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Não tem mais bobo*

Antero Greco

02 julho 2014 | 09:50

Escrever que a Copa está empolgante, se mostra a melhor em décadas, tem emoção a sair pelo ladrão, é chover no molhado. Os jogos falam por si. Com exceção de meia dúzia, se tanto, os demais 50 prenderam a atenção e o fôlego de torcedores, do pontapé inicial ao apito final, independentemente dos times envolvidos.

Um aspecto que se destacou, desde a rodada inaugural, foi o nível das disputas. Mesmo com alguns placares exuberantes – os 5 a 1 da Holanda na Espanha ou os 4 a 0 da Alemanha sobre Portugal –, o equilíbrio dá o tom. Não por acaso, times tradicionais, repletos de estrelas e currículo invejável, voltaram mais cedo para casa ou suaram sangue para seguir adiante.

O primeiro bloco agrupou Espanha, Itália, Inglaterra, Portugal, que vieram a passeio e não deixaram saudade. Os campeões do mundo de 2010 ficam com o troféu de maior decepção. Sem concorrência.

O segundo grupo – dos que continuam, mas com desgaste alto – alinha Brasil, Alemanha, Argentina, Holanda, França, Bélgica. Permanecem na rota do título, mas a caminhada deles não tem sido fácil. Basta conferir o esforço, sobretudo nas oitavas de final, para comprovar.

O segredo para tanta paridade está na evolução. O Mundial não tem nivelamento por baixo. Ao contrário, a qualidade dos espetáculos ficou acima da média, porque muitas seleções periféricas cresceram, se prepararam bem, encorparam.Não possuem astros; compensam com conjunto, esquemas táticos, estratégias bem definidas. Nota-se nelas a influência dos técnicos, que agem como orientadores, formadores. Daí afirmar que não há mais bobo no futebol supera o lugar-comum ou o simples deboche, para virar constatação.

O intercâmbio de experiência conta. Jogadores que circulam entre centros desenvolvidos levam para casa ensinamentos e ajudam os demais companheiros. Por isso, fazem barulho times como Costa Rica (o belo “patinho feio” da competição), Bélgica, Colômbia – por enquanto, na briga. Também por causa do refinamento de atletas e, muito, de treinadores, não foi inútil a participação de México, Chile, Argélia, EUA, Nigéria, Suíça.

Verdade que, na hora do afunilamento, se veem apenas os costa-riquenhos como intrusos, franco-atiradores, agora a desafiar a Holanda. No mais, com senões, deu a lógica com os duelos Brasil x Colômbia, Argentina x Bélgica e França x Alemanha. Note que, pra variar, está na parada o trio de gigantes – brasileiros, argentinos e alemães, apesar de não empolgarem.

Espero que se consolide a tendência de futebol rápido, agressivo, inteligente, em que prevaleçam riqueza de variações táticas, jogadores versáteis, técnicos de mente aberta e atentos a mudanças, com uma pitada de iconoclastia. Não é preciso abandonar certezas clássicas, mas abrir-se para indagações, dúvidas, pois elas levam à sabedoria.

Na Granja. Os reservas da seleção enfrentaram ontem time júnior do Flu. Titulares que jogaram no sábado fizeram exercícios físicos.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, dia 2/7/2014.)