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Conversa fiada*

Antero Greco

03 setembro 2014 | 18:21

Até pouco tempo atrás, me incomodava ouvir a referência depreciativa de que a seleção é o “time da CBF”, que faz dela o que bem entender. Apesar de todas as mancadas da entidade que deveria cuidar do futebol daqui, ainda considerava a equipe uma instituição nacional, patrimônio cultural brasileiro e não objeto do dirigente da vez. Agora, admito que a crítica faz sentido – e por culpa da CBF, dos parceiros e dos acordos que assina.

A conversa de que o objetivo, com o retorno de Dunga como messias salvador, é o de reconquistar carinho e a confiança do povo soa mais falsa do que político em campanha pegando criancinha no colo ou tomando cafezinho no balcão do boteco. O discurso da cartolagem chuta a realidade com o bico. Peço para você acompanhar o raciocínio nesta crônica.

A ferida pelos 7 a 1 pra Alemanha, na semifinal da Copa, continua aberta, ao menos para o torcedor, e provavelmente só para ele. Os envolvidos diretamente no maior vexame da história do escrete canarinho tocam a vida sem problema, alguns com emprego novo, outros com outras oportunidades para dar a volta por cima. Vá lá, ninguém deve ser açoitado por aquilo. Os dirigentes… bom, esses não se abalam por nada.

Houve a troca de comando na Comissão Técnica, a promessa de mudança radical e o aceno com futuro sorridente. A turma da amarelinha se reúne para iniciar caminhada para o Mundial de 2018 e disputará os primeiros amistosos da reconstrução … nos Estados Unidos. Na sexta-feira enfrenta a Colômbia em Miami, na terça joga com o Equador em Nova Jersey. Em outubro, mede forças com a Argentina em Pequim e, em novembro, encerra a temporada com o Japão, em Cingapura.

Ao fã caberá assistir às partidas pela televisão – a não ser os que tenham recursos e tempo para viajar. Talvez em Miami o apoio de brasileiros seja expressivo, de tantos que vivem lá e dos muitos que vão passear ou comprar enxoval para bebê, como é moda.

Ironia e contradição, fuga e engodo. O país investiu bilhões na construção de 12 moderníssimos estádios para receber a Copa e serem palcos dignos da seleção. E, no entanto, continua privado de vê-la de perto. Se a CBF estivesse empenhada, de fato, em atrair o consumidor local, teria marcado jogos aqui – se não os quatro, quem sabe a metade?

Os jogos pós-Mundial deveriam ser realizados em casa, independentemente do resultado da competição. Imagine se o Brasil tivesse conquistado o hexa. A primeira apresentação ocorreria no Exterior, o que seria um tapa na cara do torcedor, equivaleria a voltar-lhe as costas. Como perdeu, mais ainda se justificaria treinar e atuar no próprio quintal, como prova de coragem e disposição para encarar vaias e aplausos.

Claro que a desculpa para o distanciamento está na ponta da língua: é contrato com os árabes acertados pelo ex-presidente e precisa ser honrado. Perguntas: houve tentativa de rever o compromisso, alguém procurou explicar aos donos da equipe que o momento exigia contato com o espectador brasileiro? A CBF não se importa com detalhes insignificantes; o que vale são os milhões de dólares que recebe por empurrar a seleção pra cá e pra lá e encher as burras.

O descaso oficial grita nos ouvidos da gente também pela indiferença ao calendário. Dunga e rapazes treinam nos EUA e, por aqui, clubes se veem desfalcados em jogos pela Copa do Brasil, pela Sul-Americana, pelo Campeonato Brasileiro. Só sendo muito tonto para cair na conversa de que a CBF deseja mesmo recuperar espaço perdido no coração do zé-povinho. Enquanto isso, a Alemanha anteontem recebeu 40 mil torcedores num simples treino em Dusseldorf, onde hoje joga com a Argentina. É, pelo visto, não sabem nada…

Quedas. O Santos surpreendeu duplamente: com a saída de Osvaldo de Oliveira loco cedo e a contratação de Enderson Moreira à tarde. Troca rápida. O Palmeiras dispensou Ricardo Gareca e continua sem rumo, sem time, com futuro sombrio.

*(Minha crônica publicada na edição do Estado de hoje, quarta-feira, dia 3/9/2014.)