O Noroeste não jogou mal, encarou com altivez o desafio na Vila Belmiro, criou chances, teve pênalti perdido. Enfim, deu a impressão de que poderia surpreender. Ficou só na impressão. Todo o esforço não foi suficiente para evitar a derrota por 2 a 0 para o Santos, na noite desta sexta-feira, na abertura da 8.ª rodada do Campeonato Paulista. Zé Eduardo e Felipe Anderson garantiram a quinta vitória do atual campeão estadual, que retornou à liderança, com 18 pontos, dois a mais do que o Palmeias. Elano também desperdiçou pênalti, no começo do segundo tempo.
O bravo Norusca foi outra vítima de uma equipe tinhosa, que às vezes se deixa pressionar e que ainda tem falhas no sistema defensivo. Mas que é letal quando parte pra cima do adversário. O Santos nem sempre bombardeia, como ocorreu nesta partida. Porém, quando arranca para o ataque provoca calafrios, pela qualidade de seus jogadores, pela rapidez e pela simplicidade. Foi assim contra o Noroeste. Não é por acaso que tem 21 gols, oito a mais do que Americana e São Paulo, que vêm em seguida e não lhe fazem nem sombra.
A zaga santista praticamente se recompôs, com Pará de volta à direita, Edu Dracena e Durval no meio, Leo na esquerda. O meio-campo começa também a ganhar cara de titular, com o retorno de Arouca (ainda fora de ritmo, foi substituído por Adriano), além de Possebon, Elano e Diogo (que foi bem, mas é candidato a perder a vaga quando Ganso for reaproveitado).
Na frente, começaram Zé Eduardo e Keirrison. Maikon Leite ficou fora, mas tem grande chance de formar dupla com Neymar, ainda na seleção Sub-20. Felipe Anderson, que entrou na etapa final, é outra boa alternativa para o ataque.
Ou seja: Adilson Batista tem a sua disposição um grupo bom, acima da média nacional. Poderá repetir a conquista de Dorival Júnior (o Paulista), mas seu maior desafio é a Libertadores. O Santos estreia na terça-feira que vem, contra o Tachira, na Venezuela. E se o torneio estadual vale como tira-gosto, esse time em 2011 vai dar o que falar, como em 2010.
E não é que o calendário sobrecarregado às vezes faz bem no futebol? Uma semana atrás, foi espinafração geral no Corinthians, no embalo da eliminação precoce na Libertadores. Xingamentos, ameaças, pedradas e duas vitórias depois, já pelo Campeonato Paulista, o vendaval afasta-se do Parque São Jorge, embora possa deixar como sequela eventual saída de Roberto Carlos. A sequência de partidas e a necessidade de jogar, jogar, jogar nesse caso fizeram bem ao time e à torcida. Não houve muito tempo para lamber feridas nem para autoflagelação excessiva. Apelou-se para a cicatrização rápida… e vida que segue.
Na busca por paliativos, a bola da vez é Liedson, outro veterano que tomou o rumo de casa, chegou dias atrás, fez um punhado de treinos, beijou a santa, entrou em campo, marcou dois gols e fechou a quarta-feira como novo/velho herói alvinegro. Fez os fãs sentirem que finalmente voltaram a ter centroavante, alguém como referência na área. Passou batido o fato de ter 33 anos, o que pode pesar em temporada intensa. Contaram a alegria que proporcionou e o alívio que representou seu desempenho nos 4 a 0 sobre o Ituano. Está certa a Fiel.
O futebol encanta porque, como a vida, é dinâmico, surpreende, dá cambalhotas. O que decepciona hoje, alegra amanhã e volta a frustrar no fim de semana. E por aí vai. Sustos, sobressaltos fazem parte do cotidiano de qualquer um. Por que estaria ausente de uma atividade que lida demais com o imprevisível, com o improviso? Quem vive nesse meio tem de forçosamente acostumar-se à gangorra, à variação de humor. A paixão move o futebol, por mais que assuste os metódicos, aqueles para os quais o esporte deveria ser manifestação racional, um problema matemático.
Não é assim, no julgamento da torcida e, muitas vezes, na avaliação da crítica. Tenta enganar-se a si próprio quem prega o contrário. Na hora em que o futebol se transformar em discussão acadêmica, matéria para os doutos e sábios, perderá o fascínio, tornar-se-á estéril. “O homem é sobretudo um verdadeiro feixe de contradições”, disse um personagem de Érico Veríssimo. Não seria eu a contrariar um mestre da literatura.
Futebol é contradição. É – e daí? Por isso, hoje Liedson recebe lufadas de incenso, que talvez venham a faltar-lhe daqui a pouco. Desembarcou no Parque em momento propício para firmar-se. Com Ronaldo em baixa, com Edno como alternativa precária, com William como promessa, estão escancaradas as portas para assumir espaço de ídolo. Fugaz que seja – calejado, sabe dessa precariedade. Mas o “velhinho” chegou sacudido e balançando as redes. Tem algo mais compensador no futebol do que o gol?
Os holofotes se voltam para Liedson, ao mesmo tempo em que Ronaldo segue à sombra. As dores musculares convenientemente alegadas para deixá-lo fora do time foram maneira delicada de afastá-lo da ira da turba. O astro da companhia viu-se escolhido como bode expiatório pelo sonho frustrado da América, o que é compreensível apesar de injusto. Foi vítima da idolatria. Na lógica entortada do fã, como ele era a maior esperança, o nome mais famoso e se mostrou impotente – como os demais –, teria sido também o responsável pela desclassificação. Errado, sem dúvida. Mas fazer o quê?
Longe de polêmicas, terá tempo de cuidar da recuperação que prometeu, dias atrás, via tuíter. Para alegria geral e para sair de cena de forma altiva. No entanto, até aposentar-se, no fim do ano, continuará a dividir opiniões. Haverá os que não o veem mais como ídolo nem reconheçam seu valor. Assim como haverá os obcecados que detectarão menosprezo em qualquer crítica que se lhe faça, não enxergarão rotundas evidências de que o tempo nos alcança e ficarão enciumados por elogios a supostos rivais de Ronaldo.
Prudente é fugir de extremos, ignorar exageros, escantear preconceitos ou deslumbramento cego. Dessa forma se pode vislumbrar o Ronaldo normal, homem com qualidades e defeitos, craque na reta final de carreira – porém sempre craque, condição que jamais lhe será tirada. Melhor vê-lo assim e não como semideus, nem como ídolo caído a merecer apedrejamento. Ele fica até mais simpático.
*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, dia 11/2/2011)
Roberto Carlos e diretoria do Corinthians terão nesta sexta-feira reunião que pode representar fim de parceria que começou em janeiro do ano passado. O lateral esquerdo não se sente confortável, após os incidentes ocorridos como consequência da eliminação do time na fase preliminar da Libertadores, e anda muito calado, o que contraria seu temperamento. A torcida pegou pesado com ele, assim como jogou duro com Ronaldo e com o presidente Andrés Sanchez, eleitos como vilões pela frustração. Por isso, se prevê que a ruptura amigável seja a saída para o impasse.
Se isso acontecer, será uma pena. Pelo conjunto da obra, Roberto Carlos não merecia interromper dessa forma a experiência num dos clubes mais populares do Brasil. A carreira teve regularidade formidável, e rara hoje em dia, sobretudo com os dez anos como titular do Real Madrid, em que pressão existe tanto quanto no Corinthians. Sempre o vi como jogador eficiente, com preparo físico impecável e com histórico de contusões que se pode contar numa mão só. Com quase 38 anos, até outro dia era elogiado pela desenvoltura de “garoto”.
Mas o Corinthians é sempre superlativo, exagerado, tanto na euforia como nas tragédias. Assim como incensa jogadores e os transforma em heróis, de uma hora para outra a torcida os malha como Judas em sábado de aleluia. E não tem conversa. Rivellino, Edilson, Tevez são exemplos de figurões que um dia sentiram o carinho e o ódio de seus seguidores alvinegros. O desfecho naqueles episódios foi sempre o mesmo e inalterado: a debandada do atleta “marcado”.
No caso do Roberto Carlos, ainda merece explicação detalhada essa história de perseguição pelas ruas… Se for verdade, o caminho é procurar a polícia. Não sei se o fez. Já se a pressão é desculpa para um desejo de saída, aí a história é outra. Como sempre foi de falar o que sente, seria melhor esclarecer tudo, para que não fiquem mal-entendidos nem pairem no ar conjeturas de que vai embora em busca de dinheiro.
De qualquer forma, relações que se desfazem me deixam triste – sejam aquelas de trabalho, familiares ou esportivas. Mesmo nestes tempos em que o conceito de fidelidade entre jogador e clube é tão tênue e maleável, há perda para ambos os lados – e perdas me provocam sensação de vazio. Roberto Carlos também sente mais uma vez, e nas páginas finais da carreira, como o futebol mói os astros. Quatro anos e meio atrás, a trajetória na seleção acabou no momento em que ajeitou o meião no lance do gol da França sobre o Brasil na Copa.
Era necessário um culpado pela queda – Roberto Carlos veio a calhar. Com o que não concordo. Incomoda-me a ansiedade com que todos (torcedores e imprensa) buscamos vilões para grandes derrotas. Parece que sem eles não há explicações que façam sentido. É doideira do esporte, eu sei, e muitas vezes as acusações morrem logo. Em outras, eternizam injustiças.
Há quem considere Roberto Carlos polêmico, mascarado. Polêmico às vezes, mascarado não. Nunca me passou essa imagem. Nos contatos que tive com ele, no Brasil e no Exterior, raramente o vi recusar-se a expor sua opinião (com a qual nem sempre concordei) e não me lembro de tê-lo visto destratar fãs. Se de fato ele sair do Corinthians, desejo-lhe boa sorte. E que algum time de expressão o acolha, como etapa final antes de pendurar chuteiras.
(Este texto foi atualizado às 12h25, com algumas correções e dois novos parágrafos.)
Ok, foi apenas a (re)estreia, mas Liedson acenou com a possibilidade de acabar com um tormento para a torcida do Corinthians: a falta de um goleador. Com a má fase de Ronaldo, com a limitação de Edno e com a inexperiência de William, o veterano atacante (33 anos festejados em dezembro) voltou a cena com a obrigação de não decepcionar no Corinthians. E não negou fogo, pois marcou os dois últimos gols, nos 4 a 0 sobre o Ituano, nesta quarta-feira. Alguém duvida que vai virar titular?
Não foi apenas pelos gols, ambos no segundo tempo, que Liedson se destacou. Já na etapa inicial, chamou a atenção pela boa movimentação, pelos deslocamentos, pelos passes e até por chance para marcar. Parecia velho de casa, tal a desenvoltura. Esteve muito à vontade e passou a descontração para o torcedor, que o aplaudiu. Também não sentiu falta de ritmo – e o jogo ajudou. O Ituano foi presa fácil e adversário ideal para marcar o retorno.
O Corinthians fez sua parte ao afastar qualquer veleidade do time de Itu, com o gol de Ramirez, aos 2 minutos, depois de jogada de Alessandro na linha de fundo. E encolheu-se todo com o gol de Chicão aos 24. O alvinegro mandou até o fim, sem necessidade de acelerar. No segundo tempo, Tite ainda colocou o baixinho e lépido Morais no lugar do Ramirez. Assim como havia ocorrido no domingo, Morais tornou o meio-campo e o ataque mais ágeis e fez os passes para os dois gols de Liedson (aos 31 e aos 47). Aos poucos, mostra-se boa alternativa.
Tite deixou fora de novo Roberto Carlos – desta vez optou por Marcelo Oliveira na esquerda. Também continuam de molho Dentinho, Ronaldo e Bruno César. O Corinthians se reergue devagar, está no bloco principal, pode encostar na liderança quando igualar o número de jogos e tem o torneio estadual como a única saída para esquecer o trauma da Libertadores. Que seja esperto e aproveite a chance.
Era importante para o Fluminense estrear sua caminhada na Libertadores com vitória. Jogo em casa, com apoio da torcida, tornava-se fundamental tirar o peso da tensão com desempenho convincente. Pois isso não aconteceu: ficou no empate por 2 a 2 com o Argentinos Juniors – e, pior, resultado obtido no sufoco, pois duas vezes ficou em desvantagem. Já na primeira rodada, se acende sinal amarelo para o atual campeão brasileiro, que gastou sua quota de pontos como mandante e vê aumentada a obrigação de ganhar, quando receber a visita de Nacional-URU e América-MEX.
O time argentino surpreendeu. Enganou-se quem o esperava recuado, à espera da pressão. Obermann várias vezes puxava os contra-ataques, em busca de Salcedo e Niell. A tática dos hermanos desconcertou o Flu, que levou alguns sustos. Num deles, aos 35 minutos, Niell dividiu dentro da área, a bola rolou para o gol, André Luís tirou, mas ela ultrapassou a linha. Bandeirinha e juiz não viram, para felicidade nacional. Aos 44, Niell cabeceou e dessa vez não houve dúvida alguma: vantagem de 1 a 0 para o Argentinos Juniors.
No intervalo, Muricy colocou Rodriguinho no lugar de Williams, que não apareceu no primeiro tempo – nem dava, porque ficou isolado e as bolas não vinham de Souza e Conca. O Flu foi na base da vontade para cima do rival e empatou com Rafael Moura, de cabeça, aos 12 minutos. Quando ameaçou mandar, levou o segundo, outra vez com Niell (aos 25), mas Rafael Moura empatou de novo, aos 28. No domingo, ele havia feito os dois na derrota para o Botafogo.
Não foi um desastre total, mas esteve bem perto disso. O Flu tem mais cinco chances para classificar-se, mas já queimou um trunfo. O cálculo habitual para passar de turno inclui três vitórias domésticas, contra dois empates e uma derrota como hóspede. Muricy e seus rapazes deverão fazer com que alguém pague o pato como anfitrião.
Lição antiga no futebol, anterior aos tempos de autoajuda, indica que há derrotas úteis. Se souberem avaliar o que aconteceu em campo, o brasileiro Mano Menezes e o português Paulo Bento terão o que aproveitar dos tropeços de suas equipes, em amistosos desta quarta-feira. O treinador nacional volta para casa com uma série de anotações, após a queda por 1 a 0 diante da França, em Paris, e o técnico luso tem o que estudar, após os 2 a 1 para a Argentina.
Escorregadas nem sempre são desastrosas. Prefiro essas vaciladas diante de rivais de peso do que vitórias muitas vezes enganadoras contra equipes de terceira ou quarta linhas. O Brasil caiu de novo no duelo com um adversário que tem currículo infinitamente menos rico, mas que se tornou, na história recente, uma pedra no caminho. Portugal, em fase de reconstrução, se deu mal, mas só no fim, no confronto com um time tecnicamente bom – superior àquele que Diego Maradona levou para a disputa do Mundial na África.
O Brasil preocupou-se com o sistema defensivo, como Mano havia insinuado nos treinos parisienses. O técnico imagina que a casa amarela começa a ajustar-se de trás para a frente. Nesse aspecto, não há o que reclamar, se fosse só pelo resultado – a equipe levou um gol. Mas, na prática, não foi bem assim. Se topar com um atacante inspirado, como foi o caso de Benzema, já terá dores de cabeça. O jogador do Real Madrid, sozinho, deu conta de enrolar a zaga brasileira, fez o gol da vitória, criou chances e fez Julio César suar, apesar do frio.
A defesa ficou exposta sobretudo a partir do final do primeiro tempo, com a expulsão de Hernanes. Aliás, o meia da Lazio foi estabanado ao dar safanão em Benzema: mereceu o vermelho e desmontou o time. Independentemente do incidente, Lucas, Elias e Renato Augusto limitaram-se a marcar e contribuíram pouco na criação. Robinho e Pato, por extensão, apareceram pouco, como mais tarde André e Hulk.
O Brasil solto e atrevido dos primeiros jogos sob o comando de Mano parece ter saído de férias. Está na hora de voltar – o que pode acontecer quando forem reaproveitados Ganso, Neymar, Kaká, Nilmar e outros que ficaram fora desta convocação. Contra grandes oponentes, é preciso também pensar grande. Atrevimento funciona mais do que “respeito excessivo”.
Portugal e Argentina pensaram grande. Por isso, fizeram belíssimo jogo em Genebra. Os dois times foram fortes na marcação e puxaram contra-ataques com velocidade. As duas estrelas fizeram sua parte – primeiro Messi, com assistência no gol de Di Maria e na cobrança do pênalti que deu a vitória, quase no fim. Depois, Cristiano Ronaldo, com dribles, arrancadas magistrais e o belo gol de empate, ainda no primeiro tempo. Na última jogada antes de sair, na metade da segunda fase, havia dado um drible tão desconcertante que Mascherano foi ao chão.
Portugal com Paulo Bento é mais divertido do que nos tempos de Carlos Queiroz. Que continue assim.
O Fluminense tem a partir desta quarta-feira o desafio de entrar na seleta galeria de brasileiros a conquistar a Taça Libertadores. O atual campeão nacional é o único dos cinco representantes do país na edição deste ano do torneio continental que jamais fez a festa do título. Os demais já levaram o troféu para casa duas vezes. O Santos mandou nos movimentados anos 1960 (62, 63), o Cruzeiro ganhou em 76, 97, o Grêmio em 83, 95 e o Inter em 2006 e em 2010.
O Flu bateu na trave em 2008, ao perder a decisão para a Liga Deportiva Universitaria, no Maracanã, nos pênaltis (3 a 1), depois de vencer no tempo normal por 3 a 1. No primeiro jogo, derrota por 4 a 2 no Equador. A caminhada desta vez começa em casa – entenda-se Engenhão – diante do Argentinos Juniors, que teve seu momento de glória em 1985, em finais contra o América de Cáli (1-0, 0-1. 1-1 com 5 a 4 nos pênaltis). O time argentino depois retornou a seu modesto papel de coadjuvante, do qual nunca mais saiu.
A chance de o Flu superar obstáculos e alcançar a final é grande, assim como a dos demais brasileiros. Nas últimas 20 edições, as equipes domésticas só ficaram fora da luta pelo título em 1991, 1996, 2001 e 2004. No mais, foram nove títulos e nove vices (contando que, em 2005 e em 2006, a final foi caseira – primeiro com São Paulo/Atlético-PR, depois com Inter/S. Paulo).
Mais do que a estatística, o Flu tem a seu favor o conjunto. A base da campanha no Brasileiro de 2010 foi mantida, e a única baixa significativa ficou para Washington, que se aposentou. A diretoria conseguiu segurar jogadores como Conca, Mariano, Fred e ainda trouxe o goleiro Diego Cavalieri, mais Edinho, Araújo, Souza e Rafael Moura. Por enquanto, o técnico Muricy Ramalho aguarda recuperação de Deco e principalmente de Emerson.
É um bom elenco o do Fluminense, se se levar em conta que não há supertimes na região. Não me surpreenderá se for de novo à decisão. O primeiro grande teste da temporada foi no domingo, no clássico com o Botafogo, pelo Estadual do Rio. Perdeu por 3 a 2, mostrou brechas no sistema defensivo, mas tem espaço para melhorar.
O importante hoje é estrear com vitória, para aliviar a tensão, mesmo modificado, já que Fred cumpre suspensão e Leandro Eusébio é dúvida. Na fase de grupos, com seis jogos, a estratégia corriqueira indica bater os rivais como mandante e arrancar pelo menos dois empates como visitante. Dessa forma, com 11 pontos dificilmente se perde a vaga no Grupo 3, que tem ainda América-MEX e Nacional-URU. Depois, na fase de eliminação direta, a história é outra.
O ano promete para o Flu, embora Muricy aponte o Santos como o melhor brasileiro na Libertadores. Bom palpite, mas a conferir.
Ronaldo saiu de cena até baixar a poeira no Corinthians – o que, de certa forma, já começou a ocorrer na tarde de domingo, com a vitória no clássico com o Palmeiras. As “dores musculares” (ou “desconforto”, como agora é moda dizer) do astro foram estratégicas. Estou convencido disso, por mais que as versões oficiais indiquem o contrário. O resto é conversa pra inglês ver. Tanto que ele, animado, informou no tuíter (agora toda personalidade só faz declarações pelos 140 caracteres) que está liberado para retomar os treinos. Só não sabe quando será escalado. Não tem pressa nem acho errado preservá-lo…
A data da volta aos gramados vai depender mais do clima no Parque São Jorge e menos de seu condicionamento. A decepção com a queda precoce na Libertadores persiste. Porém, como tudo na vida, tende a amainar com o tempo. E é com esse santo remédio que contam jogador, treinador e dirigentes. O Fenômeno foi um dos alvos principais da ira da torcida, após o fiasco na Colômbia - compreensível, por se tratar do nome mais importante do elenco e um dos que se mostraram impotentes. Injustificáveis foram, e sempre serão, as atitudes violentas.
Ronaldo também tocou num vespeiro ao levantar suspeita de que parte dos protestos foi encomendada. Haveria motivação política nos xingamentos e tentativas de agressão ocorridos nos últimos dias. Tese corroborada por outros companheiros e mesmo pelo presidente Andrés Sanchez, que tocou no assunto em entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal “Folha de S. Paulo”. Enquanto não houver serenidade, o atacante fica de molho. Prudência.
Independentemente do astral no clube, a tendência é a de que as aparições de Ronaldo no time sejam sempre mais espaçadas daqui em diante. Ele prometeu, ainda uma vez, dar a volta por cima e encerrar contrato com o Corinthians, e a carreira, com dignidade. Não duvido de seus propósitos e torço para que não sejam apenas retórica. O entrave hoje está no físico, há tempos fora de sintonia com a velocidade de seu raciocíonio, habilidade, inteligência.
Não foi por acaso que o clube correu atrás de substituto e tentou Adriano e Luís Fabiano. A aposta acabou por recair em Liedson, que não é nenhum garoto (em dezembro fez 33 anos). Em compensação, estava em atividade regular em Portugal e em boas condições físicas. Ele será o responsável pelo ataque corintiano e, espero, com eficiência maior do que Souza, Iarley, que já saíram, ou Edno. E, quem sabe?, às vezes atuará ao lado de Ronaldo. Que, apesar das decepções recentes, merece retirar-se com aplausos e não com vaias. Dependerá dele.
Os clubes europeus já há algum tempo aboliram o sentido de “nacional”, ao terem em seus elencos inúmeros estrangeiros. Existem casos radicais, como o da Internazionale de Milão, que costuma apresentar-se com frequência sem nenhum jogador nativo. A moda não é nova, infiltra-se nas seleções, e a Fifa ameaçou intervir. Os donos da bola enxergavam abusos nas naturalizações de jogadores. Consideravam oportunistas e permissivos diversos casos de atletas que ganhavam nova nacionalidade, apenas para que fossem aproveitados em competições internacionais.
Pois a Fifa acaba de autorizar a inclusão de Thiago Motta no grupo de atletas convocados por Cesare Prandelli para defenderem a Squadra Azzurra no amistoso com a Alemanha, nesta quarta-feira. O meia da Inter, paulista de nascimento, mas com passaporte italiano, tinha sua presença ameaçada porque em 2003 defendeu a seleção brasileira na Copa Oro, disputada no México. Como o país foi representado por uma delegação de Sub-23, a Fifa entendeu que não se tratou de time principal.
O que me chamou a atenção não foi a decisão da Fifa – os cartolas lá que se entendam, embora para todos os efeitos se tratou de torneio oficial. Daí… O detalhe que me surpreendeu foi a rapidez com que Thiago virou opção para atuar numa equipe quatro vezes campeã do mundo e com dois vices no currículo. Ele desembarcou na Itália há dois anos e tanto (Genoa e Inter), depois de passar oito temporadas na Espanha, e já é imprescindível?!
Não sou contra estrangeiros defenderem a seleção dos países em que trabalhem e vivam. É uma extensão da rotina diária, até um direito deles. Mais uma manifestação de cidadania e inclusão. Mas entendo que seja necessária uma ligação afetiva, histórica, cultural, real para usar o uniforme da nova pátria. Não me convencem amores repentinos e arrebatadores por uma terra. Não se formam laços profundos em pouco tempo.
O caso do Amauri (hoje no Parma) despertou polêmica parecida, mas menos infundada. Afinal, mora na Itália há uma década, sempre jogou por equipes locais e só vagamente tinha esperança de ser lembrado por Dunga, como de fato foi – e uma vez apenas (recusou o chamado). Sua presença no elenco da Azzurra soou natural, assim como alguns anos atrás Paulo Rink optou pela seleção da Alemanha.
Espantosa, também, é a facilidade com que jogadores conseguem passaportes europeus. Para eles a burocracia anda veloz. Por mínimo que seja o tempo de vivência em determinado país, ou com tênues laços sanguíneos com a terra, logo são alçados a cidadãos locais. Nos mesmos países que tratam de dificultar a entrada de trabalhadores menos qualificados, quando não os enxotam como lixo descartável.
O grande jogo do domingo recheado de duelos regionais ocorreu no Engenhão. Botafogo e Fluminense fizeram partida pra ser lembrada por muito tempo. O Clássico Vovô honrou a tradição, pois teve de tudo: viradas no placar, discussões, bolas na trave, pênalti desperdiçado, pênalti aproveitado, bate-boca, expulsões, reclamações dos dois lados contra arbitragem. E acima de tudo bom futebol. Melhor para o Bota, que venceu por 3 a 2 e está a um passo de fechar na liderança do Grupo B do Estadual do Rio e evitar o Flamengo na semifinal.
O duelo desta noite estava com pinta de que seria diferente, porque desde logo quem roubou a cena foi Renato Cajá, um coadjuvante no meio de tanto jogador badalado. Ele incendiou o tira-teima com gol de falta aos 23 minutos e com uma bomba no travessão dois minutos depois. E repetiu a dose ao acertar a trave outra vez, aos 42. A glória de Cajá só não foi maior, porque Rafael Moura, que acabou de chegar ao campeão brasileiro, comandou a virada, com os gols que marcou, aos 30 e aos 44 minutos.
O primeiro tempo, que demorou para engrenar, por causa da boa marcação dos dois lados, ainda teve discussões (entre Fred e Loco Abreu) e dois cartões vermelhos: para Valência (Flu) e para Marcelo Mattos (Bota), por falta em Conca, que devagar recupera o ritmo do ano passado. O fecho da primeira fase foi o caldo para emoções do segundo tempo.
Que não decepcionou. O Loco Abreu justificou o apelido ao cobrar pênalti (cometido por Rafael Moura, vejam só!), com uma cavadinha muito da cara de pau. Diego Cavalieri defendeu e teve seu momento de herói. Mas o uruguaio, com tremendo sangue frio, não abriu mão de seu estilo e, em novo pênalti, aos 11 minutos, fez o gol de empate. A torcida do Botafogo fez a festa definitiva aos 18, com o gol de Herrera que garantiu a vitória.
O Fluminense se complica no Estadual, porque com 15 pontos tem de bater o Madureira, na última rodada, e ainda torcer por tropeço do Botafogo (16) contra o Macaé. Ou seja, precisa contar com a zebra… Na verdade, já está com o espírito preparado para um Fla-Flu na semifinal. O mais importante, porém, é se acertar para o desafio com o Argentinos Juniors, na quarta-feira, na estreia na Libertadores. Muricy terá trabalho para ajustar a defesa e para criar alternativas de ataque, pois quando Fred é muito marcado faltam opções.
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