Um tempo atrás, a Fifa andou preocupada pra burro com a possibilidade de enfrentar barreiras para garantir lucro no Mundial de 2014. Sobretudo no que dizia respeito à liberação de bebidas alcoolicas nos estádios e à meia-entrada. Esses entraves, originados por leis brasileiras, provocaram reclamações da entidade que manda no mundo da bola e não faltaram recados um tanto apimentados dados pelo secretário geral Jerome Valcke.
A Fifa pelo jeito agora pode aquietar o facho. O relator da Lei Geral da Copa, o deputado Vicente Cândido, do PT de São Paulo, já se mostrou favorável à liberação de cerveja e à limitação da meia-entrada. Só falta a aprovação da comissão especialmente formada para analisar o conjunto de regras especiais para o Mundial. O deputado foi mais longe, ao sugerir que as bebidas sejam vendidas sempre e não só na Copa. Quer dizer, o que fazia mal ontem, agora se mostra inócuo.
Na época em que surgiu a polêmica, a Fifa vendeu a ideia de que a Copa no Brasil estava ameaçada, se não houvesse relaxamento em pontos críticos e com os quais não concordava. Soprou o balão de ensaio e houve quem tenha embarcado nele, por interesse ou por ingenuidade. Agora, todos podem dormir tranquilos. O governo ainda vai ensaiar contrapartidas, mas no fim das contas se contentará em ter feito barulho.
Escrevi neste blog, e em minha coluna no Estado, que não havia risco nenhum. A Copa só sairia do Brasil se a Fifa de fato fosse importunada, se não fossem construídos os estádios (vários deles candidatíssimos a se transformarem em elefantes brancos) e se estourasse uma guerra civil. Como vivemos aparentemente em paz, como nossa economia não vai mal das pernas e como as arenas sobem livres e soltas, você acha que a Fifa vai querer arranjar sarna pra se coçar?
Vá lá que Joseph Blatter e Ricardo Teixeira andam estremecidos (pra mim, isso vai só até a página 5). Porém, ambos são empresários e não rasgam notas de 100 euros à toa. Podem até não trocar juras de amor, mas não são tolos. Para eles funciona o lema: Inimizades, inimizades, negócios à parte.
E, nunca é demais lembrar: prepare o bolso para pagar a conta da Copa. E veja se não reclama que se investe muito dinheiro nisso e pouco em obras sociais, como hospitais, por exemplo. Como disse aquele sábio: “Uma Copa não se faz com hospitais, mas com estádios.”
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Durante a semana, aqui em São Paulo, o torcedor do Corinthians mostrou otimismo moderado. Claro que havia confiança no título – os números indicavam um monte de combinações que levavam para o sucesso. Mas o danado do futebol, imprevisível como é, adora mandar estatísticas para escanteio. Sem contar que o desafio derradeiro era o Palmeiras. E só quem é corintiano ou palmeirense sabe o que significa o dérbi.
Não deu outra. O temor alvinegro se revelou real desde o primeiro minuto do jogo no Pacaembu e só foi espantado quando veio o apito final no Engenhão, uns dois minutos antes da assoprada de Wilson Seneme. Corinthians e Palmeiras fizeram um duelo equilibrado, tenso, catimbado, amarrado, como acontece em decisões. O 0 a 0 foi, por um bom tempo, um nó na garganta e também ajudou a liberar com mais intensidade o grito de campeão!
O Corinthians optou por estratégia cautelosa, conservadora. Tite preferiu reforçar a marcação e não escondeu isso ao colocar Wallace, para compensar a ausência de Ralf. Felipão sabia que o rival jogaria pelo empate ou para explorar o contragolpe. Por isso, mandou seu time à frente – com as limitações que tem, mas à frente. Além disso, o meio-campo alviverde ganhou quase todas na etapa inicial. E isso fez com que apresentasse um índice altíssimo de posse de bola.
O controle do jogo, no entanto, não levou a muitos momentos de perigo. Júlio César foi incomodado algumas vezes. Deola só assistiu ao jogo. Nas arquibancadas, a apreensão cresceu com o gol de Diego Souza aos 29 minutos do confronto entre Vasco e Flamengo. Pairava no ar o medo de que o Palmeiras aprontasse. Seria uma tragédia.
A história mudou no segundo tempo, com o Corinthians a abandonar a postura defensiva e a encarar o Palmeiras com a autoridade de líder. O nervosismo aumentou e desembocou no primeiro bafafá, com a expulsão de Valdivia depois de entrada em Jorge Henrique. O chileno foi estabanado e o baixinho, malandro que só, valorizou. Jorge Henrique ainda provocaria a expulsão de João Vítor. Todo mundo sabe que ele é tinhoso, manhoso. Mas está na dele. Tonto de quem cai nas suas armadilhas.
O Palmeiras, mesmo com um a menos, não se deixou dominar e o Corinthians teve dificuldade extrema para dar chutes a gol. Deola não fez uma defesa sequer. Para Tite e sua rapaziada, importava mais segurar o empate, garantia de título, independentemente do que viesse a acontecer no Engenhão. Estratégia reforçada com o gol de empate do Flamengo. E deu certo.
O Corinthians não foi o mais brilhante dos campeões brasileiros. E isso pouco importa. Não seriam, da mesma forma, Vasco, Flamengo, Botafogo ou São Paulo. Há quem diga que o torneio não teve alto índice técnico. Não teve mesmo, o que não invalida a emoção que proporcionou. Muito menos a alegria dos pentacampeões.
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A profissão me ensinou a guardar distância de entrevistados. Em nome do senso crítico, aprendi desde cedo que jogador não pode ser visto como amigo, muito menos como ídolo. Esse é sentimento de torcedor. Há exceções – Sócrates foi uma delas. O Doutor, ou o Magrão, como todos da minha geração o chamavam, fugiu à regra, quebrou padrões.
Dentro de campo foi tão craque como outros abençoados com o dom de domar a bola. Fora, mostrou-se incomum, diferente. Suas atitudes e ideias não seguiram parâmetros habituais para os boleiros. E, por métodos tradicionais, também não poderia ser avaliado. Sócrates foi único. Injusto tratá-lo como os demais.
Sócrates destoava a partir do visual e do tipo físico. Era muito magro, mas aguentava caneladas com coragem. Era alto e, para não perder o equilíbrio, desenvolveu a técnica de dar passes de calcanhar. Era barbudo, numa época em que raros jogadores por aqui ousavam ir além de bigodes. Não escondia convicções políticas, num período em que a mão de ferro tratava de calar vozes dissidentes. Bebia – e o fazia às claras.
Sócrates era boêmio, gostava de conversa de mesa de bar, onde concedeu entrevistas antológicas. Seu universo de interesses passava por política, filosofia, arte, amor e… futebol, que conhecia como poucos. O jeito despojado fascinava jovens repórteres dos idos dos anos 1970. Também éramos barbudos, também queríamos liberdade, também imaginávamos mudar o jornalismo. Por isso, o víamos como um de nós. Era nosso ídolo, embora fosse pecado admiti-lo em público.
Acompanhei a carreira dele, do surgimento em Ribeirão Preto, passando pelo auge na Democracia Corintiana e na seleção, ao declínio no fim dos anos 1980. Emocionei-me com o gol que marcou contra a Itália, tive vontade de dar-lhe um abraço após o fatídico 5 de julho de 1982. Me contive, para ser isento. Naquele dia, lágrimas teimosas me escaparam por causa de uma derrota esportiva. Agora, brotam porque se foi um grande do futebol, um Brasileiro especial.
Caramba, me dou conta que éramos coetâneos! Entro na fase em que se colecionam saudades: John Lennon, George Harrison, Sócrates…
O futebol domina a semana. Os dias que antecedem a rodada de encerramento do Campeonato Brasileiro têm sido divertidos. Havia muito não se viam discussões, conversa fiada, brincadeiras, gozações, provocações entre torcidas. E, salvo os miolos moles de sempre, em astral bacana. Um clima como se deve, enquanto se aguarda o domingo em que a maior parte dos dez jogos comportará uma decisão – do título ao rebaixamento, de vaga para a Libertadores a lugarzinho na próxima Sul-Americana. Ou, no mínimo, o gosto de derrotar um rival e proporcionar Natal feliz para a torcida.
Nossa vida não se resolve com o resultado de um joguinho de bola. Não sei se feliz ou infelizmente, há outras preocupações para ocupar nossa mente. O placar influencia o destino da turma do ramo – jogadores, técnicos, auxiliares, agentes, investidores, cartolas e torcedores profissionais. Para o sujeito comum, frequentador de arquibancadas, atleta de botequim ou ferino observador de poltrona, o próximo fim de semana trará alegria ou frustração. Nada além. Sentimentos que perdurarão na segunda-feira, como manda o figurino, e que cairão no esquecimento com o trânsito ou com o temporal da terça.
Nem por isso devem ser menosprezados. O futebol fascina por não ter importância alguma e ao mesmo tempo por ser fundamental, imprescindível. Algo que nos faz sentir vivos, por sensações boas ou ruins. Imagine como seria a vida sem seu time de coração: de uma hora para outra, ele desaparece, vira fumaça, se torna apenas memória. Não gosto nem de pensar numa coisa dessas! Xô maus pensamentos! Vade retro!
A sedução do futebol me faz também respeitar a ansiedade de quem está a aguardar o desfecho da competição. O que passa na cabeça de um corintiano, por exemplo? Será moleza bater o Palmeiras? Será que a turma de Scolari vai aprontar e tirar o doce da boca justo agora? Como aguentar zoeira, se o Corinthians perder? E se ganhar? Nossa, nem quero ver a humilhação deles. Mesmas questões se fazem vascaínos. E os cruzeirenses? Temem o rebaixamento por obra do Atlético-MG? E no Paraná: será que o Atlético-PR cai por causa do Coxa?
Repare como é disso que se fala nas capitais. Não, meu amigo, não vamos entrar no papo-cabeça de alienação, ópio do povo, pão e circo, etc e tal. Discurso engajado, bem anos 1970, mas que vai até a página 5. Nos meus tempos de uspiano (dos quais me orgulho e sinto saudades), vi muito líder estudantil protestar contra a ditadura (no que faziam muito bem), pedir diretas-já, criticar a burguesia e… juntar-se ao proletariado na comemoração de uma taça. Havia os que de fato odiavam o futebol; não os recrimino e perdoo espíritos menores…
O amor pelo futebol me leva a relevar considerações técnicas a respeito desta temporada. Poderia de novo reforçar a ladainha de que o nível é baixo, não há um supertime, as estrelas rareiam, poucos jogos são antológicos, não podemos nos comparar ao Barça e por aí vai. Argumentação repetida ad nauseam por alguns de parco repertório, que não se encantam com nada ou, pior, que têm vergonha de emocionar-se e se defendem com atitude desdenhosa. Vibram sob as cobertas com as proezas de sua equipe.
Ok, há chão a percorrer para elevar o padrão da Série A. Mas não é verdade que não faltaram adrenalina, imprevisibilidade, tensão? Enfim, vibração? A Fiel festejará menos o título, se o Antero, o Zé, o Mané e outros luminares da crônica torcerem o nariz para o campeonato? O torcedor do Vasco vai achar um porre sair por aí, se o time dele ganhar do Fla, se o Corinthians perder e o caneco vier? E vice-versa: o palmeirense vai chorar, se estragar a festa alvinegra?
Estamos carentes de leveza, de olhar delicado, de descontração. Nos deixamos contaminar por ceticismo e desânimo. Com isso, ficamos longe do prazer infantil que a bola proporciona, fenômeno vivo nesta semana. Aqui do meu lado tenho exemplos bem acabados do encantamento do futebol. Os irmãos Venâncio e Antônio, com décadas de Estado e milhares de quilômetros percorridos na redação, desfilam com orgulho com uma linda camisa retrô do Corinthians. Toda vez que passam perto do Nilson Pasquinelli, o diagramador que tem sangue verde, respira, come e sonha Palestra, são obrigados a ouvir o gracejo. “Festejem agora, que domingo vamos acabar com a farra.”
Espirituoso… O resto é chatice.
*(Minha coluna publicada no Estado na edição de 2/2/2011.)
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Rivaldo foi um dos maiores jogadores que vi em ação. E, como não sou nenhum jovenzinho, posso dizer que foram muitos os craques que tive a honra de acompanhar ao vivo. Portanto, o parâmetro que tenho é vasto – começou com Pelé, Coutinho, Pagão, Ademir, Rivellino e outros prodígios da bola que esta terra produziu. (Caramba, daqui a pouco serei um ancião…)
Rivaldo jogou demais no Mogi, no Palmeiras, no La Coruña, no Barcelona, na seleção brasileira. Discreto no Corinthians e no Milan; foi ganhar mais uns trocos na Grécia e no Usbequistão. Nesse meio tempo, se tornou um dos pilares da campanha do vice-mundial em 1998 e extraordinário na trajetória do penta em 2002. Nas duas ocasiões, votei nele como o melhor da Copa. Não levou o prêmio.
Agora, Rivaldo se despede do São Paulo. De maneira um tanto melancólica. Chegou no começo do ano com a esperança de brilhar, de ser ponto de referência no elenco. Logo de cara fez um golaço, deu passes precisos, encantou com sua técnica fora do comum. Um fenômeno, sobretudo se se levassem em conta os 39 anos (completados em abril) nas costas.
O peso da idade, porém, prevaleceu. Rivaldo não teve fôlego e perdeu sequência, sob o comando de Paulo César Carpegiani. Chiou tanto que provocou uma ligeira crise, na eliminação na Copa do Brasil. Reanimou-se com Adilson Batista e voltou a ficar em seu canto com a chegada de Emerson Leão. Não passou, enfim, de opção para determinados momentos.
Em resumo, Rivaldo não foi no São Paulo o astro de outras ocasiões. Nem poderia ser diferente. Mesmo para gênios, o tempo chega e é mais duro do que qualquer zagueiro botinudo. Hora de limpar o armário no Morumbi e tocar a vida. Ele diz que pretende jogar pelo menos até o final de 2012, quando estiver perto dos 41 anos.
Quem sou eu para dizer quando um jogador tem de parar? É decisão íntima, pessoal – e depende também do mercado. Só digo uma coisa, sempre: um craque não tem o direito de tornar-se sombra de si mesmo. Precisa ter a grandeza de parar por cima, como lhe é de direito.
Tomara seja assim com Rivaldo, um gigante.
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No auge da trajetória como jogador, Ronaldo foi protagonista de lances brilhantes, gols antológicos e momentos de dor intensa, compartilhados com apreensão pelos fãs do futebol no mundo todo. O apelido de Fenômeno lhe caiu muito bem, pelos fatos extraordinários que viveu, pela história que construiu, pelo mito que ergueu. Imagens dos tempos de Barcelona, Internazionale, Real Madrid, seleção ficarão sempre na memória. Mas são parte do passado, pertencem a outra era. Cenas de juventude.
Em menos de um ano de aposentadoria, Ronaldo acelerou de forma espantosa a transição de atleta para homem de negócios. Lançou-se com tenacidade à atividade de gerenciamento de carreiras – de praticante de UFC a boleiros de ponta – e na busca de patrocínios. Move-se no meio de celebridades com a desenvoltura com que desfilava em campo. Um Pelé dos tempos modernos. Sai o Fenômeno, entra o senhor Ronaldo Nazário.
Assim como o Rei, ele não conseguiu driblar o ambiente em que se desenvolveu. Por isso, está a um passo de entrar de vez no mundo da cartolagem. Apesar de inicialmente ter tentado disfarçar, aceitou o convite para integrar o Comitê Organizador Local da Copa de 2014. A convocação foi feita pelo dono do poder e o astro não se negou ao chamado. Algo semelhante com o que, na semana passada, ocorreu com Andrés Sanchez, também intimado a fazer parte da alta cúpula nacional e assumir a direção de seleções da CBF. O dirigente corintiano alegou que não poderia fugir à proposta de um amigo nem voltar às costas para a nação etc e tal… Postura messiânica.
As duas novidades não são coincidência, tudo está interligado e tem a ver com o desgaste do patrão. A imagem do dono da bola atingiu nível preocupante de rejeição. Provavelmente, se se fizer uma pesquisa, o nome dele aparecerá dentre os que têm maior reprovação popular, como o de certos políticos manjados. A relação com o governo aparentemente continua ruim, assim como se mostra estremecida aquela com Joseph Blatter, o mandachuva do futebol internacional. Os parceiros de ontem estão unidos hoje pelo sucesso da empreitada comercial que é o Mundial no Brasil. Só.
O recolhimento do personagem central foi a estratégia vislumbrada para este momento. Melhor ficar à sombra e trabalhar nos bastidores como convém. Deixe que outros com mais aceitação se mostrem para consumo externo. Onde encontrá-los? Dentre os amigos. A primeira tacada veio com Sanchez, cartola controvertido, mas representante de clube importante e que conta com admiradores na imprensa. Além disso, pessoa confiável e agradecida para quem foi decisivo no projeto da casa própria a se erguer com a generosidade oficial.
O segundo lance ousado vem com a nomeação de Ronaldo. A gente imagina que mitos tenham vida independente e pairem acima dos mortais. Engano. Embora seja muito mais influente do que cartolas, o ex-jogador precisa gravitar em torno de seus antigos senhores. É assim com Ronaldo e com outros que pertencem ao sistema. Astros sabem que, se não se aliarem aos mestres, serão alijados, e cedem. E o poder seduz. Nem sempre se trata de dinheiro – caso do Ronaldo -, mas do fascínio dos holofotes.
Não discutirei a probidade de Ronaldo – seria injusto e inútil. No entanto, me permito reflexões em torno do convite. Por que só agora há a guinada no comando do COL? Por que ex-atletas de renome daqui antes foram ignorados? Se pode alegar que Ronaldo vai exercer função idêntica à de Platini e Beckenbauer. Os gringos não apenas emprestaram brilho para o sucesso dos Mundiais de 1998 e 2006, como foram atuantes, enérgicos, decisivos. Administradores de fato, líderes. Com objetivos distintos: o francês se tornou cartolão-mor da Europa e está de olho na Fifa. O alemão continua discreto, na dele.
Terá Ronaldo autonomia? Ou será um belo nome de fachada? Vai usar prestígio para servir de aparo para o dono do poder ou terá voz ativa? Conseguirá conciliar interesses de empresário com o de executivo? O carisma que exerce sobre o público encobrirá eventuais erros? A atração que exerce na mídia tiete será mais forte do que o senso crítico? O tempo dirá.
Sempre achei que gerações novas são mais refinadas que as anteriores. Já tenho minhas dúvidas. Por isso, abstraio o senhor Ronaldo e me consolo em rever os gols do Fenômeno no YouTube. Mais lúdico e saudável.
*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 30/11/11.)
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A semana está engraçada – descontada a tragédia de Ronaldo, o outrora Fenômeno, agora ser o mais novo integrante da comunidade CBF, COL, Fifa. (Este assunto eu trato na minha coluna de quarta-feira no “Estadão” e na sequência eu a colocarei no blog.) O curioso, no momento, são as teorias da conspiração em torno da rodada decisiva do Brasileiro. E, por incrível que pareça, a penúltima rodada ainda não terminou…
Começo o papo pelos jogos disputados anteontem. Admito que achei estranho o clássico Flu x Vasco começar um pouco mais tarde do que os demais jogos. Escrevi isso aqui e na minha crônica do jornal. Foi proposital, embora ninguém admita, manobra antiga no futebol, tão antiga quanto xingar juiz de ladrão e chamar técnico de burro.
Não admito, porém, as insinuações que têm sido feitas a respeito de Diego Cavalieri, no segundo e decisivo gol do Vasco. Muita gente sugere que o goleiro do Flu entregou a bola nos pés do Bernardo, para que ele marcasse, já nos descontos, e assim impedir o título antecipado do Corinthians. Basta ver a jogada com isenção, sem fanatismo, e se percebe que a cabeçada foi em cima de Cavalieri, que fez a defesa (difícil) no reflexo, sem chance de espalmar para outra direção.
Acho desrespeito jogar a reputação do rapaz por um lance desses. Erro, se houve, foi no primeiro gol, em que ele ficou a meio caminho entre sair para o corte e ficar para defender a conclusão de Alecsandro. O segundo gol, não. Bobagem maior ainda é afirmar que ele fez isso por “ser palmeirense”. Visão distorcida, ultrapassada, tacanha. E Fernando Prass, que errou saídas de gol também? Ele queria entregar para o Flu?
Chata foi a postura de Abel Braga. O técnico do Flu disse que vai torcer pelo Vasco ser campeão. É direito dele ter simpatia por quem quiser. Triste é ele ter essa postura não por convicção clubística, mas por reação bairrista e por considerar paulistas “soberbos”. Para um profissional experiente, não pega bem esse tipo de comportamento.
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Felipão admitiu que a demora para decidir o futuro de Kleber atrasou a reação do Palmeiras no Brasileiro. O treinador aliou a insatisfação do atacante a muitos dos males que atingiram o time durante a competição. Acha que, se tivesse liberado o rapaz na época em que o Flamengo pretendia contratá-lo, vários dissabores teriam sido evitados.
Concordo em parte com Felipão. A atitude de Kleber no episódio da transferência frustrada para o Rio já era passível de dispensa. Ou, no mínimo, de uma bronca bem dada. Ele ficou ouriçado com a perspectiva de ir embora e se irritou com a postura evasiva dos dirigentes. Criticou os patrões na cara-dura, em termos inaceitáveis em qualquer empresa, e tudo passou em branco. Nenhuma reprimenda.
Depois veio o incidente de João Vítor com alguns torcedores e Kleber liderou movimento de boicote ao jogo, por coincidência, com o Flamengo. Felipão não concordou com sua proposta de cancelar a viagem para o Rio, ambos bateram boca e novamente a cartolagem teve desenvoltura paquidérmica para entrar em ação. Depois de incertezas, finalmente se colocou ao lado do técnico e decidiu afastar Kleber.
A saída dele, de acordo com o que diz Felipão, arejou o ambiente, tornou o grupo menos tenso. Percebia-se que Kleber dividia opiniões. Mais do que isso, por falar o que quisesse, sem que nada lhe acontecesse, escancarava falta de comando da cúpula alviverde. Sem contar que, dentro de campo, sua participação era pífia. Que o Palmeiras aprenda a lição e não perca o controle, como aconteceu com o tal Gladiador.
Mas Kleber não concentrava os problemas do Palmeiras. A equipe é frágil, caiu muito no returno, sentiu a falta de qualidade e a pressão da responsabilidade. Não é à toa que Felipão diz que precisa de quatro ou cinco jogadores de peso para fazer bonito em 2012. Ou seja: não se pode induzir o torcedor a imaginar que Kleber era o grande mal. Isso só servirá para desviar a atenção de temas mais importantes.
Quem diria, o destino do Brasileiro de 2011 está nas mãos de Palmeiras e Flamengo? Os dois não caíram fora da briga pelo título e agora têm a missão de azucrinar a vida de seus maiores rivais. Os clássicos contra Corinthians e Vasco, no domingo que vem, serão mais importantes do que se supôs quando se elaborou a tabela. Na época, foram marcados esses jogos para evitar entregadas. No fim, se tornarão as decisões.
Adrenalina não vai faltar – e tem sido uma das características do torneio deste ano. Além das escorregadas, das falhas, das reações dos que ficaram, pelo menos até as quatro últimas rodadas, na corrida pela taça. Sobraram Corinthians e Vasco – por méritos, é evidente – e por incompetência dos demais. E agora, como sofrimento adicional para os dois primeiros colocados, vêm os clássicos domésticos.
Clássicos que, até determinado momento, iriam transformar-se em amistosos. O Corinthianstinha cumprido o papel dele, com a vitória sobre o Figueirense, enquanto Fluminense e Vasco empatavam e iam juntos para o buraco. Tudo mudou com o gol de Bernardo nos acréscimos do combate no Engenhão, que não à toa começou atrasado. A vitória adiou festa corintiana, que estava pronta para acontecer no Orlando Scarpelli.
Nem tanto pelos jogos deste domingo, mas pelo que fizeram ao longo da competição, Corinthians e Vasco mereceram chegar à disputa do título. Os dois tiveram começo de ano ruim, reagiram, cresceram e se mantêm vivos até o capítulo de encerramento. Superação, no caso de ambos, não é lugar-comum, mas constatação. Ok, não haverá um supercampeão. Mas e daí? Este será lembrado como o mais equilibrado dos Brasileiros.
Equilíbrio que se fez presente nos jogos de hoje. O Corinthians teve dificuldade contra o Figueirense, a ponto de ter criado no máximo duas boas chances de gol – numa delas, na metade do segundo tempo, Liedson de cabeça fez 1 a0 e garantiu outra vitória magra, porém fundamental. Percebe-se que o elenco alvinegro está cansado.
Desgastado também anda o Vasco. Mas lutador, brigador, movido pela ilusão de que ainda pode dar duas voltas olímpicas – na Série A e na Sul-Americana. Foi assim que se comportou diante do Flu, num duelo mais animado do que o de Florianópolis, em que houve bolas na trave para ambos os lados, erro de arbitragem (o impedimento inexistente de Diego Souza logo no primeiro minuto) e gols emocionantes.
E depois tem gente que fala que o campeonato sem mata-mata não tem graça. Ora….
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Estava aqui a pensar, neste início de madrugada de domingo quente e chuvosa de São Paulo, se ao final do dia o Brasil conhecerá o campeão de 2011. A única chance de isso acontecer ¬– e não é nada impossível – vem da combinação de duas situações: o Corinthians vence e o Vasco, não. O líder tem 67 pontos, o vice está com 65 e o Flu, em terceiro, tem 62.
Mas sinceramente sinto que a definição ficará para a rodada de encerramento, quando o Corinthians pega o Palmeiras, o Flu joga com o Botafogo e o Vasco encara o Fla. Os dois cariocas que estão na briga chegarão à semana de encerramento em condições de sonhar com o título, se o Flu ganhar do Vasco (ambos ficariam com 65 pontos) e se o Corinthians perder do Figueirense (manteria os 67). Qualquer outra combinação tira ou Vasco ou Flu da parada.
Evidente que não se pode cravar nada com certeza. Qualquer que fizer isso, estará a fazer exercício de adivinhação. Há uma infinidade de argumentos em favor do Corinthians e contra. Assim como há análises, retrospectos, estatísticas, dados, conceitos para dizer que o Figueirense roubará pontos do primeiro colocado ou que não será páreo. Igual raciocínio se aplica para Vasco e para Fluminense. Impossível ter certeza. Bobagem cravar prognóstico seco.
O que o Corinthians tem a seu favor são as duas chances de decidir – sem depender dos resultados de Vasco e de Flu. Isso pesa num momento importante, pelo menos do ponto de vista psicológico. Há pressão sobre os rapazes de Tite, bem como esperança. Os resultados das últimas semanas, exceto a derrota para o América-MG, apontam o caminho do título como consequência natural do que tem sido feito. A vitória contra o Atlético-MG foi um marco.
Em todo caso, por não ser um supertime, por não se tratar de um Barcelona, os rivais confiam em tropeço do Corinthians justo agora. O Figueirense mostrou, no segundo turno sobretudo, que tem tudo para ser o fiel da balança nesta hora. Além disso, sonha com Libertadores e na semana passada tomou um tombo ao perder do Flu. Está mordido – eis o perigo.
O clássico carioca promete ser sensacional. Ambos vem com sua formação melhor, há rivalidade antiga em campo e eu cravaria triplo na loteca. O Vasco teve ascensão formidável durante a competição e deu sinais de cansaço mais recentemente. O Flu avançou com menos ímpeto, derrapou em alguns momentos, e aparentemente chega mais inteiro. Teoria apenas.
Está com jeito de que tudo será mandado para domingo que vem. O que você acha?
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