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Nova virada heroica*

Antero Greco

22 agosto 2014 | 10:16

O palmeirense anda fulo com a situação – e não é pra menos. O time só se estrepa e amarga a lanterna do Brasileiro na semana que precede o centenário. Pra complicar, o técnico Ricardo Gareca pode pegar o boné a qualquer momento, não há craques no elenco e cresce oposição a Paulo Nobre, sujeito honesto mas que paga alto preço por cutucar feudos no clube sem a contrapartida de bons resultados no futebol. Corre risco de virar presa fácil para predadores internos.

Em resumo, a maré não está mansa e qualquer gozação serve para entornar o caldo do mau humor, até de quem joga esporadicamente. O Valdivia despejou ontem um caminhão de palavrões pra cima de apresentador da Globo por se considerar ofendido com brincadeiras a respeito dele. Em uma tuitada, o chileno reuniu sete palavrões – nomes feios e cabeludos, como se dizia antigamente – e perdeu a linha.

A indignação de Valdivia dividiu torcedores, só para manter o padrão em tudo que lhe diz respeito. Houve os que o apoiaram, talvez até por acharem que “a imprensa é contra” o Palmeiras. Assim como não faltaram os que não aguentam mais a infindável série de contusões que o deixam fora de momentos decisivos da equipe. E foram incontáveis nos últimos anos. Estes sugerem que o rapaz canalize a cólera para tratar-se e voltar logo. A gana que os fãs desejam ver é em campo, e dispensam a braveza virtual.

Períodos de turbulência são prato cheio para oportunistas e ignorantes, ainda mais num esporte que mexe com paixão, interesses e grana. Só assim para entender ataques que os desocupados de sempre fizeram na porta do condomínio onde mora Nobre; a linguagem dessa turma se concentra na violência, a mesma que anteontem provocou a morte de outro militante.

No clube, ganha impulso a candidatura que aglutina o que há de mais conservador. Pois é, alguém imagina que chegou o fundo do poço. Mas, no Palestra, sempre há como cavar outro e piorar. Nobre, porém, abriu a brecha ao perder Barcos e Kardec por economia e ao contratar quase três dúzias de jogadores sem formar um time. Bons propósitos soterrados na prática.

O panorama sinaliza com tempo péssimo, e terceira imersão na Segundona não deve ser vista como tragédia impossível. Ao contrário, risco que aumenta. A queda, todavia, não é iminente; há tempo suficiente para reação, para subir e encerrar a temporada de maneira menos vexatória. Restam 22 rodadas na Série A, fora a Copa do Brasil.

Por isso, a melhor maneira de palestrinos mostrarem esperança se traduz em apoio, como têm feito os rubro-negros (40 mil pagantes no clássico com o Atlético-MG, no Maracanã). A oportunidade surge amanhã à noite, no jogo com o Coritiba, no Pacaembu. Duelo direto com concorrente na parte de baixo da classificação. Pra lotar o estádio.

A história nesta hora serve como referência. Em 20 de setembro de 1942, o Palestra virava Palmeiras e pisava no mesmo Pacaembu com a missão de vencer – no caso o São Paulo – e reiniciar nova fase. Ganhou por 3 a 1, no episódio conhecido como Arrancada Heroica. Por que não repeti-lo?

No mais, gozação faz parte da vida e do futebol, ainda bem. Tristes são fome, guerra, violência, drogas, corrupção, epidemias. O palmeirense precisa aguentar o tranco agora e saber que o mundo dá voltas. E como!

Por falar nisso… Ganso tem jogado bem. Bacana vê-lo atuar com eficiência e sobretudo com constância. Além da capacidade extraordinária para os passes precisos e os dribles minimalistas, agora se atreve também a fazer gols, como na vitória sobre o Inter, em Porto Alegre.

Quem curte o prazer do joguinho de bola deve aplaudir a sequência do meia são-paulino. Não vou pedir aqui convocação para a seleção, é irrelevante. Importa que Ganso consiga sustentar a regularidade e espante as interrogações em torno da capacidade física, por causa dos joelhos. Que nos brinde com belas jogadas, o máximo de tempo possível.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 22/8/2014.)