Antero Greco – estadão.com.br - Estadao.com.br
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Quando era garoto, lembro que tinha uma brincadeira em que se falava: “Te pego, te pico, te jogo no pinico!” Era uma maneira de avisar que a gente ia fazer “gato e sapato” de algum adversário num joguinho qualquer. Um tipo de provocação infantil.

Pois essa frase me veio à mente há pouco, enquanto acompanhava mais um duelo entre Barcelona e Bayern, pela Copa dos Campeões, mais modernamente chamada de Uefa Champions League, ou “Champions” para os íntimos. O time alemão de novo fez o que quis com o gigante espanhol, se divertiu no Camp Nou, lascou 3 a 0, placar mais modesto em relação aos 4 a 0 da semana passada, e se garantiu na final.

Pra quem, como eu, se acostumou a ver shows de Messi e súditos, foi igualmente prazeroso curtir o desempenho da trupe formada por Robben, Ribery, Muller e outros. Essa rapaziada jogou futebol bonito, rápido, consciente, criativo. Sem aquele negócio de cintura dura e eficiência que caracterizava os germânicos doutros tempos.

O Bayern consegue a proeza de ser compacto e leve, sério e divertido, atento e atrevido, sólido na defesa e um trator no ataque. Impôs a superioridade incontestável ao Barça (frágil, sem Messi), na ida e sobretudo na volta. Por mais que o ambiente fosse envolvente na casa catalã, com a pressão da torcida e etc, a turma de Jupp Heinckes foi impecável.

Discordo de quem fala em “vexame” do Barcelona (que a propósito manteve postura elegante e não apelou para a ignorância). Isso é olhar enviesado, é tirar o mérito do Bayern. O mais correto é exaltar a exibição de gala do finalista. Aí, se dá a dimensão do que ocorreu nos dois clássicos recentes. Um grande time soube como superar o grande campeão das últimas temporadas.

Pode ser o fim do ciclo atual do Barcelona? Pode e não há drama algum nisso. Nada, nem impérios militares, se mantém eternamente no topo. É da vida. Se bem que me parece cedo para decretar derrocada.

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Faz algum tempo remo contra a maré, ao defender a permanência de Neymar no Brasil por mais algumas temporadas. Posição que não tem respaldo de muita gente boa, que, sem qualquer ligação direta com o rapaz, insiste na saída imediata, para que possa ganhar experiência e tornar-se maior. Consideram que só na Europa poderá crescer, ganhar prêmios, ajudar a seleção brasileira, rivalizar com os craques internacionais, etc.

Neste sábado, Neymar reforçou a minha convicção de que o exílio será umapena, ao marcar os gols dos 4 a 0 do Santos sobre o União Barbarense, pelo Campeonato Paulista. Fez dois em cada tempo, teve outro anulado, mandou bola na trave, deu passes, dribles e saiu de campo como a estrela maior. Deixou o time na segunda colocação na classificação. E encheu os olhos de quem curte futebol e seus artistas.

Se tivéssemos maior autoestima, nos encheríamos de brios e brigaríamos para que não se deixasse seduzir agora pelos euros do Barcelona ou de quem quer que seja. Não ficaríamos a todo momento batendo na tecla de que não há mais espaço para ele por aqui. Ao contrário, exigiríamos a permanência, para alegria geral da nação. E obrigaríamos os cartolas a serem mais cuidadosos com a matéria-prima que temos.

Em vez disso, nos curvamos para os europeus, nos conformamos com o poder de compra de quem tem bilionários russos ou árabes no comando, consideramos natural e inevitável o êxodo, vemos o empobrecimento técnico como destino incontornável. Viramos sempre mais torcedores de televisão e não de estádios. Não temos ídolos, nossas crianças ficam sem referências locais para encantar-se. Uma tristeza.

No lugar de apontarmos o dedo para Neymar e acusá-lo de cai-cai, mascarado, marqueteiro e outras bobagens menores, deveríamos nos unir e carimbá-lo como patrimônio nacional. Quem sabe assim os outros clubes não se animassem a se mexer, a tornar-se profissionais e segurar o que têm bom e dar uma banana para os estrangeiros?

Sonho, loucura, besteira, divagação, quimera, utopia? Sei lá, pode usar o termo que quiser. Mas ainda imagino o dia em que curtiremos nossas joias por bastante tempo, antes que elas se decidam a mostrar suas qualidades para outras plateias. Enquanto isso, babamos para os Barças, Manchesters, Milans da vida. E eles nos olham como gentalha, que se sente honrada porque seus melhores jogadores atraem a atenção dos colonizadores.

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Infortúnios em geral não devem ser comemorados – de atletas, menos ainda. Mas há um consolo na contusão que vai tirar Messi dos gramados por três semanas: ela evidencia o lado humano do melhor jogador do mundo na atualidade. Como você, eu e todos.

Há tendência a achar que o físico de superastros equivale ao de máquinas infalíveis e inquebráveis. Por realizarem proezas extraordinárias, por estarem em ação a todo momento, fica a sensação de que não sentem dor, cansaço, desânimo ou má fase.

Esse estereótipo se consolida quando se trata de alguém que raramente salta uma partida por questões musculares. Caso do Messi. A última vez em que havia se contundido com alguma gravidade fora em março de 2008, também em jogo da Copa dos Campeões.

Incrível a resistência dele! E olha que é submetido a pressões constantes, no Barcelona e na seleção da Argentina. É acionado muito nos jogos ­– só no primeiro tempo do jogo de hoje com o PSG esteve em 43 jogadas –, sofre faltas, dá trombadas, tem choques. E resiste, se livra dos botes mais maldosos. E faz gols, como no Parque dos Príncipes.

Mas uma hora o organismo dá um basta, pede pausa! E esse apelo vem na forma de uma fisgada, uma torção, uma dor aparentemente sem sentido. Pois faz todo sentido o que Messi teve, ainda nos primeiros minutos do duelo desta terça-feira. Ainda assim, resistiu e só saiu mesmo quando viu que não dava mais para continuar.

Bravo Messi, exemplo de dedicação! Agora, para ser bravo de novo, Messi precisa repousar. Os gigantes também se machucam.

 

 

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Hoje foi um dia especial para quem curte futebol, mas futebol de verdade, bem jogado, com trocas de passes, dribles, gols. Magia e emoção juntas. E quem proporcionou momentos de prazer, mais uma vez, foi o Barcelona. A turma comandada por Xavi, Iniesta e Messi botou o Milan na roda, fez 4 a 0 e avança na Copa dos Campeões.

O resultado foi importante ¬– ganhar sempre é ótimo. Mas, mais do que isso, conta o que representou o placar final no Camp Nou. O luminoso mostrou que o encanto do Barça não morreu, como se chegou a prever, após tropeços recentes, na Copa do Rei, no Campeonato Espanhol e na Champions. Segue saudável. Ainda bem, porque seria uma tristeza vê-lo acabar, embora a hegemonia não seja duradoura.

O Barcelona entrou em campo com a pressão dos 2 a 0 no jogo de ida, com a cobrança da torcida, com a desconfiança de críticos. E esfarelou com tudo antes de ir para o intervalo, com os 2 a 0 que garantiam pelo menos a prorrogação. E gols de quem? Dele, sempre ele, Messi, o incansável, inabalável, o virtuose maior dessa trupe especial. O Milan teve uma chance, ainda no 1 a 0, mas Nyang mandou na trave. E mais não fez.

A superioridade continuou no segundo tempo e se ampliou com o gol de David Villa, em passe de Xavi. O Milan esboçou reagir, com a entrada de Robinho e Bojan, para chegar ao gol que poderia dar-lhe a classificação. Bobagem. Quanto mais tentava abrir espaços, mais se expunha e deixava o contragolpe para o Barça. E assim surgiu o quarto gol, já nos acréscismos: Messi roubou bola na intermediária italiana e ela terminou nos pés de Jordi Alba, para coroar uma noite de gala para o futebol.

O Barça fez o que quis com o Milan, como nos melhores momentos. A equipe italiana não é extraordinária, como também não é ruim. O Barcelona é que foi exageradamente melhor. Nós aqui sabemos bem o que isso significa…

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08.fevereiro.2013 12:01:10

Mudança de hábitos*

Luiz Felipe Scolari é profissional privilegiado. A função que atualmente exerce lhe concede tempo para observar, analisar, avaliar e escolher o que é melhor para alcançar objetivos. Como técnico da seleção, sobram-lhe oportunidades de ver em ação toda espécie de equipes – das excelentes às desastrosas -, e delas extrair o que for útil para o Brasil em sua caminhada para a Copa de 2014.

Um ensinamento que Felipão pode aprender ao acompanhar o futebol pelo mundo está na forma como os times hoje em dia tratam a bola. Os mais atrevidos, e vencedores, chegaram à constatação óbvia e sensata de que devem tê-la sob controle na maior parte do jogo. Para tanto, roda de pé em pé, com delicadeza e segurança, com malícia e inteligência. Ao mesmo tempo, os jogadores giram com ela, num balé coordenado. Estão aí Barcelona e Espanha para provar como conciliar eficiência com beleza.

Evidentemente, há as posições e setores tradicionais de cada equipe, por ritual, por características e por tarefas de cada um. Com um detalhe diferenciador: nos conjuntos que chamam a atenção, naqueles admirados e invejados, todos exercem múltiplos papéis, craques e carregadores de piano se alternam na marcação, na criação, na finalização. Alguns mais, outros menos, o certo é que não há só os especialistas. O futebol mais do que nunca é association, arranjo, entrosamento e estratégia.

Na seleção isso não ocorre. E, justiça se faça a Felipão, não é de agora. O Brasil ainda vive do talento, do improviso, da astúcia individuais. Enfim, de história gloriosa. Tudo muito lindo e bacana. Viva o personagem, com suas peculiaridades e qualidades únicas. Não surgiu do nada a admiração pelo jogador nascido no sul da América. Não se trata mero acaso que, nestas bandas, brotaram gênios como Leônidas, Pelé, Garrincha, Zico, Ademir da Guia, Romário, para ficar em meia dúzia de exemplos e não despertar dor de cotovelo globalizada.

A terra “linda e formosa”, descrita por Pero Vaz de Caminha, é pródiga em revelar talentos logo cobiçados por poderosos e endinheirados europeus ou donos de países no “mundo árabe”. E que a fonte jamais seque! Mas esses virtuoses precisam ver seus dotes ressaltados pelo grupo e em favor do todo. Isso é possível, se forem orientados a entender que, no futebol do século 21, o craque tem de brilhar – como sempre – e suar também.

Está fadado a sucumbir o astro que se contente em desfilar por uma faixa do campo, o senhor de um limitado feudo. Por mais ardiloso que seja, os marcadores vão engoli-lo e anulá-lo. Inócuos os lançamentos longos, que atravessam o campo em busca de um velocista. Em geral, os zagueiros se antecipam, fazem o corte, dominam a bola e criam fama. Também não há espaço para o centroavante fixo, o homem de área, apenas arrematador. Nem para o sujeito que seja tão somente cão de guarda. E assim por diante…

A bola precisa rolar, as triangulações (ou os “quadrados”, para os mais sofisticados) são imprescindíveis, a movimentação tem de ser incansável. Não se trata de inventar a roda, nem de pregar uma revolução – nem foram os espanhóis que bolaram essa tática. A Holanda fazia isso quatro décadas atrás, com o Carrossel; a seleção de Telê fez em 1982.

É trabalhoso, complicado, difícil; não impossível. O Brasil tem artistas para resgatar essa maneira de atuar – Lucas, Neymar, Oscar, para citar os bem jovens. Porém, carecem de estímulo, repetição e ordem. Dá tempo para Felipão montar um time moderno. Ou sucumbiremos em casa.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 8/2/2013.)

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24.outubro.2012 10:22:04

Clássicos da bola*

Sua Majestade o Rei Pelé completou ontem 72 anos de vida recheada de milhões de fotos, artigos e reportagens, de milhares de gols, títulos e prêmios, além de centenas de giros pelo globo e paparicação por parte dos mais diversos figurões internacionais. O aniversário do mito, da lenda do futebol e brasileiro mais conhecido no mundo teve comemoração discreta por aqui. Com a descortesia da retomada de polêmica que começa a chatear: por quanto tempo ainda será o número 1, até ser superado por Lionel Messi (24), o fenômeno da bola nestes anos 2000?

A discussão é bizantina, revela inevitável choque de geração, uma pitada de ciúme e ignorância, e não leva a lugar nenhum, a não ser à constatação de que se trata de dois gênios, e como tal merecem respeito e admiração. Dois seres superiores, que baixaram à terra para encantar o público e para dar testemunho da evolução da espécie, embora em épocas distintas. Ainda bem.

Há necessidade quase doentia no esporte de apontar o melhor, o maior, nesta ou naquela modalidade. Fixação que o sábio Freud poderia explicar com propriedade. Há a sofreguidão de reafirmar a excelência de uma época em relação às demais. Fora a tendência – humana e normal, é verdade – de considerar que a história começa hoje, que só existe o presente. Não é por acaso que um lugar-comum imbecil que vagueia por aí prega que o passado é coisa de museu.

Pelé e Messi não são excludentes; ao contrário, se completam e refinam uma atividade em constante progresso. Bobagem tremenda achar que, ao elogiar um, necessariamente se deve olhar de esguelha para o outro. Quem age dessa forma não curte plenamente o prazer que o futebol proporciona. Tomara houvesse mais Pelés e mais Messis. A vida, legal por definição, seria mais divertida.

Mas não existem, e sabe por quê? Porque boleiros especiais não brotam como mato, não se encontram em cada esquina. Bons jogadores há às pencas; craques pertencem a casta seleta. Por isso, se destacam, destoam, desequilibram, fascinam e ganham muito. E, ao mesmo tempo, se veem no centro de polêmicas, até contra a vontade deles.

Um dos argumentos para defender a hegemonia de Pelé ou de Messi são os números. Ah, a estatística, divindade do momento no futebol! Um lembra que o astro do Barça está a ponto de superar Pelé em quantidade de gols marcados num ano. Nem sei quantos cada um fez, nem me interessa. Outro rebate com a constatação de que Pelé, adolescente e imberbe, foi campeão do mundo. Um terceiro alega que o brasileiro pegou muito perna de pau pela frente, enquanto o argentino enfrenta grandalhões. Tudo correto, tudo falso.

O que interessa a idade, a não ser como curiosidade cronológica? Ambos são clássicos; portanto, atemporais. Para o apreciador da música, tanto faz que Beethoven tenha composto a Nona Sinfonia com 54 anos, quase antevéspera da morte. Ou que Mozart tenha escrito Don Giovanni, com 31. São obras-primas, atravessam séculos, assim como seus autores. E, salvo engano, não se perde tempo com papo furado de que o austríaco seja mais requintado do que o vizinho alemão.

A qualidade do que fazem Pelé e Messi também é inatacável. Cada um desponta como o máximo em seu tempo, com os recursos, os desafios e as peculiaridades das respectivas eras. O nosso vovô da bola é lendário; o hermano certamente o será. Tiraria o chapéu (se usasse) para ambos, como reverência por aquilo que representam. E seria divino se os visse jogar pelo meu time. Epa, Divino?! Já…

 *(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 24/10/2012.)

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A sabedoria popular diz que alegria de pobre dura pouco. (Será que pode escrever isso ou agora é politicamente incorreto? Sei lá.) E dura mesmo, sobretudo no futebol, esporte em que time que pode mais chora menos. E foi o que aconteceu com o Barcelona, agora há pouco, no jogo que fez com o Celtic, pela terceira rodada da fase de grupos da Copa dos Campeões.

Os escoceses saíram na frente e surpreenderam o povo que lotou o Camp Nou. Depois, permitiram o empate e, em cima da hora, viram os espanhóis virarem. (Ou seriam catalães? Hoje só tenho dúvidas…) Com 2 a 1, o Barça segue com pontuação total na chave, se firma como favorito (de novo) ao título e segue na frente dos demais.

Mas foi dureza, sobretudo no primeiro tempo, em que Celtic fez marcação rígida e, com economia e eficiência, foi ao ataque quando possível. Se deu bem, com gol de Samaras aos 18 minutos do primeiro tempo (a bola pegou em Mascherano). Daí, se fechou e jogou na base do seja o que Deus quiser. E Ele quis que os donos da casa empatassem aos 44, depois de troca de passes entre Xavi, Messi e Iniesta. O último é quem tocou pra dentro do gol.

O filme do segundo tempo você certamente já imagina: só deu Barcelona. Foi um tal de pressiona aqui, toca ali (72% de posse de bola), chuta acolá. Messi teve duas chances pelo menos e ambas morreram nas mãos de Forster. O goleiro do Celtic fez mais umas duas defesas espetaculares, que garantiam o empate e evitavam uma goleada. O argentino não teve desempenho fenomenal desta vez. (Nem é obrigado a jogar demais sempre…)

A torcida do Barcelona, fato raro!, ensaiou até umas vaias para o time. Tímidas, é verdade, mas dava para escutar na transmissão pra lá de competente de Paulo Andrade, na ESPN. O Celtic já festejava a proeza de roubar pontos dos poderosos anfitriões, quando tomou o segundo, aos 48 minutos, numa resvalada de Jordi Alba. Que mancada!

O Celtic pode consolar-se com a possibilidade de dar o troco na volta, em casa. Será?

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O Atlético-MG vai bem, obrigado, no Campeonato Brasileiro. Lidera com méritos e ainda tem um jogo para disputar – aquele adiado com o Flamengo. Um dos segredos do time dirigido por Cuca é a sintonia entre os setores. Pode não ser um esquadrão, mas tem dado conta do recado e não parece ser fogo de palha.

Mas merece destaque também Ronaldinho Gaúcho. O craque foi para Belo Horizonte, após romper com o Flamengo, e porque não lhe restavam alternativas no Exterior,em Porto Alegre, no Rio mesmo eem São Paulo.OGalo acenou como boia de salvação para um jogador maduro, badalado, mas que murchou nos últimos anos.

A aventura foi olhada com desconfiança. Afinal, por que o Atlético iria arriscar-se com um jogador sabidamente difícil de controlar? A troco de que iria chamar um profissional de valor indiscutível, mas de dedicação bem duvidosa? Era mexer com fogo, era investir em um astro que embicou para a fase final de carreira longo do brilho anterior. Havia muitos indícios de que a experiência seria um fracasso.

E, não é que, até agora, o pessimismo não se confirmou? Ao contrário, Ronaldinho tem sido um dos responsáveis pela campanha formidável. Não, ele não está comendo a bola como nos bons tempos de Barcelona. Não tem aqueles atrevimentos que arrancaram aplausos até da torcida do Real Madrid no Santiago Bernabéu. Também não enfileira adversários como se estivesse numa brincadeira de criança.

Ronaldinho no Atlético tem sido discreto, prático e eficiente. Tudo o que Cuca, seus companheiros, dirigentes e torcedores queriam. E, no caso dele, ser “mediano” já é bem mais do que a maioria pode apresentar. O gaúcho tem qualidade no passe, precisão nos lançamentos e inteligência para tabelar. Os outros, sobretudo Jô, agradecem.

Falta-lhe mais pontaria nas finalizações, os gols são mais raros. Mas compensa com participação maior do que a que se via no Flamengo. E está bom assim. Ronaldinho não precisa ser o destaque da companhia. Basta seguir nessa toada que são grandes as chances de terminar a temporada com um título nacional e com o carimbo de recuperado.

Não o vejo de volta à seleção. Nem sei se seria o caso. Mas não resisto à observação: se estivesse num clube de grande apelo popular, do Rio ou de São Paulo, você acha que não estariam ensaiando uma campanha para sensibilizar Mano Menezes? Eu não tenho dúvidas de que a resposta seria “sim”.

 

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Li uma reportagem curiosa sobre Andrés Sanchez. O ex-presidente do Corinthians disse ao portal UOL que o time dele será o “maior do mundo em 2015”. O dirigente que passou o bastão a Mario Gobbi no final do ano e agora é responsável pelas seleções brasileiros garante que, dentro de três anos, Real Madrid, Barcelona e Manchester United estarão em desvantagem em relação ao clube do qual também é conselheiro.

Sanchez é inflamado por natureza e adora cutucar rivais. Agora, ainda sob o efeito da euforia provocada pela conquista da Libertadores, se permite excessos maiores. Deve-se, portanto, conceder-lhe um desconto nessa projeção. Os dias são de festa, e valem imagens exageradas.

É difícil, em curto prazo, superar o apelo mundial que têm as equipes espanholas e inglesas. A fama global que alcançaram é consequência de trabalho de décadas, de investimento pesado em contratações, em infraestrutura, em marketing, em divulgação da marca, em excursões pela Ásia (o maior mercado), em patrocínio, em títulos de larga expressão e por aí vai.

Não foi de uma hora para outra que Real, Barça, Manchester (além de Liverpool, Inter, Milan, Juventus) espalharam sua influência pra todo canto. É preciso levar em conta, também, que os Campeonatos de Espanha, Itália e Inglaterra há muito são vendidos para todos os continentes. Os times desses países estão na boca de milhões de fãs de futebol. As camisas vendem como água gelada em dia de sol na praia. Os jogadores são conhecidos.

Acrescente-se a isso o fato de que a Copa dos Campeões da Europa se tornou o maior torneio de clubes do mundo. Não há vitrine melhor para exposição. Por outro lado, o Campeonato Brasileiro não tem divulgação nem estrutura mercadológica para fazer sombra a seus similares europeus. Assim como a Taça Libertadores é ignorada na maior parte do planeta.

Por esses aspectos, se percebe que o sonho de Sanchez está distante da realidade. O Corinthians pode ter receita enorme, pode conquistar mais Libertadores e mais Mundiais, pode ter grandes jogadores, mas não conquistará mais do que alguns fãs chineses, coreanos e japoneses. Ao contrário dos times europeus, que cativam milhões desses fãs e consumidores asiáticos.

Em todo caso, é lícito fazer tal projeção. A ousadia tem de atuar como motivadora para os cartolas brasileiros. Eles precisam sair da letargia e de pequeno mundo em que se encontram há muito tempo. Devem atrever-se a pensar grande – e agir com grandeza também.

O projeto de expansão corintiano (ou de qualquer outro brasileiro), precisa também estar atrelado a um trabalho intenso – e profissional – de internacionalização dos torneios que disputamos do lado de baixo do Equador. Enquanto o Brasileiro, os Estaduais, a Libertadores, a Taça Sul-Americana forem negociados como produtos de segunda linha, não haverá títulos que tornem nossos times tão populares quanto esses tubarões europeus.

Por ora, é delírio.

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A notícia está em sites, é só dar um ‘google’ para encontrá-la. Um garoto de seis anos, de cidade do interior de São Paulo (por questão de princípios meus, prefiro não citar nomes), passou em dois testes realizados na Espanha e foi convidado a treinar nas categorias de base do Barcelona. A família, felicíssima com a perspectiva de ter um Messi em casa, topou e dentro de pouco tempo voltará à Europa para o garoto treinar.

Não sou psicólogo, não sou pedagogo – e sei que posso cometer erros de avaliação. Não sou também pai melhor do que ninguém. Criei dois filhos com carinho, com os erros e com os acertos da maioria dos pais. Além de passar-lhes ideias claras sobre retidão e respeito ao próximo, tentei dar-lhes liberdade também. Tem funcionado até hoje.

Nunca vi o futebol como uma profissão “menor”, ao contrário do que ocorria para a geração de meus pais. Para eles, o filho deveria estudar e ser doutor. Se o meu rapaz fosse bom de bola (e era, mas não para ser profissional), teria deixado que seguisse adiante. Iria incentivá-lo e certamente acompanharia seus passos bem de perto. Não bateria cabeça, disso estou certo.

Mas não permitiria que saísse do país ainda na primeira infância. Não iria arrancá-lo do convívio dos amiguinhos, dos tios, dos nonnos, para aventurar-se a treinar em terra estrangeira. Nem que eu e minha mulher fôssemos juntos. Se, de fato, tivesse talento, apostaria no tempo para autorizar tal aventura. Quando tivesse consciência das coisas da vida.

Por mais que se diga que o programa inclui estudo e lazer, se trata já de um compromisso a assumir muito precocemente. Criança tem de brincar, precisa manter a cuca fresca, livre de preocupações, deve seguir a ação normal do tempo para amadurecer.

Será positivo incutir na cabeça de um menino a ideia de que terá futuro como jogador de futebol? Quem garante o sucesso dessa previsão? E se não vingar, como ocorre com a maioria dos que frequentam a base de qualquer clube? Qual o preço que se paga por sair do ninho tão cedo? Eu não tenho as respostas, não vou ensinar nada a pai nenhum. São apenas reflexões.

E uma reflexão final: será que um dia esses gigantes do futebol internacional irão apostar em embriões, em fetos, se estudos apontarem que têm potencial para jogar futebol? Não duvido.

 

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