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19.abril.2013 13:01:47

Mudanças de humor*

Nem precisa ser especialista em óperas, como Roque Citadini, ex-dirigente do Corinthians cujas provocações andam em falta no futebol. Qualquer apreciador de boa música já ouviu “La donna é mobile”, do Rigoletto, de Giuseppe Verdi, em que os primeiros versos cantam: “A mulher é volúvel, e como uma pluma ao vento muda de tom e de pensamento”.

Discussões machistas à parte, aplicam-se à perfeição ao torcedor, que tem na paixão e na inconstância de humor os combustíveis que o movem. Pegue como exemplos palmeirenses e são-paulinos. Até uma semana atrás, andavam murchos, cabisbaixos, cismados com a sorte de seus respectivos times na Libertadores. A desclassificação batia à porta.

Bastou uma vitória por cabeça e tudo mudou. O Palmeiras deixou de ser o patinho feio na competição e virou motivo de pesadelos para o Corinthians – na visão palestrina, mesmo com a derrota de ontem no Peru. O São Paulo ameaçava implodir, até ganhar do Atlético e se transformar em favorito ao tetra – do ponto de vista de tricolores exultantes.

Estão errados? De maneira nenhuma. Torcer é encarar a contradição como sentimento óbvio e natural. Pedir coerência ao fã significa tirar-lhe a espontaneidade. É necessário que se deixe levar pelo calor da hora, e não deve envergonhar-se de aplaudir minutos depois de ter lascado vaias e xingamentos para os jogadores, o técnico, os dirigentes.

Atitude patrulhenta e aborrecida exigir que o torcedor se comporte com fleuma e indiferença, na alegria ou na apreensão. Assim como é antipático boleiro afirmar dedicar façanhas “para o grupo”. Conversa fiada. Um dos desafios profissional consiste em conquistar a plateia, como atores e cantores numa noitada operística. Sem público não subsistem.

O bom senso tem de ficar no lado de cá do balcão. Cabe a analistas manterem a compostura, interpretar resultados e detectar tendências. E mesmo assim com risco de levarem trança pé aplicado pelo imprevisível jogo de bola. O Palmeiras superou expectativas ao compensar carência técnica com dedicação emocionante. O empenho extremo o levou para as oitavas de final da Libertadores. Novos avanços dependem de vários fatores. Racionalmente, porém, é exagerado antever que dispute o título.

O São Paulo tem elenco melhor do que o rival doméstico, mas em teoria enfrentará obstáculo complicado, ao topar de novo com o Atlético. Clássico com mão dupla – e não me refiro a jogo cá e lá. Tanto a turma de Ney Franco pode se dar bem, por ter botado medo nos mineiros, com os 2 a 0 de anteontem, como levar uma tunda ao cutucar equipe que relaxou no Morumbi. O retrospecto no torneio indica avanço atleticano. Só que não se deve desprezar a revigorada autoestima tricolor…

A propósito de autoconfiança reconquistada, foi bacana o gesto de Rogério Ceni de assumir a responsabilidade de cobrar o pênalti que resultou no primeiro gol. Como capitão e mais experiente do elenco, respirou fundo, mirou o canto e mandou ver. Isso é o que se espera de astros.

Gratuita a frase que soltou na entrevista após o jogo, ao lamentar que a classificação tirou assunto dos repórteres, pois “desgraça vende mais do que alegria”. Mostrou que mesmo jogador articulado não está imune a preconceitos. A imprensa, esportiva sobretudo, não procura tragédias para chamar atenção. Ao contrário, grandes feitos dão audiência. A função da mídia é noticiar, opinar e não distorcer. Pena ver preconceito em quem na carreira recebeu de jornalistas, por mérito, mais elogios do que críticas.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 19/4/2013.)

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O Atlético garantiu, nos últimos dias, que não permitiria o avanço do São Paulo para as oitavas de final da Taça Libertadores. Justamente porque seria o adversário a enfrentar na largada da etapa de eliminatórias diretas, com todos os riscos que isso implica. Melhor, portanto, livrar-se logo de qualquer ameaça.

Mas, na prática, o melhor time da competição na fase de grupos, não fez nada para evitar o duelo verde-amarelo nas próximas semanas. Ronaldinho Gaúcho e companheiros estiveram muito aquém das cinco rodadas anteriores e sucumbiram diante de um rival pressionado, determinado e animado pela torcida. Resultado: 2 a 0, a classificação tricolor e, o que é pior, um obstáculo e tanto para o Galo.

O São Paulo fez o que a torcida imaginava, sonhava e pedia: jogou com garra e vontade, sobretudo no segundo tempo do duelo desta quarta-feira. No primeiro tempo, enroscou nos problemas de sempre, quer dizer, dificuldade para armar jogadas e para chutar a gol. Tanto que Vítor praticamente não foi incomodado.

O Atlético, já com a campanha mais eficiente garantida, tratou de não forçar o ritmo. O empate manteria a invencibilidade e também afastaria o São Paulo da briga. E esse foi o erro da rapaziada de Cuca. Na etapa final, os são-paulinos foram mais atrevidos, se mandaram para a frente e passaram a acreditar na classificação com o pênalti transformado em gol por Rogério Ceni.

O Atlético esboçou reação, mas restou preso a certo desinteresse próprio e à empolgação do São Paulo. Por isso, o segundo gol (Ademilson aos 37) foi consequência dessas posturas diferentes. Para fechar a noite de milagres, o Arsenal bateu o The Strongest e, por tabela, beneficiou o time brasileiro.

O São Paulo ressurgiu – e isso é mau sinal para os adversários. Pode virar fogo de palha, se o Atlético voltar a ser o “galo vingador” de antes. Serão belos clássicos.

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17.abril.2013 13:00:31

Noite dos milagres*

No Bom Retiro dos tempos de cadeiras na calçada, para bate-papo de fim de tarde e atualizar notícias do bairro, as comadres e os nonnos costumavam dizer, com gravidade, sempre que alguém precisava alcançar um objetivo complicado: “Ajuda-te, que Deus te ajuda.” Não era preciso acrescentar uma vírgula, pois todos entendiam a mensagem.

Lembrei-me da sabedoria rústica dos imigrantes ao olhar o tamanho do desafio do São Paulo, na noite de hoje, no clássico com o Atlético Mineiro, no Morumbi. A turma do Ney Franco está em saia mais justa do que a das moças de salão de automóvel e se enfiou numa sinuca de bico de deixar aflito o Carne Frita, lendário rei do pano verde. Não só tem de ganhar do melhor time da primeira fase da Libertadores como torcer por combinação que o favoreça no duelo palpitante entre Arsenal e The Strongest, essas potências sul-americanas.

Vi muito tricolor disposto a garantir velas e orações para santos de devoção, a começar pelo patrono do clube e enveredar por Santo Expedito, São Judas… Há romarias previstas para Aparecida, desde que seja obtida a vaga para as oitavas de final. A fé faz bem, no mínimo por manter esperança quando tudo parece perdido. E consola nas frustrações. Portanto, nada contra recorrer à ajuda divina – o pessoal lá de cima gosta de futebol.

Mas não adianta deixar tudo nas mãos de Deus e do padre Cícero. É preciso que o São Paulo cumpra a parte que lhe compete e que não soube executar na maioria das cinco rodadas anteriores. O time se enroscou e está por um fio ao perder as três partidas como visitante e, de quebra, empatar com os argentinos em casa. Campanha decepcionante para um elenco de boa qualidade. A desgraça não se tornou irreversível por antecipação, porque o Atlético-MG disparou, surrou todo mundo e assim equilibrou a corrida pelo segundo lugar.

O São Paulo pode entrar em campo de mãos dada, orar no centro do campo e usar fitinha do Senhor do Bonfim. Só que tem de jogar bola – muita -, com uma vontade inédita até agora na temporada. Nada de vir com a conversa mole de que a calma é fundamental, de que as coisas vêm no momento certo. A hora é de adrenalina, suor, empenho, para contagiar atletas e se espalhar pelas arquibancadas. O torcedor deu a contribuição, com mais de 40 mil ingressos vendidos, e espera o sinal do campo.

Não há fórmula mágica para derrubar rival em fase esplêndida. Há alternativas a serem tentadas. Uma delas é neutralizar Ronaldinho Gaúcho, do qual surgem as principais jogadas da equipe. Com isso, teoricamente, ficam em dificuldade Jô e Diego Tardelli. Outra é segurar as descidas dos laterais, além de cuidado obsessivo em bolas paradas e preparadas para as cabeçadas certeiras do zagueiro Réver.

Simples, não? De maneira nenhuma. A sintonia faz fluir o jogo do Atlético. De sobra, existem jogadores que executam funções táticas à perfeição e sem alarde, como Pierre, volante ignorado pelo Palmeiras tempos atrás e que ressurgiu em Minas.

O São Paulo terá ainda de superar ausência de Jadson e Luis Fabiano, fora soluções de última hora que Ney ainda procura. Noite pra rezar brava.

Novidade 1. Presidentes de Federações, reunidos ontem no Rio, aprovaram por unanimidade as contas da CBF em 2012. Que voto de confiança!

Novidade 2. Consórcio liderado por empresa de Eike Batista apresenta proposta superior à do concorrente para administrar o Maracanã. Puxa.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 17/4/2013.)

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15.abril.2013 17:25:14

Questão de atitude*

Dois registros de final de semana. 1- Na tarde de ontem, a televisão mostrou Henrique a acompanhar a goleada de 4 a 1 do Palmeiras sobre o Guarani das arquibancadas do Pacaembu, junto com o filhinho. 2 – No início da noite de anteontem, Paulo Henrique Ganso postou no Tweeter o seguinte comentário: “Aproveitando o sábado em casa…”

O que zagueiro e meia tiveram em comum na penúltima rodada do Paulista? Não estavam escalados para os compromissos das respectivas equipes. E no que se distinguiram? Um foi ao campo, o outro ficou no aconchego do lar, distante dos companheiros que perderam para o XV de Piracicaba no Morumbi.

As atitudes dos atletas ajudam a entender por que Palmeiras e São Paulo vivem momentos distintos: um surpreendeu prognósticos pessimistas e se classificou por antecipação na Libertadores. O outro lidera o torneio local, mas tem a pesar-lhe a ameaça de ficar fora da competição continental, para frustração e cobrança da torcida. Alviverdes ressurgiram; tricolores se deparam com período de nuvens carregadas.

Tomo os gestos isolados de titulares de clubes importantes como referências simbólicas e não como explicação em si, para o bem ou para o mal dos times. Não significa que Henrique seja profissional exemplar, por aproveitar a tarde de outono com a ida ao campo, enquanto Ganso se revelou folgado por preferir o bem-bom doméstico. Seria simplório encará-los dessa maneira.

Mas não é incorreto interpretar o programa que cada um escolheu como dica do que ocorre nos bastidores. O limitado Palmeiras busca na união o ânimo para sair do buraco em que se meteu ao cair para Série B nacional e após a surra por 6 a 2 para o Mirassol dias atrás. Por isso, o capitão considerou necessário ver o jogo ao vivo. O talentoso São Paulo resvala para o isolamento individual numa fase delicada e decisiva. Não parece aglutinado em torno de ideal comum. Astral que desestimula o jogador a marcar presença a não ser por obrigação.

Situação de palestrinos e tricolores à parte, faz tempo me incomoda postura relaxada de boleiros da banda de cá. A maioria vê como lazer toda ocasião em que esteja fora de uma partida. Por contusão, suspensão ou simplesmente por opção tática ou de planejamento. Errado agir assim – diga-se, com a devida conivência de treinadores e dirigentes. Repouso para o grupo todo é no dia seguinte; na hora do jogo, o elenco precisa comparecer ao local do trabalho, ou seja, o estádio. Só não vai quem estiver impedido por problema físico grave.

Repare como os europeus, ou o pessoal da NBA, prestigiam em peso o desempenho das agremiações. Vão todos ao estádio ou ao ginásio, porque faz parte das tarefas. É fundamental seguir o desempenho dos colegas, analisar in loco as artimanhas dos rivais; enfim, atualizar-se. E ação de marketing com patrocinadores e especialmente com o público.

Por aqui o sujeito fica bravo, se lhe disserem que não é pra ficar no ócio. Tempos atrás, ouvi jogador conhecido (omito o nome por delicadeza) admitir, sem maldade e consciência, que faria um churrasquinho com a família no domingo, pois tinha recebido o terceiro amarelo. “Bom curtir uma folguinha”. Dá pra entender?

Questão de atitude 2. O Corinthians é seguro na Libertadores e candidato ao bi. Já no Estadual flerta com o tédio. Como na derrota para o Linense por 2 a 1. Vai que a sonolência em um campeonato contamine a caminhada no outro… Bom abrir o olho.

*(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 15/4/2013.)

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O Corinthians esbanja lucro com a torcida e com a crítica, pelos títulos da Libertadores e do Mundial. E continua firme no caminho do bi das Américas. Mas por aqui tem dado demonstrações de desconcentração e relaxamento. O mais recente veio na tarde deste domingo, com a derrota por 2 a 1, de virada, para o Linense, no Campeonato Paulista.

O resultado não é o fim da picada – no sábado mesmo o São Paulo perdeu para o XV de Piracicaba, no Morumbi, por 1 a 0, e a Lusa levou surra de 7 a 0 do Comercial na Série A-2. No entanto, por se tratar de equipe em alta, e que contou com força máxima, é bom que não baixe a guarda. Vai que ela contamine desempenho em outras frentes…

Os jogadores alvinegros reconheceram o fiasco, sobretudo pelo desempenho no segundo tempo. Sinal de que não deram um bico na autocrítica. Já serve como caminho para a retomada do empenho. São três meses de temporada e o time não mantém a regularidade de 2012, mesmo com classificação tranquila no torneio su-americano.

No jogo em Lins, o técnico Tite botou a turma toda pra correr e o Corinthians funcionou razoavelmente na primeira parte, com algumas jogadas interessantes e controle do jogo. Tanto que ficou em vantaem com 2 minutos, com o gol de Guerrero, e deu a impressão de que a goleada viria com naturalidade. E esse foi o erro, a avaliação que acomodou.

O Linense percebeu, com o tempo, que o rival estava distraído, com excesso de confiança, e pagou para ver o que iria acontecer. E ocorreu a reviravolta, com os gols de João Salles e Leandro Brasília na segunda etapa. O Linense ainda teve um expulso (Marcelo) e pode agradecer o juiz por não ter dado um pênalti sobre Pato.

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14.abril.2013 11:33:39

Inspiração verde*

O futebol e a vida dão cada volta que vou te contar! Até outro dia o Palmeiras era motivo de esculhambação, pois parecia mais o exército de Brancaleone do que time profissional. Ainda mais depois da surra de 6 a 2 para o Mirassol. Agora, volta a ficar na boca do povo pela reação e pela vitória emocionante por 1 a 0 sobre o Libertad, resultado que o colocou nas oitavas da Libertadores com uma rodada de antecedência. Até rivais domésticos reconheceram os brios da rapaziada de Gilson Kleina.

A reviravolta do momento eleva o Palestra a exemplo de superação para Fluminense, Grêmio e São Paulo, os brasileiros que tentam garantir-se na segunda fase do torneio continental. Os dois primeiros dependem apenas de si. Já a turma tricolor (4 pontos) está numa sinuca de bico: precisa bater o Atlético-MG (15), por dois gols de diferença, e torcer para que o The Strongest (6) não ganhe do Arsenal (4). Ou que os argentinos não goleiem os bolivianos. Eita situação danada de complicada!

Como desgraças costumam vir em pencas, há baixas confirmadas. Luis Fabiano continua a amargar suspensão por ter falado palavras feias para o juiz depois de jogo com o Arsenal. Só volta nas quartas, se a equipe passar. Jadson cumpre gancho por acúmulo de cartões amarelos e Maicon está contundido. Fora surpresas de última hora. (Isola!)

Não está fácil para o são-paulino manter o otimismo. Mas é necessário que acredite e que crie uma corrente com os jogadores, à maneira do que aconteceu na quinta-feira à noite no Pacaembu. Não se pode jogar a toalha por antecipação. Fosse assim, nem entraria em campo, já deixava o lugar para os gringos e se recolhia ao Campeonato Paulista, onde vai muito bem, obrigado, e lidera.

O desafio tem o tamanho da América. O Atlético-MG mostrou estilo arrasador nas cinco rodadas iniciais, não deu bola para nenhum dos adversários, venceu todas com autoridade e com sobras. Já é o melhor da etapa de grupos. E, de quebra, se jogar a pá de cal sobre o São Paulo, livra-se de um concorrente de peso, com o qual pode cruzar já no início do mata-mata. Veja a ironia do destino.

As adversidades existem, porém a hora é de torná-las estimulantes em vez de encolher-se diante delas. O elenco de Ney Franco tem qualidade, apesar dos desfalques. As decepções se acumularam até aqui, tá certo, os 4 pontinhos miseráveis jogam isso na cara. Mas nem sempre o time jogou mal. A derrapada imperdoável, e que descompensou a balança, foi o empate com o Arsenal (1 a 1) no Morumbi. Aquele foi de arrepiar.

O setor mais instável é a defesa. Ney testou diversas formações, que se mostram eficientes por um tempo, para depois desandar. Uma alternativa é usar três zagueiros para parar a blitz ofensiva que Ronaldinho Gaúcho parece divertir-se a comandar. O meio-campo perde em criatividade com a ausência de Jadson. No entanto, eis a oportunidade para Ganso tomar a batuta e se mostrar maestro da orquestra. Talento ele tem. Aloísio e Osvaldo vão ter de botar a língua para fora lá na frente.

Caminho espinhento pra chuchu. Ney Franco fará bem se, nos treinos e preleções, lembrar aos moços que há três títulos da Libertadores e três Mundiais no currículo do São Paulo contra nenhum dos mineiros. A camisa, portanto, pesa e a tradição conta. A história pode entrar em campo, na forma de encorajamento. E, acima de tudo, é necessário encarar cada dividida, cada jogada, como se fossem as últimas. Correr, suar. Às vezes, dá certo. Taí o Palmeiras para confirmar.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 14/4/2013.)

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Faz algum tempo remo contra a maré, ao defender a permanência de Neymar no Brasil por mais algumas temporadas. Posição que não tem respaldo de muita gente boa, que, sem qualquer ligação direta com o rapaz, insiste na saída imediata, para que possa ganhar experiência e tornar-se maior. Consideram que só na Europa poderá crescer, ganhar prêmios, ajudar a seleção brasileira, rivalizar com os craques internacionais, etc.

Neste sábado, Neymar reforçou a minha convicção de que o exílio será umapena, ao marcar os gols dos 4 a 0 do Santos sobre o União Barbarense, pelo Campeonato Paulista. Fez dois em cada tempo, teve outro anulado, mandou bola na trave, deu passes, dribles e saiu de campo como a estrela maior. Deixou o time na segunda colocação na classificação. E encheu os olhos de quem curte futebol e seus artistas.

Se tivéssemos maior autoestima, nos encheríamos de brios e brigaríamos para que não se deixasse seduzir agora pelos euros do Barcelona ou de quem quer que seja. Não ficaríamos a todo momento batendo na tecla de que não há mais espaço para ele por aqui. Ao contrário, exigiríamos a permanência, para alegria geral da nação. E obrigaríamos os cartolas a serem mais cuidadosos com a matéria-prima que temos.

Em vez disso, nos curvamos para os europeus, nos conformamos com o poder de compra de quem tem bilionários russos ou árabes no comando, consideramos natural e inevitável o êxodo, vemos o empobrecimento técnico como destino incontornável. Viramos sempre mais torcedores de televisão e não de estádios. Não temos ídolos, nossas crianças ficam sem referências locais para encantar-se. Uma tristeza.

No lugar de apontarmos o dedo para Neymar e acusá-lo de cai-cai, mascarado, marqueteiro e outras bobagens menores, deveríamos nos unir e carimbá-lo como patrimônio nacional. Quem sabe assim os outros clubes não se animassem a se mexer, a tornar-se profissionais e segurar o que têm bom e dar uma banana para os estrangeiros?

Sonho, loucura, besteira, divagação, quimera, utopia? Sei lá, pode usar o termo que quiser. Mas ainda imagino o dia em que curtiremos nossas joias por bastante tempo, antes que elas se decidam a mostrar suas qualidades para outras plateias. Enquanto isso, babamos para os Barças, Manchesters, Milans da vida. E eles nos olham como gentalha, que se sente honrada porque seus melhores jogadores atraem a atenção dos colonizadores.

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12.abril.2013 12:01:41

Lucas e Neymar*

Neymar incomoda. Ou melhor, o sucesso de Neymar por estas bandas provoca desconforto, para usar termo educado e da moda, embora inveja, ciúme, cobiça e até ingenuidade se adequassem à perfeição. À medida que o rapaz se mostra à vontade em casa, atrai maior número de fãs e fecha contratos milionários, cresce a corrente dos que desejam vê-lo fora do Brasil a todo custo. A alegação rotineira se volta para o desenvolvimento técnico e tático que a experiência europeia lhe proporcionaria, além de benefícios inestimáveis para a seleção, “que não pode fazer feio” na Copa de 2014.

A onda, até um tempo atrás, era compará-lo a Messi. Pelo visto, tanto os que o idolatram quanto os que torcem o nariz até para as variações de cortes e tonalidades de cabelo dele, resolveram deixá-la para trás, por ser descabida. O argentino atingiu estágio superior por pertencer a uma categoria, especial e limitadíssima, de superastros. Que talvez Neymar não venha a integrar, sei lá. Sei que tem talento de sobra, e isso deveria nos orgulhar e não nos inquietar.

A tendência agora é cotejá-lo com Lucas. Ambos têm praticamente a mesma idade, surgiram como estrelas nas respectivas equipes – Santos e São Paulo – e viveram trajetória semelhante, pelo menos nas seleções de base. Na principal, Neymar há muito é titular. Por esbanjarem qualidade, chamaram a atenção de estrangeiros, que até o momento conseguiram carregar apenas Lucas. O Paris Saint-Germain despejou um caminhão de dinheiro no Morumbi, para tê-lo como integrante de elenco milionário. Por aqui, a torcida tricolor ainda aguarda, com ansiedade, que os euros sejam revertidos para reforçar o time.

Lucas cava espaço no PSG, participou da aventura da eliminação na Copa dos Campeões, e isso basta para ressurgir o coro dos que sonham ver Neymar distante, sem se darem conta de como a aridez local aumentará após a saída. O argumento corriqueiro indica que, em breve, Lucas será maior que Neymar.

Mesmo? Tenho dúvidas. Lucas ganhará visibilidade, certamente, porque a turma da Europa trabalha com profissionalismo para vender suas competições. Nem sempre o peixe é tão bom quanto se apregoa. Mas, como aparece limpinho, com frescor e a preço razoável, tem aceitação no mercado. E passa a impressão de que é de primeira. Isso pode acontecer com Lucas, que nem precisa de tanta publicidade, ao contrário de muito gringo que deita e rola por lá.

Mas Neymar é melhor – e nisso não vai demérito nenhum para o ex-são-paulino. O ídolo santista dribla, ousa, inventa, finaliza, tem visão de jogo extraordinária. É goleador, garçom, e desenvolve também senso tático que só os dotados de inteligência esportiva refinada apresentam. Evolui, mesmo com as repetidas disputas contra rivais de menor expressão, no Paulista e na Copa do Brasil. Não está cabisbaixo.

Cada um a sua maneira, e no ritmo próprio, terá sucesso. Antes de acatarmos como sensato o canto das sereias que o empurram para o exílio, por que não exigimos profissionalismo e transparência dos dirigentes, por que não forçamos para que elaborem planos de carreira honestos para as revelações, por que não lutamos por campeonatos decentes e competitivos? Assim, com o tempo, será possível manter Neymar e outros craques, além de trazer gente de fora. Mas é mais fácil assumir o conformismo e achar que aqui nunca mudará.

Acomodação que permite que um símbolo nacional – o complexo do Maracanã – seja desfigurado e entregue de bandeja. Como tantos outros.

*(Minha crônica publicada em parte da edição do Estado de hoje, sexta-feira, 12/4/2013. Depois, foi atualizada.)

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Tem horas em que a gente fica com certo “bode” de futebol, por causa de tanta falcatrua e picaretagem. Ainda bem que restam jogos memoráveis pra dar um bico no baixo-astral. Como aconteceu no começo da noite desta quinta-feira, com o espetáculo que torcida e time do Palmeiras proporcionaram no Pacaembu. De arrepiar, pelo resultado (vitória por 1 a 0 e classificação) e mais pela sintonia e emoção das duas partes.

O Palmeiras não ganhou do Libertad na técnica e na criatividade. Ao contrário, teve muitos chutões, encontrões, divididas, bolas espirradas. E, por incrível que pareça, o mérito da turma de Gilson Kleina residiu justamente nesse comportamento. Que não foi sinal de covardia, de antijogo, mas de dedicação e reconhecimento dos próprios limites.

Mas essa postura não signficou também retranca. O Palmeiras foi à frente, como pôde, como conseguia, na base do entusiasmo, da correria, da busca por resgatar a autoestima. Esse grupo tem deficiências, não se pode negar – e sou dos mais críticos a apontá-las. Só que nessa partida as falhas são relevadas, por respeito à seriedade do grupo.

Não dá pra destacar quem foi o melhor – a entrega foi generalizada. O esforço de Marcelo Oliveira contagiou Maurício Ramos, que animou Henrique, que encorajou Juninho, que se estendeu para Charles (o autor do gol decisivo), que tranquilizou Fernando Prass (uma defesa extraordinária com os pés). Todo mundo correu. Até a expulsão correta de Wesley contribuiu para aumentar a dramaticidade do resultado.

O Palmeiras é o azarão dos brasileiros na Libertadores. E continua a sê-lo. Mas o entusiasmo dele bem podem servir de exemplo para Fluminense e Grêmio, que decidem vaga na última rodada. E principalmente o São Paulo, que tem desafio gigantesco contra o Atlético-MG. O Palmeiras mostrou que é possível.

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08.abril.2013 12:21:22

Libertem a alegria!*

Leandro, do Palmeiras, e Luan, do Atlético-MG, têm algumas particularidades em comum. Ambos são jovens promessas do futebol brasileiro, marcaram gols importantes pelas respectivas equipes no domingo, festejaram o momento de alegria intensa e… levaram cartões amarelos. Em ambos os casos, por “conduta antidesportiva”, seja lá o que isso for.

Essa atitude vaga, de larga interpretação e contornos pouco precisos, permite às Suas Senhorias dos gramados advertir os atletas, se considerarem que exageraram na euforia. E, claro, com devido respaldo de seus superiores e da casta especial de analistas de arbitragem, composta de ex-colegas que em geral comungam dos mesmos critérios.

As faltas dos moços? Leandro, 19 anos, fez o gol da vitória palestrina por 2 a 1 sobre a Ponte, resultado que derrubou longa invencibilidade da brava adversária, até então insuperável no Campeonato Paulista. Assim que mandou a bola para as redes, colocou a mão no ouvido direito, como se dissesse para o público: “E agora, ninguém vai dizer nada?” Gesto quase tão antigo quanto o esporte, repetido por tantas gerações de boleiros.

Céus! Isso configura afronta e pode incitar à violência, na avaliação de quem faz as regras do jogo. O profissional não tem direito de comportar-se de maneira tão indigna! Então, os zelosos juízes não vacilam em mostrar-lhe, por meio daquele cartãozinho, o quanto desaprovam a indelicadeza. Foi o que fez Luís Vanderlei Martinucho, todo garboso. É para os saidinhos aprenderem que não se brinca com coisa séria como o futebol. Ora!

Reação semelhante teve Wanderson Alves de Souza, responsável pelo bom andamento dos trabalhos entre Atlético-MG e Boa, pelo Campeonato Mineiro. Luan, 22 anos, anotou golaço, o terceiro dos 4 a 0 finais e o segundo dele na partida, e ficou rodando, rodando, a imitar aviãozinho. Lembrou o técnico Zagallo lá por 1990 e tantos. Na interpretação do senhor do espetáculo, demorou muito para voltar ao meio do campo. Por isso, lascou-lhe a admoestação.

O curioso é que Luan levou algumas pancadas na partida e os agressores passaram incólumes. E ele mesmo, depois, também deu uma sapatada num marcador e o árbitro fechou os olhos. Se aplicasse outro amarelo, viria o vermelho de brinde. Como fica a critério do apitador definir o que vale ou não, vida que segue. Bater é do jogo; quebrar canelas, risco normal. Mas exaltar-se na hora do gol fere a moral e os bons costumes.

Coitado do César Maluco, que se pendurava nos alambrados nos anos 1970. Hoje, seria um pária. Coitado do Serginho Chulapa, do Romário, do Edmundo. Acho que até o Pelé iria se estrepar, porque socar o ar, após os gols, poderia soar ofensivo, agressivo…

Jogadores e formadores de opinião, quem tenha mínima influência, deveriam unir-se e fazer campanha para o basta à hipocrisia, à caretice e à cara de pau disseminadas no futebol. Punição para os brucutus, para técnicos que mandam bater, para dirigentes pilantras, para juízes desonestos, para arruaceiros de arquibancadas. E liberdade para a vibração intensa, exagerada na razão de existir o futebol: o gol. Gol sempre é farra, adrenalina, risos e lágrimas de alegria!

Verde renasce. Por falar em entusiasmo, o Palmeiras supera limitações com suor e raça. A moçada de Gilson Kleina não prima pela técnica, mas tem corrido mais do que equipes estreladas e encrencadas. Os 2 a 1 sobre a Ponte dão esperança de que pode avançar na Libertadores. Nesta semana, a decisão é com o Libertad.

*(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 8/4/2013.)

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