Antero Greco - Estadao.com.br
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01.maio.2013 12:52:40

Ocaso*

João Havelange foi cartola poderoso, primeiro no esporte brasileiro, depois no futebol mundial. Reinou na antiga CBD (predecessora da CBF) e, por mais de duas décadas, deu as cartas na Fifa, com tanta autoridade quanto à de primeiros-ministros, presidentes, imperadores, reis, xeques, ditadores que visitou naquele período.

Sempre com ar altivo e autoridade incontestável para seus pares (para entrevistá-lo, exigia que o repórter se apresentasse de terno e gravata), se gabava de ter transformado em potência uma entidade modesta que assumira em 1974. Orgulhava-se, em sua fase de poder total, de a Fifa ter mais associados do que a ONU. Sempre se viu como estadista.

Agora, com 96 anos, débil e para fugir de execração internacional, por envolvimento em escândalo financeiro, preferiu a humilhação de renunciar ao cargo de presidente de honra da Fifa. Assim, foge de processo e da expulsão. Antes havia perdido posto efetivo no Comitê Olímpico Internacional, pelos mesmos motivos.

Havelange colheu o que semeou – e por caminho idêntico trafegam seu apadrinhado e ex-genro, agora recluso nos EUA, além do velho parceiro Nicolás Leoz, que parecia eterno no comando da Confederação Sul-Americana de Futebol.

Fica a pergunta: serão mantidas as homenagens a Havelange, com os nomes nos estádios Engenhão e Parque dos Sabiás, em Uberlândia?

*(Trecho, ampliado, de minha crônica no Estado de hoje, 1/5/2013.)

 

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26.abril.2013 12:29:05

Democracia é um estorvo*

Uma regra preciosa do Jornalismo e da Psicanálise ensina que é fundamental deixar a pessoa falar, falar, falar. Pois assim, numa entrevista ou numa sessão de terapia, ela expõe o pensamento, abre o coração, desnuda a alma (para ficar em lugares-comuns ainda em uso). Enfim, revela-se. Mais peso têm as palavras se a personagem for pública.

Aí está Jerôme Valcke para comprovar a premissa. O francês ocupa cargo relevante na Fifa – como secretário-geral, está abaixo só do presidente, Joseph Blatter. Portanto, suas atitudes, decisões e declarações contam e repercutem. Por não se tratar de barnabé de quinto escalão, um pronunciamento dele soa oficial.

E não é que Valcke solta outra pérola, desta vez com teor polêmico superior à da famosa frase “O Brasil tem de tomar um pé no traseiro” (no que se referia a obras para 2014)? O dirigente explicou, em simpósio na Suíça, que preparar Mundial em país com várias esferas de governo (federal, estadual e municipal) é mais complicado do que em nações com poder centralizado.

“Vou dizer algo que é maluco”, sublinhou Valcke. “Mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa”, reforçou. “Quando se tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como Putin, em 2018, fica mais fácil para nós.” Outra indireta pra cá?

A manifestação de Valcke espalhou-se num instante, provocou barulho e saia-justa, a ponto de fazê-lo voltar atrás de novo. Em nota publicada ontem, explicou que foi mal interpretado, que jamais abdicou de postura democrática, etc, etc. Quem sabe, assim como no episódio da gafe com o Brasil, a culpa vá para os tradutores traidores?

O estrago está feito, o lapso expôs outro tanto das convicções do alto executivo e permite conjeturar que tema tão delicado tenha sido debatido anteriormente a portas fechadas. Não é elucubração sem sentido imaginar beneplácito da Fifa com regimes autoritários. Ela se escuda em neutralidade política para historicamente ignorar situações de exceção, desde que não interfiram em seus interesses financeiros.

A dona da bola aceitou uma Copa na Itália fascista em 1934, ignorou a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler (os jogadores austríacos tiveram de defender as cores nazistas no Mundial de 1938, na França) e fechou os olhos para as torturas e os desaparecimentos de presos políticos na Argentina do general Rafael Videla em 1978. Fora as inúmeras competições de seleções de base que patrocinou em localidades com liberdade democrática sufocada.

Evidente que se apresenta tarefa amena tratar com políticos que sejam “donos” de uma nação. Isso implica menos gente para dar palpites, menos choques de interesses, como o próprio Valcke admitiu no depoimento agora desmentido. Necessidade menor de prestar esclarecimentos à sociedade. Mas sempre com fair-play no jogo, claro…

A Fifa aprecia reinar soberana onde desembarca com a trupe, com a família. Suas determinações e exigências soam implacáveis e indiscutíveis. Basta ver como pede isenções amplas, como impõe condições, como lucra com voracidade. Ela manda e pronto. Fica à vontade para determinar que o Mané Garrincha, em Brasília, será chamado de Estádio Nacional na Copa das Confederação e no Mundial, embora oficialmente não “vete” o nome popular. Sente-se forte para proibir, se quiser, a venda de acarajé nos arredores da Fonte Nova (ou Arena, sei lá).

Democracia, de fato, é um estorvo.

Casca de banana. A CBF arruma jogos mequetrefes para a seleção que se tornam cascas de banana: provocam falsa ilusão positiva (como em goleadas contra Iraque e China) ou desencadeiam onda pessimista. Como no empate por 2 a 2 com o Chile. A partida de anteontem, em BH, serviu para acordos com patrocinadores, mostrou grupo de jogadores destreinados, que não formaram time, e espetáculo fraco. Com vaias e desgaste para atletas e para a comissão técnica. Perda de tempo e energia.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 26/4/2013.)

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 No começo da tarde deste domingo, a ESPN mostrou um belo jogo de futebol, no duelo de Manchester, em que o United ganhou do City por 3 a 2, com gol em cima da hora. Um clássico como manda o figurino: estádio cheio, tensão nas arquibancadas e dentro de campo, alterações no placar. O United fez logo 2 a 0, mas permitiu o empate e ganhou no finalzinho.

Pois o que me chamou atenção e me levou a fazer estas ponderações veio justamente depois do gol de falta de Van Persie que definiu o placar. A tevê mostrou a comemoração dos vencedores e as várias repetições do lance fatal. E, de passagem, muito ligeiramente, deu um close em Ferdinand com o supercílio aberto, a sangrar.

Imagem estranha, desconexa, que deixaria o telespectador desconcertado. No caso brasileiro, nem tanto, porque os enviados da ESPN, que transmitiam do local, informaram que o zagueiro do United fora atingido por algum objeto atirado pelo público. Além disso, relataram que um rapaz havia invadido o campo, na tentativa de acertar contas com o árbitro. Foi contido logo e retirado pelos responsáveis pela segurança. O jogo seguiu.

A transmissão, para quem não estava no estádio, se manteve asséptica. Os responsáveis por selecionarem as imagens que vão ao ar decidiram omitir um fato, e nisso cometeram uma falha. Sonegaram ao telespectador uma informação. A invasão foi um incidente grave, que o jornalista tem o dever de registrar. E, no caso da tevê, a informação é a imagem.

Sei que isso ocorre com frequência em determinados países. Já fiz muitos e muitos jogos ao vivo, por campeonatos europeus e por competições sob batuta da Uefa ou da Fifa. Sei que não gostam de mostrar essas cenas, sob o pretexto de que, assim, não incentivam gestos semelhantes. Balela. Eles não querem é depreciar o produto, o negócio, o business.

Em seguida, fui aos sites dos principais jornais ingleses (e até da BBC), e lá encontrei referências aos incidentes, até com foto do rapaz que invadiu o gramado. O The Independent até registrou que “a Sky Sports não mostrou as cenas”. Ou seja, tratamento diferente em dois meios distintos: os jornais contaram, a tevê omitiu.

Então, se nos basearmos só pela televisão, concluiremos que nunca há fatos que saiam da normalidade nos estádios ingleses. Parece que a plateia é composta apenas por pessoas civilizadas, que aplaudem ou vaiam, nada além disso. Hooligns são personagens extintos. Sei não, é bom ficar com os dois pés atrás.

O tema é bom para teóricos de comunicação, especialistas no assunto, que sabem abordá-lo com argumentos sólidos. Mas fica uma leitura evidente: para ingleses, para muitos europeus, enfim, a tevê é instrumento poderoso de opinião e deve servir mais como entretenimento. Os jornais são para informar e não escamotear a realidade, não dourar a pílula.

Felizmente, no Brasil, as tevês (na maioria das vezes) entendem que episódios do gênero devam ser registrados, porque fazem parte da história daquele espetáculo. São, portanto, informação. E informação é liberdade, é democracia. O público deve ter o direito de selecionar o que quer ou não ver; essa não é tarefa de um diretor de imagens.

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07.dezembro.2012 11:16:18

O Mundial e nós*

Jornalistas brasileiros que acompanham os preparativos para o Mundial de Clubes, que começou ontem com vitória do Sanfrecce Hiroshima, ficaram chocados com o desdém dos ingleses diante de acontecimento tão significativo. Os súditos da rainha terão o Chelsea como representante deles e do continente europeu, no Japão, mas em princípio parecem não dar bola para a competição que leva a chancela da Fifa. A preocupação no momento se concentra em várias frentes: recuperar terreno no campeonato doméstico, refazer-se da frustração pela eliminação na primeira fase da Copa dos Campeões e cornetear o indesejado técnico Rafa Benitez. O resto é periférico.

Um contraste colossal com a postura ardorosa que se nota do lado de cá do Atlântico. Os corintianos estão a roer as unhas e batalham contra insônia, na expectativa de que o time volte do Oriente com a taça. A animação é tanta que levou milhares de fãs ao aeroporto de Cumbica, no embarque da delegação, no início da semana, e provocou alguns estragos.

A Fiel mostrou para seus heróis o quanto deseja o troféu que elevará a patamar internacional um dos clubes mais populares do País. O segundo título mundial acabará com antiga gozação dos rivais, na avaliação dos quais o Corinthians jamais havia carimbado o passaporte. A primeira conquista, 12 anos atrás, foi na final com o Vasco, no Rio.

O que significa esse comportamento distinto entre britânicos e brasileiros diante do mesmo fato? Nada, a não ser um modo peculiar de encarar uma disputa esportiva. A indiferença aparente dos gringos não os faz melhores nem piores em comparação conosco. O contrário também é verdadeiro. Ambos os lados são concomitantemente cosmopolitas e provincianos – depende do olhar.

Podemos dizer que os corintianos apreenderam o valor, simbólico e financeiro, de uma proeza intercontinental desse quilate, enquanto os seguidores dos Blues não enxergam além da Ilha ou da Europa e se mantêm com visão estreita de clube de bairro. Assim como se pode interpretar a ansiedade alvinegra como sinal de necessidade de afirmação na alta sociedade da bola, reação de novo-rico; já os admiradores da equipe londrina reagem com a naturalidade dos que se sabem refinados e não buscam status.

Há quem pinte os ingleses como antipáticos, por admitirem desconhecimento do Corinthians. Ora, onde já se viu descaso semelhante?! Trata-se do campeão da América! É importante para nós, não para eles. Questão cultural. A história está repleta de exemplos de como os antigos conquistadores do mundo olham para o próprio umbigo. No caso do futebol, os torneios locais lhes bastam – a Europa vem como extensão de seu poderio. Ou imagina que têm fascínio por aquilo que ocorre nos outros países? Seguem as principais ligas, e olhe lá!

Você pensa que é muito diferente por aqui? Por acaso, seguimos os estaduais do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste? Nos damos conta do que rola em times fora dos centros maiores? Mal e mal, vemos a Série A1 paulista. Ou seja, nos concentramos naquilo que está próximo. (Se bem que aumenta o interesse por equipes de fora. Assunto para futura conversa…)

Resumo da ópera: que nos importa se a turma do Chelsea liga ou não para o Mundial de Clubes? Se conhece o Corinthians? Para a gente, interessa que a rapaziada de Tite traga o bi Mundial e que a taça fique exposta em lugar nobre. Agora, cuidado com essa conversa fiada dos europeus; danados, eles fingem não dar pelota, mas faturaram as últimas cinco edições…

 *(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 7/12/12.)

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24.agosto.2012 11:59:44

Voluntários da pátria*

A Fifa lançou nesta semana o programa de cadastramento de voluntários para a Copa das Confederações, no ano que vem, e para o Mundial de 2014. A expectativa da entidade que controla o futebol é a de que o número de interessados chegue a 90 mil e que venham de todos os continentes. No primeiro dia, mais de 35 mil preencheram a ficha de inscrição. No evento inicial, que serve de prévia para a competição maior, 7 mil serão chamados. Depois, a vez de outros 15 mil.

O trabalho espontâneo é das atividades que mais merecem admiração. Tiro o chapéu para quem dedica parte do tempo para obras assistenciais. É um alento saber que há quem se preocupe com doentes, crianças, órfãos, velhinhos sem esperar nada além de um sorriso, se tanto. É exemplo de doação.

O trabalho voluntário também é tradicional em Copas, olimpíadas e manifestações esportivas semelhantes. A alegação dos responsáveis pela organização é a de que, dessa maneira, se dá oportunidade para pessoas de todas as idades se sentirem parte integrante de acontecimento relevante e histórico. Há o contato com gente de todo canto, é ocasião para confraternização e prestação de serviço em nome da pátria, sinal de simpatia e disponibilidade de anfitriões, etc.

Não duvido disso, já cruzei com muitos voluntários simpáticos e receptivos (e algumas “malas” também) nos Mundiais que cobri. Mas são explicações que não me comovem nem convencem. Copa das Confederações e Copa do Mundo não são ocorrências beneficentes, a realização delas não se deve a causas humanitárias, sociais, culturais ou políticas.

Trata-se de negócios – e altamente lucrativos. A cada nova edição, aumentam os valores arrecados com ingressos, direitos de transmissão para meios de comunicação, venda de produtos licenciados, marketing e publicidade. A Fifa enche as burras, e nas contas dela falar em centenas de milhões de dólares equivale a eu e você discutirmos o preço do cafezinho quente no bar da esquina.

Por que, então, não prever no orçamento um ordenado para quem trabalhar nesses eventos? Não refresca nada a Fifa estimar gastos de R$ 30 milhões com uniformes, alimentação e transporte para o batalhão que vier a ser escolhido. Era só o que faltava, negar lanchinho para a moçada e obrigá-la a pagar pela vestimenta e pelo ônibus. O custo com hospedagem fica por conta do cidadão.

O lucro não seria menos fabuloso e a Fifa daria demonstração, na prática, de que é uma entidade com profunda preocupação com justiça social. Seus cartolas poderiam depois bater no peito e dizer, com razão, que a Copa do Mundo oferece empregos, temporários mas diretos, e que parte do que foi apurado fica no próprio país-sede. Faria bem para a imagem, que ficaria menos desvinculada da avidez por grana que a marcou nos últimos tempos.

Mas milhares acham que é um grande barato trabalhar para a Fifa sem receber. Joseph Blatter e assessores – todos muito bem pagos – sabem disso. Talvez um aspone brasileiro deles pudesse soprar-lhes uma música de Adoniran Barbosa, que diz: “Tocar na banda, pra ganhar o quê? Duas mariolas e um cigarro Iolanda….”

A seleção, de novo. Mano Menezes divulgou a lista de convocados para os jogos contra África do Sul e China. Provocou alguma polêmica a presença de Cássio, goleiro do Corinthians em parte da campanha vitoriosa na Libertadores. Ao ver a relação, fico a cismar: pode ser que esse time surpreenda em 2014. Mas atualmente dá um desânimo pensar em seleção…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 24/8/2012.)

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O encontro do ministro Aldo Rebelo com os manda-chuvas da Fifa, nesta terça, na Suíça, serviu finalmente para dissipar algumas cortinas de fumaça. A principal delas é que o governo brasileiro tornou oficial participação no Comitê Organizador Local da Copa de 2014, com a anuência da entidade que manda no mundo da bola. Nada mais lógico, já que desde o começo da aventura estava na cara que a conta seria bancada pela nação – entenda-se o contribuinte que paga impostos.

Quando o Brasil ganhou o direito de organizar o Mundial, o então dono do poder por estas bandas apareceu em tudo quanto foi meio de comunicação com o discurso de que se trataria de competição sustentada pela iniciativa privada. Não haveria dinheiro público nas principais obras, aquelas mais caras e etc e tal. Na época, acreditou quem quis, como tem quem crêem Saci Pererê, Coelho de Páscoa e Mula Sem-cabeça.

O tempo passou, a grana de todos passou a ser predominante nessa história e o primeiro indício de que o governo estava encafifado com isso foi colocar na geladeira o ex-todo-poderoso. Depois, tirou-o de lá e o colocou na frigideira, até fazer com que saísse de cena e o mandasse passear, que fosse brincar com o Mickey ou fosse caçar borboletas. Em seguida, começou a conversar com os substitutos – Marin e Del Nero – e agora falou para a Fifa que quer controlar de vez a situação.

O interessante é que Joseph Blatter nem se fez de rogado. A Fifa sempre é muito ciosa de sua independência e são inúmeros os casos de Federações afastadas porque houve interferência política. A atenuante, no caso, é a de que não haverá intervenção na CBF; apenas, o governo que um representante no COL para facilitar os trabalhos. Então, está tudo bem, salvam-se as aparências e os preparativos para a Copa-14 seguem seu curso.

A reunião de cúpula serviu também para mostrar que Jerôme Valcke, aquele do chute no traseiro do Brasil, continua a dar as cartas e não se sente nem um pouco intimidado com o fato de ser malvisto por aqui. Pouco se lixa para isso. Tanto que voltou a fazer as mesmas críticas de antes: falta isto, falta aquilo, é preciso correr, etc etc etc.

Também está evidente que a estrela em ascensão é o presidente da FPF, Marco Polo Del Nero, aliado do ex-presidente da CBF e seu herdeiro, que botou o pé também no COL. Marin, digamos, aparece como o dirigente que dá aval a tudo. Mas o poder, de fato, está com seu companheiro. Uma dúvida: Ronaldo e Bebeto fazem o que mesmo?

 Assim, tudo vai bem no melhor dos mundos. Eu só quero mesmo saber em quanto ficará a conta, como ela será paga. E por quem.

 

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O dono do poder bateu o pé, chiou, jurou que não se afastaria de forma alguma do comando do futebol brasileiro e do Comitê Organizador da Copa. Tudo não passaria de intriga da oposição, da imprensa marronzista, como diria Odorico Paraguaçu, emblemático personagem criado por Dias Gomes. Uma deslavada mentira. Eis, porém, que nesta quinta-feira, ele decide deixara cena por um tempo. Oficialmente, fica de molho por dois meses para tratar da saúde. Depois volta.

A saída de fininho pode ter sido provocada mesmo por questões físicas – não tenho os laudos médicos e todos estamos sujeitos a surpresas da natureza. Mas pairam dúvidas, pois deve ser complicado para alguém que há 23 anos está no comando abrir mão de tudo a meio caminho dos preparativos para o Mundial de 2014. Deve doer na alma.

O retiro forçado ocorre num momento delicado para o cartola na relação com o governo e com a Fifa. E coincide com pedido de europeus para que sejam divulgados todos os detalhes sobre processo que ocorreu na Justiça suíça, por antiga denúncia de corrupção na Fifa e que envolveu dirigentes ligados à entidade. Poderia sobrar para ele.

O desgaste há muito é evidente e indisfarçável. Não colaram as explicações de que tudo estava normal, de que a vida do senhor da bola se mantinha inalterada. A tropa de choque, com ramificações até na mídia, entrou em ação, para apagar o incêndio – e as chamas, no entanto, aí estão. Em vão o esforço de Ronaldo, por exemplo, de vir a público para lembrar que o patrão/padrinho fez um bem enorme ao trazer a Copa para o Brasil e que seria lamentável se ele saísse agora.

O calo apertou, a pressão aumentou, os aliados recuaram, a oposição cresce e já tem muita gente de olho no cargo. Pelo que se vê por aí, não dá para ter muita esperança de evolução com a troca das cadeiras. Nossa cartolagem é ruim de doer. Em todo caso, só a retirada do senhor absoluto já é bom sinal – isso, claro, se não passar de estratégia até baixar a poeira e ele fazer a reentrada triunfal.

Só tenho uma certeza: eis uma ausência que não será sentida.  

 

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A preparação para a Copa de 2014 está um balaio de gatos, o que surpreende só distraídos e desavisados. Desde 2007, quando o Brasil se tornou oficialmente anfitrião do evento, se previam confusões, atrasos, trombadas e coisas do gênero. E os atropelos aí estão, mesmo com discursos otimistas de gente envolvida no negócio. Uma conversa pra boi dormir que até a Fifa, sócia da empreitada, percebeu, depois de se ver enrolada por seus parceiros locais. Sempre é bom saber com quem se faz sociedade.

Agora que a água começa a bater no pescoço, a dona da bola reclama. Com razão, mas de maneira errada. Não teve nada de elegante nem respeitoso o desabafo de Jérôme Valcke ao comentar a bagunça no cronograma de obras, sejam nos estádios, sejam aquelas de infraestrutura. O secretário geral da Fifa está certo ao pedir ritmo acelerado, ao exigir cumprimento do que foi combinado e assinado, ao puxar os cabelos diante de notícias desanimadoras que recebe daqui. Tudo compreensível.

Isso não dá direito ao engravatado de ilustrar sua decepção com a sugestão de que “o Brasil precisa de um chute no traseiro”. Por mais que o tom possa ter sido descontraído, que a intenção tenha sido a de usar linguagem popular para cobrar agilidade, pega mal pra burro na boca de um executivo de uma entidade com o peso da Fifa. Não é assim que se aborda o assunto, a não ser que tenha mais coisa por baixo desse angu.

Valcke não estava num bate-papo informal com amigos numa mesa de boteco. Não fez uma gracinha entre um copo e outro de cerveja ou enquanto beliscava uma linguicinha. (Você consegue imaginá-lo de camiseta e bermudão ensaiando até uma batucada?) Ele falou como o segundo homem mais importante da Fifa, abaixo só de Joseph Blatter, que agora tem mais um incêndio para apagar. Valcke referiu-se ao Brasil como se aqui fosse a casa da sogra. Um folgado!

Se queria cobrar o Comitê Organizador Local, que ligasse para o cartolão maior e a turma dele e lhes dessa uma bronca e tanto. Eles não eram carne e unha até um tempinho atrás? Pois então? Da maneira como falou, atingiu o país, botou o governo na roda. Adequada, portanto, a reação de Aldo Rebelo, ao anunciar que não pretende mais ter Valcke como interlocutor no que se refere ao Mundial. Coloque-se no lugar do ministro do Esporte: como tratar daqui em diante com alguém que deseja dar-lhe um pontapé?

Blatter logo mais entra em ação, tentará tirar de letra essa saia justa e fará algum agrado. Mas foi uma presepada a postura de Valcke, que desandou a falar o que bem entende por achar que lida com uma republiqueta de bananas. E isso o Brasil não é, para desapontamento colonialista.

Mas cá entre nós, já que estamos em casa, vamos reconhecer: o sujeito tem razão de ficar bravo, porque essa história de Copa virou esculhambação. Com uma diferença: podemos ser críticos conosco próprios, porque é assunto nosso, coisa interna. O Valcke é sapo de fora e a gente até entende que possa chiar um pouco, pois é parte interessada na Copa. Porém, deveria fazê-lo com recato e educação.

Quer saber? O desgaste é deles e o lucro também. Tenham certeza. Mas no fim da refrega a conta será nossa. Seja ela de qual valor for.

PS. Eis outra abordagem interessante dessa chiadeira da Fifa. Está no blog do Luiz Antonio Prosperi.

 http://blogs.estadao.com.br/prosperi/a-copa-nao-corre-risco-de-sair-do-brasil/

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09.janeiro.2012 18:08:27

Onde vai parar o mito Messi?

A gente costuma dizer, por bom senso e precaução, que o futebol é imprevisível, que o imponderável também entra em campo, que há espaço para surpresas. Enfim, essas coisas que você já sabe. Mas hoje em dia, quando se trata de prêmio da Fifa para o melhor do mundo, a barbada é absurdamente escancarada e fácil de acertar: o nome é Lionel Messi. Não tem como dar zebra, não há maracutaia que derrube o argentino.

O que se viu na festa mostrada no meio da tarde de hoje foi mais uma etapa da consagração daquele que caminha para entrar na galeria não dos grandes jogadores do futebol de todos os tempos – nessa já está –, mas dos maiores dos maiores. Para ficar na estirpe de Pelé, Maradona, Cruyff, Garrincha, Zidane e mais uma meia dúzia.

Exagero? Não acho. Messi é bom demais, está muito acima da média, alia garra, técnica, velocidade, ousadia e simplicidade como só os gênios da bola, independentemente da época em que surgiram. E, como se tudo isso não fosse suficiente, ainda joga no melhor time do mundo. Messi é extraordinário e tem a vida facilitada pela constelação que gira em torno dele no Barcelona.

Pelo jeito, o domínio do baixinho vai durar por muito tempo. Se pensarmos que só tem 24 anos e uma saúde de touro, não fica difícil projetar mais umas quatro ou cinco bolas, chuteiras de ouro e sei lá o que mais. Pense bem: não é um privilégio vivermos esta época? Imagine as gerações futuras, que ouvirão falar de Messi como uma lenda. Nós presenciamos a construção do mito. E eu, como sou mais velhinho, ainda acrescento que vi (como muitos de vocês) também os monstros que citei acima….

Neymar. O que me chamou a atenção, na festa da Fifa (por sinal bem comportada e monótona), foi o prêmio para Neymar, que levou o troféu de gol mais bonito de 2011. O astro santista teve seu primeiro reconhecimento internacional. E jogando no Brasil. Não precisou ir para a Europa para mostrar-se ao mundo. Não é sinal de que algo começa a mudar? Pra mim é.

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09.dezembro.2011 13:13:35

Os bons camaradas*

Tenho lido com curiosidade, e nenhum sobressalto, as reportagens do Jamil Chade a respeito da briga pelo poder na Fifa. A sucessão de Joseph Blatter, no comando da família do futebol, corre solta entre a alta cartolagem. Como é praxe em tais situações, os bastidores fervem e sobram caneladas. Pelos relatos do vibrante correspondente do Estado na Suíça, tem mais brucutu engravatado do que zagueiro botinudo espalhado pelos gramados da vida. O fair-play tão sugerido pela entidade só serve para os atletas ou como encenação antes de competições internacionais. Para os mandachuvas, a coisa funciona na base do vale-tudo.

 Quantas vezes você viu Blatter a circular com o dono da bola no Brasil? Eram carne e unha, Batman e Robin, Simon & Garfunkel, Gordo e Magro. Enfim, uma dobradinha inseparável. Pareciam Danni de Vito e Arnold Schwarzenegger em Irmãos gêmeos, comédia divertida. Tão camaradas que a Copa de 14 veio pra cá.

De uma hora para outra, o relacionamento esfriou, aparições conjuntas se tornaram escassas e protocolares, os salamaleques minguaram. Cumprimentam-se, conforme os princípios da etiqueta, se possível trocam elogios singelos, cumprem as pautas oficiais. Depois, “boa noite, Osvaldo”, como dizia o impagável Janjão Rodrigues, um dos mais brilhantes repórteres que conheci. É cada um para seu canto, com sua turma. Mantêm-se unidos no projeto comum de organizar Mundial lucrativo. Como se trata de empresários, lhes foi conveniente adaptar o ditado popular para “Inimigos, inimigos, negócios à parte.”

O pessoal que conhece a rotina do palácio de Zurique onde brilha o símbolo da Fifa garante que a raiz dos desentendimentos é a presidência. Cargo cobiçado, para poucos ungidos, aguça o desejo dos mais ambiciosos. Por isso, como em qualquer trama política tradicional, há os movimentos em busca de apoio aqui e ali, entre o eleitorado, se não ocorrer entendimento e candidatura única. Como parece ser o caso no momento.

Já faz tempo que se admite, nestas bandas, o sonho de outro patrício nosso ocupar o trono da Fifa, inspirado pelo exemplo de João Havelange. Insinuava-se que Blatter via a pretensão com simpatia. No meio do caminho, veio a volta do parafuso, Michel Platini ganhou prestígio como presidente da União Europeia de Futebol e o caldo pode entornar. Daí, como em tantas campanhas presidenciais que você já pôde acompanhar, entra em campo a guerra de nervos. Um que assopra um veneninho contra o rival, outro que responde com uma manobra mais pesada, até a hora do confronto inevitável. Passada a refrega, se recompõem, se assim for do interesse das partes outrora litigantes. (Nossa, parece linguagem de ofício!)

O indício de que a maré anda agitada é a ameaça de virem à tona documentos esclarecedores sobre o escândalo da ISL. Lembra: Era uma agência de marketing ligadíssima à Fifa, faliu anos atrás e, com a quebra, abundaram indícios de que muitos cartolas receberam grana por fora em contratos de publicidade. O caso rolou em sigilo, na justiça suíça, e agora é usado como forma de pressão para os grupos que disputam o poder.

A Fifa jura que é a favor da transparência, prometia revelar ao mundo os papéis que tem guardados, mas alega que não pode fazê-lo agora porque a outra parte entrou com recurso. Quer dizer, cada um sabe os trunfos que possui e até onde o rabo está preso. Não tem bobo nessa história, fique certo disso. E não deixe o queixo cair, se lá na frente houver armistício. Eles não dão ponto sem nó.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 9/12/2011.)

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