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Aquela noite no Pacaembu…*

Antero Greco

26 agosto 2014 | 00:53

A primeira vez em que o garoto entrou num estádio de futebol foi em dezembro de 1963. Dia 11, quarta-feira à noite. O Pacaembu a botar gente pelo ladrão se vestiu de verde e branco para o jogo que poderia dar ao Palmeiras o título paulista daquele ano. Bastava a vitória contra o Noroeste, na penúltima rodada, para não ser mais alcançado pelo São Paulo, adversário da semana seguinte. O campeonato, então, se decidia na base de pontos perdidos – quem tivesse menos ficava com a taça. Simples.

O italiano Giovanni – o João da Quitanda, ou Juà, pro pessoal do Bom Retiro –, sócio 5408 do Palestra Itália (em 1955, matrícula 347 da S. E. Palmeiras), queria a todo custo que o filho brasileirinho visse ao vivo a grandeza do time para o qual torcia desde que em 1926 viera de Casalbuono pra “fazer a América”. Era apaixonado pelo clube que ajudava a matar saudade do vilarejo natal e lhe dava o prazer de gritar “campeão!”.

Para a aventura, Juà arrastou o irmão mais novo, Tommaso, e o inseparável amigo da família, o tio Giuseppe, mais os filhos dele, o Paulo e o Fúlvio. A turma se aboletou no caminhão Chevrolet 49 do tio Giuseppe – a garotada na carroceria, na maior farra – e se mandou. Lá encontrou parentes, conhecidos, vizinhos e amigos. A italianada toda.

Os refletores potentes, as bandeiras enormes, o monte de gente, a neblina provocada pela fumaça dos rojões na entrada dos times arrepiavam. Tudo novidade e encanto para os meninos de 9, 10 e 11 anos – o garoto, o menorzinho.

Fascínio pra valer foi o que aconteceu durante o jogo. O primeiro tempo equilibrado, 0 a 0. No segundo, Servílio, Julinho e Servílio de novo fizeram 3 a 0. Título, abraços e choro nas arquibancadas. A torcida a agitar lenços brancos e a cantar: “Ai, ai, ai, ai. Tá chegando a hora. O dia já vem raiando meu bem. Eu tenho de ir embora”.

O trânsito, o buzinaço na saída. Em casa, cadê sono? Madrugada alta e nada de pregar o olho. Já era tempo de férias, aprovação para o quarto ano primário garantida no Externato Santo Eduardo. Ufa.

O Palmeiras montava a primeira versão da Academia, que tinha como pilares Picasso e Valdir de Moraes; o gigante Djalma Santos, os valentes Djalma Dias, Valdemar Carabina, Ferrari, Arenari, as formiguinhas Zequinha, Dudu; o impossível Julinho Botelho; Servílio o bailarino; Vavá o peito de aço; mais Rinaldo e Gildo.

E, claro, Ademir da Guia, o 10, o Divino, o regente, a estrela-guia da companhia. Era o Palmeiras que botava medo no Santos todo-poderoso de Gilmar, Mauro, Zito, Pepe, Coutinho, Mengálvio. E do Rei Pelé.

Depois, vieram as Academias das décadas de 70 e de 90 (com a Parmalat). Antes delas, houvera esquadrões de encher os fãs de orgulho, numa tradição ganhadora desde os anos 20, com as proezas iniciais no Paulista.

Em 100 anos, a società fundada em 1914 por audaciosos imigrantes cresceu, virou cosmopolita. Só não perdeu algumas características únicas: estão na origem o espírito agitado, o sangue quente, as brigas internas, as reconciliações, os conchavos. O Palmeiras jamais será mar sereno; agitado sempre, no bem e no mal.

Dedico esta lembrança aos milhares que fizeram a história do Palmeiras, da anônima lavadeira ao mais portentoso cartola; do primeiro massagista aos craques (e pernas de pau) que vestiram verde e branco.

E fica a homenagem à memória de Juà, tio Giuseppe, Paulo e milhões de palmeiristas que, hoje em outra dimensão, seguem essa paixão eterna.

Forza, Palestra! Salve, Palmeiras!

PS. Juà, o filho captou a grandeza.

*(Minha crônica em homenagem ao centenário do Palmeiras publicada no Estado de hoje, terça-feira, 26/8/2014.)