Antero Greco - Estadao.com.br
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26.abril.2013 12:29:05

Democracia é um estorvo*

Uma regra preciosa do Jornalismo e da Psicanálise ensina que é fundamental deixar a pessoa falar, falar, falar. Pois assim, numa entrevista ou numa sessão de terapia, ela expõe o pensamento, abre o coração, desnuda a alma (para ficar em lugares-comuns ainda em uso). Enfim, revela-se. Mais peso têm as palavras se a personagem for pública.

Aí está Jerôme Valcke para comprovar a premissa. O francês ocupa cargo relevante na Fifa – como secretário-geral, está abaixo só do presidente, Joseph Blatter. Portanto, suas atitudes, decisões e declarações contam e repercutem. Por não se tratar de barnabé de quinto escalão, um pronunciamento dele soa oficial.

E não é que Valcke solta outra pérola, desta vez com teor polêmico superior à da famosa frase “O Brasil tem de tomar um pé no traseiro” (no que se referia a obras para 2014)? O dirigente explicou, em simpósio na Suíça, que preparar Mundial em país com várias esferas de governo (federal, estadual e municipal) é mais complicado do que em nações com poder centralizado.

“Vou dizer algo que é maluco”, sublinhou Valcke. “Mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa”, reforçou. “Quando se tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como Putin, em 2018, fica mais fácil para nós.” Outra indireta pra cá?

A manifestação de Valcke espalhou-se num instante, provocou barulho e saia-justa, a ponto de fazê-lo voltar atrás de novo. Em nota publicada ontem, explicou que foi mal interpretado, que jamais abdicou de postura democrática, etc, etc. Quem sabe, assim como no episódio da gafe com o Brasil, a culpa vá para os tradutores traidores?

O estrago está feito, o lapso expôs outro tanto das convicções do alto executivo e permite conjeturar que tema tão delicado tenha sido debatido anteriormente a portas fechadas. Não é elucubração sem sentido imaginar beneplácito da Fifa com regimes autoritários. Ela se escuda em neutralidade política para historicamente ignorar situações de exceção, desde que não interfiram em seus interesses financeiros.

A dona da bola aceitou uma Copa na Itália fascista em 1934, ignorou a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler (os jogadores austríacos tiveram de defender as cores nazistas no Mundial de 1938, na França) e fechou os olhos para as torturas e os desaparecimentos de presos políticos na Argentina do general Rafael Videla em 1978. Fora as inúmeras competições de seleções de base que patrocinou em localidades com liberdade democrática sufocada.

Evidente que se apresenta tarefa amena tratar com políticos que sejam “donos” de uma nação. Isso implica menos gente para dar palpites, menos choques de interesses, como o próprio Valcke admitiu no depoimento agora desmentido. Necessidade menor de prestar esclarecimentos à sociedade. Mas sempre com fair-play no jogo, claro…

A Fifa aprecia reinar soberana onde desembarca com a trupe, com a família. Suas determinações e exigências soam implacáveis e indiscutíveis. Basta ver como pede isenções amplas, como impõe condições, como lucra com voracidade. Ela manda e pronto. Fica à vontade para determinar que o Mané Garrincha, em Brasília, será chamado de Estádio Nacional na Copa das Confederação e no Mundial, embora oficialmente não “vete” o nome popular. Sente-se forte para proibir, se quiser, a venda de acarajé nos arredores da Fonte Nova (ou Arena, sei lá).

Democracia, de fato, é um estorvo.

Casca de banana. A CBF arruma jogos mequetrefes para a seleção que se tornam cascas de banana: provocam falsa ilusão positiva (como em goleadas contra Iraque e China) ou desencadeiam onda pessimista. Como no empate por 2 a 2 com o Chile. A partida de anteontem, em BH, serviu para acordos com patrocinadores, mostrou grupo de jogadores destreinados, que não formaram time, e espetáculo fraco. Com vaias e desgaste para atletas e para a comissão técnica. Perda de tempo e energia.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 26/4/2013.)

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Esses jogos mequetrefes que inventam para satisfazer patrocinadores ou para trocas políticas só servam para atrapalhar a seleção brasileira. Junta-se um punhado de bons jogadores de uma hora para outra, organiza-se um treino, a moçada vai pro jogo e o que se espera é ver um time pronto. Como isso muitas vezes não acontece, sobram críticas.

O exemplo mais recente foi o amistoso com o Chile, na noite desta quarta-feira, em Belo Horizonte. Duas as justificativas: evento-teste para a Copa das Confederações e oportunidade final para Felipão escolher a lista de convocados para o torneio de logo mais. Ambas desculpas esfarrapadas. O Mineirão foi reinaugurado com o clássico local, entre Atlético e Cruzeiro, que valeu para perceber os problemas do complexo esportivo, e tenho minhas dúvidas se o treinador pôde avaliar jogadores.

O Brasil topou com um Chile também lado B, mas combativo, enroscou-se em sua falta de entrosamento – o que era mais do que lógico –, desagradou aos torcedores, saiu com empate de 2 a 2 e tomou vaias e “olé!”. O público aproveitou a ocasião também para descarregar sua implicância com Neymar, numa atitude em que todos perdem.

Bem feito. A CBF vende a partida como importante, mídia embarca nessa junto com a plateia, e daí para otimismo falso ou negativo exagerado é apenas um passo. Da mesma forma como era enganação golear Iraque ou China e acharmos que a seleção estava pronta, da mesma forma é injusto descer a lenha diante dos chilenos. E o público se sentiu no direito de protestar, porque achou que era jogo pra valer. Foi iludido.

O Brasil que se apresentou não é aquele da Copa das Confederações – uma pena, pois se perdeu chance de testar o time completo (impossível, por não se tratar de data-Fifa) e se exigiu de um grupo de atletas que atuam aqui esforço adicional desnecessário. A maioria terá compromissos mais sérios, nos estaduais ou na Libertadores.

Está na hora de pararmos com essas enganações, com essa conversa mole de que todo jogo da seleção é fundamental. Muitos são descartáveis e não levam a nada, a não ser a dor de cabeça. São importantes apenas para quem tem os direitos de exibi-la aqui, ali e acolá – e nem sempre para Felipão e atletas. No mais, servem para acirrar o baixo-astral e para cobranças exageradas.

Por isso, pra mim, tanto faz se ganhasse, perdesse. E pouco me diz o empate. O Brasil de verdade surgirá na Copa das Confederações. Para o bem ou para o mal. O resto é armadilha, pegadinha. Embarca quem quer.

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A seleção brasileira faz nesta noite, em Belo Horizonte, mais um desses amistosos de discutível utilidade, pois não conta com jogadores que atuam no exterior. E, se o propósito é afinar o time para a Copa das Confederações, o jogo com o Chile perde sentido. Fica como desculpa – a ser aceita só com generosa dose de boa vontade -, a chance de Felipão observar atletas caseiros para preencher a lista dos que disputarão a competição programada para junho.

Provocou alarido a afirmação do treinador, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que a presença de volantes marcadores e criativos é opção bem aceita por torcedores e crítica, mas de serventia duvidosa para a equipe. Em sua visão, a função primordial desses rapazes é a de dar guarida ao sistema defensivo, são uma espécie de bastião da área. Não é à toa que chega a utilizar até três cães de guarda nas equipes que dirige.

A postura do treinador frustra quem imagina ver o Brasil ligeirinho e solto, com meio-campistas como Ramires e Paulinho, aos quais recorreu na reestreia no cargo, contra a Inglaterra. A derrota reforçou-lhe a convicção de que a segurança vem em primeiro lugar. Algo como: esse negócio de jogar bonito serve pra vender imagem, para os analistas escreverem poesia. Quem tem de fazer gols são os atacantes. Tenho dito e não se discute mais.

Surpresa pra você o que diz agora o técnico? Pra mim, nenhuma. Lembro que, tão logo Felipão divulgou a relação inicial de convocados para ir para Londres, escrevi aqui que era agradável ver jogadores de meio com características mais técnicas. Ainda externei minha torcida para que não se tratasse de lapso da parte dele e que ousasse trilhar esse caminho. Foi lapso mesmo.

Não se pode negar, porém, coerência. Pegue a carreira de Luiz Felipe Scolari e constatará que, na maior parte das vezes, jogou com formação tradicional, com zagueiros, laterais ou alas, volantes marcadores, um (às vezes dois) meia de criação e atacantes. Fórmula simples, sem invenção, que lhe valeu títulos dos mais variados matizes – até o penta mundial, em 2002.

Querer que mude agora é sonho – as pessoas tendem a consolidar convicções ao longo da vida e chega um ponto em que não abrem mão delas. Não têm sequer vontade de testar alternativas diferentes daquelas que já conhecem. E aqui não vai crítica, nem preconceito com idade de quem quer que seja; apenas constatação. Veja em sua profissão.

Por falar em 2002, Felipão lembrou que aquela seleção vitoriosa tinha Gilberto Silva e Kleberson, clássicos volantes de contenção, como se diz hoje em dia, em lugar de cabeça de área. Algumas vezes, contaram ainda com o reforço adicional de Edmilson. Verdade. Lembrou ainda que, em 1994, jogavam Mauro Silva e Dunga no meio de campo na campanha do tetra.

Mas tanto numa como noutra ocasião havia atacantes que arrasavam. Nos Estados Unidos, Romário foi incontrolável e Bebeto, funcional. Na Ásia, o trio Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho arrasou adversários. Ou seja, mesmo com vários atletas com a incumbência de fechar espaços na defesa, a compensação vinha com astros ofensivos, com definidores de qualidade acima da média.

Esse detalhe faz diferença? Em geral sim, mas não é regra. O Brasil já teve craques de encher os olhos e não venceu (1982, com Falcão, Zico e Sócrates, entre outros, e 2006 – Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, de novo, são exemplos). Como não é indesmentível a tese de Felipão de que grupo vencedor tenha de ser necessariamente pegador. Em 1990 (Dunga e Alemão) e 2010 (Felipe Melo e Gilberto Silva), preocupou-se com marcação e não venceu. Em compensação, no tri, em 58, 62 e 70, havia marcadores como um Zito ou um Clodoaldo – e olhe lá. E ambos fizeram gols nas Copas.

O que se espera de Felipão é bom senso na escolha dos nomes, que leve os melhores. No mais, o risco será dele: se vencer, terá sido perseverante. Se perder, um cabeça-dura.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 24/4/2013.)

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Parem as máquinas! Preparem os calmantes! Façam estoques de refrigerantes e pipoca! Reserve uma grana extra para ir aos estádios! No próximo final de semana, começará o Campeonato Paulista. Já não era sem tempo. Epa, o calendário corre solto desde janeiro, houve uma infinidade de jogos e só agora vem essa novidade?! Sim, sim, sim.

Acabou a arrastada e quase inútil fase de classificação para apurar-se os quatro times que, junto com Palmeiras, Santos, Corinthians e São Paulo, vão disputar o título pra valer. Ou você tinha alguma dúvida que o quarteto, com 19 oportunidades, iria jogar uma vaga no lixo? Só se algum deles fosse tomado por incontornável incompetência.

A nota destoante será o clássico que Santos e Palmeiras farão na Vila. Imaginava-se que não haveria choque de grandes nas quartas de final, disputada em confronto único. (Mais uma contradição do regulamento.) E, por isso, também haverá um duelo entre times do interior, em Mogi x Botafogo. Completam o quadro São Paulo x Penapolense e Ponte Preta x Corinthians.

Desse bloco, vejo o São Paulo como favorito diante do time de Penápolis. É só o que falta, neste momento, a turma de Ney Franco negar fogo diante de rival mais fraco. Jogo pra liquidar no tempo normal, sem risco de pênaltis. E esperar o vencedor de Ponte x Corinthians. Este deve ser mais equilibrado, pois a Ponte só perdeu uma vez (contra o Palmeiras) e mostrou muita regularidade. Como elenco, o Corinthians é melhor.

Santos x Palmeiras é casca de banana. O Santos não fez uma campanha extraordinária e depende muito da inspiração de Neymar. O Palestra não é grande coisa, mas mostrou que em certas ocasiões pode superar-se e surpreender. Não tenho favorito. Assim como é arriscado cravar o Mogi diante do Botafogo. São concorrentes que se equivalem.

Uma coisa é certa: o Paulistão precisa ser repensado. Caso contrário, continuará a minguar, em qualidade técnica e em público. Mas, para tanto, é preciso que a FPF faça sua parte. Fará?

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21.abril.2013 12:39:35

Futebol é cachaça*

No meio da semana, o Santos jogou pela Copa do Brasil, se classificou e Muricy Ramalho deu as explicações de praxe. A entrevista ia na base do papo vem, papo vai, até que o técnico deu a entender que iria aposentar-se no fim do ano, tão logo terminasse o contrato atual. A ideia passou a cutucar-lhe a cachola após o problema de saúde que o fez ficar de molho por alguns dias em hospital aqui de São Paulo. O susto o levou a considerar a hipótese de curtir mais a vida ao lado da família, depois de tanta estrada, e longe do stress provocado pela profissão. Epa, ali estava uma novidade e tanto!

Muricy pareceu bem sincero no depoimento, mas à medida que falava me batia a certeza: ele não vai parar. Pelo menos não tão já. Encerrar carreira é das decisões mais difíceis na vida de todo cidadão que curte a profissão, seja qual for. Ficar em atividade, enquanto houver saúde, disposição e mercado, gratifica, oxigena o cérebro, empolga.

Quando comecei a batucar em antiga Olivetti Lettera, neste mesmo Estadão, nos tenebrosos idos de 1974, com versos de Camões e receitas de bolo a denunciar espaços do jornal roubados pela censura, companheiros experientes advertiam que enveredava por um “vício” pior do que cachaça. Achei folclórica a predição, afinal verdadeira. Na marvada nunca me liguei, por opção e estômago indócil, mas do jornalismo não nunca cogitei abrir mão, ainda mais com internet, blog e outras bossas.

Pendurar a pena é complicado, ao se tomar gosto por escrever. Porém, pelo que presenciei em inúmeras ocasiões nestas quatro décadas, o sujeito afastar-se do banco de reservas e do joguinho de bola só com camisa de força, por absoluta falta de condições físicas ou por ausência cortante de convites. Uma vez dentro da ciranda, não há como sair. Ser treinador de futebol vicia. Não sou eu quem afirma, mas gente do meio.

Cria-se dependência voraz e não tem terapeuta que dê jeito. Reza a lenda que professores de ponta ganham os tubos – e muitos recheiam vários pés de meia. Taí um ótimo motivo para seguir em frente. No entanto, tem preço: constantes mudanças de casa, pois não se escolhe a cidade para treinar; pressão de dirigentes, torcedores e empresários; a necessidade de lidar com ego de atletas; acostumar-se a ouvir “burro e imbecil” como qualificações mais suaves. E as demissões de uma hora para outra, fora os calotes de clubes maus pagadores?

Treinadores desenvolvem formas de compensação, criam escudos invisíveis, na base de discursos prontos – para início de trabalho, momentos de alegria, fases críticas e debandada. Num instante falam em dar um tempo, reciclar-se, sair de circulação. Tão logo recebem proposta, largam o pijama, botam agasalho e vão à luta.

Lembro de Rubens Minelli, então no auge da fama, no fim dos anos 1970, anunciar que ia pra casa assim que comemorasse o cinquentenário em 78. Conversa. Vinte e tantos anos mais tarde continuava a dirigir grupos de atletas e hoje se diverte como comentarista. Jamais largou a bola. Telê Santana, Osvaldo Brandão, e mais recentemente Zagallo, só passaram a ver futebol no sofá, quando o corpo se recusou a mais aventuras.

Zico roda o mundo nas mais diversas andanças; Falcão largou empregão na Globo, depois de 15 anos, e voltou à rotina cigana e instável de treinador; Luxemburgo tomou cachações no Chile, e vê se pensa em parar! Não!

Moral da história. Muricy pesou o que disse e chegou à conclusão de que “ainda é cedo” para parar. Eu sabia! Pois essa cachaça é difícil de largar.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 21/4/2013.)

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Vanderlei Luxemburgo não é um frade capuchinho e passa imagem antipática para muita gente. Ou seja, é personagem controvertido no futebol. Mas, mesmo quem não goste dele não deve considerar normal as agressões de que foi alvo, na noite de quinta-feira, após o empate com o Huachipato que deu a vaga ao Grêmio na Libertadores.

Violência sempre, sempre, é desagradável, não deve ser aceita como meio de resolver diferenças. E se torna mais grosseira e covarde quando se vê jovens atletas atacando um sexagenário como o treinador brasileiro. Dar socos e pontapés é cena grotesca, é manifestação antissocial, antidesportiva. Quem vibrou com aquilo deveria colocar-se no lugar de Luxemburgo ou de algum parente. E verá como provoca indignação.

Não sei o que Luxemburgo disse, assim que terminou o jogo. Ele garante que apenas cumprimentou o árbitro. E, mesmo se tivesse feito alguma ironia, não se justificava o destempero do massagista do Huachipato, um senhor com cabelos brancos e claramente mais velho do que o técnico brasileiro. Muito menos a reação truculenta do treinador clube chileno, que ajudou a tornar mais quente o ambiente.

O mais lamentável de tudo é ver que um jogo normal, sem lances polêmicos, sem violência entre os jogadores, tenha terminado como espetáculo de gladiadores. Isso servia para a Roma Antiga, não para os tempos de hoje, numa competição que se pretende ser das mais importantes do esporte. Aquilo nem na várzea acontece.

Só que Libertadores e outras competições internacionais na América do Sul continuam a ser confundidas com rixas entre países, se assemelham a guerras e besteiras do gênero. Isso acontece pela cultura de impunidade  incentivada por décadas de omissão dessa entidade frágil e omissa que é a Confederação Sul-Americana de Futebol.

Os cartolas da região são compadres, mais interessados em perpetuar-se no cargo do que em promover o esporte. Brincam de espelhar-se nos colegas europeus, mas na prática agem como coronéis que parecem divertir-se de ver os servos a brigarem entre si.

E, sem ser preconceituoso, repare nos times que ultimamente têm se envolvido em batalhas: são Arsenal, Tigre, Huachipato e outros menos votados. Ou sejam, agremiações sem tradição, que levam para a Libertadores ou para a Sul-Americana a ideia de que vale tudo para ganhar. E nesse vale tudo todos perdem.

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19.abril.2013 13:01:47

Mudanças de humor*

Nem precisa ser especialista em óperas, como Roque Citadini, ex-dirigente do Corinthians cujas provocações andam em falta no futebol. Qualquer apreciador de boa música já ouviu “La donna é mobile”, do Rigoletto, de Giuseppe Verdi, em que os primeiros versos cantam: “A mulher é volúvel, e como uma pluma ao vento muda de tom e de pensamento”.

Discussões machistas à parte, aplicam-se à perfeição ao torcedor, que tem na paixão e na inconstância de humor os combustíveis que o movem. Pegue como exemplos palmeirenses e são-paulinos. Até uma semana atrás, andavam murchos, cabisbaixos, cismados com a sorte de seus respectivos times na Libertadores. A desclassificação batia à porta.

Bastou uma vitória por cabeça e tudo mudou. O Palmeiras deixou de ser o patinho feio na competição e virou motivo de pesadelos para o Corinthians – na visão palestrina, mesmo com a derrota de ontem no Peru. O São Paulo ameaçava implodir, até ganhar do Atlético e se transformar em favorito ao tetra – do ponto de vista de tricolores exultantes.

Estão errados? De maneira nenhuma. Torcer é encarar a contradição como sentimento óbvio e natural. Pedir coerência ao fã significa tirar-lhe a espontaneidade. É necessário que se deixe levar pelo calor da hora, e não deve envergonhar-se de aplaudir minutos depois de ter lascado vaias e xingamentos para os jogadores, o técnico, os dirigentes.

Atitude patrulhenta e aborrecida exigir que o torcedor se comporte com fleuma e indiferença, na alegria ou na apreensão. Assim como é antipático boleiro afirmar dedicar façanhas “para o grupo”. Conversa fiada. Um dos desafios profissional consiste em conquistar a plateia, como atores e cantores numa noitada operística. Sem público não subsistem.

O bom senso tem de ficar no lado de cá do balcão. Cabe a analistas manterem a compostura, interpretar resultados e detectar tendências. E mesmo assim com risco de levarem trança pé aplicado pelo imprevisível jogo de bola. O Palmeiras superou expectativas ao compensar carência técnica com dedicação emocionante. O empenho extremo o levou para as oitavas de final da Libertadores. Novos avanços dependem de vários fatores. Racionalmente, porém, é exagerado antever que dispute o título.

O São Paulo tem elenco melhor do que o rival doméstico, mas em teoria enfrentará obstáculo complicado, ao topar de novo com o Atlético. Clássico com mão dupla – e não me refiro a jogo cá e lá. Tanto a turma de Ney Franco pode se dar bem, por ter botado medo nos mineiros, com os 2 a 0 de anteontem, como levar uma tunda ao cutucar equipe que relaxou no Morumbi. O retrospecto no torneio indica avanço atleticano. Só que não se deve desprezar a revigorada autoestima tricolor…

A propósito de autoconfiança reconquistada, foi bacana o gesto de Rogério Ceni de assumir a responsabilidade de cobrar o pênalti que resultou no primeiro gol. Como capitão e mais experiente do elenco, respirou fundo, mirou o canto e mandou ver. Isso é o que se espera de astros.

Gratuita a frase que soltou na entrevista após o jogo, ao lamentar que a classificação tirou assunto dos repórteres, pois “desgraça vende mais do que alegria”. Mostrou que mesmo jogador articulado não está imune a preconceitos. A imprensa, esportiva sobretudo, não procura tragédias para chamar atenção. Ao contrário, grandes feitos dão audiência. A função da mídia é noticiar, opinar e não distorcer. Pena ver preconceito em quem na carreira recebeu de jornalistas, por mérito, mais elogios do que críticas.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 19/4/2013.)

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O Atlético garantiu, nos últimos dias, que não permitiria o avanço do São Paulo para as oitavas de final da Taça Libertadores. Justamente porque seria o adversário a enfrentar na largada da etapa de eliminatórias diretas, com todos os riscos que isso implica. Melhor, portanto, livrar-se logo de qualquer ameaça.

Mas, na prática, o melhor time da competição na fase de grupos, não fez nada para evitar o duelo verde-amarelo nas próximas semanas. Ronaldinho Gaúcho e companheiros estiveram muito aquém das cinco rodadas anteriores e sucumbiram diante de um rival pressionado, determinado e animado pela torcida. Resultado: 2 a 0, a classificação tricolor e, o que é pior, um obstáculo e tanto para o Galo.

O São Paulo fez o que a torcida imaginava, sonhava e pedia: jogou com garra e vontade, sobretudo no segundo tempo do duelo desta quarta-feira. No primeiro tempo, enroscou nos problemas de sempre, quer dizer, dificuldade para armar jogadas e para chutar a gol. Tanto que Vítor praticamente não foi incomodado.

O Atlético, já com a campanha mais eficiente garantida, tratou de não forçar o ritmo. O empate manteria a invencibilidade e também afastaria o São Paulo da briga. E esse foi o erro da rapaziada de Cuca. Na etapa final, os são-paulinos foram mais atrevidos, se mandaram para a frente e passaram a acreditar na classificação com o pênalti transformado em gol por Rogério Ceni.

O Atlético esboçou reação, mas restou preso a certo desinteresse próprio e à empolgação do São Paulo. Por isso, o segundo gol (Ademilson aos 37) foi consequência dessas posturas diferentes. Para fechar a noite de milagres, o Arsenal bateu o The Strongest e, por tabela, beneficiou o time brasileiro.

O São Paulo ressurgiu – e isso é mau sinal para os adversários. Pode virar fogo de palha, se o Atlético voltar a ser o “galo vingador” de antes. Serão belos clássicos.

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17.abril.2013 13:00:31

Noite dos milagres*

No Bom Retiro dos tempos de cadeiras na calçada, para bate-papo de fim de tarde e atualizar notícias do bairro, as comadres e os nonnos costumavam dizer, com gravidade, sempre que alguém precisava alcançar um objetivo complicado: “Ajuda-te, que Deus te ajuda.” Não era preciso acrescentar uma vírgula, pois todos entendiam a mensagem.

Lembrei-me da sabedoria rústica dos imigrantes ao olhar o tamanho do desafio do São Paulo, na noite de hoje, no clássico com o Atlético Mineiro, no Morumbi. A turma do Ney Franco está em saia mais justa do que a das moças de salão de automóvel e se enfiou numa sinuca de bico de deixar aflito o Carne Frita, lendário rei do pano verde. Não só tem de ganhar do melhor time da primeira fase da Libertadores como torcer por combinação que o favoreça no duelo palpitante entre Arsenal e The Strongest, essas potências sul-americanas.

Vi muito tricolor disposto a garantir velas e orações para santos de devoção, a começar pelo patrono do clube e enveredar por Santo Expedito, São Judas… Há romarias previstas para Aparecida, desde que seja obtida a vaga para as oitavas de final. A fé faz bem, no mínimo por manter esperança quando tudo parece perdido. E consola nas frustrações. Portanto, nada contra recorrer à ajuda divina – o pessoal lá de cima gosta de futebol.

Mas não adianta deixar tudo nas mãos de Deus e do padre Cícero. É preciso que o São Paulo cumpra a parte que lhe compete e que não soube executar na maioria das cinco rodadas anteriores. O time se enroscou e está por um fio ao perder as três partidas como visitante e, de quebra, empatar com os argentinos em casa. Campanha decepcionante para um elenco de boa qualidade. A desgraça não se tornou irreversível por antecipação, porque o Atlético-MG disparou, surrou todo mundo e assim equilibrou a corrida pelo segundo lugar.

O São Paulo pode entrar em campo de mãos dada, orar no centro do campo e usar fitinha do Senhor do Bonfim. Só que tem de jogar bola – muita -, com uma vontade inédita até agora na temporada. Nada de vir com a conversa mole de que a calma é fundamental, de que as coisas vêm no momento certo. A hora é de adrenalina, suor, empenho, para contagiar atletas e se espalhar pelas arquibancadas. O torcedor deu a contribuição, com mais de 40 mil ingressos vendidos, e espera o sinal do campo.

Não há fórmula mágica para derrubar rival em fase esplêndida. Há alternativas a serem tentadas. Uma delas é neutralizar Ronaldinho Gaúcho, do qual surgem as principais jogadas da equipe. Com isso, teoricamente, ficam em dificuldade Jô e Diego Tardelli. Outra é segurar as descidas dos laterais, além de cuidado obsessivo em bolas paradas e preparadas para as cabeçadas certeiras do zagueiro Réver.

Simples, não? De maneira nenhuma. A sintonia faz fluir o jogo do Atlético. De sobra, existem jogadores que executam funções táticas à perfeição e sem alarde, como Pierre, volante ignorado pelo Palmeiras tempos atrás e que ressurgiu em Minas.

O São Paulo terá ainda de superar ausência de Jadson e Luis Fabiano, fora soluções de última hora que Ney ainda procura. Noite pra rezar brava.

Novidade 1. Presidentes de Federações, reunidos ontem no Rio, aprovaram por unanimidade as contas da CBF em 2012. Que voto de confiança!

Novidade 2. Consórcio liderado por empresa de Eike Batista apresenta proposta superior à do concorrente para administrar o Maracanã. Puxa.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 17/4/2013.)

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15.abril.2013 17:25:14

Questão de atitude*

Dois registros de final de semana. 1- Na tarde de ontem, a televisão mostrou Henrique a acompanhar a goleada de 4 a 1 do Palmeiras sobre o Guarani das arquibancadas do Pacaembu, junto com o filhinho. 2 – No início da noite de anteontem, Paulo Henrique Ganso postou no Tweeter o seguinte comentário: “Aproveitando o sábado em casa…”

O que zagueiro e meia tiveram em comum na penúltima rodada do Paulista? Não estavam escalados para os compromissos das respectivas equipes. E no que se distinguiram? Um foi ao campo, o outro ficou no aconchego do lar, distante dos companheiros que perderam para o XV de Piracicaba no Morumbi.

As atitudes dos atletas ajudam a entender por que Palmeiras e São Paulo vivem momentos distintos: um surpreendeu prognósticos pessimistas e se classificou por antecipação na Libertadores. O outro lidera o torneio local, mas tem a pesar-lhe a ameaça de ficar fora da competição continental, para frustração e cobrança da torcida. Alviverdes ressurgiram; tricolores se deparam com período de nuvens carregadas.

Tomo os gestos isolados de titulares de clubes importantes como referências simbólicas e não como explicação em si, para o bem ou para o mal dos times. Não significa que Henrique seja profissional exemplar, por aproveitar a tarde de outono com a ida ao campo, enquanto Ganso se revelou folgado por preferir o bem-bom doméstico. Seria simplório encará-los dessa maneira.

Mas não é incorreto interpretar o programa que cada um escolheu como dica do que ocorre nos bastidores. O limitado Palmeiras busca na união o ânimo para sair do buraco em que se meteu ao cair para Série B nacional e após a surra por 6 a 2 para o Mirassol dias atrás. Por isso, o capitão considerou necessário ver o jogo ao vivo. O talentoso São Paulo resvala para o isolamento individual numa fase delicada e decisiva. Não parece aglutinado em torno de ideal comum. Astral que desestimula o jogador a marcar presença a não ser por obrigação.

Situação de palestrinos e tricolores à parte, faz tempo me incomoda postura relaxada de boleiros da banda de cá. A maioria vê como lazer toda ocasião em que esteja fora de uma partida. Por contusão, suspensão ou simplesmente por opção tática ou de planejamento. Errado agir assim – diga-se, com a devida conivência de treinadores e dirigentes. Repouso para o grupo todo é no dia seguinte; na hora do jogo, o elenco precisa comparecer ao local do trabalho, ou seja, o estádio. Só não vai quem estiver impedido por problema físico grave.

Repare como os europeus, ou o pessoal da NBA, prestigiam em peso o desempenho das agremiações. Vão todos ao estádio ou ao ginásio, porque faz parte das tarefas. É fundamental seguir o desempenho dos colegas, analisar in loco as artimanhas dos rivais; enfim, atualizar-se. E ação de marketing com patrocinadores e especialmente com o público.

Por aqui o sujeito fica bravo, se lhe disserem que não é pra ficar no ócio. Tempos atrás, ouvi jogador conhecido (omito o nome por delicadeza) admitir, sem maldade e consciência, que faria um churrasquinho com a família no domingo, pois tinha recebido o terceiro amarelo. “Bom curtir uma folguinha”. Dá pra entender?

Questão de atitude 2. O Corinthians é seguro na Libertadores e candidato ao bi. Já no Estadual flerta com o tédio. Como na derrota para o Linense por 2 a 1. Vai que a sonolência em um campeonato contamine a caminhada no outro… Bom abrir o olho.

*(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 15/4/2013.)

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  • Ramiro: Antero, concordo quando vc diz que tem maldade no sentido de estarem passando o vídeo como se ele tivesse...
  • Ramiro: Os pensamentos citados dos caras, FIFA e CBF, mostram o quanto são pilantra esses caras, e o quanto eles...

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