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Ideias de jerico*

Antero Greco

06 julho 2014 | 10:49

A seleção está a dois passos de outro título. No entanto, o fim de semana ainda é de comoção. A alegria pela vaga na semifinal quase se transformou em luto nacional. Desde sexta-feira, a pátria do futebol está apreensiva, emocionada, revoltada, indignada por causa do episódio que tirou Neymar da Copa. A joelhada nas costas do rapaz atingiu 200 milhões de pessoas que, de improviso, se uniram para exigir o justiçamento do colombiano Juan Zuñiga.

O zagueiro virou o inimigo público número 1 do brasileiro, sem direito a defesa nem apelação. O veredicto foi ditado na hora, segundos depois do choque com Neymar, já bem perto do encerramento do jogo mais truncado e cheio de faltas de toda a competição. Faltas duras, de ambos os lados, é bom ressaltar.

A histeria espalhou-se, ampliou-se, contaminou com a velocidade das imagens, do som, da força das redes sociais e do oportunismo de certo setor da mídia. A entrada estabanada, destrambelhada, estouvada foi vista, revista, reprisada por todos os ângulos, em câmera lenta, com música pungente ao fundo, narração lúgubre, apresentador com olhos marejados e cheios de indignação. O rival virou inimigo.

Zuñiga, até anteontem conhecido apenas por aqueles que acompanham o futebol internacional, se transformou na encarnação do capeta, um serial killer, novo Jack, o Estripador, um assassino sanguinário, delinquente desalmado. Isso para ficar nas qualificações mais amenas. Fora as injúrias racistas de praxe. Pediu-se até prisão, sem contar as sugestões de esquartejamento, eletrocução, enforcamento. Os mais piedosos se contentavam com espancamento. Por pouco, não se declarou guerra à Colômbia.

Pessoal, isso tudo é absurdo. O futebol empolga, mexe com emoção, faz vir à tona o que temos de melhor – e de pior. Para espíritos mais fracos, provoca confusão a respeito do que significam esporte, cidadania, nação, justiça, bom senso, generosidade. Perdão.

Compreensível que, num primeiro momento, sobressaia a revolta. A Copa chegava a um estágio decisivo e Neymar, mesmo com desempenho instável, era a grande esperança do Brasil. Agora está fora, o que, para muitos, é prenúncio de tragédia inevitável.

Portanto, era preciso buscar vilão – e Zuñiga veio a calhar. O moço foi duro, desmedido na dividida. Houve pitada de maldade. Mas, como afirmar que entrou para quebrar, embora esse tenha sido o resultado final do entrevero? Lances de risco se repetem à exaustão num jogo. Tanto que, na hora, não houve reclamações e a partida seguiu. Todos tomaram como disputa mais quente, e só. Houvesse ocorrido com James Rodríguez e diríamos que era do jogo, pois “futebol é contato”.

Neymar logo vai se recuperar, voltará aos dribles e aos gols. A seleção poderá provar, apesar da forma traumática, que é forte, mesmo sem seu principal jogador.

Deixemos ideias de jerico de lado. As semifinais serão vibrantes, com Brasil x Alemanha e Argentina x Holanda.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 6/7/2014.)