

Agora, mais do que nunca, precisa recorrer ao lugar-comum: erguer a cabeça e bola pra frente. Dar um bico no constrangimento e, se puder, rir de si próprio. É a melhor forma de esvaziar o prazer dos cínicos de plantão.

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08.fevereiro.2012 12:54:00

Fazer a América*

Desde ontem está no ar a edição 2012 da Taça Libertadores, torneio que existe há meio século e que há duas décadas virou fixação dos brasileiros. Obsessão tão forte que muita gente entra na Copa do Brasil e na Série A não pela honra de brigar pelo título, mas para ter uma vaga na competição continental. O que considero um equívoco e uma chatice. O caminho para ganhar fama universal começa com conquistas domésticas.

 O pontapé inicial da turma de cá ficou para o Fluminense, com o 1 a 0 no Arsenal – o argentino, que tem uma Sul-Americana, não o original londrino. O Vasco estreia hoje em casa; o Inter, amanhã, em Porto Alegre. Santos, Corinthians e Flamengo esquentam motores para a semana que vem. Sexteto de respeito, acostumado com o torneio e responsável por sete títulos. Retrospecto nada desprezível e que permite sonhar.

Sem patriotada, se não der zebra um deles pelo menos estará na final. São elencos de qualidade, com nada a dever aos adversários, que não têm padrão mais refinado do que os brazucas. A nossa América não ostenta esquadrões, morre de inveja (e de medo) de um Barcelona, mas sempre guarda surpresas.

E, se um daqui chegar à final, contra quem será? Talvez enfrente o Boca, maledetto devastador de representantes verde-amarelos que está de volta, depois de duas temporadas. Ou pode pegar a Universidad de Chile, que tem jogado futebol redondinho e faturou a Sul-Americana de 2011. Chivas, Cruz Azul, Peñarol, Velez não podem ser esquecidos, e correm por fora. Apostas e portas abertas.

A Libertadores é bacana, campeonato tinhoso, recheado de artimanhas. Reúne o que há de melhor e de pior no folclore da bola. Há duelos inesquecíveis, em função do empenho e da habilidade dos rivais. Não faltam jogos históricos, por causa de viradas que pareciam impossíveis. Assim como há tira-teimas fenomenais levados para os pênaltis. A Libertadores já crucificou craques e consagrou pernas de pau, numa confirmação de que é contraditória e atraente.

Não são poucos os registros de arranca-rabos que beiram a guerra entre nações. Por obra e graça da globalização, estão em declínio as picuinhas entre vizinhos. Mesmo assim, não passa ano sem no mínimo uma confusão das bravas, das que fazem os europeus nos olharem com superioridade colonialista e lamentar o espírito belicoso dos cucarachas.

Alguém se envergonha disso? Eu não. Está certo que a Copa dos Campeões, também conhecida pelo nome pomposo de Uefa Champions League, é coisa fina. Já cobri vários jogos ao vivo e, de fato, a organização é impecável. Se bem que, em termos técnicos, há disparidades, pois gigantes convivem com nanicos. Também por lá é fácil encontrar partidas mequetrefes. Faz parte. Não existe campeonato só com baile de gala; há os arrasta-pés.

A Libertadores é um grande barato – ou assim deveria ser encarada pelos brasileiros. Não se trata de questão de vida ou morte. A ansiedade já estragou planos ambiciosos – e o Corinthians talvez seja um dos exemplos mais bem acabados de como entrar em parafuso em consequência de derrapadas sul-americanas. Coloca-se tamanha pressão que leva a quedas memoráveis como a do ano passado.

Não deveria ser assim. O prestígio e a força de um clube não se medem só pela Libertadores. Claro que faz bem ao ego, ao currículo e ao bolso atingir o topo da América. Mas não é tudo. A combinação entre descontração e eficiência funciona mais do que ter a faca entre os dentes. O Santos usou essa receita na campanha do tri.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 8/2/2012.)

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Um aspecto me chamou a atenção, nessa agonia do Vanderlei Luxemburgo no Flamengo. Foi a demora do clube de admitir que iria dispensá-lo. O desgaste do treinador era evidente desde o final do Brasileiro de 2011, e os indícios de demissão correram soltos nas férias e já no início das atividades para esta temporada. Todo mundo sabia, na Gávea, mas ninguém reconhecia.

A enrolação não foi por cautela, por temor de que o time pudesse se complicar na disputa de vaga para a fase principal da Libertadores. A ruptura, evidente nos bastidores, só demorou a ocorrer na prática por causa de dinheiro. Como a multa era salgada – R$ 4 milhões –, a estratégia da cartolagem rubro-negra foi a de cozinhar o técnico em banho-maria. Queriam que ele jogasse a toalha; assim, ficaria o clube desobrigado de arcar com o pagamento.

Atitude equivocada, porque o ambiente só se deteriorou nesse período. Luxemburgo chutou o balde com os jogadores, mas não largou a rapadura – no que estava certo. Eu, você, se tivéssemos uma cláusula dessas em nossos contratos deixaríamos o carvão de bandeja? Não. Mas houve o risco de sobrar para o time. E se o Fla ficasse fora da competição? O prejuízo não seria muito maior do que esse – e que já não é pouco?

Esse tipo de comportamento revela como há amadorismo ultrapassado em agremiações importantes. O Flamengo não poderia ter proposto (ou ter aceitado a imposição) uma multa pesada, na hora em que fechou o contrato. É mais do que sabido que relação clube-treinador se desgasta num piscar de olhos. O professor que hoje chega como salvador da pátria, ganhando os tubos, amanhã vira vilão e é escorraçado.

É justo que ambas as partes se protejam, mas não se pode brincar com patrimônio de clubes dessa maneira. Ainda mais no caso do Flamengo, que tem tido dificuldade para bancar despesas com os jogadores. Agora, terá mais essa dor de cabeça e de bolso.

Outra coisa: está na hora de Luxemburgo se reciclar. Lembro que escrevi, quando saiu do Atlético-MG, em 2010, que seria bom para a imagem dele se tirasse um período sabático. Se saísse um pouco de circulação, se fosse dar uma voltinha pela Europa e espiar o que fazem seus colegas. Fazer-se, enfim, desejado por aqui. Na época, topou logo pegar o Fla e tocou o barco. Por que não pensa em um descanso agora? Poderá fazer-lhe bem e não desperdiçar o currículo respeitável que acumulou em duas décadas de carreira.

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