O Palmeiras abre a semana dos brasileiros na segunda fase da Taça Libertadores. Agora começa o período em que acertos e vacilos determinam o futuro dos times. E o desafio alviverde é na grama sintética, no duelo com o Tijuana, no México, às 22h30 daqui.
O piso tem sido mais ressaltado do que a qualidade do adversário, de nível razoável e mais entrosado até do que o Palmeiras. Mas faz sentido a preocupação. A forma de jogar difere daquela dos gramados tradicionais. Isso é fácil de constatar: quem brinca nos campos de society que temos por aqui sabe das peculiaridades.
O Corinthians foi um dos que sofreram com isso. Na fase de classificação, topou com o Tijuana e perdeu or 1 a 0 na terceira rodada. Em seguida, fez 3 a 0 no Pacaembu, sem maiores dificuldades. O mesmo pode ocorrer com o Palmeiras? Quem sabe?
A postura palmeirense pode ser decisiva. Gilson Kleina mais uma vez armou a equipe com meio-campo com muitos marcadores e teoricamente sem ninguém para armar. Novamente, jogam Márcio Araújo, Charles, Wesley e agora também Souza. Os dois últimos muitas vezes encostam nos atacantes – no caso, Kleber e Vinicius, pois Leandro não pode ser inscrito –, mas estão longe de ser criativos.
A impressão que passa é a mesma do clássico com o Santos, nas quartas de final do Paulista, ou seja, a de que Kleina fecha o time para jogar em contraataque. No duelo doméstico, quase deu certo, com empate no tempo normal e derrota nos pênaltis. Vai repetir-se contra o Tijuana? Arriscado prever.
O que pode ajudar o Palmeiras, sempre em termos hipotéticos, é segurar empate, de preferência com gols, ou perder por pouco e também fazendo gols (por exemplo, 2 a 1 ou 3 a 2). Daí a tarefa pode ser mais exequível na volta, em São Paulo.
O Palmeiras, é bom que se reconheça, continua como franco-atirador na Libertadores. Uma constatação e um fator que pode ajudá-lo, como na etapa anterior do torneio.
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O São Paulo gosta de proporcionar fortes emoções para a torcida. Não fugiu à regra, na noite deste domingo, com o 1 a 0 magrinho sobre o Penapolense nas quartas de final do Campeonato Paulista. O time todo de vermelho (um uniforme estranho) passou sufoco para despachar um rival limitado e empolgado. Agora pega o Corinthians.
A equipe de Ney Franco repetiu repertório comum nesta temporada. Dominou o rival, tocou a bola, mas pecou na hora de finalizar, de fazer a vantagem. Passou o primeiro sem importunar muito o goleiro Marcelo. Sem contar que não se aproveitou do medo do Penapolense, que ficou atrás, em busca desenfreada por uma chance de contraataque.
Só que a turma de Penápolis se animou, ao ver que o São Paulo não acertava o pé, e botou as mangas de fora no começo do segundo tempo. Em dez minutos, foram quatro chutes a gol e alguns sustos para Rogério Ceni. A maior parte dos 33 mil torcedores que estiveram no Morumbi ficou apreensiva. A zebra começava a dar as caras…
O São Paulo demorou um pouco a acordar. Quando o fez, viu Luis Fabiano mandar duas bolas na trave, foram alguns chutes que passram raspando. O alívio veio com jogada de Osvaldo (em fase excelente) pela esquerda, que Jailton tentou cortar e mandou pra o próprio gol. Depois disso, teve oportunidade de aumentar a vantagem.
Tudo tranquilo? Nada. Nos minutos finais, o Penapolense foi pra cima com tudo, no desespero e na vontade. Por pouco não empatou e leva para os pênaltis. Que pressão! Agora, a fase está superada e vai para o passado. Assim como esse uniforme esquisito, que mais parecia as tinturas que a gente fazia na roupa décadas atrás.
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Hoje é dia da primeira decisão para Corinthians e São Paulo no Paulista. O destino de ambos será decidido em jogo único, na base do vapt-vupt, depois de 19 arrastadas jornadas na fase de classificação. Um vacilo diante de Ponte Preta e Penapolense, respectivamente, e adeus sonho do título estadual. Uma das contradições do torneio administrado pela FPF.
Taça é taça, e cobrança sempre haverá para equipes acostumadas a conquistas. Mas fica no ar a ligeira impressão de que eventual eliminação não provocará, por ora, maiores sobressaltos no Parque São Jorge, nem no Morumbi. Porque, apesar dos desmentidos categóricos e de praxe, a prioridade está na Libertadores. Faturar a América se mostra mais fascinante do que recuperar a hegemonia regional. Uma pena que assim seja. As duas competições poderiam igualmente atrair atenção dos gigantes.
Não dá para criticar a preferência de corintianos e são-paulinos. O título continental virou obsessão por estas bandas, desde que os anos 1990 colocaram a carinha pra fora e assustaram os brasileiros, pois vieram à luz na época em que Fernando Collor e Zélia Cardoso confinaram a poupança da nação. Em duas décadas, dali em diante, as equipes de cá se fartaram de chegar à final e de atingir o cume. Tricolores experimentaram o gosto da vitória em três ocasiões, enquanto alvinegros ainda estão a saboreá-la como campeões.
Para manter-se ou na trilha do tetra ou do bi, a semana lhes reserva duas provas de fogo. O São Paulo topa novamente com o Atlético-MG, em casa, num dos duelos das oitavas de final. O Corinthians viaja para Buenos Aires, onde reencontra o Boca Juniors, rival na decisão de 2012. Mineiros (pelo excelente futebol do momento) e argentinos (pela tradição) preocupam – daí o dilema de Ney Franco e Tite para encontrar a fórmula exata e dosar as forças entre as duas frentes. Os treinadores vivem a situação clássica do ficar com um olho no gato (Campeonato Paulista), outro no peixe (Libertadores). Sem ter muito por onde fugir.
O gato para o Corinthians, em teoria, é mais ardiloso do que aquele sob a vigilância do São Paulo. A Ponte fez campanha muito boa, sofreu só uma derrota (no jogo contra o Palmeiras) e fechou a etapa anterior com 38 pontos, três a mais do que o adversário deste domingo. Joga em Campinas e pode repetir a proeza de 2012, quando se livrou de Ralf, Paulinho & Cia. na mesma fase de agora.
O Penapolense agarrou a última vaga e entra na base do tudo o que vier é lucro, longe de aparecer como favorito. Se sair da luta, não haverá lamentações, pois cumpriu papel digno e honroso.
Ney resolveu a dúvida na base do vai ou racha. Em miúdos, significa que não dará folga pra ninguém, seja no Paulista, seja na Libertadores. Veem os jogos das arquibancadas os que não tiverem condições médicas ou legais para entrar em campo. No mais, manda carga máxima, com os riscos que isso comporta. Opção compreensível para quem passou apuros tempos atrás e por pouco não foi apeado do cargo.
Além disso, avalia Ney, melhor garantir-se no mínimo em um dos torneios, em vez de ficar sem nada prematuramente. Nessa linha de raciocínio, o Estadual desponta como objetivo mais palpável. De lambuja, sucesso hoje serve como vitamina para encarar Ronaldinho Gaúcho e discípulos no meio da semana.
Tite reza em cartilha semelhante à do colega. Mesmo com acúmulo de desafios, ponderou prós e contras para chegar à conclusão de que vale a pena flertar com o título regional que lhe falta. A equipe mantém a estrutura habitual, desta vez com Romarinho no meio, com Emerson e Guerrero à frente. Pato permanece como alternativa, para a eventualidade até de apelar para mais atacantes.
A escolha permite duas interpretações. A tática, ao sinalizar que não vai se expor diante de uma Ponte que sabe ser agressiva; portanto, reforça o meio. A física, ao preservar Pato, astro tratado com o cuidado que se tem com cristais finos e frágeis.
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A classificação do Santos para as semifinais do Campeonato Paulista foi lógica e sem discussão, mesmo ao vir nos pênaltis (4 a 2), já que o tempo normal terminou com empate de 1 a 1 com o Palmeiras. Com isso, a equipe continua no caminho do inédito tetra estadual. Mas Neymar e companheiros divertem menos do que um tempo atrás.
Acho que me acostumei mal com o Santos do início da Geração 3 dos Meninos da Vila. E não faz tanto assim que isso ocorreu ¬– começou em 2010 e prosseguiu em 2011. No ano passado, embora tenha chegado o tri, o time não empolgou. E era o Centenário.
Continua assim. O Santos joga certo, no limite, na “conta do chá” como se dizia na época da vovó. O futebol que não empolga e não decepciona prevaleceu no clássico deste sábado. O Palmeiras largou bem, teve chance com Leandro e numa defesa de Felipe. Parou ali e deu espaço para a turma de Muricy Ramalho reequilibrar.
O Santos teve mais troca de passes (e não posse de bola) no primeiro tempo, ficou em vantagem com o gol de Cícero, ao desviar para dentro chute de Neymar, e ainda obrigou Bruno a fazer duas defesas complicadas. O Palmeiras emperrou com o bando de volantes (Márcio Araújo, Léo Gago, Wesley, Charles) e sem ninguém para criar.
Gilson Kleina teve uma leve inspiração, no intervalo, e voltou com Kleber no lugar de Léo Gago. Foi o centroavante quem fez o gol de empate ¬– único e melhor momento alviverde na etapa final. O Santos, sem sair muito do ritmo, criou mais duas chances (que morreram nas defesas de Bruno) e não criou muito além disso.
Nos pênaltis, prevaleceram qualidade, tranquilidade e pontaria dos santistas. Além dos reflexos de Rafael, com duas defesas decisivas. O Santos segue, o Palmeiras cai.
Mogi. Empolgante, mesmo, foi o Mogi Mirim, que lascou 6 a 0 no Botafogo. Lembrou o Carrossel Caipira do começo dos anos 1990, que tinha Rivaldo como uma das referências. Vitória sem dar nenhum tipo de contestação para os rivais, que ainda tentaram provocar confusão após o apito final. O Mogi vai incomodar o Santos.
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Uma regra preciosa do Jornalismo e da Psicanálise ensina que é fundamental deixar a pessoa falar, falar, falar. Pois assim, numa entrevista ou numa sessão de terapia, ela expõe o pensamento, abre o coração, desnuda a alma (para ficar em lugares-comuns ainda em uso). Enfim, revela-se. Mais peso têm as palavras se a personagem for pública.
Aí está Jerôme Valcke para comprovar a premissa. O francês ocupa cargo relevante na Fifa – como secretário-geral, está abaixo só do presidente, Joseph Blatter. Portanto, suas atitudes, decisões e declarações contam e repercutem. Por não se tratar de barnabé de quinto escalão, um pronunciamento dele soa oficial.
E não é que Valcke solta outra pérola, desta vez com teor polêmico superior à da famosa frase “O Brasil tem de tomar um pé no traseiro” (no que se referia a obras para 2014)? O dirigente explicou, em simpósio na Suíça, que preparar Mundial em país com várias esferas de governo (federal, estadual e municipal) é mais complicado do que em nações com poder centralizado.
“Vou dizer algo que é maluco”, sublinhou Valcke. “Mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa”, reforçou. “Quando se tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como Putin, em 2018, fica mais fácil para nós.” Outra indireta pra cá?
A manifestação de Valcke espalhou-se num instante, provocou barulho e saia-justa, a ponto de fazê-lo voltar atrás de novo. Em nota publicada ontem, explicou que foi mal interpretado, que jamais abdicou de postura democrática, etc, etc. Quem sabe, assim como no episódio da gafe com o Brasil, a culpa vá para os tradutores traidores?
O estrago está feito, o lapso expôs outro tanto das convicções do alto executivo e permite conjeturar que tema tão delicado tenha sido debatido anteriormente a portas fechadas. Não é elucubração sem sentido imaginar beneplácito da Fifa com regimes autoritários. Ela se escuda em neutralidade política para historicamente ignorar situações de exceção, desde que não interfiram em seus interesses financeiros.
A dona da bola aceitou uma Copa na Itália fascista em 1934, ignorou a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler (os jogadores austríacos tiveram de defender as cores nazistas no Mundial de 1938, na França) e fechou os olhos para as torturas e os desaparecimentos de presos políticos na Argentina do general Rafael Videla em 1978. Fora as inúmeras competições de seleções de base que patrocinou em localidades com liberdade democrática sufocada.
Evidente que se apresenta tarefa amena tratar com políticos que sejam “donos” de uma nação. Isso implica menos gente para dar palpites, menos choques de interesses, como o próprio Valcke admitiu no depoimento agora desmentido. Necessidade menor de prestar esclarecimentos à sociedade. Mas sempre com fair-play no jogo, claro…
A Fifa aprecia reinar soberana onde desembarca com a trupe, com a família. Suas determinações e exigências soam implacáveis e indiscutíveis. Basta ver como pede isenções amplas, como impõe condições, como lucra com voracidade. Ela manda e pronto. Fica à vontade para determinar que o Mané Garrincha, em Brasília, será chamado de Estádio Nacional na Copa das Confederação e no Mundial, embora oficialmente não “vete” o nome popular. Sente-se forte para proibir, se quiser, a venda de acarajé nos arredores da Fonte Nova (ou Arena, sei lá).
Democracia, de fato, é um estorvo.
Casca de banana. A CBF arruma jogos mequetrefes para a seleção que se tornam cascas de banana: provocam falsa ilusão positiva (como em goleadas contra Iraque e China) ou desencadeiam onda pessimista. Como no empate por 2 a 2 com o Chile. A partida de anteontem, em BH, serviu para acordos com patrocinadores, mostrou grupo de jogadores destreinados, que não formaram time, e espetáculo fraco. Com vaias e desgaste para atletas e para a comissão técnica. Perda de tempo e energia.
*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 26/4/2013.)
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Esses jogos mequetrefes que inventam para satisfazer patrocinadores ou para trocas políticas só servam para atrapalhar a seleção brasileira. Junta-se um punhado de bons jogadores de uma hora para outra, organiza-se um treino, a moçada vai pro jogo e o que se espera é ver um time pronto. Como isso muitas vezes não acontece, sobram críticas.
O exemplo mais recente foi o amistoso com o Chile, na noite desta quarta-feira, em Belo Horizonte. Duas as justificativas: evento-teste para a Copa das Confederações e oportunidade final para Felipão escolher a lista de convocados para o torneio de logo mais. Ambas desculpas esfarrapadas. O Mineirão foi reinaugurado com o clássico local, entre Atlético e Cruzeiro, que valeu para perceber os problemas do complexo esportivo, e tenho minhas dúvidas se o treinador pôde avaliar jogadores.
O Brasil topou com um Chile também lado B, mas combativo, enroscou-se em sua falta de entrosamento – o que era mais do que lógico –, desagradou aos torcedores, saiu com empate de 2 a 2 e tomou vaias e “olé!”. O público aproveitou a ocasião também para descarregar sua implicância com Neymar, numa atitude em que todos perdem.
Bem feito. A CBF vende a partida como importante, mídia embarca nessa junto com a plateia, e daí para otimismo falso ou negativo exagerado é apenas um passo. Da mesma forma como era enganação golear Iraque ou China e acharmos que a seleção estava pronta, da mesma forma é injusto descer a lenha diante dos chilenos. E o público se sentiu no direito de protestar, porque achou que era jogo pra valer. Foi iludido.
O Brasil que se apresentou não é aquele da Copa das Confederações – uma pena, pois se perdeu chance de testar o time completo (impossível, por não se tratar de data-Fifa) e se exigiu de um grupo de atletas que atuam aqui esforço adicional desnecessário. A maioria terá compromissos mais sérios, nos estaduais ou na Libertadores.
Está na hora de pararmos com essas enganações, com essa conversa mole de que todo jogo da seleção é fundamental. Muitos são descartáveis e não levam a nada, a não ser a dor de cabeça. São importantes apenas para quem tem os direitos de exibi-la aqui, ali e acolá – e nem sempre para Felipão e atletas. No mais, servem para acirrar o baixo-astral e para cobranças exageradas.
Por isso, pra mim, tanto faz se ganhasse, perdesse. E pouco me diz o empate. O Brasil de verdade surgirá na Copa das Confederações. Para o bem ou para o mal. O resto é armadilha, pegadinha. Embarca quem quer.
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A seleção brasileira faz nesta noite, em Belo Horizonte, mais um desses amistosos de discutível utilidade, pois não conta com jogadores que atuam no exterior. E, se o propósito é afinar o time para a Copa das Confederações, o jogo com o Chile perde sentido. Fica como desculpa – a ser aceita só com generosa dose de boa vontade -, a chance de Felipão observar atletas caseiros para preencher a lista dos que disputarão a competição programada para junho.
Provocou alarido a afirmação do treinador, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que a presença de volantes marcadores e criativos é opção bem aceita por torcedores e crítica, mas de serventia duvidosa para a equipe. Em sua visão, a função primordial desses rapazes é a de dar guarida ao sistema defensivo, são uma espécie de bastião da área. Não é à toa que chega a utilizar até três cães de guarda nas equipes que dirige.
A postura do treinador frustra quem imagina ver o Brasil ligeirinho e solto, com meio-campistas como Ramires e Paulinho, aos quais recorreu na reestreia no cargo, contra a Inglaterra. A derrota reforçou-lhe a convicção de que a segurança vem em primeiro lugar. Algo como: esse negócio de jogar bonito serve pra vender imagem, para os analistas escreverem poesia. Quem tem de fazer gols são os atacantes. Tenho dito e não se discute mais.
Surpresa pra você o que diz agora o técnico? Pra mim, nenhuma. Lembro que, tão logo Felipão divulgou a relação inicial de convocados para ir para Londres, escrevi aqui que era agradável ver jogadores de meio com características mais técnicas. Ainda externei minha torcida para que não se tratasse de lapso da parte dele e que ousasse trilhar esse caminho. Foi lapso mesmo.
Não se pode negar, porém, coerência. Pegue a carreira de Luiz Felipe Scolari e constatará que, na maior parte das vezes, jogou com formação tradicional, com zagueiros, laterais ou alas, volantes marcadores, um (às vezes dois) meia de criação e atacantes. Fórmula simples, sem invenção, que lhe valeu títulos dos mais variados matizes – até o penta mundial, em 2002.
Querer que mude agora é sonho – as pessoas tendem a consolidar convicções ao longo da vida e chega um ponto em que não abrem mão delas. Não têm sequer vontade de testar alternativas diferentes daquelas que já conhecem. E aqui não vai crítica, nem preconceito com idade de quem quer que seja; apenas constatação. Veja em sua profissão.
Por falar em 2002, Felipão lembrou que aquela seleção vitoriosa tinha Gilberto Silva e Kleberson, clássicos volantes de contenção, como se diz hoje em dia, em lugar de cabeça de área. Algumas vezes, contaram ainda com o reforço adicional de Edmilson. Verdade. Lembrou ainda que, em 1994, jogavam Mauro Silva e Dunga no meio de campo na campanha do tetra.
Mas tanto numa como noutra ocasião havia atacantes que arrasavam. Nos Estados Unidos, Romário foi incontrolável e Bebeto, funcional. Na Ásia, o trio Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho arrasou adversários. Ou seja, mesmo com vários atletas com a incumbência de fechar espaços na defesa, a compensação vinha com astros ofensivos, com definidores de qualidade acima da média.
Esse detalhe faz diferença? Em geral sim, mas não é regra. O Brasil já teve craques de encher os olhos e não venceu (1982, com Falcão, Zico e Sócrates, entre outros, e 2006 – Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, de novo, são exemplos). Como não é indesmentível a tese de Felipão de que grupo vencedor tenha de ser necessariamente pegador. Em 1990 (Dunga e Alemão) e 2010 (Felipe Melo e Gilberto Silva), preocupou-se com marcação e não venceu. Em compensação, no tri, em 58, 62 e 70, havia marcadores como um Zito ou um Clodoaldo – e olhe lá. E ambos fizeram gols nas Copas.
O que se espera de Felipão é bom senso na escolha dos nomes, que leve os melhores. No mais, o risco será dele: se vencer, terá sido perseverante. Se perder, um cabeça-dura.
*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 24/4/2013.)
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Parem as máquinas! Preparem os calmantes! Façam estoques de refrigerantes e pipoca! Reserve uma grana extra para ir aos estádios! No próximo final de semana, começará o Campeonato Paulista. Já não era sem tempo. Epa, o calendário corre solto desde janeiro, houve uma infinidade de jogos e só agora vem essa novidade?! Sim, sim, sim.
Acabou a arrastada e quase inútil fase de classificação para apurar-se os quatro times que, junto com Palmeiras, Santos, Corinthians e São Paulo, vão disputar o título pra valer. Ou você tinha alguma dúvida que o quarteto, com 19 oportunidades, iria jogar uma vaga no lixo? Só se algum deles fosse tomado por incontornável incompetência.
A nota destoante será o clássico que Santos e Palmeiras farão na Vila. Imaginava-se que não haveria choque de grandes nas quartas de final, disputada em confronto único. (Mais uma contradição do regulamento.) E, por isso, também haverá um duelo entre times do interior, em Mogi x Botafogo. Completam o quadro São Paulo x Penapolense e Ponte Preta x Corinthians.
Desse bloco, vejo o São Paulo como favorito diante do time de Penápolis. É só o que falta, neste momento, a turma de Ney Franco negar fogo diante de rival mais fraco. Jogo pra liquidar no tempo normal, sem risco de pênaltis. E esperar o vencedor de Ponte x Corinthians. Este deve ser mais equilibrado, pois a Ponte só perdeu uma vez (contra o Palmeiras) e mostrou muita regularidade. Como elenco, o Corinthians é melhor.
Santos x Palmeiras é casca de banana. O Santos não fez uma campanha extraordinária e depende muito da inspiração de Neymar. O Palestra não é grande coisa, mas mostrou que em certas ocasiões pode superar-se e surpreender. Não tenho favorito. Assim como é arriscado cravar o Mogi diante do Botafogo. São concorrentes que se equivalem.
Uma coisa é certa: o Paulistão precisa ser repensado. Caso contrário, continuará a minguar, em qualidade técnica e em público. Mas, para tanto, é preciso que a FPF faça sua parte. Fará?
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No meio da semana, o Santos jogou pela Copa do Brasil, se classificou e Muricy Ramalho deu as explicações de praxe. A entrevista ia na base do papo vem, papo vai, até que o técnico deu a entender que iria aposentar-se no fim do ano, tão logo terminasse o contrato atual. A ideia passou a cutucar-lhe a cachola após o problema de saúde que o fez ficar de molho por alguns dias em hospital aqui de São Paulo. O susto o levou a considerar a hipótese de curtir mais a vida ao lado da família, depois de tanta estrada, e longe do stress provocado pela profissão. Epa, ali estava uma novidade e tanto!
Muricy pareceu bem sincero no depoimento, mas à medida que falava me batia a certeza: ele não vai parar. Pelo menos não tão já. Encerrar carreira é das decisões mais difíceis na vida de todo cidadão que curte a profissão, seja qual for. Ficar em atividade, enquanto houver saúde, disposição e mercado, gratifica, oxigena o cérebro, empolga.
Quando comecei a batucar em antiga Olivetti Lettera, neste mesmo Estadão, nos tenebrosos idos de 1974, com versos de Camões e receitas de bolo a denunciar espaços do jornal roubados pela censura, companheiros experientes advertiam que enveredava por um “vício” pior do que cachaça. Achei folclórica a predição, afinal verdadeira. Na marvada nunca me liguei, por opção e estômago indócil, mas do jornalismo não nunca cogitei abrir mão, ainda mais com internet, blog e outras bossas.
Pendurar a pena é complicado, ao se tomar gosto por escrever. Porém, pelo que presenciei em inúmeras ocasiões nestas quatro décadas, o sujeito afastar-se do banco de reservas e do joguinho de bola só com camisa de força, por absoluta falta de condições físicas ou por ausência cortante de convites. Uma vez dentro da ciranda, não há como sair. Ser treinador de futebol vicia. Não sou eu quem afirma, mas gente do meio.
Cria-se dependência voraz e não tem terapeuta que dê jeito. Reza a lenda que professores de ponta ganham os tubos – e muitos recheiam vários pés de meia. Taí um ótimo motivo para seguir em frente. No entanto, tem preço: constantes mudanças de casa, pois não se escolhe a cidade para treinar; pressão de dirigentes, torcedores e empresários; a necessidade de lidar com ego de atletas; acostumar-se a ouvir “burro e imbecil” como qualificações mais suaves. E as demissões de uma hora para outra, fora os calotes de clubes maus pagadores?
Treinadores desenvolvem formas de compensação, criam escudos invisíveis, na base de discursos prontos – para início de trabalho, momentos de alegria, fases críticas e debandada. Num instante falam em dar um tempo, reciclar-se, sair de circulação. Tão logo recebem proposta, largam o pijama, botam agasalho e vão à luta.
Lembro de Rubens Minelli, então no auge da fama, no fim dos anos 1970, anunciar que ia pra casa assim que comemorasse o cinquentenário em 78. Conversa. Vinte e tantos anos mais tarde continuava a dirigir grupos de atletas e hoje se diverte como comentarista. Jamais largou a bola. Telê Santana, Osvaldo Brandão, e mais recentemente Zagallo, só passaram a ver futebol no sofá, quando o corpo se recusou a mais aventuras.
Zico roda o mundo nas mais diversas andanças; Falcão largou empregão na Globo, depois de 15 anos, e voltou à rotina cigana e instável de treinador; Luxemburgo tomou cachações no Chile, e vê se pensa em parar! Não!
Moral da história. Muricy pesou o que disse e chegou à conclusão de que “ainda é cedo” para parar. Eu sabia! Pois essa cachaça é difícil de largar.
*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 21/4/2013.)
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Vanderlei Luxemburgo não é um frade capuchinho e passa imagem antipática para muita gente. Ou seja, é personagem controvertido no futebol. Mas, mesmo quem não goste dele não deve considerar normal as agressões de que foi alvo, na noite de quinta-feira, após o empate com o Huachipato que deu a vaga ao Grêmio na Libertadores.
Violência sempre, sempre, é desagradável, não deve ser aceita como meio de resolver diferenças. E se torna mais grosseira e covarde quando se vê jovens atletas atacando um sexagenário como o treinador brasileiro. Dar socos e pontapés é cena grotesca, é manifestação antissocial, antidesportiva. Quem vibrou com aquilo deveria colocar-se no lugar de Luxemburgo ou de algum parente. E verá como provoca indignação.
Não sei o que Luxemburgo disse, assim que terminou o jogo. Ele garante que apenas cumprimentou o árbitro. E, mesmo se tivesse feito alguma ironia, não se justificava o destempero do massagista do Huachipato, um senhor com cabelos brancos e claramente mais velho do que o técnico brasileiro. Muito menos a reação truculenta do treinador clube chileno, que ajudou a tornar mais quente o ambiente.
O mais lamentável de tudo é ver que um jogo normal, sem lances polêmicos, sem violência entre os jogadores, tenha terminado como espetáculo de gladiadores. Isso servia para a Roma Antiga, não para os tempos de hoje, numa competição que se pretende ser das mais importantes do esporte. Aquilo nem na várzea acontece.
Só que Libertadores e outras competições internacionais na América do Sul continuam a ser confundidas com rixas entre países, se assemelham a guerras e besteiras do gênero. Isso acontece pela cultura de impunidade incentivada por décadas de omissão dessa entidade frágil e omissa que é a Confederação Sul-Americana de Futebol.
Os cartolas da região são compadres, mais interessados em perpetuar-se no cargo do que em promover o esporte. Brincam de espelhar-se nos colegas europeus, mas na prática agem como coronéis que parecem divertir-se de ver os servos a brigarem entre si.
E, sem ser preconceituoso, repare nos times que ultimamente têm se envolvido em batalhas: são Arsenal, Tigre, Huachipato e outros menos votados. Ou sejam, agremiações sem tradição, que levam para a Libertadores ou para a Sul-Americana a ideia de que vale tudo para ganhar. E nesse vale tudo todos perdem.
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