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Com um pé atrás*

Antero Greco

17 agosto 2014 | 12:20

Bom Senso e clubes chegaram a acordo, no meio da semana, a respeito de alguns pontos interessantes para melhorar a relação entre atletas e cartolagem. O principal deles foi a criação de comitê que vai fiscalizar se as agremiações cumprirão à risca o compromisso de manter as contas em dia, sobretudo no que se refere a pagamentos de salários e de tributos oficiais. Detalhe fundamental para convencer o governo da seriedade do pedido de refinanciamento da dívida com órgãos da União. A soma gira em torno de R$ 4 bilhões. Muito dinheiro sonegado aos cofres públicos.

O anúncio do entendimento foi feito por representantes dos jogadores e dos times de futebol e funcionou como sinal de que ambas as partes buscam consenso. A tarefa da fiscalização ficará com a CBF, responsável também por bancar o grupo de trabalho que controlará a pontualidade do acerto. Ao custo de R$ 3,5 milhões anuais.

Ponto para o Bom Senso? Motivo para comemoração? Sinal de novos tempos? Indício de maturidade dos dirigentes? Talvez sim. O monte de interrogações leva a atitude cautela, antes de cravar guinada na maneira como as entidades esportivas serão administradas. Digamos que a reação mais adequada seja a de otimismo moderado, bem moderado, quase ceticismo.

Por quê? Explico. Em primeiro lugar, desconfio de propósitos de cartolas. Até outro dia, muitos esnobavam o Bom Senso, CBF incluída na conversa. Não davam a mínima trela para o grupo de rapazes que chegou a sentar no chão, antes do início de jogos, para demonstrar insatisfação com os empregadores – de salários atrasados a calendário perverso, que ora provoca desgaste físico, ora levava a longa inatividade e a desemprego em massa.

Como justificar a rápida mudança, a afabilidade aparente no trato com os boleiros, o sorriso após o encontro da quinta-feira? Não foi por causa das duas reuniões do Bom Senso com a presidente Dilma e assessores. Quer dizer, o governo sinalizou para qual lado pendia a simpatia dele. Mas não creio que tenha sido suficiente para botar medo em raposas espertas e vividas.

Pesou mais a campanha em favor do parcelamento em prestações suaves, de 25 anos, para o pagamento do que deveriam ter depositado e não o fizeram. Rezam para a aprovação da lei, como saída para a inadimplência. Os clubes apostam na boa vontade de Câmara, Senado e Presidência da República para ver atendida a solicitação. Não convém, portanto, apelar para arrogância e desdém numa hora dessas. Por isso, os jogadores querem conversa? Claro, vamos lá, sejam bem-vindos, estamos no mesmo barco. Querem a palavra de honra de que ninguém aplicará chapéu, neles ou no governo? Ei-la.

Há tamanho desprendimento do lado de lá que até se aceita perda de pontos, eventual rebaixamento em caso de novo acúmulo de calotes. Assim, num passe de mágica, instalar-se-ia a temperança nos gastos das equipes. Tudo transparente, na ponta do lápis, com pontualidade suíça.

Acreditarei na eficiência do armistício só na prática. Além disso, me fez lembrar das comadres do Bom Retiro, meu bairro querido. Quando viam os filhos se achegarem nelas cheios de dengos, certamente por estarem a fim de alguma coisa, diziam: “O diabo quando te bajula, está a fim da sua alma”. Cruz-credo!

Choque-rei abalado. São Paulo e Palmeiras jogam hoje sob a desconfiança das torcidas. A turma tricolor pisou feio na bola, na desclassificação na Copa do Brasil por obra e graça do Bragantino. Na Série A tem derrapado, mesmo com a vitória na rodada anterior. No Morumbi, há quem torça o nariz para Muricy Ramalho e pupilos.

A saga palestrina segue roteiro inverso: vaga na Copa do Brasil, porém zona do rebaixamento a vista. O técnico Ricardo Gareca não sabe o que é vencer na elite nacional e já se fala em fritura em banho-maria. Em campo, promessa interessante: Kaká e Valdivia. Valdivia?! Sim, no enésimo retorno…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 17/8/2014.)